Tempo Perdido – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 23 de Dezembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


No meu primeiro artigo na Feedback Magazine, tentei mostrar, sobre o ponto de vista econômico, a importância de programas sociais de inclusão das camadas mais pobres da população no chamado mercado de consumo. Um ponto que eu não citei no artigo é que, assim como o programa de microcrédito na Índia, que permitiu que a economia nas camadas mais baixas fosse “turbinada” até que o país realizasse os investimentos de longo prazo necessários, o Bolsa Família deveria ser uma solução emergencial e temporária, pelos motivos já citados no artigo anterior.

Para que o Brasil se torne uma nação capaz de se desenvolver de maneira sustentável e de longo prazo, a ponto de não depender tanto de programas sociais do tipo e de uma maneira que não fique tão vulnerável à crises internacionais, entre tantos problemas a serem solucionados, existem dois que são os mais urgentes: infraestrutura e educação.

O problema da infraestrutura, mesmo à passos de tartaruga, está sendo tratado no Brasil e, de uma forma ou de outra, também pode ser contornado no curto prazo.

É no segundo, a educação, que mora um dos calcanhares de aquiles do Brasil. Não quero entrar no velho discurso de que uma nação sem educação escolhe mal seus líderes, porque isto é uma meia verdade, já que existem nações com qualidade educacional bem superior a nossa e que também escolhem mal seus líderes (está aí a Itália, ou mesmo a Argentina, para não me deixar mentir); porém, quero me ater à como isto afeta o desenvolvimento do país.

Nas últimas duas décadas, o governo brasileiro se “esforçou” para implementar programas para incentivar a educação superior e técnica, como o FIES e o ProUNI, além de ter aumentado o número de vagas em universidades públicas e escolas técnicas. Devido a estes esforços, tivemos um aumento considerável no número de cidadãos possuidores de diploma de nível superior. O que deveria ser comemorado pela sociedade acabou virando mais um motivo de preocupação, já que este aumento de pessoas com ensino superior foi somente numérico, e não refletiu no aumento da capacidade intelectual e de agregação de valor à produção, que é o que gera riqueza para as nações.

Quando uma empresa, ou mesmo o governo (o principal motivo do atraso das obras de infraestrutura do PAC é a falta de gente capacitada a gerenciar os projetos), tenta contratar algum profissional para exercer um trabalho que exige qualificação, apesar de encontrar no mercado vários candidatos que, por possuirem diploma de nível superior, teoricamente estariam aptos a realizar este trabalho, esbarram na falta de preparo em algumas áreas que deveriam ser pré-requisitos para o acesso à universidade.

São candidatos que não conseguem compreender um texto simples e, da mesma maneira, não conseguem se comunicar de maneira clara e concisa. Também faltam à estes candidatos capacidade de raciocínio lógico e analítico.

Isto gera um efeito negativo na economia, pois uma empresa, ao analisar vários mercados, afim de expandir (ou mesmo manter) suas atividades, vai levar em conta a disponibilidade de mão de obra capacitada para exercer as tarefas necessárias àquela empresa, entre outros fatores (e na maioria deles, como impostos, burocracia e infraestrutura, o Brasil também perde). Ou seja, bens que poderiam ser produzidos aqui, que agregariam valor às matérias primas extraídas aqui (o que seria uma vantagem), podem estar sendo produzidos em outros países (muitas vezes com matéria prima brasileira), por conta da falta de pessoal capacitado.

Eu sei fazer o serviço, só não sei ler e escrever direito.

Eu mesmo já passei pela experiência, na empresa onde trabalho, de precisar encontrar profissionais para aumentar a equipe, não conseguir encontrar no Brasil e ter que utilizar profissionais de outros países para executar o trabalho (na área de TI, como na maioria dos negócios relacionados à serviços, é ainda mais fácil mover um posto de trabalho de um país para o outro).

Apesar da aparente preocupação dos últimos governos com o ensino, esta preocupação se refere mais aos números que são mostrados à sociedade do que com a qualidade do ensino em si, e com isto criam mecanismos que fazem com que o número de analfabetos diminua, o numero de universitários aumente, a evasão escolar seja reduzida, mas mesmo assim (e apesar destes mecanismos), nossa classificação em testes internacionais de ensino básico e médio só tem piorado, a quantidade de artigos acadêmicos publicados em revistas internacionais não acompanhou o aumento do número de estudantes (e a citação destes artigos diminuiu) e chegamos ao cúmulo de não termos nenhuma universidade entre as 200 melhores do mundo. (Duzentas!!!)

Além da doutrinação (ideológica, política e até religiosa) que ocorre, ao menos nas escolas públicas, o que faz com que os estudantes sejam meros papagaios repetidores, sem a mínima capacidade de fazer uma análise racional e formar seus próprios conceitos, o Estado concentra muitos esforços no ensino superior, deixando a educação básica em segundo plano. É como querer construir uma casa pelo teto, ao invés de levantar fundações, colunas, paredes e, aí sim, construir o telhado. Esquecem-se que a educação básica, que serviria de base para desenvolver aquelas características já citadas (compreensão de textos, capacidade de comunicação, raciocínio lógico, analítico e matemática), além de desenvolver nas pessoas a sede do conhecimento, é a que cria as bases para que o ensino superior seja de qualidade e melhor aproveitado. Mas infelizmente, ao invés disto, prefere-se criar fábricas de diplomas (em todos os níveis).

Segundo o professor James Heckman, para cada dólar investido em educação infantil (creche e pré-escola), têm-se um retorno de nove dólares para a sociedade (leia aqui uma ótima entrevista com o professor James Heckman), portanto, a educação não é só um ato político, como pregava Paulo Freire, mas também um ato social e econômico.

E desde o primeiro governo FHC, já se vão quase 20 anos, ou seja, as crianças que entraram na escola àquela época já poderiam estar formadas, muitas delas produzindo conhecimento, se o investimento na base tivesse sido feito àquela época. E o pior é que, como nenhum dos governos subsequentes também se preocupou com isto, se começassemos este tipo de investimento agora, ainda teríamos que aguardar mais 20 anos para iniciar a colher os frutos.

Nossos governos ainda insistem em continuar “jogando para a torcida”. E sinceramente não vejo perspectiva de mudança..

Be happy! 🙂

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