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Factfulness – Hans Hosling (01/2020)

Você acha que o mundo hoje está melhor ou pior do que há 20 ou 30 anos atrás? Bem, sugiro a você fazer o teste da Gapminder Foundation sobre como indicadores socioeconômicos têm mudado nas últimas décadas. Aposto que a maior parte das pessoas, por mais otimistas que sejam, não acertam todas as questões. Aproveite e assista também a uma das apresentações do Hans Hosling, como esta já famosa apresentação num TedTalk, ou alguma de Ola ou da Anna (filho e nora de Hans), colaboradores do livro e na fundação.

O enorme subtítulo, que numa tradução livre seria “Dez Razões Porque Estamos Enganados Acerca do Mundo – e Porque as Coisas Estão Melhores do que Você Pensa”, virou “O hábito libertador de só ter opiniões baseadas em fatos” na versão brasileira, e talvez este subtítulo faça mais jus ao título (que nem é uma palavra de verdade, ainda…).

O livro trata de dez “instintos dramáticos”, cada um com um capítulo próprio, que turvam a nossa visão de mundo (já volto neles daqui a pouco). Estes instintos foram sendo desenvolvidos nos seres humanos através da evolução e nos foram muito úteis até aqui, afinal de contas, no meio da floresta ou da savana africana, é bem melhor começar a correr ao ouvir algum barulho do que parar para analisar o que poderia ser aquele barulho e, de repente, dar de cara com algum predador. Porém nos dias de hoje a maioria das ameaças que eram evitadas através do instinto já não se fazem tão presentes e analisar dados e fatos é a melhor forma de tomar as melhores decisões (ou as com maior chance de sucesso).

Porém, existem duas categorias de profissionais que exploram estes nossos instintos em benefício próprio e quase sempre a nosso desfavor: os jornalistas (que até o fazem sem má intenção, na maioria das vezes) e os políticos (que normalmente o fazem com má intenção!). No trecho em que ele fala em como a mídia abusa destes instintos, encontrei uma feliz coincidência: ele usa o mesmo exemplo que eu sempre uso para explicar porque usar somente informações da mídia (que dá atenção para os casos extremos, para os pontos fora da curva) ao moldar sua visão de mundo, via de regra conduz ao erro: o caso dos acidentes de avião.

Toda vez que acontece um acidente de avião a mídia explora o caso à exaustão, o que leva à má impressão de que voar de avião é inseguro. Porém, os acidentes são uma exceção muito rara diante do total de voos completados com sucesso. Só que não faria sentido nenhum a mídia noticiar todos os voos completados com sucesso. Imagina o jornal do meio dia listando todos os voos que deixaram sua origem e pousaram no destino sem nenhum incidente? 

Uma outra coincidência com outro trecho é quando ele faz a distinção entre ativistas e especialistas. O trecho discorre durante alguns parágrafos sobre as diferenças entre os dois, mais ou menos na mesma definição que eu uso: um especialista é alguém que vai analisar fatos e dados para moldar sua opinião e vai considerá-los mesmo que eles digam algo que vai contra os valores e princípios iniciais desta pessoa. Por outro lado, um ativista é alguém que vai procurar dados que confirmem os seus valores e princípios e, caso não os encontre, ele normalmente irá “fabricar” fatos. E no caso de encontrar dados que contradigam suas crenças, ele vai simplesmente ignorar.

Os dez instintos dramáticos trazidos à tona no livro são:

  1. Instinto de separação (gap instinct): o instinto de achar que tudo se divide em dois grupos muito distintos, com uma enorme distância entre eles, quando na verdade a maioria das coisas se concentra no meio e os extremos é que são minoria (a famosa distribuição normal).
  2. Instinto de negatividade (negativity instinct): sempre achar que as coisas estão piores do que estavam. As coisas podem não estar bem, mas geralmente quando falamos em indicadores socioeconômicos elas estão melhores do que há 10, 20, 30, 100 anos (varia dependendo do indicador). Ignorar o progresso é simplesmente jogar fora tudo o que foi feito de bom até o momento e que deveria continuar a ser feito.
  3. Instinto da linha reta (straight line instinct): assumir que uma linha de tendência vai sempre continuar na direção em que ela aponta. Quando se fala nestes indicadores socioeconômicos, geralmente nem é uma linha, mas sim uma curva, que atinge seu ápice ou vale e depois se estabiliza (afinal de contas nem tem como ter, por exemplo, taxa de mortalidade abaixo de zero).
  4. Instinto do medo (fear instinct): achar que as coisas são sempre ruins, que o pior vai sempre acontecer, deixando o medo se sobressair a racionalidade.
  5. Instinto do tamanho (size instinct): não colocar as coisas sob a perspectiva, a proporção correta, e achar que ou são muito grandes, ou muito pequenas.
  6. Instinto de generalização (generalization instinct): usar um exemplo ou um pequeno pedaço para definir o todo. Normalmente associado a preconceitos.
  7. Instinto do destino (destiny instinct): assumir que as coisas vão continuar a ser de um jeito porque elas sempre foram assim e uma mudança é inevitável. Muito relacionado aos instintos de tamanho e medo e, novamente, a preconceitos.
  8. Instinto da perspectiva única (single perspective instinct): querer usar sempre a mesma solução, a mesma “ferramenta”, para solucionar todos os problemas, por mais distintos um do outro que eles sejam.
  9. Instinto de (botar a) culpa (blame instinct): querer encontrar culpados ao invés de soluções.
  10. Instinto de urgência (urgency instinct): achar que tudo requer uma medida urgente, quando na verdade poucas coisas requerem tanta urgência a ponto de não se ter tempo de analisar a situação, as possibilidades e as consequências.

Cada um destes capítulos é recheado de dados e histórias da vida do próprio Hans, o que torna o livro uma quase biografia póstuma escrita pelo próprio. Infelizmente ele veio a falecer em 2017, vítima de um câncer no pâncreas diagnosticado cerca de um ano antes. O livro começou a ser escrito um pouco antes do diagnóstico e se tornou o trabalho final onde ele dedicou seus últimos meses de vida.

No final de cada capítulo, existem algumas dicas para evitar estes instintos, mais ou menos na pegada do A Field Guide to Lies. Sugiro demais a leitura do livro e, quem sabe, após a leitura você refaça o teste do início e se saia melhor do que os chimpanzés.

Be happy 🙂

The Long Dark Tea-time of the Soul – Douglas Adams (14/2019)

Na resenha sobre o primeiro livro da série Dirk Gently, eu expliquei um pouco do processo de criação do Douglas Adams. Também pontuei que achei o livro um tanto confuso, inclusive com uma das estórias não se encaixando muito bem na “colcha de retalhos” que os livros do Adams normalmente são.

Bem, não vou dizer que achei The Long…, o segundo livro da série, uma obra-prima, mas ao menos achei bem melhor que o primeiro. Talvez eu tenha pego a manhã de ler Douglas Adams em inglês, mas talvez o principal fato seja que neste as duas estórias principais (que se desenvolvem em paralelo, em conjunto com umas duas ou três linhas menores) ficaram bem melhor costuradas.

A primeira tem como ponto de partida um bate-boca entre dois passageiros e uma atendente de companhia aérea no balcão de check-in no Aeroporto Heathrow, em Londres, seguida por uma misteriosa explosão. A descrição de Adams para o aeroporto, suas áreas e respectivas funções é hilária! Já na segunda linha, nosso herói (?) se vê envolvido em na morte misteriosa de um de seus clientes (provavelmente o único cliente!).

A partir daí vários detalhes vão sendo adicionado à cada uma das linhas, bem como outras pequenas linhas vão sendo iniciadas, cada uma no apropriado tempo, para que no final todas elas se juntem. E aí achei o ponto fraco do livro: os capítulos que ligam todas as pontas têm um ritmo muito corrido e mereciam ser mais bem explorados. De qualquer forma, é um livro bem divertido.

Uma curiosidade a respeito do título: ele foi retirado de “A Vida, o Universo e Tudo Mais”, da série o guia. A frase foi usada para descrever o tédio miserável do ser imortal Wowbagger.

Be happy 🙂

Darwin Sem Frescura – Reinaldo José Lopes e Pirula (13/2019)

O biólogo Pirula e o jornalista Reinaldo José Lopes já são duas figuras bastante conhecidas na área de divulgação científica no Brasil. O primeiro, além de doutor em paleontologia, produz vídeos no seu canal no YouTube (que conta hoje com quase 900 mil inscritos) sobre ciências (além de outros assuntos) desde 2006. O segundo é jornalista especializado no tema, tendo já escrito pra o G1, Folha de São Paulo, Revista Piauí, Superinteressante, entre outros.

Neste livro eles tentam trazer para uma linguagem popular as teorias de Darwin, que modificaram à época o entendimento sobre o desenvolvimento da vida na terra e até hoje surpreendem por sua capacidade de explicar como os seres (e até as culturas) nascem e evoluem. Usando curiosidades, atualidades e polêmicas como pano de fundo para explicar as várias nuances da teoria da evolução, o livro consegue tornar um tema complexo (e eventualmente até chato) em algo divertido e por muitas vezes cômico.

Para quem já acompanha o canal do Pirula, cada capítulo segue basicamente o conteúdo de um dos vídeos, mas com um formato diferente. O fato de ser escrito e não “filmado” também faz com que muita coisa “desnecessária” que talvez um vídeo teria seja “limada”, indo direto ao alvo e se atendo ao tema do capítulo.

É claro que quem já leu a própria A Origem das Espécies, ou mesmo outros livros sobre o tema, como O Gene Egoísta, do Dawkins, pode achar o livro um pouco superficial e até bobo. Mas é uma boa e divertida introdução e talvez possa despertar a curiosidade, especialmente de jovens e adolescente, pelo tema.

Agora uma ironia que não dá para deixar passar em branco é a semelhança, tanto nos títulos, textos e diagramação com a série “Guia Politicamente Incorreto”. Um ponto negativo é que achei o livro curto. Mas entendo que isto talvez tenha se dado por características do mercado editorial brasileiro (tornar a produção e preço mais baratos). Então espero que este seja o primeiro de uma série, já que o assunto é fascinante e extenso.

Be happy 🙂

Samba de Enredo – Alberto Mussa e Luiz Antônio Simas (12/2019)

Escrito à quatro mãos pelo linguista e historiador Alberto Mussa e pelo também historiador Luiz Antônio Simas, este já um conhecido especialista na história do gênero brasileiro mais popular, o Samba, o livro se propõe a fazer o que descreve no  subtítulo: mostrar a “história e arte” deste que é mais do que um gênero musical, já que o enredo é a figura central e a música, bem como as alegorias (artes plásticas), a apresentação (artes cenográficas), além de diversos outros tipos de arte, servem ao enredo.

Dividido em três partes principais, o livro descreve na primeira delas (que é ordenada cronologicamente e separando em “eras”) o desenvolvimento da arte desde a pré-história, ou seja, dos movimentos culturais que viriam a gerar as agremiações, até a era moderna do samba de enredo (ou samba-enredo).

Na segunda parte o foco é nas principais escolas do Rio de Janeiro, incluindo algumas que não existem mais e até de alguns blocos que seguiam a mesma proposta de apresentar um enredo. Nesta segunda parte, além da “biografia” das escolas, traz também algumas informações como as premiações, os principais enredos e compositores que marcam a história de cada uma delas.

A terceira parte muda o foco para os compositores, já que muitos deles compuseram sambas para mais de uma agremiação, trazendo uma breve biografia de cada um dos principais compositores do gênero. O apêndice final traz uma lista de todos os sambas que eles conseguiram mapear e analisar para o trabalho, também em ordem cronológica. Infelizmente, muitos se perderam parcialmente (tem-se alguns trechos, normalmente passados de boca em boca, muitos só com a letra e sem a melodia) ou totalmente, já que a tradição de se registrar os sambas de enredo em gravações só se iniciou em meados da década de 60.

O livro é muito interessante para entender um pouco deste mundo fantástico que envolve os desfiles de carnaval e as escolas de samba. Também serve como um guia para procurar os sambas listados no Youtube. Só achei que caberia um quarto capítulo fazendo pelo menos um apanhado geral do desenvolvimento da arte em outros locais, especialmente São Paulo. Mas posso apenas estar sendo bairrista.

Be happy 🙂

Homo Deus: A History of Tomorrow – Yuval Noah Harari (11/2019)

Homo Deus é basicamente a continuação do Sapiens, do próprio Harari. Enquanto o Sapiens conta a história dos humanos desde o surgimento de outras espécies de hominídeos até os tempos atuais, Homo Deus tenta imaginar o que acontecerá com a nossa espécie e como ela evoluirá daqui em diante. Sapiens é mais centrado em história e biologia (evolução), Homo Deus é um livro mais filosófico e um exercício de “futurologia”.

No enorme e cansativo primeiro capitulo (70 páginas!) e nos dois capítulos seguintes, que formam a primeira parte do livro, denominada “O Homo sapiens conquista o mundo”, Harari faz um resumo da primeira obra, revisando como foi a caminhada do homem desde o seu surgimento até o domínio sobre outras espécies e sua consolidação como a mais bem-sucedida delas.

Na segunda parte, “O Homo sapiens dá um significado ao mundo”, vem a parte filosófica, onde ele se estende, além da parte histórica, pela busca do homem a dar um sentido à sua existencia. Nesta parte ele foca muito no humanismo como uma forma que o ser humano encontrou para dar este sentido. Neste ponto o ser humano passa a ser o centro do universo e de todas as atenções. Esta abordagem faz com que inclusive ele ache que todo o restante do mundo e todas as demais espécies estão ao seu dispor.

Na terceira parte ocorre o exercício de futurologia. Harari tenta imaginar como a espécie irá evoluir à partir deste momento em que vivemos, onde estamos conseguindo inclusive desenvolver a capacidade de manipularmos a evolução da nossa espécie, através de engenharia e genética, e não mais dependendo do acaso da evolução.

Achei o livro interessante, porém bastante cansativo e não tão fluido quanto o Sapiens. Mesmo assim a leitura vale muito, especialmente a terceira parte.

Be happy 🙂

Slaughterhouse-Five – Kurt Vonnegut (10/2019)

Segundo o prefácio, escrito pelo próprio autor, Kurt Vonnegut sempre quis escrever um livro baseado na sua história pessoal como prisioneiro de guerra em Dresden, durante a segunda guerra mundial. A experiência foi marcante pois ele estava na cidade quando esta, já no final da guerra, sofreu um intenso bombardeio, considerado por muitos totalmente desnecessário àquela altura do conflito.

Ao procurar um antigo companheiro para colher informações sob outra perspectiva, prometeu à mulher deste que não escreveria um livro “heróico” e não “glamourizaria” a guerra. E assim o fez com maestria: criou uma estória que mistura alguns fatos e personagens reais com ficção, jogando na cara todo horror presenciado por quem esteve no front de batalha, em contraste com a tendência de romantizar a guerra que normalmente ocorre com quem as promove (oficiais, políticos, etc.). E sendo um livro do Vonnegut, não poderia faltar muita ironia e humor.

Porém é aquele humor que faz você sentir vergonha de ter achado engraçado, e isto foi feito propositalmente pelo autor ao criar como personagem principal Billy Pilgrim, um oftalmologista (optometrist em inglês) que é um personagem muito caricato. Além disto a estória de Billy ainda traz à tona as agruras posteriores (ou anteriores, bem, o tempo não existe) a este evento tão traumático.

É um livro maravilhoso, daqueles que dá aquele aperto no peito, uma angústia, que a gente não consegue explicar direito porque. Para mim junto com Nada de Novo no Front, do Erich Maria Remarque, e com Maus, do Art Spiegelman o livro forma uma trilogia espetacular sobre guerras. E Kurt Vonnegut já está entrando na minha lista de autores favoritos.

So it goes.

Be happy 🙂

The Inevitable: Understanding the 12 Technological Forces That Will Shape Our Future – Kevin Kelly (9/2019)

Kevin Kelly é um dos fundadores da revista Wired e um estudioso de tecnologia e de cultura digital. Num exercício de futurologia, ele tenta prever em The Inevitable quais são as 12 tendências tecnológicas que devem permear as nossas vidas em um futuro próximo. Porém, ao invés de falar de tecnologias específicas, ele tenta descrever ações que serão providas ou incorporadas por tecnologias. E para isto ele usa os verbos no gerúndio como título de cada um dos capítulos.

A explicação do porque disto ocorre no primeiro capítulo, Becoming, onde ele afirma que hoje em dia praticamente nada tem um estado final e tudo está constantemente evoluindo. E isto deve se acelerar mais ainda.

Outro capítulo bem interessante é Sharing, onde ele chega à mesma conclusão que eu e o Peter Huber (em Orwell’s Revenge: The 1984 Palimpsest) chegamos de que, através da colaboração em larga escala, a tecnologia está conseguindo entregar o que tanto o capitalismo quanto o socialismo nunca conseguiram. Um trecho do que escrevi na época que li o livro de Huber:

…a Internet, as novas tecnologias e os modelos de economia compartilhada ameaçam o status quo: elas estão criando a possibilidade de uma sociedade com oportunidades e equidade que as teorias baseadas em Marx nunca conseguiram entregar, enquanto ao mesmo tempo quebram a lógica da concentração de poder e renda que as “elites” e os políticos têm no denominado “Capitalismo”.

Nos dois capítulos finais, o autor faz a observação de que cada resposta que encontramos gera um número maior ainda de novas perguntas (Questioning) e que invariavelmente estas perguntas iniciam um novo ciclo (Beginning ) em busca de respostas.

Os demais capítulos do livro são:

  • Cognifying: tornar tudo cada vez mais inteligente usando o poder da inteligencia artificial que, com a tecnologia de cloud computing, tem se tornado cada vez mais barata.
  • Flowing: tornar tudo um fluxo infinito, sem início e sem fim. Tem muita relação com Becoming e com Accessing (abaixo).
  • Screening: tornar qualquer superfície em uma tela ou algum outro tipo de meio para transmitir e receber informação.
  • Accessing: a mudança da cultura de aquisição de bens para uso de servicos, que já vem ocorrendo (por exemplo, no caso de um carro próprio X Uber) e que deve se acentuar ainda mais.
  • Filtering: a necessidade que temos de filtrar a informação que nos chega, já que é humanamente impossível absorvermos tudo o que é produzido atualmente (Cognifying é um meio para isto).
  • Remixing: a tendência de produzirmos conteúdo (música, vídeo, fotografia, textos, etc.) através de colagens de conteúdo de terceiros.
  • Interacting: interação total com os computadores, inclusive através de implantes e ondas cerebrais.
  • Tracking: emprego de vigilância total (vídeo, áudio, telemetria, biometria) em benefício de cidadãos e consumidores.

No final de cada um dos capítulos ele faz um exercício imaginando como seria um dia dele num futuro onde estas tendências existissem, e ai enfim ele descreve um pouco a aplicação prática de cada um dos conceitos. O livro tem mais ou menos o mesmo mote de Black Mirror, mas sem ser pessimista e sem entrar nos dilemas éticos, apenas focando nos benefícios da tecnologia.

Be happy 🙂

Adão & Erva – Yumbad Baguun Parral (8/2019)

Este é o quarto livro do Parral que eu leio e, apesar deste ser melhor que o último que eu li (Biomarketing), ainda não é melhor que os dois primeiros (Sua Excrecência… e Santa Puta). Mas desta vez eu nem posso tecer muitas críticas, já que o livro é escrito como um cordel e eu simplesmente não consigo ler textos em versos. Falha minha!

De qualquer forma, a proposta é interessante: reescrever o mito bíblico da criação do mundo, do pecado original, e outras estórias do cristianismo, introduzindo vários elementos de outras mitologias. Neste livro, é Adão quem comete o pecado de, sob a influência de Prometheus, queimar e inalar a erva proibida. De uma certa forma, assim como no mito original, Eva é a personagem criada por um Deus(pota) para receber toda a culpa por esta “escorregada” de Adão e por tudo de ruim que acontece à humanidade à parti dai.

A premissa inicial é bem interessante, assim como o desenvolvimento, misturando diversas passagens da bíblia com alguns fatos históricos e tecendo uma crítica a uma sociedade misógina e ignorante (e na maioria das vezes arrogante também). Mas vou para por aqui devido à este meu problema com versos (eu fico “cantando” as rimas na cabeça e não consigo captar a mensagem).

Be happy 🙂

How Democracies Die – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (7/2019)

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt são dois cientistas políticos, ambos professores de Harvard (de verdade!) e estudiosos do desenvolvimento de sistemas políticos na América Latina e Europa (respectivamente). Em How Democracies Die eles compilam seus estudos e observações para mostrar como sistemas autoritários podem se instalar à partir de democracias. Isto vem ocorrendo principalmente à partir do início do século XX e inclusive tem se tornado a forma mais comum, em contraposição ao que ocorria até então, onde estes sistemas se instalavam à partir de golpes ou de conflitos.

Usando exemplos dos mais diversos espectros políticos, como Hitler, Mussolini, Getúlio Vargas, Ferdinando Marcos, Pinochet, Perón, Fujimori, e mais recentemente Putin, Erdogan, Viktor Orban, Hugo Chaves, Rafael Correa e Evo Morales, eles mapeiam o modus operandi comum a todos estes déspotas (que eles chamam de demagogos). Normalmente estes chegam ao poder por vias democráticas, na maioria das vezes com a ajuda de pessoas, grupos e partidos comprometidos com a democracia, mas que vislumbram a tomada de poder a qualquer custo achando que, depois de chegar ao poder, estes déspotas serão facilmente controlados ou descartados. Porém, depois de instalados, estes déspotas começam a distorcer as leis e regras da democracia para perseguir adversários (incluindo muitos que eram até há pouco tempo aliados), a aparelharem a máquina estatal (legislativo, judiciário, estatais, etc.) e a colocar a imprensa e os adversários em descrédito ou sob ameaça, afim de se perpetuarem no poder.

Logo de início, eles trazem à pauta uma ferramenta desenvolvida por ambos a partir do trabalho do sociólogo e cientista político Juan Linz. A ferramenta consiste em uma tabela com quatro critérios principais (e 13 subquestões) para testar se um político é um potencial déspota. (1) Rejeição ou pouca aceitação de regras democráticas; (2) negação da legitimidade de oponentes políticos; (3) encorajamento ou tolerância à violência e; (4) uma prontidão para limitar as liberdades civis de oponentes, incluindo a mídia, são os quatro critérios. Os autores frisam que a associação de apenas um dos critérios a um político já deveria ser suficiente para descartá-lo como um potencial candidato/governante.

Depois de prover os exemplos e o modus operandi, bem como a tabela, eles entram especificamente no caso dos EUA, dando um apanhado geral em como o sistema democrático norteamericano se desenvolveu e evoluiu, muitas vezes sendo não tão democrático, até atingir uma estabilidade que, aparentemente, seria constante à partir de então. Neste capítulo eles trazem à tona o importante papel dos partidos e das lideranças políticas como gatekeepers (não achei uma tradução boa para o termo, mas seria algo como aqueles que impedem ou filtram a passagem), evitando assim que estes déspotas (que na sua absoluta maioria são também populistas) cheguem a disputar as eleições e contar com a infraestrutura partidária.

Porém, à partir do meio dos anos sessenta, por conta do movimento dos direitos civis, até o meio dos anos setenta, com a questão do aborto definida pela decisao do caso Roe vs Wade, esta estabilidade começou a ser ameaçada. Os republicanos (conservadores) começaram a concentrar eleitores brancos (especialmente nos estado do centro-sul e em cidades pequenas) e religiosos (contrários à legalização do aborto), “empurrando” os demais eleitores para os democratas (liberais). Importante frisar que, até então, ironicamente, os democratas destes estados eram os que se opunham à concessão de direitos iguais aos negros. À partir de então os republicanos têm ficado acuados, ainda mais devido às mudanças na demografia americana, que vem reduzindo ano a ano a proporção do perfil de eleitores republicanos (branco cristão). Sentindo a possibilidade da perda de poder, num movimento iniciado à partir do meio dos anos 80, o partido tem “apelado” à estes déspotas.

O ápice desta instabilidade democrática ocorreu em 2016, com a nomeação do então empresário e apresentador Donald Trump como o candidato republicano. Trump basicamente atende todos os critérios do teste e na verdade os usa como tática política. Para agravar o problema, nos EUA existem poucas leis e muitos acordos tácitos, ou light guard-rails, como eles chamam, que vêm sendo colocados à prova desde então.

Os autores também frisam que, apesar da tentação que a oposição tem de retribuir com a mesma moeda e usar as mesmas táticas (qualquer semelhança com o Brasil dos últimos 20 anos não é mera coincidência), os demais partidos, grupos e políticos precisam evitar o uso do mesmo ardil, pois senão a escalada rumo a um sistema iliberal (para citar o Identity do Fukuyama) é inevitável.

Be happy 🙂

Biomarketing – Yumbad Baguun Parral (6/2019)

Este é o quarto livro que eu leio do Parral. As outras três resenhas estão aqui, aqui e aqui (no primeiro link tem uma explicação de quem é o autor e um link para uma matéria da Piaui sobre ele, então não vou repetir). Entre todos este foi o mais fraco. A impressão que me deu é que este é uma colagem de pequenos trechos e textos avulsos que não foram muito bem ligados.

A idéia central do livro é fazer um paralelo entre o livre mercado (e suas ferramentas, como o marketing) e o desenvolvimento de um indivíduo. Também tenta trazer uma fórmula para atingir o sucesso em ambos: nos negócios e na vida pessoal. Existe também um paralelo entre as duas situações e a teoria da evoluçao de Darwin. Porém este segundo paralelo é bem fraco, pois o livro dá a entender que um indivíduo é responsável pelo desenvolvimento de sua prole (e por consequência da espécie) quando na verdade, segundo a teoria de Darwin, o processo é totalmente aleatório. O máximo que um indivíduo faz é tentar espalhar ao máximo o seu gene.

Depois de desenvolver estes paralelos, contando inclusive com muitas dissertações sobre componentes individuais (novamente dando a impressão de serem textos independentes), existe uma pequena autobiografia, onde o autor conta um pouco da sua trajetória e de como ele atingiu o sucesso segundo os seus critérios. E aqui eu concordo totalmente com o autor: o critério para o sucesso é muito pessoal. E ainda vou mais além: à partir do momento em que alguém deixou outro ente (outra pessoa, um grupo, a sociedade, etc.) determinar o que é seu sucesso, isto em sí já é um fracasso. Outro ponto é que o livro tem uma pegada de auto-ajuda, o que pode ter contribuido também para a minha má impressão. Mas fica a dica: se encontrarem o Parral pelos bares da Vila Madalena, adquiram um exemplar deste ou de algum outro (“E já vem autografado, pra virar relíquia!”).

Be happy 🙂