As Intermitências da Morte – José Saramago (19/2015)

As Intermitencias da Morte“O que aconteceria se a morte resolvesse tirar uma licença?” é o mote principal deste livro do Saramago (autor também do famoso “O Ensaio Sobre a Cegueira”). Em um país fictício, regida por uma monarquia que se imagina ser uma daquelas mornarquias decorativas européias, depois da virada de ano a morte resolve simplesmente “não aparecer”.

Muitos das pessoas que estavam praticamente a expirar, simplesmente ficam no estado em que se encontravam, mas ainda vivas. O mesmo acontece com as vítimas de acidentes, assassinatos ou qualquer outro desfortunio: o coração continua batendo, os principais órgãos estão funcionando, mas a pessoa entra em um estado de catatonia, um vivo morto (ou morto vivo).

À partir dai, Saramago descreve os desdobramentos das consequências de algo que inicialmente parece ser uma boa coisa, como a imortalidade, mas que se mostra um verdadeiro desastre sob vários pontos de vista. O cartel dos agentes funerários, sem ter o que fazer depois da extinção da morte, pressionam o governo para que este obrigue os cidadãos a darem um “enterro digno” a seus animais como forma de manter esta indústria funcionando. As companhias de seguros decidem pagar apólices por idade de morte presumida, já que, se ninguém mais vai morrer, as pessoas irão deixar de fazer seguro. Até a igreja pede ao governo que tome uma providência pois, sem vida após a morte, não há sentido na existência das religiões.

Depois de alguns dias de muitas alegrias com a nova possibilidade, os habitantes começam a perceber que os entes próximos se tornam um fardo para eles quando deixam de morrer por velhice, e extrapolando no nível do país, para toda a sociedade, pois se ninguém mais morre, bastariam poucas gerações para ter uma infinidade de idosos imortais sendo cuidados por pouquíssimos jovens.

À partir destas questões surge a Máphia (com PH, e que lembra muito, em estrutura e atuação, o PCC paulista), que através de acordos excusos com autoridades e corrupção de agentes públicos, consegue, mediante o pagamento feito pelas famílias, dar um jeito de “matar os imortais” (não vou contar como para não soltar spoilers).

Toda esta narrativa, desde o início até o retorno da morte (também não entrarei em detalhes) é feita com um humor ácido e uma ironia fina e o país fictício nos faz lembrar muito bem o Brasil, ou qualquer outra república de bananas mundo afora.

Porém, ao concluir a estória principal, Saramago deixa um gancho para uma segunda parte onde, sem deixar de lado o humor, conta a história de amor da morte pela vida, ou como gosto de chamar, vida plena, de um simples violoncelista. Nesta segunda parte ele entra mais fundo em questões filosóficas (e existenciais) com as quais ele flerta na primeira parte do livro.

Saramago tem um estilo um pouco complexo de escrever: ele vai colocando os diálogos dentro do parágrafo, junto com a narração, sem dar muitas indicações de onde começa a fala e de que personagem ela é, separando-as apenas por vírgulas, ao invés de criar parágrafos e usar o travessão. Isto também torna a leitura um pouco complexa e aconselho ler cada capítulo de uma só vez, sem “quebrá-lo” em várias partes, para não complicar. Mas apesar disto (e do português de Portugal, que às vezes exige um pouco mais de atenção), o texto ainda é fluído e daqueles que você não consegue parar de ler, mesmo ao final do capítulo.

Tanto que posso dizer que, apesar destes pesares, foi um dos melhores livros que já li na minha vida e estou, desde que terminei, pensando qual dos meu top 10 teria que sair da lista para dar lugar à este.

Be happy! 🙂

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