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Bilhões e Bilhões – Carl Sagan (12/2016)

Bilhoes e BilhoesBilhões e Bilhões é um livro contendo dezenove artigos escritos por Sagan sobre diversos assuntos e para diversas situações (revistas, discursos, etc). Foi lançado postumamente por sua esposa e colaboradora Ann Druyan.

Os artigos são agrupados em três seções. Na primeira delas, sob o título de “O Poder e a Beleza da Quantificação”, seis artigos apresentam, de forma muito didática, a beleza da matemática e dos números. Mas não é só isto (como diria o locutor do 1406), além da matemática, ele vai inserindo informações sobre física, química, biologia e aproveitando para contar um pouco de história. Além de didática, tudo fica de uma forma fluída e cativante. Me levou a pensar: será que é tão difícil assim para nossos educadores desenvolverem uma nova forma de transmitir o conteúdo para os alunos? Será que precisa separar tudo em “categorias” específicas e fazer com que os estudantes apenas decorem o conteúdo, sem saber como as coisas se relacionam e quais as aplicações práticas? A mim me parece que é pura preguiça, já que caso o estudo fosse desta forma, ele deveriam ter conhecimento em várias áreas, inclusive muitas nas quais eles não se sentem confortáveis.

Em “O que os Conservadores estão Conservando?”, composto por sete artigos, Carl Sagan discorre sobre os impactos que o ser humano tem causado no mundo, quais suas prováveis consequências e como podemos brecar, ou ao menos minimizar o impacto negativo que temos exercido sobre a vida na terra. Um ponto importante que ele traz nestes artigos é que ele até entende o ataque que as empresas, pessoas e políticos ligados à indústria do petróleo faz à teoria do aquecimento global. O que não dá pra entender são pessoas que simplesmente “não acreditam no aquecimento global” lutarem contra. A prudência deveria fazer com que, havendo dúvida, no mínimo estas pessoas se propusessem a modificar seus hábitos (adotando combustíveis renováveis, reclicando lixo, etc).

Na última seção, denominada “Quando os Corações e as Mentes Entram em Conflito”, os temas são diversos, mas dois textos me chamaram muito a atenção. O primeiro foi “O inimigo comum”, um artigo que foi escrito por Sagan para ser publicado simultaneamente em duas importantes revistas, uma americana e uma russa, em tempos de guerra fria e que joga na cara o fato de que as duas grandes nações eram duas faces da mesma moeda, inclusive utilizando o mesmo modus operandi e que o estado de tensão só servia para os déspotas de plantão conquistarem e manterem poder (já havia abordado este ponto de vista em um texto na Feedback Magazine, aqui).

Mas o melhor artigo do livro (e sobre o assunto que eu já lí) é ‘Aborto: é possível ser “pró-vida” e “pró-escolha”?’, escrito em parceria com sua esposa. Ele destrincha as questões morais, históricas, biológicas e sociais para a liberação ou proibição do aborto. Muito interessante é o fato trazido à tona de que a bíblia não proíbe em nenhum lugar o aborto (existe apenas uma citação em toda a bíblia) e que até o meio do século 19 a igreja católica nem se preocupava com o assunto e passou a proibir em seus dogmas por um erro de interpretação de uma descoberta científica. Deveria ser um artigo obrigatório para qualquer um que queira debater o tema (achei o artigo aqui).

O último capítulo (“No Vale da Sombra”) e o epílogo (escrito pela Ann Druyan) mostram um pouco do final da vida deste gênio de nosso tempo, que foi acometido por um câncer contra o qual ele acabou perdendo a luta, mas nunca sem perder o amor pela vida, pelo mundo e pelas maravilhas da natureza.

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Maus – Art Spiegelman (11/2016)

Maus - Art SpiegelmanMuita coisa já foi contada sobre o holocausto judeu provocado pelo regime nacional socialista de Hitler durante a segunda guerra. Não faltam relatos, livros (como o comovente “Diário de Anne Frank) e filmes. O museu a céu aberto “Topografie des Terror”, em Berlin, retrata todo o período da ascenção do nazismo até a queda do muro com detalhes impressionantes, suportados por fotos, gravações, vídeos, reportagens e documentos da época.

Mas para mim nada foi mais impactante do que esta obra, que conta no formato de quadrinhos a saga da familia de Art Spiegelman, através da narrativa de seu pai, Vladek Spiegelman, um judeu polonês sobrevivente de Auchwitz.

São vários fatores que fazem com que o impacto seja maior do que qualquer outra coisa que já foi dita ou escrita sobre os horrores deste período negro de nossa história. O primeiro deles é justamente que a história é contada por um sobrevivente, ou seja, alguém que sentiu tudo aquilo na própria pele e que foi moldado pela situação.

O segundo fato é que durante o livro, o autor também escancara o seu difícil relacionamento com o pai, que também foi moldado por aquele período: o pai que exigia muito do filho, pelo fato deste não ter passado por tudo o que o pai tinha passado, enquanto o filho que se culpava por não ter sentido aquilo como seus pais.

E o terceiro é a forma magistral que Art Spiegelman usou para relatar isto. Ele poderia apenas ter escrito um livro, mas como chargista, preferiu traduzir tudo em quadrinhos, num estilo de “Orwelliano” de fábula, onde os judeus são retratados como ratos (Maus em alemão, o que acabou por prover um ótimo trocadilho com o português), os alemães como gatos, os poloneses como porcos, e assim por diante.

Eu já comentei algumas vezes que algumas obras (como A Peste de Camus, Ensaio Sobre a Cegueira do Saramago e mesmo o seriado The Walking Dead) lidam com a forma como o homem abandona qualquer resquício de humanidade quando colocado em situações extremas (e que ameacem os dois primeiros níveis da pirâmide de Maslow). Mas é importante também nunca esquecer que, instados por um líder ardiloso e adeptos de uma ideologia (ou religião), o homem nem precisa chegar à situações extremas para que abandone a sua humanidade, que foi o caso dos alemães, que se compraziam em matar judeus, ciganos, negros, gays, deficientes e qualquer coisa que fosse “diferente” deles mesmos. E que também alguns outros podem apenas seguir este grupo no famoso efeito manada, caso dos Poloneses e até de Judeus que se tornaram adeptos do nazismo.

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Nada De Novo No Front – Erich Maria Remarque (10/2016)

Nada de Novo no FrontAo dezoito anos, o autor viveu de perto as agruras da guerra lutando nas trincheiras alemãs durante a primeira guerra mundial. A guerra deixaria marcas em sua vida (inclusive físicas) que o levaram a tomar notas do que viu e viveu durante seu periodo lutando no front.

Estas anotações viriam a se tornar o romance “Nada de Novo no Front”, considerado uma das mais importantes obras pacifistas de toda a história. As obras de Remarque, que trazem a faceta real e nada gloriosa dos conflitos armados, lhe renderam diversos problemas durante a ascenção de Hitler, que culminaram no seu exílio e até na perda da cidadania alemã.

O livro conta a história do jovem Paul (que poderia ser o próprio Remarque) que, convencido por seus pais, professores e pela sociedade, se alista para lutar pelo exército alemão na primeira guerra e acaba chegando na frente oeste de combate.

A realidade nada glamorosa da guerra é exposta em várias estórias (ou histórias?) que são narradas por Paul, onde eles e seus amigos estão mais preocupados em não morrer de fome e ao menos resistir às várias agruras (além da guerra em sí, às doenças) para tentar voltar para uma vida que eles nem sabem qual é, já que, nesta idade, os sonhos foram todos abandonados.

Apesar de Paul estar sempre disposto a continuar lutando, não consegue entender (como ninguém consegue) o motivo da guerra e qual o seu propósito.

“…uma declaração de guerra deve ser uma espécie de festa do povo, com entradas e músicas, como nas touradas. Depois, os ministros e os generais dos dois países deveriam entrar na arena de calção de banho e, armados de cacetes, investirem uns sobre os outros. O último que ficasse de pé seria o vencedor. Seria mais simples e melhor do que isto aqui, onde quem luta não são os verdadeiros interessados.”

Uma das partes mais tocantes do livro é o momento em que, acuado e isolado em uma trincheira, Paul se vê forçado a matar um soldado francês com sua baioneta e pela primeira vez tem a oportunidade de verificar que aquele soldado é alguém como ele, que também tinha seus medos, tinha seus anseios, uma familia, ou seja, que também é um humano que está ali lutando por algo que não é seu. Assim que consegue fugir e ser resgatado, aquele ser humano deixa de existir e Paul volta a ser o “animal” que quer antes de tudo sobreviver, mesmo não tendo razões para isto.

Um dos melhores livros com a temática de guerra que eu já lí.

Be happy 🙂

Contato – Carl Sagan (09/2016)

Carl Sagan - ContatoCada vez que eu conheço uma nova obra do Carl Sagan eu fico mais convencido de que ele foi um dos grandes gênios do século XX. Em “Contato” ele se aventura em um romance, mas é claro que vindo do Sagan, mesmo um romance teria que ter ciência como pano de fundo.

O livro conta a estória de Ellie Arroway, uma radioastrônoma que tem como alvo a Pesquisa de Inteligência Extraterrestre. O livro inicia-se contando a infância e a adolescência da pequena Ellie, que desde cedo tem uma curiosidade natural para tentar entender os fenômenos naturais e as invenções humanas e, como todo curioso,  usa todo o seu ceticismo para questionar o por que das coisas (e neste caminho, encontra muita resistência de pessoas acostumadas com respostas simples, inclusive seus professores).

Nesta parte do livro ele frisa o quão importante é a curiosidade de uma criança, que muitas vezes é tolhida pela falta de paciência dos adultos, e também a importância de se questionar tudo, mas principalmente autoridades (a velha falácia do apelo à autoridade!).

Já na idade adulta e enquanto gerenciava um projeto de radioastronomia que vasculha o universo à procura de algum sinal alienígena, Ellie se depara com um sinal que pode ser uma mensagem de vida inteligente. A confirmação de que o sinal não é algo aleatório e que reamente continha uma Mensagem de seres de outros planetas desperta um frenesi mundial que viria a mudar o mundo como conhecemos (ou como era conhecido à época em que o livro foi escrito). Não vou entrar em detalhes do desenrolar da estória em sí, mas apenas frisar que, durante todo o texto ele coloca termos científicos que despertam o interesse dos mais habituados enquanto não torna a leitura algo complexa para quem não tem tanto interesse em ciência (no máximo basta interpretar os termos científicos como “invenções” do autor afim de realçar a estória).

O livro termina com uma teoria da conspiração digna dos episódios de Arquivo X, não sem antes passar por temas como política, religião, comportamento humano e inclusive relações pessoais (de Ellie com sua mãe e com seu padrasto).

Um ponto importante a se frisar é que, como um cientista e, consequentemente um cético, o Carl Sagan não “acreditava” na possibilidade de vida extraterrestre, mas também não afirmava ser impossível, ao contrário, ele até ansiava achar algum sinal de outras civilizações. Como também não acreditava em teorias da conspiração. Um verdadeiro cético aceita as possibilidades que são passíveis de serem provadas através de métodos científicos, ou no mínimo, a melhor hipótese para explicar algo, mas sempre vai estar aberto a novos pontos de vista. Ele traz estes pontos no livro justamente para dar uma “incrementada” na estória e realçar a necessidade de existirem provas para que algo possa ser aceito como uma “verdade absoluta” (o que é bem destacado no último trecho do livro). E verdades absolutas são muito raras. Tudo é questionável.

Como tudo do Sagan, deveria ser leitura obrigatória nas escolas.

Be happy 🙂

A Origem das Espécies – Charles Darwin (08/2016)

A Origem Das EspéciesPrimeiramente é bom frisar que o livro é resultado de um tratado cientifico e portanto não tem a pretensão de ter uma leitura fluida e amigável. A intenção principal é mostrar a teoria da evolução afim de explicar como os seres vivos surgiram e se disseminaram pelo nosso planeta.

E é exatamente o fato de ser um trabalho científico o que torna o livro fantástico. Durante as mais de 500 paginas Darwin vai explicando os pontos da teoria e como ele chegou as conclusões. Ele também tenta desconstruir argumentos contrários e que colocariam em cheque suas hipóteses, tanto argumentos levantados por outros cientistas quanto “testes” que ele mesmo faz contra suas teorias afim de evitar suas proprias falhas de observação e lógica.

Como seria impossível fazer um resumo de todo o trabalho (e seria muita pretensão minha), vou aproveitar o texto para falar de dois pontos relativos à ciência e a Darwin que muitos “distratores” da teoria levantam.

O primeiro é que muita gente alega que “é só uma teoria”. O conceito de teoria em ciência difere um pouco do uso da palavra no âmbito popular. Em ciência existem três “entes” principais: as leis, as teorias e as hipóteses. Leis são fenômenos que já foram completamente explicados e são imutáveis, tal como a lei de Newton: não há como contradizê-las, se você pular de um prédio vai se estropiar no chão. Teoria é uma hipótese que foi testada várias vezes e, até que surjam novas evidências para contradizer esta teoria, ela é aceita como sendo a hipótese mais provável. Hipótese é uma explicação provável para algum fenômeno, que deve ser testada (inclusive por outros cientistas) e confrontada até que a maioria das possibilidades se esgotem e, na falta de uma hipótese melhor, ela seja aceita como teoria.

No caso da Teoria da Evolução de Darwin, fatos subsequentes vieram apenas confirmar que esta é a hipótese mais provável. A descoberta de que os continentes não são fixos e que, há milhões de anos atrás, todos eles formavam juntos um grande continente, a Pangea, só vieram a explicar a hipótese do ancestral único de Darwin melhor do que ele mesmo tentou explicar. O mapeamento do DNA de diversos seres vieram a comprovar esta ligação, como o fato de que os humanos e as plantas compartilham quase 20% do DNA e praticamente todos os seres vivos compartilham, num menor ou maior grau, partes de DNA.

Uma outra história levantada especialmente pelos criacionistas é que Darwin teria, no seu leito de morte, “aceitado” a existência de Deus. Na verdade ele nunca negou a existência de um ser supremo e até cita “O Criador” várias vezes no livro. Há 150 anos atrás ninguém era ateu. Não havia o conhecimento que temos hoje e, de uma forma ou de outra, a existência de um ser superior era sempre a explicação final para os fenômenos naturais. Mesmo que ele fosse ateu e ao final da vida tivesse ele mesmo desacreditado toda a sua teoria, isto não faria com que todo o seu maravilhoso trabalho fosse jogado fora, pois como já mencionei, os argumentos e a descontrução dos argumentos contrários é muito forte e fatos posteriores só vieram a confirmar que as observações feitas à época tinham um fundamento. O que nos leva a classificar Darwin como um gênio, que somente através da observação viria a definir uma teoria que métodos científicos complexos, que só surgiriam mais de um século depois, viriam a confirmar.

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Cien Años de Soledad – Gabriel García Márquez (07/2016)

Cien-años-de-soledadEste foi o primeiro livro em espanhol que eu li e apesar de eu ter conseguido uma leitura fluída, tendo que recorrer poucas vezes ao dicionário (algo que não me espanta, já que consigo assistir até filmes do Almodovar, por exemplo, sem legendas), mesmo assim posso ter perdido um ou outro detalhe.

Mas com certeza não foi nada que tirou o brilho desta estória fantástica. Quando eu escrevi a resenha de “O Amor nos Tempos do Cólera” eu citei que apesar de o livro ser bom, eu tinha criado expectativas muito altas, que acabaram sendo frustadas (mas repito: o livro é bom). Então, desta vez baixei um pouco a expectativa e descobri um livro fantástico (inclusive no sentido de que é uma estória fantasiosa).

Cien Años de Soledad conta a saga da familia Buendia e do povo de Macondo, uma pequena cidade em algum lugar da América Central continental. A história de vida de cada uma das sete gerações dos Buendia se confundem com a própria história do povoado, desde a fundação da cidade pelo patrono da família, até a sua “desaparição” do mapa, ao mesmo tempo em que o último Buendia também morria, passando principalmente pelas Guerras na qual o Coronel Aureliano Buendia se envolve e nas quais acaba envolvendo toda a cidade, e também pelos dias de glória da passagem da Companhia Bananeira, que também encontram paralelo com os dias de glória dos gêmeos “Segundo”.

A estória tem de tudo: fantasia, romance, guerra, pseudo ciência, misticismo, dramas e tragédias. Ainda senti um pouco o problema do Gabo de ficar fazendo muitas idas e vindas no tempo, se preendendo mais ao personagem do que a uma linha cronológica, problema que em “Cien Años” se miniminiza pelo fato da maioria dos personagens ter uma vida “curta” do ponto de vista em que é importante para a estória (com exceção de Úrsula, a matriarca, que acompanhou os 100 anos, os demais personagens tem relevência por no máximo 20 anos), mas por outro lado se intensifica devido à quantidade de personagens e pelo fato dos nomes se repetirem ao longo das gerações. Mas este segundo ponto (repetição de nomes) acho que foi uma brincadeira proposital do autor. Mas que dá um trabalho para ligar os personagens, isto dá, e o interessante é ter uma árvore da família à mão (na edição que eu li, tinha).

O livro tem tantas estórias e aguça tanto a imaginação que durante a leitura eu sempre me perguntava do porque ainda não terem transformado em uma série de TV. E precisaria ser série, com pelo menos uma temporada para cada geração, pois a estória não se comportaria em apenas um filme. E ainda ficava imaginando quem poderia ser o diretor de alguns episódios: o  Tim Burton ou o David Lynch para as partes fantásticas, o Quentin Tarantino para as cenas de violência, etc.

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Pais para a Paz – Yumbad Baguun Parral (06/2016)

Pais Para A PazEste já é o terceiro livro do Parral que eu leio (veja as outras resenhas aqui e aqui) e cada vez mais fico impressionado com sua capacidade de perceber o mundo, organizar idéias e, principalmente, colocá-las no papel. Você pode até discordar de suas posições ou teorias, mas nunca negará que elas podem fazer sentido e que são muito bem explicadas e fundamentadas.

Neste livro, que foge dos outros dois por não ser um romance filosófico, ele discorre um pouco (bastante!) sobre os motivos que levaram o ser humano, o único dos seres vivos capaz de ter consciência da sua existência, de sua perenidade e de ser capaz de modificar o meio em que vive para adaptá-lo conscientemente às suas necessidades, ao invés de usar todas estas faculdades para viver de uma forma plena, em perfeito convívio com seus pares, com outros seres e com o meio, prefere subjugar os pares, exterminando no processo os demais seres e destruindo o meio. Nota: “viver plenamente” é o nome que eu dou para “aproveitar nossa efêmera passagem neste mundo da melhor maneira possível, sem interferir negativamente na vida dos outros”.

Partindo do princípio dos conceitos Darwinianos (A Origem das Espécies é o próximo da lista!) da manutenção e evolução da espécie, de que todos os seres estão aqui para perpetuar sua espécie, transmitindo o seu gene e, no conjunto de toda espécie, melhorando sua genética para que as próximas gerações da espécie sejam melhores (mais adaptadas ao meio) do que a atual, ele faz uma análise do que poderia ter acontecido no meio do caminho que fizesse com que, apesar da clara evolução biológica, nossa evolução como individuos racionais se deu por vias tortas, através do que ele chama de “perfil degenerado”, que se multiplica através da memética (a repetição de padrões comportamentais).

Inicialmente, este perfil degenerado conseguiu se propagar através da violência (vários “machos” rejeitados pelas fêmeas se juntaram para, em conjunto, eliminarem o macho alfa e assim dividirem o “butim” do grupo entre si). Com o passar do tempo, não bastava mais à este ser ter a melhor comida e as melhores fêmeas para passar seu gene adiante e quando o homem deixou de ser nômade, ter mais posses era o “diferencial”. Nesta época a maioria dos machos já era composta deste perfil e os mais inteligentes/ardilosos sabiam que já não seria mais possível convencer os demais a atacar o “macho alfa virtuoso”, que já estava em extinção, e então começou a criar formas de subjugar os demais através de artimanhas intelectuais, sendo as religiões e as ideologias políticas as mais comuns (mas não podemos esquecer também os nacionalismos extremos, afinal de contas, “Deus” e a Pátria são responsáveis pelos maiores massacres que ocorreram ao longo da história).

Parral prega no livro que, se queremos que no futuro a humanidade consiga conviver em paz com seus pares, com os outros seres e sem esgotar os recursos do nosso planeta, alguma coisa deve ser feita agora (e já estamos atrasados, na verdade) para que mudemos este perfil. Para tanto os pais (genitores) devem ser preparados para criar melhores pais (suas proles), que criarão melhores pais, reproduzindo também memeticamente, um bom perfil de ser humano.

O problema é que as próprias instituições criadas para subjulgar o perfil degenerado lutam contra. É só ver como as religiões pregam contra a implementação de educação científica, pensamento cético, além de lutar contra meios contraceptivos, de interrupção de gestações indesejadas ou qualquer tipo de planejamento familiar.

Achei muito interessante também, aproveitando este gancho das religiões, a teoria dele que diz que o ser humano pouco se preocupa com o meio ambiente (nosso planeta, nossa casa), em muito por conta das religiões, pois, se aqui deve ser um local para expiarmos nossos pecados para que possamos, enfim, merecer um paraíso em outro mundo (outra vida), além dele ser provisório e não precisarmos nos preocupar com o planeta, ele também deve ser (ou parecer) um “inferno”.

Mas voltando ao assunto principal, em seus pensamentos, Parral diz até que é dever de uma sociedade eventualmente impedir que alguns indivíduos sejam responsáveis por criar seus filhos, já que eles não teriam condições de criarem seres melhores para que tenhamos um mundo melhor.

Para concluir, achei bem interessante o conceito de que, o sucesso de um ser humano (homem ou mulher), é ver sua prole ser melhor do que ele, tanto no sentido físico, quanto intelectual, de caráter, etc. Significa que sua missão de perpetuar e melhorar a espécie foi cumprida com êxito!

É por meio do raciocínio que avaliamos o mundo, a vida e a realidade, e tomamos decisões sobre o que fazer ou deixar de fazer para obtermos o desempenho satisfatório nessa efêmera jornada que é nossa vidinha nessa vastidão de tempo e espaço a que temos o privilégio único em toda a eternidade de perceber e conceber para desfrutar a experiência única de se saber parte de tão extraordinário fenômeno, mesmo por tão pouco tempo e em tão pouco espaço. Por mais que exploremos a dimensão do nosso planeta e experimentemos o máximo de sensações que a vida nele possibilita, será sempre uma experiência efêmera e pobre em relação ao que fica por viver – dentro e fora dos seus limites, aos quais, intuímos poder transcender, e muito nos superamos para efetivar desta perspectiva. Mesmo assim, somos retirados de cena no melhor da festa, e muitas vezes, ainda a caminho da festa…

Be happy 🙂

O Vôo dos Pombos Mancos – Luiz Sales (05/2016)

O Voo dos Pombos MancosOutro dia em um almoço um colega de trabalho comentou que o pai dele havia escrito alguns livros (com um ou dois publicados, não me lembro a quantidade), achei bem legal e perguntei qual era o nome para ver se encontrava. Alguns dias depois o Roque (meu colega de trabalho) me trouxe “O Vôo dos Pombos Mancos”, a primeira publicação de seu pai, com direito a dedicatória e tudo!

O primeiro fato interessante é que o Seu Luiz Sales criou uma forma diferente de apresentar seus textos. Primeiramente ele criou um personagem/pseudônimo que é o “autor” dos textos, Lancelot Guimarães, que além de escritor “…também era fotógrafo, pintor, escultor e um excelente chefe de cozinha”. Mesmo dentro da literatura, Lance (como é carinhosamente chamado pelos amigos)  é bastante versátil, sendo dramaturgo, romancista, poeta, cantador e rapper. Acontece que Lance desaparece durante uma reportagem fotográfica no Afeganistão e seu amigo, Luiz Antonio D’Oliveira foi o incumbido, através do testamento, de cuidar da biografia e ser o curador da obra de Lancelot Guimarães.

D’Oliveira é o outro personagem/pseudônimo do autor, e a parte interessante é que o autor acaba sendo o biógrafo e o curador de sí mesmo, e mesmo assim com uma certa “distância”, uma certa isenção, provida pelos personagens/pseudônimos.

O livro é basicamente dividido em quatro partes. Na primeira, os dois Luizes (o Antônio d’Oliveira e o Sales) dão uma introdução de como Lancelot nasceu (cada um sob seu ponto de vista: o do personagem fictício e o do autor), cresceu e viveu.

A segunda parte é uma coleção de contos e crônicas. Até por ser muito prolixo, eu admiro os autores que conseguem sintetizar uma estória, com personagens, ambientes e roteiro em poucas páginas, então contos em particular me atraem bastante. Aqui não foi diferente, foi a parte que eu mais gostei do livro. Destaques para o conto-desabafo que dá nome ao livro e ao singelo “A Mocinha Morreu no Fim”.

Eu costumo dizer que não é que eu não goste de vinho, eu não tenho paladar para poder apreciá-lo. Eu não consigo perceber as diferenças de safra, de estilo. Para mim um vinho francês e um Sangue de Boi parecem exatamente iguais. O mesmo posso dizer dos poemas: eu não tenho “paladar” para poemas. Não que eu ache ruim ou chato. Simplesmente não entendo. Não consigo captar a subjetividade por trás dos versos. Até com música acontece isto e muitas vezes me pego entendendo o que o autor quis dizer em um determinado trecho 20 anos depois de ter escutado uma música pela primeira vez (e após ter escutado umas mil vezes). Então assim como fiz com Morte e Vida Severina, eu vou dizer que eu não tenho capacidade para dizer se a terceira parte do livro, uma coleção de poemas, é boa ou ruim.

Na quarta parte, Lancelot se vale do artifício dele mesmo ter um pseudônimo (já estamos no “quarto nível” de inception?….rs) e através de Inocêncio Baluarte nos presenteia com duas pequenas obras de Cordel: a primeira é “A Incrível Saga De Um Garnisé Que Fez Uma Cidade Tremer” que traz toda aquela malícia do duplo sentido tão comum neste tipo de literatura. A segunda obra é “A Revolução Da Robótica Na Constelação Do Serrado”, que além de citar Isaac Asimov, traz uma tirada de sarro com grupos ideológicos que podem ser encontrados hoje em dia em qualquer discussão de internet.

Para fechar com chave de ouro, alguns depoimentos que normalmente vimos nas contracapas de best sellers, com editores e jornalistas elogiando a obra. Claro que todos eles também dados por uma série de personagens fictícios de revistas, jornais e institutos também fictícios.

Be happy 🙂

Negrinha – Monteiro Lobato (04/2016)

NegrinhaFinalmente lí algo de Monteiro Lobato! Sério, apesar de sempre ter lido bastante, este foi o primeiro livro do grande escritor brasileiro que eu li. E nada melhor para ser apresentado a um escritor do que um livro de contos.

Além do conto que dá título ao livro, mais 20 contos, escritos ao longo de mais de 20 anos, compõem esta coletânea. Destaques para o próprio “Negrinha”, “Bugio Moqueado” (que podemos considerar uma estória de terror!), “O Fisco” (um conto que poderia ser transportado para os dias de hoje sem muitas adaptações) e o hilário “O colocador de pronomes” (para mim o melhor do livro).

Por terem sido escritos ao longo de mais de 20 anos, o livro é uma boa fotografia do Brasil das decadas de 20 e 30 e também da evolução de Monteiro Lobato tanto como escritor, como pessoa.

Monteiro Lobato tem sido acusado nos últimos anos de ser racista. Talvez por usar frases como “um preto que valia por dois brancos”, tirada totalmente do contexto, as pessoas chegam à esta conclusão. Mas toda idéia deve ser colocada no seu momento histórico e, há quase 100 anos atrás infelizmente era um pensamento comum achar que negros (ou índios, ou ciganos, etc) eram “humanos inferiores”. Se até hoje tem gente que tem este pensamento, é complicado julgar alguém que nasceu quando ainda havia escravidão no Brasil. Pior é quando este julgamento parte de pessoas que levam à letra um livro escrito há quase dois mil anos (a bíblia).

Mas nota-se, a exemplo de Gorki, um carinho de Monteiro Lobato para com os seus personagens, especialmente os negros (o próprio conto do título é uma crítica ao tratamento dispensado aos filhos de escravos que haviam nascido após a lei do ventre livre), muito presentes nos contos desta coleção.

Be happy 🙂

As Memórias do Livro – Geraldine Brooks (03/2016)

As Memorias do LivroConvidada a restaurar a famosa Hagadá de Sarajevo (que existe de verdade!), uma conservadora e restauradora de livros australiana encontra na obra uma série de evidências (cristais, pêlos, etc) que poderiam explicar a trajetória do livro, datado do século XV, até a sua recuperação no pós Guerra da Bósnia.

Na sua busca para identificar o que seriam cada uma das evidências, ela vai se deparando com informações inusitadas que servem de gancho para pequenos capítulos sobre a “biografia” do livro e que são intercalados com os próprios capítulos da estória de Hanna, a protagonista. Alguns destes capítulos são baseados em histórias reais, como as de um estudioso e um bibliotecário que esconderam a Hagadá, respectivamente, na Segunda Guerra (dos Alemães) e na Guerra da Bósnia (dos Sérvios). Curiosamente ambos eram Muçulmanos protegendo uma obra Judaica. Mas a maioria das estórias é fruto da imaginação da autora, que conseguiu amarrar muito bem a “memória” do livro com a estória da protagonista.

Como a Hagadá é um livro que narra uma tradição religiosa Judaica (no caso da Hagadá de Sarajevo, ela se destaca pela presença de iluminuras, coisa proibida na religião à época), nestas pequenas estórias que são intercaladas, um apanhado do que foi a história dos Judeus na Europa desde o século XV também é mostrado.

“Você tem uma sociedade na qual as pessoas toleram a diferença, como a Espanha na época da Convivencia, e tudo vai bem: criativo e próspero. De repente, esse medo, esse ódio, essa necessidade de demonizar ‘o outro’; isso meio que abala e aniquila toda a sociedade. Inquisição, nazismo, nacionalistas sérvios extremistas… a mesma velha história.”

Neste ponto, é interessante notar como as 3 maiores religiões ocidentais se comportam: ora são os cristãos que perseguem os judeus e os muçulmanos os protegem, ora é o contrário, com os judeus sempre se mantendo isolados das sociedades em que se inserem (por razões próprias), empreendendo fuga quando se encontram perseguidos e estando sempre sob um estado constante de tensão (até hoje!).

“…passei muitas noites em claro neste quarto pensando que a Hagadá veio a Sarajevo por um motivo. Ela estava aqui para nos testar, para ver se alguém aqui perceberia que aquilo que nos une é muito maior do que qualquer coisa que nos divida. Que ser humano é muito mais importante do que ser judeu ou muçulmano, católico ou ortodoxo.”

A escrita em sí é bem interessante, daquelas fluídas, que fazem a gente acabar o livro em questão de horas, e a autora também teve uma ótima sacada ao contar duas estórias em uma, tendo em uma delas um livro como personagem principal.

Recomendo principalmente a quem é afccionado por leitura.

P.S. Somente a titulo de curiosidade, o livro menciona dois judeus históricos, Abraham Seneor e Isaac Abravanel. Provavelmente são parentes distantes de Senor Abravanel, o nosso querido Silvio Santos!

Be happy 🙂