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Dirk Gently’s Holistic Detective Agency – Douglas Adams (2/2019)

Em O Salmão da Dúvida e no Não Entre em Panico, duas biografias do Douglas Adams, explica-se um pouco de como ele costumava criar suas estórias. Basicamente ele criava pequenos contos, depois decidia onde iria encaixá-los (na série do Guia do Mochileiro, na série Dirk Gently, no Dr. Who) e depois ele costurava e ajustava estas pequenas estórias para o contexto do “pano” onde este retalho deveria se encaixar.

Dirk Gently’s Holistic Detective Agency é o primeiro livro da série Dirk Gently, que acabou tendo apenas dois livros. O terceiro seria o Salmão, que foi compilado postumamente à partir destes pequenos textos, alguns inacabados. Esta característica de diversas estórias costuradas é bem visível neste livro.

O pano de fundo é o assassinato de um milionário da indústria de software e à partir dai, as várias histórias são ligadas, sempre com aquela pitada de humor inglês característica de Adams. Como não podia faltar, o livro também tem ciência, misticismo, filosofia. Achei este um pouco confuso e demorado pra “pegar” um clima legal, especialmente porque uma das linhas (Eletronic Monk) acabou não se encaixando muito bem nesta colcha de retalhos.

Talvez isto tenha sido causado pelo fato de ser o primeiro dele que eu leio em inglês. Ou pela inevitável comparação com a série do Guia (que pretendo reler em inglês). Ainda assim é um Douglas Adams, e repetindo o que disse no texto de E Tem Outra Coisa…, foi um gênio que infelizmente nos deixou cedo demais.

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Identity: The Demand for Dignity and the Politics of Resentment – Francis Fukuyama (1/2019)

Francis Fukuyama é professor, escritor e cientista político e econômico. Muito famoso por sua defesa do liberalismo como forma de organização social, foi ele quem logo após a queda do muro de Berlin e da URSS decretou “a vitória do liberalismo”. Porém neste livro ele faz uma análise da ascenção recente de governos não-liberais, à direita (Turquia, Hungria e EUA, entre outros) e à esquerda (Venezuela, Russia), que colocam em risco as sociedades liberais. Ele tenta entender, da perspectiva do indivíduo, o que tem causado uma adesão em massa à estes movimentos iliberais que tanto ameaçam as democracias, inclusive as bem estabelecidas, como EUA e Reino Unido.

Mas antes de continuar, primeiro é preciso definir o que é o liberalismo clássico como filosofia de vida, e não somente a sua aplicação em economia. A filosofia liberal é apenas a filosofia do “viva e deixe viver”. Para que ela exista, todo indivíduo deve ser responsável pelas decisões que influenciam sua vida. Para isto ocorrer, todos devem ser tratados com igualdade, dignidade e respeito. A liberdade é o bem maior e deve ser defendida a todo custo. Um outro ponto importante a se frisar é que, de acordo com os “pais” do liberalismo, um indivíduo sozinho nao é capaz de garantir estes direitos, precisando se associar a outros indivíduos (no que pode se dado o nome de sociedade, cuja forma organizada normalmente resulta num Estado) afim de de fazê-lo.

Quando Fukuyama fala das democracias liberais isto engloba desde as sociais-democracias da Europa até a liberal-democracia norteamericana. O que define uma liberal-democracia, no conceito mais amplo do autor, é a premissa de que todos os seres humanos são iguais, todos devem ter as mesmas oportunidades e todos devem ter o máximo de liberdade possível. E para que isto ocorra no convívio em sociedade, a democracia é, até hoje, a melhor forma encontrada de organização social. Qualquer restrição às liberdades e qualquer ameaça à democracia acabará caindo ou no fascismo (autoritarismo à direita, que segundo Fukuyama, havia sido derrotado na segunda guerra) ou no socialismo (autoritarismo à esquerda, que havia sido derrotado quando da queda da URSS).

Porém, segundo o autor, tanto as sociais-democracias quanto as liberais-democracias têm falhado em suprir a necessidade que as pessoas têm de se sentirem parte de algo maior e de serem respeitados como invíduos. Os primeiros têm cada vez se concentrado em defender minorias “cada vez menores”, inclusive criando uma certa competição entre estas minorias é esquecendo que a sociedade e formada nao só por minorias, mas também por uma “maioria” que pode sentir colocada em segundo plano. Enquanto isto, os segundos se focaram na eficiência dos mercados achando que o bem estar financeiro seria suficiente e esquecendo que dinheiro só satizfaz os dois degraus mais baixos da famosa Pirâmide de Maslow.

O resultado está ai para todo mundo ver: bastante gente que, apesar da situação financeira confortável, se sente preterido em função de determinados grupos e que se acha no direito de ter uma posição privilegiada. Estas pessoas, que são maioria nas sociedades, são um alvo fácil para discursos nacionalistas ou religiosos que promovem justamente a segregação, afinal de contas, “nosso grupo” é melhor do que todos os demais, seja porque somos homens e/ou héteros e/ou brancos e/ou cristãos e/ou não-estrangeiros… E ai acabam partido para a tal democracia “iliberal” (numa tradução livre minha, uma “ditadura da maioria”), querendo impor seus valores para toda a sociedade (“as minorias que se curvem…ou simplesmente desapareçam”), colocando assim em risco os principais conceitos da filosofia liberal (de igualdade e liberdade) que deveriam reger as sociedades democráticas.

É um bom livro para tentar entender toda esta onda nacionalista que vem ocorrendo há pelo menos uns cinco anos e que, infelizmente, parece estar mais próxima de se espalhar do que de se retrair.

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Born a Crime – Trevor Noah (13/2018)

Trevor Noah é um comediante e apresentador sul africano que “viralizou” há alguns anos atrás no Brasil por conta de um vídeo de standup sobre a colonização inglesa. Mas antes disto ele já fazia bastante sucesso no seu país natal e no Reino Unido e, já há alguns anos também nos EUA, onde apresenta um dos vários late night shows existentes na TV norte-americana.

Durante o Apartheid, regime segregacionista que existiu na África do sul durante boa parte do século 20, relações sexuais entre pessoas brancas e não brancas era um crime passível de punição de até 5 anos de cadeia. Por ser filho de mãe negra e pai branco nascido durante o Apartheid, Trevor é resultado de um ato ilegal, e isto explica o título do livro.

No livro, que é um misto de autobiografia e biografia da própria mãe de Trevor, ele dá um panorama do que foi o Apartheid visto de dentro. Melhor ainda, visto de dentro por alguém que era um pária dentro desta sociedade, ja que, apesar dos “colored people” (como eram chamados os “pardos”) terem alguns poucos privilégios em relação aos negros, eles normalmente eram isolados socialmente dos dois grupos (“too black to be white and too white to be black”). Além do retrato de uma sociedade onde o racismo era legal e foi implementado com planejamento, também mostra uma sociedade extremamente machista e cheia de crendices e mitos associados às religiões (tribais e ao cristianismo).

Apesar de não ter um intuito de “autoajuda” ou algo do tipo, ele acaba trazendo algumas “mensagens motivacionais” e alguns exemplos de como Trevor e sua mãe se adaptaram às situações a que eles foram submetidos afim de quebrar o ciclo de pobreza na qual todo não-branco era vítima na África do Sul. Um dos fatos que os ajudaram a quebrar este ciclo foi ambos serem fluentes em várias das línguas faladas no pais (Inglês, Afrikaner, Xhosa, Zulu, entre outras). A pegada de humor do livro também é muito boa (não poderia ser diferente).

Infelizmente o livro ainda não foi traduzido para o Português, mas existe a possibilidade do e-book. Tambem existe o audiobook, narrado pelo próprio Trevor, que segundo alguns reviews que eu li é melhor ainda que do livro, pois trata-se de um apresentador/comediante contando a própria história, ou seja, deve ter um ritmo bom e as partes cômicas devem ficar ainda mais interessantes.

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Ernest Hemingway – The Old Man and the Sea (12/2018)

O Velho e o Mar é um curto romance do Nobel de Literatura Ernest Hemingway.  Ele conta a história de Santiago, um velho pescador de Havana que já está há quase três meses sem conseguir pegar um bom peixe, o que é associado ao azar. Porém no 84º dia ele se depara e consegue fisgar o maior peixe da sua vida (um Marlin).  À partir dai o livro descreve a luta do velho pescador com este peixe e, mais do que isto, contra toda a natureza. Mas não só a natureza externa, mas a própria natureza de envelhecer, já que a idade cobra o seu preço a Santiago, tanto física quanto psicológica e emocionalmente.

Foi o primeiro livro que eu lí do Hemingway e a primeira impressão foi muito boa. A narrativa é bem fluida e em boa parte sai da “boca” do próprio personagem (seja em forma de pensamento ou de falas propriamente). O autor usa parágrafos bem curtos e que vão direto ao ponto, sem deixar de lado um nível de detalhes impressionante. Fiquei curioso pra conhecer outras obras dele.

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Critical Mass – Philip Ball (11/2018)

Critical Mass é um livro que tenta trazer ao público os conceitos da econofísica, um campo de estudo bem recente, ainda em desenvolvimento, que busca analisar a economia (um fenômeno comportamental e social, “a mais científica das ciências sociais”) através de teorias e métodos desenvolvidos para a física (o livro Why Information Grows, do César Hidalgo, é um ótimo exemplo deste campo). O livro tem 19 capítulos e mais um epílogo, que podem ser divididos em quatro partes principais.

Nos capítulos de um a quatro, Philip Ball, o autor, faz uma breve introdução sobre alguns conceitos necessários para os demais capítulos. O primeiro capítulo traz conceitos de sociologia e economia, principalmente baseados nas teorias de Thomas Hobbes e na sua obra-prima O Leviatã. Além de Hobbes, muitas das idéias de Adam Smith (e sua “mão invisível do mercado“), Karl Marx, John Locke, entre outros, são mencionadas. No decorrer do livro, outros teóricos, como Friedrich Hayek, John Maynard Keynes e Karl Popper também são também trazidos à tona.

No segundo e quarto capítulos, princípios de física, como a transição de fases entre estados da matéria, são ligeiramente explicados. E no terceiro capítulo, uma breve introdução à história da Estatística (“a ciência dos grandes números”) que ajudará bastante a compreender os capítulos seguintes é feita.

Com esta “base” estabelecida, inicia-se uma serie de capítulos onde casos especificos (dinâmica de tráfego de pedestres, mercado, colaboração, teoria dos jogos, etc.) são analisados sob a ótica destas ferramentas: a estatística analisando os dados para explicar a teorias sociais e econômicas e comparando com teorias observadas na física. É um livro bem denso e alguns trechos eu tive que reler várias vezes para poder entender, mas vale a pena o “esforço” pois traz muitos conceitos interessantes e muita informação acerca dos três temas principais (física, estatística e economia).

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Merchants of Doubt – Naomi Oreskes & Erik M. Conway (10/2018)

No final da década de 60, com a conclusão de muitos estudos científicos que associavam o consumo de tabaco com a incidência de câncer, e a possibilidade da regulação, a indústria do tabaco resolve contra atacar. Ela contrata então cientistas renomados (mas com pouco ou nenhum conhecimento em fisiologia, medicina ou biologia) para formar um corpo de “especialistas” afim de influenciar as decisões políticas e servirem como testemunhas nos tribunais. Além do uso evidente da falácia do apelo à autoridade, estes especialistas, na sua maioria renomados físicos que trabalhavam para o governo americano durante a guerra fria, entenderam que a melhor forma de atrasar alguma decisão defavorável era colocar a própria ciência (e os seus “colegas” cientistas) em xeque.

Contando com sua influência política e a conivência (quando não cumplicidade) de órgãos de imprensa, eles conseguiram não só atrasar em décadas regulações no mercado do tabaco, como também prestaram seus serviços (ou desserviço) em outras áreas, como a indústria do CFC (quando confrontado com as evidências do dano na camada de ozônio), a indústria armamentista (em relação ao projeto “guerra nas estrelas”), culminando finalmente nos trabalhos de negação do desequilíbrio climático e, mais tarde, na influência do ser humano neste desequilíbrio.

Parece uma história de filme, ou uma trama saída da cabeça de um conspiracionista, mas todo o envolvimento de Bill Nierenberg, Fred Seitz e Fred Singer, na negação da ciência afim de defender interesses de determinados grupos nos últimos 50 anos, é muito bem referenciado em “Merchants of Doubt“, inclusive através de documentos oficiais da própria indústria tabagista, que descrevem em detalhes a estratégia de montar uma rede de institutos “científicos” afim de desacreditar a própria ciência. Das 355 páginas do livro, quase 70 são só de referências.

O livro, que surgiu após o documentário de mesmo nome, é um compilado do esforço destes 3 personagens principais (e mais alguns coadjuvantes) em negar evidências científicas afim de evitar ao máximo regulação governamental em determinadas áreas. Além do fator dinheiro (que seus institutos recebiam das empresas em forma de “doações para pesquisa”) , o principal motivador destes personagens, como citado no livro, e uma fé enorme no livre mercado, a ponto dela cega-los quanto às deficiências deste (“o impacto ambiental talvez seja a maior falha do livre mercado”).

E infelizmente o dano que eles causaram em meio século ainda está aí, e só ver a quantidade de pessoas que “não acreditam” no aquecimento global, mesmo ele sendo um fato e mesmo que a influência do homem nele seja consenso na academia.

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The Signal and The Noise: Why So Many Predictions Fail-but Some Don’t – Nate Silver (09/2018)

Nate Silver e o fundador do famoso site de previsões FiveThrirtyEight. O site, que inicialmente era um blog, ficou famoso em 2008 ao predizer, com bastante acuracidade, a vitória do então senador Barack Obama sobre a ex-primeira dama e ex-senadora Hillary Clinton, na corrida pela nomeação do candidato a presidente do partido democrata norteamericano. Mais tarde Nate viria também a predizer a vitória de Obama.

Porém, mesmo antes da fama, como conta em The Signal and The Noise, Nate já havia acumulado alguma fama (e dinheiro) através do uso de análise estatística na produção de predições ou na criação de técnicas preditivas aplicadas. Algumas das áreas em que ele esteve envolvido com algum sucesso foram na análise de jogadores de baseball, bolsa de valores e no poker.

No livro, Nate traz uma série de casos em que o uso da estatística pode ser um fator determinante ou um fracasso, dependendo da forma como ela é usada. O ponto principal que o livro traz é a importância de conseguir separar o que realmente é um dado valioso para uso em modelos preditivos, do que é apenas “barulho”, ou seja, dados que, apesar de a primeira vista parecerem fazer sentido ao explicar algo, na verdade não passam de informação que não é útil e/ou que não apresenta causalidade, apesar de apresentar correlação.

O cuidado em separar o sinal do barulho é ainda mais preocupante no mundo atual, onde diariamente um enorme volume de dados é gerado, ou seja, onde a quantidade de sinal aumentou levemente, porem o ruído aumentou consideravelmente. É mais ou menos o conceito de “untangling the data hairball” presente no livro Big Data Marketing.

Cada capítulo do livro apresenta um tema central onde o autor traz exemplos de previsões que falharam miserávelmente e porque elas falharam, mas também casos onde o trabalho dos forecasters foi realizado com primazia. E aqueles que mais conseguem ser efetivos na função de predizer algo, seja na área política, na previsão do tempo ou na detecção e acompanhamento de furações, são justamente aqueles que sabem dos limites da análise estatística, dos seus próprios limites e que, além de se aterem aos dados e à ciência, sabem estimar o nível de imprevisibilidade dos dados que se propõem a estudar.

Acho que o único problema do livro e a doutrinação acerca da probabilidade bayesiana que o autor faz. Sim, o Teorema de Bayes pode ser aplicado a uma série de situações, mas existem diversas técnicas estatísticas importantes que não podem ser ignoradas, até porque para usar Bayes, provavelmente alguma destas técnicas precisam ser utilizadas na preparação dos dados.

É um livro interessante, porém que pressupõe que o leitor já tenha algum conhecimento em análise de dados, modelos estatísticos ou matemáticos, raciocínio lógico. Se não for o caso, ainda aconselho A Field Guide to Lies como “iniciação”.

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Tuesdays with Morrie – Mitch Albom (08/2018)

A exemplo do The Last Lecture, este livro conta a história final de vida do também professor universitário Morrie Schwartz. Porém desta vez, ao invés da perspectiva da própria pessoa em estado terminal, a história é contada à partir da perspectiva de Mitch Albom, jornalista que havia sido aluno de Morrie na década de 80.

Outra diferença que permeia o livro é que a doença que acometeu Morrie é mais lenta (mas não menos cruel que um câncer já descoberto em estado avançado, como no caso de Randy), já que a ELA (Esclerose Lateral Amiotrófica) vai debilitando a pessoa aos poucos, até o ponto do corpo ser só “casca” com uma consciência dentro. E talvez isto seja o mais cruel da doença: a pessoa está totalmente consciente durante todo o processo e vai sendo aos poucos impossibilitada de fazer coisas básicas, como andar, respirar sem ajuda de aparelhos, falar, etc.

O livro tem um apelo sentimental maior quando comparado com o The Last Lecture (não dá pra não fazer comparações, já que são situações bem similares), o que talvez seja reflexo de um jornalista escrevendo sobre um professor da área de humanas (e não de exatas, como no caso de Randy). Achei até meio melodramático em certos pontos, meio que como um romance mesmo.

Ainda assim é uma boa leitura. E bem rápida.

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Superfreakonomics – Steven D. Levitt & Stephen J. Dubner (07/2018)

Superfreakonomics é a continuação do famoso sucesso Freakonomics, onde Levitt e Dubner analisam fatos do cotidiano sob a perspectiva econômica. A principal inspiração de Levitt são os trabalhos do professor Gary Becker, ganhador do Nobel de economia em 1992, que se dedicou a estudar microeconomia aplicada no dia-a-dia. A premissa básica é que o ser humano é movido a incentivos (na verdade, todos os seres, segundo a teoria do Gene Egoísta, defendida pelo Richard Dawkins) e a ideia é tentar identificar quais são os incentivos (positivos e negativos) ligado aos comportamentos da sociedade.

Um tanto diferente do primeiro livro, cada um dos cinco capítulos de Superfreakonomics parte de uma idéia inicial, porém ao invés de focar somente nela, passa por diversos assuntos e exemplos relacionados aos mesmos tipos de incentivo.

Dois fatos ficam evidentes em todos os capítulos e em todos os períodos analisados (que incluem mais de 2 séculos). O primeiro fato é que as mulheres sempre são prejudicadas em relação aos homens, em todas as sociedades e em todos os períodos da história. Um dos vários exemplos que trazem isto à tona é o acompanhamento de dois acadêmicos que mudaram de sexo: a mulher fez a transição para o sexo masculino e passou a ganhar mais à partir de então, enquanto o homem que passou pelo processo contrário passou a ganhar menos (período menstrual e gravidez não seriam “justificativas” neste caso), mesmo ambos mantendo suas credenciais acadêmicas.

O outro fato é como os governos são especialistas em criar mais problemas, ou problemas maiores, do que aqueles que tentam resolver. Eventualmente a intenção é até boa, mas na maioria absoluta das vezes eles desconsideram todas as implicações (as externalidades, que é o termo econômico) das suas decisões.

Como não poderia deixar de ser, o livro traz algumas polêmicas que desagradam adeptos de determinadas ideologias ou crenças. A primeira delas é de que a liberdade sexual da mulher é o que está minando a prostituição, já que como é mais fácil conseguir sexo de graça hoje do que há cem anos atrás, a demanda pelo “produto” tem diminuído. Conservadores e feministas ficariam ambos revoltados com esta conclusão.

Uma outra é de que sim, o aquecimento global existe e ele muito provavelmente é causado pela atividade humana, porém os fatores desencadeantes, bem como as soluções propostas pelos ambientalistas, estão longe de serem eficientes, quando não efetivamente prejudiciais. Um ponto interessante que eles trazem é que é hipocrisia por parte dos países desenvolvidos quererem cobrar o preço de não piorar situação dos países em desenvolvimento, já que foram eles que causaram o desequilíbrio afim de se desenvolverem. Não seria justo os demais países terem o seu desenvolvimento minado e os já desenvolvidos deveriam pagar mais (metas mais arrojadas de redução) para compensar a externalidade negativa causada até então.

Mesmo sem aquela surpresa inicial causada pelo primeiro livro, este ainda traz muitos assuntos interessantes e que te preendem na leitura.

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The Phoenix Project: A Novel about IT, DevOps, and Helping Your Business Win – Gene Kim, Kevin Behr e George Spafford (06/2018)

Trabalho com tecnologia da informação desde 1992 (caramba! 26 anos já!). Lá no início e durante boa parte da minha carreira, na transição de sistemas centralizados baseados em Mainframe para computação distribuida, impulsionada pela popularização dos PCs, as equipes de desenvolvimento de aplicativos trabalhavam no mesmo lugar e todos eram responsáveis por todas as partes do aplicativo (banco de dados, interface de usuário, segurança, fazia os testes, etc.), bem como todos eram também responsáveis por fazer a análise do sistema, a arquitetura, a implementação e o suporte. Se o aplicativo era muito grande ou complexo existiam pequenas equipes cuidando de partes do sistema (o cadastro de usuários, interface com outras aplicações, relatórios, etc.), mas cada uma destas pequenas equipes (que tinham uma coordenação central) cuidava de todos os componentes e fases.

Entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000, com a onda de reengenharia e terceirização, algum “guru dos negócios” (que nunca deve ter escrito um “hello world” na vida) resolveu achar que separar as funções iria trazer algum ganho. E como ocorre muitas vezes na área de tecnologia (em geral, não só da informação), alguém em algum posto alto tem uma idéia e força a implementação sem a menor idéia de quais as consequências na execução do plano. E como geralmente ocorre no meio empresarial, basta um fazer para todo mundo copiar.

Depois de uma década de projetos infinitos e bilhões de dólares desperdiçados em aplicativos que nunca se estabilizam (isto quando não são abandonados), finalmente chegaram à conclusão de que era melhor da forma antiga (ah vá!). Foi quando surgiu o movimento DevOps, que no fundo é uma volta àqueles tempos (com o auxilio de tecnologias e metodologias recentes para aumentar a produtividade da equipe). Alguns destes métodos já são utilizados há décadas em manufaturas e cairam como uma luva em TI. A Teoria das Restrições (Theory of Constraints) traz alguns destes métodos e ferramentas.

The Phoenix Project traz as agruras causadas por esta segmentação (time de desenvolvimento, de suporte/operações, de segurança, de testes, etc.) e a transformação deste modelo novamente para um modelo de times integrados, responsáveis por todos os componentes e fases do ciclo de vida de um software, inclusive além das fronteiras de um projeto (ou melhor ainda, não limitados por um projeto). Mas o legal do livro é que ele faz isto através de uma estória, com personagens, enredo, ambientação, início, meio e fim. E é impossível para quem viveu os dois mundos (ou três, se considerar o estado anterior, como no meu caso) não identificar as situações e os personagems e fazer paralelos com situações vivenciadas e pessoas com as quais trabalhamos ao longo da carreira. O livro é tão interessante que cheguei a ler 60 páginas de uma vez só, pois ao final de cada capítulo tinha um gancho que me fazia ler o seguinte.

O livro é interessante mas deixa uma sensação de “não precisava ter passado por isto”, já que a maioria das pessoas que “botam a mão na massa” já imaginava que a segmentação era uma aposta muito arriscada. Dá vontade de soltar um “eu não disse?”. Como disse o CIO da minha empresa outro dia, “DevOps é tão anos 90!”

Be happy 🙂