Arquivo da tag: Resenha

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis (02/2021)

memorias_postumas

Machado de Assis é provavelmente o maior escritor brasileiro de todos os tempos e “Memórias Póstumas” é uma de suas principais obras (provavelmente a mais famosa e mais lida delas), que forma junto com Quincas Borba e Dom Casmurro aquilo é conhecido como a “trilogia Machadiana” (ou Trilogia Realista). Se você nunca leu esta obra ou se nunca leu Machado, apenas pare tudo o que está fazendo agora e vá ler. É imperdoável para qualquer brasileiro (diria até para qualquer falante nativo da Língua Portuguesa) não ter lido pelo menos a trilogia.

Eu tinha lido esta obra na minha adolescência, lá pelos 16 anos, numa edição “tijolo” que contava também com Quincas Borba e Dom Casmurro. A primeira coisa que me chamou a atenção à época foi o fato de ser um livro narrado em primeira pessoa, porém por um defunto. Ou seja, uma autobiografia póstuma! O livro começa exatamente com a dedicatória de Brás Cubas ao verme que “primeiro roeu suas carnes frias” para em seguida descrever como ocorreu o seu funeral. Genial! Depois deste início, ele volta ao começo de sua vida, na verdade até antes, descrevendo seus antepassados e toda a sua vida, até emendar com o funeral novamente.

Uma outra coisa que também me chamou a atenção foi o humor ácido e a fina e nobre arte da ironia. Se na época da primeira leitura eu já conhecesse o Monty Python, Douglas Adams, e outros do gênero, com certeza teria feito uma relação com o humor britânico. Imagino que o tipo de sarcasmo de Machado era bem à frente do seu tempo e que muito provavelmente o livro tenha sido incompreendido por muitos à época.

Não vou entrar em detalhes da estória pois, como já disse, ela é leitura obrigatória. Então vou falar um pouco da edição: quando soube que lançariam uma edição do Memórias com ilustrações do Candido Portinari, que haviam sido feitas para uma edição comemorativa na primeira metade do século XX, fui obrigado a colocar na lista. Edição de colecionador mesmo (e olha que eu não costumo guardar livros).

Os desenhos são fantásticos e ilustram muito bem personagens e passagens da obra (a capa é o próprio verme já citado!). As notas de rodapé, o prefacio (explicando a edição) e o posfácio (explicando Machado e sua obra) são muito interessantes também. Claro que tudo isto são “complementos” para o prato principal, que é o texto delicioso de Machado. Daqueles que te fazem não querer parar de ler o livro enquanto ele não termina.

Mas ainda bem que com o tempo eu aprendi a saborear o prazer de ler, ao invés de devorar livros, e desta vez pude apreciar cada momento da releitura (coisa que faço bem pouco também) décadas depois da primeira vez.

Be happy 🙂

Ghost Rider – Neil Peart (01/2021)

ghost_riderEntre Agosto de 1997 e Junho de 1998, Neil Peart, baterista e letrista do power trio canadense Rush (uma das minhas 4 bandas favoritas, junto com Beatles, Pink Floyd e Yes) perdeu a filha num acidente automobilístico e em seguida a esposa, vitima de um câncer (“na verdade de coração partido”, como ele escreve no livro). A fim de interromper uma espiral autodestrutiva ele resolve sair com sua BMW R 1100 GS vermelha praticamente sem destino, numa jornada com o único fim de manter a mente ocupada, pilotando pelo Canadá, EUA, México e chegando até Belize. Uma experiência que ele ele viria a chamar de  “viagens na estrada da cura” (Travels on the Healing Road, o subtítulo do livro).

É importante frisar o “praticamente sem destino”, já que, exceto por poucos lugares, as rotas e as estadias eram escolhidos quase que aleatoriamente, sendo estas escolhas muito influenciadas pelas condições meteorológicas e pelo “mood” de Neil. As exceções foram destinos com o intuito de visitar algum amigo ou familiar, pela necessidade de ter que agendar previamente algo (um ferry boat, por exemplo) ou para fazer manutenção da motocicleta.

A parte inicial do livro conta os desfortúnios, a “preparação” para a viagem e a primeira etapa da jornada. Após algumas semanas na estrada, Brutus – um dos seus melhores amigos e companheiro de viagens de moto – é preso. Neil então começa a se comunicar constantemente com Brutus através de cartas.

Esta primeira parte até a prisão (cerca de 1/3 do livro), além de contar com relatos escritos posteriormente (a parte dos desfortúnios e a preparação para a jornada), também conta os caminhos, locais e percalços pelos quais ele passou e que foram registrados num diário.

Ele também relata nesta parte como “aprendeu” a fazer as fotos do Ghost Rider, como ele viria a se chamar no decorrer do livro:  colocar a moto no cavalete central e tirar uma foto dela compondo a paisagem, o que dá a impressão de que a moto está rodando sozinha, sem ninguém pilotando. Ou como se a motocicleta estivesse sendo pilotada por um fantasma.

O restante do livro é basicamente uma transcrição das cartas que ele escrevia para Brutus e para algumas outras pessoas. Elas são legais, mas um tanto enfadonhas. Um pouco pelo fato dele se colocar em uma posição de vitimismo (o que é totalmente aceitável devido às agruras pelas quais ele passou), o que tornou a leitura um tanto cansativa e repetitiva. O segundo é o estilo do texto (cartas) em si, que não me agradou tanto. Preferi muito mais a primeira parte, em formato de um diário de bordo.

Um outro ponto interessante é que, nesta jornada sem roteiro, muitas das razões que fariam ele escolher algumas das rotas eram relacionadas ao que ele estava lendo no momento (Neil era um leitor voraz!). O livro foi ótimo para pegar algumas dicas literárias e até já comprei um do Jack London (The Sea-Wolf) para conhecer (mas ainda tenho uns 3 ou 4 na frente). Além da vontade de ler os autores citados, os relatos do livro também dão uma vontade danada de montar numa moto e sair sem rumo.

Infelizmente Neil faleceu no início de 2020. Mas como li uma vez (e meio que parafraseando Carl Sagan): não lamente a perda, comemore o prazer de ter coexistido com um ser como Neil no mesmo planeta e época, mesmo diante da imensidão do universo e da vastidão do tempo.

E sua obra, o seu legado, tanto literário quanto musical, está todo ai para ser apreciado. 

Be happy 🙂

Sagarana – João Guimarães Rosa (08/2020)

Confesso que nunca tinha lido João Guimarães Rosa na vida. Pelo menos não que eu me lembre. E olha que durante a adolescência eu era um leitor voraz, praticamente um rato de biblioteca. Mas sei lá por que, nunca um livro do autor cruzou meu caminho.

E também não sei por que cargas d’água eu encasquei que iria ler Sagarana há pouco mais de um ano atrás. Talvez alguém compartilhou no Facebook e acabou grudando no meu subconsciente. Então na última vez que estive no Brasil o livro já estava na minha lista. Mas não consegui encontrá-lo disponível no Submarino (ao menos não num tempo de entrega que me atendesse).

Neste interim fui arrumar umas tralhas minhas e dar fim em algumas coisas que ainda estão na casa da minha mãe e, dentre alguns outros livros que haviam no “quartinho da bagunça”, achei Sagarana. Uma edição de 1984, meio surrada até (inclusive com partes de algumas poucas páginas faltando). Parece que ele estava há um tempão me esperando!

O livro, o primeiro publicado por Guimarães Rosa, é uma coleção de contos, alguns com um certo ar de fábula. Todos eles retratando a vida, o cotidiano e os causos do povo do sertão, especificamente do sertão de Minas Gerais das primeiras décadas do século passado. As vezes dá a impressão de que são aqueles causos que são contados há diversas gerações, que ninguém sabe se ocorreram ou não e que vão se adaptando conforme são passados adiante.

Mesmo se for este o caso, Guimarães Rosa teve maestria em colocá-los no papel. Mais do que isto, em conduzir as narrativas de uma forma muito bonita e até terna, mesmo naqueles contos em que a estória era triste ou “pesada”. Me lembrou os poucos contos de Gorki que eu li.

Um outro ponto que chama a atenção no livro é a riqueza de detalhes em descrever o ambiente. É impressionante o conhecimento da fauna e da flora que Guimarães Rosa parecia ter. Foi tanto nome popular pra planta e bicho que até me perdia de vez em quando. Uma das diversões enquanto lia o livro era tentar imaginar como deve parecer algumas das plantas e animais mencionados. Mas confesso que recorri ao Google algumas vezes, só por curiosidade.

Todos os 9 contos são muito bons, mas se for pra destacar alguns, eu destacaria “O Burrinho Pedrês” (uma estória com várias miniestórias dentro),  “Conversa de Bois” (conto um tanto sombrio) e “A hora e vez de Augusto Matraga” (uma “jornada do herói” que conta até com algumas adaptações para teatro e cinema, entre elas esta que devo assistir logo mais: https://www.youtube.com/watch?v=0h2JAyfBObk )

Apesar do livro se situar em determinado ponto do tempo (primeiras décadas do século passado) e espaço (interior de Minas Gerais), qualquer uma das estórias poderia ser facilmente transportada para outros tempos e outros lugares do Brasil e talvez do mundo. Muitas delas eu conseguiria transportar para Ibaté, no interior de São Paulo, onde passava minhas férias durante a infância e adolescência. E onde também consumia vorazmente os livros pequena (a época) biblioteca local.

Be happy 🙂

The Ministry of Truth: The Biography of George Orwell’s 1984 – Dorian Lynskey (07/2020)

De tempos em tempos uma das duas principais obras de George Orwell (Animal Farm e 1984) ganham os holofotes. A mais recente delas ocorreu com a surpreendente vitória de Donald Trump nas eleições presidenciais dos EUA em 2016. Após a cerimonia de posse, Sean Spicer, então secretário de imprensa de Trump, afirmou que a cerimonia tinha tido o maior público para uma cerimonia do tipo até então, não só nos EUA, mas no mundo todo, em qualquer momento da história, fato facilmente desmentido pelas imagens do evento. Quando questionada a respeito, já que os fatos eram contrários a tal afirmação, Kelliane Conway, então conselheira do presidente, disse que existiam fatos alternativos (e os jornalistas presentes perderam uma grande oportunidade de afirmar que qualquer alternativa a um fato é simplesmente mentira). As vendas de 1984 dispararam logo em seguida!

Aproveitando o embalo, Dorian Lynskey resolveu lançar uma “biografia” de 1984.

Usar o termo “biografia” para uma obra literária soa um pouco estranho, mas a palavra cabe, já que a proposta foi exatamente ter a obra como ponto central e tentar dissecar (outro termo aplicável a seres orgânicos) como a obra foi feita, influenciada e como ela influenciou outras obras e a sociedade em geral.

Obviamente que para entender tudo o que pode ter influenciado a obra, uma biografia do próprio autor se faz necessária, então o livro traz bastante detalhes sobre a vida de Orwell, especialmente sobre sua formação. Também a fim de explicar as influências, existem partes dissecando utopias que precederam 1984, como The Sleeper Awakes, de H.G. Wells (autor que mereceu um capítulo inteiro) e Looking Backwards, de Edward Bellamy, que foi o precursor do gênero utópico. Uma das hipóteses de Lynskey é que Orwell quis criar propositalmente um contraponto à este gênero.

Mas talvez a obra que mais motivou e inspirou 1984 tenha sido We, do escritor russo Yevgeny Zamyatin, que é provavelmente a primeira obra do gênero que viria a se chamar distopia. We é também considerado uma forte influência de Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, que forma junto com Farenheit 451, de Ray Bradbury, a trilogia clássica da distopia. Outra obra bastante citada no decorrer do livro e que recebeu influências de todas estas citadas é The Handmaid’s Tale, de Margaret Atwoods.

Um outro ponto interessante do livro é uma análise de como o livro influenciou as sociedades. Duplipensar (doublethink), crimepensar (thoughtcrime), Big Brother, buraco da memória (memory hole). Todos são termos que se popularizaram a partir do livro. Até “orwelliano” virou uma expressão que é usada tanto no sentido de “prever” como Orwell ou de ser “previsto” por Orwell. Praticamente um duplipensar! Importante sempre frisar, como já fiz na resenha de Orwell’s Revenge, que o próprio Orwell não se considerava e nem gostava de ser entendido como um “profeta”.

Pelo lado da política, praticamente todas as correntes ideológicas já usaram termos cunhados ou ideias desenvolvidas por Orwell, geralmente atribuindo-os ao “outro lado”: socialistas e capitalistas, conservadores e liberais, autoritários e democratas. Nada mais Orwelliano!

Um livro bem interessante para quem, como eu, é fã do autor (1984 e Animal Farm estão no meu top 10 de melhores livros!). E claro, como não podia faltar, fica a dica de Animals, meu album preferido do Pink Floyd, que foi inspirado em Animal Farm..

Be happy 🙂

Noites Tropicais: solos, improvisos e memórias musicais – Nelson Motta (06/2020)

Nelson Motta é jornalista, compositor, produtor musical e exerceu muitas outras funções ligadas à arte, especialmente a música, nas últimas décadas no Brasil. Mesmo exercendo funções de “bastidores”, ele é bastante conhecido pois apresentou durante um bom tempo um quadro semanal sobre música no vespertino Jornal Hoje, da Rede Globo. Nesta autobiografia ele conta a história de sua vida e pedaços das histórias de vida de outras pessoas com os quais ele conviveu, especialmente artistas.

O livro não é lá muito bem organizado em termos de datas e contextualização, mas é justamente isto que o torna divertido. Dá a impressão de um bate-papo de mesa de boteco com aquele seu amigo falastrão que gosta de contar mentira e vantagem (e todo mundo tem um amigo assim). Nunca dá pra saber o que é verdade ou mentira, especialmente quando ele fala sobre os bastidores, já que muitos dos personagens envolvidos já não estão mais aqui para confirmar ou desmentir. De qualquer forma, sendo ou não verdade, ele mesmo acredita fielmente naquilo. Como li numa outra resenha: ele é o Forrest Gump da MPB.

Apesar da falta de precisão e da sensação de que ele está sempre aumentando um ponto, especialmente no que se refere ao seu próprio papel nos acontecimentos e movimentos, o livro passa um bom panorama do desenvolvimento da música popular no Brasil, desde o início da Bossa Nova (meio da década de 60) até o final dos anos 2000.

Acabei terminando o livro com a mesma sensação que tive quando terminei a biografia do Lobão: o cara pra ter vivido tudo isto deve ter agora uns 300 anos. Ainda assim é um bom passatempo, além de contar com dicas preciosas de artistas e músicas.

Be happy 🙂

Gilberto Gil – Todas As Letras – Carlos Rennó (05/2020)

Há várias maneiras de se cantar e fazer música brasileira: Gilberto Gil prefere todas” – Torquato Neto

Neste típico livro de mesa de centro, Carlos Rennó compila quase toda a obra de Gilberto Gil (até 2002, ano anterior ao que o livro foi publicado). “Quase” porque segundo o prefácio muita coisa que não foi gravada ou transcrita, especialmente do início de carreira, se perdeu. Em 2003, ano de lançamento do livro e em que já existiam diversos sites com letras (e cifras) de músicas, talvez uma compilação destas já não tivesse tanto apelo, a não ser pelo “detalhe” de ter muitas das letras comentadas pelo próprio Gilberto Gil.

Além dos comentários, uma parte extraída de outras fontes (como entrevistas) e outra parte feita especificamente para este livro, o “guia” conta também com duas seções com fotos (muitas de acervo pessoal) e uma minibiografia inicial, que é importante para entender a dinâmica da evolução das canções.

Mas o próprio livro é uma autobiografia em si, já que além de ser organizado por ordem cronológica, Gil traça um panorama do que estava acontecendo no Brasil e no mundo e pelo que ele estava passando e o que estava sentindo em cada comentário. E claro, como tudo isto influenciou aquela canção (ou canções), álbum ou período.

O livro traz também duas curiosidades muito pouco conhecidas do público geral. A primeira é que, ainda na Bahia e antes de se mudar para São Paulo para estagiar na Gessy Lever, Gil trabalhou como freelancer em uma agência de publicidade fazendo jingles para lojas e políticos. A outra é que, além de compor para si e para sua turma (Tropicalistas, Doces Bárbaros e os parceiros de sempre, como Chico Buarque e Caetano Veloso), Gil também fez algumas canções para outros artistas menos relacionados aos movimentos do quais fez parte, como Roberto Carlos, Alcione e Zezé Motta, algumas delas por encomenda.

A obra também é uma mostra da versatilidade de Gil: tem músicas que ele fez para poemas de outras pessoas, tem poemas que ele fez para músicas de outras pessoas, tem composições sozinho, tem parcerias (letra e música compostas com outras pessoas ao mesmo tempo), tem versões (de músicas em inglês e francês para o português), tem composições próprias em outras línguas (inglês e francês).

Enfim, um artista completo que além de grande poeta é também um músico sensacional. Para não falar da “pessoa” Gil, que transmite aquela sensação de paz, de serenidade, antes mesmo de tocar o primeiro acorde ou cantar a primeira sílaba.

Mesmo que o site de Gil atualmente contenha praticamente todas as letras (inclusive as posteriores ao livro), muitas delas com os mesmos comentários do livro e eventualmente até mais coisas (como a ficha técnica), ainda é um livro pra deixar lá na coffee table para dar uma folheada de vez em quando. Ou procurar alguma letra no índice ao ouvir a música. Bem mais agradável do que usar o Google.

Be happy 🙂

Wonder – R. J. Palacio (04/2020)

Livro infanto-juvenil curtinho, mas bem interessante. Conta a estória de Auggie Pullman, um garoto dos seus 11 anos de idade e que é portador de uma síndrome congênita que causa deformações no rosto, além de outros diversos problemas de saúde. Após ser educado pela própria mãe em casa até os 10 anos, inclusive por conta das constantes cirurgias que o impediriam de acompanhar um ano letivo completo na escola, seus pais resolvem que é hora dele começar a frequentar uma escola regular para finalmente começar a ter uma vida normal como qualquer outra criança na sua idade.

Porém o fato da doença de Auggie provocar deformações físicas causa inúmeros contratempos nesta adaptação a uma nova fase, em um novo ambiente e com novos potenciais amigos.

Uma boa parte do livro é contada a partir da perspectiva de Auggie, mas alguns capítulos trazem as perspectivas de outros envolvidos neste processo e mostra como todas as pessoas próximas são impactadas (especialmente sua irmã), o que torna a estória bem interessante.

Por coincidência, logo após começar a leitura de Wonder comecei também a assistir a série Atypical, da Netflix, que tem o mesmo mote: mostrar como uma condição pode afetar uma pessoa e aqueles à sua volta. A diferença é que no caso de Atypical o personagem principal (Sam) é um jovem de 18 anos diagnosticado dentro do espectro do autismo e a série aborda a transição do segundo-grau para a universidade. Mas várias situações me pareceram bastante similares (a irmã protetora, por exemplo) e achei inclusive que a série havia se inspirado no livro, o que não consegui confirmar.

No Brasil o livro saiu com o título de Extraordinário e em 2017 foi lançado um filme baseado no livro.

Uma boa dica de leitura para todas as idades!.

Be happy 🙂

Os Anjos Bons da Nossa Natureza – Steven Pinker (03/2020)

Já diria Renato Russo em Baader-Meinhof Blues: “a violência é tão fascinante!”

Neste já best-seller, Steve Pinker tenta provar (com muita referência bibliográfica) a afirmação contida no subtítulo do livro: “porque a violência diminuiu”. Note que não se trata de uma pergunta, mas de uma afirmação, já que, de acordo com os dados fornecidos ao longo do livro, ela realmente vem diminuindo.

Importante notar que a análise que ele faz se dá ao longo de praticamente toda a história da humanidade, ou seja, medida em milênios. Se olharmos períodos menores, de décadas, ou até mesmo de um século, é possível que naquele corte a violência tenha aumentado, mas ao ampliar o escopo, especialmente comparando os grandes saltos da humanidade, a redução dos níveis de violência fica clara, apesar da dificuldade de coletar ou estimar dados com mais de 2 ou 3 séculos (e para o mundo todo).

No capítulo 1, meio no estilo do Sapiens, Pinker dá um panorama geral de como a violência era uma constante e até aceita (quando não exaltada) durante boa parte da história da humanidade. Os diversos tipos de violência faziam parte da cultura de praticamente todos os povos.

Entre os capítulos 2 e 7, ele elabora mais a tese central dividindo a redução da violência em 6 movimentos principais e cumulativos:

  • Processo de pacificação: transição de sociedades de caçadores-coletores para civilizações com cidades e governos, o que diminuiu as disputas por território e transferiu para um mediador o uso da força.
  • Processo Civilizador: a consolidação de pequenos entes (como os feudos) em grandes territórios, que ampliou a abrangência do movimento anterior.
  • Revolução Humanitária: impulsionada pelos ideais iluministas de igualdade e respeito ao ser humano, passa-se a valorizar a vida e a existência humanas. Além disto, através da disseminação da cultura através das artes (literatura, teatro, música), aproxima povos antes distantes, que poderiam se ver como potenciais inimigos.
  • A longa paz: o período que se segue após a segunda guerra, onde os estados se convencem de que um acordo ruim é mais vantajoso do que uma boa briga em praticamente 100% das situações.
  • A nova paz: o período pós guerra-fria, onde os conflitos “menores” (guerras civis, genocídios, repressão por governos autocráticos e ataques terroristas) vêm reduzido.
  • Revoluções dos direitos: ocorre em paralelo a longa-paz e a nova-paz, e diz respeito aos direitos básicos (aqueles do iluminismo) estendidos a grupos minoritários e/ou identitários (LGBTQ, mulheres, crianças, dos animais, entre outros) que talvez antes não fossem abrangidos.

Nos capítulos 8 e 9 ele aborda quais seriam prováveis causas biológicas para a violência (capítulo 8 – demônios interiores) e para a não-violência (capitulo 9 – anjos bons).

Finalmente, no último capítulo, a conclusão que já vinha sendo desenvolvida ao longo dos demais capítulos, com as cinco principais forças históricas responsáveis pelos processos de pacificação:

  • O Leviatã – a ascensão do Estado-nação moderno e das forças policiais e judiciárias deste Estado que detém o “monopólio do uso legítimo da força”, o que inibe os ataques exploradores, o impulso de vingança e retaliação (inclusive preventiva) e a resolução de conflitos através da violência.
  • Comércio – o aumento do progresso tecnológico que permite aumentar as redes de comércio e comunicação a distâncias enormes, cobrindo basicamente todo o planeta. Isto torna todo mundo em provável parceiro comercial que vale mais vivo que morto.
  • Feminização – crescente respeito pelos “interesses e valores das mulheres”, que são mais avessas a resolução de conflitos através da violência, tendem a ter um respeito maior pela vida e geralmente são menos impulsivas quando colocadas em situações de pressão/perigo.
  • Cosmopolitismo – o surgimento de forças como a alfabetização, a mobilidade e a mídia de massa, que expande o círculo de simpatia das pessoas além das nações ou grupos étnicos.
  • A Escada Rolante da Razão – causado basicamente pelos mesmos fatores que o cosmopolitismo / expansão do círculo de simpatia, mas diferindo neste no sentido de que é um movimento mais racional, ao considerar os interesses de outros e ignorar crendices e superstições.

O livro é muito bom, mas achei ele muito longo. Poderia ter feito igual ao Harari e quebrado em dois ou três volumes. Mas apesar disto é o livro que eu gostaria de ter escrito.

A propósito, Baader-Meinhof é como ficou conhecida a Fração do Exército Vermelho (Rote Armee Fraktion, em alemão, ou RAF), grupo de extrema-esquerda da Alemanha Ocidental formado na década de 70 e que tinha entre suas principais características atentados e sequestros “cinematográficos” afim de chamar a atenção da mídia. Pode-se dizer que eles foram os precursores do tipo de atentados terroristas que viriam a ser realizados à partir de então, com o intuito de gerar o máximo de terror a um maior número de pessoas possíveis através da difusão de suas ações na mídia (imagina eles em termpos de internet!). O apelido do grupo vem do nome de dois de seus líderes: Andreas Baader e Ulrike Meinhof que eram tão famosos que tinham até fãs, como os grupos de rock à época. Existe um livro muito interessante, chamado Televisionários, que conta a história do grupo.

Be happy 🙂

Bird Box – Josh Malerman (02/2020)

Bird Box é o livro que deu origem ao filme homônimo produzido pela Netflix e que fez algum burburinho em 2018. Pra início de conversa, eu não havia gostado do filme. A idéia central é bem legal, mas o filme é bem fraco na execução. Não é horrível, mas é aquele que você bota pra ver quando não tiver nenhuma outra opção ou apenas acompanha se estiver zapeando na TV e o encontra passando em algum canal (alguém ainda faz isto hoje em dia?).

Já haviam me dito que o livro era bem melhor (como ocorre via-de-regra), mas acabei não me interessando após ver o filme, até achá-lo numa promoção. Ficou alguns bons meses na estante, lá embaixo da minha lista de prioridades, até que resolvi finalmente ler.

A história, que se pretende ser um terror psicológico, se passa em torno de um mundo onde, de repente, a maioria das pessoas começa a apresentar um comportamento suicida após enxergar algo. Não vou entrar no detalhe do que é este algo para não dar spoilers. A solução então encontrada é que as pessoas não mais saiam de casa de olhos abertos, além de cobrirem todas as janelas dos imóveis (para evitar enxergar para fora). Mas até que as pessoas comecem a entender o que se passa e a encontrar esta “solução”, muito caos é instalado, com o colapso de tudo o que suporta nosso estilo de vida atual: transportes, telecomunicações, produção industrial, e assim por diante (algo parecido com o que uma pandemia pode causar se não for controlada).

É basicamente um misto de The Walking Dead com o Ensaio Sobre a Cegueira, do Saramago. Interessante pois sempre achei que The Walking Dead foi claramente inspirado no Ensaio, que por sua vez foi inspirado n’A Peste do Camus. De certa forma Bird Box tem a inspiração dos três.

O livro conta com duas estórias paralelas, intercaladas em capítulos alternados. Uma delas é a busca (às cegas) da personagem principal (Malorie, interpretada pela Sandra Bullock, o que salva um pouco o filme) por um local que promete ser um refúgio para trazer um pouco de paz em tempos de caos. A segunda linha traz a estória (em flashback) de Malorie desde o momento em que ela descobre uma gravidez não planejada até o ponto em que a busca por este refúgio se inicia. Ou seja, são duas linhas do tempo que se encontram no final do livro.

O livro é muito bem escrito, com o autor provendo muitos detalhes sem se tornar algo enfadonho. É um bom passatempo. Mas infelizmente como eu fiquei com os personagens do filme na cabeça não consegui montar os personagens e o filminho na minha imaginação, como normalmente ocorre. E este é o principal motivo pelo qual se deve, SEMPRE, ler o livro primeiro: para fazer sua imaginação voar.

A única exceção que encontrei até hoje para a regra de que o filme é SEMPRE melhor que o livro foi a adaptação de Good Omens, do Terry Pratchett e do Neil Gaiman. Não que o livro seja ruim, muito pelo contrário, tanto que foi um dos poucos livros que li mais de uma vez (quer dizer, em tese, já que li uma vez em inglês e outra em português). Mas a adaptação da Amazon em forma de mini-série ficou fantástica, muito por causa do elenco e, claro, pela fidelidade ao livro.

Be happy 🙂

Factfulness – Hans Hosling (01/2020)

Você acha que o mundo hoje está melhor ou pior do que há 20 ou 30 anos atrás? Bem, sugiro a você fazer o teste da Gapminder Foundation sobre como indicadores socioeconômicos têm mudado nas últimas décadas. Aposto que a maior parte das pessoas, por mais otimistas que sejam, não acertam todas as questões. Aproveite e assista também a uma das apresentações do Hans Hosling, como esta já famosa apresentação num TedTalk, ou alguma de Ola ou da Anna (filho e nora de Hans), colaboradores do livro e na fundação.

O enorme subtítulo, que numa tradução livre seria “Dez Razões Porque Estamos Enganados Acerca do Mundo – e Porque as Coisas Estão Melhores do que Você Pensa”, virou “O hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos” na versão brasileira, e talvez este subtítulo faça mais jus ao título (que nem é uma palavra de verdade, ainda…).

O livro trata de dez “instintos dramáticos”, cada um com um capítulo próprio, que turvam a nossa visão de mundo (já volto neles daqui a pouco). Estes instintos foram sendo desenvolvidos nos seres humanos através da evolução e nos foram muito úteis até aqui, afinal de contas, no meio da floresta ou da savana africana, é bem melhor começar a correr ao ouvir algum barulho do que parar para analisar o que poderia ser aquele barulho e, de repente, dar de cara com algum predador. Porém nos dias de hoje a maioria das ameaças que eram evitadas através do instinto já não se fazem tão presentes e analisar dados e fatos é a melhor forma de tomar as melhores decisões (ou as com maior chance de sucesso).

Porém, existem duas categorias de profissionais que exploram estes nossos instintos em benefício próprio e quase sempre a nosso desfavor: os jornalistas (que até o fazem sem má intenção, na maioria das vezes) e os políticos (que normalmente o fazem com má intenção!). No trecho em que ele fala em como a mídia abusa destes instintos, encontrei uma feliz coincidência: ele usa o mesmo exemplo que eu sempre uso para explicar porque usar somente informações da mídia (que dá atenção para os casos extremos, para os pontos fora da curva) ao moldar sua visão de mundo, via de regra conduz ao erro: o caso dos acidentes de avião.

Toda vez que acontece um acidente de avião a mídia explora o caso à exaustão, o que leva à má impressão de que voar de avião é inseguro. Porém, os acidentes são uma exceção muito rara diante do total de voos completados com sucesso. Só que não faria sentido nenhum a mídia noticiar todos os voos completados com sucesso. Imagina o jornal do meio dia listando todos os voos que deixaram sua origem e pousaram no destino sem nenhum incidente? 

Uma outra coincidência com outro trecho é quando ele faz a distinção entre ativistas e especialistas. O trecho discorre durante alguns parágrafos sobre as diferenças entre os dois, mais ou menos na mesma definição que eu uso: um especialista é alguém que vai analisar fatos e dados para moldar sua opinião e vai considerá-los mesmo que eles digam algo que vai contra os valores e princípios iniciais desta pessoa. Por outro lado, um ativista é alguém que vai procurar dados que confirmem os seus valores e princípios e, caso não os encontre, ele normalmente irá “fabricar” fatos. E no caso de encontrar dados que contradigam suas crenças, ele vai simplesmente ignorar.

Os dez instintos dramáticos trazidos à tona no livro são:

  1. Instinto de separação (gap instinct): o instinto de achar que tudo se divide em dois grupos muito distintos, com uma enorme distância entre eles, quando na verdade a maioria das coisas se concentra no meio e os extremos é que são minoria (a famosa distribuição normal).
  2. Instinto de negatividade (negativity instinct): sempre achar que as coisas estão piores do que estavam. As coisas podem não estar bem, mas geralmente quando falamos em indicadores socioeconômicos elas estão melhores do que há 10, 20, 30, 100 anos (varia dependendo do indicador). Ignorar o progresso é simplesmente jogar fora tudo o que foi feito de bom até o momento e que deveria continuar a ser feito.
  3. Instinto da linha reta (straight line instinct): assumir que uma linha de tendência vai sempre continuar na direção em que ela aponta. Quando se fala nestes indicadores socioeconômicos, geralmente nem é uma linha, mas sim uma curva, que atinge seu ápice ou vale e depois se estabiliza (afinal de contas nem tem como ter, por exemplo, taxa de mortalidade abaixo de zero).
  4. Instinto do medo (fear instinct): achar que as coisas são sempre ruins, que o pior vai sempre acontecer, deixando o medo se sobressair a racionalidade.
  5. Instinto do tamanho (size instinct): não colocar as coisas sob a perspectiva, a proporção correta, e achar que ou são muito grandes, ou muito pequenas.
  6. Instinto de generalização (generalization instinct): usar um exemplo ou um pequeno pedaço para definir o todo. Normalmente associado a preconceitos.
  7. Instinto do destino (destiny instinct): assumir que as coisas vão continuar a ser de um jeito porque elas sempre foram assim e uma mudança é inevitável. Muito relacionado aos instintos de tamanho e medo e, novamente, a preconceitos.
  8. Instinto da perspectiva única (single perspective instinct): querer usar sempre a mesma solução, a mesma “ferramenta”, para solucionar todos os problemas, por mais distintos um do outro que eles sejam.
  9. Instinto de (botar a) culpa (blame instinct): querer encontrar culpados ao invés de soluções.
  10. Instinto de urgência (urgency instinct): achar que tudo requer uma medida urgente, quando na verdade poucas coisas requerem tanta urgência a ponto de não se ter tempo de analisar a situação, as possibilidades e as consequências.

Cada um destes capítulos é recheado de dados e histórias da vida do próprio Hans, o que torna o livro uma quase biografia póstuma escrita pelo próprio. Infelizmente ele veio a falecer em 2017, vítima de um câncer no pâncreas diagnosticado cerca de um ano antes. O livro começou a ser escrito um pouco antes do diagnóstico e se tornou o trabalho final onde ele dedicou seus últimos meses de vida.

No final de cada capítulo, existem algumas dicas para evitar estes instintos, mais ou menos na pegada do A Field Guide to Lies. Sugiro demais a leitura do livro e, quem sabe, após a leitura você refaça o teste do início e se saia melhor do que os chimpanzés.

Be happy 🙂