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Samba de Enredo – Alberto Mussa e Luiz Antônio Simas (12/2019)

Escrito à quatro mãos pelo linguista e historiador Alberto Mussa e pelo também historiador Luiz Antônio Simas, este já um conhecido especialista na história do gênero brasileiro mais popular, o Samba, o livro se propõe a fazer o que descreve no  subtítulo: mostrar a “história e arte” deste que é mais do que um gênero musical, já que o enredo é a figura central e a música, bem como as alegorias (artes plásticas), a apresentação (artes cenográficas), além de diversos outros tipos de arte, servem ao enredo.

Dividido em três partes principais, o livro descreve na primeira delas (que é ordenada cronologicamente e separando em “eras”) o desenvolvimento da arte desde a pré-história, ou seja, dos movimentos culturais que viriam a gerar as agremiações, até a era moderna do samba de enredo (ou samba-enredo).

Na segunda parte o foco é nas principais escolas do Rio de Janeiro, incluindo algumas que não existem mais e até de alguns blocos que seguiam a mesma proposta de apresentar um enredo. Nesta segunda parte, além da “biografia” das escolas, traz também algumas informações como as premiações, os principais enredos e compositores que marcam a história de cada uma delas.

A terceira parte muda o foco para os compositores, já que muitos deles compuseram sambas para mais de uma agremiação, trazendo uma breve biografia de cada um dos principais compositores do gênero. O apêndice final traz uma lista de todos os sambas que eles conseguiram mapear e analisar para o trabalho, também em ordem cronológica. Infelizmente, muitos se perderam parcialmente (tem-se alguns trechos, normalmente passados de boca em boca, muitos só com a letra e sem a melodia) ou totalmente, já que a tradição de se registrar os sambas de enredo em gravações só se iniciou em meados da década de 60.

O livro é muito interessante para entender um pouco deste mundo fantástico que envolve os desfiles de carnaval e as escolas de samba. Também serve como um guia para procurar os sambas listados no Youtube. Só achei que caberia um quarto capítulo fazendo pelo menos um apanhado geral do desenvolvimento da arte em outros locais, especialmente São Paulo. Mas posso apenas estar sendo bairrista.

Be happy 🙂

Homo Deus: A History of Tomorrow – Yuval Noah Harari (11/2019)

Homo Deus é basicamente a continuação do Sapiens, do próprio Harari. Enquanto o Sapiens conta a história dos humanos desde o surgimento de outras espécies de hominídeos até os tempos atuais, Homo Deus tenta imaginar o que acontecerá com a nossa espécie e como ela evoluirá daqui em diante. Sapiens é mais centrado em história e biologia (evolução), Homo Deus é um livro mais filosófico e um exercício de “futurologia”.

No enorme e cansativo primeiro capitulo (70 páginas!) e nos dois capítulos seguintes, que formam a primeira parte do livro, denominada “O Homo sapiens conquista o mundo”, Harari faz um resumo da primeira obra, revisando como foi a caminhada do homem desde o seu surgimento até o domínio sobre outras espécies e sua consolidação como a mais bem-sucedida delas.

Na segunda parte, “O Homo sapiens dá um significado ao mundo”, vem a parte filosófica, onde ele se estende, além da parte histórica, pela busca do homem a dar um sentido à sua existencia. Nesta parte ele foca muito no humanismo como uma forma que o ser humano encontrou para dar este sentido. Neste ponto o ser humano passa a ser o centro do universo e de todas as atenções. Esta abordagem faz com que inclusive ele ache que todo o restante do mundo e todas as demais espécies estão ao seu dispor.

Na terceira parte ocorre o exercício de futurologia. Harari tenta imaginar como a espécie irá evoluir à partir deste momento em que vivemos, onde estamos conseguindo inclusive desenvolver a capacidade de manipularmos a evolução da nossa espécie, através de engenharia e genética, e não mais dependendo do acaso da evolução.

Achei o livro interessante, porém bastante cansativo e não tão fluido quanto o Sapiens. Mesmo assim a leitura vale muito, especialmente a terceira parte.

Be happy 🙂

Slaughterhouse-Five – Kurt Vonnegut (10/2019)

Segundo o prefácio, escrito pelo próprio autor, Kurt Vonnegut sempre quis escrever um livro baseado na sua história pessoal como prisioneiro de guerra em Dresden, durante a segunda guerra mundial. A experiência foi marcante pois ele estava na cidade quando esta, já no final da guerra, sofreu um intenso bombardeio, considerado por muitos totalmente desnecessário àquela altura do conflito.

Ao procurar um antigo companheiro para colher informações sob outra perspectiva, prometeu à mulher deste que não escreveria um livro “heróico” e não “glamourizaria” a guerra. E assim o fez com maestria: criou uma estória que mistura alguns fatos e personagens reais com ficção, jogando na cara todo horror presenciado por quem esteve no front de batalha, em contraste com a tendência de romantizar a guerra que normalmente ocorre com quem as promove (oficiais, políticos, etc.). E sendo um livro do Vonnegut, não poderia faltar muita ironia e humor.

Porém é aquele humor que faz você sentir vergonha de ter achado engraçado, e isto foi feito propositalmente pelo autor ao criar como personagem principal Billy Pilgrim, um oftalmologista (optometrist em inglês) que é um personagem muito caricato. Além disto a estória de Billy ainda traz à tona as agruras posteriores (ou anteriores, bem, o tempo não existe) a este evento tão traumático.

É um livro maravilhoso, daqueles que dá aquele aperto no peito, uma angústia, que a gente não consegue explicar direito porque. Para mim junto com Nada de Novo no Front, do Erich Maria Remarque, e com Maus, do Art Spiegelman o livro forma uma trilogia espetacular sobre guerras. E Kurt Vonnegut já está entrando na minha lista de autores favoritos.

So it goes.

Be happy 🙂

The Inevitable: Understanding the 12 Technological Forces That Will Shape Our Future – Kevin Kelly (9/2019)

Kevin Kelly é um dos fundadores da revista Wired e um estudioso de tecnologia e de cultura digital. Num exercício de futurologia, ele tenta prever em The Inevitable quais são as 12 tendências tecnológicas que devem permear as nossas vidas em um futuro próximo. Porém, ao invés de falar de tecnologias específicas, ele tenta descrever ações que serão providas ou incorporadas por tecnologias. E para isto ele usa os verbos no gerúndio como título de cada um dos capítulos.

A explicação do porque disto ocorre no primeiro capítulo, Becoming, onde ele afirma que hoje em dia praticamente nada tem um estado final e tudo está constantemente evoluindo. E isto deve se acelerar mais ainda.

Outro capítulo bem interessante é Sharing, onde ele chega à mesma conclusão que eu e o Peter Huber (em Orwell’s Revenge: The 1984 Palimpsest) chegamos de que, através da colaboração em larga escala, a tecnologia está conseguindo entregar o que tanto o capitalismo quanto o socialismo nunca conseguiram. Um trecho do que escrevi na época que li o livro de Huber:

…a Internet, as novas tecnologias e os modelos de economia compartilhada ameaçam o status quo: elas estão criando a possibilidade de uma sociedade com oportunidades e equidade que as teorias baseadas em Marx nunca conseguiram entregar, enquanto ao mesmo tempo quebram a lógica da concentração de poder e renda que as “elites” e os políticos têm no denominado “Capitalismo”.

Nos dois capítulos finais, o autor faz a observação de que cada resposta que encontramos gera um número maior ainda de novas perguntas (Questioning) e que invariavelmente estas perguntas iniciam um novo ciclo (Beginning ) em busca de respostas.

Os demais capítulos do livro são:

  • Cognifying: tornar tudo cada vez mais inteligente usando o poder da inteligencia artificial que, com a tecnologia de cloud computing, tem se tornado cada vez mais barata.
  • Flowing: tornar tudo um fluxo infinito, sem início e sem fim. Tem muita relação com Becoming e com Accessing (abaixo).
  • Screening: tornar qualquer superfície em uma tela ou algum outro tipo de meio para transmitir e receber informação.
  • Accessing: a mudança da cultura de aquisição de bens para uso de servicos, que já vem ocorrendo (por exemplo, no caso de um carro próprio X Uber) e que deve se acentuar ainda mais.
  • Filtering: a necessidade que temos de filtrar a informação que nos chega, já que é humanamente impossível absorvermos tudo o que é produzido atualmente (Cognifying é um meio para isto).
  • Remixing: a tendência de produzirmos conteúdo (música, vídeo, fotografia, textos, etc.) através de colagens de conteúdo de terceiros.
  • Interacting: interação total com os computadores, inclusive através de implantes e ondas cerebrais.
  • Tracking: emprego de vigilância total (vídeo, áudio, telemetria, biometria) em benefício de cidadãos e consumidores.

No final de cada um dos capítulos ele faz um exercício imaginando como seria um dia dele num futuro onde estas tendências existissem, e ai enfim ele descreve um pouco a aplicação prática de cada um dos conceitos. O livro tem mais ou menos o mesmo mote de Black Mirror, mas sem ser pessimista e sem entrar nos dilemas éticos, apenas focando nos benefícios da tecnologia.

Be happy 🙂

Adão & Erva – Yumbad Baguun Parral (8/2019)

Este é o quarto livro do Parral que eu leio e, apesar deste ser melhor que o último que eu li (Biomarketing), ainda não é melhor que os dois primeiros (Sua Excrecência… e Santa Puta). Mas desta vez eu nem posso tecer muitas críticas, já que o livro é escrito como um cordel e eu simplesmente não consigo ler textos em versos. Falha minha!

De qualquer forma, a proposta é interessante: reescrever o mito bíblico da criação do mundo, do pecado original, e outras estórias do cristianismo, introduzindo vários elementos de outras mitologias. Neste livro, é Adão quem comete o pecado de, sob a influência de Prometheus, queimar e inalar a erva proibida. De uma certa forma, assim como no mito original, Eva é a personagem criada por um Deus(pota) para receber toda a culpa por esta “escorregada” de Adão e por tudo de ruim que acontece à humanidade à parti dai.

A premissa inicial é bem interessante, assim como o desenvolvimento, misturando diversas passagens da bíblia com alguns fatos históricos e tecendo uma crítica a uma sociedade misógina e ignorante (e na maioria das vezes arrogante também). Mas vou para por aqui devido à este meu problema com versos (eu fico “cantando” as rimas na cabeça e não consigo captar a mensagem).

Be happy 🙂

How Democracies Die – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (7/2019)

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt são dois cientistas políticos, ambos professores de Harvard (de verdade!) e estudiosos do desenvolvimento de sistemas políticos na América Latina e Europa (respectivamente). Em How Democracies Die eles compilam seus estudos e observações para mostrar como sistemas autoritários podem se instalar à partir de democracias. Isto vem ocorrendo principalmente à partir do início do século XX e inclusive tem se tornado a forma mais comum, em contraposição ao que ocorria até então, onde estes sistemas se instalavam à partir de golpes ou de conflitos.

Usando exemplos dos mais diversos espectros políticos, como Hitler, Mussolini, Getúlio Vargas, Ferdinando Marcos, Pinochet, Perón, Fujimori, e mais recentemente Putin, Erdogan, Viktor Orban, Hugo Chaves, Rafael Correa e Evo Morales, eles mapeiam o modus operandi comum a todos estes déspotas (que eles chamam de demagogos). Normalmente estes chegam ao poder por vias democráticas, na maioria das vezes com a ajuda de pessoas, grupos e partidos comprometidos com a democracia, mas que vislumbram a tomada de poder a qualquer custo achando que, depois de chegar ao poder, estes déspotas serão facilmente controlados ou descartados. Porém, depois de instalados, estes déspotas começam a distorcer as leis e regras da democracia para perseguir adversários (incluindo muitos que eram até há pouco tempo aliados), a aparelharem a máquina estatal (legislativo, judiciário, estatais, etc.) e a colocar a imprensa e os adversários em descrédito ou sob ameaça, afim de se perpetuarem no poder.

Logo de início, eles trazem à pauta uma ferramenta desenvolvida por ambos a partir do trabalho do sociólogo e cientista político Juan Linz. A ferramenta consiste em uma tabela com quatro critérios principais (e 13 subquestões) para testar se um político é um potencial déspota. (1) Rejeição ou pouca aceitação de regras democráticas; (2) negação da legitimidade de oponentes políticos; (3) encorajamento ou tolerância à violência e; (4) uma prontidão para limitar as liberdades civis de oponentes, incluindo a mídia, são os quatro critérios. Os autores frisam que a associação de apenas um dos critérios a um político já deveria ser suficiente para descartá-lo como um potencial candidato/governante.

Depois de prover os exemplos e o modus operandi, bem como a tabela, eles entram especificamente no caso dos EUA, dando um apanhado geral em como o sistema democrático norteamericano se desenvolveu e evoluiu, muitas vezes sendo não tão democrático, até atingir uma estabilidade que, aparentemente, seria constante à partir de então. Neste capítulo eles trazem à tona o importante papel dos partidos e das lideranças políticas como gatekeepers (não achei uma tradução boa para o termo, mas seria algo como aqueles que impedem ou filtram a passagem), evitando assim que estes déspotas (que na sua absoluta maioria são também populistas) cheguem a disputar as eleições e contar com a infraestrutura partidária.

Porém, à partir do meio dos anos sessenta, por conta do movimento dos direitos civis, até o meio dos anos setenta, com a questão do aborto definida pela decisao do caso Roe vs Wade, esta estabilidade começou a ser ameaçada. Os republicanos (conservadores) começaram a concentrar eleitores brancos (especialmente nos estado do centro-sul e em cidades pequenas) e religiosos (contrários à legalização do aborto), “empurrando” os demais eleitores para os democratas (liberais). Importante frisar que, até então, ironicamente, os democratas destes estados eram os que se opunham à concessão de direitos iguais aos negros. À partir de então os republicanos têm ficado acuados, ainda mais devido às mudanças na demografia americana, que vem reduzindo ano a ano a proporção do perfil de eleitores republicanos (branco cristão). Sentindo a possibilidade da perda de poder, num movimento iniciado à partir do meio dos anos 80, o partido tem “apelado” à estes déspotas.

O ápice desta instabilidade democrática ocorreu em 2016, com a nomeação do então empresário e apresentador Donald Trump como o candidato republicano. Trump basicamente atende todos os critérios do teste e na verdade os usa como tática política. Para agravar o problema, nos EUA existem poucas leis e muitos acordos tácitos, ou light guard-rails, como eles chamam, que vêm sendo colocados à prova desde então.

Os autores também frisam que, apesar da tentação que a oposição tem de retribuir com a mesma moeda e usar as mesmas táticas (qualquer semelhança com o Brasil dos últimos 20 anos não é mera coincidência), os demais partidos, grupos e políticos precisam evitar o uso do mesmo ardil, pois senão a escalada rumo a um sistema iliberal (para citar o Identity do Fukuyama) é inevitável.

Be happy 🙂

Biomarketing – Yumbad Baguun Parral (6/2019)

Este é o quarto livro que eu leio do Parral. As outras três resenhas estão aqui, aqui e aqui (no primeiro link tem uma explicação de quem é o autor e um link para uma matéria da Piaui sobre ele, então não vou repetir). Entre todos este foi o mais fraco. A impressão que me deu é que este é uma colagem de pequenos trechos e textos avulsos que não foram muito bem ligados.

A idéia central do livro é fazer um paralelo entre o livre mercado (e suas ferramentas, como o marketing) e o desenvolvimento de um indivíduo. Também tenta trazer uma fórmula para atingir o sucesso em ambos: nos negócios e na vida pessoal. Existe também um paralelo entre as duas situações e a teoria da evoluçao de Darwin. Porém este segundo paralelo é bem fraco, pois o livro dá a entender que um indivíduo é responsável pelo desenvolvimento de sua prole (e por consequência da espécie) quando na verdade, segundo a teoria de Darwin, o processo é totalmente aleatório. O máximo que um indivíduo faz é tentar espalhar ao máximo o seu gene.

Depois de desenvolver estes paralelos, contando inclusive com muitas dissertações sobre componentes individuais (novamente dando a impressão de serem textos independentes), existe uma pequena autobiografia, onde o autor conta um pouco da sua trajetória e de como ele atingiu o sucesso segundo os seus critérios. E aqui eu concordo totalmente com o autor: o critério para o sucesso é muito pessoal. E ainda vou mais além: à partir do momento em que alguém deixou outro ente (outra pessoa, um grupo, a sociedade, etc.) determinar o que é seu sucesso, isto em sí já é um fracasso. Outro ponto é que o livro tem uma pegada de auto-ajuda, o que pode ter contribuido também para a minha má impressão. Mas fica a dica: se encontrarem o Parral pelos bares da Vila Madalena, adquiram um exemplar deste ou de algum outro (“E já vem autografado, pra virar relíquia!”).

Be happy 🙂

The New Geography of Jobs – Enrico Moretti (5/2019)

Enrico Moretti, economista italiano e professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, faz uma análise neste livro das mudanças recentes no perfil da economia americana e em como estas mudanças têm influenciado os empregos. De início, ele descreve as duas principais mudanças ocorridas à partir do século passado, sendo a primeira à partir de uma economia fortemente baseada na agricultura para uma economia manufatureira, sobretudo durante e logo após a segunda grande guerra. Esta mudança gerou um salto na qualidade de vida da população americana, tanto por conta do incremento na produtividade e consequentemente na renda média das famílias, quanto pelo barateamento do preço de produtos manufaturados.

Aqui ele traz à tona um fato bem importante: normalmente quando se fala em aumento de renda é difícil mensurar os aumentos relativos ao barateamento de bens e serviços, especialmente porque eles mudam muito em pouco tempo. Porém este “ganho” não deve ser desprezado. Ele traz alguns dados referentes à quantidade de carros por habitantes e de televisores por casa, que aumentaram exponencialmente entre as décadas de 50 e 70, ou seja, ficaram mais acessíveis para mais gente.

Depois ele fala da segunda grande mudança, que foi a migração das manufaturas para países em desenvolvimento e a mudança no perfil de emprego nos EUA para o setor de pesquisa e desenvolvimento e inovação, ocorrida à partir da década de 80, mas com uma forte aceleração durante a década de 90. Apesar desta mudança beneficiar o país como um todo (e até outras nações), ela aumentou as diferenças dentro do país, especialmente as geográficas.

Em uma economia baseada em manufatura, as regiões mais atrativas para a criação de um negócio são relacionadas à logística: proximidade das fontes de matéria-prima, de canais de escoamento e infra-estrutura. Neste perfil de economia, é mais fácil desenvolver determinada região, já que basta prover a infra-estrutura, barateando assim os custos logísticos. Porém, quando há a mudança para o perfil de inovação as coisas começam a ficar mais complicadas.

Através de vários exemplos, ele demonstra como as empresas atuantes em inovação se desenvolvem em conjunto, dentro de um ecosistema, que ele denomina de “innovation clusters” (quando analisa a perspectiva das empresas) e “brain hubs” (quando analisa o capital humano). A disponibilidade de matéria-prima e infra-estrutura é pouco determinante para o desenvolvimento destes clusters, já que a matéria-prima agora é o conhecimento (human capital). Porém, estes clusteres apresentam poucas razões objetivas para iniciarem e se desenvolverem e existe uma interdependência entre demanda e oferta: os melhores cérebros tendem a se moverem para os locais onde existem mais empresas, enquanto as empresas tendem a se instalarem onde existem mais cérebros. É o velho e famoso dilema da Tostines!

Dois conceitos bem importantes para a formação de um cluster são o efeito denominado “knowledge spillover” e a alta densidade do mercado (market thickness). O knowledge spillover pode ser traduzido ao pé da letra como transbordamento de conhecimento, e acontece porque quanto mais conhecimento existe num lugar, mais conhecimento tende a ser gerado, já que quando se agrega mais cérebros trocando conhecimento, o resultado é maior do que a soma do que estes indivíduos produziriam sozinhos. A densidade do mercado é entendida à partir da quantidade de demanda e oferta: se houver pouca oferta E pouca demanda, a chance de que “matches” ocorram é bem menor do que se houver bastante oferta E bastante demanda, mesmo que ambas estejam equilibradas (oferta = demanda) nas duas situações.

É mais ou menos assim: você vai vender um carro e vai num local onde só tem uma pessoa querendo comprar um carro. A chance de um negócio acontecer é bem menor do que em um lugar onde existam 100 pessoas querendo comprar um carro, mesmo que existam outras 99 pessoas querendo vender um carro (concorrência).

A boa notícia é que, por conta destas características, estes clusteres não são facilmente replicáveis, ou seja, dificilmente o movimento de migração para outros lugares por conta de custos que ocorreu com as manufaturas deve ocorrer. Pelo contrário: empresas nascidas fora de clusteres tendem a se mudar para algum cluster. E além disto eles têm um efeito multiplicador maior do que manufatura: os salários nestes clusteres tendem a ser maiores do que nos locais de perfil manufatureiro, e tanto os trabalhadores diretos (os tais “cérebros”) quanto todos os demais trabalhadores destes clusteres tem uma renda acima da média nacional.

Advogados, médicos, professores, garçons, frentistas, mecânicos, pedreiros: todos se beneficiam destes clusteres. De acordo com os dados do autor, trabalhadores com high school completo (equivalente ao segundo grau no Brasil) costumam ganhar mais nestes clusteres do que trabalhadores com nível universitário em outros locais. E isto se “cascateia” para os outros níveis, inclusive com trabalhadores menos qualificados colhendo proporcionalmente mais benefícios do que os altamente qualificados, como por exemplo, através do uso de serviços públicos melhores, que são financiados através de impostos. Como existe progressividade de imposto nos EUA, quem ganha mais paga mais imposto, mesmo que todos usufruam igualmente do benefício (tranferência de renda).

E ai começa o primeiro problema observado: isto está criando um abismo geográfico, com regiões muito ricas, algumas muito pobres e algumas poucas no meio do caminho (ainda não viraram um brain hub e podem tanto vir a se tornar um quanto não). O segundo problema é relativo à gentrificação, que acaba expulsando especialmente os mais idosos dos locais onde estes hubs se concentram, já que a aposentadoria deles não consegue acompanhar os custos de se viver nestes locais.

No último capítulo Enrico apresenta algumas ações que as sociedades podem tomar para fomentar estes clusteres (sem no entando garantir seu desenvolvimento), e a resposta não podia ser mais óbvia: investimento em educação (especialmente em ciências, tecnologia, engenharia e matemática, o famoso STEM) e em pesquisa e desenvolvimento (especialmente pesquisa de base).

Uma ótima leitura para entender as mudanças que ocorreram não só nos EUA, mas no mundo todo, já que toda a economia global tem sido influenciada por elas!

Be happy 🙂

From Cradle To Stage – Virginia Hanlon Grohl (4/2019)

Virginia Grohl, como o nome e a capa do livro dão a deixa, é mãe do David Grohl, vocalista do Foo Fighters, ex-baterista do Nirvana, e talvez o rockstar mais famoso da atualidade. Tendo acompanhado o desenvolvimento do próprio filho como músico e a jornada dele e de seus companheiros das bandas das quais participou, sempre teve a curiosidade de saber como tinha sido o pré-estrelato de outros artistas e como isto influenciou suas respectivas famílias. Ao comentar com uma amiga sobre esta curiosidade, recebeu o desafio: “por que você nao entrevista as mães de outros artistas e escreve um livro?”. A missão dada, que durou cerca de três anos, culminou no ótimo From Cradle To Stage, cujo subtítulo é “stories from mothers who rocked and raised rock stars”, com prefácio escrito pelo próprio filho.

Nestes três anos, Virginia, que também é educadora, viajou pelos EUA, à Inglaterra e ao Canadá para entrevistar as mães de artistas como Michael Stipe, Adam Levine, Dr. Dre, Amy Winehouse, Pharrel Williams, entre outros. Cada uma destas entrevistas rendeu um capítulo no livro, mas ao invés de apresentá-los como uma entrevista mesmo, quem conta a história dos artistas e suas mães é a própria autora, adicionando, claro, suas percepções pessoais e comparando com a própria história. Entre cada um destes capítulos existem pequenos textos onde Virginia conta a sua própria história, a do filho, suas bandas e o que ela vivenciou em relação aos bastidores do mundo da música.

Uma constatação interessante é que a maioria destas mães já possuiam um nível educacional acima da média e uma visão de mundo diferente do senso comum, e que isto pode ter sido o canalizador para a energia criativa dos filhos. Invariavelmente ela faz uma crítica aos modelos educacionais até hoje vigentes, que tentam enquadram as crianças dentro de padrões ao invés de extrair delas o que elas têm de melhor. Ela inclusive levanta a questão de quantos talentos não devem ter se perdido por conta disto. Quantos hoje advogados ou médicos não são poetas, músicos ou pintores que foram desperdiçados pela falta de apoio e pela falta de um sistema educacional que aproveite o que cada pessoa tem de melhor.

Duas histórias são particularmente interessantes. A primeira é de Mary Weinrib, mãe do Geddy Lee, do power trio canadense Rush, que sobreviveu junto com sua família ao campo de concentração de Auchwitz e, quando estava em vias de estabilizar sua vida, já instalada no Canadá, perdeu o marido (este sobrevivente do campo de concentração de Dachau) precocemente e tendo então três filhos pequenos. A segunda é de Mary Morello, mãe de Tom Morello, guitarrista do Rage Against the Machine, Audioslave e agora do Prophets of Rage, uma revolucionária e aventureira por natureza, que teve bastante importância na formação da capacidade crítica do filho.

É um daqueles livros bem gostosos de ler, que dá inclusive para ser devorado de uma vez se a oportunidade assim permitir.

Be happy 🙂

Sapiens, A Brief History of Humankind – Yuval Noah Harari (3/2019)

Nos últimos anos tinha ouvido falar muito sobre Yuri Harari, considerado um dos grandes pensadores contemporâneos, e sua principal obra, Sapiens. O livro tem sido bastante mencionado por alguns divulgadores científicos que eu acompanho na internet, mas efetivamente eu nunca tinha parado para lê-lo ou assitir alguma palestra ou TEDx do Harari (existem dezenas disponíveis no Youtube). Finalmente resolvi ler esta obra.

Sapiens tenta contar de uma maneira amigável e não técnica como e porque o Homo sapiens evoluiu de uma das várias espécies humanas até se tornar a espécie no topo da cadeia (considerando todas as espécies). A hipótese central de Harari é de que os sapiens atingiram o estado atual pois é a única espécie capaz de criar uma realidade imaginada e que isto é essencial para que grupos cada vez maiores de indivíduos possam colaborar. Para contar todo o percurso, o livro é dividido em quatro partes.

Na primeira parte, chamada de revolução cognitiva, o livro conta a história do surgimento dos ancestrais dos Homos, em como estes ancestrais se espalharam pelo mundo, evoluindo em espécies distintas até o surgimento dos sapiens. Existe uma descrição também das hipóteses evolutivas que levaram apenas uma destas espécies a desenvolverem uma inteligência superior e sua capacidade cognitiva e imaginativa. A partir dai, conta-se a história de como esta espécie se espalhou pelo globo, promovendo a extinção das demais espécies de Homo.

Na segunda revolução, denominada revolução agricultural, é descrita a fase de transição dos sapiens do nomadismo para o sedentarismo, através do dominio sobre outras espécies e da modificação dos ambientes. Como consequência desta transformação e somando-se a capacidade imaginativa, foi possivel cada vez mais a organização de uma quantidade maior de indivíduos em grupos. E cada vez mais mitos eram necessários para unir as pessoas, fazendo com que elas colaborassem em prol de um objetivo comum. Harari pontua que este “truque da evolução”, apesar de muito positivo para a espécie, não foi tão boa para os indivíduos, que passaram a trabalhar cada vez mais, consumir uma variedade menor de alimentos e a ficarem restritos a espaços menores.

A terceira parte trata de como estes grupos se expandiram através de impérios, seja anexando, seja aniquilando outros grupos. Alguns mitos que tiveram (e ainda têm) um papel muito importante nesta expansão rumo a um império global foram a crença no mito das nações, as religiões e ideologias políticas (Harari coloca estes dois mitos na mesma categoria) e o mito do dinheiro. Mas esta expansão teve seus limites, que foram vencidos através da revolução seguinte.

Na revolução científica (e tecnológica), os mitos da fase dos grandes impérios são reforçados: através da consolidação das religiões monoteistas, das ideologias políticas como fios condutores das nações e da crença no dinheiro, culminando no capitalismo. Agora as barreiras que separavam diferentes grupos são quebradas, o que invariavelmente deveria resultar no grande império global. E até o limite da vida está em vias de ser sobrepujado através da ciência e tecnologia.

O livro recebeu muitas críticas de acadêmicos, a maioria delas por “não trazer nada de novo”. Mas o novo no caso, na minha opnião, foi justamente ter “traduzido” muito conhecimento produzido em áreas como história, biologia, antropologia, entre tantas outras, para uma linguagem mais palatável a quem não é especialista nestas áreas. E além de tudo com doses certeiras de humor. Altamente recomendado!

Be happy 🙂