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The Last Lecture – Randy Pausch (01/2018)

Nas universidades americanas é comum os professores serem convidados a dar uma “última aula” (Last Lecture, a tradução do livro em português ficou como “A Última Lição”). Normalmente é uma aula direcionada aos alunos que estão no último ano da graduação (na verdade, “undergraduate” , pois “graduado” nos EUA e Europa é quem tem título de Mestre ou Doutor) e o desafio dado ao professor é o seguinte: imagine que esta será a última aula que você dará na sua vida, qual mensagem você gostaria que a audiência levasse?

Randy Pausch, um professor da área de Tecnologia da Informação da conceituada Carnegie Mellon University, em Pittsburgh, Pennsylvania, foi o convidado a dar “a última aula” para uma turma em 2007. Porém, Randy já estava lutando contra um câncer no pâncreas há alguns meses e havia sido alertado recentemente pelos seus médicos que teria cerca de seis meses de vida (ele viria a falecer em Julho de 2008, alguns meses além do “prazo”). Então esta realmente foi sua última aula.

A aula foi gravada e viralizou no Youtube (conta atualmente com mais de 18 milhões de visualizações, isto só a versão oficial). Aproveitando os últimos meses de vida e contando com a ajuda do jornalista Jeffrey Zaslow, Randy transcreveu as lições da palestra para o formato de texto. O livro e o vídeo (que são muito similares, sendo que o livro tem bem mais detalhes) são um compêndio das lições que o próprio Randy foi aprendendo durante sua vida e que achou interessante compartilhar.

Eu não sou fã de livros de auto-ajuda que tentam impor fórmulas de sucesso, mas eu gosto de ler experiências de vida. The Last Lecture traz exatamente isto: um compêndio da vida de um cara que simplesmente aproveitou o máximo possível a sua vida e que tentou, na medida do possível, ajudar outros a fazerem o mesmo. É muito mais a exposição de uma jornada de auto-conhecimento do que um “faça o que eu digo”, e por isto achei o livro interessante. Além disto, a atitude positiva diante de algo inevitável e a forma cética e racional de Randy ao encarar a sua própria morte foram outras coisas das quais eu gostei.

A versão oficial do vídeo pode ser assistida no Canal da Universidade (https://www.youtube.com/watch?v=ji5_MqicxSo). Dá pra assitir o vídeo e depois ler o livro. Ou fazer o inverso, como eu fiz. Ou só assistir o vídeo. Será interessante de qualquer forma.

Be happy 🙂

O Evangelho Segundo Jesus Cristo – José Saramago (12/2017)

“Homens, perdoai-Lhe (a Deus), pois ele não sabe o que fez.”

Esta obra prima do Saramago segue a mesma premissa de “O Cordeiro” (ou melhor, o Cordeiro segue a mesma premissa deste livro): contar a estória de Jesus Cristo de outro ponto de vista que não os existentes na Bíblia e cobrindo também os períodos ignorados nos evangelhos (praticamente tudo desde o nascimento até os 30 anos). Neste caso, a narração é conduzida pelo próprio Cristo, feita em terceira pessoa.

O estória abrange desde a hora da concepção (que ocorreu naturalmente, através de José), passando pela infância, adolescência e dando muita atenção ao momento em que Jesus descobre o seu destino e as consequências dele. O destino é apenas servir de instrumento para que o “fã clube” do seu pai aumente de tamanho, inflando assim o seu ego (e desta forma ele poderá se gabar junto aos outros deuses). As consequências, além do próprio sofrimento do filho, serão milhares de mortes, nas mais terríveis formas, ao longo de séculos.

“O único Deus sou eu, eu sou o Senhor, e tú és o meu Filho, Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa, mas por tua causa, Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero esse poder. O nevoeiro afastou-se, para onde estivera antes, via-se uma pouca de água ao redor do barco, lisa e baça, sem uma ruga de vento ou uma agitação de barbatana passando. Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue.”

De uma forma muito mais sutil que em O Cordeiro, mas muito mais contundente, Saramago questiona a filosofia por trás do cristianismo e de quebra por trás das demais religiões Abraonicas. É um livro para fazer pensar. A forma como ele questiona crendices e mitos que não fazem sentido lógico algum é fantástica. Especialmente porque fosse o ser humano dotado de maior inteligência, estes mitos já estariam há tempos na categoria de folclore, daqueles que você dá risada e se admira como podem ter guiado a vida de milhões de pessoas (e custado a vida de tantos outros milhões). Pensando bem, nem precisaria ser muito inteligente, só um pouco.

Como já disse anteriormente, o estilo do Saramago é complicado de acompanhar e exige muita atenção, mas ao mesmo tempo apresenta uma beleza única. Entre as obras dele que eu lí até hoje (acho que umas 6 ou 7) esta subiu para o topo e é um dos melhores livros que eu já lí.

Be happy 🙂

Algorithms to Live By – Brian Christian and Tom Griffiths (11/2017)

Este livro tem basicamente a mesma proposta de “Os Botões de Napoleão“: trazer para o grande público a aplicação prática de conceitos, teorias e descobertas científicas. No caso do Algorithms, o foco é em matemática, estatística e tecnologia da informação (três áreas de conhecimento muito interligadas) e em como alguns modelos e algoritmos podem ser aplicados na vida cotidiana de qualquer pessoa (isto quando já não são aplicados, intuitivamente e involuntariamente).

Cada um dos capítulos, dedicado a um algoritmo / modelo, inicia-se com a descrição do problema e os fatos históricos que levaram especialistas a se debruçarem sobre a questão em busca de alguma solução. Isto quando a solução é possível, pois em alguns casos existem problemas insolucionáveis (ou intratáveis).

Como contratar a melhor secretária, encontrar a pessoa com quem voce quer passar o resto da sua vida ou a melhor vaga para estacionar envolvem optimal stopping. Escolher entre um novo restaurante (com 50% de chances de se surpreender, mas também com 50% de chances de se decepcionar) ou um restaurante do qual voce ja gosta pode ser tratado com “explore/exploit” (explorar/usufruir). Aumentar as chances de ganhar num caça-níqueis, ou mesmo descobrir qual o tratamento mais eficiente para uma doença envolvem randomização e probabilidades. Resolver problemas muito complexos envolvem flexibilização (mudar o problema para encontrar uma solução mais facilmente). Mais pro final do livro aparecem alguns algoritmos mais voltados para a tecnologia em sí (em networking, por exemplo, que explica muito bem o funcionamento da internet).

O livro também inclui entrevistas com pessoas que participaram (e eventualmente participam) da resolução do problema (as vezes existe a melhor solução encontrada até agora, o que não quer dizer que seja a solução definitiva). Tudo muito bem documentado: entre notas (que poderiam estar no rodapé), referências, bibliografia e índice remissivo, são quase 100 páginas (1/3 do livro).

Dentre todos os modelos apresentados dois me atraíram mais a atenção: buffering e sorting (ordenação).

Buffering é um termo que não tem tradução para o português, mas explicando rapidamente: é uma área intermediaria (memória) do computador onde ficam alocados os programas mais usados (ou efetivamente em uso) afim de otimizar a inicialização (ou uso) destes programas. O HD de um note, além de ter uma quantidade grande de informações, o que dificulta a busca de algum dado específico, também é um mecanismo mais lento. Por isto existe a memória RAM (um dos vários tipos de buffer) que trabalha mais rápido que um HD, porém tem um custo por capacidade bem maior, e é onde os programas em uso são carregados. Com a internet funciona da mesma forma: toda vez que um site é visitado o browser salva alguns “pedaços” do site (imagens, mídias, etc.) localmente no computador. Da próxima vez que voce acessa o mesmo site, ele compara o que está na sua máquina com o que está no servidor (usando nome, data de atualização, tamanho de cada um dos arquivos, etc.) e baixa novamente somente o que foi alterado, usando as cópias locais para reduzir o tempo de carga da página.

Normalmente mantêm-se na area de buffer aquilo que foi usado recentemente, pois a chance de ser usado de novo é sempre maior do que algo que não é usado há muito tempo. Todo mundo tem aquela roupa que usa ao menos uma vez por semana, e aquela outra que a gente até esquece que tinha. E é ai que um buffer faz diferença: ao invés de perder tempo arrumando ou procurando em todo o seu armário, quando voce mantêm uma parte pequena para roupas que voce usa normalmente, tanto a organização quanto a procura se tornam mais rápidas. Eu sempre fiz isto e nunca liguei o ato a um algoritmo em específico (e eu sou da área de TI!).

No caso do sorting (ordenação, classificação), o livro traz um principio interessante: ordenar algo que você não vai precisar pesquisar é perda de tempo (despedício de recursos), procurar algo que não está ordenado é apenas ineficiente. Em computação sempre é necessário fazer escolhas que envolvem recursos limitados (bem, é assim na vida também). Eu sempre tive uma mania de manter as coisas bem organizadas: livros, CDs e DVDs em ordem alfabética, por exemplo. Só que cada vez que ia organizar algo, perdia uns 30 minutos, as vezes bem mais, sendo que mesmo fora de ordem, em alguns poucos minutos eu conseguiria encontrar um item. O investimento, não vale o retorno.

Comecei, desde que li este trecho, a não mais classificar e-mails, por exemplo. É um hábito que eu tenho desde que comecei a usar e-mail (há uns 20 anos atrás). Só que os mecanismos de busca dos aplicativos evoluiram tanto nos últimos anos que é bem mais fácil usá-los do que classificar itens no computador (e-mails, arquivos, etc.). E posso dizer, por esta pouca experiência, que realmente os 30 minutos perdidos por dia no trabalho, só classificando e organizando os e-mails, são um completo desperdício de tempo, já que raramente eu preciso procurar algo em e-mails antigos, e quando preciso, o próprio aplicativo faz isto em poucos segundos.

Be happy 🙂

Why Information Grows – César Hidalgo (10/2017)

Imagine um físico escrevendo sobre economia e adicionando umas pitadas de filosofia. Loucura não? Então conheça César Hidalgo e você vai ficar entre o “PQP! O que este cara está falando?” e o “E não é que faz sentido?!”.

A hipótese sobre a qual o livro é construido é a de que o universo é um caos e a pouca ordem que existe no universo é o que gera “coisas” (como os planetas, as estrelas, as constelações, etc.).  Só que no meio desta ordem aleatória e incrivelmente rara aconteceu o improvável: surgiu vida, e de um tipo destas vidas emergiu uma “coisa” (o ser humano) que tem consciência da sua existência e consegue colocar ordem no caos.

A partir daí César desenvolve esta idéia de que a escassa ordem em um universo de caos tem valor. Saindo do nível cósmico e descendo para o nível do nosso planeta, ordenar o caos é o que traz valor para nosso ambiente e para nossa espécie. Para ordenar o caos conscientemente e não aleatoriamente (e inclusive combater a entropia, que é o caminho para o qual o universo sempre caminha), a espécie humana precisa gerar e transmitir conhecimento, que ele resume em informação.

E o valor das coisas que produzimos reside justamente na informação que cada uma destas coisas carrega. Não é o esforço embutido em produzir e nem os recursos utilizados na produção que dá valor as coisas. É a quantidade e complexidade de informações que aquela coisa carrega, ou seja, o que dá ordem (aos átomos, aos materiais, etc.).

Para exemplificar esta teoria ele usa um caso hipotético de um Bugatti Veyron: um carro que vale 5 milhões de dólares em perfeito funcionamento! Mas caso você bata um Veyron ao ponto dele virar um amontoado de aço, borracha, plástico e outros materiais, todo aquele valor contido no carro se esvai, apesar de os átomos ainda existirem, agora desordenadamente. Portanto o que dá valor ao Bugatti é a ordem e, em última instância, a informação contida naquela ordem (obviamente desprezando o fato de que o interesse ou necessidade é que traz valor a um bem ou serviço, mas que para os propósitos didáticos pode ser desprezado, como ele cita no livro).

Partindo deste pressuposto (novamente, que faz muito sentido!) de que o que dá valor as coisas é a quantidade e complexidade de informação que elas carregam, ele propõe a análise economica de um outro ponto de vista. Por exemplo, ao invés de usar a “balança comercial” para mensurar as relações comerciais entre os países, ele propõe o uso da “balança de imaginação”. Para suportar este argumento, ele inclusive usa o exemplo do Brasil, que exporta mais do que importa, em dólares, para a China, porém exporta bens primários enquanto importa produtos com alto valor adicionado (carga de informação). Ou seja, apesar da balança comercial entre Brasil e China ser favorável ao Brasil, a “balança de imaginação” é favorável à China.

Ele até traz a tona que a narrativa (muito explorada politicamente, inclusive no país de origem de Hidalgo, o Chile) de que os países que exportam matéria prima são explorados por aqueles que importam é um erro de conceito e na verdade ocorre o contrário: se não fosse o nível de informação contido em um produto final, a matéria prima não teria valor. Portanto, não é os EUA que exploram o petróleo Venezuelano, mas a Venezuela que explora a imaginação de Henry Ford, Rudolf Diesel, Gottlieb Daimler, etc.

Cesar explica que existe um limite de acumulação (e portanto de geração e disseminação) de informação por um único indivíduo, que ele chama de personbyte. Para aumentar esta capacidade, o ser humano tem que trabalhar em conjunto, aumentando assim a capacidade coletiva de colocar informação (ordem) nas matérias. Ele faz uma análise de como as sociedades se organizam, como estes indivíduos se relacionam para formar estes “clusters de conhecimento” e como são formados os elos destes clusters (basicamente através de confiança).

Aqui ele entra numa constatação interessante: em sociedades com baixo nível de confiança geral (como nas sociedades latinas, incluindo-se ai o sul da Europa), os clusters tendem a ser menores, pois eles tendem a se formar em torno de famílias e/ou indivíduos com algum tipo de ligação prévia, e dificilmente ultrapassam esta fronteira. Quando precisam ultrapassar, como há falta de confiança, há a necessidade de “formalização” destes links, o que gera a burocracia (contratos, leis, etc.), e isto por si só também é um entrave à formação de cluster maiores. Este é um dos motivos que ele cita para a diferença entre produção de conhecimento (e consequentemente desenvolvimento econômico e bem estar geral) entre sociedades como os EUA, Alemanha, Japão, onde existe uma nível alto de confiança geral entre os indivíduos, e outras sociedades, como Itália, França, Espanha e toda a America Latina.

Outro ponto interessante é a capacidade de encapsulamento e replicação de um cluster de informação. Ele traz o exemplo Chinês: a China se consolidou como uma potência em manufatura não porque a mão de obra é barata, mas sim porque a China é capaz de replicar cluster produtivos. Existem diversos países onde a mão de obra é mais barata que na China (aliás, ano passado o salário médio Chinês ultrapassou o Brasileiro), mas estes lugares não são capazes de replicar estes clusters e sua consequente capacidade de atribuir valor as coisas.

Vou parar por aqui porque senão eu vou reproduzir o livro todo e qualquer resumo não vai traduzir todas as idéias contidas nele. Sugiro muito a leitura! Para quem se interessa por economia e tecnologia da informação eu diria até que é uma leitura obrigatória. Mas qualquer pessoa que esteja tentando entender este mundo louco em que vivemos atualmente deveria ler este livro.

Be happy 🙂

História do Cerco de Lisboa – José Saramago (09/2017)

Interessante ter lido este livro logo após o Manual de Pintura e Caligrafia, já que os dois usam o mesmo “mote” como linha mestra: uma crise existencial que faz com que o personagem principal cometa um arroubo dentro de sua atividade profissional, o que acaba por mudar os rumos de suas vidas.

No caso da História do Cerco de LIsboa, Raimundo Silva, um notório revisor literário, ao trabalhar em um livro que relata o fato histórico da retomada de Lisboa, que ficou sobre controle dos Mouros (islâmicos) entre os séculos VIII e XII, resolve adicionar uma negativa, contrariando os fatos históricos (da forma como são conhecidos). Inicialmente ele se vê às voltas com a culpa de ter, deliberatamente, tentando alterar a história.

Porém o fato em sí não causa tantos inconvenientes quanto Raimundo imaginava, e acaba por abrir uma nova possibilidade profissional: reescrever a história à partir do ponto em que ela foi modificada por ele mesmo.

À partir dai o revisor / escritor vai revisitando os fatos e os lugares, já que a estória (do Saramago) também se passa em Lisboa. Com toda a liberdade literária, ele escreve um interessante romance e, no processo de escrever, também vai trazendo fatos da história verdadeira (através das suas pesquisas e das possibilidades para a história).

A leitura é mais fluida do que o do Manual. “Fluída” para o padrão Saramago, que não usa uma organização normal em parágrafos e diálogos, mas escreve tudo (narração e diálogos) continuamente, sem identificar o emissor da frase, apenas separando-os por vírgula. É cansativo inicialmente, mas depois de pegar o embalo fica um pouco mais fácil (alguns trechos requerem uma leitura mais detalhada e eventualmente releitura).

Além de tudo, foi bem interessante para mim, porque como fui há alguns meses à Portugal, ficou bem fácil montar o “filminho” na minha cabeça dos lugares por onde Raimundo anda durante a estória.

Uma diferença interessante entre o Manual e o Cerco é que no Manual, o personagem que enfrenta a sua crise existencial está na faixa dos quarenta anos, enquanto no Cerco, o personagem está na fase dos cinquenta. Levando-se em consideração que os livros foram lançados com um intervalo de pouco mais de dez anos e que, segundo os biógrafos de Saramago, o Manual é uma obra biográfica. Imagino que o Cerco também tenha algo do próprio Saramago.

Be happy 🙂

Maverick – Ricardo Semler (08/2017)

Considero o livro “Virando a Própria Mesa”, do Ricardo Semler, um dos dez livros que mudaram a minha vida. Neste livro ele descreve como passou de um playboy que poderia apenas ter aproveitado o status quo e sua posição confortável nele para curtir a vida com os recursos que seu pai já havia garantido para a família. Mas ao invés disto, preferiu se aventurar e se reinventar, questionando e tentando mudar a parte do mundo que lhe é possível (incluindo a sí mesmo).

“Perguntaram a três cortadores de pedra o que eles faziam. O primeiro disse que cortava porque era pago para fazer isto. O segundo respondeu que usava técnicas especiais para moldar pedras de forma incomum e prosseguiu para demonstrar sua habilidade. O terceiro apenas sorriu e disse: Eu construo catedrais”

Nao que eu seja playboy ou meus pais tenham garantido meu futuro (muito longe disto!), mas se alguém que se beneficia do status quo tem coragem para desafiá-lo, por que cargas d’água eu, que não tenho beneficio nenhum, teria que me conformar? Então junto com outras coisas, o livro me ajudou a abrir a cabeça e a não seguir aquele roteiro que nos é imposto assim que nascemos (nascer, crescer, estudar, arrumar um bom emprego, ser aquele “dito cidadão respeitável que ganha quatro mil cruzeiros por mês” e que acaba sentado “num trono de um apartamento com a boca escancarada e cheia de dentes esperando a morte chegar”). A parte do livro em que ele descreve como descobriu que seu amor pela música era bem maior que o seu talento para ela, o que o fez desistir do sonho de ser músico, também foi algo que me influenciou (e no meu caso, além da falta de talento, sempre faltou disciplina).

No segundo livro que eu li do Semler, o “Você Deve Estar Louco”, ele discorre mais sobre como ele mudou a forma e a cultura das empresas que herdou do seu pai. E de certa forma também me influenciou no sentido de entender em que tipo de empresa eu gostaria de trabalhar.

Maverick é uma compilação dos dois livros feita para o mercado americano, ou seja, tem um pouco da biografia do Semler, mas o grosso do livro é sobre as experiências e o modelo implementado por ele em suas empresas. O público alvo talvez tenha sido a razão de ele ser escrito mais como um manual de negócios do que apenas como uma história, como acontece com os dois livros lançados no Brasil.

Se alguém está buscando um manual de praticas empresariais, o Maverick é um ótimo livro, já que vai direto ao ponto. Agora se a pessoa quer apenas ler uma boa história, que pode servir ou não de motivação pessoal, sugiro ler os dois lançados em português, especialmente o “Virando…”.

Be happy 🙂

Manual de Pintura e Caligrafia – José Saramago (07/2017)

Comprei este livro (e mais dois do Saramago) numa visita a Livraria Lello, no Porto, em Portugal, considerada por muitos a livraria mais bela do mundo. Acabei comprando mais por uma obrigação moral (já que estou com uns doze na lista): visitar uma livraria e não comprar um livro, como fazia quase a totalidade dos visitantes (mesmo tendo um “rebate” do valor da entrada na compra de livros) é um pecado.

Segundo a descrição na contracapa, o livro é uma obra autobiográfica do Saramago. Não tenho conhecimento da biografia deste grande autor (vencedor do Nobel de literatura em 1998), portanto não tive capacidade de associar trechos do livro com a vida dele. Talvez foi uma falha minha não ter tentado saber um pouco mais sobre o autor antes de ler o livro.

De qualquer forma, mesmo como uma “estória” é um livro bastante interessante: ele conta, em primeira pessoa a estória de um pintor retratista (destes que fazem quadro com imagens de pessoas reais) que, em meio a uma crise de meia idade (o livro dá a entender que o pintor se encontra na faixa dos 40 anos, por ter 20 de profissão e não ter terminado a faculdade de belas artes) e a um momento político conturbado em Portugal (o presidente era Marcelo Carneiro, substituto de Salazar no chamado Estado Novo português, a ditadura que durou até 25 de Abril de 1974, fato relatado na última página do livro, que começara a ser escrito um ano antes) começa a se aventurar por outra arte, a da escrita. Genialidade do Saramago ele se “retratar” (sem trocadilho) como um pintor que vai se aventurar justamente na área que ele dominava.

O personagem começa a aprender das artes e oficios da escrita, enquanto faz um apanhado da sua própria vida até então, analisando a sua criação,  seus relacionamentos, seu papel no mundo, enfim, fazendo uma longa sessao de autoconhecimento que o leva a, inclusive, se redescobrir como um artista plástico.

Interessante notar a cabeça a muito a frente do tempo de Saramago. 

O livro não é melhor que o “Ensaio Sobre a Cegueira” ou “As Intermitências da Morte”, mas ainda é um Saramago e, como sempre, uma ótima leitura.

Be happy 🙂

Wings of Madness: Alberto Santos-Dumont and the Invention of Flight – Paul Hoffman (06/2017)

Nunca imaginei que um dia iria ler uma biografia do Santos-Dumont. Não que não o ache um personagem interessante e importante para a história, não só do Brasil, como do mundo, pois ele teve participação importante num dos inventos que mudaram os rumos da humanidade. O que sempre me afasta dos “heróis nacionais” é justamente a maneira como o povo em geral trata os brasileiros com algum destaque (esportivo, científico, artístico, político, etc). Ou é uma exaltação exacerbada, ou trata como piada, ou infringe a eles uma cobrança excessiva. Na maioria das vezes as três coisas acontecem alternadamente e, incrivelmente, até simultaneamente.

Imaginei menos ainda que leria uma biografia sobre Santos-Dumont escrita por um americano. Mas a minha amiga Rebeca me presenteou com este livro, que foi uma grata surpresa justamente por fugir da “canonização” que provavelmente ocorreria se o autor fosse brasileiro. Mas que ao mesmo tempo dá o devido valor à importância do bibliografado, enquanto faz algumas correções históricas, todas elas muito bem documentadas.

Também é muito interessante, como toda biografia, como uma fotografia do Zeitgeist, o espirito do tempo, em que o personagem viveu.

O livro começa traçando a árvore genealógica de Santos-Dumont, contando brevemente a história de seus antepassados, desde os avós paternos e maternos, e dá uma atenção especial em como o pai de Santos-Dumont se estabeleceu e fez fortuna. Depois, passa brevemente pela infância do futuro inventor e por sua adolescência até a sua primeira mudança para a Franca.

A partir dai o livro relata de forma detalhada, incluindo muitas citações de publicações e do próprio Santos-Dumont, todo o processo de educação e de contato de um jovem com as novidades de uma metrópole mundial durante a virada de século. Depois começa a detalhar todos os seus experimento e experiências. Interessante notar a forma educada e sem extremismos ou julgamentos que o autor usa para documentar a suposta homossexualidade de Santos-Dumont.

Durante todo o livro, o autor vai contando, paralelamente à historia de Santos-Dumont, o que ocorria na mesma época em relação à aeronavegação, desde os primórdios do balonismo. Então invariavelmente, quando se aproxima de 1906 (o “vôo” oficial do 14-bis ocorreu em 23 de Outubro de 1906), outros inventores que trabalhavam em “máquinas voadoras” também são apresentados, como Samuel Langley e os irmãos Wright. Estes já haviam inclusive iniciado os estudos e experimentos com aeronaves mais pesadas que o ar bem antes de Santos-Dumont, que até o início de 1906 ainda focava em balões dirigíveis.

Assim como boa parte das invenções e descobertas da humanidade, os equipamentos que nos permitem voar também são o resultado de geração e disseminação coletiva de conhecimento: eles se baseiam em várias descobertas anteriores que foram sendo aperfeiçoadas e complementadas por diversas pessoas em diferentes partes do mundo, simultaneamente. Em algum momento, alguma destas pessoas teria a “sorte” de conseguir uma versão funcional do invento ou de realizar a descoberta, ficando desta forma com a glória e marcando seu nome na história (e, em alguns casos, obtendo lucro).

O livro não foge à polêmica (somente para os brasileiros, importante citar), e eu também não vou fugir: Santos-Dumont foi o primeiro homem a controlar um dispositivo de vôo, foi o primeiro homem a desenvolver equipamentos pessoais de voo (os tão sonhados “carros voadores”, e não desenvolveu apenas um, mas dois: um mais leve que o ar e um mais pesado), ganhou diversos prêmios, etc. Mas não foi a primeira pessoa a voar num equipamento mais pesado que o ar.

Além das testemunhas dos experimentos dos irmãos Wright, que ocorriam desde 1903, os avanços apresentados por eles em 1908, quando finalmente (e com todas as patentes garantidas) apresentaram o seu equipamento de forma oficial ao mundo, não seriam possíveis sem vôos anteriores. E não adianta nem alegar que “ah, mas ele não saiu do chão por conta própria”, primeiro porque isto não importa, podia ser um planador, uma asa delta, ainda assim teria atingido o feito de ser o primeiro equipamento mais pesado que o ar a voar, e em segundo, tirando a forca dos próprios motores, as aeronaves dos Wright só contavam com a força da gravidade (quem usava uma catapulta era o Aerodrome do Langley, que nunca chegou a voar). O avião, como existe hoje, tem muito mais dos Wrights do que de Santos-Dumont.

Mas isto, de forma alguma, tira a importância de Santos-Dumont para o desenvolvimento da aeronavegação. Muito pelo contrário, além de todos os feitos citados anteriormente, alguns dos estudos conduzidos por ele e algumas das soluções encontradas quando dos seus experimentos com os equipamentos mais leves que o ar devem ter sido utilizados por outros inventores e construtores, inclusive os irmãos Wright, no desenvolvimento dos seus equipamentos. Até porque Santos-Dumont tornava público todos os seus esquemas e desenhos. Um pioneiro do “open source”.

Be happy 🙂

P.S. o livro traz uma curiosidade interessante: a corda guia. Sabe aquelas cordas que ficam penduradas nos cestos dos balões? Além de servir para “ancorar” o  balão e para guiar o pouso (com a ajuda de pessoal em terra), ela tem a importante função de servir de lastro (ballast, outra curiosidade, esta cervejeira!). Explico: como o hidrogenio é um gás que se expande e se contrai muito rapidamente de acordo com a pressão, quando o balão está subindo, a expansão do gás poderia fazer com que ele “disparasse” para cima numa velocidade muito alta. O mesmo aconteceria durante o pouso: o gás contrairia a ponto de transformar o pouso numa “colisão com o solo”. Porém a corda serve como um lastro: enquanto ela esta no chão, ela nao gera peso para o balão, mas enquanto o balão está subindo, ela vai saindo do chão e gerando peso (lastro), impedindo assim a “disparada”, mesmo enquanto o hidrogênio se expande. O inverso também ocorre: durante o pouso, a medida em que o gás se contrai e acelera a queda, a corda vai sendo “deitada” no chão, reduzindo assim o peso do balão e desacelerando a descida. Solução simples mas genial!!!!

Cerveja, Alemães e Juiz de Fora – Alexandre Hill Maestrini (05/2017)

Quando conheci Juiz de Fora, no ano passado, eu fiquei impressionado com o movimento de cervejeiros artesanais na cidade. Diferentemente de São Paulo, onde excetuando-se alguns “dinossauros” (como o Frangó), o circuito de cervejas especiais se concentra em bares novos que nasceram especificamente para o ramo, enquanto os bares mais antigos parecem não aderir à nova “onda”, preferindo se concentrar nas cervejas comerciais já famosas, em Juiz de Fora voce encontra cervejas artesanais / especiais convivendo em perfeita harmonia com as cervejas comerciais, tanto em bares novos quanto em bares antigos.

Ponto para a diversidade e a ausência de “frescura” em querer dividir os consumidores entre “os seres iluminados que bebem puro malte” e a “ralé que toma SAL (Standard American Lager) estupidamente gelada”. Acho que já falei isto aqui, mas vale a repetição: cada um bebe aquilo que lhe convier, no momento em que lhe convier. Eu gosto de tomar IPAs, APAs e Witbiers, mas se eu estou numa praia no nordeste, sob um sol de 40 graus, aquela “cerveja de milho” estupidamente gelada e que desce que nem água é mais adequada ao momento e ao próposito (de matar a sede, de refrescar e, por que não, embriagar) do que uma Imperial IPA. E parafraseando o amigo e cervejeiro Cadú Zamoner: tem cerveja puro malte ruim e tem cerveja com aditivos boa.

Então, quando visitei a cidade, fiquei muito contente de poder tomar algumas especiais na Timboo e na Antuérpia, como tambem apreciar algumas cervejas diferentes no Bar do Bigode e no Bar do Leo, intercaladas por Originais ou Serramaltes.

O autor resgata no livro, além da história do recente renascimento da cultura cervejeira juizforana, um pouco da história do passado cervejeiro da cidade, ligado à migração alemã (lembrando que à época as fronteiras na Europa eram bem diferentes) que ocorreu para a cidade em meados do século XIX. Importante notar a ligação da recente onda de cervejarias/cervejeiros, que ocorreu justamente quando da instalação de uma planta da Mercedez Benz na cidade, que trouxe uma outra onda migratória de alemães para a região.

O livro tem ares de trabalho acadêmico, e a maior parte do conteúdo se refere a um mapeamento das cervejarias e cervejeiros locais e suas histórias. Portanto não é um livro de leitura fluida e talvez não aguce o interesse de quem não tenha uma ligação com a cidade ou não tenha interesse na cultura cervejeira.

Mesmo tendo o foco neste mapeamento da historia e da atual onda cervejeira, acho que ficou faltando algumas informações. Uma breve introdução contando a história da cerveja (como eu fiz neste post) seria interessante para os principiantes (o livro Cerveja, Brejas e Birras também serviria como um introdutório). Tambem teria sido interessante descrever um pouco do processo de produção, já que ao longo do livro, vários termos (como rampas, recirculação, priming, airlock, entre outros) aparecem e podem deixar os novatos um pouco perdidos.

Um ponto que se nota bastante no livro é a famosa burocracia brasileira, que impede que os cervejeiros artesanais possam comercializar seu produto, mesmo quando produzido em pequena escala, como produto artesanal que é. Poderiam estabelecer algumas regras mais simples para pessoas que comercializam, sei lá, até 100 ou 150 litros por mês. Afinal de contas, exigir todo um processo industrial para permitir que os produtores comercializem acaba por retirar o caráter artesanal.

Mas acho que a maior falha do livro acontece justamente ao cair no erro de “classificar” cerveja artesanal e/ou puro malte como cerveja boa e querer colocar as cervejas industriais / comerciais como produtos ruins. Primeiro que “bom e ruim” são conceitos subjetivos e pessoais. Não dá para falar para alguém que gosta de tomar Brahma que ela e uma cerveja ruim. No máximo pode-se falar que você não gosta de Brahma, mas para aquela pessoa que aprecia, ela é uma boa cerveja. Não se pode querer medir todo mundo com sua própria régua.

E quando se incorre neste erro (de querer elevar as “puro malte” como única cerveja “de verdade”), geralmente acaba-se apelando para a Reinheitsgebot, a famosa lei da pureza alemã, para “avalizar” que cervejas puro malte são as “verdadeiras cervejas”. Primeiramente que a famosa lei tinha um caráter mais econômico do que de busca da qualidade. Segundo é que ela ja não existe há algum tempo como lei, apesar de ainda ocorrer na prática na Alemanha (as grandes cervejarias alemãs ainda produzem segundo a lei, mais por costume do que por obrigação). Até tem surgido algumas ondas de cervejeiros inovadores, especialmente em Berlin, que não seguem a lei. Terceiro que alegar que cerveja é so “agua, malte e lúpulo (e fermento)” acaba por desprezar a criatividade da escola belga (com suas fruit beers) e da recente escola americana (com suas misturas e invenções), sem falar das rice beers japonesas, além de limitar o próprio potencial cervejeiro brasileiro, já que, como um pais de dimensões continentais e com uma flora bastante diversa, o país oferece inúmeras possibilidades de matérias primas para inovar e, quem sabe, fazer o país se tornar uma escola cervejeira relevante.

Be happy 🙂

Dexter is Dead – Jeff Lindsay (04/2017)

Depois dos acontecimentos ao final do último livro, Dexter se encontra, finalmente, atrás das grades. Mas ironia do destino: desta vez por crimes que ele não cometeu. Além de preso, ele se vê abandonado pelos “amigos” e pela família, ficando perdido nas entranhas do sistema. E o único que se dispõe a ajudá-lo é seu irmao, Brian. Só que Brian também está envolvido em problemas tão grandes (ou até maiores) que os de Dexter e o preço desta “pequena” ajuda pode sair muito caro para o nosso querido anti-herói.

Não sei se é um recurso literário esta tática de enrolar bastante no início do livro e depois criar um êxtase fazendo as coisas correrem mais depressa do meio pro final (assim como começar com capitulos curtos e ir alongando durante o decorrer do livro), mas isto sempre me incomodou (inclusive no Stephen King, meu autor favorito). Se é um recurso literário, desta vez o Jeff Lindsay exagerou: quase 80 páginas (um quarto do livro) para descrever a monótona rotina do Dexter na cadeia.

Parece que ele tinha que bater uma meta de quantidade de páginas para poder vender o livro como um romance ao invés de classificar como um conto. Além do Lindsay parecer estar de saco cheio e cumprindo a obrigação de escrever o livro.

Talvez seja o pior da série, mas ainda assim ficou bem mais digno do que o final da série televisiva.

Para quem acompanhou toda a saga, vale para encerrar o ciclo, sem apresentar muitas surpresas e sem ser um ótimo livro.

Be happy 🙂