Arquivo da categoria: Resenha

Wonder – R. J. Palacio (04/2020)

Livro infanto-juvenil curtinho, mas bem interessante. Conta a estória de Auggie Pullman, um garoto dos seus 11 anos de idade e que é portador de uma síndrome congênita que causa deformações no rosto, além de outros diversos problemas de saúde. Após ser educado pela própria mãe em casa até os 10 anos, inclusive por conta das constantes cirurgias que o impediriam de acompanhar um ano letivo completo na escola, seus pais resolvem que é hora dele começar a frequentar uma escola regular para finalmente começar a ter uma vida normal como qualquer outra criança na sua idade.

Porém o fato da doença de Auggie provocar deformações físicas causa inúmeros contratempos nesta adaptação a uma nova fase, em um novo ambiente e com novos potenciais amigos.

Uma boa parte do livro é contada a partir da perspectiva de Auggie, mas alguns capítulos trazem as perspectivas de outros envolvidos neste processo e mostra como todas as pessoas próximas são impactadas (especialmente sua irmã), o que torna a estória bem interessante.

Por coincidência, logo após começar a leitura de Wonder comecei também a assistir a série Atypical, da Netflix, que tem o mesmo mote: mostrar como uma condição pode afetar uma pessoa e aqueles à sua volta. A diferença é que no caso de Atypical o personagem principal (Sam) é um jovem de 18 anos diagnosticado dentro do espectro do autismo e a série aborda a transição do segundo-grau para a universidade. Mas várias situações me pareceram bastante similares (a irmã protetora, por exemplo) e achei inclusive que a série havia se inspirado no livro, o que não consegui confirmar.

No Brasil o livro saiu com o título de Extraordinário e em 2017 foi lançado um filme baseado no livro.

Uma boa dica de leitura para todas as idades!.

Be happy 🙂

Os Anjos Bons da Nossa Natureza – Steven Pinker (03/2020)

Já diria Renato Russo em Baader-Meinhof Blues: “a violência é tão fascinante!”

Neste já best-seller, Steve Pinker tenta provar (com muita referência bibliográfica) a afirmação contida no subtítulo do livro: “porque a violência diminuiu”. Note que não se trata de uma pergunta, mas de uma afirmação, já que, de acordo com os dados fornecidos ao longo do livro, ela realmente vem diminuindo.

Importante notar que a análise que ele faz se dá ao longo de praticamente toda a história da humanidade, ou seja, medida em milênios. Se olharmos períodos menores, de décadas, ou até mesmo de um século, é possível que naquele corte a violência tenha aumentado, mas ao ampliar o escopo, especialmente comparando os grandes saltos da humanidade, a redução dos níveis de violência fica clara, apesar da dificuldade de coletar ou estimar dados com mais de 2 ou 3 séculos (e para o mundo todo).

No capítulo 1, meio no estilo do Sapiens, Pinker dá um panorama geral de como a violência era uma constante e até aceita (quando não exaltada) durante boa parte da história da humanidade. Os diversos tipos de violência faziam parte da cultura de praticamente todos os povos.

Entre os capítulos 2 e 7, ele elabora mais a tese central dividindo a redução da violência em 6 movimentos principais e cumulativos:

  • Processo de pacificação: transição de sociedades de caçadores-coletores para civilizações com cidades e governos, o que diminuiu as disputas por território e transferiu para um mediador o uso da força.
  • Processo Civilizador: a consolidação de pequenos entes (como os feudos) em grandes territórios, que ampliou a abrangência do movimento anterior.
  • Revolução Humanitária: impulsionada pelos ideais iluministas de igualdade e respeito ao ser humano, passa-se a valorizar a vida e a existência humanas. Além disto, através da disseminação da cultura através das artes (literatura, teatro, música), aproxima povos antes distantes, que poderiam se ver como potenciais inimigos.
  • A longa paz: o período que se segue após a segunda guerra, onde os estados se convencem de que um acordo ruim é mais vantajoso do que uma boa briga em praticamente 100% das situações.
  • A nova paz: o período pós guerra-fria, onde os conflitos “menores” (guerras civis, genocídios, repressão por governos autocráticos e ataques terroristas) vêm reduzido.
  • Revoluções dos direitos: ocorre em paralelo a longa-paz e a nova-paz, e diz respeito aos direitos básicos (aqueles do iluminismo) estendidos a grupos minoritários e/ou identitários (LGBTQ, mulheres, crianças, dos animais, entre outros) que talvez antes não fossem abrangidos.

Nos capítulos 8 e 9 ele aborda quais seriam prováveis causas biológicas para a violência (capítulo 8 – demônios interiores) e para a não-violência (capitulo 9 – anjos bons).

Finalmente, no último capítulo, a conclusão que já vinha sendo desenvolvida ao longo dos demais capítulos, com as cinco principais forças históricas responsáveis pelos processos de pacificação:

  • O Leviatã – a ascensão do Estado-nação moderno e das forças policiais e judiciárias deste Estado que detém o “monopólio do uso legítimo da força”, o que inibe os ataques exploradores, o impulso de vingança e retaliação (inclusive preventiva) e a resolução de conflitos através da violência.
  • Comércio – o aumento do progresso tecnológico que permite aumentar as redes de comércio e comunicação a distâncias enormes, cobrindo basicamente todo o planeta. Isto torna todo mundo em provável parceiro comercial que vale mais vivo que morto.
  • Feminização – crescente respeito pelos “interesses e valores das mulheres”, que são mais avessas a resolução de conflitos através da violência, tendem a ter um respeito maior pela vida e geralmente são menos impulsivas quando colocadas em situações de pressão/perigo.
  • Cosmopolitismo – o surgimento de forças como a alfabetização, a mobilidade e a mídia de massa, que expande o círculo de simpatia das pessoas além das nações ou grupos étnicos.
  • A Escada Rolante da Razão – causado basicamente pelos mesmos fatores que o cosmopolitismo / expansão do círculo de simpatia, mas diferindo neste no sentido de que é um movimento mais racional, ao considerar os interesses de outros e ignorar crendices e superstições.

O livro é muito bom, mas achei ele muito longo. Poderia ter feito igual ao Harari e quebrado em dois ou três volumes. Mas apesar disto é o livro que eu gostaria de ter escrito.

A propósito, Baader-Meinhof é como ficou conhecida a Fração do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion, em alemão, ou RAF), grupo de extrema-esquerda da Alemanha Ocidental formado na década de 70 e que tinha entre suas principais características atentados e sequestros “cinematográficos” afim de chamar a atenção da mídia. Pode-se dizer que eles foram os precursores do tipo de atentados terroristas que viriam a ser realizados à partir de então, com o intuito de gerar o máximo de terror a um maior número de pessoas possíveis através da difusão de suas ações na mídia (imagina eles em termpos de internet!). O apelido do grupo vem do nome de dois de seus líderes: Andreas Baader e Ulrike Meinhof que eram tão famosos que tinham até fãs, como os grupos de rock à época. Existe um livro muito interessante, chamado Televisionários, que conta a história do grupo.

Be happy 🙂

Bird Box – Josh Malerman (02/2020)

Bird Box é o livro que deu origem ao filme homônimo produzido pela Netflix e que fez algum burburinho em 2018. Pra início de conversa, eu não havia gostado do filme. A idéia central é bem legal, mas o filme é bem fraco na execução. Não é horrível, mas é aquele que você bota pra ver quando não tiver nenhuma outra opção ou apenas acompanha se estiver zapeando na TV e o encontra passando em algum canal (alguém ainda faz isto hoje em dia?).

Já haviam me dito que o livro era bem melhor (como ocorre via-de-regra), mas acabei não me interessando após ver o filme, até achá-lo numa promoção. Ficou alguns bons meses na estante, lá embaixo da minha lista de prioridades, até que resolvi finalmente ler.

A história, que se pretende ser um terror psicológico, se passa em torno de um mundo onde, de repente, a maioria das pessoas começa a apresentar um comportamento suicida após enxergar algo. Não vou entrar no detalhe do que é este algo para não dar spoilers. A solução então encontrada é que as pessoas não mais saiam de casa de olhos abertos, além de cobrirem todas as janelas dos imóveis (para evitar enxergar para fora). Mas até que as pessoas comecem a entender o que se passa e a encontrar esta “solução”, muito caos é instalado, com o colapso de tudo o que suporta nosso estilo de vida atual: transportes, telecomunicações, produção industrial, e assim por diante (algo parecido com o que uma pandemia pode causar se não for controlada).

É basicamente um misto de The Walking Dead com o Ensaio Sobre a Cegueira, do Saramago. Interessante pois sempre achei que The Walking Dead foi claramente inspirado no Ensaio, que por sua vez foi inspirado n’A Peste do Camus. De certa forma Bird Box tem a inspiração dos três.

O livro conta com duas estórias paralelas, intercaladas em capítulos alternados. Uma delas é a busca (às cegas) da personagem principal (Malorie, interpretada pela Sandra Bullock, o que salva um pouco o filme) por um local que promete ser um refúgio para trazer um pouco de paz em tempos de caos. A segunda linha traz a estória (em flashback) de Malorie desde o momento em que ela descobre uma gravidez não planejada até o ponto em que a busca por este refúgio se inicia. Ou seja, são duas linhas do tempo que se encontram no final do livro.

O livro é muito bem escrito, com o autor provendo muitos detalhes sem se tornar algo enfadonho. É um bom passatempo. Mas infelizmente como eu fiquei com os personagens do filme na cabeça não consegui montar os personagens e o filminho na minha imaginação, como normalmente ocorre. E este é o principal motivo pelo qual se deve, SEMPRE, ler o livro primeiro: para fazer sua imaginação voar.

A única exceção que encontrei até hoje para a regra de que o filme é SEMPRE melhor que o livro foi a adaptação de Good Omens, do Terry Pratchett e do Neil Gaiman. Não que o livro seja ruim, muito pelo contrário, tanto que foi um dos poucos livros que li mais de uma vez (quer dizer, em tese, já que li uma vez em inglês e outra em português). Mas a adaptação da Amazon em forma de mini-série ficou fantástica, muito por causa do elenco e, claro, pela fidelidade ao livro.

Be happy 🙂

Factfulness – Hans Hosling (01/2020)

Você acha que o mundo hoje está melhor ou pior do que há 20 ou 30 anos atrás? Bem, sugiro a você fazer o teste da Gapminder Foundation sobre como indicadores socioeconômicos têm mudado nas últimas décadas. Aposto que a maior parte das pessoas, por mais otimistas que sejam, não acertam todas as questões. Aproveite e assista também a uma das apresentações do Hans Hosling, como esta já famosa apresentação num TedTalk, ou alguma de Ola ou da Anna (filho e nora de Hans), colaboradores do livro e na fundação.

O enorme subtítulo, que numa tradução livre seria “Dez Razões Porque Estamos Enganados Acerca do Mundo – e Porque as Coisas Estão Melhores do que Você Pensa”, virou “O hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos” na versão brasileira, e talvez este subtítulo faça mais jus ao título (que nem é uma palavra de verdade, ainda…).

O livro trata de dez “instintos dramáticos”, cada um com um capítulo próprio, que turvam a nossa visão de mundo (já volto neles daqui a pouco). Estes instintos foram sendo desenvolvidos nos seres humanos através da evolução e nos foram muito úteis até aqui, afinal de contas, no meio da floresta ou da savana africana, é bem melhor começar a correr ao ouvir algum barulho do que parar para analisar o que poderia ser aquele barulho e, de repente, dar de cara com algum predador. Porém nos dias de hoje a maioria das ameaças que eram evitadas através do instinto já não se fazem tão presentes e analisar dados e fatos é a melhor forma de tomar as melhores decisões (ou as com maior chance de sucesso).

Porém, existem duas categorias de profissionais que exploram estes nossos instintos em benefício próprio e quase sempre a nosso desfavor: os jornalistas (que até o fazem sem má intenção, na maioria das vezes) e os políticos (que normalmente o fazem com má intenção!). No trecho em que ele fala em como a mídia abusa destes instintos, encontrei uma feliz coincidência: ele usa o mesmo exemplo que eu sempre uso para explicar porque usar somente informações da mídia (que dá atenção para os casos extremos, para os pontos fora da curva) ao moldar sua visão de mundo, via de regra conduz ao erro: o caso dos acidentes de avião.

Toda vez que acontece um acidente de avião a mídia explora o caso à exaustão, o que leva à má impressão de que voar de avião é inseguro. Porém, os acidentes são uma exceção muito rara diante do total de voos completados com sucesso. Só que não faria sentido nenhum a mídia noticiar todos os voos completados com sucesso. Imagina o jornal do meio dia listando todos os voos que deixaram sua origem e pousaram no destino sem nenhum incidente? 

Uma outra coincidência com outro trecho é quando ele faz a distinção entre ativistas e especialistas. O trecho discorre durante alguns parágrafos sobre as diferenças entre os dois, mais ou menos na mesma definição que eu uso: um especialista é alguém que vai analisar fatos e dados para moldar sua opinião e vai considerá-los mesmo que eles digam algo que vai contra os valores e princípios iniciais desta pessoa. Por outro lado, um ativista é alguém que vai procurar dados que confirmem os seus valores e princípios e, caso não os encontre, ele normalmente irá “fabricar” fatos. E no caso de encontrar dados que contradigam suas crenças, ele vai simplesmente ignorar.

Os dez instintos dramáticos trazidos à tona no livro são:

  1. Instinto de separação (gap instinct): o instinto de achar que tudo se divide em dois grupos muito distintos, com uma enorme distância entre eles, quando na verdade a maioria das coisas se concentra no meio e os extremos é que são minoria (a famosa distribuição normal).
  2. Instinto de negatividade (negativity instinct): sempre achar que as coisas estão piores do que estavam. As coisas podem não estar bem, mas geralmente quando falamos em indicadores socioeconômicos elas estão melhores do que há 10, 20, 30, 100 anos (varia dependendo do indicador). Ignorar o progresso é simplesmente jogar fora tudo o que foi feito de bom até o momento e que deveria continuar a ser feito.
  3. Instinto da linha reta (straight line instinct): assumir que uma linha de tendência vai sempre continuar na direção em que ela aponta. Quando se fala nestes indicadores socioeconômicos, geralmente nem é uma linha, mas sim uma curva, que atinge seu ápice ou vale e depois se estabiliza (afinal de contas nem tem como ter, por exemplo, taxa de mortalidade abaixo de zero).
  4. Instinto do medo (fear instinct): achar que as coisas são sempre ruins, que o pior vai sempre acontecer, deixando o medo se sobressair a racionalidade.
  5. Instinto do tamanho (size instinct): não colocar as coisas sob a perspectiva, a proporção correta, e achar que ou são muito grandes, ou muito pequenas.
  6. Instinto de generalização (generalization instinct): usar um exemplo ou um pequeno pedaço para definir o todo. Normalmente associado a preconceitos.
  7. Instinto do destino (destiny instinct): assumir que as coisas vão continuar a ser de um jeito porque elas sempre foram assim e uma mudança é inevitável. Muito relacionado aos instintos de tamanho e medo e, novamente, a preconceitos.
  8. Instinto da perspectiva única (single perspective instinct): querer usar sempre a mesma solução, a mesma “ferramenta”, para solucionar todos os problemas, por mais distintos um do outro que eles sejam.
  9. Instinto de (botar a) culpa (blame instinct): querer encontrar culpados ao invés de soluções.
  10. Instinto de urgência (urgency instinct): achar que tudo requer uma medida urgente, quando na verdade poucas coisas requerem tanta urgência a ponto de não se ter tempo de analisar a situação, as possibilidades e as consequências.

Cada um destes capítulos é recheado de dados e histórias da vida do próprio Hans, o que torna o livro uma quase biografia póstuma escrita pelo próprio. Infelizmente ele veio a falecer em 2017, vítima de um câncer no pâncreas diagnosticado cerca de um ano antes. O livro começou a ser escrito um pouco antes do diagnóstico e se tornou o trabalho final onde ele dedicou seus últimos meses de vida.

No final de cada capítulo, existem algumas dicas para evitar estes instintos, mais ou menos na pegada do A Field Guide to Lies. Sugiro demais a leitura do livro e, quem sabe, após a leitura você refaça o teste do início e se saia melhor do que os chimpanzés.

Be happy 🙂

The Long Dark Tea-time of the Soul – Douglas Adams (14/2019)

Na resenha sobre o primeiro livro da série Dirk Gently, eu expliquei um pouco do processo de criação do Douglas Adams. Também pontuei que achei o livro um tanto confuso, inclusive com uma das estórias não se encaixando muito bem na “colcha de retalhos” que os livros do Adams normalmente são.

Bem, não vou dizer que achei The Long…, o segundo livro da série, uma obra-prima, mas ao menos achei bem melhor que o primeiro. Talvez eu tenha pego a manhã de ler Douglas Adams em inglês, mas talvez o principal fato seja que neste as duas estórias principais (que se desenvolvem em paralelo, em conjunto com umas duas ou três linhas menores) ficaram bem melhor costuradas.

A primeira tem como ponto de partida um bate-boca entre dois passageiros e uma atendente de companhia aérea no balcão de check-in no Aeroporto Heathrow, em Londres, seguida por uma misteriosa explosão. A descrição de Adams para o aeroporto, suas áreas e respectivas funções é hilária! Já na segunda linha, nosso herói (?) se vê envolvido em na morte misteriosa de um de seus clientes (provavelmente o único cliente!).

A partir daí vários detalhes vão sendo adicionado à cada uma das linhas, bem como outras pequenas linhas vão sendo iniciadas, cada uma no apropriado tempo, para que no final todas elas se juntem. E aí achei o ponto fraco do livro: os capítulos que ligam todas as pontas têm um ritmo muito corrido e mereciam ser mais bem explorados. De qualquer forma, é um livro bem divertido.

Uma curiosidade a respeito do título: ele foi retirado de “A Vida, o Universo e Tudo Mais”, da série o guia. A frase foi usada para descrever o tédio miserável do ser imortal Wowbagger.

Be happy 🙂

Darwin Sem Frescura – Reinaldo José Lopes e Pirula (13/2019)

O biólogo Pirula e o jornalista Reinaldo José Lopes já são duas figuras bastante conhecidas na área de divulgação científica no Brasil. O primeiro, além de doutor em paleontologia, produz vídeos no seu canal no YouTube (que conta hoje com quase 900 mil inscritos) sobre ciências (além de outros assuntos) desde 2006. O segundo é jornalista especializado no tema, tendo já escrito pra o G1, Folha de São Paulo, Revista Piauí, Superinteressante, entre outros.

Neste livro eles tentam trazer para uma linguagem popular as teorias de Darwin, que modificaram à época o entendimento sobre o desenvolvimento da vida na terra e até hoje surpreendem por sua capacidade de explicar como os seres (e até as culturas) nascem e evoluem. Usando curiosidades, atualidades e polêmicas como pano de fundo para explicar as várias nuances da teoria da evolução, o livro consegue tornar um tema complexo (e eventualmente até chato) em algo divertido e por muitas vezes cômico.

Para quem já acompanha o canal do Pirula, cada capítulo segue basicamente o conteúdo de um dos vídeos, mas com um formato diferente. O fato de ser escrito e não “filmado” também faz com que muita coisa “desnecessária” que talvez um vídeo teria seja “limada”, indo direto ao alvo e se atendo ao tema do capítulo.

É claro que quem já leu a própria A Origem das Espécies, ou mesmo outros livros sobre o tema, como O Gene Egoísta, do Dawkins, pode achar o livro um pouco superficial e até bobo. Mas é uma boa e divertida introdução e talvez possa despertar a curiosidade, especialmente de jovens e adolescente, pelo tema.

Agora uma ironia que não dá para deixar passar em branco é a semelhança, tanto nos títulos, textos e diagramação com a série “Guia Politicamente Incorreto”. Um ponto negativo é que achei o livro curto. Mas entendo que isto talvez tenha se dado por características do mercado editorial brasileiro (tornar a produção e preço mais baratos). Então espero que este seja o primeiro de uma série, já que o assunto é fascinante e extenso.

Be happy 🙂

Samba de Enredo – Alberto Mussa e Luiz Antônio Simas (12/2019)

Escrito à quatro mãos pelo linguista e historiador Alberto Mussa e pelo também historiador Luiz Antônio Simas, este já um conhecido especialista na história do gênero brasileiro mais popular, o Samba, o livro se propõe a fazer o que descreve no  subtítulo: mostrar a “história e arte” deste que é mais do que um gênero musical, já que o enredo é a figura central e a música, bem como as alegorias (artes plásticas), a apresentação (artes cenográficas), além de diversos outros tipos de arte, servem ao enredo.

Dividido em três partes principais, o livro descreve na primeira delas (que é ordenada cronologicamente e separando em “eras”) o desenvolvimento da arte desde a pré-história, ou seja, dos movimentos culturais que viriam a gerar as agremiações, até a era moderna do samba de enredo (ou samba-enredo).

Na segunda parte o foco é nas principais escolas do Rio de Janeiro, incluindo algumas que não existem mais e até de alguns blocos que seguiam a mesma proposta de apresentar um enredo. Nesta segunda parte, além da “biografia” das escolas, traz também algumas informações como as premiações, os principais enredos e compositores que marcam a história de cada uma delas.

A terceira parte muda o foco para os compositores, já que muitos deles compuseram sambas para mais de uma agremiação, trazendo uma breve biografia de cada um dos principais compositores do gênero. O apêndice final traz uma lista de todos os sambas que eles conseguiram mapear e analisar para o trabalho, também em ordem cronológica. Infelizmente, muitos se perderam parcialmente (tem-se alguns trechos, normalmente passados de boca em boca, muitos só com a letra e sem a melodia) ou totalmente, já que a tradição de se registrar os sambas de enredo em gravações só se iniciou em meados da década de 60.

O livro é muito interessante para entender um pouco deste mundo fantástico que envolve os desfiles de carnaval e as escolas de samba. Também serve como um guia para procurar os sambas listados no Youtube. Só achei que caberia um quarto capítulo fazendo pelo menos um apanhado geral do desenvolvimento da arte em outros locais, especialmente São Paulo. Mas posso apenas estar sendo bairrista.

Be happy 🙂

Homo Deus: A History of Tomorrow – Yuval Noah Harari (11/2019)

Homo Deus é basicamente a continuação do Sapiens, do próprio Harari. Enquanto o Sapiens conta a história dos humanos desde o surgimento de outras espécies de hominídeos até os tempos atuais, Homo Deus tenta imaginar o que acontecerá com a nossa espécie e como ela evoluirá daqui em diante. Sapiens é mais centrado em história e biologia (evolução), Homo Deus é um livro mais filosófico e um exercício de “futurologia”.

No enorme e cansativo primeiro capitulo (70 páginas!) e nos dois capítulos seguintes, que formam a primeira parte do livro, denominada “O Homo sapiens conquista o mundo”, Harari faz um resumo da primeira obra, revisando como foi a caminhada do homem desde o seu surgimento até o domínio sobre outras espécies e sua consolidação como a mais bem-sucedida delas.

Na segunda parte, “O Homo sapiens dá um significado ao mundo”, vem a parte filosófica, onde ele se estende, além da parte histórica, pela busca do homem a dar um sentido à sua existencia. Nesta parte ele foca muito no humanismo como uma forma que o ser humano encontrou para dar este sentido. Neste ponto o ser humano passa a ser o centro do universo e de todas as atenções. Esta abordagem faz com que inclusive ele ache que todo o restante do mundo e todas as demais espécies estão ao seu dispor.

Na terceira parte ocorre o exercício de futurologia. Harari tenta imaginar como a espécie irá evoluir à partir deste momento em que vivemos, onde estamos conseguindo inclusive desenvolver a capacidade de manipularmos a evolução da nossa espécie, através de engenharia e genética, e não mais dependendo do acaso da evolução.

Achei o livro interessante, porém bastante cansativo e não tão fluido quanto o Sapiens. Mesmo assim a leitura vale muito, especialmente a terceira parte.

Be happy 🙂

Slaughterhouse-Five – Kurt Vonnegut (10/2019)

Segundo o prefácio, escrito pelo próprio autor, Kurt Vonnegut sempre quis escrever um livro baseado na sua história pessoal como prisioneiro de guerra em Dresden, durante a segunda guerra mundial. A experiência foi marcante pois ele estava na cidade quando esta, já no final da guerra, sofreu um intenso bombardeio, considerado por muitos totalmente desnecessário àquela altura do conflito.

Ao procurar um antigo companheiro para colher informações sob outra perspectiva, prometeu à mulher deste que não escreveria um livro “heróico” e não “glamourizaria” a guerra. E assim o fez com maestria: criou uma estória que mistura alguns fatos e personagens reais com ficção, jogando na cara todo horror presenciado por quem esteve no front de batalha, em contraste com a tendência de romantizar a guerra que normalmente ocorre com quem as promove (oficiais, políticos, etc.). E sendo um livro do Vonnegut, não poderia faltar muita ironia e humor.

Porém é aquele humor que faz você sentir vergonha de ter achado engraçado, e isto foi feito propositalmente pelo autor ao criar como personagem principal Billy Pilgrim, um oftalmologista (optometrist em inglês) que é um personagem muito caricato. Além disto a estória de Billy ainda traz à tona as agruras posteriores (ou anteriores, bem, o tempo não existe) a este evento tão traumático.

É um livro maravilhoso, daqueles que dá aquele aperto no peito, uma angústia, que a gente não consegue explicar direito porque. Para mim junto com Nada de Novo no Front, do Erich Maria Remarque, e com Maus, do Art Spiegelman o livro forma uma trilogia espetacular sobre guerras. E Kurt Vonnegut já está entrando na minha lista de autores favoritos.

So it goes.

Be happy 🙂

The Inevitable: Understanding the 12 Technological Forces That Will Shape Our Future – Kevin Kelly (9/2019)

Kevin Kelly é um dos fundadores da revista Wired e um estudioso de tecnologia e de cultura digital. Num exercício de futurologia, ele tenta prever em The Inevitable quais são as 12 tendências tecnológicas que devem permear as nossas vidas em um futuro próximo. Porém, ao invés de falar de tecnologias específicas, ele tenta descrever ações que serão providas ou incorporadas por tecnologias. E para isto ele usa os verbos no gerúndio como título de cada um dos capítulos.

A explicação do porque disto ocorre no primeiro capítulo, Becoming, onde ele afirma que hoje em dia praticamente nada tem um estado final e tudo está constantemente evoluindo. E isto deve se acelerar mais ainda.

Outro capítulo bem interessante é Sharing, onde ele chega à mesma conclusão que eu e o Peter Huber (em Orwell’s Revenge: The 1984 Palimpsest) chegamos de que, através da colaboração em larga escala, a tecnologia está conseguindo entregar o que tanto o capitalismo quanto o socialismo nunca conseguiram. Um trecho do que escrevi na época que li o livro de Huber:

…a Internet, as novas tecnologias e os modelos de economia compartilhada ameaçam o status quo: elas estão criando a possibilidade de uma sociedade com oportunidades e equidade que as teorias baseadas em Marx nunca conseguiram entregar, enquanto ao mesmo tempo quebram a lógica da concentração de poder e renda que as “elites” e os políticos têm no denominado “Capitalismo”.

Nos dois capítulos finais, o autor faz a observação de que cada resposta que encontramos gera um número maior ainda de novas perguntas (Questioning) e que invariavelmente estas perguntas iniciam um novo ciclo (Beginning ) em busca de respostas.

Os demais capítulos do livro são:

  • Cognifying: tornar tudo cada vez mais inteligente usando o poder da inteligencia artificial que, com a tecnologia de cloud computing, tem se tornado cada vez mais barata.
  • Flowing: tornar tudo um fluxo infinito, sem início e sem fim. Tem muita relação com Becoming e com Accessing (abaixo).
  • Screening: tornar qualquer superfície em uma tela ou algum outro tipo de meio para transmitir e receber informação.
  • Accessing: a mudança da cultura de aquisição de bens para uso de servicos, que já vem ocorrendo (por exemplo, no caso de um carro próprio X Uber) e que deve se acentuar ainda mais.
  • Filtering: a necessidade que temos de filtrar a informação que nos chega, já que é humanamente impossível absorvermos tudo o que é produzido atualmente (Cognifying é um meio para isto).
  • Remixing: a tendência de produzirmos conteúdo (música, vídeo, fotografia, textos, etc.) através de colagens de conteúdo de terceiros.
  • Interacting: interação total com os computadores, inclusive através de implantes e ondas cerebrais.
  • Tracking: emprego de vigilância total (vídeo, áudio, telemetria, biometria) em benefício de cidadãos e consumidores.

No final de cada um dos capítulos ele faz um exercício imaginando como seria um dia dele num futuro onde estas tendências existissem, e ai enfim ele descreve um pouco a aplicação prática de cada um dos conceitos. O livro tem mais ou menos o mesmo mote de Black Mirror, mas sem ser pessimista e sem entrar nos dilemas éticos, apenas focando nos benefícios da tecnologia.

Be happy 🙂