Arquivo da categoria: Ruivopedia

Der Fisch – Lothar Streblow – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 15 de Julho de 2014. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Numa das aulas de alemão aqui em Berlim tive a grata surpresa de ouvir Der Fisch (O Peixe), uma ficção cientifica no melhor estilo distópico. Criada em 1972 (portanto, em plena Guerra Fria) por Lothar Streblow e produzida pela rádio Bremen, Der Fisch ganhou o prêmio de “Melhor Estória Radiofônica” daquele ano, concedido pelo consórcio das empresas radiofônicas da Alemanha (ARD). Infelizmente, não encontrei uma versão com legendas ou mesmo a transcrição da história. Porém, para quem entende um pouco de alemão, ela pode ser encontrada aqui.

A história é basicamente o diálogo (na verdade, uma sessão de interrogatório) entre um representante do Estado (der Vertreter der Behörde) e um cidadão (que veremos ser, na verdade, um réu – der Geladener) que afirma ter visto um peixe. O problema é que, em 2092 (período em que a trama acontece), as pessoas vivem dentro de redomas de vidro e não existe vida fora desta.

Outro “personagem” importante da obra é um computador (o “sistema”) que guia o representante do Estado e é suprido por ele com informações obtidas do cidadão.

Durante o diálogo, o representante tenta convencer o cidadão de que ele não viu o peixe, afinal isto seria impossível. Portanto, deve ter ocorrido uma simples ilusão de ótica, uma alucinação ou algo do tipo. O cidadão, por sua vez, não esconde a euforia: diante da possibilidade da existência do peixe fora da redoma, a probabilidade de existência humana também é grande.

O cidadão se incomoda muito pela forma com a qual o representante do Estado ignora a possibilidade da existência do peixe, até o momento em que o representante, ao ver que não conseguiria convencer o cidadão, expõe toda a verdade: o Estado (o computador – der Computer) e seus agentes sabem da existência de vida fora da redoma. Entretanto, a vida dos cidadãos é bem melhor na forma como está: confinados dentro da redoma e sem saber o que se passa fora dela.

Neste momento, o representante revela que aquilo não se tratava de um interrogatório, mas sim de um julgamento, onde a negação da vida fora da redoma (consequentemente a aceitação da “verdade” que o sistema impunha ao cidadão) seria motivo para absolvição e a convicção da verdade (da existência do peixe) foi o real motivo para condenação.

No final da estória o cidadão é condenado à reciclagem, ou seja, à morte.

Além da metáfora evidente do sistema vigente nos países do bloco comunista à época (e de sistemas atuais, como o de Cuba, Coréia do Norte e ainda a China), foi interessante notar a similaridade com 1984, além da semelhança dessas duas com a trilogia Matrix.

Quando meu alemão estiver melhor tentarei fazer uma transcrição e uma tradução do texto para vocês.

Be happy! 🙂

O MMA e a Síndrome de Cachorro Vira-Latas – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 09 de Janeiro de 2014. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.



No livro “O Guia politicamente incorreto da história do Brasil”, o primeiro da interessante série “Guia Politicamente Incorreto”, o autor, Leandro Narloch, nos presenteia com um trecho espetacular para definir o comportamento do Brasil enquanto nação e, consequentemente, o comportamento individual dos brasileiros:

“Se pudéssemos fazer uma terapia de grupo entre países, surgiriam comportamentos reveladores durante as sessões. Haveria aquele país que mal notaria a existência dos outros, como a França, talvez os Estados Unidos. A Alemanha se seguraria calada, sofrendo de culpa, desconfortável consigo e com os colegas ao redor. Uma quarentona insone, em crise por não ser tão rica e atraente quanto no passado, representaria muito bem a Argentina. Claro que haveria também países menos problemáticos, como o Chile ou a Suíça, contentes com a sua pouca relevância. Não seria o caso do Brasil, paciente que sofreria de diversos males psicológicos. Bipolar, oscilaria entre considerações muito negativas e muito positivas sobre si próprio. Obcecado com sua identidade, em todas as sessões aborreceria os colegas perguntando ‘Quem sou eu?’, ‘Que imagem eu devo passar?’, ‘O que me diferencia de vocês?’”

Esta busca do brasileiro por uma identidade é a causa do que o dramaturgo Nelson Rodrigues chamou de “Complexo de vira-latas”: o brasileiro sempre se coloca em uma posição inferior, quando comparado à outros povos e países. De tempos em tempos, esta síndrome é aplacada por algumas (ou algum período) de vitórias ou destaques, especialmente no campo esportivo.

Nelson Rodrigues, que criou o termo “Complexo de vira-latas”, logo após a derrota do Brasil na Copa de 1950.

Por exemplo, quando ouço falar que o brasileiro ama futebol, ou que o Brasil é o país do futebol, eu refuto esta ideia: o brasileiro não ama futebol, ele ama ganhar no Futebol para assim se sentir “o melhor” em alguma coisa. Esta necessidade não está relacionada somente ao futebol. O tricampeonato mundial obtido na Copa do Mundo de 1970 foi o ápice do domínio brasileiro neste esporte, porém se seguiu de um período de hiato, que teve seu vale em 1982, onde mesmo com um time muito bom, o Brasil não ganhou a Copa do Mundo daquele ano. Seguiu-se este hiato até 1994, onde o Brasil voltaria, depois de longos 24 anos, a ganhar uma Copa.

Durante este hiato, como o futebol não obteria os resultados esperados (para o Brasileiro não basta jogar bem, se não ganhar, não valeu de nada), outros esportes onde o Brasil (como time) ou brasileiros (individualmente) teriam destaques expressivos tiveram momentos importantes: o automobilismo, através das vitórias e títulos obtidos nas décadas de 70 e 80, o Vôlei entre as décadas de 80 e os anos 2000, um curto período de destaque no Basquete por conta da vitória sobre os EUA, na casa deles, no Pan-Americano de 1987, destaques na natação e no judô, por conta de resultados obtidos nas olimpíadas de 88, 92 e 96. Tivemos até pequenos booms de esportes mais elitizados, como o Tênis (devido às vitórias do Guga), Iatismo (irmãos Grael e Robert Scheidt) e até mesmo hipismo (vitórias do Doda).

Todas estas vitórias serviram para aplacar um pouco esta síndrome, já que, mesmo no caso de esportes individuais e que não recebem incentivos do Estado, o Brasileiro “toma para si” aquela vitória. As vitórias do Senna eram “vitórias do Brasil”, mesmo em um esporte individual e que depende, em grande parte, de um equipamento (mesmo que não tenhamos nenhuma equipe na Fórmula 1, nem mesmo uma montadora de origem brasileira, as vitórias “eram do Brasil”). O mesmo aconteceu com o Guga no Tênis: as vitórias não eram vitórias do Guga, eram vitórias do Brasil, mesmo ele não tendo tido apoio, exceto do seu treinador e de pessoas mais próximas, durante sua formação como atleta.

Da mesma forma que o brasileiro se apropria das vitórias, ele se exime nas derrotas, querendo encontrar uma desculpa, de forma a não admitir que alguém se tornou melhor naquele esporte. O próprio Guga já foi execrado pela torcida que comemorou suas vitórias. O Felipe Massa, passou de herói nacional a um “bosta” em 15 segundos em 2008. A França só ganhou em 1998 porque o Brasil entregou o jogo, por conta de uma teoria da conspiração que nem os autores de Arquivo X teriam bolado.

Gustavo Kuerten, um dos muitos esportistas brasileiros que tiveram “apropriação indevida” de suas vitórias, para logo em seguida serem execrados pelos antigos “fãs”.

Falei tudo isto como uma introdução para a “bola da vez” em aplacar a Síndrome de Vira-Latas do brasileiro: o MMA. Apesar de não ser praticante de nenhuma arte marcial (até treinei um pouco de Muay thai, há uns 15 anos atrás), sou fã da modalidade desde que ela se chamava “Vale-tudo” e tínhamos que alugar fitas na locadora para assistir aos primeiros UFCs ou sintonizar na Band (épocas pré TV à cabo) para assistir aos eventos do IVC ou WVC, no Maksoud Plaza. Sou até uma das poucas testemunhas do primeiro UFC Brazil, ocorrido em 1998, no Ginásio da Portuguesa, em São Paulo, evento que não estava lotado, apesar do custo de inimagináveis (para o UFC atual) R$ 20,00 do ingresso da arquibancada.

É impressionante para quem, como eu, acompanhou os primeiros passos de um novo esporte e/ou modalidade, ver como ele se desenvolveu em cerca de 20 anos (especialmente por concordar com o idealizador desta revista, quando diz que o MMA está chato). Além do tino comercial do Dana White, alguns outros fatores contribuiram em muito para a disseminação do esporte. No Brasil, alguns deles foram a popularização da TV a Cabo, a disseminação do uso da Internet e um aumento considerável na renda do brasileiro, durante estes vinte anos, que possibilitou que pessoas que não tinham acesso a academias e clubes pudessem passar a frequentá-los, e assim ter contato com outras modalidades de esporte que não as fomentadas nas escolas (Futebol, Basquete, Vôlei e Handball).

Mesmo assim, isto ainda seria pouco para o boom que ocorreu no Brasil, o que levou até o maior grupo de TV aberta do país a adquirir os direitos de transmissão e a fazer inserções de reportagens e chamadas para o evento nos seus horários nobres.

E novamente a explicação para tal boom vem da Síndrome de Vira-latas: com o futebol em baixa (não ganhamos um título mundial desde 2002) e o automobilismo brasileiro em vias de terminar (a Fórmula 1, assim como outras modalidades, como a Stock Car, que foram a válvula de escape durante o hiato do futebol das décadas de 70 e 80 estão em franca decadência), o brasileiro voltou suas atenções para um esporte onde existem chances reais de verem brasileiros ganhando.

Porém, novamente voltamos aos mesmos problemas: a apropriação indevida das vitórias por parte do povo (claramente incentivada pelos “novos” narradores desta fase do MMA) e a omissão, quando não crítica pura e ilógica, quando da derrota.

Até início deste ano, o Anderson Silva estava quase chegando ao nível de um “novo Senna” como ídolo dos brasileiros. Bastou uma derrota (justíssima, aliás), para um adversário que esteve melhor na luta, e não caiu no jogo psicológico do Spider, para nascerem as críticas ao modo dele lutar (para quem não sabe, ele sempre lutou com a guarda baixa, tentando desestabilizar emocionalmente o adversário) e até mesmo as teorias conspiratórias (“ele entregou a luta, pois ganharia mais numa eventual revanche”).

O pior são aqueles que, se aproveitando de uma infelicidade, um “acidente de trabalho”, que foi a fratura do mesmo nesta segunda luta contra o Weidman (que pra mim venceria a luta de qualquer jeito), já o “aposentaram” e criaram teorias de que ele já não estava bem na luta anterior ou ainda pregarem à favor da proibição do esporte.

Seria tão melhor para o país como um todo se cada um usasse suas frustrações como combustível para conseguir o sucesso individual. Ou ao menos minimizar os fracassos e complexidades individuais, ao invés de projetar isto em esportistas, até porque, como diria o mesmo Nelson Rodrigues acerca do futebol, e que poderia se estender à outros esportes: “das coisas menos importantes, o futebol é a mais importante”.

Be happy! 🙂

Tempo Perdido – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 23 de Dezembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


No meu primeiro artigo na Feedback Magazine, tentei mostrar, sobre o ponto de vista econômico, a importância de programas sociais de inclusão das camadas mais pobres da população no chamado mercado de consumo. Um ponto que eu não citei no artigo é que, assim como o programa de microcrédito na Índia, que permitiu que a economia nas camadas mais baixas fosse “turbinada” até que o país realizasse os investimentos de longo prazo necessários, o Bolsa Família deveria ser uma solução emergencial e temporária, pelos motivos já citados no artigo anterior.

Para que o Brasil se torne uma nação capaz de se desenvolver de maneira sustentável e de longo prazo, a ponto de não depender tanto de programas sociais do tipo e de uma maneira que não fique tão vulnerável à crises internacionais, entre tantos problemas a serem solucionados, existem dois que são os mais urgentes: infraestrutura e educação.

O problema da infraestrutura, mesmo à passos de tartaruga, está sendo tratado no Brasil e, de uma forma ou de outra, também pode ser contornado no curto prazo.

É no segundo, a educação, que mora um dos calcanhares de aquiles do Brasil. Não quero entrar no velho discurso de que uma nação sem educação escolhe mal seus líderes, porque isto é uma meia verdade, já que existem nações com qualidade educacional bem superior a nossa e que também escolhem mal seus líderes (está aí a Itália, ou mesmo a Argentina, para não me deixar mentir); porém, quero me ater à como isto afeta o desenvolvimento do país.

Nas últimas duas décadas, o governo brasileiro se “esforçou” para implementar programas para incentivar a educação superior e técnica, como o FIES e o ProUNI, além de ter aumentado o número de vagas em universidades públicas e escolas técnicas. Devido a estes esforços, tivemos um aumento considerável no número de cidadãos possuidores de diploma de nível superior. O que deveria ser comemorado pela sociedade acabou virando mais um motivo de preocupação, já que este aumento de pessoas com ensino superior foi somente numérico, e não refletiu no aumento da capacidade intelectual e de agregação de valor à produção, que é o que gera riqueza para as nações.

Quando uma empresa, ou mesmo o governo (o principal motivo do atraso das obras de infraestrutura do PAC é a falta de gente capacitada a gerenciar os projetos), tenta contratar algum profissional para exercer um trabalho que exige qualificação, apesar de encontrar no mercado vários candidatos que, por possuirem diploma de nível superior, teoricamente estariam aptos a realizar este trabalho, esbarram na falta de preparo em algumas áreas que deveriam ser pré-requisitos para o acesso à universidade.

São candidatos que não conseguem compreender um texto simples e, da mesma maneira, não conseguem se comunicar de maneira clara e concisa. Também faltam à estes candidatos capacidade de raciocínio lógico e analítico.

Isto gera um efeito negativo na economia, pois uma empresa, ao analisar vários mercados, afim de expandir (ou mesmo manter) suas atividades, vai levar em conta a disponibilidade de mão de obra capacitada para exercer as tarefas necessárias àquela empresa, entre outros fatores (e na maioria deles, como impostos, burocracia e infraestrutura, o Brasil também perde). Ou seja, bens que poderiam ser produzidos aqui, que agregariam valor às matérias primas extraídas aqui (o que seria uma vantagem), podem estar sendo produzidos em outros países (muitas vezes com matéria prima brasileira), por conta da falta de pessoal capacitado.

Eu sei fazer o serviço, só não sei ler e escrever direito.

Eu mesmo já passei pela experiência, na empresa onde trabalho, de precisar encontrar profissionais para aumentar a equipe, não conseguir encontrar no Brasil e ter que utilizar profissionais de outros países para executar o trabalho (na área de TI, como na maioria dos negócios relacionados à serviços, é ainda mais fácil mover um posto de trabalho de um país para o outro).

Apesar da aparente preocupação dos últimos governos com o ensino, esta preocupação se refere mais aos números que são mostrados à sociedade do que com a qualidade do ensino em si, e com isto criam mecanismos que fazem com que o número de analfabetos diminua, o numero de universitários aumente, a evasão escolar seja reduzida, mas mesmo assim (e apesar destes mecanismos), nossa classificação em testes internacionais de ensino básico e médio só tem piorado, a quantidade de artigos acadêmicos publicados em revistas internacionais não acompanhou o aumento do número de estudantes (e a citação destes artigos diminuiu) e chegamos ao cúmulo de não termos nenhuma universidade entre as 200 melhores do mundo. (Duzentas!!!)

Além da doutrinação (ideológica, política e até religiosa) que ocorre, ao menos nas escolas públicas, o que faz com que os estudantes sejam meros papagaios repetidores, sem a mínima capacidade de fazer uma análise racional e formar seus próprios conceitos, o Estado concentra muitos esforços no ensino superior, deixando a educação básica em segundo plano. É como querer construir uma casa pelo teto, ao invés de levantar fundações, colunas, paredes e, aí sim, construir o telhado. Esquecem-se que a educação básica, que serviria de base para desenvolver aquelas características já citadas (compreensão de textos, capacidade de comunicação, raciocínio lógico, analítico e matemática), além de desenvolver nas pessoas a sede do conhecimento, é a que cria as bases para que o ensino superior seja de qualidade e melhor aproveitado. Mas infelizmente, ao invés disto, prefere-se criar fábricas de diplomas (em todos os níveis).

Segundo o professor James Heckman, para cada dólar investido em educação infantil (creche e pré-escola), têm-se um retorno de nove dólares para a sociedade (leia aqui uma ótima entrevista com o professor James Heckman), portanto, a educação não é só um ato político, como pregava Paulo Freire, mas também um ato social e econômico.

E desde o primeiro governo FHC, já se vão quase 20 anos, ou seja, as crianças que entraram na escola àquela época já poderiam estar formadas, muitas delas produzindo conhecimento, se o investimento na base tivesse sido feito àquela época. E o pior é que, como nenhum dos governos subsequentes também se preocupou com isto, se começassemos este tipo de investimento agora, ainda teríamos que aguardar mais 20 anos para iniciar a colher os frutos.

Nossos governos ainda insistem em continuar “jogando para a torcida”. E sinceramente não vejo perspectiva de mudança..

Be happy! 🙂

O Futebol e o Mensalão – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 11 de Dezembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


 

Uma das coisas que mais me incomodam no comportamento do brasileiro, no que se refere à política, é esta mania de tratar de política como se trata de futebol. A pessoa escolhe um partido e/ou ideologia política para “torcer”, não faz muita questão de entender a teoria ideológica (aliás, os próprios partidos abandonaram a ideologia, pois não faz muita diferença mesmo), defendem seus partidos (ou atacam os outros) como se estivessem num campeonato, não questionam atos suspeitos dos membros importantes do seu “time” e o pior, mesmo com uma mudança na linha ideológica ou de discurso, parece que ficam com vergonha de “mudar de time”, de ser um “vira casaca” e continuam agarrados àquela escolha inicial, mesmo que ela não mais represente os seus ideais.

Isto sempre existiu no Brasil (aliás, em alguns outros países também, inclusive de primeiro mundo), porém, a coisa tomou uma proporção gigantesca com o advento da Internet e das redes sociais.

Vejamos todo o burburinho sobre a prisão dos condenados do caso chamado “Mensalão”.

À despeito das atitudes midiáticas e arbitrárias do ministro Joaquim Barbosa que, na minha opnião, não fazem bem para a instituição (judiciário), os réus do mensalão estão onde deveriam estar. Porém, seus simpatizantes e correligionários ainda continuam inventando desculpas (ou perpetuando mentiras a fim de que elas virem verdade). Vamos abordar algumas delas:

“Eles são inocentes” / “São presos políticos” / “Não existem provas” – lembro-me muito bem quando do estouro do escândalo (até porque fui um dos que se decepcionaram com o PT), a primeira coisa que os acusados fizeram foi dizer que “não era para compra de voto, era distribuição de caixa 2 de campanha”, ou seja, não alegaram inocência, apenas quiseram “trocar o crime” por um que teria pena mais branda e que, segundo as palavras deles mesmos, “todo mundo faz” (Mas não era o PT que iria fazer diferente?). Durante o processo, existiram provas materiais, testemunhais e circunstanciais que levaram à condenação. Apesar de quererem atrelar a decisão a uma só pessoa (o ministro Joaquim Barbosa), já que é mais fácil desqualificar uma pessoa do que várias, os réus foram julgados por um colegiado (cuja maioria foi indicada durante as gestões do PT!), tiveram ampla possibilidade de defesa num processo em que a própria defesa não procurou a absolvição (que seria muito difícil de provar), mas sim tentou desqualificar algumas acusações (como a de formação de quadrilha), para que pudessem ser aplicadas penas alternativas e mais brandas. Não são presos políticos, são políticos presos e ponto final.

“Os réus do mensalão mineiro ainda estão soltos” – bem, aqui podemos dizer que eles deram o “azar” de estarem no meio de um processo que envolvia autoridades que são julgadas por crimes comuns no STF (no caso os deputados federais João Paulo Cunha, Pedro Henry e Valdemar Costa Neto – posteriormente José Genoíno, que entrou como suplente em 2013) e acabaram sendo “arrastados” para a instância maior, antes de passarem pelas instâncias menores, o que iria fazer com que o processo se arrastasse durante vários anos, podendo inclusive existir prescrição de crimes. Porém, ao invés de reclamarem que o processo correu rápido demais, deveriam era exigir a mesma velocidade para os outros casos.

“Eles têm uma história” – sim, tanto o PT quanto o Genoíno, o Dirceu e o finado Gushiken têm uma bela história de luta pela democracia (assim como o Fernando Henrique, o Covas, o Serra, entre outros), porém, boas ações passadas não são passaporte para cometerem erros futuros e no máximo servem de atenuante para abrandar penas. E se alguém desconsiderou e não respeitou a própria história, foram eles mesmos.

De um outro lado, chega a ser deprimente ver os “anti-petistas” comemorando a condenação e prisão dos mensaleiros enquanto membros dos seus partidos estão envolvidos em escândalos que superam (em valores, engenharia, envolvidos, etc.), em muito, o mensalão do PT.

Só para citar os dois últimos casos recentes, as cifras envolvidas no escândalo de corrupção do Metrô do estado de SP e no caso dos fiscais do ISS da Prefeitura de São Paulo, fazem os mensaleiros petistas parecerem garotos que furtaram chicletes no supermercado (não que o montante desviado seja agravante ou atenuante, quem rouba um chiclete ou rouba 1 milhão comete o mesmo crime). E é difícil imaginar que o governador Geraldo Alckmin, que gosta de ter todos os detalhes das principais obras ao seu alcance, por conta de seu perfil centralizador, ou o senhor Gilberto Kassab, cuja família “coincidentemente” opera no ramo dos negócios imobiliários, não estivessem ao menos cientes da existência dos esquemas que desviaram cerca de 1 bilhão de reais dos cofres públicos.

No meu mundo ideal, neste momento, quem estaria comemorando a cassação dos mensaleiros seriam os próprios petistas, enquanto os simpatizantes dos demais partidos estariam envergonhados e cobrando da Justiça a investigação dos membros dos seus próprios partidos envolvidos em esquemas de corrupção, fosse para provar uma possível inocência deles, fosse para fazer uma limpa no seu partido e assim, uma limpa na política em geral.

Mas como aqui “o bom é ganhar”, mesmo que seja roubado, continua cada um fiscalizando a limpeza do rabo do outro, enquanto o próprio está sujo, esquecendo-se que, se cada um cuidar do seu, todos estarão limpos.

Be happy! 🙂

Os Black Blocs e a Democracia – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 25 de Novembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Muito tem se discutido, desde as manifestações de Junho, sobre a legitimidade de atos de protestos que utilizam de violência, seja contra pessoas (a hostilização de repórteres e membros de partidos em Junho também foi uma forma de violência, do mesmo nível da causada pela PM aos manifestantes e repórteres), seja contra patrimônio público ou privado. Os atos de “vandalismo” ganharam o nome e o “rosto” (encoberto) dos Black Blocs.

Historicamente, percebemos que “revolução” pacífica não gera efeito, aliás, nem é revolução. Porém, num estado democrático de fato e de direito, como o nosso, “revoluções” nem deveriam existir. Para começar, vamos abrir um (grande) parêntese para explicar o que é democracia (sim, infelizmente muita gente não sabe) e acabar com esta ideia de que “no Brasil não existe democracia”.

Bem, ao contrário do que muita gente pensa, democracia não é o “faça o que tu queres pois é tudo da lei”. Democracia não é a concordância plena, mas sim a maneira mais inteligente de gerenciar a discordância.

Na democracia, não é porque você acha que algo é certo, que você terá o direito de fazê-lo. Você pode até fazer, desde que não “incomode” mais ninguém (são as famosas “liberdades individuais”, um dos pilares da democracia). Um exemplo: você pode ser um naturista e gostar de andar nu, porém, como isto agride e ofende a maioria das pessoas, você não pode andar nu por aí.

O britânico Stephen Gough, de 53 anos, é conhecido como “o andarilho nu”. Ele acredita que a nudez é um direito fundamental e insiste em andar pelo país sem roupas. Como a maioria do povo britânico discorda desse “direito”, Stephen já passou mais de seis anos preso por “perturbar a paz”. | Créditos: BBC Brasil.

Dentro de uma democracia, o poder provém do povo (do grego demos = povo), seja diretamente (através de plebiscitos, referendos, audiências públicas, etc.), seja indiretamente, através de representantes eleitos pelo povo (vereadores, prefeitos, deputados, senadores, governadores e presidente).

A existência de liberdade de imprensa e expressão também é outro pilar básico da democracia. Aqui existe também muita confusão. Liberdade de expressão quer dizer que você pode dizer o que quiser sobre qualquer pessoa. Mas também quer dizer que você deve ser responsável por aquilo que fala, tanto que, não existe opinião “anônima”, já que, quem se sentir ofendido por algo que alguém falou, tem todo o direito de procurar a justiça e a pessoa que emitiu a opinião pode, se a justiça entender que deve, ser punida. Da mesma forma, não é porque existe liberdade de expressão, que ela possa ser exercida em qualquer lugar. Outro exemplo prático: o dono desta revista eletrônica pode deletar alguns comentários que ele julga inadequado. Ele não está sendo “antidemocrático” ou cerceando o seu direito de livre expressão. No caso, a revista é dele, é um espaço privado. Se você discordar da atitude dele em deletar seu comentário, você tem todo o direito de criar você mesmo um blog ou uma página, e postar a sua opinião.

Além destes pilares, alguns outros são: um judiciário autônomo, a igualdade entre as pessoas (todos são iguais perante a lei), liberdade para constituição de organizações sindicais e políticas (partidos), etc.

Bem, trazendo isto para a realidade do Brasil, podemos garantir que no Brasil existe sim democracia. Aqui existe liberdade de imprensa e expressão, existe garantia às liberdades individuais, o povo escolhe seus representantes de forma igualitária, existe liberdade para a constituição de organizações políticas e temos um judiciário independente (a condenação dos réus do Mensalão mostra isto). É claro que alguns ajustes necessitam ser feitos, até porque, nossa constituição é uma das mais recentes (1988) e somos uma das democracias mais novas do mundo (menos de 30 anos). Mas não dá para dizer que no Brasil existe uma “falsa democracia” ou que ela não exista.

Aí existe outro porém: se o povo prefere abdicar de fazer suas escolhas de uma forma racional, votando por critérios subjetivos como simpatia ou antipatia, ou por interesses pessoais (cestas básicas, cargos, etc.), o problema é do povo, e não do sistema. Como diria a música Freewill (livre arbítrio), do grupo canadense Rush: se você escolher não se decidir, ainda assim terá sido uma escolha.

Os bancos são os maiores alvos dos Black Blocs.

Num Estado onde existe democracia e o povo faz suas escolhas, não existe espaço para “revoluções”, já que a situação deste Estado é feita pela escolha da maioria das pessoas que o compõe. Se o intuito dos Black blocs nestas manifestações onde existe violência é chamar a atenção do público para fatos errados no sistema, e fazer, desta forma, o povo analisar e escolher melhor, ou se então a intenção é reivindicar garantias de direitos individuais, mesmo os atos mais violentos têm legitimidade (e desde que eles assumam os riscos e consequências destes atos).

Porém, se a intenção deles é impor algum desejo, ideologia ou valores, que são apenas de uma minoria, para toda a população, aí até o protesto em si, mesmo sem violência, perde sua legitimidade.

Aliás, a diferença entre o revolucionário e o golpista é apenas de perspectiva: se vai de encontro aos seus ideais, você enxerga como revolução, se vai contra, como golpe. Mas em ambos os casos, sempre existe, no fundo de um revolucionário/golpista, a sementinha do mal do totalitarismo, esperando o momento propício de germinar.

Agora resta aos Black Blocs virem à público explicar qual o sentido, o objetivo das manifestações.

Isto se eles mesmos souberem.

Be happy! 🙂

Sobre ostentação, Maslow e a Vida Alheia – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 19 de Novembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


 

A sensação dos últimos dias na internet foi o vídeo, produzido pela revista Veja SP, sobre o tal “Rei do Camarote”. À despeito de tudo ser tão surreal e caricato que para mim parece um viral (e uma bela barrigada da Veja), algumas coisas me chamaram a atenção.

Antes de tudo, eu sou da opinião que as pessoas podem fazer o que acharem melhor para sua vida, desde que não prejudiquem outras pessoas. Neste caso, o dinheiro é do cara, desde que ele tenha ganho honestamente, ele faz com o dinheiro dele o que ele quiser. Ninguém tem nada a ver com isto. Se ele quer encher o camarote dele de Marias “Veuve Cliquot” e ser encoxado por um humorista (dos ruins!), o problema é só dele e das pessoas que o acompanham.

Mas a primeira coisa que me chamou a atenção foram os dois pesos e duas medidas de algumas pessoas ao fazerem julgamentos. Já começaram errado por fazerem julgamento, mas já que o fizeram, que ao menos usassem de imparcialidade e tivessem coerência. O que o Alexander gasta num ano, o Ronaldo Fenômeno, por exemplo, deve ter gasto em apenas uma das suas festas de casamento. E não é exclusividade dele. Jogadores de futebol e artistas da música e da TV adoram exibir suas conquistas. E quase não se vê críticas quando isto acontece.

Recentemente surgiram os tais “funkeiros ostentadores”, que ao emplacarem seus sucessos têm conseguido uma quantidade boa de shows, o que os proporciona manter um padrão de vida do mesmo nível do tal do Alexander, e com atitudes parecidas com as dele. Mas ao invés de receberem as mesmas críticas pela ostentação (vamos esquecer a questão musical), acontece o contrário, existiram até programas de TV e blogueiros analisando como um fenômeno sociológico a tal “ostentação”.

A incoerência acontece quando as pessoas que sempre exaltaram um jogador de futebol ou um artista, por ter saído de uma “condição humilde” e ter se superado na vida, julgam uma pessoa que, aparentemente (ninguém sabe a história do cara), teve algumas chances a mais, usando outro peso. Quando diz que é empresário então, já taxam de explorador, corrupto, etc. Isto é preconceito. Do mesmo tipo que dizer que favelado é tudo bandido, ou que gay é tudo promíscuo.

O ser humano gosta de se destacar no meio da multidão e exibir suas conquistas. Antigamente era o mais forte, o mais apto à caça, depois o que tinha mais posses, ou o que fazia parte da nobreza ou do clero. Natural que, no caso das pessoas que possuem mais dinheiro, este seja o meio de exibir. É só ler um pouco de Maslow que facilmente se percebe que isto não é apenas um comportamento de um “rico babaca”.

Pirâmide das necessidades do ser humano de Abraham Maslow. | Créditos: gestaonossadecadadia.com.br

O segundo ponto que me chama a atenção é a relação que o Brasileiro, assim como os demais povos de origem latina, têm com o dinheiro. Vamos primeiro tentar explicar o que é o dinheiro.

Dinheiro é apenas um meio de troca. Antigamente, quando as pessoas trabalhavam no campo e em atividades extrativistas, o excedente conseguido era trocado com vizinhos por outros produtos de seu interesse. Para facilitar a troca, já que muitos destes produtos eram perecíveis e/ou tinham um volume e/ou peso muito grande para ser carregado de um lado para o outro, as pessoas inventaram meios de facilitar esta troca. Um dos meios mais conhecidos foi o utilizado durante o Império Romano, onde os soldados recebiam do Império sal como pagamento por seus serviços, e utilizavam este sal para adquirir outros produtos de seu interesse. Daí vêm as palavras “salário” (de sal) e “soldo” (de soldado) para designar pagamento por trabalho.

Atualmente, onde as ideias, conexões e influência (E por que não sorte?) geram mais valores do que o trabalho braçal (que pode ser substituído por máquinas), faz mais sentido ainda ter um meio de troca.

Portanto, uma pessoa que tem muito dinheiro (partindo do princípio que ela ganhou honestamente), é apenas uma pessoa que conseguiu gerar muitos frutos do seu trabalho e, portanto, não deveria ter vergonha de tê-lo ou demonstrar tê-lo. Nos EUA, Canadá e em vários países europeus, as pessoas se orgulham de ganharem mais e não tentam esconder isto, pois é sinal que a pessoa gerou bastante riquezas à partir do seu trabalho.

Porém, e acredito muito que devido à influência da Igreja Católica (Dinheiro é pecado! Nos entregue que nós nos livramos dele para vocês!), nos países latinos, dinheiro é visto como algo sujo, vergonhoso, algo que as pessoas devem evitar. Se não for possível evitar de ganhá-lo, então “compartilhe” com as demais pessoas.

Como consequência, ouvimos frases do tipo: “com tanto dinheiro assim, ele tinha que distribuir”, “porque ao invés de gastar com baladas, não doa aos pobres”. Se você tem a caridade como princípio de vida e isto faz bem pra você, ótimo. Talvez ele não tenha, e não é demérito nenhum.

Erroneamente, sempre levam a questão para esse lado.

 

E aí caímos no terceiro ponto que me chamou a atenção. E este eu acho particularmente muito perigoso. Vi muitas pessoas dizendo “coitado, ele não é feliz”, “podia fazer tal coisa que iria ser melhor”, “não deve ter amigos”.

Quem disse que o que é bom para você tem que ser bom para todo mundo? Quem disse que “ter amigos verdadeiros” é bom para ele? Talvez ele prefira estes amigos de ocasião e seja feliz desta forma.

As pessoas têm que entender que cada pessoa é um indivíduo, que tem seus valores, princípios, ideologias. E repetindo: desde que não faça mal a mais ninguém, nenhum valor ou princípio é melhor do que o outro. São só diferentes e devem ser respeitados.

Só lembremos que muitas das desgraças que ocorreram na humanidade, tais como guerras, ditaduras, genocídios, entre outros, aconteceram quando um grupo decidiu que a sua ideologia política, a sua raça, o seu intelecto ou a sua religião eram melhores do que a das outras pessoas (mesmo que estas outras fossem maioria) e decidiram impô-los às estes demais. Ou então eliminar quem se opusesse.

Quanto à mim, a única coisa que achei foi graça. Tanto que li a matéria na internet e assisti o vídeo umas três vezes. Mas ao menos eu escolhi assistir ao vídeo, e não foi alguém, dentro de um transporte público coletivo, que resolveu me “presentear” com a exibição

Be happy! 🙂

É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 20 de Outubro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Tomei emprestada a frase do título da música “Por Quem os Sinos Dobram”, do mestre Raul Seixas, para falar de um assunto que dominou as redes sociais, os portais de notícias, os telejornais e outros meios nos últimos dias: o vídeo, filmado pela vítima, em que um assaltante é baleado após uma tentativa de roubo de uma motocicleta.

O assalto foi filmado por uma câmera no capacete da vítima.

Discordo da “socialização” da criminalidade, como muitos gostam de fazer, atribuindo todos os problemas de segurança pública à condição social. Particularmente, por ter crescido em um bairro da periferia de São Paulo, onde moro até hoje, entendo que não é a condição social, falta de oportunidades ou qualquer outro motivo do tipo que faz uma pessoa se tornar um criminoso. Estudei com várias pessoas que passavam privações de todos tipos e que não se tornaram bandidos, assim como conheço alguns que, à despeito de terem muitas oportunidades, resolveram se enveredar por este caminho.

Não sou psicólogo ou sociólogo para explicar quais os motivos que levam alguém a escolher uma vida destas, mas por conclusão creio que as pessoas são ou não más e, no máximo, a condição social ou algum estado de privação apenas contribui, não sendo o motivo principal, para alguém “escolher” este caminho. Tanto que se fosse apenas uma questão socioeconômica, não teríamos criminosos entre as classes mais abastadas e/ou em países onde estes problemas sociais são praticamente inexistentes.

Entendo que a ação do policial foi corretíssima, assim como acho que o ladrão assumiu o “risco do negócio” e todos que assumem riscos têm que arcar com as consequências. Simples assim.

Mas o que mais me chamou a atenção, especialmente nas redes sociais, é a hipocrisia das pessoas. Boa parte dos “cidadãos de bem” que engrossam o coro de “bandido bom é bandido morto” são pessoas que tem o hábito de adquirir produtos em locais onde, conhecidamente, a origem dos produtos é no mínimo suspeita. Alguns deles até se vangloriam de adquirir produtos “na boca” por preços bem abaixo dos praticados em lojas. Alguns deles também têm o hábito do uso de substâncias ilegais para “fins recreativos”.

Só existe “mercado” para este tipo de produto, que geram ações como a dos criminosos e reações como a do policial, porque existe demanda. Isto é puro princípio econômico.

Acho que falta à muitas pessoas assumirem que, ao comprar um produto fruto de roubo ou furto, de contrabando ou pirataria, e mesmo aquele que “apenas” fuma a sua maconha nos finais de semana, também puxa o gatilho, tanto do policial, quanto o do marginal.

Como diria o Capitão Nascimento: “É você, playboy, quem financia esta merda”.

Cena de Tropa de Elite, onde o icônico Capitão Nascimento dá lição de moral em um estudante viciado.

Be happy! 🙂

Eduardo e Marina: mais do mesmo – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 14 de Outubro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


 

Devido ao meu ceticismo, acompanhei de longe (porém, com otimismo!) as já tão comentadas manifestações de junho por todo o Brasil. Muitos meios de comunicação, sociólogos, cientistas políticos, entre tantos outros, tentavam entender o que estava acontecendo, ou seja, o que estava por traz dos 20 centavos.

Acabei apelidando o movimento de “Marcha dos Descontentes”. As pessoas que estavam ali compunham toda a diversidade do povo brasileiro, em credos, ideologias políticas, classes sociais, etc. Por tratar-se de uma massa tão heterogênea, não havia um ponto específico em comum que seria o desejo, porém, estava muito claro o que todas aquelas pessoas não queriam. Não queriam a continuidade do modelo político atual, que apesar de ser democrático, permite que, com o devido conhecimento do processo, determinados grupos se perpetuem no poder, mesmo sendo estes grupos adversários ideológicos. Queriam também que os políticos brasileiros trabalhassem, como seria natural, em prol da população, e não em prol de interesse deles mesmos e de uma pequena minoria.

Usando como “amostra” amigos meus que participaram dos movimentos, notei esquerdistas radicais que se desiludiram com o movimento de centralização do PT (e também, por incrível que pareça, do PCdoB), esquerdistas moderados também desiludidos com o PT por conta do sepultamento do discurso da ética na política, sociais democratas descontentes com a movimentação rumo à direita do PSDB, direitistas descontentes com as alianças entre alguns de seus representantes (PP por exemplo) com o PT, entre tantos outros.

Marcha dos descontentes e não representados.

Notei uma grande semelhança desta massa com os quadros do movimento Rede Sustentabilidade, encabeçado pela Marina Silva, mas que conta com nomes como Walter Feldman (PSDB), Heloísa Helena (ex PT e PSOL) e Alfredo Sirkis (PV). Apesar de entender a opção da Rede de não se envolver diretamente como movimento, já que as manifestações estavam querendo se desvincular de partidos políticos (e até hostilizando membros de partidos), eu achei, na época, que seria uma boa oportunidade para ambos (a massa e o movimento Rede) afinarem discursos e criarem uma identidade político-ideológica (mesmo que isto gerasse divisões na hora do movimento virar partido, justamente por conta de ideologias totalmente distintas).

Também tenho acompanhado o movimento Rede Sustentabilidade desde o começo deste ano. A parte do manifesto da Rede que mais atraiu minha simpatia, foi a que trata do jogo político atual, ao qual à Rede se opunha, especialmente no que tange ao fisiologismo puro, ou seja, o abandono de sua ideologia em função apenas do poder. (Quem pensaria, há alguns anos atrás, em ver o PT se unindo a Paulo Maluf, por exemplo?)

Por ser um movimento novo, que ainda nem é um partido, e por ter uma identidade ainda em formação, como citado acima, não compreendia a pressa em se tornar partido e lançar candidatos na eleição do próximo ano, já que, como o próprio discurso diz, o movimento ia contra o “poder pelo poder”.

Qual não foi minha surpresa (e decepção) quando, no dia 02 de outubro, Marina Silva anunciou sua filiação ao PSB e a disposição de ser vice de Eduardo Campos, na próxima corrida presidencial, levando consigo a votação impressionante obtida na última eleição e seu bom desempenho nas pesquisas de intenção de voto para 2014.

À exemplo do que aconteceu com o PT, a Rede mostrou, mais uma vez, que o que move os partidos e os políticos (e aqui podemos generalizar, já que se trata da ampla maioria), ao invés de ideologias e um projeto de nação, é apenas o poder e projetos de poder. Infelizmente, acabo tendo que concordar com alguns estrangeiros que têm mais conhecimento do Brasil quando dizem que “o Brasil é o país do futuro. E sempre será!

Em tempo: o rompimento do PSB com o governo, a união deste com a Rede e a comemoração do fato pelo PSDB me lembrou muito o livro 1984. No clássico de George Orwell (imperdível, assim como A Revolução dos Bichos, outro clássico do autor), o mundo era dividido em três mega potências: a Eurásia, a Lestásia e a Oceania. Estas três potências alternavam entre si os aliados e inimigos: ora a Eurásia e a Lestásia se uniam em guerra contra a Oceania, no momento seguinte o inimigo comum da Oceania e da Lestásia virava a Eurásia, e assim sucessivamente, mantendo o mundo em um estado constante de guerra.

O inimigo a ser batido no momento é o PT e os demais se uniram para isto, mas não duvido nada que, num futuro próximo, PT e PSDB se unam em âmbito nacional (em níveis regionais já ocorreu) para derrotar o PSB e/ou a Rede, ou qualquer outro bloco que venha a surgir.

P.S.: O título deste texto me ocorreu devido à duas músicas da Legião Urbana: Eduardo e Mônica, do disco Dois, e Mais do Mesmo, do disco seguinte, Que País É Este? (pergunta que também poderia servir de título para este texto).

Be happy! 🙂

A Riqueza Na Base da Piramide e o Bolsa Familia – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 28 de Setembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Em 2005, um professor (já falecido) de Harvard, chamado CK Prahalad, lançou um livro chamado “A Riqueza na Base da Pirâmide”. A teoria dele basicamente diz que quanto mais a população pobre de determinado país (que são sempre a maioria da população) têm acesso ao mercado de consumo, mais isto gera riquezas para todos os extratos da sociedade e para a nação como um todo. Baseado nesta tese, ele diz que as empresas podem ajudar as pessoas em benefício próprio futuro. Um grande exemplo brasileiro, estudado por Prahalad, é o senhor Samuel Klein e suas Casas Bahia, que tem como público alvo as classes mais baixas.

Apesar de não citar explicitamente, a teoria dele faz contraponto à Mais-Valia descrita por Marx, já que, se as classes que controlam os meios de produção aumentarem a sua margem ao ponto de remover seus empregados do mercado de consumo, simplesmente irá extinguir este mercado de consumo.

Em 2009 estávamos discutindo as teorias de Prahalad em uma aula da minha pós-graduação e resolvi fazer a relação entre estas teorias e o principal programa social do governo Lula/Dilma, o Bolsa Família.

Assim como o PT demonizou as privatizações (E agora recorrem à ela!), a direita (a linha hoje é tão tênue que fica complicado utilizar conceito de direita e esquerda no Brasil) também tenta demonizar o principal programa do Lula.

O Bolsa Família é uma junção de várias bolsas (escola, gás, entre outras) que nasceram primeiramente no Distrito Federal, através do seu então governador Cristovam Buarque, em meados da década de 90. Depois foi levado ao âmbito nacional durante o primeiro governo de Fernando Henrique, através de uma proposta do senador Eduardo Suplicy.

Quando Lula se elegeu, ele unificou as bolsas em uma só e aumentou bastante a abrangência do programa.

O Bolsa Família tem três funções primordiais:

  1. Melhorar a distribuição de renda, diminuindo as diferenças;
  2. Combater a fome;
  3. Evitar o trabalho infantil e a evasão escolar.

O valor da bolsa é pensado de uma forma que supra as necessidades básicas de uma família, mas ao mesmo tempo não permita acomodação ou luxos. Ao contrário do que dizem, o valor não é “por cabeça” e existe a contrapartida das crianças estarem na escola (aí caímos no outro problema da educação básica, mas é assunto para outro texto).

O valor é em dinheiro, centralizado, através de um cartão benefício, por alguns motivos:

  • Problemas de logística: imaginem centralizar cestas básicas e ter que distribuir isto por um país com extensão continental igual ao Brasil;
  • Uso das “cestas” em troca de voto;
  • Desvio durante o processo;
  • E o principal: incentivo à economia local e consequentemente nacional.

Este último ponto é muito importante, pois a inserção dos beneficiários no mercado consumidor gira toda uma roda da economia que tem beneficiado até os tais “classe média” chorões.

Uma explicaçãozinha básica de como a “roda da economia” gira: uma certa região começa a receber o benefício do Bolsa Família. As pessoas do local passam a consumir mais. O “Seo Zé”, dono da vendinha, começa a vender mais, logo, terá que contratar mais funcionários, que por consequência, assim como o “Seo Zé”, também vão consumir. Gera renda e trabalho para o caminhoneiro, que terá mais produtos até a tal região. Gera renda nos postos de gasolina ao longo do caminho, nos restaurantes, etc.

Bem, este pessoal está consumindo todo tipo de produto, como alimentos, produtos de higiene e até alguns “supérfluos”, como computador, televisão, refrigerador, etc., incentiva a agricultura, incentiva as fábricas. A empresa em que eu trabalho, que faz bens de consumo (higiene pessoal, medicamentos…), também tem sua produção aumentada, portanto, terá que contratar mais funcionários, ou seja, mais pessoas dentro da economia de consumo.

Estes funcionários, os tais “classe média” que reclamam do “Bolsa Esmola”, ao invés de estarem desempregados, estão recebendo um bom salário porque o “vagabundo do beneficiário” está consumindo mais produtos.

Estes mesmos “classe média”, com emprego gerado pelo aumento do consumo, estão comprando TVs de LCD, carros, viajando pra Miami, gerando empregos em indústria automotiva, turismo, etc., que por consequência, gera emprego em atividades extrativistas (petróleo, minerais).

No final de tudo isto, o acionista da empresa onde eu trabalho, lá nos EUA, tá rindo de orelha a orelha, pois nos últimos anos viu sua operação no Brasil (e em outros mercados emergentes) crescer à taxa de 25% ao ano, enquanto as operações nos países de primeiro mundo, devido à uma crise mundial, encolheram. No final suas ações se valorizaram e ele recebeu seu quinhão de lucro.

P.S.: Sou capitalista até o último fio do cabelo, e como “capitalista” entendo que só existe lucro se existe mercado consumidor.

P.S. 2: Classe média, hoje em dia, mais do que uma classe social, é um “estado de espírito”. Existem “classe média” ricos, pobres e “classe média”, na acepção real do termo. Mas basicamente é aquele sujeito que acha que o mundo gira em torno dele, que só olha para o próprio rabo, que reclama que carrega o mundo nas costas, que critica ferozmente os atos de corrupção de políticos enquanto dá uma “cervejinha” para o guarda fazer vistas grossas à uma multa de trânsito.

Be happy! 🙂

Orwell’s Revenge: The 1984 Palimpsest – Peter Huber (03/2017)

Em 1994 Peter Huber teve uma brilhante idéia: desmembrar sua edição de 1984, escanear todas as páginas usando um software de reconhecimento de caracteres (OCR) e fazer uma análise do livro com a ajuda do seu computador pessoal, a máquina que Orwell quase chegou a prever e que seria o instrumento para a propagação e manutenção de tiranias, de acordo com o clássico publicado em 1949. Indo mais além, Huber também escaneou todas as obras publicadas de Orwell (ensaios, romances, contos), alguns outros textos, transcrições do programa que ele apresentou por algum tempo na rádio BBC e textos biográficos sobre Orwell de autoria de outros.

Ao analisar o livro e os demais textos ele notou que 1984 era um recorte de outros textos e pensamentos que Orwell havia escrito até então e resolveu, ele mesmo (Huber), “reescrever” 1984 usando a mesma técnica que Orwell utilizou (recortar e colar trechos de outros textos). Claro que depois de tomar esta liberdade, o próximo passo foi “corrigir” o que Orwell havia errado em suas previsões, adicionando coisas que talvez ele nem imaginasse que iriam acontecer. Na verdade, o livro é uma sequência, já que a estória relata fatos posteriores a 1984, em que o rumo da estória muda de acordo com e como as tecnologias se desenvolveram e foram adotadas desde que o livro havia sido escrito.

Além de ser uma estória nova, o livro é ao mesmo tempo um estudo sobre a obra e a vida de Orwell, inclusive chegando a fazer uma análise de como a infância e adolescência do autor (como um bolsista de origem simples dentro de uma escola de ricos) moldou seu carater e gerou um ódio ao rentismo, ao capitalismo, aos mercados (quando eles saem do nível de trocas voluntarias entre “pessoas físicas”) e ao dinheiro.

Um ponto importante a considerar é que a escolha do ano de 1984 como sendo o ponto futuro foi totalmente aleatória, apenas invertendo os dígitos finais do ano em que o livro foi concluído (1848 -> 1984). Orwell não estava de forma alguma querendo fazer uma previsão de que aquilo seriam os proximos passos, mas apenas retratar o que ele achava que aconteceria no futuro, sem estabelecer um prazo pra isto.

E o que ele (Orwell) imaginava que iria acontecer tem muito a ver com suas crenças e seu pessimismo. Quem lê apenas Animal Farm ou 1984 talvez imagine que Orwell fosse um ferrenho crítico das teorias de Karl Marx, mas na verdade ele era um socialista convicto e sua crítica ao sistema implementado na antiga União Soviética, por exemplo – e especialmente em Animal Farm – se dá justamente porque ele acredita que as sociedades só iriam evoluir para um estado de bem estar geral sob o comando central do Estado, de uma centralização nas decisões econômicas e com os meios de produção sendo controlados democraticamente através de um Estado.

E aí entra um dos maiores dilemas enfrentados por Orwell: enquanto ele abomina totalmente o capitalismo e os mercados, pois entende que, invariavelmente eles levam a uma concentração de poder (monopólio) nas mãos de meia dúzia de rentistas (oligarquias), ele também não consegue encontrar uma solução para que uma sociedade coletivizada mantenha-se democrática, pois ele entende que invariavelmente uma sociedade com planejamento central tende a se tornar um Estado totalitário, com o poder nas mãos do grupo político que conseguir controlar este Estado no momento certo. Huber traz justamente à tona este problema que Orwell não conseguiu resolver: se o capitalismo (livre mercado) e o socialismo (planejamento central através do Estado) resultam em concentração de poder na mão de poucos e opressão de muitos, o que fazer para evitar o Big Brother ou um Napoleão?

Segundo uma das “previsões” de Orwell, a Telescreen, um tipo de “telefone com imagem” (Skype?) seria utilizado como intrumento de controle social pelo partido no poder, que teria ascendido ou das oligarquias detentoras dos monopolios ou através de grupos politícos, no caso de uma sociedade centralizada. O que Orwell não consegue imaginar é que, da mesma forma que a Telescreen poderia transmitir informações para os ministérios, ela também poderia ser usada para transmitir informações entre qualquer pessoa, desta forma contrabalanceando a “centralização” de informações. Da mesma forma, a Telescreen como se desenvolveu (Internet) descentraliza a geração das informações, já que a história fica espalhada em milhares de lugares e fica difícil para qualquer governo controlar e alterar os fatos, como era comum na Alemanha Nazista e na União Soviética socialista, por exemplo. Mais um “tiro n’água” de Orwell.

Talvez os maiores “erros” (lembrando que o próprio Orwell evitava usar as palavras “profeta” e “profecia”, pois ele tinha consciência que a chance de erro é infinitamente maior do que a de acerto, sempre!) foi achar que o livre mercado sempre leva a monopólios e que, para produzir grandes inventos (como um avião, por exemplo) o planejamento central (estatal ou corporativo) seria mandatório. Quanto ao primeiro erro, talvez ele se surpreendesse se tivesse vivido um pouco mais para testemunhar que o livre mercado pode até conduzir a um monopólio temporário, mas que esta “bolha” sempre estoura e, por ironia, sempre são mantidas por intermédio do Estado, principalmente em democracias. É o Estado que, afim de “proteger os interesses nacionais” ou “evitar concorrência desleal”, cria regras para proteger monopólios e oligopólios. Quanto ao segundo erro, basta ver que quanto mais o conhecimento é distribuido e o planejamento “quebrado” em partes menores, mais avanços tecnológicos são obtidos. Talvez para tirar um grande projeto do papel realmente seja necessario um “sponsor”, porém a necessidade se dá mais pelo fator financeiro do que científico.

A solução para a questão do Estado Totalitário, que segundo Orwell invariavelmente ocorreria, acabou sendo a propria Telescreen/Internet. Porém, a Internet, as novas tecnologias e os modelos de economia compartilhada ameaçam o status quo: elas estão criando a possibilidade de uma sociedade com oportunidades e equidade que as teorias baseadas em Marx nunca conseguiram entregar, enquanto ao mesmo tempo quebram a lógica da concentração de poder e renda que as “elites” e os políticos tem no denominado “Capitalismo”. Só falta a massa perceber que o embate à partir de agora não deveria mais se dar entre Estado X Iniciativa Privada, Coletivo X Individual, Mercado X Planejamento Central, o embate à partir de agora é entre o progresso e o conservadorismo, tanto daqueles que querem manter as coisas no estado atual (concentração de renda e poder nas mãos de poucos), quanto daqueles que ainda insistem em uma utopia com quase dois séculos de idade: todo o poder na mão de um Estado, que em tese e utopicamente seria democratico, mas que apenas move a concentração de poder do campo econômico para o político.

Mesmo que Orwell não tenha estabelecido justamente 1984 para suas “previsões” e que boa parte delas não tenham ocorrido como ele imaginava, a epoca escolhida aleatoriamente por ele se dá exatamente quando uma das rupturas que geraram o mundo atual e, talvez tenham sido até uma das responsáveis por desviar a humanidade do caminho previsto por ele, foi massificada: o Computador Pessoal. No ultimo capitulo do livro, Huber trata justamente do nascimento de duas indústrias (B&B, Bell & Blue, Bell Telecom & IBM) que são as principais responsáveis pelos incríveis avancos tecnológicos ocorridos à partir da década de 80: as telecomunicações e os computadores. Mas Huber, assim como Orwell, tambem foi traido pelo tempo: ele escreveu seu livro em 1994, apenas alguns anos antes da popularização da Internet. A “rede” já existe desde os anos 60, mas seu uso ficava restrito às universidades, e a “barreira” foi ultrapassada justamente por conta do aumento da capacidade de tráfego nas redes de telecomunicações. Se tivesse esperado alguns anos, talvez Huber tivesse escrito um outro livro. Ou talvez já esteja na hora de escrever um Orwell’s re-revenge.

Uma coisa Orwell conseguiu acertar no alvo: o duplipensar. A unica diferenca é que ele imaginava que “dar sentidos diametralmente opostos a uma mesma palavra” seria algo imposto de cima para baixo, pelo “partido” (ou a corporação) detentora do poder. Talvez seu pessimismo se agravasse ao perceber que, com o “controle da verdade” nas mãos da massa, é a propria massa que cria expressões com sentido oposto no intuito de validar suas proprias incoerências (e justificar seus ódios e preconceitos). Exemplos? Os termos politicos “liberal conservador” ou “conservador liberal”, que nem semanticamente fazem sentido!

Be happy 🙂