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The Signal and The Noise: Why So Many Predictions Fail-but Some Don’t – Nate Silver (09/2018)

Nate Silver e o fundador do famoso site de previsões FiveThrirtyEight. O site, que inicialmente era um blog, ficou famoso em 2008 ao predizer, com bastante acuracidade, a vitória do então senador Barack Obama sobre a ex-primeira dama e ex-senadora Hillary Clinton, na corrida pela nomeação do candidato a presidente do partido democrata norteamericano. Mais tarde Nate viria também a predizer a vitória de Obama.

Porém, mesmo antes da fama, como conta em The Signal and The Noise, Nate já havia acumulado alguma fama (e dinheiro) através do uso de análise estatística na produção de predições ou na criação de técnicas preditivas aplicadas. Algumas das áreas em que ele esteve envolvido com algum sucesso foram na análise de jogadores de baseball, bolsa de valores e no poker.

No livro, Nate traz uma série de casos em que o uso da estatística pode ser um fator determinante ou um fracasso, dependendo da forma como ela é usada. O ponto principal que o livro traz é a importância de conseguir separar o que realmente é um dado valioso para uso em modelos preditivos, do que é apenas “barulho”, ou seja, dados que, apesar de a primeira vista parecerem fazer sentido ao explicar algo, na verdade não passam de informação que não é útil e/ou que não apresenta causalidade, apesar de apresentar correlação.

O cuidado em separar o sinal do barulho é ainda mais preocupante no mundo atual, onde diariamente um enorme volume de dados é gerado, ou seja, onde a quantidade de sinal aumentou levemente, porem o ruído aumentou consideravelmente. É mais ou menos o conceito de “untangling the data hairball” presente no livro Big Data Marketing.

Cada capítulo do livro apresenta um tema central onde o autor traz exemplos de previsões que falharam miserávelmente e porque elas falharam, mas também casos onde o trabalho dos forecasters foi realizado com primazia. E aqueles que mais conseguem ser efetivos na função de predizer algo, seja na área política, na previsão do tempo ou na detecção e acompanhamento de furações, são justamente aqueles que sabem dos limites da análise estatística, dos seus próprios limites e que, além de se aterem aos dados e à ciência, sabem estimar o nível de imprevisibilidade dos dados que se propõem a estudar.

Acho que o único problema do livro e a doutrinação acerca da probabilidade bayesiana que o autor faz. Sim, o Teorema de Bayes pode ser aplicado a uma série de situações, mas existem diversas técnicas estatísticas importantes que não podem ser ignoradas, até porque para usar Bayes, provavelmente alguma destas técnicas precisam ser utilizadas na preparação dos dados.

É um livro interessante, porém que pressupõe que o leitor já tenha algum conhecimento em análise de dados, modelos estatísticos ou matemáticos, raciocínio lógico. Se não for o caso, ainda aconselho A Field Guide to Lies como “iniciação”.

Be happy 🙂

Tuesdays with Morrie – Mitch Albom (08/2018)

A exemplo do The Last Lecture, este livro conta a história final de vida do também professor universitário Morrie Schwartz. Porém desta vez, ao invés da perspectiva da própria pessoa em estado terminal, a história é contada à partir da perspectiva de Mitch Albom, jornalista que havia sido aluno de Morrie na década de 80.

Outra diferença que permeia o livro é que a doença que acometeu Morrie é mais lenta (mas não menos cruel que um câncer já descoberto em estado avançado, como no caso de Randy), já que a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) vai debilitando a pessoa aos poucos, até o ponto do corpo ser só “casca” com uma consciência dentro. E talvez isto seja o mais cruel da doença: a pessoa está totalmente consciente durante todo o processo e vai sendo aos poucos impossibilitada de fazer coisas básicas, como andar, respirar sem ajuda de aparelhos, falar, etc.

O livro tem um apelo sentimental maior quando comparado com o The Last Lecture (não dá pra não fazer comparações, já que são situações bem similares), o que talvez seja reflexo de um jornalista escrevendo sobre um professor da área de humanas (e não de exatas, como no caso de Randy). Achei até meio melodramático em certos pontos, meio que como um romance mesmo.

Ainda assim é uma boa leitura. E bem rápida.

Be happy 🙂

Superfreakonomics – Steven D. Levitt & Stephen J. Dubner (07/2018)

Superfreakonomics é a continuação do famoso sucesso Freakonomics, onde Levitt e Dubner analisam fatos do cotidiano sob a perspectiva econômica. A principal inspiração de Levitt são os trabalhos do professor Gary Becker, ganhador do Nobel de economia em 1992, que se dedicou a estudar microeconomia aplicada no dia-a-dia. A premissa básica é que o ser humano é movido a incentivos (na verdade, todos os seres, segundo a teoria do Gene Egoísta, defendida pelo Richard Dawkins) e a ideia é tentar identificar quais são os incentivos (positivos e negativos) ligado aos comportamentos da sociedade.

Um tanto diferente do primeiro livro, cada um dos cinco capítulos de Superfreakonomics parte de uma idéia inicial, porém ao invés de focar somente nela, passa por diversos assuntos e exemplos relacionados aos mesmos tipos de incentivo.

Dois fatos ficam evidentes em todos os capítulos e em todos os períodos analisados (que incluem mais de 2 séculos). O primeiro fato é que as mulheres sempre são prejudicadas em relação aos homens, em todas as sociedades e em todos os períodos da história. Um dos vários exemplos que trazem isto à tona é o acompanhamento de dois acadêmicos que mudaram de sexo: a mulher fez a transição para o sexo masculino e passou a ganhar mais à partir de então, enquanto o homem que passou pelo processo contrário passou a ganhar menos (período menstrual e gravidez não seriam “justificativas” neste caso), mesmo ambos mantendo suas credenciais acadêmicas.

O outro fato é como os governos são especialistas em criar mais problemas, ou problemas maiores, do que aqueles que tentam resolver. Eventualmente a intenção é até boa, mas na maioria absoluta das vezes eles desconsideram todas as implicações (as externalidades, que é o termo econômico) das suas decisões.

Como não poderia deixar de ser, o livro traz algumas polêmicas que desagradam adeptos de determinadas ideologias ou crenças. A primeira delas é de que a liberdade sexual da mulher é o que está minando a prostituição, já que como é mais fácil conseguir sexo de graça hoje do que há cem anos atrás, a demanda pelo “produto” tem diminuído. Conservadores e feministas ficariam ambos revoltados com esta conclusão.

Uma outra é de que sim, o aquecimento global existe e ele muito provavelmente é causado pela atividade humana, porém os fatores desencadeantes, bem como as soluções propostas pelos ambientalistas, estão longe de serem eficientes, quando não efetivamente prejudiciais. Um ponto interessante que eles trazem é que é hipocrisia por parte dos países desenvolvidos quererem cobrar o preço de não piorar situação dos países em desenvolvimento, já que foram eles que causaram o desequilíbrio afim de se desenvolverem. Não seria justo os demais países terem o seu desenvolvimento minado e os já desenvolvidos deveriam pagar mais (metas mais arrojadas de redução) para compensar a externalidade negativa causada até então.

Mesmo sem aquela surpresa inicial causada pelo primeiro livro, este ainda traz muitos assuntos interessantes e que te preendem na leitura.

Be happy 🙂

The Phoenix Project: A Novel about IT, DevOps, and Helping Your Business Win – Gene Kim, Kevin Behr e George Spafford (06/2018)

Trabalho com tecnologia da informação desde 1992 (caramba! 26 anos já!). Lá no início e durante boa parte da minha carreira, na transição de sistemas centralizados baseados em Mainframe para computação distribuida, impulsionada pela popularização dos PCs, as equipes de desenvolvimento de aplicativos trabalhavam no mesmo lugar e todos eram responsáveis por todas as partes do aplicativo (banco de dados, interface de usuário, segurança, fazia os testes, etc.), bem como todos eram também responsáveis por fazer a análise do sistema, a arquitetura, a implementação e o suporte. Se o aplicativo era muito grande ou complexo existiam pequenas equipes cuidando de partes do sistema (o cadastro de usuários, interface com outras aplicações, relatórios, etc.), mas cada uma destas pequenas equipes (que tinham uma coordenação central) cuidava de todos os componentes e fases.

Entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000, com a onda de reengenharia e terceirização, algum “guru dos negócios” (que nunca deve ter escrito um “hello world” na vida) resolveu achar que separar as funções iria trazer algum ganho. E como ocorre muitas vezes na área de tecnologia (em geral, não só da informação), alguém em algum posto alto tem uma idéia e força a implementação sem a menor idéia de quais as consequências na execução do plano. E como geralmente ocorre no meio empresarial, basta um fazer para todo mundo copiar.

Depois de uma década de projetos infinitos e bilhões de dólares desperdiçados em aplicativos que nunca se estabilizam (isto quando não são abandonados), finalmente chegaram à conclusão de que era melhor da forma antiga (ah vá!). Foi quando surgiu o movimento DevOps, que no fundo é uma volta àqueles tempos (com o auxilio de tecnologias e metodologias recentes para aumentar a produtividade da equipe). Alguns destes métodos já são utilizados há décadas em manufaturas e cairam como uma luva em TI. A Teoria das Restrições (Theory of Constraints) traz alguns destes métodos e ferramentas.

The Phoenix Project traz as agruras causadas por esta segmentação (time de desenvolvimento, de suporte/operações, de segurança, de testes, etc.) e a transformação deste modelo novamente para um modelo de times integrados, responsáveis por todos os componentes e fases do ciclo de vida de um software, inclusive além das fronteiras de um projeto (ou melhor ainda, não limitados por um projeto). Mas o legal do livro é que ele faz isto através de uma estória, com personagens, enredo, ambientação, início, meio e fim. E é impossível para quem viveu os dois mundos (ou três, se considerar o estado anterior, como no meu caso) não identificar as situações e os personagems e fazer paralelos com situações vivenciadas e pessoas com as quais trabalhamos ao longo da carreira. O livro é tão interessante que cheguei a ler 60 páginas de uma vez só, pois ao final de cada capítulo tinha um gancho que me fazia ler o seguinte.

O livro é interessante mas deixa uma sensação de “não precisava ter passado por isto”, já que a maioria das pessoas que “botam a mão na massa” já imaginava que a segmentação era uma aposta muito arriscada. Dá vontade de soltar um “eu não disse?”. Como disse o CIO da minha empresa outro dia, “DevOps é tão anos 90!”

Be happy 🙂

What Is This Thing Called Theory of Constraints – Eliyahu M. Goldratt (05/2018)

Eu já falei e vou continuar falando que eu não gosto de livros de auto-ajuda, sejam pessoais ou “corporativos”. Qualquer coisa que envolva a “variável indomável” chamada “gente” (o ser humano) não é passível de possuir uma fórmula, uma receita, que possa ser replicada. No máximo pode-se compartilhar experiências e usar o passado como uma baliza para tentar prever e moldar o futuro. Como diria o mestre Raul Seixas, “cada um de nós é um universo“.

Mas eu “tive” que ler este livro (ossos do ofício) e, conforme outro axioma que eu tenho, qualquer livro tem algo aproveitável. Aliás, até ler bula de remédio é melhor do que não ler nada. Mas vou dizer que, apesar do teor auto-ajuda-corporativa, o livro traz uns pontos bem interessantes.

O primeiro é uma ferramenta chamada evaporating cloud, que tem o intuito de dirimir conflitos, desde que exista um objetivo em comum. Na maioria dos casos o conflito é resolvido analisando-se as premissas que cada parte tem e chegando num meio termo viável, isto quando ele não se resolve apenas com cada uma das partes conflitantes entendendo as razões da outra parte.

Outro ponto interessante é a forma como o “facilitador” do processo cria o entendimento acerca do problema. Utilizando o método socrático, através de questões e nunca dando as respostas, ele induz os próprios envolvidos a chegarem a conclusão de qual é o problema, sua causa e as possíveis soluções. Esta forma de solucionar o problema é chamada pelo autor de efeito-causa-efeito: primeiro detecta-se o problema (efeito), depois a causa do problema (causa) e depois, ao alterar a variavel da causa, tenta-se resolver o problema (efeito novamente).

O livro tem outros conceitos interessantes que são utilizados há décadas em manufaturas e, recentemente, vêm sendo implementados na área de Tecnologia da Informação (minha praia). A Teoria das Restrições (Theory of Constraints) é a base para um outro livro que estou lendo (Phoenix Project), que aplica os conceitos em um caso fictício, em forma de uma história (com enredo, personagens, etc). Mas fica para a próxima resenha.

Be happy 🙂

Sucker’s Portfolio – Kurt Vonnegut (04/2018)

Encontrei Kurt Vonnegut em uma referência do Orwell’s Revenge (agora lembrei que foi onde também encontrei a referência à The Machine Stops), pesquisei pelo autor na Amazon e coloquei alguns títulos dele meio que aleatóriamente na minha lista. Há quase um ano atrás fui comprar alguns livros e resolvi “experimentar” algum do autor, escolhendo este, também aleatóriamente, entre uns dez títulos que que eu tinha salvo.

Sucker’s Portfolio é uma coleção com seis contos e um texto que pode-se classificar como uma crônica. A coletânea foi lançada inicialmente pela Amazon em versão e-book e posteriormente na versão impressa. Os contos são em sua maioria histórias simples, de cotidiano, com uma linguagem fluída e que te leva a grudar no texto até que ele acabe. Mesmo Robotville and Mr. Caslow, um texto inacabado e que pode ser considerado um “conto de ficção científica” é algo factível em um futuro próximo (meio na linha Black Mirror).

Mas o capítulo que eu mais gostei foi o de crônica. Entitulado de The Last Tasmanian, é uma coletânea de pensamentos aleatórios, mas interligados, que o autor teve à partir de um número (1492, o ano em que Cristóvão Colombo descobriu a América). Pelo que o texto deu a entender, o autor estava sozinho (quer dizer, com o seu gato) e começou a colocar no papel uma série de idéias que eram “sugeridas” pela idéia anterior. Tanto que o texto apresenta muitas vezes a expressão “e por falar nisto”. Achei muito interessante esta forma fluída de colocar idéias no papel. Preciso pegar um tempo para tentar o mesmo exercício algum dia.

Gostei bastante do estilo de Vonnegut e suspeito que ele tende a se tornar um dos meus autores favoritos em dois ou três livros.

Be happy 🙂

The Machine Stops, The Celestial Omnibus, and Other Stories – E. M. Forster (03/2018)

Eu vou comprando livros e acumulando e as vezes nem lembro o que me levou a comprá-los. Comprei este livro há alguns (vários) meses atrás e não lembro quem deu a “dica”. O livro é um compêndio de estórias curtas de Edward Morgan Forster, um famoso escritor inglês que eu não conhecia, mas que pelo que eu pude pesquisar, possui uma vasta obra, algumas delas transformadas em filmes e séries pela BBC.

A primeira história do livro, The Machine Stops, é bem interessante e retrata, no melhor estilo distópico, uma sociedade futura onde as pessoas vivem em “vomitórios”, que se tratam de “células hexagonais” em colônias subterrâneas. Estas pessoas passam o dia todo se comunicando através de um sistema interligado (outra previsão do surgimento da Internet?), atendendo e dando aulas. Não há mais a necessidade de sair dos vomitórios porque finalmente chegaram à conclusão de “por que usar transporte para levar as pessoas às coisas, quando é mais fácil levar as coisas às pessoas?” (Amazon?!?!?). E não há a necessidade das pessoas visitarem outros lugares, já que tudo é “lamacento e poeirento” (e a máquina “conecta” as pessoas).

A entidade que controla tudo isto é conhecida como “A Máquina” (The Machine) e, apesar de, em tese, não existir religião nesta sociedade global, os membros acabam cultuando a própria máquina. Um dos membros desta sociedade resolve se aventurar na superfície e descobre que na verdade ainda existe um mundo a ser visto fora dos domínos d’A Máquina. A estória me lembrou muito Der Fisch.

Como gosto do estilo distópico, achei The Machine Stops bem interessante, ao contrário dos demais textos do livro. Apesar do conto principal ser uma estória fantástica, ao menos é algo factível. As demais estórias são fantásticas, mas já vão para o lado do misticismo, especialmente relacionados à um “ente superior que domina a natureza”.

Além de tudo o inglês utilizado é de difícil compreensão. Tive que reler vários parágrafos para poder entender. Encontrei uma versão traduzida de The Machine Stops aqui (tem o texto original e a tradução).

Be happy 🙂

A Field Guide to Lies – Daniel J. Levitin (02/2018)

Em tempos de “pós-verdades” e fake news, é muito importante ficar atento à qualidade das informações que são obtidas, principalmente na Internet. É mais importante ainda verificar a veracidade e factualidade de qualquer informação antes de propagá-la. Em A Field Guide to Lies, Daniel Levitin traz um guia básico para fact-checking, especialmente relacionado às mídias sociais.

O livro é dividido em três partes que explicam como se pode mentir usando dados, palavras e credibilidade. A maioria dos exemplos utilizados são normalmente usados para sustentar falácias lógicas e, apesar de muitas vezes as “mentiras” se originarem apenas de erros (falta de conhecimento do autor) ou crendices (como as teorias da conspiração), em vários casos estas mentiras são geradas propositalmente, pois alguém ou algum grupo de interesse terá alguma vantagem (ou evitará alguma desvantagem) com a disseminação da mentira ou hoax (os boatos de internet). 

Os interesses vão desde motivos políticos e ideológicos (alavancar ou atacar uma corrente) até financeiros (obter lucro ou apoio da sociedade), não sem deixar de passar por questões religiosas (a pura crendice). E os meios são vários: cherry-picking (apresentar somente um pedaço da informação), descontextualização, representação gráfica confusa, apelo à autoridade, desqualificação/qualificação do autor (ao invés da idéia), etc.

Normalmente se conta uma mentira através de “pequenos pedaços da verdade”, o que acaba por convencer os menos céticos ou preparados para questionar as informações. E o autor monta um guia que mistura um pouco do método científico com a apuração jornalistica. Para quem já é habituado com o método cientifico, pode ser um livro até simples demais, mas com certeza é um bom guia para quem não está acostumado ao pensamento cético.

Uma pena que ainda não esteja disponível em Português!

Be happy 🙂

The Last Lecture – Randy Pausch (01/2018)

Nas universidades americanas é comum os professores serem convidados a dar uma “última aula” (Last Lecture, a tradução do livro em português ficou como “A Última Lição”). Normalmente é uma aula direcionada aos alunos que estão no último ano da graduação (na verdade, “undergraduate” , pois “graduado” nos EUA e Europa é quem tem título de Mestre ou Doutor) e o desafio dado ao professor é o seguinte: imagine que esta será a última aula que você dará na sua vida, qual mensagem você gostaria que a audiência levasse?

Randy Pausch, um professor da área de Tecnologia da Informação da conceituada Carnegie Mellon University, em Pittsburgh, Pennsylvania, foi o convidado a dar “a última aula” para uma turma em 2007. Porém, Randy já estava lutando contra um câncer no pâncreas há alguns meses e havia sido alertado recentemente pelos seus médicos que teria cerca de seis meses de vida (ele viria a falecer em Julho de 2008, alguns meses além do “prazo”). Então esta realmente foi sua última aula.

A aula foi gravada e viralizou no Youtube (conta atualmente com mais de 18 milhões de visualizações, isto só a versão oficial). Aproveitando os últimos meses de vida e contando com a ajuda do jornalista Jeffrey Zaslow, Randy transcreveu as lições da palestra para o formato de texto. O livro e o vídeo (que são muito similares, sendo que o livro tem bem mais detalhes) são um compêndio das lições que o próprio Randy foi aprendendo durante sua vida e que achou interessante compartilhar.

Eu não sou fã de livros de auto-ajuda que tentam impor fórmulas de sucesso, mas eu gosto de ler experiências de vida. The Last Lecture traz exatamente isto: um compêndio da vida de um cara que simplesmente aproveitou o máximo possível a sua vida e que tentou, na medida do possível, ajudar outros a fazerem o mesmo. É muito mais a exposição de uma jornada de auto-conhecimento do que um “faça o que eu digo”, e por isto achei o livro interessante. Além disto, a atitude positiva diante de algo inevitável e a forma cética e racional de Randy ao encarar a sua própria morte foram outras coisas das quais eu gostei.

A versão oficial do vídeo pode ser assistida no Canal da Universidade (https://www.youtube.com/watch?v=ji5_MqicxSo). Dá pra assitir o vídeo e depois ler o livro. Ou fazer o inverso, como eu fiz. Ou só assistir o vídeo. Será interessante de qualquer forma.

Be happy 🙂

O Evangelho Segundo Jesus Cristo – José Saramago (12/2017)

“Homens, perdoai-Lhe (a Deus), pois ele não sabe o que fez.”

Esta obra prima do Saramago segue a mesma premissa de “O Cordeiro” (ou melhor, o Cordeiro segue a mesma premissa deste livro): contar a estória de Jesus Cristo de outro ponto de vista que não os existentes na Bíblia e cobrindo também os períodos ignorados nos evangelhos (praticamente tudo desde o nascimento até os 30 anos). Neste caso, a narração é conduzida pelo próprio Cristo, feita em terceira pessoa.

O estória abrange desde a hora da concepção (que ocorreu naturalmente, através de José), passando pela infância, adolescência e dando muita atenção ao momento em que Jesus descobre o seu destino e as consequências dele. O destino é apenas servir de instrumento para que o “fã clube” do seu pai aumente de tamanho, inflando assim o seu ego (e desta forma ele poderá se gabar junto aos outros deuses). As consequências, além do próprio sofrimento do filho, serão milhares de mortes, nas mais terríveis formas, ao longo de séculos.

“O único Deus sou eu, eu sou o Senhor, e tú és o meu Filho, Morrerão milhares, Centenas de milhares, Morrerão centenas de milhares de homens e mulheres, a terra encher-se-á de gritos de dor, de uivos e roncos de agonia, o fumo dos queimados cobrirá o sol, a gordura deles rechinará sobre as brasas, o cheiro agoniará, e tudo isto será por minha culpa, Não por tua culpa, mas por tua causa, Pai, afasta de mim este cálice, Que tu o bebas é a condição do meu poder e da tua glória, Não quero esta glória, Mas eu quero esse poder. O nevoeiro afastou-se, para onde estivera antes, via-se uma pouca de água ao redor do barco, lisa e baça, sem uma ruga de vento ou uma agitação de barbatana passando. Então o Diabo disse, É preciso ser-se Deus para gostar tanto de sangue.”

De uma forma muito mais sutil que em O Cordeiro, mas muito mais contundente, Saramago questiona a filosofia por trás do cristianismo e de quebra por trás das demais religiões Abraonicas. É um livro para fazer pensar. A forma como ele questiona crendices e mitos que não fazem sentido lógico algum é fantástica. Especialmente porque fosse o ser humano dotado de maior inteligência, estes mitos já estariam há tempos na categoria de folclore, daqueles que você dá risada e se admira como podem ter guiado a vida de milhões de pessoas (e custado a vida de tantos outros milhões). Pensando bem, nem precisaria ser muito inteligente, só um pouco.

Como já disse anteriormente, o estilo do Saramago é complicado de acompanhar e exige muita atenção, mas ao mesmo tempo apresenta uma beleza única. Entre as obras dele que eu lí até hoje (acho que umas 6 ou 7) esta subiu para o topo e é um dos melhores livros que eu já lí.

Be happy 🙂