Doctor Who and the Krikkitmen – Douglas Adams & James Goss (06/2021)

krikkit_menJá comentei em alguma das outras resenhas dos livros do Douglas Adams sobre a forma como ele escrevia suas estórias, desenvolvendo primeiramente uma ideia central, definindo em seguida em qual das series (Guia do Mochileiro, Dirk Gently ou Doctor Who) esta estória seria utilizada para somente então encaixar os respectivos personagens.

Krikkitmen talvez seja a única exceção a este método, sendo pensada desde o começo como uma estória da série Doctor Who. Existem algumas “controvérsias” a respeito de como a estória surgiu: alguns dizem que foi uma encomenda para um filme que a BBC produziria, outros que foi uma iniciativa do próprio Adams para a série televisiva. Assim como existem questões a respeito do porquê ela ficou 40 anos “perdida”: o filme teria sido cancelado. Ou então Adams teria se atrapalhado com prazos (como sempre!) para o Guia e acabou “esquecendo” dela no meio da sua bagunça.

Como explica James Goss (co-autor póstumo) no primeiro apêndice do livro, o texto começou a ser escrito em 1976 (às 11:00 da manhã de uma terça-feira, dia 12 de Julho, conforme anotação do próprio autor), porém só foi encontrado por Goss em uma visita aos arquivos de Adams, que ficam guardados na biblioteca do St. John’s College, em Cambridge.

Goss estava trabalhando em uma roteirização de outro texto e queria dar uma olhada na papelada de Adams quando encontrou Krikkitmen escrito no verso de folhas utilizadas para outro propósito (Adams era um grande entusiasta de reciclagem). Goss não precisa a data em que encontrou o manuscrito, mas baseado no lançamento deste outro título (The Pirate Planet, de 2017), deve ter ocorrido por volta do final de 2016.

O fato deste texto em específico ter sido escrito para Doctor Who não impediu que Adams usasse algumas das ideias em “A Vida, o Universo e Tudo Mais”. Já disse que Adams era um entusiasta da reciclagem, não? Isto sempre valeu também para as suas obras. Então claro que existem bastante referências ao restante de sua obra. Obviamente algumas coisas foram inseridas por Goss, que utilizou o mesmo método de Adams de inserir e reciclar ideias e personagens neste novo texto.

Muito interessante, como sempre, notar o visionarismo de Adams. Em Krikkitmen existe um computador dotado de inteligência artificial hospedado em uma nuvem! O cara já imaginava “cloud computing” na década de 70. Para não falar dos robôs sencientes e dos dilemas éticos envolvidos ao lidar com eles.

Mas o querido leitor poderia dizer que estas partes foram contribuições de Goss. Obviamente Goss deu uma atualizada, mas as idéias centrais estão no texto/rascunho original, transcrito sem alterações no segundo apêndice do livro.

Impossível não se tornar repetitivo ao falar de Adams: GE-NI-AL!!!!!

Be happy 🙂

The Sea-Wolf – Jack London (05/2021)

the_sea_wolfDurante a leitura do Ghost Rider, do Neil Peart, eu peguei a dica de alguns autores que ele mencionava nas suas cartas a Brutus. Um destes autores foi Jack London e, numa das últimas compras, resolvi comprar o que talvez seja a obra mais famosa do autor: The Sea-Wolf.

O livro inicia-se com o desfortúnio de Humphrey van Weyden, um intelectual que vive às custas de uma herança, nunca tendo trabalhado na vida. Durante uma viagem pela baia de San Francisco, o barco onde Humphrey viajava naufraga. Ele é resgatado pela escuna Ghost, que estava a caminho da sessão de caça de focas no Pacífico Norte.

O capitão do Ghost é Wolf Larsen, o personagem principal e que dá título ao livro, um brutal tirano daquele pequeno mundo que é a escuna, onde também se encontram outros marinheiros, um cozinheiro e os caçadores. Porém Larsen não é um animal provido de muitos músculos e pouco cérebro. Autodidata, ele é de certa forma um intelectual, inclusive justificando sua brutalidade e violência a partir de uma filosofia bem peculiar.

Humphrey vira inicialmente um escravo no Ghost, mas por ser a única pessoa no navio com capacidade intelectual e conhecimento para debater com Larsen, começa a galgar postos na hierarquia local. Além do mais, Humphrey, agora submetido a trabalhos braçais, começa a desenvolver outra visão de mundo.

O equilíbrio aparentemente atingido é chacoalhado com o resgate de outros náufragos pelo Ghost. Neste resgate Maud Brewster, escritora famosa, torna-se a única mulher no barco, atraindo tanto a paixão de Humphrey como de Larsen.

Não vou me estender mais pra não dar spoiler. Mas a história é bem interessante. Porém, como tem muitos termos náuticos e também de época (o livro foi publicado pela primeira vez em 1904), a leitura em inglês foi um pouco cansativa. Além disto, a edição que eu comprei tinha as letras muito miúdas.

Foi interessante mas o autor não me cativou. De qualquer forma, vou dar uma chance para White Fang, outro livro citado por Peart, em um futuro não tão próximo.

Be happy 🙂

Wanderlust #65 – Charlotte and Raleigh, North Carolina (15/51)

(29/08/2019-02/09/2019)

Wow! Já faz um tempão desde o último Wanderlust.

Como já disse antes, nesta saga de tentar conhecer todos os 50 estados norte-americanos (mais DC e alguns territórios) e já tendo conhecido os principais que podíamos conhecer de carro, cada novo feriado ou férias significa um tempo considerável tentando conciliar um estado novo com clima agradável e passagens a preços acessíveis.

Desta vez estávamos entre as Carolinas (Norte e Sul) e até pensamos em já fazer as duas de uma vez, mas depois de pesquisarmos um pouco resolvemos, felizmente, nos concentrar na do Norte. Apesar de não ser um estado muito grande e nem tão turístico, ele nos reservou algumas boas surpresas.

Dia 1 – Charlotte

Nesta de procurar passagens, encontramos as mais em conta pra Charlotte, que pelo que havíamos pesquisado, não tinha lá muitas atrações. Então planejamos ficar apenas os dias em que iriamos voar e nem nos preocupamos muito com localização de hotel. Pegamos um Super 8, uma rede de motéis bem simples. Só lembrando que motel nos EUA é apenas um hotel com estacionamento para carros, geralmente na beira de estrada e cujo proposito maior é apenas pernoitar durante viagens longas (motel = motor + hotel).

E como chegamos já de noite, apenas nos registramos e fomos comer algo (e tomarmos umas cervejas de leve).  Já havíamos mapeado a The Brass Tap, que é uma rede de franquias de bar de cervejas artesanais que tinha uma quantidade razoável de taps (acabei de descobrir que a unidade de Charlotte não existe mais, infelizmente não deve ter resistido à pandemia)

Dia 2 – Charlotte-Raleigh

Antes de pegar a estrada no outro dia em direção a Raleigh (lê-se “Róulei”), demos uma passada em Charlotte Downtown para aproveitarmos a passagem pela cidade. Além dos prédios comerciais a região conta com algumas praças e um museu. Ainda conta com bastante arte espalhada pelas ruas: esculturas, grafites, etc. Encontramos até um Urso Berlinense (United Berlin Bear).

Após a rápida visita no centro de Charlotte, dirigimos quase três horas até Raleigh. Lá ficamos hospedados num Holiday Inn bem no centro da cidade. O prédio é interessante, redondo, lembrando o Edifício Dacon, em São Paulo, onde trabalhei entre 2004 e 2006.

Depois do check-in feito, fomos dar uma volta no centro da cidade e logo em seguida, já no meio da tarde, passamos na ótima Crank Arm Brewing Company , cuja temática é bicicleta. “crank arm” é o termo em inglês para pé-de-vela – que acabei de descobrir agora que na verdade se escreve “pedivela” – que são aqueles “braços” onde são encaixados os pedais da bicicleta e que se conectam à coroa. Além de ótimas cervejas e da pipoca “digrátis” (“você disse pipoca?”) uma outra atração da cervejaria é a agradável área externa.

De lá caminhamos até Glenwood South, o bairro boêmio da cidade, que conta com diversos restaurantes, bares e baladas. Uma parada obrigatória na cidade é o Raleigh Beer Garden um bar e restaurante que conta com 366 taps! Se colocar como meta experimentar uma por dia, precisaria de um ano bissexto para provar todas. Claro que as cervejas estão sempre mudando, mas seria um desafio interessante.

Já no final da noite, fomos comer no La Santa Modern Mexican Food.

Dia 3 – Raleigh

No sábado, como tínhamos o dia todo em Raleigh, fomos conhecer a cidade “de verdade”, primeiro passando pelo capitólio do estado, que ficava próximo ao hotel. De lá fomos procurar algum lugar para tomar café da manhã e acabamos parando no charmoso Sir Walter Coffee.

Após o café fomos dar uma olhada na Moore Square, que é bastante frequentada por pais levando suas crianças. Próximo a praça fica o City Market, um conjunto de uns 3 quarteirões com lojas, cafés, livrarias. Vale uma passada se tiver tempo.

E aí voltando para a região do hotel nos deparamos com uma das melhores surpresas: estava rolando o African American Cultural Festival na Fayetteville street, uma das principais vias da cidade. Tinha bastante barracas de artesanato, música, barracas com temática de países da África e do Caribe. Muito legal! E já que estávamos na região do centro e existia uma outra cervejaria por ali, demos uma passada na Trophy Brewing Tap and Table para tomarmos uma (literalmente), só pra refrescar.

Na sequência fomos visitar o bem montado North Carolina Museum of Natural Sciences, cuja entrada é gratuita. É uma mini (bem mini) versão do Museu de História Natural do de New York. Outra atração bem interessante, especialmente para crianças e quem curte ciência.

De lá voltamos na Crank Arm para experimentarmos algumas das cervejas que não tínhamos experimentado no dia anterior e para aproveitarmos o sol pra umas cervejas ao ar livre. Demos uma andada no Warehouse District, um bairro industrial (como o nome diz) que está sendo revitalizado com lojas, espaços de co-working, etc. E de lá fomos conhecer a Clouds Brewing que nos pareceu bem fraquinha pra ser sincero.

Nas duas vezes que fomos na Crank Arm e andando pelo Warehouse District, sempre sentíamos um cheiro de barbecue (do churrasco mesmo e também do molho). Se tratava do The Pit Authentic Barbecue , e foi uma ótima opção para degustar um legitimo churrasco texano.  Bem na esquina em frente ao hotel, havia uma loja de cervejas (State Beer). Então claro que paramos lá pra saideira de Raleigh, já que no outro dia iriamos voltar para Charlotte.

Dia 4 – Raleigh-Charlotte

No dia anterior, quando fomos tomar café no Sir Walter, o pedido demorou quase uma hora para chegar. Por conta disto, mesmo sem termos reclamado, nos ofereceram um voucher. Então fomos “obrigados” a voltar no domingo, antes da viagem de volta pra Charlotte.

Retornando a Charlotte, antes de nos dirigirmos ao hotel para fazer o check-in (já que o nosso voo de volta só seria na segunda feira de manhã), demos uma passada no Freedom Park, que pelo que havíamos pesquisado era a atração turística mais famosa da cidade. Demos uma passeada pelo belo parque debaixo de um baita sol e na sequência fomos almoçar e dar mais um passeio em Downtown para enrolar até o horário do check-in.

Como não havíamos achado muitas atrações em Charlotte, havíamos decidido fazer uma via sacra em algumas cervejarias locais. E aí acabamos descobrindo que realmente existe uma “brewery trail” na cidade.

Primeiro passamos na Lenny Boy Brewing Co, que tem grande área externa, mas que já estava lotada (como a cervejaria inteira) quando chegamos. Além das ótimas cervejas, eles também produzem kombucha (e inclusive oferecem drinks com a bebida). Aos domingos geralmente rolam promoções (e talvez por isto estivesse tão lotada).

Continuando então nossa peregrinação, fomos até a Sycamore Brewing que também tem uma área externa enorme (maior até do que a Lenny Boy). A cervejaria é legal, mas infelizmente as cervejas eram servidas em copos de plástico barato, daqueles que influenciam o gosto. Entendo que com uma área externa daquele tamanho, copos de vidros são inviáveis, mas podiam ao menos utilizar aqueles copos de plástico mais rígido e transparente, próprios para cerveja. Ou então usar um sistema de Pfand igual na Alemanha, que reduziria o problema do custo do furto (mas não o de ter que lavar centenas, provavelmente milhares de copos, num dia cheio).

E ao fundo da Sycamore encontramos a pérola da cidade: existe uma linha de bonde (trolley/tram) e ao lado desta linha uma pista de caminhada e corrida. Resolvemos caminhar por ali até a próxima parada. As margens desta pista/linha têm alguns bares, sorveterias, restaurantes. Estava também bastante movimentada, com casais, grupos de jovens, pessoas passeando com seus cães, todos aproveitando o ótimo domingo.

Para finalizar o tour, passamos na Wooden Robot Brewery, que também tem ótimas cervejas. Depois de um sample na Wooden Robot, restou só voltar a The Brass Tap (que ficava ao lado) para jantar e tomar a saideira.

16 de Janeiro de 2021

Devido as restrições de viagem por conta da pandemia decidimos passar o final de 2020/começo de 2021 na Flórida. Fomos de carro de New Jersey, num trajeto de mais de dois mil quilômetros. Para não dirigirmos 24 horas direto (mesmo revezando seria muito cansativo), paramos para pernoitar no meio do caminho (tanto na ida como na volta). Na volta, escolhemos Raleigh, pois já conhecíamos a cidade.

A ideia era chegar, fazer o check-in, ir tomar umas na Crank Arm e depois ir jantar em algum lugar. Assim que fizemos o check-in e fomos caminhar até a cervejaria, notamos muito movimento praquele horário (especialmente no inverno). Já sentados e com uma cerveja, começamos a procurar algum lugar para jantar e não encontrávamos nenhum que ficava aberto até tarde. Fui dar uma googlada e descobri que, devido à pandemia, a cidade estava com toque de recolher as 22:00hrs (com a última bebida servida até as 21:30, no máximo). Claro! Como não imaginamos isto?!?! Acho que ficamos tão habituados com a “normalidade” da Flórida que quase esquecemos que estávamos no meio de uma pandemia.

O movimento anormal era apenas a galera curtindo balada antes do toque de recolher!

Tivemos que fechar a conta rapidamente na Crank Arm e saímos correndo atrás de um lugar pra comer. A primeira tentativa foi falha, pois a Tobacco Road Sports Cafe & Brewery já não estava mais aceitando clientes. Atravessamos a rua e fomos na Clouds, sem saber que era a mesma cervejaria que havíamos conhecido anteriormente (e que não havíamos gostado muito). A hostess nos ofereceu um lugar no balcão e, após pedirmos a primeira rodada, bateu aquele: “eita! Acho que a gente já veio aqui”.

Coincidentemente o lugar no balcão era exatamente o mesmo onde havíamos nos sentado 1 ano e meio antes. Mas desta vez achei até legal, tanto pelo atendimento, quanto pela ótima porção de nachos com bratwurst (um dos vários estilos de salsicha alemã, que neste caso é preparada assada), uma mistura que ficou bem interessante.

Observações, dicas e considerações:

  • Notei muitos fãs do Liverpool nas duas cidades. Havia muita gente passeando com camisa e muitos estabelecimentos tinham bandeiras e flamulas. Não consegui descobrir a razão.
  • Em Raleigh a bicicleta e muito usada como meio de locomoção e talvez isto explique o porquê de existir uma cervejaria com a temática na cidade.

Be happy 🙂

A Promised Land – Barack Obama (04/2021)

a_promised_landO livro é o primeiro de dois volumes (o segundo ainda a ser lançado) com a autobiografia do ex-presidente dos EUA, Barack Obama. É o primeiro e é um “tijolo”, com quase 800 páginas. O próprio Obama explica que a ideia inicial era fazer apenas um livro com cerca de 500 páginas, mas como ele é muito prolixo, não conseguiu condensar todas as histórias e ideias em “tão poucas” páginas.

Barack Obama é provavelmente o último líder não populista a gerar uma mobilização grande, a despeito do bipartidarismo norte-americano (a Merkel é provavelmente a última líder não populista ainda na ativa). Digo provavelmente porque as mudanças que as redes sociais geraram, especialmente entre 2010 e 2013, alteraram toda a dinâmica da política, no mundo todo, e dificilmente um líder não populista consiga alcançar um poder de mobilização como o Obama alcançou na sua campanha à presidência em 2008.

O livro inicia com a biografia pessoal, contando a história da família de Obama a partir dos avós, passando pela infância e dando ênfase na experiência de vivenciar outras sociedades e culturas por conta do envolvimento da sua mãe em projetos sociais, que os levou a viverem em países de economia em desenvolvimento, especialmente da África e do sudeste da Ásia. Esta experiência e o próprio exemplo da mãe foram fatores que, segundo ele, moldaram seu interesse pela política e por determinadas causas (como o combate à pobreza, a questão racial, a ecológica e o tema de saúde pública).

Obama também faz um apanhado dos seus anos no colegial e na faculdade, incluindo sua “apatia” política durante alguns anos da sua vida (justamente entre o colegial e faculdade) e o seu “despertar”. Este despertar foi o que o levou a entrar para a escola de direito, fato que viria a gerar duas grandes mudanças na sua vida. A primeira é que ele conheceria sua futura esposa, Michelle, durante um dos estágios enquanto cursava direito (ela era a supervisora dele durante o estágio). E o segundo é que, após formado, ele se dedicou a dar aulas e a trabalhar com movimentos sociais, o que viria a direcioná-lo para a vida política.

A partir daí ele conta como ele entrou para a política e, numa sucessão de “golpes de sorte”, chegou ao Senado do estado de Illinois (a maioria dos estados dos EUA tem duas câmaras) e depois ao Senado dos EUA, representando também o estado de Illinois. Obama dá um apanhado de como foram suas campanhas para cada um dos postos e sua carreira em cada um deles, incluindo as dificuldades de ser um novato na política e que, ainda por cima, sempre gerou muita expectativa.

Lá pela página 200 do livro ele começa a contar como se desenhou a candidatura dele à vaga de candidato pelo partido Democrata. Não escrevi errado não: as eleições dos EUA começam com candidatos dentro de cada um dos partidos disputando as longuíssimas prévias, que duram quase um ano e meio, entre o início da busca por doadores até a convenção nacional dos partidos, que referendam os processos dos diretórios estaduais que nominam o candidato do partido. É a eleição pra eleição, em que concorrem os candidatos a candidatos.

Antes de ler o livro eu achava este processo totalmente desnecessário e até nocivo, já que candidatos e diferentes linhas político-ideológicas dentro de cada um dos partidos disputam ferrenhamente (e muitas vezes com golpes muito baixos) o direito de ser o representante do partido. Dentro do sistema norte-americano, que tende a dividir praticamente todo o eleitorado em dois blocos, existem pelo menos 3 linhas distintas em cada um dos partidos (por exemplo, você tem Republicanos progressistas e Democratas conservadores, sério!). Mas depois de todo o detalhamento que o Obama faz no livro, em quase 100 páginas, eu já comecei a mudar minha opinião. É neste processo que o candidato precisa se conectar com o eleitorado, batendo de porta em porta, visitando cidades pequenas, conversando com o eleitor em ginásios de escola, é onde a população pode se manifestar e o candidato “moldar” seu projeto.

O restante do livro cobre os quatro anos do primeiro mandato, especialmente como ele precisou lidar com duas “heranças” do governo anterior: a crise econômica de 2008 e os EUA combatendo em duas diferentes frentes de batalha (Iraque e Afeganistão).

Como um bom professor (e prolixo!), Obama explica todo o contexto antes de entrar no assunto. Por exemplo, explicando todo o processo de formação da ONU para falar sobre como funciona o conselho de segurança. Ou dissecando todo o contexto histórico que levou à queda do muro de Berlin para explicar a política Russa e ascensão de Putin ao poder.

Assim como a ótima série dinamarquesa Borgen (disponível na Netflix), o livro mostra como a política em um democracia liberal é complicada, como ela anda a passos muito lentos e que, por diversas vezes as pessoas precisam abdicar de várias convicções para chegar ao melhor resultado possível para o contexto. E é exatamente assim que deve ser numa democracia.

Durante todo o livro Obama frisa que os EUA são um experimento social ainda em andamento, já que ele precisa ser corrigido a todo momento para acompanhar as mudanças do mundo. Um dos maiores desafios deste experimento atualmente é justamente a velocidade destas mudanças e na disseminação de informação, o que tem gerado um terreno fértil para populistas amealharem poder com promessas e soluções fáceis no discurso, mas difíceis de serem alcançadas numa democracia (quando não nocivas). O desafio é justamente tentar encontrar uma forma de tornar a democracia mais ágil, sem abrir espaços para “prototiranos” e “neoditadores” alcançarem o poder e para que a maioria não subjugue as minorias.

Ansioso pelo segundo livro, que deve dar mais ênfase ainda nestes desafios.

Be happy 🙂

The Deeper Meaning of Liff – Douglas Adams & John Lloyd (03/2021)

 

deeper_meaning_if_liffCom o subtítulo de A Dictionary of Things There Aren’t Any Words for Yet – But There Ought to Be (“Um dicionário de coisas para as quais ainda não existe nenhuma palavra – mas que deveria existir”), o livro surgiu de uma brincadeira que Douglas Adams e seu amigo John Lloyd costumavam fazer quando estavam em um bar. A ideia da brincadeira é que existem diversas situações e sensações para as quais não existe uma palavra, enquanto ao mesmo tempo existe um número enorme de palavras que são “desperdiçadas” dando nome a locais. Então por que não juntar as duas coisas usando nomes de locais para nominar estas situações e sensações? E da brincadeira surgiu a ideia de criar o dicionário.

O livro começa com uma série de mapas que não querem dizem nada e são só para encher linguiça mesmo (e talvez a paciência de algum leitor desavisado não acostumado com estes recursos do humor britânico). Depois dos mapas tem um dicionário fonético bem no estilo do Douglas Adams: totalmente nonsense. Um humor que de tão bobo é genial!

Claro que como tudo o que Douglas Adams produziu, além deste humor meio nonsense, tem também aquela pitada de acidez, um humor mal-humorado até (baita contradição!!!….hahaha), também típico do humor britânico.

Porém, mesmo com um nível avançado de inglês, acabei “perdendo” várias piadas. Uma delas foi Frutal (“rather too eager to be cruel to be kind”), uma das duas cidades brasileiras no dicionário, ao lado de Canudos (“o desejo que os casais casados têm em ver seus amigos solteiros se casando”). Além de perder algumas piadas por conta do idioma, com certeza perdi outras tantas por conta de falta de referências. Acho que até falantes nativos de inglês de outros países perderiam algumas das tiradas que contêm referencias muito britânicas. Este provavelmente deve ser um dos motivos pelos quais (ainda) não existe uma tradução para o português.

Ainda assim tem vários termos interessantes, tanto pelo humor quanto por fazer a gente lembrar de algumas situações que as vezes passam despercebidas. E para descobrir que algumas delas são mundiais, tais como Bodmin: “a irracional e inevitável discrepância entre o valor arrecadado no racha e o valor da conta a ser pago no restaurante ou bar”. Ou Sturry: “aquela acenada agradecendo o carro que parou na faixa de pedestre para você cruzar, seguido por aquele movimento fingindo que estamos nos apressando pra atravessar a rua, mas que não altera em nada o tempo levado para finalizar a travessia” (em inglês era mais engraçado, juro!).

Mas o mais interessante foi notar que Adams devia ter alguma fixação por bundas (bem, quem nunca né?). São diversos termos que envolvem nádegas, como Elsrickle (“aquela gota de suor que escorre pelas suas costas bem pelo rego”) e Famagusta (“a corrente de ar que passa por entre duas bundas que se recusam a se tocar – como no transporte público”), pra citar somente duas.

Em cada um dos “capítulos” (um para cada letra do alfabeto) tem pelo menos um desenho exemplificando um dos termos do capítulo (inclusive alguns dos termos relativos a bunda). Mas a melhor parte do livro é o apêndice! Mais não vou falar para não estragar a piada.

Be happy 🙂

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis (02/2021)

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Machado de Assis é provavelmente o maior escritor brasileiro de todos os tempos e “Memórias Póstumas” é uma de suas principais obras (provavelmente a mais famosa e mais lida delas), que forma junto com Quincas Borba e Dom Casmurro aquilo é conhecido como a “trilogia Machadiana” (ou Trilogia Realista). Se você nunca leu esta obra ou se nunca leu Machado, apenas pare tudo o que está fazendo agora e vá ler. É imperdoável para qualquer brasileiro (diria até para qualquer falante nativo da Língua Portuguesa) não ter lido pelo menos a trilogia.

Eu tinha lido esta obra na minha adolescência, lá pelos 16 anos, numa edição “tijolo” que contava também com Quincas Borba e Dom Casmurro. A primeira coisa que me chamou a atenção à época foi o fato de ser um livro narrado em primeira pessoa, porém por um defunto. Ou seja, uma autobiografia póstuma! O livro começa exatamente com a dedicatória de Brás Cubas ao verme que “primeiro roeu suas carnes frias” para em seguida descrever como ocorreu o seu funeral. Genial! Depois deste início, ele volta ao começo de sua vida, na verdade até antes, descrevendo seus antepassados e toda a sua vida, até emendar com o funeral novamente.

Uma outra coisa que também me chamou a atenção foi o humor ácido e a fina e nobre arte da ironia. Se na época da primeira leitura eu já conhecesse o Monty Python, Douglas Adams, e outros do gênero, com certeza teria feito uma relação com o humor britânico. Imagino que o tipo de sarcasmo de Machado era bem à frente do seu tempo e que muito provavelmente o livro tenha sido incompreendido por muitos à época.

Não vou entrar em detalhes da estória pois, como já disse, ela é leitura obrigatória. Então vou falar um pouco da edição: quando soube que lançariam uma edição do Memórias com ilustrações do Candido Portinari, que haviam sido feitas para uma edição comemorativa na primeira metade do século XX, fui obrigado a colocar na lista. Edição de colecionador mesmo (e olha que eu não costumo guardar livros).

Os desenhos são fantásticos e ilustram muito bem personagens e passagens da obra (a capa é o próprio verme já citado!). As notas de rodapé, o prefacio (explicando a edição) e o posfácio (explicando Machado e sua obra) são muito interessantes também. Claro que tudo isto são “complementos” para o prato principal, que é o texto delicioso de Machado. Daqueles que te fazem não querer parar de ler o livro enquanto ele não termina.

Mas ainda bem que com o tempo eu aprendi a saborear o prazer de ler, ao invés de devorar livros, e desta vez pude apreciar cada momento da releitura (coisa que faço bem pouco também) décadas depois da primeira vez.

Be happy 🙂

Ghost Rider – Neil Peart (01/2021)

ghost_riderEntre Agosto de 1997 e Junho de 1998, Neil Peart, baterista e letrista do power trio canadense Rush (uma das minhas 4 bandas favoritas, junto com Beatles, Pink Floyd e Yes) perdeu a filha num acidente automobilístico e em seguida a esposa, vitima de um câncer (“na verdade de coração partido”, como ele escreve no livro). A fim de interromper uma espiral autodestrutiva ele resolve sair com sua BMW R 1100 GS vermelha praticamente sem destino, numa jornada com o único fim de manter a mente ocupada, pilotando pelo Canadá, EUA, México e chegando até Belize. Uma experiência que ele ele viria a chamar de  “viagens na estrada da cura” (Travels on the Healing Road, o subtítulo do livro).

É importante frisar o “praticamente sem destino”, já que, exceto por poucos lugares, as rotas e as estadias eram escolhidos quase que aleatoriamente, sendo estas escolhas muito influenciadas pelas condições meteorológicas e pelo “mood” de Neil. As exceções foram destinos com o intuito de visitar algum amigo ou familiar, pela necessidade de ter que agendar previamente algo (um ferry boat, por exemplo) ou para fazer manutenção da motocicleta.

A parte inicial do livro conta os desfortúnios, a “preparação” para a viagem e a primeira etapa da jornada. Após algumas semanas na estrada, Brutus – um dos seus melhores amigos e companheiro de viagens de moto – é preso. Neil então começa a se comunicar constantemente com Brutus através de cartas.

Esta primeira parte até a prisão (cerca de 1/3 do livro), além de contar com relatos escritos posteriormente (a parte dos desfortúnios e a preparação para a jornada), também conta os caminhos, locais e percalços pelos quais ele passou e que foram registrados num diário.

Ele também relata nesta parte como “aprendeu” a fazer as fotos do Ghost Rider, como ele viria a se chamar no decorrer do livro:  colocar a moto no cavalete central e tirar uma foto dela compondo a paisagem, o que dá a impressão de que a moto está rodando sozinha, sem ninguém pilotando. Ou como se a motocicleta estivesse sendo pilotada por um fantasma.

O restante do livro é basicamente uma transcrição das cartas que ele escrevia para Brutus e para algumas outras pessoas. Elas são legais, mas um tanto enfadonhas. Um pouco pelo fato dele se colocar em uma posição de vitimismo (o que é totalmente aceitável devido às agruras pelas quais ele passou), o que tornou a leitura um tanto cansativa e repetitiva. O segundo é o estilo do texto (cartas) em si, que não me agradou tanto. Preferi muito mais a primeira parte, em formato de um diário de bordo.

Um outro ponto interessante é que, nesta jornada sem roteiro, muitas das razões que fariam ele escolher algumas das rotas eram relacionadas ao que ele estava lendo no momento (Neil era um leitor voraz!). O livro foi ótimo para pegar algumas dicas literárias e até já comprei um do Jack London (The Sea-Wolf) para conhecer (mas ainda tenho uns 3 ou 4 na frente). Além da vontade de ler os autores citados, os relatos do livro também dão uma vontade danada de montar numa moto e sair sem rumo.

Infelizmente Neil faleceu no início de 2020. Mas como li uma vez (e meio que parafraseando Carl Sagan): não lamente a perda, comemore o prazer de ter coexistido com um ser como Neil no mesmo planeta e época, mesmo diante da imensidão do universo e da vastidão do tempo.

E sua obra, o seu legado, tanto literário quanto musical, está todo ai para ser apreciado. 

Be happy 🙂

Sagarana – João Guimarães Rosa (08/2020)

Confesso que nunca tinha lido João Guimarães Rosa na vida. Pelo menos não que eu me lembre. E olha que durante a adolescência eu era um leitor voraz, praticamente um rato de biblioteca. Mas sei lá por que, nunca um livro do autor cruzou meu caminho.

E também não sei por que cargas d’água eu encasquei que iria ler Sagarana há pouco mais de um ano atrás. Talvez alguém compartilhou no Facebook e acabou grudando no meu subconsciente. Então na última vez que estive no Brasil o livro já estava na minha lista. Mas não consegui encontrá-lo disponível no Submarino (ao menos não num tempo de entrega que me atendesse).

Neste interim fui arrumar umas tralhas minhas e dar fim em algumas coisas que ainda estão na casa da minha mãe e, dentre alguns outros livros que haviam no “quartinho da bagunça”, achei Sagarana. Uma edição de 1984, meio surrada até (inclusive com partes de algumas poucas páginas faltando). Parece que ele estava há um tempão me esperando!

O livro, o primeiro publicado por Guimarães Rosa, é uma coleção de contos, alguns com um certo ar de fábula. Todos eles retratando a vida, o cotidiano e os causos do povo do sertão, especificamente do sertão de Minas Gerais das primeiras décadas do século passado. As vezes dá a impressão de que são aqueles causos que são contados há diversas gerações, que ninguém sabe se ocorreram ou não e que vão se adaptando conforme são passados adiante.

Mesmo se for este o caso, Guimarães Rosa teve maestria em colocá-los no papel. Mais do que isto, em conduzir as narrativas de uma forma muito bonita e até terna, mesmo naqueles contos em que a estória era triste ou “pesada”. Me lembrou os poucos contos de Gorki que eu li.

Um outro ponto que chama a atenção no livro é a riqueza de detalhes em descrever o ambiente. É impressionante o conhecimento da fauna e da flora que Guimarães Rosa parecia ter. Foi tanto nome popular pra planta e bicho que até me perdia de vez em quando. Uma das diversões enquanto lia o livro era tentar imaginar como deve parecer algumas das plantas e animais mencionados. Mas confesso que recorri ao Google algumas vezes, só por curiosidade.

Todos os 9 contos são muito bons, mas se for pra destacar alguns, eu destacaria “O Burrinho Pedrês” (uma estória com várias miniestórias dentro),  “Conversa de Bois” (conto um tanto sombrio) e “A hora e vez de Augusto Matraga” (uma “jornada do herói” que conta até com algumas adaptações para teatro e cinema, entre elas esta que devo assistir logo mais: https://www.youtube.com/watch?v=0h2JAyfBObk )

Apesar do livro se situar em determinado ponto do tempo (primeiras décadas do século passado) e espaço (interior de Minas Gerais), qualquer uma das estórias poderia ser facilmente transportada para outros tempos e outros lugares do Brasil e talvez do mundo. Muitas delas eu conseguiria transportar para Ibaté, no interior de São Paulo, onde passava minhas férias durante a infância e adolescência. E onde também consumia vorazmente os livros pequena (a época) biblioteca local.

Be happy 🙂

The Ministry of Truth: The Biography of George Orwell’s 1984 – Dorian Lynskey (07/2020)

De tempos em tempos uma das duas principais obras de George Orwell (Animal Farm e 1984) ganham os holofotes. A mais recente delas ocorreu com a surpreendente vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA em 2016. Após a cerimonia de posse, Sean Spicer, então secretário de imprensa de Trump, afirmou que a cerimonia tinha tido o maior público para uma cerimonia do tipo até então, não só nos EUA, mas no mundo todo, em qualquer momento da história, fato facilmente desmentido pelas imagens do evento. Quando questionada a respeito, já que os fatos eram contrários a tal afirmação, Kelliane Conway, então conselheira do presidente, disse que existiam fatos alternativos (e os jornalistas presentes perderam uma grande oportunidade de afirmar que qualquer alternativa a um fato é simplesmente mentira). As vendas de 1984 dispararam logo em seguida!

Aproveitando o embalo, Dorian Lynskey resolveu lançar uma “biografia” de 1984.

Usar o termo “biografia” para uma obra literária soa um pouco estranho, mas a palavra cabe, já que a proposta foi exatamente ter a obra como ponto central e tentar dissecar (outro termo aplicável a seres orgânicos) como a obra foi feita, influenciada e como ela influenciou outras obras e a sociedade em geral.

Obviamente que para entender tudo o que pode ter influenciado a obra, uma biografia do próprio autor se faz necessária, então o livro traz bastante detalhes sobre a vida de Orwell, especialmente sobre sua formação. Também a fim de explicar as influências, existem partes dissecando utopias que precederam 1984, como The Sleeper Awakes, de H.G. Wells (autor que mereceu um capítulo inteiro) e Looking Backwards, de Edward Bellamy, que foi o precursor do gênero utópico. Uma das hipóteses de Lynskey é que Orwell quis criar propositalmente um contraponto à este gênero.

Mas talvez a obra que mais motivou e inspirou 1984 tenha sido We, do escritor russo Yevgeny Zamyatin, que é provavelmente a primeira obra do gênero que viria a se chamar distopia. We é também considerado uma forte influência de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, que forma junto com Farenheit 451, de Ray Bradbury, a trilogia clássica da distopia. Outra obra bastante citada no decorrer do livro e que recebeu influências de todas estas citadas é The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwoods.

Um outro ponto interessante do livro é uma análise de como o livro influenciou as sociedades. Duplipensar (doublethink), crimepensar (thoughtcrime), Big Brother, buraco da memória (memory hole). Todos são termos que se popularizaram a partir do livro. Até “orwelliano” virou uma expressão que é usada tanto no sentido de “prever” como Orwell ou de ser “previsto” por Orwell. Praticamente um duplipensar! Importante sempre frisar, como já fiz na resenha de Orwell’s Revenge, que o próprio Orwell não se considerava e nem gostava de ser entendido como um “profeta”.

Pelo lado da política, praticamente todas as correntes ideológicas já usaram termos cunhados ou ideias desenvolvidas por Orwell, geralmente atribuindo-os ao “outro lado”: socialistas e capitalistas, conservadores e liberais, autoritários e democratas. Nada mais Orwelliano!

Um livro bem interessante para quem, como eu, é fã do autor (1984 e Animal Farm estão no meu top 10 de melhores livros!). E claro, como não podia faltar, fica a dica de Animals, meu album preferido do Pink Floyd, que foi inspirado em Animal Farm..

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Noites Tropicais: solos, improvisos e memórias musicais – Nelson Motta (06/2020)

Nelson Motta é jornalista, compositor, produtor musical e exerceu muitas outras funções ligadas à arte, especialmente a música, nas últimas décadas no Brasil. Mesmo exercendo funções de “bastidores”, ele é bastante conhecido pois apresentou durante um bom tempo um quadro semanal sobre música no vespertino Jornal Hoje, da Rede Globo. Nesta autobiografia ele conta a história de sua vida e pedaços das histórias de vida de outras pessoas com os quais ele conviveu, especialmente artistas.

O livro não é lá muito bem organizado em termos de datas e contextualização, mas é justamente isto que o torna divertido. Dá a impressão de um bate-papo de mesa de boteco com aquele seu amigo falastrão que gosta de contar mentira e vantagem (e todo mundo tem um amigo assim). Nunca dá pra saber o que é verdade ou mentira, especialmente quando ele fala sobre os bastidores, já que muitos dos personagens envolvidos já não estão mais aqui para confirmar ou desmentir. De qualquer forma, sendo ou não verdade, ele mesmo acredita fielmente naquilo. Como li numa outra resenha: ele é o Forrest Gump da MPB.

Apesar da falta de precisão e da sensação de que ele está sempre aumentando um ponto, especialmente no que se refere ao seu próprio papel nos acontecimentos e movimentos, o livro passa um bom panorama do desenvolvimento da música popular no Brasil, desde o início da Bossa Nova (meio da década de 60) até o final dos anos 2000.

Acabei terminando o livro com a mesma sensação que tive quando terminei a biografia do Lobão: o cara pra ter vivido tudo isto deve ter agora uns 300 anos. Ainda assim é um bom passatempo, além de contar com dicas preciosas de artistas e músicas.

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