Arquivo da tag: Literatura

How Democracies Die – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (7/2019)

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt são dois cientistas políticos, ambos professores de Harvard (de verdade!) e estudiosos do desenvolvimento de sistemas políticos na América Latina e Europa (respectivamente). Em How Democracies Die eles compilam seus estudos e observações para mostrar como sistemas autoritários podem se instalar à partir de democracias. Isto vem ocorrendo principalmente à partir do início do século XX e inclusive tem se tornado a forma mais comum, em contraposição ao que ocorria até então, onde estes sistemas se instalavam à partir de golpes ou de conflitos.

Usando exemplos dos mais diversos espectros políticos, como Hitler, Mussolini, Getúlio Vargas, Ferdinando Marcos, Pinochet, Perón, Fujimori, e mais recentemente Putin, Erdogan, Viktor Orban, Hugo Chaves, Rafael Correa e Evo Morales, eles mapeiam o modus operandi comum a todos estes déspotas (que eles chamam de demagogos). Normalmente estes chegam ao poder por vias democráticas, na maioria das vezes com a ajuda de pessoas, grupos e partidos comprometidos com a democracia, mas que vislumbram a tomada de poder a qualquer custo achando que, depois de chegar ao poder, estes déspotas serão facilmente controlados ou descartados. Porém, depois de instalados, estes déspotas começam a distorcer as leis e regras da democracia para perseguir adversários (incluindo muitos que eram até há pouco tempo aliados), a aparelharem a máquina estatal (legislativo, judiciário, estatais, etc.) e a colocar a imprensa e os adversários em descrédito ou sob ameaça, afim de se perpetuarem no poder.

Logo de início, eles trazem à pauta uma ferramenta desenvolvida por ambos a partir do trabalho do sociólogo e cientista político Juan Linz. A ferramenta consiste em uma tabela com quatro critérios principais (e 13 subquestões) para testar se um político é um potencial déspota. (1) Rejeição ou pouca aceitação de regras democráticas; (2) negação da legitimidade de oponentes políticos; (3) encorajamento ou tolerância à violência e; (4) uma prontidão para limitar as liberdades civis de oponentes, incluindo a mídia, são os quatro critérios. Os autores frisam que a associação de apenas um dos critérios a um político já deveria ser suficiente para descartá-lo como um potencial candidato/governante.

Depois de prover os exemplos e o modus operandi, bem como a tabela, eles entram especificamente no caso dos EUA, dando um apanhado geral em como o sistema democrático norteamericano se desenvolveu e evoluiu, muitas vezes sendo não tão democrático, até atingir uma estabilidade que, aparentemente, seria constante à partir de então. Neste capítulo eles trazem à tona o importante papel dos partidos e das lideranças políticas como gatekeepers (não achei uma tradução boa para o termo, mas seria algo como aqueles que impedem ou filtram a passagem), evitando assim que estes déspotas (que na sua absoluta maioria são também populistas) cheguem a disputar as eleições e contar com a infraestrutura partidária.

Porém, à partir do meio dos anos sessenta, por conta do movimento dos direitos civis, até o meio dos anos setenta, com a questão do aborto definida pela decisao do caso Roe vs Wade, esta estabilidade começou a ser ameaçada. Os republicanos (conservadores) começaram a concentrar eleitores brancos (especialmente nos estado do centro-sul e em cidades pequenas) e religiosos (contrários à legalização do aborto), “empurrando” os demais eleitores para os democratas (liberais). Importante frisar que, até então, ironicamente, os democratas destes estados eram os que se opunham à concessão de direitos iguais aos negros. À partir de então os republicanos têm ficado acuados, ainda mais devido às mudanças na demografia americana, que vem reduzindo ano a ano a proporção do perfil de eleitores republicanos (branco cristão). Sentindo a possibilidade da perda de poder, num movimento iniciado à partir do meio dos anos 80, o partido tem “apelado” à estes déspotas.

O ápice desta instabilidade democrática ocorreu em 2016, com a nomeação do então empresário e apresentador Donald Trump como o candidato republicano. Trump basicamente atende todos os critérios do teste e na verdade os usa como tática política. Para agravar o problema, nos EUA existem poucas leis e muitos acordos tácitos, ou light guard-rails, como eles chamam, que vêm sendo colocados à prova desde então.

Os autores também frisam que, apesar da tentação que a oposição tem de retribuir com a mesma moeda e usar as mesmas táticas (qualquer semelhança com o Brasil dos últimos 20 anos não é mera coincidência), os demais partidos, grupos e políticos precisam evitar o uso do mesmo ardil, pois senão a escalada rumo a um sistema iliberal (para citar o Identity do Fukuyama) é inevitável.

Be happy 🙂

Biomarketing – Yumbad Baguun Parral (6/2019)

Este é o quarto livro que eu leio do Parral. As outras três resenhas estão aqui, aqui e aqui (no primeiro link tem uma explicação de quem é o autor e um link para uma matéria da Piaui sobre ele, então não vou repetir). Entre todos este foi o mais fraco. A impressão que me deu é que este é uma colagem de pequenos trechos e textos avulsos que não foram muito bem ligados.

A idéia central do livro é fazer um paralelo entre o livre mercado (e suas ferramentas, como o marketing) e o desenvolvimento de um indivíduo. Também tenta trazer uma fórmula para atingir o sucesso em ambos: nos negócios e na vida pessoal. Existe também um paralelo entre as duas situações e a teoria da evoluçao de Darwin. Porém este segundo paralelo é bem fraco, pois o livro dá a entender que um indivíduo é responsável pelo desenvolvimento de sua prole (e por consequência da espécie) quando na verdade, segundo a teoria de Darwin, o processo é totalmente aleatório. O máximo que um indivíduo faz é tentar espalhar ao máximo o seu gene.

Depois de desenvolver estes paralelos, contando inclusive com muitas dissertações sobre componentes individuais (novamente dando a impressão de serem textos independentes), existe uma pequena autobiografia, onde o autor conta um pouco da sua trajetória e de como ele atingiu o sucesso segundo os seus critérios. E aqui eu concordo totalmente com o autor: o critério para o sucesso é muito pessoal. E ainda vou mais além: à partir do momento em que alguém deixou outro ente (outra pessoa, um grupo, a sociedade, etc.) determinar o que é seu sucesso, isto em sí já é um fracasso. Outro ponto é que o livro tem uma pegada de auto-ajuda, o que pode ter contribuido também para a minha má impressão. Mas fica a dica: se encontrarem o Parral pelos bares da Vila Madalena, adquiram um exemplar deste ou de algum outro (“E já vem autografado, pra virar relíquia!”).

Be happy 🙂

The New Geography of Jobs – Enrico Moretti (5/2019)

Enrico Moretti, economista italiano e professor da Universidade da Califórnia, em Berkeley, faz uma análise neste livro das mudanças recentes no perfil da economia americana e em como estas mudanças têm influenciado os empregos. De início, ele descreve as duas principais mudanças ocorridas à partir do século passado, sendo a primeira à partir de uma economia fortemente baseada na agricultura para uma economia manufatureira, sobretudo durante e logo após a segunda grande guerra. Esta mudança gerou um salto na qualidade de vida da população americana, tanto por conta do incremento na produtividade e consequentemente na renda média das famílias, quanto pelo barateamento do preço de produtos manufaturados.

Aqui ele traz à tona um fato bem importante: normalmente quando se fala em aumento de renda é difícil mensurar os aumentos relativos ao barateamento de bens e serviços, especialmente porque eles mudam muito em pouco tempo. Porém este “ganho” não deve ser desprezado. Ele traz alguns dados referentes à quantidade de carros por habitantes e de televisores por casa, que aumentaram exponencialmente entre as décadas de 50 e 70, ou seja, ficaram mais acessíveis para mais gente.

Depois ele fala da segunda grande mudança, que foi a migração das manufaturas para países em desenvolvimento e a mudança no perfil de emprego nos EUA para o setor de pesquisa e desenvolvimento e inovação, ocorrida à partir da década de 80, mas com uma forte aceleração durante a década de 90. Apesar desta mudança beneficiar o país como um todo (e até outras nações), ela aumentou as diferenças dentro do país, especialmente as geográficas.

Em uma economia baseada em manufatura, as regiões mais atrativas para a criação de um negócio são relacionadas à logística: proximidade das fontes de matéria-prima, de canais de escoamento e infra-estrutura. Neste perfil de economia, é mais fácil desenvolver determinada região, já que basta prover a infra-estrutura, barateando assim os custos logísticos. Porém, quando há a mudança para o perfil de inovação as coisas começam a ficar mais complicadas.

Através de vários exemplos, ele demonstra como as empresas atuantes em inovação se desenvolvem em conjunto, dentro de um ecosistema, que ele denomina de “innovation clusters” (quando analisa a perspectiva das empresas) e “brain hubs” (quando analisa o capital humano). A disponibilidade de matéria-prima e infra-estrutura é pouco determinante para o desenvolvimento destes clusters, já que a matéria-prima agora é o conhecimento (human capital). Porém, estes clusteres apresentam poucas razões objetivas para iniciarem e se desenvolverem e existe uma interdependência entre demanda e oferta: os melhores cérebros tendem a se moverem para os locais onde existem mais empresas, enquanto as empresas tendem a se instalarem onde existem mais cérebros. É o velho e famoso dilema da Tostines!

Dois conceitos bem importantes para a formação de um cluster são o efeito denominado “knowledge spillover” e a alta densidade do mercado (market thickness). O knowledge spillover pode ser traduzido ao pé da letra como transbordamento de conhecimento, e acontece porque quanto mais conhecimento existe num lugar, mais conhecimento tende a ser gerado, já que quando se agrega mais cérebros trocando conhecimento, o resultado é maior do que a soma do que estes indivíduos produziriam sozinhos. A densidade do mercado é entendida à partir da quantidade de demanda e oferta: se houver pouca oferta E pouca demanda, a chance de que “matches” ocorram é bem menor do que se houver bastante oferta E bastante demanda, mesmo que ambas estejam equilibradas (oferta = demanda) nas duas situações.

É mais ou menos assim: você vai vender um carro e vai num local onde só tem uma pessoa querendo comprar um carro. A chance de um negócio acontecer é bem menor do que em um lugar onde existam 100 pessoas querendo comprar um carro, mesmo que existam outras 99 pessoas querendo vender um carro (concorrência).

A boa notícia é que, por conta destas características, estes clusteres não são facilmente replicáveis, ou seja, dificilmente o movimento de migração para outros lugares por conta de custos que ocorreu com as manufaturas deve ocorrer. Pelo contrário: empresas nascidas fora de clusteres tendem a se mudar para algum cluster. E além disto eles têm um efeito multiplicador maior do que manufatura: os salários nestes clusteres tendem a ser maiores do que nos locais de perfil manufatureiro, e tanto os trabalhadores diretos (os tais “cérebros”) quanto todos os demais trabalhadores destes clusteres tem uma renda acima da média nacional.

Advogados, médicos, professores, garçons, frentistas, mecânicos, pedreiros: todos se beneficiam destes clusteres. De acordo com os dados do autor, trabalhadores com high school completo (equivalente ao segundo grau no Brasil) costumam ganhar mais nestes clusteres do que trabalhadores com nível universitário em outros locais. E isto se “cascateia” para os outros níveis, inclusive com trabalhadores menos qualificados colhendo proporcionalmente mais benefícios do que os altamente qualificados, como por exemplo, através do uso de serviços públicos melhores, que são financiados através de impostos. Como existe progressividade de imposto nos EUA, quem ganha mais paga mais imposto, mesmo que todos usufruam igualmente do benefício (tranferência de renda).

E ai começa o primeiro problema observado: isto está criando um abismo geográfico, com regiões muito ricas, algumas muito pobres e algumas poucas no meio do caminho (ainda não viraram um brain hub e podem tanto vir a se tornar um quanto não). O segundo problema é relativo à gentrificação, que acaba expulsando especialmente os mais idosos dos locais onde estes hubs se concentram, já que a aposentadoria deles não consegue acompanhar os custos de se viver nestes locais.

No último capítulo Enrico apresenta algumas ações que as sociedades podem tomar para fomentar estes clusteres (sem no entando garantir seu desenvolvimento), e a resposta não podia ser mais óbvia: investimento em educação (especialmente em ciências, tecnologia, engenharia e matemática, o famoso STEM) e em pesquisa e desenvolvimento (especialmente pesquisa de base).

Uma ótima leitura para entender as mudanças que ocorreram não só nos EUA, mas no mundo todo, já que toda a economia global tem sido influenciada por elas!

Be happy 🙂

From Cradle To Stage – Virginia Hanlon Grohl (4/2019)

Virginia Grohl, como o nome e a capa do livro dão a deixa, é mãe do David Grohl, vocalista do Foo Fighters, ex-baterista do Nirvana, e talvez o rockstar mais famoso da atualidade. Tendo acompanhado o desenvolvimento do próprio filho como músico e a jornada dele e de seus companheiros das bandas das quais participou, sempre teve a curiosidade de saber como tinha sido o pré-estrelato de outros artistas e como isto influenciou suas respectivas famílias. Ao comentar com uma amiga sobre esta curiosidade, recebeu o desafio: “por que você nao entrevista as mães de outros artistas e escreve um livro?”. A missão dada, que durou cerca de três anos, culminou no ótimo From Cradle To Stage, cujo subtítulo é “stories from mothers who rocked and raised rock stars”, com prefácio escrito pelo próprio filho.

Nestes três anos, Virginia, que também é educadora, viajou pelos EUA, à Inglaterra e ao Canadá para entrevistar as mães de artistas como Michael Stipe, Adam Levine, Dr. Dre, Amy Winehouse, Pharrel Williams, entre outros. Cada uma destas entrevistas rendeu um capítulo no livro, mas ao invés de apresentá-los como uma entrevista mesmo, quem conta a história dos artistas e suas mães é a própria autora, adicionando, claro, suas percepções pessoais e comparando com a própria história. Entre cada um destes capítulos existem pequenos textos onde Virginia conta a sua própria história, a do filho, suas bandas e o que ela vivenciou em relação aos bastidores do mundo da música.

Uma constatação interessante é que a maioria destas mães já possuiam um nível educacional acima da média e uma visão de mundo diferente do senso comum, e que isto pode ter sido o canalizador para a energia criativa dos filhos. Invariavelmente ela faz uma crítica aos modelos educacionais até hoje vigentes, que tentam enquadram as crianças dentro de padrões ao invés de extrair delas o que elas têm de melhor. Ela inclusive levanta a questão de quantos talentos não devem ter se perdido por conta disto. Quantos hoje advogados ou médicos não são poetas, músicos ou pintores que foram desperdiçados pela falta de apoio e pela falta de um sistema educacional que aproveite o que cada pessoa tem de melhor.

Duas histórias são particularmente interessantes. A primeira é de Mary Weinrib, mãe do Geddy Lee, do power trio canadense Rush, que sobreviveu junto com sua família ao campo de concentração de Auchwitz e, quando estava em vias de estabilizar sua vida, já instalada no Canadá, perdeu o marido (este sobrevivente do campo de concentração de Dachau) precocemente e tendo então três filhos pequenos. A segunda é de Mary Morello, mãe de Tom Morello, guitarrista do Rage Against the Machine, Audioslave e agora do Prophets of Rage, uma revolucionária e aventureira por natureza, que teve bastante importância na formação da capacidade crítica do filho.

É um daqueles livros bem gostosos de ler, que dá inclusive para ser devorado de uma vez se a oportunidade assim permitir.

Be happy 🙂

Sapiens, A Brief History of Humankind – Yuval Noah Harari (3/2019)

Nos últimos anos tinha ouvido falar muito sobre Yuri Harari, considerado um dos grandes pensadores contemporâneos, e sua principal obra, Sapiens. O livro tem sido bastante mencionado por alguns divulgadores científicos que eu acompanho na internet, mas efetivamente eu nunca tinha parado para lê-lo ou assitir alguma palestra ou TEDx do Harari (existem dezenas disponíveis no Youtube). Finalmente resolvi ler esta obra.

Sapiens tenta contar de uma maneira amigável e não técnica como e porque o Homo sapiens evoluiu de uma das várias espécies humanas até se tornar a espécie no topo da cadeia (considerando todas as espécies). A hipótese central de Harari é de que os sapiens atingiram o estado atual pois é a única espécie capaz de criar uma realidade imaginada e que isto é essencial para que grupos cada vez maiores de indivíduos possam colaborar. Para contar todo o percurso, o livro é dividido em quatro partes.

Na primeira parte, chamada de revolução cognitiva, o livro conta a história do surgimento dos ancestrais dos Homos, em como estes ancestrais se espalharam pelo mundo, evoluindo em espécies distintas até o surgimento dos sapiens. Existe uma descrição também das hipóteses evolutivas que levaram apenas uma destas espécies a desenvolverem uma inteligência superior e sua capacidade cognitiva e imaginativa. A partir dai, conta-se a história de como esta espécie se espalhou pelo globo, promovendo a extinção das demais espécies de Homo.

Na segunda revolução, denominada revolução agricultural, é descrita a fase de transição dos sapiens do nomadismo para o sedentarismo, através do dominio sobre outras espécies e da modificação dos ambientes. Como consequência desta transformação e somando-se a capacidade imaginativa, foi possivel cada vez mais a organização de uma quantidade maior de indivíduos em grupos. E cada vez mais mitos eram necessários para unir as pessoas, fazendo com que elas colaborassem em prol de um objetivo comum. Harari pontua que este “truque da evolução”, apesar de muito positivo para a espécie, não foi tão boa para os indivíduos, que passaram a trabalhar cada vez mais, consumir uma variedade menor de alimentos e a ficarem restritos a espaços menores.

A terceira parte trata de como estes grupos se expandiram através de impérios, seja anexando, seja aniquilando outros grupos. Alguns mitos que tiveram (e ainda têm) um papel muito importante nesta expansão rumo a um império global foram a crença no mito das nações, as religiões e ideologias políticas (Harari coloca estes dois mitos na mesma categoria) e o mito do dinheiro. Mas esta expansão teve seus limites, que foram vencidos através da revolução seguinte.

Na revolução científica (e tecnológica), os mitos da fase dos grandes impérios são reforçados: através da consolidação das religiões monoteistas, das ideologias políticas como fios condutores das nações e da crença no dinheiro, culminando no capitalismo. Agora as barreiras que separavam diferentes grupos são quebradas, o que invariavelmente deveria resultar no grande império global. E até o limite da vida está em vias de ser sobrepujado através da ciência e tecnologia.

O livro recebeu muitas críticas de acadêmicos, a maioria delas por “não trazer nada de novo”. Mas o novo no caso, na minha opnião, foi justamente ter “traduzido” muito conhecimento produzido em áreas como história, biologia, antropologia, entre tantas outras, para uma linguagem mais palatável a quem não é especialista nestas áreas. E além de tudo com doses certeiras de humor. Altamente recomendado!

Be happy 🙂

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency – Douglas Adams (2/2019)

Em O Salmão da Dúvida e no Não Entre em Panico, duas biografias do Douglas Adams, explica-se um pouco de como ele costumava criar suas estórias. Basicamente ele criava pequenos contos, depois decidia onde iria encaixá-los (na série do Guia do Mochileiro, na série Dirk Gently, no Dr. Who) e depois ele costurava e ajustava estas pequenas estórias para o contexto do “pano” onde este retalho deveria se encaixar.

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency é o primeiro livro da série Dirk Gently, que acabou tendo apenas dois livros. O terceiro seria o Salmão, que foi compilado postumamente à partir destes pequenos textos, alguns inacabados. Esta característica de diversas estórias costuradas é bem visível neste livro.

O pano de fundo é o assassinato de um milionário da indústria de software e à partir dai, as várias histórias são ligadas, sempre com aquela pitada de humor inglês característica de Adams. Como não podia faltar, o livro também tem ciência, misticismo, filosofia. Achei este um pouco confuso e demorado pra “pegar” um clima legal, especialmente porque uma das linhas (Eletronic Monk) acabou não se encaixando muito bem nesta colcha de retalhos.

Talvez isto tenha sido causado pelo fato de ser o primeiro dele que eu leio em inglês. Ou pela inevitável comparação com a série do Guia (que pretendo reler em inglês). Ainda assim é um Douglas Adams, e repetindo o que disse no texto de E Tem Outra Coisa…, foi um gênio que infelizmente nos deixou cedo demais.

Be happy 🙂

Identity: The Demand for Dignity and the Politics of Resentment – Francis Fukuyama (1/2019)

Francis Fukuyama é professor, escritor e cientista político e econômico. Muito famoso por sua defesa do liberalismo como forma de organização social, foi ele quem logo após a queda do muro de Berlin e da URSS decretou “a vitória do liberalismo”. Porém neste livro ele faz uma análise da ascenção recente de governos não-liberais, à direita (Turquia, Hungria e EUA, entre outros) e à esquerda (Venezuela, Russia), que colocam em risco as sociedades liberais. Ele tenta entender, da perspectiva do indivíduo, o que tem causado uma adesão em massa à estes movimentos iliberais que tanto ameaçam as democracias, inclusive as bem estabelecidas, como EUA e Reino Unido.

Mas antes de continuar, primeiro é preciso definir o que é o liberalismo clássico como filosofia de vida, e não somente a sua aplicação em economia. A filosofia liberal é apenas a filosofia do “viva e deixe viver”. Para que ela exista, todo indivíduo deve ser responsável pelas decisões que influenciam sua vida. Para isto ocorrer, todos devem ser tratados com igualdade, dignidade e respeito. A liberdade é o bem maior e deve ser defendida a todo custo. Um outro ponto importante a se frisar é que, de acordo com os “pais” do liberalismo, um indivíduo sozinho nao é capaz de garantir estes direitos, precisando se associar a outros indivíduos (no que pode se dado o nome de sociedade, cuja forma organizada normalmente resulta num Estado) afim de de fazê-lo.

Quando Fukuyama fala das democracias liberais isto engloba desde as sociais-democracias da Europa até a liberal-democracia norteamericana. O que define uma liberal-democracia, no conceito mais amplo do autor, é a premissa de que todos os seres humanos são iguais, todos devem ter as mesmas oportunidades e todos devem ter o máximo de liberdade possível. E para que isto ocorra no convívio em sociedade, a democracia é, até hoje, a melhor forma encontrada de organização social. Qualquer restrição às liberdades e qualquer ameaça à democracia acabará caindo ou no fascismo (autoritarismo à direita, que segundo Fukuyama, havia sido derrotado na segunda guerra) ou no socialismo (autoritarismo à esquerda, que havia sido derrotado quando da queda da URSS).

Porém, segundo o autor, tanto as sociais-democracias quanto as liberais-democracias têm falhado em suprir a necessidade que as pessoas têm de se sentirem parte de algo maior e de serem respeitados como invíduos. Os primeiros têm cada vez se concentrado em defender minorias “cada vez menores”, inclusive criando uma certa competição entre estas minorias é esquecendo que a sociedade e formada nao só por minorias, mas também por uma “maioria” que pode sentir colocada em segundo plano. Enquanto isto, os segundos se focaram na eficiência dos mercados achando que o bem estar financeiro seria suficiente e esquecendo que dinheiro só satizfaz os dois degraus mais baixos da famosa Pirâmide de Maslow.

O resultado está ai para todo mundo ver: bastante gente que, apesar da situação financeira confortável, se sente preterido em função de determinados grupos e que se acha no direito de ter uma posição privilegiada. Estas pessoas, que são maioria nas sociedades, são um alvo fácil para discursos nacionalistas ou religiosos que promovem justamente a segregação, afinal de contas, “nosso grupo” é melhor do que todos os demais, seja porque somos homens e/ou héteros e/ou brancos e/ou cristãos e/ou não-estrangeiros… E ai acabam partido para a tal democracia “iliberal” (numa tradução livre minha, uma “ditadura da maioria”), querendo impor seus valores para toda a sociedade (“as minorias que se curvem…ou simplesmente desapareçam”), colocando assim em risco os principais conceitos da filosofia liberal (de igualdade e liberdade) que deveriam reger as sociedades democráticas.

É um bom livro para tentar entender toda esta onda nacionalista que vem ocorrendo há pelo menos uns cinco anos e que, infelizmente, parece estar mais próxima de se espalhar do que de se retrair.

Be happy 🙂

Born a Crime – Trevor Noah (13/2018)

Trevor Noah é um comediante e apresentador sul africano que “viralizou” há alguns anos atrás no Brasil por conta de um vídeo de standup sobre a colonização inglesa. Mas antes disto ele já fazia bastante sucesso no seu país natal e no Reino Unido e, já há alguns anos também nos EUA, onde apresenta um dos vários late night shows existentes na TV norte-americana.

Durante o Apartheid, regime segregacionista que existiu na África do sul durante boa parte do século 20, relações sexuais entre pessoas brancas e não brancas era um crime passível de punição de até 5 anos de cadeia. Por ser filho de mãe negra e pai branco nascido durante o Apartheid, Trevor é resultado de um ato ilegal, e isto explica o título do livro.

No livro, que é um misto de autobiografia e biografia da própria mãe de Trevor, ele dá um panorama do que foi o Apartheid visto de dentro. Melhor ainda, visto de dentro por alguém que era um pária dentro desta sociedade, ja que, apesar dos “colored people” (como eram chamados os “pardos”) terem alguns poucos privilégios em relação aos negros, eles normalmente eram isolados socialmente dos dois grupos (“too black to be white and too white to be black”). Além do retrato de uma sociedade onde o racismo era legal e foi implementado com planejamento, também mostra uma sociedade extremamente machista e cheia de crendices e mitos associados às religiões (tribais e ao cristianismo).

Apesar de não ter um intuito de “autoajuda” ou algo do tipo, ele acaba trazendo algumas “mensagens motivacionais” e alguns exemplos de como Trevor e sua mãe se adaptaram às situações a que eles foram submetidos afim de quebrar o ciclo de pobreza na qual todo não-branco era vítima na África do Sul. Um dos fatos que os ajudaram a quebrar este ciclo foi ambos serem fluentes em várias das línguas faladas no pais (Inglês, Afrikaner, Xhosa, Zulu, entre outras). A pegada de humor do livro também é muito boa (não poderia ser diferente).

Infelizmente o livro ainda não foi traduzido para o Português, mas existe a possibilidade do e-book. Tambem existe o audiobook, narrado pelo próprio Trevor, que segundo alguns reviews que eu li é melhor ainda que do livro, pois trata-se de um apresentador/comediante contando a própria história, ou seja, deve ter um ritmo bom e as partes cômicas devem ficar ainda mais interessantes.

Be happy 🙂

Ernest Hemingway – The Old Man and the Sea (12/2018)

O Velho e o Mar é um curto romance do Nobel de Literatura Ernest Hemingway.  Ele conta a história de Santiago, um velho pescador de Havana que já está há quase três meses sem conseguir pegar um bom peixe, o que é associado ao azar. Porém no 84º dia ele se depara e consegue fisgar o maior peixe da sua vida (um Marlin).  À partir dai o livro descreve a luta do velho pescador com este peixe e, mais do que isto, contra toda a natureza. Mas não só a natureza externa, mas a própria natureza de envelhecer, já que a idade cobra o seu preço a Santiago, tanto física quanto psicológica e emocionalmente.

Foi o primeiro livro que eu lí do Hemingway e a primeira impressão foi muito boa. A narrativa é bem fluida e em boa parte sai da “boca” do próprio personagem (seja em forma de pensamento ou de falas propriamente). O autor usa parágrafos bem curtos e que vão direto ao ponto, sem deixar de lado um nível de detalhes impressionante. Fiquei curioso pra conhecer outras obras dele.

Be happy 🙂

Critical Mass – Philip Ball (11/2018)

Critical Mass é um livro que tenta trazer ao público os conceitos da econofísica, um campo de estudo bem recente, ainda em desenvolvimento, que busca analisar a economia (um fenômeno comportamental e social, “a mais científica das ciências sociais”) através de teorias e métodos desenvolvidos para a física (o livro Why Information Grows, do César Hidalgo, é um ótimo exemplo deste campo). O livro tem 19 capítulos e mais um epílogo, que podem ser divididos em quatro partes principais.

Nos capítulos de um a quatro, Philip Ball, o autor, faz uma breve introdução sobre alguns conceitos necessários para os demais capítulos. O primeiro capítulo traz conceitos de sociologia e economia, principalmente baseados nas teorias de Thomas Hobbes e na sua obra-prima O Leviatã. Além de Hobbes, muitas das idéias de Adam Smith (e sua “mão invisível do mercado“), Karl Marx, John Locke, entre outros, são mencionadas. No decorrer do livro, outros teóricos, como Friedrich Hayek, John Maynard Keynes e Karl Popper também são também trazidos à tona.

No segundo e quarto capítulos, princípios de física, como a transição de fases entre estados da matéria, são ligeiramente explicados. E no terceiro capítulo, uma breve introdução à história da Estatística (“a ciência dos grandes números”) que ajudará bastante a compreender os capítulos seguintes é feita.

Com esta “base” estabelecida, inicia-se uma serie de capítulos onde casos especificos (dinâmica de tráfego de pedestres, mercado, colaboração, teoria dos jogos, etc.) são analisados sob a ótica destas ferramentas: a estatística analisando os dados para explicar a teorias sociais e econômicas e comparando com teorias observadas na física. É um livro bem denso e alguns trechos eu tive que reler várias vezes para poder entender, mas vale a pena o “esforço” pois traz muitos conceitos interessantes e muita informação acerca dos três temas principais (física, estatística e economia).

Be happy 🙂