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Torto Arado – Itamar Vieira Junior (03/2022)

torto_aradoGanhei este livro da minha grande amiga Lívia. Ganhador do prêmio Jabuti, o livro conta a estória de Bibiana e Belonísia, duas irmãs descendentes de escravos que vivem no interior da Bahia com a família, colonos de uma fazenda. Durante a infância, elas passam por uma experiência traumática que as torna quase como irmãs siamesas (não vou entrar em detalhes pra não dar spoilers).

Porém na adolescência um outro acontecimento as separa e uma delas abandona a fazenda. Neste ponto, o livro passa a focar mais na vida da irmã que permanece. Também tem um foco grande na questão da religiosidade da família, que mistura o catolicismo com religiões de matriz africana. Nesta segunda “seção” do livro existem também muitas passagens explicando acontecimentos passados que viriam a formar o caráter das personagens principais e de outros personagens do seu entorno, especialmente e novamente ligados às questões religiosas.

Já na terceira seção do livro o autor dá mais ênfase a questões sociais, especialmente relativas aos quilombolas, às consequências da escravidão e do racismo estrutural ainda muito forte no Brasil.

Eu tenho uma teoria (das milhares que tenho) de que o preconceito é cumulativo e potencialmente “exponencial”. Um pobre sofre preconceito em relação à classe. Uma mulher pobre acumula o preconceito em relação à classe e também a gênero. E como disse, creio que estes preconceitos mais que se acumulam: eles se multiplicam. Uma mulher negra adiciona mais uma camada de preconceito e, portanto, sofrimento. E assim por diante.

E o livro conta justamente as estórias de sofrimento de mulheres pobres, pretas, quilombolas. Mas também é uma estória de mulheres negras e fortes e o autor, além de ter um texto bem fluido, parece ter um carinho, uma ternura pelas personagens, a mesma impressão que tive de João Guimaraes Rosa e Maximo Gorki.

Aconselho bastante!

Be happy 🙂

The Storyteller – Dave Grohl (02/2022)

Foo Fighters é umathe_story_teller das minhas bandas preferidas e eu a considero como a última “grande banda” a surgir. “Grande banda”, ou como chamam nos EUA, “arena rock bands”, que são aquelas bandas que são capazes de encher, sozinhas, um estádio (mais de 40 mil pessoas). Claro que, como quase tudo que ocorreu no pop e rock a partir dos anos 60, o termo nasceu com os Beatles.

Não que eles façam um som inovador, ou que sejam virtuoses. Eles fazem um hard-rock básico, às vezes até meio datado, mas muito divertido porque eles se propõem a isto: a se divertir e divertir. E é a última porque são uma das últimas bandas a surgir e alcançar sucesso antes da reviravolta no mercado da cultura que a internet trouxe. Reviravolta que torna mais difícil o surgimento de uma banda deste porte e que se mantenha no auge por tanto tempo. E isto não é uma crítica, muito pelo contrário, hoje em dia a cultura está muito mais popular e popularizada. É só uma constatação.

Mas mesmo fazendo um som básico, não dá pra negar que Dave Grohl, o “dono” da banda, é um baita de um letrista (além de roteirista: basta ver os clipes hilários da banda). Talvez por isto a ideia dele escrever uma autobiografia, uma tarefa que, segundo ele mesmo, nasceu para ocupar tempo ocioso durante a pandemia, não seja uma surpresa tão grande assim. Uma hora ou outra ele iria se aventurar pela literatura (como já se aventurou por produções audiovisuais).

E o livro é uma delícia de ler! Cada um dos capítulos é uma pequena história, de algumas páginas, com início, meio e fim. Apesar de seguir uma certa ordem cronológica geral, dentro dos capítulos ele insere pequenas histórias que vão sendo puxadas pela principal. O título (“o contador de estórias”) caiu muito bem.

E o subtítulo “Tales of Life and Music” (Histórias de Vida e Música, numa tradução livre) também faz muito jus ao livro porque ele vai justamente linkando trechos de músicas que marcaram a vida dele com estas histórias. Na introdução do livro ele conta que a memória dele é “ativada” por música, algo que ele já tinha contado no prefácio escrito para From Cradle to Stage, de sua mãe, Virginia Hanlon Grohl.

Obviamente ele começa contando da sua infância, entrando depois no início da carreira e contando muitas passagens hilárias das excursões sua primeira banda oficial, Scream, o que inclui várias “furadas” e perrengues em que uma banda tentando uma carreira profissional se mete. Finalmente chegando ao Nirvana e o estrondoso sucesso que o grupo viria a alcançar.

Neste trecho ele dá muito destaque ao seu relacionamento com Kurt Cobain, com quem ele dividia um apartamento antes do “estouro” da banda, e em como uma overdose de Kurt e futuramente o suicídio deste o abalou.

Depois ele conta o processo de recuperação do baque, que viria a se consolidar com gravação da demo que se tornaria o primeiro álbum do Foo Fighters, uma tarefa que Dave conduziu sozinho, sem pretensão nenhuma. Depois de alguns percalços com o Foo Fighters, especialmente em relação às constantes trocas de integrantes da banda, o grupo se estabilizaria. E neste processo Dave viria a ganhar novamente, depois de Kurt, um companheiro de banda que seria muito importante na sua vida: Taylor Hawkins, o “terceiro” baterista da banda (terceiro considerando o próprio Dave como o primeiro).

Ao invés de escrever sobre o que Dave conta sobre Taylor, melhor reproduzir (e tentar traduzir) um trecho do livro:

“Tearing through the room like an F5 tornado of hyperactive joy was Taylor Hawkins, my brother from another mother, my best friend, a man from whom I would take a bullet. Upon first meeting, our bond was immediate, and we grew closer with every day, every song, every note that we played together. I am not afraid to say that our chance meeting was a kind of love at first sight, igniting a musical ‘twin flame’ that still burns to this day. Together, we have become an unstoppable duo, onstage and off, in pursuit of any and all adventure we can find. We are absolutely meant to be, and I am grateful that we found each other in this lifetime.”

(Atravessando a sala como um tornado de categoria 5 de alegria hiperativa estava Taylor Hawkins, meu irmão de outra mãe, meu melhor amigo, o cara por quem eu tomaria um tiro. Desde nosso primeiro encontro, nossa ligação foi imediata e nós nos aproximamos mais a cada dia, a cada canção, a cada nota que tocamos juntos. Não tenho medo de dizer que nosso encontro por acaso foi um tipo de amor à primeira vista, acendendo uma ‘chama mútua’ que ainda queima até os dias de hoje. Juntos nós nos tornamos uma dupla imbatível, no palco e fora dele, buscando toda e qualquer aventura que possamos encontrar. A gente simplesmente tinha que acontecer e eu sou grato por termos encontrado um ao outro nesta vida)

Intenso! Coincidentemente estava nesta parte do livro quando da morte de Taylor, no final de março de 2022.

Também coincidentemente, minha memória é ativada por canções. E muito coincidentemente desde 2009 eu tenho um documento do word onde faço algumas anotações sobre as memórias e histórias que músicas me trazem com o nome “Histórias de Vida e Musica.doc”. Mas não! Nunca virará um livro….hahaha

Be happy 🙂

The Tyranny of Merit – Michael Sandel (01/2022)

the_tyranny_of_meritDepois de anos de bonança após a virada do século, o mundo foi impactado pela crise financeira de 2007/2008. Apesar dos efeitos da crise na vida das pessoas, especialmente nos países de primeiro mundo (os emergentes ainda conseguiram passar com menos problemas por ela), aparentemente a teríamos superado e, a partir de 2010, tudo parecia estar voltando aos eixos.

Foram alguns poucos bons anos a partir daí, inclusive com perspectivas de expansão das democracias liberais, como por exemplo a que foi criada durante a Primavera Árabe. Porém, em poucos anos (2014, talvez um pouco antes ou depois), tudo mudaria e entraríamos num período de “tensão” que dura até hoje.

Vários especialistas já se debruçaram sobre as causas deste retrocesso e a explicação encontrada geralmente é a mesma: as elites políticas, tanto de esquerda como de direita, erraram feio (erraram rude!) em entender os anseios das populações. Enquanto a direita achou que o livre mercado, as possibilidades de aquisição de bens e serviços e de viver uma vida confortável financeiramente bastaria, a esquerda concentrou seus esforços em questões identitárias cada vez mais micro. Porém um contingente enorme de pessoas que, não fazendo parte destas minorias e não tendo colhido todos os frutos do progresso econômico (ao menos não de acordo com a expectativa que havia sido criada), se sentiu abandonada, tornando-se alvo fácil para populistas iliberais (de esquerda e direita).

Fukuyama chegou a esta conclusão no seu Identity. Levitsky e Ziblatt também encontram a mesma causa raiz em How Democracies Die. Richard Sennet já alertava – lá em 1998 – no seu A Corrosão do Caráter que estávamos perdendo o senso de comunidade, de sociedade, de fazer parte de algo, tão necessária a animais sociais como os seres humanos. Sandel faz o mesmo, só que com ênfase na meritocracia.

Porém, ao contrário do Justiça, que havia lido há alguns anos atras, The Tyranny of Merit (A Tirania do Mérito), cujo subtítulo é “What’s Become of the Common Good?” (o que ocorreu/onde foi parar o bem comum?), me pareceu ter um tom muito panfletário. Enquanto em Justiça Sandel explicava a impossibilidade da implementação de um modelo meritocrático ao pé-da-letra, e até usava o modelo como uma “utopia” a ser perseguida para que corrigíssemos os problemas de desigualdade de oportunidades afim de que todos pudessem ter a mesma “linha de partida” (impossível, como em toda utopia, mas a busca por si só já pode render alguns bons frutos), neste ele joga toda a culpa no sistema.

Ele começa por fazer uma análise do que nos divide atualmente. Assim como outros especialistas, ele chega à conclusão que, nos dias de hoje, já não existe mais o embate entre “Estado versus Mercado”, entre “Capital(ismo) e Social(ismo)”. A divisão ocorre em termos de “sociedades abertas (globalismo) versus sociedades fechadas (regionalismo/nacionalismo)”, “integração versus segregação”, muitas vezes entre “cosmopolitas e rurais”, ou seja, entre grupos que querem se fechar em si e entre grupos que querem interagir com outros grupos.

A partir deste ponto ele entra em uma ótima análise de como a cultura da meritocracia se desenvolveu ao longo de séculos. Algumas das vezes por influência religiosa: você ter saúde, ter bens, eram bençãos concedidas por um Deus para seres merecedores, enquanto a privação de saúde, de dinheiro e até de coisas básicas como alimentação, seria uma punição por uma má conduta. E aí as sociedades acabam entrando numa seara muito complicada: se Deus é quem designa nossa fortuna, nossa sorte, de acordo com nossos atos, com nosso mérito, porque haveríamos nós, bem-aventurados, de interferirmos nestes desígnios, como por exemplo, ajudando quem tem menos posses? E ai, quando a regra é cada um é por si (“…e Deus contra todos”), como fica o bem comum e o sentido de pertencer ao coletivo? A série brasileira 3%, disponível na Netflix, aborda bem estes temas numa ficção “distópica” bem escrita e executada.

Um outro ponto interessante da análise é da supervalorização de diplomas de nível superior, que torna os detentores destes títulos arrogantes, se sentindo mais merecedores do que os demais e inclusive com a percepção de serem seres superiores (ouvi alguém falar “medicina”?), já que os demais é que não se esforçaram o suficiente. Além disto “retalhar o tecido social”, também ignora diversas outras formas de se adquirir conhecimento.

Para resolver este ponto em específico, uma das propostas de Sandel seria a “loteria dos qualificados”: as principais universidades exigiriam um conhecimento mínimo, uma base, e então sorteariam as vagas entre todos os candidatos que atendessem este requisito (ao invés de “ranquear”).

Outro ponto baixo, além do teor panfletário, é que ao contrário do que ocorre em Justiça, Sandel se atém somente as questões morais, do que “deveria” ou “poderia” ser. Ele acaba ignorando (propositalmente?) muitas questões práticas, do impacto de determinadas decisões na vida real, e da possibilidade da implementação destas decisões.

Um filósofo que se atenta somente a questões morais e esquece das práticas é um utópico. Bem como um economista que esquece as questões morais e se atenta somente aos fatos e números acaba por se tornar insensível e muitas vezes até cruel. Mas como a história nos mostra (através de diversos exemplos) a probabilidade de danos causados por utópicos é geralmente maior do que potenciais danos causados por “insensíveis”. Como diria Roberto Campos: “O mundo não será salvo pelos caridosos, mas pelos eficientes.”

Be happy 🙂

We – Yevgeny Zamyatin (08/2021)

1984, do George weOrwel; Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley; e Farenheit 451, do Ray Bradbury, são as mais famosas obras do gênero literário que se convencionou chamar “distopia”, que são ficções sobre um mundo futuro em que a humanidade vive em condições extremas de privação, desespero e/ou opressão. Os três livros ficaram até conhecidos como a “tríade distópica”.

Qual não foi minha surpresa ao descobrir, lendo The Ministry of Truth, que a obra pioneira do gênero e que influenciou quase tudo que veio a seguir dentro dele é na verdade We, do escritor russo Yevgeny Zamyatin. Quase tudo porque claramente não influenciou Farenheit.

E quando digo influenciar é você realmente achar no livro referências utilizadas nas obras posteriores, como por exemplo a “linha de produção” de seres humanos perfeitos para se encaixarem como peças destas sociedades, como no livro de Huxley. Ou a figura do Big Brother (Well Doer – benfeitor – em We) de Orwell. Ou mesmo os Guardians, que são basicamente os Eyes de The Handmaid’s Tale (ainda não li o livro da Margaret Atwood, só assisti a série de TV).

Assim como nas obras que influenciou, existem inúmeras críticas a controvérsias da época, como a adoção dos estudos de Tempos e Movimentos de Frederick Taylor e a implementação do Taylorismo nas linhas de produção. E também algumas “previsões”, como a geração de energia a partir de ondas do mar.

Claro que não poderiam faltar passagens com sarcasmo de alto nível, como quando o narrador zomba do absurdo que ocorria no passado, em que haviam eleições onde não se sabia antecipadamente quem iria ganhar. Ou quando ele descreve como alguns povos precisaram “ser salvos pela força e chicoteados em direção à ‘felicidade’”

Só achei a leitura um pouco difícil e pesada, muito provavelmente por ter lido a tradução para o inglês, que não é minha língua materna, de um livro escrito em russo. Talvez eu tente ler a versão em português num futuro (não tão próximo, provavelmente).

Be happy 🙂

Becoming – Michelle Obama (07/2021)

becomingAutobiografia da ex-primeira-dama dos EUA, Michelle Obama. Apesar de ter saído antes, o livro é um complemento – e de certa forma um contraponto – ao livro do marido, A Promised Land, lançado ao final de 2020.

A primeira parte do livro conta a história de Michelle vivendo como uma menina negra de classe média baixa de um subúrbio de Chicago. Segundo ela, sua família se distinguia das demais famílias locais por dois motivos: decidiram continuar no bairro, mesmo com este se deteriorando ao invés de abandonarem na primeira oportunidade, como fizeram diversas outras famílias; e a crença que seus pais tinham de que a educação era a única oportunidade de mobilidade social para seus filhos. Tanto que os dois filhos do casal (Michelle e seu irmão, Craig), foram admitidos em Princeton, uma das mais conceituadas e disputadas universidades norte-americanas.

A segunda parte do livro conta justamente os anos de Princeton e, mais tarde Harvard, onde ela cursou, assim como Obama cursaria, a Law School. Nos EUA, o direito é quase como uma especialização: você cursa primeiro o bacharelado e após concluir este é que ingressa na “escola de leis” (existem outras formações, como a medicina, que funcionam da mesma forma).

Nestas duas primeiras partes Michelle conta como sempre foi determinada em ser a melhor no que se dispusesse a fazer, com um espírito muito competitivo. Mas ela reconhece que, se por um lado isto a ajudou a “subir na vida”, por outro, fez com que ela escolhesse uma carreira que não lhe trazia prazer. Além disto, ela também confessa que esta “gana” era mais para agradar os outros do que algo que lhe trouxesse satisfação. E em algumas vezes era apenas para “esfregar na cara” de alguém que duvidou que ela conseguiria. Raramente existia uma motivação intrínseca.

Após concluir a Law School, Michelle volta à Chicago e ingressa num famoso escritório de advocacia local. Infeliz no trabalho, sua vida dá uma guinada quando um “magrelo alto, com orelha de abano e que se movia como se estivesse dançando” (segundo descrição dela) ingressa como estagiário no escritório e ela é assinalada como sua mentora. Depois de alguma insistência, o tal estagiário consegue finalmente convencê-la a saírem para um encontro, o que viria a mudar totalmente sua vida.

A primeira mudança é que, motivada por Obama (o tal magrelo), ela resolve largar o escritório de advocacia e se envolver com trabalhos em que ela conseguia causar um impacto social, especialmente em comunidades de não-brancos. Especialmente para meninas. Ela conta que finalmente começou a fazer algo que dava prazer a ela mesma (apesar de render menos grana).

Outra “confidência” feita no livro é que ela nunca gostou de política (partidária) e, se fosse por ela o marido não teria seguido este caminho. Na seção dedicada as campanhas políticas do marido (explicada um pouco como funcionam no link acima, sobre o livro do Obama), ela conta o seu lado da história: apesar de não ser ela a candidata, ela teve que ter muito mais muito envolvimento na campanha, as vezes até mais que o próprio candidato.

Quando se torna então primeira-dama, ela decide que, de alguma forma, iria tentar deixar, na medida do possível, sua marca, não sendo apenas uma “figura decorativa”. Ela também conta do fardo que “o primeiro casal” tem que carregar: perda de privacidade, de tempo livre, de fazer coisas simples, como ir fazer compras no shopping, ou perder tempo com os filhos num parque. Tudo tem que ser planejado com antecedência, e sempre tem um séquito de agentes de segurança.

Para não contar ser alvo de ataques e mentiras, inclusive de correligionários do marido, o que ela deixa transparecer como sendo um dos principais incômodos e mágoas que ela tem.

Livro bem interessante para entender um pouco mais de como funciona a complicada política norte-americana e ter um pouco mais de acesso aos bastidores da casa branca.

Be happy 🙂

Doctor Who and the Krikkitmen – Douglas Adams & James Goss (06/2021)

krikkit_menJá comentei em alguma das outras resenhas dos livros do Douglas Adams sobre a forma como ele escrevia suas estórias, desenvolvendo primeiramente uma ideia central, definindo em seguida em qual das series (Guia do Mochileiro, Dirk Gently ou Doctor Who) esta estória seria utilizada para somente então encaixar os respectivos personagens.

Krikkitmen talvez seja a única exceção a este método, sendo pensada desde o começo como uma estória da série Doctor Who. Existem algumas “controvérsias” a respeito de como a estória surgiu: alguns dizem que foi uma encomenda para um filme que a BBC produziria, outros que foi uma iniciativa do próprio Adams para a série televisiva. Assim como existem questões a respeito do porquê ela ficou 40 anos “perdida”: o filme teria sido cancelado. Ou então Adams teria se atrapalhado com prazos (como sempre!) para o Guia e acabou “esquecendo” dela no meio da sua bagunça.

Como explica James Goss (co-autor póstumo) no primeiro apêndice do livro, o texto começou a ser escrito em 1976 (às 11:00 da manhã de uma terça-feira, dia 12 de Julho, conforme anotação do próprio autor), porém só foi encontrado por Goss em uma visita aos arquivos de Adams, que ficam guardados na biblioteca do St. John’s College, em Cambridge.

Goss estava trabalhando em uma roteirização de outro texto e queria dar uma olhada na papelada de Adams quando encontrou Krikkitmen escrito no verso de folhas utilizadas para outro propósito (Adams era um grande entusiasta de reciclagem). Goss não precisa a data em que encontrou o manuscrito, mas baseado no lançamento deste outro título (The Pirate Planet, de 2017), deve ter ocorrido por volta do final de 2016.

O fato deste texto em específico ter sido escrito para Doctor Who não impediu que Adams usasse algumas das ideias em “A Vida, o Universo e Tudo Mais”. Já disse que Adams era um entusiasta da reciclagem, não? Isto sempre valeu também para as suas obras. Então claro que existem bastante referências ao restante de sua obra. Obviamente algumas coisas foram inseridas por Goss, que utilizou o mesmo método de Adams de inserir e reciclar ideias e personagens neste novo texto.

Muito interessante, como sempre, notar o visionarismo de Adams. Em Krikkitmen existe um computador dotado de inteligência artificial hospedado em uma nuvem! O cara já imaginava “cloud computing” na década de 70. Para não falar dos robôs sencientes e dos dilemas éticos envolvidos ao lidar com eles.

Mas o querido leitor poderia dizer que estas partes foram contribuições de Goss. Obviamente Goss deu uma atualizada, mas as idéias centrais estão no texto/rascunho original, transcrito sem alterações no segundo apêndice do livro.

Impossível não se tornar repetitivo ao falar de Adams: GE-NI-AL!!!!!

Be happy 🙂

The Sea-Wolf – Jack London (05/2021)

the_sea_wolfDurante a leitura do Ghost Rider, do Neil Peart, eu peguei a dica de alguns autores que ele mencionava nas suas cartas a Brutus. Um destes autores foi Jack London e, numa das últimas compras, resolvi comprar o que talvez seja a obra mais famosa do autor: The Sea-Wolf.

O livro inicia-se com o desfortúnio de Humphrey van Weyden, um intelectual que vive às custas de uma herança, nunca tendo trabalhado na vida. Durante uma viagem pela baia de San Francisco, o barco onde Humphrey viajava naufraga. Ele é resgatado pela escuna Ghost, que estava a caminho da sessão de caça de focas no Pacífico Norte.

O capitão do Ghost é Wolf Larsen, o personagem principal e que dá título ao livro, um brutal tirano daquele pequeno mundo que é a escuna, onde também se encontram outros marinheiros, um cozinheiro e os caçadores. Porém Larsen não é um animal provido de muitos músculos e pouco cérebro. Autodidata, ele é de certa forma um intelectual, inclusive justificando sua brutalidade e violência a partir de uma filosofia bem peculiar.

Humphrey vira inicialmente um escravo no Ghost, mas por ser a única pessoa no navio com capacidade intelectual e conhecimento para debater com Larsen, começa a galgar postos na hierarquia local. Além do mais, Humphrey, agora submetido a trabalhos braçais, começa a desenvolver outra visão de mundo.

O equilíbrio aparentemente atingido é chacoalhado com o resgate de outros náufragos pelo Ghost. Neste resgate Maud Brewster, escritora famosa, torna-se a única mulher no barco, atraindo tanto a paixão de Humphrey como de Larsen.

Não vou me estender mais pra não dar spoiler. Mas a história é bem interessante. Porém, como tem muitos termos náuticos e também de época (o livro foi publicado pela primeira vez em 1904), a leitura em inglês foi um pouco cansativa. Além disto, a edição que eu comprei tinha as letras muito miúdas.

Foi interessante mas o autor não me cativou. De qualquer forma, vou dar uma chance para White Fang, outro livro citado por Peart, em um futuro não tão próximo.

Be happy 🙂

A Promised Land – Barack Obama (04/2021)

a_promised_landO livro é o primeiro de dois volumes (o segundo ainda a ser lançado) com a autobiografia do ex-presidente dos EUA, Barack Obama. É o primeiro e é um “tijolo”, com quase 800 páginas. O próprio Obama explica que a ideia inicial era fazer apenas um livro com cerca de 500 páginas, mas como ele é muito prolixo, não conseguiu condensar todas as histórias e ideias em “tão poucas” páginas.

Barack Obama é provavelmente o último líder não populista a gerar uma mobilização grande, a despeito do bipartidarismo norte-americano (a Merkel é provavelmente a última líder não populista ainda na ativa). Digo provavelmente porque as mudanças que as redes sociais geraram, especialmente entre 2010 e 2013, alteraram toda a dinâmica da política, no mundo todo, e dificilmente um líder não populista consiga alcançar um poder de mobilização como o Obama alcançou na sua campanha à presidência em 2008.

O livro inicia com a biografia pessoal, contando a história da família de Obama a partir dos avós, passando pela infância e dando ênfase na experiência de vivenciar outras sociedades e culturas por conta do envolvimento da sua mãe em projetos sociais, que os levou a viverem em países de economia em desenvolvimento, especialmente da África e do sudeste da Ásia. Esta experiência e o próprio exemplo da mãe foram fatores que, segundo ele, moldaram seu interesse pela política e por determinadas causas (como o combate à pobreza, a questão racial, a ecológica e o tema de saúde pública).

Obama também faz um apanhado dos seus anos no colegial e na faculdade, incluindo sua “apatia” política durante alguns anos da sua vida (justamente entre o colegial e faculdade) e o seu “despertar”. Este despertar foi o que o levou a entrar para a escola de direito, fato que viria a gerar duas grandes mudanças na sua vida. A primeira é que ele conheceria sua futura esposa, Michelle, durante um dos estágios enquanto cursava direito (ela era a supervisora dele durante o estágio). E o segundo é que, após formado, ele se dedicou a dar aulas e a trabalhar com movimentos sociais, o que viria a direcioná-lo para a vida política.

A partir daí ele conta como ele entrou para a política e, numa sucessão de “golpes de sorte”, chegou ao Senado do estado de Illinois (a maioria dos estados dos EUA tem duas câmaras) e depois ao Senado dos EUA, representando também o estado de Illinois. Obama dá um apanhado de como foram suas campanhas para cada um dos postos e sua carreira em cada um deles, incluindo as dificuldades de ser um novato na política e que, ainda por cima, sempre gerou muita expectativa.

Lá pela página 200 do livro ele começa a contar como se desenhou a candidatura dele à vaga de candidato pelo partido Democrata. Não escrevi errado não: as eleições dos EUA começam com candidatos dentro de cada um dos partidos disputando as longuíssimas prévias, que duram quase um ano e meio, entre o início da busca por doadores até a convenção nacional dos partidos, que referendam os processos dos diretórios estaduais que nominam o candidato do partido. É a eleição pra eleição, em que concorrem os candidatos a candidatos.

Antes de ler o livro eu achava este processo totalmente desnecessário e até nocivo, já que candidatos e diferentes linhas político-ideológicas dentro de cada um dos partidos disputam ferrenhamente (e muitas vezes com golpes muito baixos) o direito de ser o representante do partido. Dentro do sistema norte-americano, que tende a dividir praticamente todo o eleitorado em dois blocos, existem pelo menos 3 linhas distintas em cada um dos partidos (por exemplo, você tem Republicanos progressistas e Democratas conservadores, sério!). Mas depois de todo o detalhamento que o Obama faz no livro, em quase 100 páginas, eu já comecei a mudar minha opinião. É neste processo que o candidato precisa se conectar com o eleitorado, batendo de porta em porta, visitando cidades pequenas, conversando com o eleitor em ginásios de escola, é onde a população pode se manifestar e o candidato “moldar” seu projeto.

O restante do livro cobre os quatro anos do primeiro mandato, especialmente como ele precisou lidar com duas “heranças” do governo anterior: a crise econômica de 2008 e os EUA combatendo em duas diferentes frentes de batalha (Iraque e Afeganistão).

Como um bom professor (e prolixo!), Obama explica todo o contexto antes de entrar no assunto. Por exemplo, explicando todo o processo de formação da ONU para falar sobre como funciona o conselho de segurança. Ou dissecando todo o contexto histórico que levou à queda do muro de Berlin para explicar a política Russa e ascensão de Putin ao poder.

Assim como a ótima série dinamarquesa Borgen (disponível na Netflix), o livro mostra como a política em um democracia liberal é complicada, como ela anda a passos muito lentos e que, por diversas vezes as pessoas precisam abdicar de várias convicções para chegar ao melhor resultado possível para o contexto. E é exatamente assim que deve ser numa democracia.

Durante todo o livro Obama frisa que os EUA são um experimento social ainda em andamento, já que ele precisa ser corrigido a todo momento para acompanhar as mudanças do mundo. Um dos maiores desafios deste experimento atualmente é justamente a velocidade destas mudanças e na disseminação de informação, o que tem gerado um terreno fértil para populistas amealharem poder com promessas e soluções fáceis no discurso, mas difíceis de serem alcançadas numa democracia (quando não nocivas). O desafio é justamente tentar encontrar uma forma de tornar a democracia mais ágil, sem abrir espaços para “prototiranos” e “neoditadores” alcançarem o poder e para que a maioria não subjugue as minorias.

Ansioso pelo segundo livro, que deve dar mais ênfase ainda nestes desafios.

Be happy 🙂

The Deeper Meaning of Liff – Douglas Adams & John Lloyd (03/2021)

 

deeper_meaning_if_liffCom o subtítulo de A Dictionary of Things There Aren’t Any Words for Yet – But There Ought to Be (“Um dicionário de coisas para as quais ainda não existe nenhuma palavra – mas que deveria existir”), o livro surgiu de uma brincadeira que Douglas Adams e seu amigo John Lloyd costumavam fazer quando estavam em um bar. A ideia da brincadeira é que existem diversas situações e sensações para as quais não existe uma palavra, enquanto ao mesmo tempo existe um número enorme de palavras que são “desperdiçadas” dando nome a locais. Então por que não juntar as duas coisas usando nomes de locais para nominar estas situações e sensações? E da brincadeira surgiu a ideia de criar o dicionário.

O livro começa com uma série de mapas que não querem dizem nada e são só para encher linguiça mesmo (e talvez a paciência de algum leitor desavisado não acostumado com estes recursos do humor britânico). Depois dos mapas tem um dicionário fonético bem no estilo do Douglas Adams: totalmente nonsense. Um humor que de tão bobo é genial!

Claro que como tudo o que Douglas Adams produziu, além deste humor meio nonsense, tem também aquela pitada de acidez, um humor mal-humorado até (baita contradição!!!….hahaha), também típico do humor britânico.

Porém, mesmo com um nível avançado de inglês, acabei “perdendo” várias piadas. Uma delas foi Frutal (“rather too eager to be cruel to be kind”), uma das duas cidades brasileiras no dicionário, ao lado de Canudos (“o desejo que os casais casados têm em ver seus amigos solteiros se casando”). Além de perder algumas piadas por conta do idioma, com certeza perdi outras tantas por conta de falta de referências. Acho que até falantes nativos de inglês de outros países perderiam algumas das tiradas que contêm referencias muito britânicas. Este provavelmente deve ser um dos motivos pelos quais (ainda) não existe uma tradução para o português.

Ainda assim tem vários termos interessantes, tanto pelo humor quanto por fazer a gente lembrar de algumas situações que as vezes passam despercebidas. E para descobrir que algumas delas são mundiais, tais como Bodmin: “a irracional e inevitável discrepância entre o valor arrecadado no racha e o valor da conta a ser pago no restaurante ou bar”. Ou Sturry: “aquela acenada agradecendo o carro que parou na faixa de pedestre para você cruzar, seguido por aquele movimento fingindo que estamos nos apressando pra atravessar a rua, mas que não altera em nada o tempo levado para finalizar a travessia” (em inglês era mais engraçado, juro!).

Mas o mais interessante foi notar que Adams devia ter alguma fixação por bundas (bem, quem nunca né?). São diversos termos que envolvem nádegas, como Elsrickle (“aquela gota de suor que escorre pelas suas costas bem pelo rego”) e Famagusta (“a corrente de ar que passa por entre duas bundas que se recusam a se tocar – como no transporte público”), pra citar somente duas.

Em cada um dos “capítulos” (um para cada letra do alfabeto) tem pelo menos um desenho exemplificando um dos termos do capítulo (inclusive alguns dos termos relativos a bunda). Mas a melhor parte do livro é o apêndice! Mais não vou falar para não estragar a piada.

Be happy 🙂

Memórias Póstumas de Brás Cubas – Machado de Assis (02/2021)

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Machado de Assis é provavelmente o maior escritor brasileiro de todos os tempos e “Memórias Póstumas” é uma de suas principais obras (provavelmente a mais famosa e mais lida delas), que forma junto com Quincas Borba e Dom Casmurro aquilo é conhecido como a “trilogia Machadiana” (ou Trilogia Realista). Se você nunca leu esta obra ou se nunca leu Machado, apenas pare tudo o que está fazendo agora e vá ler. É imperdoável para qualquer brasileiro (diria até para qualquer falante nativo da Língua Portuguesa) não ter lido pelo menos a trilogia.

Eu tinha lido esta obra na minha adolescência, lá pelos 16 anos, numa edição “tijolo” que contava também com Quincas Borba e Dom Casmurro. A primeira coisa que me chamou a atenção à época foi o fato de ser um livro narrado em primeira pessoa, porém por um defunto. Ou seja, uma autobiografia póstuma! O livro começa exatamente com a dedicatória de Brás Cubas ao verme que “primeiro roeu suas carnes frias” para em seguida descrever como ocorreu o seu funeral. Genial! Depois deste início, ele volta ao começo de sua vida, na verdade até antes, descrevendo seus antepassados e toda a sua vida, até emendar com o funeral novamente.

Uma outra coisa que também me chamou a atenção foi o humor ácido e a fina e nobre arte da ironia. Se na época da primeira leitura eu já conhecesse o Monty Python, Douglas Adams, e outros do gênero, com certeza teria feito uma relação com o humor britânico. Imagino que o tipo de sarcasmo de Machado era bem à frente do seu tempo e que muito provavelmente o livro tenha sido incompreendido por muitos à época.

Não vou entrar em detalhes da estória pois, como já disse, ela é leitura obrigatória. Então vou falar um pouco da edição: quando soube que lançariam uma edição do Memórias com ilustrações do Candido Portinari, que haviam sido feitas para uma edição comemorativa na primeira metade do século XX, fui obrigado a colocar na lista. Edição de colecionador mesmo (e olha que eu não costumo guardar livros).

Os desenhos são fantásticos e ilustram muito bem personagens e passagens da obra (a capa é o próprio verme já citado!). As notas de rodapé, o prefacio (explicando a edição) e o posfácio (explicando Machado e sua obra) são muito interessantes também. Claro que tudo isto são “complementos” para o prato principal, que é o texto delicioso de Machado. Daqueles que te fazem não querer parar de ler o livro enquanto ele não termina.

Mas ainda bem que com o tempo eu aprendi a saborear o prazer de ler, ao invés de devorar livros, e desta vez pude apreciar cada momento da releitura (coisa que faço bem pouco também) décadas depois da primeira vez.

Be happy 🙂