Arquivo do autor:Wellington Cunha - Ruivo

Sobre Wellington Cunha - Ruivo

Paulistano de nascimento e cidadão do mundo por vocação. Trabalha atualmente com TI, porém se interessa, literalmente, por todo tipo de assunto, o que faz dele um "palpiteiro" de marca maior. Consegue ser cético e ter ao mesmo tempo o otimismo de Cândido, achando que no final tudo dará certo. Entre suas paixões estão a música, a literatura e as conversas com amigos numa mesa de bar, regado a uma boa cerveja.

O MMA e a Síndrome de Cachorro Vira-Latas – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 09 de Janeiro de 2014. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.



No livro “O Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, o primeiro da interessante série “Guia Politicamente Incorreto”, o autor, Leandro Narloch, nos presenteia com um trecho espetacular para definir o comportamento do Brasil enquanto nação e, consequentemente, o comportamento individual dos brasileiros:

“Se pudéssemos fazer uma terapia de grupo entre países, surgiriam comportamentos reveladores durante as sessões. Haveria aquele país que mal notaria a existência dos outros, como a França, talvez os Estados Unidos. A Alemanha se seguraria calada, sofrendo de culpa, desconfortável consigo e com os colegas ao redor. Uma quarentona insone, em crise por não ser tão rica e atraente quanto no passado, representaria muito bem a Argentina. Claro que haveria também países menos problemáticos, como o Chile ou a Suíça, contentes com a sua pouca relevância. Não seria o caso do Brasil, paciente que sofreria de diversos males psicológicos. Bipolar, oscilaria entre considerações muito negativas e muito positivas sobre si próprio. Obcecado com sua identidade, em todas as sessões aborreceria os colegas perguntando ‘Quem sou eu?’, ‘Que imagem eu devo passar?’, ‘O que me diferencia de vocês?’”

Esta busca do brasileiro por uma identidade é a causa do que o dramaturgo Nelson Rodrigues chamou de “Complexo de vira-latas”: o brasileiro sempre se coloca em uma posição inferior, quando comparado à outros povos e países. De tempos em tempos, esta síndrome é aplacada por algumas (ou algum período) de vitórias ou destaques, especialmente no campo esportivo.

Nelson Rodrigues, que criou o termo “Complexo de vira-latas”, logo após a derrota do Brasil na Copa de 1950.

Por exemplo, quando ouço falar que o brasileiro ama futebol, ou que o Brasil é o país do futebol, eu refuto esta ideia: o brasileiro não ama futebol, ele ama ganhar no Futebol para assim se sentir “o melhor” em alguma coisa. Esta necessidade não está relacionada somente ao futebol. O tricampeonato mundial obtido na Copa do Mundo de 1970 foi o ápice do domínio brasileiro neste esporte, porém se seguiu de um período de hiato, que teve seu vale em 1982, onde mesmo com um time muito bom, o Brasil não ganhou a Copa do Mundo daquele ano. Seguiu-se este hiato até 1994, onde o Brasil voltaria, depois de longos 24 anos, a ganhar uma Copa.

Durante este hiato, como o futebol não obteria os resultados esperados (para o Brasileiro não basta jogar bem, se não ganhar, não valeu de nada), outros esportes onde o Brasil (como time) ou brasileiros (individualmente) teriam destaques expressivos tiveram momentos importantes: o automobilismo, através das vitórias e títulos obtidos nas décadas de 70 e 80, o Vôlei entre as décadas de 80 e os anos 2000, um curto período de destaque no Basquete por conta da vitória sobre os EUA, na casa deles, no Pan-Americano de 1987, destaques na natação e no judô, por conta de resultados obtidos nas olimpíadas de 88, 92 e 96. Tivemos até pequenos booms de esportes mais elitizados, como o Tênis (devido às vitórias do Guga), Iatismo (irmãos Grael e Robert Scheidt) e até mesmo hipismo (vitórias do Doda).

Todas estas vitórias serviram para aplacar um pouco esta síndrome, já que, mesmo no caso de esportes individuais e que não recebem incentivos do Estado, o Brasileiro “toma para si” aquela vitória. As vitórias do Senna eram “vitórias do Brasil”, mesmo em um esporte individual e que depende, em grande parte, de um equipamento (mesmo que não tenhamos nenhuma equipe na Fórmula 1, nem mesmo uma montadora de origem brasileira, as vitórias “eram do Brasil”). O mesmo aconteceu com o Guga no Tênis: as vitórias não eram vitórias do Guga, eram vitórias do Brasil, mesmo ele não tendo tido apoio, exceto do seu treinador e de pessoas mais próximas, durante sua formação como atleta.

Da mesma forma que o brasileiro se apropria das vitórias, ele se exime nas derrotas, querendo encontrar uma desculpa, de forma a não admitir que alguém se tornou melhor naquele esporte. O próprio Guga já foi execrado pela torcida que comemorou suas vitórias. O Felipe Massa, passou de herói nacional a um “bosta” em 15 segundos em 2008. A França só ganhou em 1998 porque o Brasil entregou o jogo, por conta de uma teoria da conspiração que nem os autores de Arquivo X teriam bolado.

Gustavo Kuerten, um dos muitos esportistas brasileiros que tiveram “apropriação indevida” de suas vitórias, para logo em seguida serem execrados pelos antigos “fãs”.

Falei tudo isto como uma introdução para a “bola da vez” em aplacar a Síndrome de Vira-Latas do brasileiro: o MMA. Apesar de não ser praticante de nenhuma arte marcial (até treinei um pouco de Muay thai, há uns 15 anos atrás), sou fã da modalidade desde que ela se chamava “Vale-tudo” e tínhamos que alugar fitas na locadora para assistir aos primeiros UFCs ou sintonizar na Band (épocas pré TV à cabo) para assistir aos eventos do IVC ou WVC, no Maksoud Plaza. Sou até uma das poucas testemunhas do primeiro UFC Brazil, ocorrido em 1998, no Ginásio da Portuguesa, em São Paulo, evento que não estava lotado, apesar do custo de inimagináveis (para o UFC atual) R$ 20,00 do ingresso da arquibancada.

É impressionante para quem, como eu, acompanhou os primeiros passos de um novo esporte e/ou modalidade, ver como ele se desenvolveu em cerca de 20 anos (especialmente por concordar com o idealizador desta revista, quando diz que o MMA está chato). Além do tino comercial do Dana White, alguns outros fatores contribuiram em muito para a disseminação do esporte. No Brasil, alguns deles foram a popularização da TV a Cabo, a disseminação do uso da Internet e um aumento considerável na renda do brasileiro, durante estes vinte anos, que possibilitou que pessoas que não tinham acesso a academias e clubes pudessem passar a frequentá-los, e assim ter contato com outras modalidades de esporte que não as fomentadas nas escolas (Futebol, Basquete, Vôlei e Handball).

Mesmo assim, isto ainda seria pouco para o boom que ocorreu no Brasil, o que levou até o maior grupo de TV aberta do país a adquirir os direitos de transmissão e a fazer inserções de reportagens e chamadas para o evento nos seus horários nobres.

E novamente a explicação para tal boom vem da Síndrome de Vira-latas: com o futebol em baixa (não ganhamos um título mundial desde 2002) e o automobilismo brasileiro em vias de terminar (a Fórmula 1, assim como outras modalidades, como a Stock Car, que foram a válvula de escape durante o hiato do futebol das décadas de 70 e 80 estão em franca decadência), o brasileiro voltou suas atenções para um esporte onde existem chances reais de verem brasileiros ganhando.

Porém, novamente voltamos aos mesmos problemas: a apropriação indevida das vitórias por parte do povo (claramente incentivada pelos “novos” narradores desta fase do MMA) e a omissão, quando não crítica pura e ilógica, quando da derrota.

Até início deste ano, o Anderson Silva estava quase chegando ao nível de um “novo Senna” como ídolo dos brasileiros. Bastou uma derrota (justíssima, aliás), para um adversário que esteve melhor na luta, e não caiu no jogo psicológico do Spider, para nascerem as críticas ao modo dele lutar (para quem não sabe, ele sempre lutou com a guarda baixa, tentando desestabilizar emocionalmente o adversário) e até mesmo as teorias conspiratórias (“ele entregou a luta, pois ganharia mais numa eventual revanche”).

O pior são aqueles que, se aproveitando de uma infelicidade, um “acidente de trabalho”, que foi a fratura do mesmo nesta segunda luta contra o Weidman (que pra mim venceria a luta de qualquer jeito), já o “aposentaram” e criaram teorias de que ele já não estava bem na luta anterior ou ainda pregarem à favor da proibição do esporte.

Seria tão melhor para o país como um todo se cada um usasse suas frustrações como combustível para conseguir o sucesso individual. Ou ao menos minimizar os fracassos e complexidades individuais, ao invés de projetar isto em esportistas, até porque, como diria o mesmo Nelson Rodrigues acerca do futebol, e que poderia se estender à outros esportes: “das coisas menos importantes, o futebol é a mais importante”.

Be happy! 🙂

Algorithms to Live By – Brian Christian and Tom Griffiths (11/2017)

Este livro tem basicamente a mesma proposta de “Os Botões de Napoleão“: trazer para o grande público a aplicação prática de conceitos, teorias e descobertas científicas. No caso do Algorithms, o foco é em matemática, estatística e tecnologia da informação (três áreas de conhecimento muito interligadas) e em como alguns modelos e algoritmos podem ser aplicados na vida cotidiana de qualquer pessoa (isto quando já não são aplicados, intuitivamente e involuntariamente).

Cada um dos capítulos, dedicado a um algoritmo / modelo, inicia-se com a descrição do problema e os fatos históricos que levaram especialistas a se debruçarem sobre a questão em busca de alguma solução. Isto quando a solução é possível, pois em alguns casos existem problemas insolucionáveis (ou intratáveis).

Como contratar a melhor secretária, encontrar a pessoa com quem voce quer passar o resto da sua vida ou a melhor vaga para estacionar envolvem optimal stopping. Escolher entre um novo restaurante (com 50% de chances de se surpreender, mas também com 50% de chances de se decepcionar) ou um restaurante do qual voce ja gosta pode ser tratado com “explore/exploit” (explorar/usufruir). Aumentar as chances de ganhar num caça-níqueis, ou mesmo descobrir qual o tratamento mais eficiente para uma doença envolvem randomização e probabilidades. Resolver problemas muito complexos envolvem flexibilização (mudar o problema para encontrar uma solução mais facilmente). Mais pro final do livro aparecem alguns algoritmos mais voltados para a tecnologia em sí (em networking, por exemplo, que explica muito bem o funcionamento da internet).

O livro também inclui entrevistas com pessoas que participaram (e eventualmente participam) da resolução do problema (as vezes existe a melhor solução encontrada até agora, o que não quer dizer que seja a solução definitiva). Tudo muito bem documentado: entre notas (que poderiam estar no rodapé), referências, bibliografia e índice remissivo, são quase 100 páginas (1/3 do livro).

Dentre todos os modelos apresentados dois me atraíram mais a atenção: buffering e sorting (ordenação).

Buffering é um termo que não tem tradução para o português, mas explicando rapidamente: é uma área intermediaria (memória) do computador onde ficam alocados os programas mais usados (ou efetivamente em uso) afim de otimizar a inicialização (ou uso) destes programas. O HD de um note, além de ter uma quantidade grande de informações, o que dificulta a busca de algum dado específico, também é um mecanismo mais lento. Por isto existe a memória RAM (um dos vários tipos de buffer) que trabalha mais rápido que um HD, porém tem um custo por capacidade bem maior, e é onde os programas em uso são carregados. Com a internet funciona da mesma forma: toda vez que um site é visitado o browser salva alguns “pedaços” do site (imagens, mídias, etc.) localmente no computador. Da próxima vez que voce acessa o mesmo site, ele compara o que está na sua máquina com o que está no servidor (usando nome, data de atualização, tamanho de cada um dos arquivos, etc.) e baixa novamente somente o que foi alterado, usando as cópias locais para reduzir o tempo de carga da página.

Normalmente mantêm-se na area de buffer aquilo que foi usado recentemente, pois a chance de ser usado de novo é sempre maior do que algo que não é usado há muito tempo. Todo mundo tem aquela roupa que usa ao menos uma vez por semana, e aquela outra que a gente até esquece que tinha. E é ai que um buffer faz diferença: ao invés de perder tempo arrumando ou procurando em todo o seu armário, quando voce mantêm uma parte pequena para roupas que voce usa normalmente, tanto a organização quanto a procura se tornam mais rápidas. Eu sempre fiz isto e nunca liguei o ato a um algoritmo em específico (e eu sou da área de TI!).

No caso do sorting (ordenação, classificação), o livro traz um principio interessante: ordenar algo que você não vai precisar pesquisar é perda de tempo (despedício de recursos), procurar algo que não está ordenado é apenas ineficiente. Em computação sempre é necessário fazer escolhas que envolvem recursos limitados (bem, é assim na vida também). Eu sempre tive uma mania de manter as coisas bem organizadas: livros, CDs e DVDs em ordem alfabética, por exemplo. Só que cada vez que ia organizar algo, perdia uns 30 minutos, as vezes bem mais, sendo que mesmo fora de ordem, em alguns poucos minutos eu conseguiria encontrar um item. O investimento, não vale o retorno.

Comecei, desde que li este trecho, a não mais classificar e-mails, por exemplo. É um hábito que eu tenho desde que comecei a usar e-mail (há uns 20 anos atrás). Só que os mecanismos de busca dos aplicativos evoluiram tanto nos últimos anos que é bem mais fácil usá-los do que classificar itens no computador (e-mails, arquivos, etc.). E posso dizer, por esta pouca experiência, que realmente os 30 minutos perdidos por dia no trabalho, só classificando e organizando os e-mails, são um completo desperdício de tempo, já que raramente eu preciso procurar algo em e-mails antigos, e quando preciso, o próprio aplicativo faz isto em poucos segundos.

Be happy 🙂

Wanderlust #42 – Porto, Aveiro e Vila Nova de Gaia – Portugal (Parte I)

(23/Jun/2017-27/Jun/2017)

Cais da Ribeira – Porto

Chegamos no Porto propositalmente no dia da Festa de São João. A festa é o maior evento da cidade, atraindo mais de um milhão de pessoas de todo o mundo. Já no aeroporto havia uma recepção de organizadores da festa distribuindo os tradicionais martelinhos (explico abaixo) e o calendário das atrações, que contava com vários shows na Avenida dos Aliados e a tradicional queima de fogos no Cais da Ribeira (as barcas com os fogos ficam no Rio Douro). Este ano os balões foram proibidos devido ao tempo seco e a onda de calor, que haviam causado uma tragédia em Pedrógão Grande poucos dias antes.

Dia 1
Após chegarmos na cidade, numa sexta-feira, demos uma rápida volta na região do hotel Mira D’Aire, onde haviamos nos hospedado (ótimo, por sinal), comemos algo e fomos em direção ao Cais da Ribeira para acompanhar a festividade. Não vou dizer que gostei. Ao menos não do “evento principal” (a queima de fogos): tem que chegar cedo, lota demais, não tem banheiro e para “ajudar” ainda houve um atraso de quase meia hora na queima de fogos. Pelo que já me falaram do réveillon em New York, é meio que a mesma roubada (quer dizer, se colocar o frio, provavelmente NY é até pior). Talvez os “eventos paralelos” sejam mais interessantes.

Dia 2
No sábado começou realmente o passeio pela cidade. Saímos da freguesia (equivalente aos bairros brasileiros) da Cedofeita, e fomos em direção à Praça dos Leões, onde fica a Universidade do Porto e a bela Igreja do Carmo, cuja lateral é coberta por aqueles tradicionais azulejos desenhados em azul (será que dai vem a palavra azulejo?) e branco. Passamos pelo Jardim da Cordoária, pela Torre dos Clérigos, a Praça de Lisboa e depois fomos em direção à Avenida dos Aliados.

Depois fomos até a estação de trem São Bento para comprarmos as passagens para  Aveiro. A estação também é toda revestida com belas imagens feitas com os famosos azulejos. Vale perder um tempo admirando os detalhes das paredes e do teto. Na sequencia, subimos até a Sé do Porto, de onde se tem uma bela vista da cidade (e de Vila Nova de Gaia). E claro, do Rio Douro, que separa as duas cidades. E aqui vale um comentário: a paisagem do Rio Douro é uma das mais belas que eu já tive a oportunidade de ver.

Cruzamos o Douro pela parte superior da Ponte Luís I, que junto com o próprio rio e as duas cidades vizinhas, formam uma das paisagens mais icônicas da Europa. Já do lado de Vila Nova de Gaia, caminhamos pela beira do rio e podemos ter uma ótima visão da cidade do Porto (será que rola a mesma “provocação” que rola em relação à Niterói e o Rio?).

Voltamos para o Porto pela parte inferior da Ponte Luís I e fomos caminhar pelo cais da Ribeira, desta vez sem toda a muvuca da noite anterior. A região é cheia de restaurantes, bares e lojinhas de souvenirs. A arquitetura da região é muito interessante e lembra muito algumas cidades portuárias brasileiras, como o próprio Rio de Janeiro e Santos. Andamos mais um pouco pela área central e fomos relaxar na Cervejaria do Carmo. Ainda andamos mais um pouco pela cidade à noite e depois fomos descansar.

Dia 3
No domingo fomos até Aveiro, em um gostoso passeio de trem. A cidade é conhecida como a Veneza Portuguesa por conta dos canais e das “gôndolas”. Achei meio tosca esta historia das gôndolas (motorizadas) subindo e descendo o canal principal. Mas fora isto a cidade (que é bem pequena) é bastante charmosa. Como era domingo estava ocorrendo um “mercado de pulgas” na área central. Demos uma volta no local, experimentamos o famoso doce de ovos e depois acabamos encontrando o ótimo Zeca Aveiro, um pequeno bar / café, com um atendimento muito bom e algumas cervejas artesanais produzidas na cidade. Petiscamos um pouco e fomos dar uma volta pela área antiga da cidade, do outro lado do canal. A cidade era uma vila de pescadores e a principal rua desta área da cidade (um calçadão fechado para carros) é toda decorada com redes de pesca. Por ser domingo, a maioria do comércio local estava fechado.

Na volta ao Porto fomos direto à Letraria,  o bar / Biergarten  da cervejaria A Letra.  O Bar inicialmente dá a impressão de ser apenas um pequeno estabelecimento, mas ai você desce uma escada e se depara com um belo e grande jardim, com algumas árvores frutíferas. Um dos bares mais agradáveis que já fui na minha vida (sério!). Altamente recomendado. Ao sair de lá resolvemos procurar algum lugar para comer e acabamos encontrando a ótima Casa do Carmo. Pelo site parece ser um lugar mais fancy, mas é só a aparência mesmo. Os petiscos são ótimos e muito baratos. Pedimos os Rojões, as Punhetas e as Moelas. Tudo muito bem feito e delicioso. Na volta ao hotel ainda acabamos cruzando com um DJ tocando forró na Praça de Carlos Alberto. Pena que já estávamos cansados e não conseguimos ficar por muito tempo.

Dia 4
Na segunda-feira era o dia de visitar os primos da Lu (e agora meus também!) no Porto, então fizemos uma programação pensando em metade do dia. Inicialmente fomos (na verdade eu fui) até a Livraria Lello, que é considerada uma das mais belas do mundo. Em seguida fomos fazer o tour por uma das caves que produzem o famoso Vinho do Porto (uma invenção Inglesa, que é produzida no vale do Rio Douro e envelhecida em Vila Nova de Gaia!). Acabamos escolhendo a Calém porque era a mais conveniente para nós. Não creio que haja muitas diferenças entre elas, tanto em questão de preço como de atrativos. Pra quem não é um conhecedor/apreciador do Vinho do Porto qualquer uma vai servir ao propósito de conhecer a história, entender o processo de produção e tomar os samples. Mesmo para adquirir os vinhos não precisa passar pela visita e pode-se ir direto para a loja que cada uma das caves possuí.

Depois demos uma parada num pequeno restaurante do lado da cave para tomar um caldo verde antes de irmos visitar os primos!

No outro dia, antes de nos dirigirmos ate a estação de Campanha para tomarmos o trem para Lisboa ainda deu tempo de passar, pela segunda vez, na Confeitaria da Lapa. Uma confeitaria nova, mas que foi criada nos moldes das tradicionais confeitarias Portuguesas, que por sua vez inspiraram as padarias brasileiras. Ótimas opções de comida e um ótimo de atendimento. Fica a dica para quem se hospedar no hotel ou na região. Tinha até coxinha!

Observações, dicas e considerações:

  • O sistema de transporte público do Porto, muito baseado em VLT/Tram, é muito eficiente e dá pra se virar muito bem na cidade com ele. E funciona 24 horas durante os fins de semana (só em São Paulo que “não é tecnicamente possível!”).
  • Para os Portugueses os Brasileiros falam outra língua: o Brasileiro. Concordo com eles!
  • Assim acontece com com cariocas, os Portugueses se cumprimentam com dois beijos.
  • Uma das tradições do São João é um martelinho (igual aqueles do Chapolim). Segundo a lenda, dar “marteladas” na cabeça dos outros (inclusive e principalmente desconhecidos) é uma maneira de dar sorte. Chega uma hora que enche o saco estas marteladas. Mas ainda é menos chato do que o alho (a planta toda, que tem quase uns 2 metros de comprimento): o pessoal esfrega no seu nariz (imagino o sofrimento pra quem tem rinite) com o mesmo objetivo de te desejar/dar sorte.
  • Uma das coisas que achei interessante em Portugal (mas que é mais visível na região do Porto) é a inexistência de terrenos baldios: tudo quanto é terreno sem construção (como por exemplo terrenos ao lado de linhas de trem, ou debaixo de torres de transmissão de energia elétrica, que não podem ter construções) vira uma plantação. Geralmente uma horta ou plantação de milho. Podiam fazer isto no Brasil criando hortas coletivas, por exemplo.
  • Estão dando uma destinação interessante para os telefones públicos no Porto: a companhia telefônica está transformando os “orelhões” em pontos de Wi-Fi. Muito boa idéia!
  • Os custos em Portugal são muito baixos, inclusive quando comparado com o Brasil, mesmo convertendo. No Porto é mais barato ainda do que Lisboa. Só pra ter uma idéia, no café da manhã a gente geralmente pedia duas tostas mistas (misto quente), dois cafés, algum doce (geralmente pão doce) e uma água e sempre dava em torno de  4 euros. Um café da manhã destes na maioria das padarias de São Paulo (as de bairro mesmo) não deve sair por menos do que 20 reais.
  • Em Portugal normalmente se dá gorjeta: basta calcular uns 10% e deixar na mesa antes de ir embora (após o garçon trazer o troco). Arrendonde para cima em intervalos de 50 centavos (se deu 45 centavos, arredonde para 50, se deu 90 centavos, arredonde para 1 euro, se deu 1,25 euros, arredonde para 1,50, etc).
  • Fiquei triste durante a visita à Livraria Lello. Como o negócio de livrarias já não vai muito bem no mundo todo, eles começaram a cobrar uma entrada de 4 euros (e agora eles permitem fotografias no interior da loja). Só que esta entrada pode ser usada com desconto na compra de livros (e somente livros). Eu, como um aficcionado por livros, não consigo entrar numa livraria e não comprar um livro (mesmo sem desconto nenhum!). Mas percebi que nem com o incentivo do desconto as pessoas compravam. Tinha gente que chegava no caixa com algum outro item (uma camiseta por exemplo) e ao ser informado que o “bonus” só valia para livros, simplesmente preferia “perder” os 4 euros a adquirir qualquer uma das diversas obras disponíveis (e nos mais diversos idiomas!). Triste, muito triste!

Be happy 🙂

Festa de São João – Cais da Ribeira – Porto

Universidade do Porto – Porto

Avenida dos Aliados – Porto

São Bento – Porto

São Bento – Porto

Sé do Porto – Porto

Porto

Rio Douro – Porto

Rio Douro – Vila Nova de Gaia

Rio Douro – Vila Nova de Gaia

Cais da Ribeira – Porto

Cais da Ribeira – Porto

Igreja do Carmo – Porto

Estação de Aveiro – Aveiro

Largo da Praça do Peixe – Aveiro

Aveiro – Portugal

Aveiro – Portugal

Forró na Praça de Carlos Alberto – Porto

Livraria Lello – Porto

Sample flight de Vinho do Porto também vale! – Calem – Vila Nova de Gaia

Hotel Mira D’Aire – Porto

Ponte Luís I – Vila Nova de Gaia

 

Wanderlust #41 – Bélgica

(17/Jun/2017-23/Jun/2017)

Palais de Bruxelles – Brussels

Quando estávamos planejando a visita à Bélgica percebemos que, pelo fato do país ser pequeno e Bruxelas ficar bem na parte central do país, as cidades que haviamos decidido conhecer ficavam todas a cerca de uma hora da capital. Resolvemos então ficar hospedados em Bruxelas e fazermos day-trips para as demais cidades, para evitar o faz check-out as 10 da manha, vai pra outra cidade, faz check-in as 3 da tarde e ai praticamente perdeu o dia.

Dia 1
Chegamos em Bruxelas por volta das três da tarde do sábado e, depois de subir seis andares com malas, pois o elevador do hotel estava quebrado, fomos dar uma volta atrás de uma das melhores atrações da Bélgica: as cervejas! Paramos logo de cara no Le Poechenellekelder para descansar e iniciar as degustações. A cervejaria conta com uma área aberta bem em frente a uma das principais atrações da cidade, que também é uma das mais decepcionantes: o Manneken-Pis. Além de ótimas cervejas, é bom para ver o movimento.

Depois de algumas garrafas, fomos dar uma volta em direção à Grand Place, que é uma das praças centrais mais bonitas que já conheci. Depois de jantarmos (e claro, tomarmos mais algumas cervejas), fomos descansar pois no domingo iriamos para Bruges.

Dia 2
Pegamos o trem logo no domingo de manhã e fomos em direção a Bruges, uma cidade medieval cercada por canais, lembrando uma versão miniatura de Amsterdã ou Hamburgo. As construções de pedra, as ruas estreitas, a praça central, as catedrais, enfim, tudo na cidade, dão um charme interessante para ela. Ficamos andando pela cidade sem rumo por umas cinco horas e depois paramos na área externa da Brewery Bourgogne des Flandres, à beira de um dos canais.

Na volta a Bruxelas paramos na Moeder Lambic, que ficava do lado do hotel, para fechar o dia (já falei que cerveja é um dos atrativos da Bélgica).

Dia 3
Na segunda fomos começar a conhecer Bruxelas, passando primeiro pela Place de la Monnaie, que fica muito próximo à Grand Place, depois passamos pela Les Galeries Royales Saint-Hubert, um “shopping” muito bonito, pela Cathédrale des Sts Michel et Gudule e saimos andando pela parte norte da cidade. Depois de umas duas horas andando, chegamos a Place Charles Rogier e notamos que haviamos andado em círculo e chegado ao ponto de partida (mas a intenção era andar a esmo mesmo, pois é a melhor forma de conhecer lugares novos).

Subimos em direção ao Palais de Bruxelles, passando pelo Parc de Bruxelles. O Palais de Bruxelles é a residência oficial da família real Belga. Existe até a possibilidade de uma visita guiada por dentro do palácio. Seguimos pela Rue de la Régence, onde se encontram diversos palácios e praças. Destaque para as praças Petit Sablon e Grand Sablon. Ao final da Rue de la Régence se encontra o Monument A la Gloire de l’Infanterie Belge, de onde se tem uma vista boa da cidade. Dá até para ver o Atomium de lá!

Na volta paramos na À la Mort Subite, uma ótima e tradicional (e cara) cervejaria Belga, muito famosa por suas fruit lambic (que mais lembram um cooler ou um frisante), mas gostei mais da Gueuze deles. Depois fomos até a Brasserie du Lombard antes de voltarmos para o hotel.

Dia 4
Na terça era dia de conhecer Gent e levantamos cedo para tomar o trem até a cidade. Diferentemente de Bruges, Gent já é uma cidade maior, com avenidas largas, mais urbanizada, com movimento, muito por conta da Universidade de Gent, que atrai muita gente de toda a Europa (e até de outros continentes) para a cidade. A beleza da cidade já começa na estação de trem. Passa pelo Citadel Park, mas é na região central, com suas igrejas e praças que ela fica em evidência. Um dos lugares que mais achamos interessantes foi o Holy Food Market, uma “praça de alimentação” montado numa antiga biblioteca, que por sua vez havia ocupado o lugar de uma igreja. Pena que estava muito cedo e a maioria dos “quiosques” estavam fechados. Continuamos andando pela cidade por mais algumas horas e depois voltamos até Bruxelas.

Já em Bruxelas, paramos primeiramente na área externa do Rooster’s, e pudemos observar o movimento local em um dia de semana. Depois fomos nos decepcionar no Delirium Café (veja mais abaixo). Em seguida fomos novamente na Brasserie du Lombard para finalizar o dia. Enquanto estávamos lá, começou um movimento de policiais, exército, ambulância. Mais tarde ficamos sabendo que havia ocorrido uma tentativa de atentado terrorista de um extremista islâmico na estação central de Bruxelas, a uns 500 metros de onde estávamos.

Dia 5
Quarta era o dia reservado para conhecer Antuérpia. A população da cidade é maior que de Bruxelas (mais que o dobro) e apenas um bate e volta acabou deixando aquela sensação de que foi pouco. As surpresas da cidade já começam na fantástica estação central de Antuérpia, que é a mais bonita que eu vi até hoje. O centro da cidade, que é um polo comercial e financeiro do país, tem toda aquela mistura de prédios históricos e modernos edifícios que dão charmes à cidades como São Paulo e Nova Iorque. Como as demais cidades que visitamos, Antuérpia também conta com uma praça central que, em épocas remotas, era onde a vida acontecia (são conhecidas como mercados, pois eram onde as pessoas iam realizar os escambos). A de Antuérpia chega a ser até maior que a de Bruxelas e com as mesmas belezas. Aconselho a andar olhando para o alto para ver os detalhes no topo dos prédios.

Andamos para caramba por lá, mas não chegamos a conhecer nem metade da cidade. Mas é uma daquelas que entraram na lista para uma possível segunda visita. Depois do cansativo passeio, voltamos ao Rooster’s para um happy hour e depois fomos descansar.

Dia 6
Quinta feira fomos conhecer o restante de Bruxelas que haviamos planejado conhecer (antes de chegar e já na cidade). Andamos da Place Fontainas, onde ficava o nosso hotel, até o Parc Léopold, numa bela caminhada. No caminho ficam vários prédios da administração da Comunidade Européia e no próprio parque fica o parlamento Europeu. Depois caminhamos mais um pouco até (e pelo) Parc du Cinquantenaire. Para quem gosta de carros, no parque fica a Autoworld, uma exposição permanente sobre a indústria automotiva.

De lá pegamos o metrô até o Atomium, que na verdade é outra atração meio que sem graça, mas que sobrando tempo vale “riscar da lista”. O Parc d’Osseghem Laeken, que fica ao lado do Atomium é, aliás, bem mais interessante que a própria atração. Pegamos o metrô de volta e fomos encerrar o ciclo tomando mais algumas novamente na Poechenellekelder. Antes de voltarmos ao hotel, resolvemos enfim experimentar o famoso Waffle Belga (com sorvete, claro!). E ainda demos mais uma volta na Grand-Place, desta vez ao cair da noite, para admirar a bela praça iluminada.

Observações, dicas e considerações:

  • Em Bruxelas e Antuérpia tem Wi-Fi publico por quase toda a cidade. Quando não tem (e em Gent e Bruges), bares e restaurantes quebram um galho. Portanto, não há necessidade de comprar um chip.
  • Curiosidade que me bateu na viagem: como eles fazem quanto ao idioma nas escolas? Segundo pude pesquisar, as escolas são organizadas pelas comunidades, então cada comunidade decide qual será o idioma, que vai refletir a lingua falada naquela comunidade: o Francês, o Flemish (a variação belga do Holandês) ou o Alemão (não sabia que o Alemão era forte na Bélgica). Em locais como Bruxelas (que são oficialmente bilingues), normalmente encontram-se opções de escolas em Francês e em Flemish. Geralmente estas escolas oferecem, além do Inglês, as demais línguas como opção de “língua estrangeira” a ser estudada depois do ciclo básico.
  • Na Bégica fuma-se em praticamente qualquer lugar aberto, inclusive áreas externas de restaurantes. E fica a dica: quer identificar um brasileiro, é só ver o “nariz torcido” quando alguém acende um cigarro numa área liberada para fumantes. O povo que reclama de tudo!
  • A maior decepção da viagem foi com certeza a Delirium: estava esperando tomar aquela bela Witbier, mas ai o cara pega um copo usado, dá aquela xuxada numa pia com detergente, outra xuxada pra “enxaguar” numa outra pia com água (e resto de cerveja e detergente) e serve a cerveja naquele copo mesmo. Ou seja, a espuma da minha Wit era mais de detergente do que da carbonatação. Quanto mais o bar fica cheio pior é a higiene.
  • Interessante (e assustador) a forma como as pessoas se acostumam com coisas que não deveriam. No episódio do atentado, as pessoas que estavam no bar checaram o celular, viram o que tinha ocorrido, e continuaram com sua vida, como se um atentado terrorista fosse a coisa mais natural do mundo.
  • É tanta opção de marcas e estilos de cerveja que dá a impressao que a única coisa que o pequeno país se dedica a fazer é cerveja!
  • Os Belgas são um povo muito educado, simpatico e prestativo.
  • Acabei descobrindo lá que os Cartoons são uma arte muito popular na Bélgica (sabia que o Tintin era uma criação belga, mas não sabia sobre os Smurfs e o Asterix). Isto também se reflete na street art, com muitos grafites remetendo à cartoons clássicos.

Be happy 🙂

Bruges

Bruges

Brewery Bourgogne des Flandres – Bruges

Brussels

Place du Petit Sablon – Brussels

Brussels

À la Mort Subite – Brussels

Citadel Park – Gent

Korenmarkt – Gent

Holy Food Market – Gent

Sint-Baafskathedraal – Gent

Brussels – capital do Cartoon?

Délirium Café – Brussels – que decepcão!

Antwerpen-Centraal

Antwerpen

Grote Markt – Antwerpen

Grote Markt – Antwerpen

Antwerpen-Centraal

Parlement Européen – Brussels

Parlement Européen – Brussels – Parece que Berlin me persegue!!!…hehehe

Parc du Cinquantenaire – Brussels

Atomium – Brussels

Atomium – Brussels

Poechenellekelder – Brussels

Manneken Pis – Brussels

Grand-Place – Brussels

Tempo Perdido – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 23 de Dezembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


No meu primeiro artigo na Feedback Magazine, tentei mostrar, sobre o ponto de vista econômico, a importância de programas sociais de inclusão das camadas mais pobres da população no chamado mercado de consumo. Um ponto que eu não citei no artigo é que, assim como o programa de microcrédito na Índia, que permitiu que a economia nas camadas mais baixas fosse “turbinada” até que o país realizasse os investimentos de longo prazo necessários, o Bolsa Família deveria ser uma solução emergencial e temporária, pelos motivos já citados no artigo anterior.

Para que o Brasil se torne uma nação capaz de se desenvolver de maneira sustentável e de longo prazo, a ponto de não depender tanto de programas sociais do tipo e de uma maneira que não fique tão vulnerável à crises internacionais, entre tantos problemas a serem solucionados, existem dois que são os mais urgentes: infraestrutura e educação.

O problema da infraestrutura, mesmo à passos de tartaruga, está sendo tratado no Brasil e, de uma forma ou de outra, também pode ser contornado no curto prazo.

É no segundo, a educação, que mora um dos calcanhares de aquiles do Brasil. Não quero entrar no velho discurso de que uma nação sem educação escolhe mal seus líderes, porque isto é uma meia verdade, já que existem nações com qualidade educacional bem superior a nossa e que também escolhem mal seus líderes (está aí a Itália, ou mesmo a Argentina, para não me deixar mentir); porém, quero me ater à como isto afeta o desenvolvimento do país.

Nas últimas duas décadas, o governo brasileiro se “esforçou” para implementar programas para incentivar a educação superior e técnica, como o FIES e o ProUNI, além de ter aumentado o número de vagas em universidades públicas e escolas técnicas. Devido a estes esforços, tivemos um aumento considerável no número de cidadãos possuidores de diploma de nível superior. O que deveria ser comemorado pela sociedade acabou virando mais um motivo de preocupação, já que este aumento de pessoas com ensino superior foi somente numérico, e não refletiu no aumento da capacidade intelectual e de agregação de valor à produção, que é o que gera riqueza para as nações.

Quando uma empresa, ou mesmo o governo (o principal motivo do atraso das obras de infraestrutura do PAC é a falta de gente capacitada a gerenciar os projetos), tenta contratar algum profissional para exercer um trabalho que exige qualificação, apesar de encontrar no mercado vários candidatos que, por possuirem diploma de nível superior, teoricamente estariam aptos a realizar este trabalho, esbarram na falta de preparo em algumas áreas que deveriam ser pré-requisitos para o acesso à universidade.

São candidatos que não conseguem compreender um texto simples e, da mesma maneira, não conseguem se comunicar de maneira clara e concisa. Também faltam à estes candidatos capacidade de raciocínio lógico e analítico.

Isto gera um efeito negativo na economia, pois uma empresa, ao analisar vários mercados, afim de expandir (ou mesmo manter) suas atividades, vai levar em conta a disponibilidade de mão de obra capacitada para exercer as tarefas necessárias àquela empresa, entre outros fatores (e na maioria deles, como impostos, burocracia e infraestrutura, o Brasil também perde). Ou seja, bens que poderiam ser produzidos aqui, que agregariam valor às matérias primas extraídas aqui (o que seria uma vantagem), podem estar sendo produzidos em outros países (muitas vezes com matéria prima brasileira), por conta da falta de pessoal capacitado.

Eu sei fazer o serviço, só não sei ler e escrever direito.

Eu mesmo já passei pela experiência, na empresa onde trabalho, de precisar encontrar profissionais para aumentar a equipe, não conseguir encontrar no Brasil e ter que utilizar profissionais de outros países para executar o trabalho (na área de TI, como na maioria dos negócios relacionados à serviços, é ainda mais fácil mover um posto de trabalho de um país para o outro).

Apesar da aparente preocupação dos últimos governos com o ensino, esta preocupação se refere mais aos números que são mostrados à sociedade do que com a qualidade do ensino em si, e com isto criam mecanismos que fazem com que o número de analfabetos diminua, o numero de universitários aumente, a evasão escolar seja reduzida, mas mesmo assim (e apesar destes mecanismos), nossa classificação em testes internacionais de ensino básico e médio só tem piorado, a quantidade de artigos acadêmicos publicados em revistas internacionais não acompanhou o aumento do número de estudantes (e a citação destes artigos diminuiu) e chegamos ao cúmulo de não termos nenhuma universidade entre as 200 melhores do mundo. (Duzentas!!!)

Além da doutrinação (ideológica, política e até religiosa) que ocorre, ao menos nas escolas públicas, o que faz com que os estudantes sejam meros papagaios repetidores, sem a mínima capacidade de fazer uma análise racional e formar seus próprios conceitos, o Estado concentra muitos esforços no ensino superior, deixando a educação básica em segundo plano. É como querer construir uma casa pelo teto, ao invés de levantar fundações, colunas, paredes e, aí sim, construir o telhado. Esquecem-se que a educação básica, que serviria de base para desenvolver aquelas características já citadas (compreensão de textos, capacidade de comunicação, raciocínio lógico, analítico e matemática), além de desenvolver nas pessoas a sede do conhecimento, é a que cria as bases para que o ensino superior seja de qualidade e melhor aproveitado. Mas infelizmente, ao invés disto, prefere-se criar fábricas de diplomas (em todos os níveis).

Segundo o professor James Heckman, para cada dólar investido em educação infantil (creche e pré-escola), têm-se um retorno de nove dólares para a sociedade (leia aqui uma ótima entrevista com o professor James Heckman), portanto, a educação não é só um ato político, como pregava Paulo Freire, mas também um ato social e econômico.

E desde o primeiro governo FHC, já se vão quase 20 anos, ou seja, as crianças que entraram na escola àquela época já poderiam estar formadas, muitas delas produzindo conhecimento, se o investimento na base tivesse sido feito àquela época. E o pior é que, como nenhum dos governos subsequentes também se preocupou com isto, se começassemos este tipo de investimento agora, ainda teríamos que aguardar mais 20 anos para iniciar a colher os frutos.

Nossos governos ainda insistem em continuar “jogando para a torcida”. E sinceramente não vejo perspectiva de mudança..

Be happy! 🙂

Why Information Grows – César Hidalgo (10/2017)

Imagine um físico escrevendo sobre economia e adicionando umas pitadas de filosofia. Loucura não? Então conheça César Hidalgo e você vai ficar entre o “PQP! O que este cara está falando?” e o “E não é que faz sentido?!”.

A hipótese sobre a qual o livro é construido é a de que o universo é um caos e a pouca ordem que existe no universo é o que gera “coisas” (como os planetas, as estrelas, as constelações, etc.).  Só que no meio desta ordem aleatória e incrivelmente rara aconteceu o improvável: surgiu vida, e de um tipo destas vidas emergiu uma “coisa” (o ser humano) que tem consciência da sua existência e consegue colocar ordem no caos.

A partir daí César desenvolve esta idéia de que a escassa ordem em um universo de caos tem valor. Saindo do nível cósmico e descendo para o nível do nosso planeta, ordenar o caos é o que traz valor para nosso ambiente e para nossa espécie. Para ordenar o caos conscientemente e não aleatoriamente (e inclusive combater a entropia, que é o caminho para o qual o universo sempre caminha), a espécie humana precisa gerar e transmitir conhecimento, que ele resume em informação.

E o valor das coisas que produzimos reside justamente na informação que cada uma destas coisas carrega. Não é o esforço embutido em produzir e nem os recursos utilizados na produção que dá valor as coisas. É a quantidade e complexidade de informações que aquela coisa carrega, ou seja, o que dá ordem (aos átomos, aos materiais, etc.).

Para exemplificar esta teoria ele usa um caso hipotético de um Bugatti Veyron: um carro que vale 5 milhões de dólares em perfeito funcionamento! Mas caso você bata um Veyron ao ponto dele virar um amontoado de aço, borracha, plástico e outros materiais, todo aquele valor contido no carro se esvai, apesar de os átomos ainda existirem, agora desordenadamente. Portanto o que dá valor ao Bugatti é a ordem e, em última instância, a informação contida naquela ordem (obviamente desprezando o fato de que o interesse ou necessidade é que traz valor a um bem ou serviço, mas que para os propósitos didáticos pode ser desprezado, como ele cita no livro).

Partindo deste pressuposto (novamente, que faz muito sentido!) de que o que dá valor as coisas é a quantidade e complexidade de informação que elas carregam, ele propõe a análise economica de um outro ponto de vista. Por exemplo, ao invés de usar a “balança comercial” para mensurar as relações comerciais entre os países, ele propõe o uso da “balança de imaginação”. Para suportar este argumento, ele inclusive usa o exemplo do Brasil, que exporta mais do que importa, em dólares, para a China, porém exporta bens primários enquanto importa produtos com alto valor adicionado (carga de informação). Ou seja, apesar da balança comercial entre Brasil e China ser favorável ao Brasil, a “balança de imaginação” é favorável à China.

Ele até traz a tona que a narrativa (muito explorada politicamente, inclusive no país de origem de Hidalgo, o Chile) de que os países que exportam matéria prima são explorados por aqueles que importam é um erro de conceito e na verdade ocorre o contrário: se não fosse o nível de informação contido em um produto final, a matéria prima não teria valor. Portanto, não é os EUA que exploram o petróleo Venezuelano, mas a Venezuela que explora a imaginação de Henry Ford, Rudolf Diesel, Gottlieb Daimler, etc.

Cesar explica que existe um limite de acumulação (e portanto de geração e disseminação) de informação por um único indivíduo, que ele chama de personbyte. Para aumentar esta capacidade, o ser humano tem que trabalhar em conjunto, aumentando assim a capacidade coletiva de colocar informação (ordem) nas matérias. Ele faz uma análise de como as sociedades se organizam, como estes indivíduos se relacionam para formar estes “clusters de conhecimento” e como são formados os elos destes clusters (basicamente através de confiança).

Aqui ele entra numa constatação interessante: em sociedades com baixo nível de confiança geral (como nas sociedades latinas, incluindo-se ai o sul da Europa), os clusters tendem a ser menores, pois eles tendem a se formar em torno de famílias e/ou indivíduos com algum tipo de ligação prévia, e dificilmente ultrapassam esta fronteira. Quando precisam ultrapassar, como há falta de confiança, há a necessidade de “formalização” destes links, o que gera a burocracia (contratos, leis, etc.), e isto por si só também é um entrave à formação de cluster maiores. Este é um dos motivos que ele cita para a diferença entre produção de conhecimento (e consequentemente desenvolvimento econômico e bem estar geral) entre sociedades como os EUA, Alemanha, Japão, onde existe uma nível alto de confiança geral entre os indivíduos, e outras sociedades, como Itália, França, Espanha e toda a America Latina.

Outro ponto interessante é a capacidade de encapsulamento e replicação de um cluster de informação. Ele traz o exemplo Chinês: a China se consolidou como uma potência em manufatura não porque a mão de obra é barata, mas sim porque a China é capaz de replicar cluster produtivos. Existem diversos países onde a mão de obra é mais barata que na China (aliás, ano passado o salário médio Chinês ultrapassou o Brasileiro), mas estes lugares não são capazes de replicar estes clusters e sua consequente capacidade de atribuir valor as coisas.

Vou parar por aqui porque senão eu vou reproduzir o livro todo e qualquer resumo não vai traduzir todas as idéias contidas nele. Sugiro muito a leitura! Para quem se interessa por economia e tecnologia da informação eu diria até que é uma leitura obrigatória. Mas qualquer pessoa que esteja tentando entender este mundo louco em que vivemos atualmente deveria ler este livro.

Be happy 🙂

Wanderlust #40 – Boston – Massachusetts – Estados Unidos

(27/Mai/2017-29/Mai/2017)

Public Garden

Diferentemente da colonização Espanhola e Portuguesa (e da própria colonização Inglesa em outros lugares), que era uma colonização exploratória (explorar os recursos das colônias para enviá-los ao país colonizador), a colonização Inglesa nos EUA teve um intento ocupatório: o plano era montar uma versão maior da Inglaterra. Não à toa, muitos dos locais existentes nos EUA receberam nomes de localidades Inglesas com o prefixo “new”: New York, New Jersey e New Hampshire, por exemplo, eram todos “xerox ampliadas” de York, Jersey e Hampshire, na Inglaterra.

Esta caracteristica de ser uma “cópia” da Inglaterra fica muito evidente na região nordeste dos EUA, que é justamente conhecida como New England e que incluí, entre outros, o Estado de Massachussets, cuja capital, Boston, fomos conhecer no feriado do Memorial Day.

Como chegamos na cidade antes do check-in no hotel, que ficava na região de Back Bay, resolvemos parar o carro (na rua mesmo) e irmos conhecer o Boston Commons e o Boston Public Gardens, que são os dois principais parques de Boston. Na verdade, como são colados, a impressão é que é um parque só, já que voce não sabe quando termina um e começa o outro.

Depois do check-in fomos caminhar pela Commonswealth Avenue, um belo jardim linear, e depois até Harvard, que na verdade fica em outra cidade (Cambridge). Na caminhada, passa-se pelo MIT. Para quem quer conhecer universidades e faculdades, ainda tem o Berklee College of Music, Boston College, entre outros tantos institutos de educação sediados na cidade. Pela quantidade dá pra se concluir duas coisas: (1) que os ingleses realmente “investiram” na região e (2) que Boston é bem agitada e diversa, já que recebe muita gente jovem do mundo todo.

Depois da bela caminhada pela Massachusetts Ave, que é repleta de restaurantes, livrarias, bares, lojas de disco e outros tipos de comércio que tendem a existir perto de universidades, paramos para tomar umas na tradicional John Harvard’s Brewery & Ale House, que tem um ambiente bem legal (e não fomos expulsos!!!) e ótimas cervejas feitas no local!

Pegamos o metrô na volta e desembarcamos em Downtown, que é diferente de outros centros de cidade nos EUA. Geralmente os downtowns das cidades americanas são regiões desertas e degradadas, mas o de Boston lembra muito o centro de São Paulo: vários calçadões com muitas lojas (tem até Primark!), fast foods, artistas de rua, etc. Não é lá uma “atração turística”, mas vale uma passada. De lá voltamos para Back Bay e fomos procurar algo para comer.

O domingo era o único dia que teriamos inteiro na cidade, entao levantamos cedo e, depois de darmos uma volta por Back Bay, fomos novamente pela Commonwealth Ave ate a Massachussets Ave, mas desta vez ao invés de cruzarmos o Charler River em direção a Cambridge, fomos caminhar na beira do rio, no que é conhecido como Charles River Esplanade.

Na sequência passeamos por Beacon Hill, uma das regiões mais antigas de Boston, que ainda conserva a iluminação pública a gás. Fomos até o Quincy Market (que na verdade conta mais dois mercados: o South e o North markets), onde existem varios restaurantes, atrações para crianças, artistas de rua, e parece ser a parte mais turística da cidade (foi onde compramos os souvenirs).

Haviamos planejado de tomar umas na Harpoon e assim encaramos a caminhada (umas duas milhas) desde North End até lá. Porém, estava com uma fila gigante quando chegamos e, pelo pouco que ficamos, calculamos que iriamos perder pelo menos uma meia hora até conseguir entrar. Desistimos e decidimos então pegar um Lyft até a Beer Works para tomarmos umas cervejas especiais (e tirar a tradicional foto com o flight!). Na volta acabamos parando na Rock Bottom para jantar (e tomar mais uma cerveja).

A Rock Bottom foi o primeiro Brew Pub que conheci (em 2010), lá em Phoenix, no Arizona. Nem sabia que era tipo uma franquia, assim como não sabia à época o que era um growler, um brew pub, um sample flight, etc.

O mundo gira e a gente sempre acaba se deparando com coisas e lugares que já passaram por nossa vida, mesmo em  novos lugares.

Observações, dicas e considerações:

  • Back Bay e North End são os melhores lugares pra se hospedar em Boston. Porém, os dois lugares são meio que distantes um do outro (e olha que a gente anda pra caramba!), cerca de uns 35 minutos de caminhada entre eles.
  • A fila da Harpoon estava gigante (era um domingo). Se quiser ir, tenha paciência.
  • Dá pra ir de Boston até Harvard usando o metrô, mas a caminhada, apesar de longa (cerca de uma hora de Back Bay) é muito mais agradável!
  • Todos os sites que pesquisamos foram unanimes em afirmar para não ir em Janeiro e Fevereiro. “Tempo miserável” foi um dos termos mais leves que encontramos para descrever o clima nestes meses.
  • Gostei da cidade, especialmente pela mistura de modernidade, antiguidade e espaços verdes. Se não fosse o tempo miserável, seria até uma opção para morar!

Be happy 🙂

Public Garden

Commonwealth

Women’s Memorial – Commonwealth

Charles River

John Harvard’s Brewery Ale House

Public Library Foundation

The Esplanade

Galera aproveitando o sol – The Esplanade

Charles River

Iluminação a gás – Beacon Hill

Quincy Market

Boston Commons

Boston Public Gardens

O Futebol e o Mensalão – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 11 de Dezembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


 

Uma das coisas que mais me incomodam no comportamento do brasileiro, no que se refere à política, é esta mania de tratar de política como se trata de futebol. A pessoa escolhe um partido e/ou ideologia política para “torcer”, não faz muita questão de entender a teoria ideológica (aliás, os próprios partidos abandonaram a ideologia, pois não faz muita diferença mesmo), defendem seus partidos (ou atacam os outros) como se estivessem num campeonato, não questionam atos suspeitos dos membros importantes do seu “time” e o pior, mesmo com uma mudança na linha ideológica ou de discurso, parece que ficam com vergonha de “mudar de time”, de ser um “vira casaca” e continuam agarrados àquela escolha inicial, mesmo que ela não mais represente os seus ideais.

Isto sempre existiu no Brasil (aliás, em alguns outros países também, inclusive de primeiro mundo), porém, a coisa tomou uma proporção gigantesca com o advento da Internet e das redes sociais.

Vejamos todo o burburinho sobre a prisão dos condenados do caso chamado “Mensalão”.

À despeito das atitudes midiáticas e arbitrárias do ministro Joaquim Barbosa que, na minha opnião, não fazem bem para a instituição (judiciário), os réus do mensalão estão onde deveriam estar. Porém, seus simpatizantes e correligionários ainda continuam inventando desculpas (ou perpetuando mentiras a fim de que elas virem verdade). Vamos abordar algumas delas:

“Eles são inocentes” / “São presos políticos” / “Não existem provas” – lembro-me muito bem quando do estouro do escândalo (até porque fui um dos que se decepcionaram com o PT), a primeira coisa que os acusados fizeram foi dizer que “não era para compra de voto, era distribuição de caixa 2 de campanha”, ou seja, não alegaram inocência, apenas quiseram “trocar o crime” por um que teria pena mais branda e que, segundo as palavras deles mesmos, “todo mundo faz” (Mas não era o PT que iria fazer diferente?). Durante o processo, existiram provas materiais, testemunhais e circunstanciais que levaram à condenação. Apesar de quererem atrelar a decisão a uma só pessoa (o ministro Joaquim Barbosa), já que é mais fácil desqualificar uma pessoa do que várias, os réus foram julgados por um colegiado (cuja maioria foi indicada durante as gestões do PT!), tiveram ampla possibilidade de defesa num processo em que a própria defesa não procurou a absolvição (que seria muito difícil de provar), mas sim tentou desqualificar algumas acusações (como a de formação de quadrilha), para que pudessem ser aplicadas penas alternativas e mais brandas. Não são presos políticos, são políticos presos e ponto final.

“Os réus do mensalão mineiro ainda estão soltos” – bem, aqui podemos dizer que eles deram o “azar” de estarem no meio de um processo que envolvia autoridades que são julgadas por crimes comuns no STF (no caso os deputados federais João Paulo Cunha, Pedro Henry e Valdemar Costa Neto – posteriormente José Genoíno, que entrou como suplente em 2013) e acabaram sendo “arrastados” para a instância maior, antes de passarem pelas instâncias menores, o que iria fazer com que o processo se arrastasse durante vários anos, podendo inclusive existir prescrição de crimes. Porém, ao invés de reclamarem que o processo correu rápido demais, deveriam era exigir a mesma velocidade para os outros casos.

“Eles têm uma história” – sim, tanto o PT quanto o Genoíno, o Dirceu e o finado Gushiken têm uma bela história de luta pela democracia (assim como o Fernando Henrique, o Covas, o Serra, entre outros), porém, boas ações passadas não são passaporte para cometerem erros futuros e no máximo servem de atenuante para abrandar penas. E se alguém desconsiderou e não respeitou a própria história, foram eles mesmos.

De um outro lado, chega a ser deprimente ver os “anti-petistas” comemorando a condenação e prisão dos mensaleiros enquanto membros dos seus partidos estão envolvidos em escândalos que superam (em valores, engenharia, envolvidos, etc.), em muito, o mensalão do PT.

Só para citar os dois últimos casos recentes, as cifras envolvidas no escândalo de corrupção do Metrô do estado de SP e no caso dos fiscais do ISS da Prefeitura de São Paulo, fazem os mensaleiros petistas parecerem garotos que furtaram chicletes no supermercado (não que o montante desviado seja agravante ou atenuante, quem rouba um chiclete ou rouba 1 milhão comete o mesmo crime). E é difícil imaginar que o governador Geraldo Alckmin, que gosta de ter todos os detalhes das principais obras ao seu alcance, por conta de seu perfil centralizador, ou o senhor Gilberto Kassab, cuja família “coincidentemente” opera no ramo dos negócios imobiliários, não estivessem ao menos cientes da existência dos esquemas que desviaram cerca de 1 bilhão de reais dos cofres públicos.

No meu mundo ideal, neste momento, quem estaria comemorando a cassação dos mensaleiros seriam os próprios petistas, enquanto os simpatizantes dos demais partidos estariam envergonhados e cobrando da Justiça a investigação dos membros dos seus próprios partidos envolvidos em esquemas de corrupção, fosse para provar uma possível inocência deles, fosse para fazer uma limpa no seu partido e assim, uma limpa na política em geral.

Mas como aqui “o bom é ganhar”, mesmo que seja roubado, continua cada um fiscalizando a limpeza do rabo do outro, enquanto o próprio está sujo, esquecendo-se que, se cada um cuidar do seu, todos estarão limpos.

Be happy! 🙂

História do Cerco de Lisboa – José Saramago (09/2017)

Interessante ter lido este livro logo após o Manual de Pintura e Caligrafia, já que os dois usam o mesmo “mote” como linha mestra: uma crise existencial que faz com que o personagem principal cometa um arroubo dentro de sua atividade profissional, o que acaba por mudar os rumos de suas vidas.

No caso da História do Cerco de LIsboa, Raimundo Silva, um notório revisor literário, ao trabalhar em um livro que relata o fato histórico da retomada de Lisboa, que ficou sobre controle dos Mouros (islâmicos) entre os séculos VIII e XII, resolve adicionar uma negativa, contrariando os fatos históricos (da forma como são conhecidos). Inicialmente ele se vê às voltas com a culpa de ter, deliberatamente, tentando alterar a história.

Porém o fato em sí não causa tantos inconvenientes quanto Raimundo imaginava, e acaba por abrir uma nova possibilidade profissional: reescrever a história à partir do ponto em que ela foi modificada por ele mesmo.

À partir dai o revisor / escritor vai revisitando os fatos e os lugares, já que a estória (do Saramago) também se passa em Lisboa. Com toda a liberdade literária, ele escreve um interessante romance e, no processo de escrever, também vai trazendo fatos da história verdadeira (através das suas pesquisas e das possibilidades para a história).

A leitura é mais fluida do que o do Manual. “Fluída” para o padrão Saramago, que não usa uma organização normal em parágrafos e diálogos, mas escreve tudo (narração e diálogos) continuamente, sem identificar o emissor da frase, apenas separando-os por vírgula. É cansativo inicialmente, mas depois de pegar o embalo fica um pouco mais fácil (alguns trechos requerem uma leitura mais detalhada e eventualmente releitura).

Além de tudo, foi bem interessante para mim, porque como fui há alguns meses à Portugal, ficou bem fácil montar o “filminho” na minha cabeça dos lugares por onde Raimundo anda durante a estória.

Uma diferença interessante entre o Manual e o Cerco é que no Manual, o personagem que enfrenta a sua crise existencial está na faixa dos quarenta anos, enquanto no Cerco, o personagem está na fase dos cinquenta. Levando-se em consideração que os livros foram lançados com um intervalo de pouco mais de dez anos e que, segundo os biógrafos de Saramago, o Manual é uma obra biográfica. Imagino que o Cerco também tenha algo do próprio Saramago.

Be happy 🙂

Os Black Blocs e a Democracia – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 25 de Novembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Muito tem se discutido, desde as manifestações de Junho, sobre a legitimidade de atos de protestos que utilizam de violência, seja contra pessoas (a hostilização de repórteres e membros de partidos em Junho também foi uma forma de violência, do mesmo nível da causada pela PM aos manifestantes e repórteres), seja contra patrimônio público ou privado. Os atos de “vandalismo” ganharam o nome e o “rosto” (encoberto) dos Black Blocs.

Historicamente, percebemos que “revolução” pacífica não gera efeito, aliás, nem é revolução. Porém, num estado democrático de fato e de direito, como o nosso, “revoluções” nem deveriam existir. Para começar, vamos abrir um (grande) parêntese para explicar o que é democracia (sim, infelizmente muita gente não sabe) e acabar com esta ideia de que “no Brasil não existe democracia”.

Bem, ao contrário do que muita gente pensa, democracia não é o “faça o que tu queres pois é tudo da lei”. Democracia não é a concordância plena, mas sim a maneira mais inteligente de gerenciar a discordância.

Na democracia, não é porque você acha que algo é certo, que você terá o direito de fazê-lo. Você pode até fazer, desde que não “incomode” mais ninguém (são as famosas “liberdades individuais”, um dos pilares da democracia). Um exemplo: você pode ser um naturista e gostar de andar nu, porém, como isto agride e ofende a maioria das pessoas, você não pode andar nu por aí.

O britânico Stephen Gough, de 53 anos, é conhecido como “o andarilho nu”. Ele acredita que a nudez é um direito fundamental e insiste em andar pelo país sem roupas. Como a maioria do povo britânico discorda desse “direito”, Stephen já passou mais de seis anos preso por “perturbar a paz”. | Créditos: BBC Brasil.

Dentro de uma democracia, o poder provém do povo (do grego demos = povo), seja diretamente (através de plebiscitos, referendos, audiências públicas, etc.), seja indiretamente, através de representantes eleitos pelo povo (vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidente).

A existência de liberdade de imprensa e expressão também é outro pilar básico da democracia. Aqui existe também muita confusão. Liberdade de expressão quer dizer que você pode dizer o que quiser sobre qualquer pessoa. Mas também quer dizer que você deve ser responsável por aquilo que fala, tanto que, não existe opinião “anônima”, já que, quem se sentir ofendido por algo que alguém falou, tem todo o direito de procurar a justiça e a pessoa que emitiu a opinião pode, se a justiça entender que deve, ser punida. Da mesma forma, não é porque existe liberdade de expressão, que ela possa ser exercida em qualquer lugar. Outro exemplo prático: o dono desta revista eletrônica pode deletar alguns comentários que ele julga inadequado. Ele não está sendo “antidemocrático” ou cerceando o seu direito de livre expressão. No caso, a revista é dele, é um espaço privado. Se você discordar da atitude dele em deletar seu comentário, você tem todo o direito de criar você mesmo um blog ou uma página, e postar a sua opinião.

Além destes pilares, alguns outros são: um judiciário autônomo, a igualdade entre as pessoas (todos são iguais perante a lei), liberdade para constituição de organizações sindicais e políticas (partidos), etc.

Bem, trazendo isto para a realidade do Brasil, podemos garantir que no Brasil existe sim democracia. Aqui existe liberdade de imprensa e expressão, existe garantia às liberdades individuais, o povo escolhe seus representantes de forma igualitária, existe liberdade para a constituição de organizações políticas e temos um judiciário independente (a condenação dos réus do Mensalão mostra isto). É claro que alguns ajustes necessitam ser feitos, até porque, nossa constituição é uma das mais recentes (1988) e somos uma das democracias mais novas do mundo (menos de 30 anos). Mas não dá para dizer que no Brasil existe uma “falsa democracia” ou que ela não exista.

Aí existe outro porém: se o povo prefere abdicar de fazer suas escolhas de uma forma racional, votando por critérios subjetivos como simpatia ou antipatia, ou por interesses pessoais (cestas básicas, cargos, etc.), o problema é do povo, e não do sistema. Como diria a música Freewill (livre arbítrio), do grupo canadense Rush: se você escolher não se decidir, ainda assim terá sido uma escolha.

Os bancos são os maiores alvos dos Black Blocs.

Num Estado onde existe democracia e o povo faz suas escolhas, não existe espaço para “revoluções”, já que a situação deste Estado é feita pela escolha da maioria das pessoas que o compõe. Se o intuito dos Black blocs nestas manifestações onde existe violência é chamar a atenção do público para fatos errados no sistema, e fazer, desta forma, o povo analisar e escolher melhor, ou se então a intenção é reivindicar garantias de direitos individuais, mesmo os atos mais violentos têm legitimidade (e desde que eles assumam os riscos e consequências destes atos).

Porém, se a intenção deles é impor algum desejo, ideologia ou valores, que são apenas de uma minoria, para toda a população, aí até o protesto em si, mesmo sem violência, perde sua legitimidade.

Aliás, a diferença entre o revolucionário e o golpista é apenas de perspectiva: se vai de encontro aos seus ideais, você enxerga como revolução, se vai contra, como golpe. Mas em ambos os casos, sempre existe, no fundo de um revolucionário/golpista, a sementinha do mal do totalitarismo, esperando o momento propício de germinar.

Agora resta aos Black Blocs virem à público explicar qual o sentido, o objetivo das manifestações.

Isto se eles mesmos souberem.

Be happy! 🙂