Arquivo anual: 2015

Wanderlust #18 – Cuba: história, economia e política (e minha opnião sobre tudo isto)

Cuba 01Eu sempre achei que extremismos são sempre ruins e, via de regra, quando alguém tem alguma opnião extrema sobre algo ele está errado. O mundo não é 0 e 1, não é preto e branco. Isto sempre me levou a ter uma curiosidade em conhecer os países socialistas, já que nunca achei que estes países fossem o inferno pregado pelos capitalistas e muito menos o paraíso pregado pelos socialistas/comunistas. Então resolvi aproveitar antes que o regime em Cuba caia (ou se adapte) para conhecer o país.

Mas antes de entrar nos detalhes da viagem, acho necessário entender um pouco o país. Porém antes da vaca fria vou dar alguns aviso para os meus poucos leitores:

  1. O texto vai ficar longo e não quero quebra-lo em partes, então prepare-se.
  2. As informações históricas eu retirei do guia que comprei, de informações obtidas lá e de algum ou outro site. Não vou ficar checando fonte, origem ou procurar opniões diferentes já que devem existir inúmeros livros, com inúmeros pontos de vista sobre a história e a atual situação cubana.
  3. Invariavelmente irei fazer paralelos da história e atual situação com os livros “A revolução dos bichos” e 1984, ambos do George Orwell.
  4. E mais importante: se você for um capitalista/anti-comunista fanático, você com certeza vai discordar de metade das minhas opniões e informações. Se você for um comunista/anti-capitalista (neste caso fanático seria redundância) também vai discordar de metade das minhas opniões. Minha sugestão: viaje a Cuba e tire suas próprias.

História
A Ilha de Cuba foi descoberta em 1492 por Cristóvão Colombo e foi anexada à Espanha em 1510. Durante a colonização da Ilha, as 3 tribos que a habitavam então foram dizimadas. Porém os espanhóis não encontraram o que procuravam na ilha (ouro e especiarias) e a abandonaram, preferindo explorar a parte continental das Américas.

Durante a exploração do continente e a necessidade de transporte dos bens até a Europa, Cuba passou a ser um ponto estratégico importante do ponto de vista logístico (talvez isto também explique o interesse do Brasil, Canadá, Alemanha e Espanha em investir no Porto de Mariel) e como primeiro ponto de defesa das outras colônias. Durante esta época, a Ilha era alvo constante de ataques de piratas e também neste mesmo período  iniciou-se a inserção de escravos trazidos da África.

No verão de 1762 a ilha foi finalmente conquistada pelos Ingleses após alguns anos de ataques mas foi logo devolvida à Espanha com a assinatura do Tratado de Paris, de 1763, em troca da Flórida. Foi quando ocorreu o que poderia se chamar de “segunda colonização da ilha”: devido ao incremento do comércio do açúcar a ilha passou a ser usada para produzir este bem. Isto também gerou uma onda ainda maior do comércio de escravos.

A cultura de cana de açúcar trouxe uma parte da aristocracia espanhola para a ilha, o que ajudou a moldar a cultura e, principalmente, a arquitetura. A mistura das culturas (e dos genes) dos espanhóis e dos africanos deu origem à cultura criola. Em meados de 1830 Cuba era o maior produtor mundial de açúcar e metade da sua população era composta por negros (libertos e escravos). A ilha já era habitada pela segunda, às vezes terceira geração dos decendentes dos colonizadores, que se sentiam mais cubanos do que espanhóis e que já almejavam uma independência. Para tanto, eles precisavam contar com a ajuda dos escravos e por isto a luta pela independência de Cuba aconteceu em conjunto com a luta pelo fim da escravidão. Depois de algumas guerras, a Espanha conseguiu subjulgar os rebeldes, que foram exilados nos EUA (o que viria a servir para estreitar as relações destes com os EUA) e, em 1886 a escravidão foi abolida como parte de um “pacote” que a Espanha prometera para aplacar os ímpetos dos rebeldes.

As guerras contra a Espanha foram retomadas em 1895 e em 1898, quando os cubanos já haviam praticamente vencido a Espanha, o cruzador Maine (que fora enviado à baia de Havana para proteger cidadãos e propriedades americanas em Cuba) explodiu misteriosamente, matando 250 marinheiros americanos. Os americanos culparam os espanhóis e encontraram uma razão para entrar na guerra. Em julho a frota espanhola foi finalmente derrotada pela frota americana e em dezembro do mesmo ano um acordo entre a Espanha e os EUA selou o fim do domínio colonial da Espanha nas Américas. Acordo este que não incluiu os cubanos e que, na prática, apenas transferia o domínio da colônia aos americanos. Alguns conflitos se seguiram e em 1901 uma assembléia aprovou a primeira constituição cubana e finalmente o primeiro presidente cubano tomou posse, apesar de ainda existirem fortes vínculos com os EUA.

A independência cubana finalmente aconteceu em 20 de maio de 1902, porém o país ainda viveria algumas décadas sob forte influência norte americana, que em várias oportunidades enviariam fuzileiros com o pretexto de proteger cidadãos e propriedades americanas.

Nos primeiros 20 e poucos anos da República Cubana, alguns avanços foram alcançados, tais como: educação pública gratuíta, liberdade de associação e expressão, separação entre Igreja e Estado. A cultura de cana de açúcar se tornou praticamente a única atividade econômica de Cuba, o que beneficiava alguns, porém a grande maioria não se beneficiou e não via muita diferença entre ser colônia e ser um país independente. Em 1925 surgiram os primeiros sindicatos e o Partido Comunista Cubano. Neste mesmo ano, Gerardo Machado tornou-se presidente e viria a alterar a constituição para poder governar por mais um mandato, o que fez com tirania e violência.

A situação do povo piorou ainda mais com a grande depressão e após uma longa greve geral e a perda do apoio do exército, Machado fugiu. À partir dai, vários presidentes, considerados apenas marionetes do Sargento Fulgêncio Batista, se revezaram no poder. Durante este tempo algumas reformas foram implementadas, como a jornada de oito horas diárias e o voto feminino. Em 1952 Batista deu um golpe, se tornando presidente e durante esta década ele praticamente vendeu a Ilha aos americanos (especialmente aos mafiosos). Cuba se tornou um puteiro onde os americanos iam jogar, consumir drogas e contratar prostitutas.

Carretera Sibonay e o um dos memoriais aos rebeldes executados após o assalto ao Cuartel de Moncada

Carretera Sibonay e o um dos memoriais aos rebeldes executados após o assalto ao Cuartel de Moncada

Em 1953 o jovem advogado Fidel Alejandro Castro Ruz denunciou a ilegitimidade do governo de Batista à magistratura. Como isto não surtiu efeito, Fidel alugou um pequeno sítio em Sibonay, na grande Santiago de Cuba, e organizou ali uma revolta. Em 26 de Julho de 1953, no último dia do Carnaval cubano (Santiago é famosa por seu carnaval), tentando se aproveitarem do estado de embriaguez dos soldados, os rebeldes tentaram um assalto ao Cuartel de Moncada. Dos 159 rebeldes então instalados no sítio, 155 participaram da empreitada (4 desistiram) que acabou por fracassar, já que os soldados que estavam em Moncada, além de terem um arsenal melhor, estavam entrincheirados. Além disto, vários dos carros que levariam combatentes e armamento se perderam em Santiago pelo fato dos ocupantes não conhecerem a cidade. 6 rebeldes morreram durante o ataque e 55 deles foram mortos posteriormente. Para “disfarçar” as execuções sumárias, o exército de Batista espalhou os corpos destes 55 rebeldes pela Carretera de Sibonay, a estrada onde se encontrava o sítio e que terminava em Santiago. Hoje em dia existem memoriais para estes rebeldes, nos lugares onde os corpos foram abandonados, em que constam somente o primeiro nome e a profissão de cada um dos executados.

Fidel foi preso, junto com seu irmão Raul. Após dois anos de prisão uma anistia foi concedida e os dois foram exilados no México, onde viriam a conhecer o jovem médico argentino Ernesto “Che” Guevara. Juntos com Che e contando com a ajuda de outros exilados e de rebeldes ainda presentes na Ilha eles organizaram novamente a revolução. Raul, Fidel, Che, Camilo Cienfuegos e mais 78 membros da revolução embarcaram no iate Granma (projetado para 12 pessoas) em 25 de novembro de 1956 com destino as Playas Coloradas, no leste de Cuba (conhecido como oriente entre os cubanos). A chegada estava prevista para 30 de novembro porém,  devido a alguns contratempos o navio só chegou à costa cubana no dia 2 de dezembro e três dias depois foi atacado pelas tropas de Batista, onde grande parte dos rebeldes foi  morta (durante a batalha ou posteriormente). Alguns poucos, entre eles Fidel, Raul, Che e Camilo conseguiram escapar e se refugiar na Sierra Maestra onde camponeses, estudantes e desertores do exército regular se juntaram à eles para reorganizar a guerrilha. Eles ficaram conhecidos como “barbudos”, pois no meio da selva e com outras coisas para se preocupar, deixaram de se barbear.

A crescente insatisfação do povo com os demandos de Batista, em conjunto com a “conscientização” da população feita através da Rádio Rebelde, uma rádio pirata montada por Che e que transmitia os ideiais da revolução, fez com que, após dois anos de guerrilhas e conquistando cada espaço, a revolução conseguisse dominar as principais cidades cubanas (praticamente o leste de Cuba inteiro). Em outubro de 1958, a coluna liderada por Che e Cienfuegos parte rumo ao oeste e consegue tomar Santa Clara (que fica a 300 kilômetros de Havana) em 31 de dezembro. Batista foge para Santo Domingo, Fidel entra em Havana em 8 de janeiro de 1959 e é aclamado primeiro-ministro.

Uma grande campanha contra o analfabetismo é a grande primeira bandeira dos novos governantes, que consegue extinguir o analfabetismo em pouco tempo. Outro passo foi uma reforma agrária, só que para que isto acontecesse, muitas propriedades de latinfundiários norte americanos foram nacionalizadas, o que iniciou as hostilidades entre os dois países e fez com que, em outubro de 1960, os EUA declarassem um boicote econômico, bloqueando a exportação de petróleo para Cuba e a importação de açúcar cubano. Isto só fez estreitar as relações de Cuba com os países da cortina de ferro, alinhados ideológicamente. Preocupado com a influência soviética, os EUA patrocinam uma tentativa de invasão à Cuba, que ficou conhecida como o “incidente da baia dos Porcos” (Playa Girón), no qual os contra revolucionários foram derrotados, o que acirrou mais as animosidades. Oito dias depois, o presidente Kennedy declarou um embargo comercial à Cuba, no que foi seguido por quase todos os países das Américas, com exceção do Canadá e do México. Desta vez as relações diplomáticas também foram cortadas.

Raul assina com Kruschov, no mesmo ano, um tratado para instalação de mísseis nucleares na ilha e, um ano mais tarde, quandos os EUA descobrem a presença destes mísseis, ocorre a famosa “Crise dos Mísseis”, talvez o momento em que a humanidade talvez esteve mais perto da extinção por conta de uma guerra nuclear.

Em 1980 Cuba abre as portas do turismo para cidadãos de países não alinhados com o comunismo. Em 1990, logo após o colapso do comunismo, Cuba enfrenta um dos períodos mais difíceis da sua história, o que persistiu até 1994.

Desde então, muito por influência de Raul Castro, mesmo antes deste assumir a presidência do país, Cuba vem implementando algumas reformas, como a possibilidade de negócios privados, a permissão do uso do dólar no país (afim de incrementar o turismo) e, mais recentemente, temos visto uma aproximação de Cuba com os EUA que tende, num futuro bem próximo, a resultar no fim do embargo comercial.

Política
O primeiro ponto a citar aqui é que: sim, os cubanos votam! Existem conselhos de bairro onde os representantes são eleitos através do voto direto. Para o legislativo nos níveis municipal, de províncias (o equivalente aos estados brasileiros) e mesmo no federal, os representantes são eleitos através de voto direto. Para os cargos executivos, as eleições acontecem através destas câmaras (municipais, provinciais e nacionais), como acontece em algumas outras democracias.

Isto quer dizer que Cuba é uma democracia? Também não! Dois dos principais pilares dos sistemas democráticos de fato são a liberdade para criar associações (sindicatos, partidos, conselhos, etc) e a liberdade de expressão e isto, infelizmente, não existe em Cuba. Toda associação política deve ter prévia aprovação do PCC, o Partido Comunista Cubano, que é o único partido político, ou seja, você vota, mas somente em membros de um mesmo partido e que, por razões óbvias, compartilham da mesma ideologia.

Além disto, existem diversas restrições quanto à liberdade de expressão e liberdades individuais: o cubano precisa de autorização para deixar o país e tem muitas, mas muitas restrições no que se refere ao acesso à informação. Todos os canais de TV e as estações de rádio são estatais, assim como os jornais e revistas. A Internet é inacessível à maioria dos cubanos por conta do custo. Mesmo aqueles que conseguem ter acesso à Internet são impossibitados de usar e-mail (a não ser para fins estritamente comerciais) e de acessar diversos sites, que são previamente bloqueados.

Economia
Talvez este seja o ponto mais complicado de entender.

A moeda oficial em Cuba é o Peso Cubano (CUP), que é utilizado para pagar salários e consequentemente para que a população local adquira bens de consumo. Porém, como o CUP é muito desvalorizado em relação à outras moedas (vale cerca de 25 vezes menos que o Euro e 8 vezes menos que o Real) e como boa parte dos bens, especialmente os industrializados, é importado, o governo subsidia uma grande parte dos bens básicos necessários à população. Como a grana do Estado geralmente é curta na maioria dos países, e também para evitar que pessoas que não precisem deste subsídio (turistas e os trabalhadores do turismo, que ganham gorjetas em CUCs, já falo dele) se aproveitem dos subsídios, o governo utiliza um sistema de cupons de racionamento.

Com a abertura e a expansão do turismo na ilha, os preços para turistas eram cobrados em dólar, afim de trazer divisas para o país, e isto começou a fazer com que muitos dólares começassem a circular pela ilha. Para reduzir a circulação de dólares, o governo criou em 2004 o Peso Conversível (CUC, que mantem uma certa paridade com o Euro).

Através dos cupons (na verdade cadernetas) cada cidadão cubano tem direito a, por exemplo, 1 frango a cada quinzena, um quilo de arroz, duas latas de pescado enlatado e meio litro de óleo a cada dez dias, e por ai vai. Qualquer coisa acima da cota teria que ser comprada em mercados que operam sem subsídios e em CUCs, o que invariavelmente torna o bem muito caro. Além disto, alguns bens não são subsidiados e se tornam inviáveis para um cubano que obtenha uma renda apenas em CUPs.

Para exemplificar: um médico cubano ganha cerca de mil pesos cubanos mensais (1000 CUPs), o que equivale em CUCs (ou Euros) a apenas 40. Em 2009 o governo liberou a importação de carros usados para a ilha. Supondo que um carro seja vendido a 5000 CUCs/Euros, um médico teria que trabalhar 125 meses, ou quase 10 anos e meio, para conseguir comprar um carro.

Uma cerveja em um mercado que não vende bens subsidiados custa cerca de 1 CUC, o que para muita gente corresponde a 10% do salário. Eu tomei um sorvete na ótima sorveteria Copellia (se tem uma coisa que Cuba poderia exportar é sorvete, muito bons) e paguei 1 peso cubano/CUP (alguns bens que são produzidos na ilha não são subsidiados e portanto, não são racionados), ou o equivalente a 4 centavos de CUC/Euro, apenas R$ 0,12.

Esta diferença acabou por criar uma nova classe social em Cuba (“todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”, vide Revolução dos Bichos), a dos trabalhadores do turismo, que eventualmente cobram em CUCs e também recebem gorjetas nesta moeda. Um taxista pode em apenas 2 ou 3 corridas ganhar o que ganha um médico por mês. Esta “classe social” em conjunto com o núcleo central do PCC e mais alguns funcionários de alto escalão (vide 1984), especialmente os dirigentes políticos e os militares (os porcos e os cães, vide Revolução dos Bichos novamente), mostra que mesmo em um sistema que pretende eliminar as diferenças de classes, acaba por criar outras.

O que eu acho de tudo isto?
Em um artigo na Feedback Magazine em novembro de 2013 (leia aqui) eu disse que “a diferença entre revolução e golpe é apenas de perspectiva: se vai de encontro aos seus ideais, você enxerga como revolução, se vai contra, como golpe.” (esta frase um dia será usada como citação….hahaha). A “revolução” que houve em Cuba no final da década de 50 apenas substituiu uma ditadura por outra. Qual delas foi mais cruel ao combater seus inimigos, nunca se saberá. Ao menos uma coisa é certa: ao menos Fidel e os líderes da revolução sempre foram machos e sempre estiveram no front de batalha, ao contrário de muitos outros ditadores, que sempre sentaram a bunda em uma cadeira de um belo escritório, muito bem protegido, enquanto os “peões” literalmente se matavam para garantir o poder à estes e, no caso específico do Batista (mas cabe a muitos outros déspotas), quando vêm que a coisa vai apertar, tratam de fugir.

Não se pode negar os avanços sociais conseguidos pelo governo socialista cubano: erradicação do analfabetismo, erradicação de várias doenças que ainda assolam outros países, inclusive o Brasil (Malária, Dengue e Febre Amarela, por exemplo), a segunda menor taxa de mortalidade infantil e a maior expectativa de vida das Américas (perde apenas para o Canadá em ambos os critérios). Só que também não se pode negar que alguns destes números já eram muito baixos mesmo durante a época de Batista: a taxa de mortalidade infantil já era a segunda menor na década de 50 e a expectativa era a 5ª menor na mesma década (além de Canadá, só ficava abaixo de EUA, Uruguai e Argentina, mas muito à frente da média da América Latina e do Brasil).

A falta de democracia plena, do acesso pleno à informação e a liberdade de expressão provavelmente são hoje os maiores problemas de Cuba. Como disse Carl Sagan no ótimo “O Mundo Assombrado pelos Demônios” (tem uma resenha minha aqui), a falta de liberdades de expressão e acesso à informação tolhe o pensamento crítico, que é base para as descobertas científicas que geram desenvolvimento. E como conclui Thomas Piketty no também ótimo “O Capital no Século XXI” (ainda estou lendo), a produção e disseminação de conhecimento é o fator que reduz as diferenças sociais, tanto dentro de um país, quanto entre países (eu já tinha chegado à esta conclusão quando estive na Alemanha, está neste artigo). O problema porém é que com liberdades vêm os questionamentos, e ai seria impossível manter o regime como hoje.

As pessoas de Santiago de Cuba, a segunda maior cidade de Cuba, com apenas 500 mil habitantes e com um fluxo bem menor de turistas ainda têm uma enorme fé no socialismo e acreditam piamente que o PCC sempre faz o melhor para eles. Porém, os habitantes de Havana, que têm muito mais contato com turistas, ou seja, de uma forma rudimentar têm um acesso maior à informação, já começam a questionar se o sistema é realmente bom.

Se até pouco tempo atrás eles viam apenas Europeus e Norte Americanos desfilando pela cidade e consumindo somas inimagináveis de dinheiro para um cubano comum (como disse, 1000 Euros são 25 salários de um médico), nos últimos 15 anos eles têm vistos Panamenhos, Costa Riquenhos, Brasileiros, Mexicanos, e outros latinoamericanos com o mesmo poder aquisitivo e capacidade de consumo dos antigos “imperialistas” e agora questionam a razão pela qual eles (os cubanos comuns) só podem comer pescados enlatados, enquanto os turistas podem comprar pescados frescos, além de acesso à outros bens, muitas vezes básicos para nós (um isqueiro, uma caneta, um batom, um sabonete).

O cubano com quem conversei e que levantou a questão do pescado tem a esperança de que quando o embargo americano for retirado, os americanos irão em peso investir na ilha, especialmente na industria açucareira, que se deteriorou durante o regime socialista. Porém, me questiono se os americanos estariam dispostos a aceitar o risco de investir no país sem a certeza de que regras serão respeitadas, já que eles já passaram no passado por expropriações e nacionalizações promovidas pelo mesmo regime. E se decidirem investir, qual a taxa de retorno que esperam para compensar estes riscos.

É claro que, após o fim do embargo (que está muito próximo, acredito eu), o fluxo de turistas americanos irá aumentar muito (hoje em dia um americano que queira ir à Cuba tem que comprar passagem em outro país), o que invariávelmente traria um fluxo alto de dinheiro para a ilha durante algum tempo (até passar o fator novidade). Porém creio que o embargo é o menor dos problemas de Cuba, já que eles têm relações comerciais com quase todos os outros países e mesmo assim ainda é um país que carece de muitos bens hoje comuns à maioria dos outros latinoamericanos.

Agora, existem três coisas que os cubanos têm e que são de causar inveja a nós, brasileiros. A primeira delas é educação: todo cubano passa ao menos 11 anos na escola e todo cubano têm acesso à educação superior, totalmente gratuitos. Aliás, o Brasil precisa rever o seu modelo educacional: creio que em nenhum dos países desenvolvidos a educação fundamental e média é um negócio que visa lucro e em pouquíssimos casos o ensino superior também tem esta função “capitalista” (mesmo nos EUA as Universidades, em sua maioria, são fundações sem fins lucrativos e qualquer mensalidade, que normalmente é paga somente por estrangeiros, é revertida em prol da própria instituição).

A segunda é o acesso à saúde. Qualquer cubano tem tratamento médico de alta qualidade, já que a medicina e a indústria farmacêutica cubana, ambas estatais, estão reconhecidamente entre as melhores do mundo. Como já citei, a taxa de mortalidade e a expectativa de vida em Cuba ficam à frente dos EUA, não se morre em Cuba, por exemplo, de diarréia (como ocorre nos rincões do Brasil), 98% das casas são atendidas por esgoto e 91% têm água potável encanada. Só para citar alguns dados.

O terceiro fator em que Cuba é diferenciada é de causar muita inveja, não só a Brasileiros, mas a americanos e europeus também: a segurança em Cuba é uma coisa impressionante! Você pode andar de madrugada por qualquer lugar sem nenhum problema. Pode deixar seu celular em cima da mesa de um restaurante sem ter que ficar vigiando. Pode, estando na praia, deixar sua câmera fotográfica na cadeira e ir dar um mergulho, que quando voltar ela estará lá. Nos primeiros dias você até pergunta ao garçom se pode deixar um óculos em cima da mesa enquanto vai ao buffet se servir e ele dá risada, já que não passa pela cabeça dele qual seria o problema. E apesar disto não se têm uma sensação de que se está sendo vigiado. O que eles não têm e que temos de sobra aqui no Brasil é a sensação de impunidade.

Que os cubanos tem suas dificuldades isto é óbvio, mas é óbvio também que eles têm muitas benesses (educação, segurança, saúde) e que, a seu modo, vivem uma vida relativamente confortável. Lhes falta muita coisa, mas não creio que os cubanos, no geral, sejam mais pobres ou vivam em piores condições do que os moradores das periferias das grandes cidades brasileiras, como São Paulo ou Rio. Aliás, fui à Salvador no final de março e garanto que Cuba não é mais pobre que a Bahia.

Be happy! 🙂

Cuba 03

Botecando #54 – Choperia O Pátio – São Paulo – SP

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Criançada pirando no Reggae!

A “Choperia o Pátio” fica dentro de um pequeno shopping no bairro do Tremembé. Este shopping tem uma pequena praça de alimentação onde se encontra a choperia. A choperia em sí não tem nada de mais: vende as cervejas padrão (original) e chopp Brahma.

O atendimento não é lá estas coisas, pois os garçons são meio lentos e atrapalhados, mas são simpáticos e atenciosos, assim como o proprietário do local, que geralmente se encontra lá durante boa parte do horário de atendimento da casa.

A casa em sí não teria destaque nenhum (apesar de um amigo ter comentado que servem um ótimo parmegiana na hora do almoço), mas a atração musical das noites de sábado faz com que valha a pena se locomover até este bar, que fica um pouco mais afastado das regiões boêmias, inclusive da Zona Norte: Reggae ao vivo!

Acho que desde que o Radiola São Luiz, que ficava na Mourato Coelho, fechou eu não conheci mais nenhum outro lugar que tenha ao menos uma noite por semana dedicada ao reggae, especialmente contando com banda ao vivo.

Na última vez que fui no Pátio (uns 12 anos atrás), o Reggae ocorria nas noites de domingo e era tocado por uma ótima banda que tinham dois cantores / tocadores de tambor de aço originários da Costa do Marfim como componentes principais. Atualmente a noite reggae ocorre aos sábados e a banda Still Roots (acho que é um trocadilho com “steel drums”, que é o nome em inglês do instrumento) é que comanda, com muita competência, o som.

Eu que não sou um aficcionado por reggae acho que vale a pena encarar a distância e ir curtir o som que rola no Pátio. Para quem é fã do ritmo, acho que é imperdível. Coloquei dois vídeos abaixo para que tenham uma amostra.

Onde: Choperia O Pátio (Avenida Maria Amália Lopes de Azevedo, 89 – São Paulo – SP)
Quando:04/04/2015
Bom: musica.
Ruim: os garçons, apesar de simpáticos, são meio lentos e atrapalhados.
Site: http://www.choperiaopatio.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/ChopeeriaOPatio

Botecando #53 – Umbabarauma – São Paulo – SP

IMG-20150402-WA0031Como já disse algumas vezes, os bares mais legais da Vila atualmente estão se localizando fora da região da Aspicuelta / Mourato / Fradique e ficando mais na “periferia” da Vila.

O Umbabarauma é um destes bares, se localizando na Rodésia, a poucos metros do Metrô Vila Madalena. Ele fica em um antigo imóvel residencial que foi adaptado para se tornar um bar, porém, felizmente boa parte da estrutura (como as paredes que separariam os cômodos) foi mantida e apenas adaptada. Lembra um pouco o Ó do Borogodó com os tijolos das paredes pintados. É um imóvel pequeno, mas bem aconchegante.

20150402_204550O pessoal que trabalha na casa é bem atencioso e simpático. O cardápio oferece uma variedade interessante de cervejas (Heineken, Amstel, além das brasileiras) e comidas. Destaque para a explicação dos ingredientes e sua origem em cada um dos pratos. Infelizmente não gostei muito da minha escolha de petisco (linguiça curtida crua), mas não que fosse mal feito ou usasse produtos de má qualidade. Apenas não caiu bem no meu paladar.

Ambiente legal, staff atencioso e cerveja gelada. Para completar, às quintas feiras das 19:30 as 22:00 horas rola o Samba de Madalena, um grupo de samba formado somente por mulheres que sempre traz alguns convidados para sua roda de samba semanal. O grupo manda alguns clássicos do Samba sem esquecer de coisas mais atuais.

Gostei bastante do Umbabarauma e já virou opção para as quintas quando quiser tomar uma cerveja no happy hour. Mas vou ir qualquer dia numa quarta para ver a roda de Choro que ocorre semanalmente também.

Onde: Umbabarauma (Rua Rodésia, 128 – São Paulo – SP)
Quando:02/04/2015
Bom: musica, decoração, ambiente, atendimento, tudo.
Ruim: nada (tá bom, não gostei muito da porção que pedi).
Site: http://www.umbabarauma.com.br/

O Mundo Assombrado pelos Demônios – Carl Sagan (11/2015)

O Mundo Assombrado Pelos DemôniosCarl Sagan foi um famoso físico americano e é mais conhecido no Brasil por conta do vídeo “Pale Blue Point” (o pálido ponto azul), que é um vídeo em que ele mostra didadicamente o tamanho e a insignificância do nosso planeta dentro do universo, clamando pela preservação do planeta, já que é o único que temos. O engraçado é que já vi muita gente compartilhando o vídeo para “exaltar as maravilhas de Deus” que criou um universo todinho só para nos colocar nele, quando na verdade o Sagan diz exatamente o contrário: o universo é gigante e o fato de um pequeno planeta de uma pequena galáxia dentro desta imensidão conseguir gerar e manter formas de vida foi um mero acaso que ocorreu contra todas as probabilidades e por isto devemos aproveitar a nossa sorte.

Neste livro ele faz uma crítica a sociedade atual americana, que vem deixando a ciência de lado e se interessando por pseudociência, misticismo e até anticiência. Quando ele fala dos “demônios”, ele quer dizer justamente as crendices populares, os misticismos e superstições que se travestem de ciência ou tentam usar pseudociência como bases (como a crença em ETs, Horóscopo, Nova Era, etc). Os 25 capítulos do livro tratam de 5 temas principais ligados à ciência.

Ele começa o livro explicando como se iniciou a paixão dele pela ciência, o que é a ciência e qual a importância dela para a humanidade (cura de doenças, produção de alimentos, etc). Ele passa pelos conflitos éticos provenientes das descobertas científicas (praticamente toda descoberta pode ser usada para o bem e para o mal, geralmente em termos equivalentes) e das situações em que elas causaram mal (mas apesar disto, ainda trouxeram benefícios).

Em seguida ele passa por alguns casos de pseudociência que foram utilizadas para suportar crendices da humanidade, passando, é claro, por uma análise da necessidade que o ser humano tem de crer em algo, o que na verdade provém em parte de uma preguiça em procurar explicações mais racionais (e simples) e preferir atribuir tudo aquilo que ele não entende a um ser supremo, a uma força superior (Deus, a força da Natureza, extraterrestres).

É interessante notar que ele não elimina nenhuma possibilidade (de que existam ETs, de que Deus exista, de que exista uma força superior), porém, existem tantas outras hipóteses a serem tentadas para explicar a leis da Natureza que chega a ser burrice a pessoa aceitar simplesmente um “é obra de Deus”. De qualquer forma, diferentemente do Dawkins, Sagan reconhece a importância social das crenças e até sua eficácia na cura de doenças psicossomáticas e neste ponto nota-se que o que mais o incomoda não são as crendices, mas sim quando elas interferem no curso da ciência ou na capacidade de uma pessoa ter pensamento cético.

Na “terceira parte” ele discorre justamente sobre o pensamento cético, que é a base para a ciência e é uma ferramenta libertadora, em todos os sentidos (econômica, política, social, etc).

Já a quarta parte faz duras críticas ao sistema educacional americano (desde a educação básica) e o fomento à pesquisa, já que existe um foco grande em formar técnicos e especialistas e, no caso da pesquisa, em financiar somente a pesquisa aplicada com objetivo determinado. O problema é que ao privilegiar a pesquisa aplicada, eles acabam por deixar de lado o livre pensamento e, através de exemplos, ele mostra que no longo prazo é o livre pensar quem cria as bases para a ciência aplicada. Ele cita o exemplo de James Maxwell, que durante as duas últimas décadas do século 19 descobriu a relação entre campos elétricos e magnéticos e desenvolveu as fórmulas que se tornariam base para vários inventos que ocorreram depois de 30, 40, 50 anos (e até hoje!), como o caso do Rádio, da TV, da comunicação por satélite, etc.

Junto à crítica ao sistema educacional (que ele diz que deve ser obrigação do Estado a não deve estar na mão da iniciativa privada), ele faz uma pequena crítica aos próprios pais, que tendem cada vez mais a deixar a parte da educação que lhes caberia à cargo da escola, como no trecho a seguir:

…Um relatório de 1994, encomendado pelo Departamento de Educação dos Estados Unidos observa:

“O dia escolar tradicional deve agora se adaptar a todo um conjunto de exigências, necessárias para o que se tem chamado ‘o novo trabalho das escolas’ – educação acerca de segurança pessoal, questões dos consumidores, AIDS, conservação e energia, vida familiar e curso de motorista.”

Assim, devido às deficiências da sociedade e às insuficiências da educação em casa, apenas cerca de três horas por dia são dedicadas, na escola secundária, às disciplinas acadêmicas básicas.

Esta parte me fez pensar que, se o sistema educacional americano, do ponto de vista dos especialistas, já estava ruim na década de 90, imagine como está agora. E imagine o sistema educacional brasileiro!

Na quinta e última parte ele discorre sobre liberdades, democracia e desenvolvimento científico e traz alguns exemplos de que quando existe liberdade e democracia a ciência avança em ritmo alucinante. Mas o inverso também é verdadeiro. Ele cita a própria União Soviética, cujo ritmo dos avanços tecnológicos foi diminuindo conforme foram diminuindo as liberdades de expressão e de pensamento e que o atraso na corrida tecnológica foi justamente uma das causas da ruina da própria União Soviética. Ele clama para que os povos nunca abram mão de suas liberdades, mas ao contrário, briguem por elas e que o povo seja o “dono” da nação, pois se o povo abre mão disto, sempre haverá um tirano (imprensa, políticos, ricos, igreja, etc) que gostaria de tomar o controle e, em tomando o controle, várias das conquistas científicas ficariam ameaçadas.

Achei o livro fantástico e recomendo até para aqueles que têm algum tipo de superstição ou crença. Acho inclusive que deveria ser leitura obrigatórias nas escolas.

Botecando #52 – Festa Santo Forte / Estúdio – São Paulo – SP

EstúdioVou falar primeiro do local e depois eu falo da festa.

O Estúdio é um grande espaço de eventos ali na Pedroso (do lado do Rancho do Serjão). Assim como o Centro Cultural Rio Verde, não é uma “balada” que abre normalmente todo dias, mas uma casa que acomoda festas temáticas e shows.

Eu gostei do espaço principalmente pelo tamanho do local e da boa área de fumantes. Ele lembra um pouco o antigo Urbano em termos de tamanho e decoração esparsa. Pelas irregularidades do piso, parece que o carpete foi jogado em cima de um chão de terra batida.

Apesar de eu ter achado o lugar legal (e pretender ir mais vezes), tem algumas coisas que não gostei. O primeiro é a quantidade de banheiros, que mesmo com a casa não estando lotada já se mostrou insuficiente, com longas filas nos banheiros das mulheres e eventualmente alguma fila no dos homens.

O segundo ponto eu nem sei se é responsabilidade da casa e/ou do organizador da festa, que é o preço da bebida. Eu falei que não iria reclamar mais de Original a 12 reais na Vila Madalena, mas isto é valor de garrafa de 600mls em lugares onde você não paga entrada. Na Festa Santo forte os 12 reais eram pagos por uma long neck Heineken em um evento sem música ao vivo onde a entrada era paga então achei um pouco abusivo.

20150329_051934Quanto à festa Santo Forte, que ocorre a cada 15 dias, achei muito interessante a idéia de realizar uma festa temática somente com músicas que fazem referência ao universo da cultura afro brasileira, especialmente as religiões e a capoeira (rolou muito samba, especialmente Paulo Cesar Pinheiro e Clara Nunes). O público é bastante heterogêneo e todo mundo estava ali afim de curtir a música e a festa e boa parte afim de curtir pegação.

Achei boa, mas ainda acho a Festa Odara mais legal, especialmente pelo público, que apesar de ser muito parecido, parece que vai mais afim de curtir uma festa, dançar, etc. Além de ter sempre uma banda ao vivo.

Onde: Estúdio (Rua Pedroso de Morais, 1036 – São Paulo – SP)
Quando:28/03/2015
Bom: tamanho da casa e área de fumantes.
Ruim: preço das bebidas e quantidade pequena de banheiros.
Facebook: Estúdio

Botecando #51 – Samba do Bule / Teatro Popular União e Olho Vivo – São Paulo – SP

20150328_002520O “Samba do Bule”, roda de samba que ocorre sempre na última sexta feira de cada mês no Teatro Popular União e Olho Vivo acontece desde 2007, porém ainda não havia ouvido falar nela.

O Teatro Popular União e Olho Vivo, que abriga o evento, se encontra em um terreno ali no final do Bom Retiro, quase na Marginal Tietê (perto das quadras da Tom Maior e da Gaviões). O terreno é grande, porém a parte construida, onde ocorreu o samba é pequena e, com a lotação do samba (que me surpreendeu positivamente!), chegou uma hora que você não conseguia entrar. Ainda bem que o tempo estava agradável, pois se estivesse chovendo ia ser um problema.

20150328_030257Para se ter idéia de como encheu, quando saí as 2:30 da manhã, ainda tinha fila de gente querendo entrar, já que estava naquele esquema de “só entra alguém quando sair alguém”.

Não existe “ingresso” e eles pedem uma contribuição não obrigatória com valor sugerido de R$ 5,00 (e avisam que pode ser mais ou menos, ou se a pessoa não quiser, nem precisa dar) para ajudar nos custos, que também são bancados com a venda de bebidas.

No caso do samba em sí eu senti um pouco de falta de mais sambas paulistas, já que eles acabaram se concentrando mais nos sambas do Rio (Cartola, Nelson Cavaquinho, Ze Keti, Candeia). Mas ao menos rolou um Geraldo Filme.

Como já havia falado, eu gosto destas rodas e festas que andam ocorrendo em São Paulo, especialmente porque geralmente a qualidade da música é melhor do que as das casas badaladas e o público também é diferente, com uma galera mais preocupada em aproveitar do que desfilar.

Este evento precisa de alguns “ajustes”, especialmente no que se refere a estimar a quantidade de pessoas certas para que não fique lotado e não rolem muitas filas, para que todos possam ver e ouvir o samba, etc. Mas só erra quem faz e só evolui quem tenta e eu fico muito feliz quando eu vejo uma galera botando a mão na massa, especialmente no intuito de manter viva uma tradição popular brasileira.

Onde: Teatro Popular União e Olho Vivo (Rua Nilton Prado, 766 – São Paulo – SP)
Quando:27/03/2015
Bom: samba e preços.
Ruim: lotou demais, então fez muita fila no banheiro e no caixa.
Site: http://www.sambadobule.com.br/http://tuov2010.blogspot.com.br/
Facebook: Samba do Bule e Teatro Popular União e Olho Vivo

 

Wanderlust #17 – Salvador, Bahia, Brasil

Elevardor Lacerda e Mercado Modelo, com a Baia de Todos os Santos ao fundo!

Elevardor Lacerda e Mercado Modelo, com a Baia de Todos os Santos ao fundo

Há tempos vinha querendo conhecer a Bahia e resolvi aproveitar o feriado do padroeiro de São José dos Campos para iniciar meu contato com a Bahia por Salvador. Mas a cidade me despertou sentimentos dúbios, dos quais falarei mais tarde. Primeiro vamos à um “giro” durante estes quatro dias.

Basílica do Senhor do Bonfim

Basílica do Senhor do Bonfim

A revista da Avianca que havia no avião trazia justamente uma reportagem sobre Salvador e foi interessante já ter umas primeiras impressões sobre a cidade, algumas dicas de pontos turísticos, etc. Durante a aproximação do avião à Salvador o que mais me chamou a atenção, ao olhar a cidade de cima, é a quantidade de favelas. Não aquelas favelas antigas feitas de barracos de madeira com teto de zinco, mas uma quantidade enorme de casas sem acabamento, especialmente nos morros.

Após chegar no hostel, que ficava no Largo do Pelourinho, e fazer o check in, aproveitei a tarde da quinta feira para conhecer a região do Pelourinho, passando pela Praça Terreiro de Jesus, Praça da Sé e me dirigi ao elevador Lacerda para seguir para a cidade baixa. Somente neste caminho pude realmente comprovar a quantidade enorme de igrejas existentes em Salvador (dizem que mais de 300!). Quanto ao elevador Lacerda, apesar de ser considerada uma atração turística, não tem nada demais: é apenas um elevador para que as pessoas evitem subir e descer as ladeiras e becos entre a cidade alta e a baixa.

Lagoa do Abaeté

Lagoa do Abaeté

Depois do elevador fui conhecer o Mercado Modelo, que é basicamente uma feira de artesanato e é uma boa opção para comprar souvenirs, tendo inclusive preços melhores do que as lojas do Pelourinho. Após uma passada rápida pelo mercado havia planejado andar até a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim pela orla. Só não sabia que a praia neste pedaço da cidade é inacessível, já que existem portos, construções, etc. A ida à pé não vale a pena como passeio turístico. Vale para ver a Salvador que não é feita para turista (e que é pobre) e mais algumas igrejas distribuidas pelo caminho. Além de notar que, depois de igrejas, o que mais existe em Salvador são escolas. Após uma hora de caminhada debaixo de um sol de mais de 30 graus, cheguei à Ladeira do Bonfim, que dá acesso ao Largo e à Igreja, que é simples, mas bonita, tanto externamente quanto internamente. Para quem acredita, vale amarrar uma fitinha nos portões e fazer os três pedidos (um para cada nó). O visual do Largo e da Igreja deve ser interessante à noite também.

Praia de Piatã

Praia de Piatã

Depois da visita tomei um táxi para voltar ao Mercado Modelo e almoçar por lá. Após o almoço, mais uma caminhada pela orla, agora no sentido norte, passando pela Baia Marina e o Museu de Arte Moderna da Bahia. Como já tinha realizado a programação do dia, peguei o Beco do Sodré (uma bela escadaria) para voltar à cidade alta, passando pela Ladeira da Preguiça (vizinha ao beco). Ambos desembocam na famosa Praça Castro Alves, que também tem mais uma Igreja (Nossa Senhora da Barroquinha) e fica próxima ao Mosteiro de São Bento (só ai já tinha passado ou visitado pelo menos umas 20 igrejas). Resolvi parar num bar (em frente à Igreja e Convento de São Francisco) para tomar algumas cervejas.

Para tomar umas cervejas à noite, seguindo recomendação de uma das atendentes do hostel, fui até a Cantina da Lua, que fica na Praça Terreiro de Jesus e oferece música ao vivo todos os dias. Como era uma quinta, estava rolando ritmos latinos com uma boa banda. Infelizmente a comida lá não é boa e só tinham cerveja Schin mas quebrou o galho num dia de semana.

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

No outro dia levantei cedo para continuar a conhecer a cidade. Caminhei no sentido contrário do Circuito Campo Grande dos trios elétricos da Praça Castro Alves até a Barra, que é o ponto de partida do circuito Barra-Ondina. O Farol da Barra e as duas praias que o cercam são bem bonitas. O visual da entrada da Baia de Todos os Santos   também impressiona pela beleza e imponência. Preferi não pagar os R$ 12,00 reais de entrada para o farol, que hoje abriga o Museu Náutico da Bahia e rumei para a Lagoa do Abaeté.

A Lagoa é bonita, mas pelo que eu tinha visto por fotos imaginava uma lagoa bem maior, cercada por barraquinhas, como se fosse uma praia de água doce. Até existe uma infraestrutura e estavam testando um sistema de som, provavelmente para alguma apresentação ao vivo à noite, mas durante o dia estava vazia. De qualquer forma, o visual da água azul esverdeada da lagoa, com a areia branca que o cerca e mais a vegetação é belo. Pena que havia um bando de Urubus ali para estragar a paisagem.

Ilha dos Frades

Ilha dos Frades

Da Lagoa até a famosa praia de Itapuã a distância é de apenas 15 minutos de caminhada e me dirigi até a famosa praia afim de “passar uma tarde em Itapuã”, como diria Vinicius, mas infelizmente desta vez não deu pois a orla estava toda em reforma. Então acabei andando mais uns 2 kilômetros atá a praia de PIatã, que já havia achado interessante no caminho de ida, principalmente por ser cercada de coqueiros e ser mais distante da avenida beira mar. Ali parei para tomar umas cervejas e algumas caipirinhas. Esta é uma praia que eu aconselho a passar algumas horas, apesar do mar ser um pouco sujo. Também é ótima pedida para surfistas, especialmente no final da tarde.

De volta ao hostel para uma descansada para depois ir até o bairro Rio Vermelho, a região boêmia de Salvador, para ver o movimento. Infelizmente acabei descansando demais, chegando no Rio Vermelho quase meia noite, horário em que os bares começam a ficar menos movimentados. Como não estava afim de pegar balada (nem levei roupa para isto), só comi uma pizza (muito boa!) e voltei para o hostel, pois tinha agendado um passeio de barco para o outro dia de manhã.

Ilha de Itaparica

Ilha de Itaparica

No sábado levantei cedo para fazer o passeio pelas Ilhas do Frade e de Itaparica. Felizmente não consegui vaga no Catamarã, que faria uma viagem mais rápida até as ilhas, e fui de escuna. Mas justamente a viagem em sí foi uma das melhores partes, pois o staff do navio (garçons, marinheiros e guias) era ótimo e a viagem toda aconteceu ao som de um grupo de samba.

A Ilha dos Frades é uma grande ilha dentro da Baia de Todos os Santos onde se encontram três pequenos vilarejos. A praia principal, que fica na Vila de Nossa Senhora de Guadalupe, é muito bonita e é onde está localizada a Igreja erguida em homenagem à santa. Vale a pena subir os mais de 100 degraus até a igreja para ter uma visão completa da praia. Diferentemente das praias de Salvador, na Ilha a água é limpa e com uma temperatura bem agradável. Após uma hora e meia na Ilha, voltamos à escuna para rumar à Ilha de Itaparica.

Lagoa do Abaeté

Lagoa do Abaeté

A Ilha de Itaparica já é praticamente uma cidade, porém ficamos em uma praia afastada, em um restaurante “pé na areia”. Existia a possibilidade de fazer um city tour pela ilha, mas preferi ficar por lá mesmo. Ali também o mar era bem limpo e calmo e a temperatura da água era até quente demais.

Após uma descansada rápida, desta vez resolvi ir mais cedo para a região do Rio Vermelho, para pegar algum bar. Seguindo recomendação de um amigo, resolvi ir no Red River Café. É um barzinho no estilo Vila Madalena, bem no local onde o rio que dá nome ao bairro se encontra com o mar. Tem uma área externa, onde paga-se somente o que consumir e uma parte fechada, onde estava ocorrendo o show Brasilady, da cantora Amanda Santiago, que é apadrinhada de Carlinhos Brown e já foi vocalista da Timbalada.

Igreja Nossa Senhora de Guadalupe

Igreja Nossa Senhora de Guadalupe

Gostei bastante do show, que é baseado em versões “abaianadas” de clássicos da música popular brasileira e também em composições próprias da artista. E claro que terminou em axé! Se estiver na Bahia e estiver rolando o show Brasilady, ou se “topar” com o show em algum outro local, eu recomendo.

No domingo, depois de comprar alguns souvenirs, aproveitei para conhecer a Fonte Nova em um jogo do Bahia pelo campeonato Baiano. O estádio é bonito, confortável e limpo, realmente padrão internacional (nem poderia ser diferente, pois foi usado na Copa do Mundo). É muito bom você ter bandeiras e baterias nos estádios e poder tomar uma cerveja, coisa que em São Paulo não existe mais. O jogo em sí também foi bom, mas é triste ver como o Brasileiro deixou de curtir futebol e aquele belo estádio estava com pouco mais de 8 mil pessoas em um jogo das oitavas de final do Baianão.

Bem, havia falado no início do texto que a cidade havia me despertado sentimentos dúbios e agora explico: realmente a cidade tem muita história (que particularmente me interessa) e alguns pontos de belezas naturais bem interessantes, porém o lado que eu não gostei muito foi a enorme quantidade de pedintes e vendedores de bugigangas, muitos destes mal intencionados e querendo levar vantagem. Muita gente se incomoda pelo fato de ser abordado em sí, mas o meu incômodo foi causado por existir tanta gente na cidade em situação de rua e na dependência de subempregos para sobreviver, quando não de atos ilícitos. Acho que não tinha visto tanta gente nesta situação antes, em nenhum dos lugares para onde já viajei, dentro ou fora do Brasil.

Igreja e Convento de Sao Francisco

Igreja e Convento de Sao Francisco

Outra coisa que me incomodou também foi que, apesar de ser a “cidade mais negra do Brasil” (estima-se que pelo menos 60% da população de Salvador seja composta por negros), existe um abismo enorme na situação dos negros em comparação com as demais etnias. Você nota claramente que os donos dos negócios, em sua grande maioria, são brancos (ou gringos) e os funcionários negros. Dentre este pessoal em situação de rua, a totalidade é composta por negros. No bar em que eu fui e nos outros lugares (restaurantes, bares, passeios, etc) que eu reparei, raramente existia um negro como cliente e quando existia eram turistas. Existe uma situação de “apartheid” muito grande lá, mais do que no restante do pais.

Tem gente que tira férias e consegue “abstrair” e focar somente na diversão, mas como para mim uma das principais experiências de viagem é justamente conhecer o povo do local, não consigo não me incomodar com algumas situações como esta. Tomara que da próxima vez que for à Bahia a situação tenha melhorado ao menos um pouco.

Fonte Nova

Fonte Nova

Observações, dicas e considerações:

  • A não ser que a grana esteja bem curta, não aconselho ficar hospedado no Pelourinho. Ficar na Barra, que fica mais próximo a algumas praias ou no Rio Vermelho, que é onde fica a vida noturna, é mais vantajoso.
  • Mas se a grana estiver curta e a hospedagem tiver que ser barata, sugiro o Hostel e Pousada País Tropical. O Staff é muito bom, os quartos são limpos e o café da manhã é até acima da média para um hostel. A única coisa ruim era o chuveiro, que tem apenas duas temperaturas: gelado Alaska ou quente inferno.
  • O Pelourinho é um tanto quanto perigoso (mais do que o Centro de São Paulo ou do Rio), especialmente à noite. Apesar de muito policiamento, ocorrem alguns furtos, especialmente de correntes e gargantilhas, portanto, evite usá-las (ou relógio), além de ficar dando mole com celular e máquina fotográfica (depois das 22:00 nem pense em levar máquina fotográfica).
  • Quando alguém te oferecer uma “fitinha do Bonfim” de graça, pode se preparar para dar uns 5 reais à pessoa….hahaha
  • Não sei se todos os passeios de barco são parecidos, mas aconselho a fazer o passeio às ilhas através da Apolônio Turismo (o quiosque deles fica no terminal de embarque em frente ao Mercado Modelo) e preferencialmente de escuna.
  • Achei o táxi um tanto caro lá. 120 reais do aeroporto até o Pelourinho (ok! É longe, mas não mais que Guarulhos do Centro de SP), 40, 50 reais do Pelourinho até o Rio Vermelho. Se for possível, tente pegar uma “coletividade” com um taxista e negociar preços prévios.
  • Se estiver sozinho e a grana estiver curta, a melhor opção durante o dia é o ônibus mesmo.
  • Para quem gosta de futebol, conhecer a Fonte Nova e assistir um jogo do Baêa é bem interessante.
  • Aliás, acho que o Vitória foi algo inventado pelo Bahia para que eles possam um adversário. Não vi um torcedor do Vitória, não vi bandeiras em bares, carros, pessoas com camisa, nada. Para não falar que não vi nada sobre o Vitória, quando chega na cidade o avião passa sobre o Barradão e é possível vê-lo quando se está do lado esquerdo da aeronave.

Be happy 🙂

Baia de Todos os Santos

Baia de Todos os Santos

Duas Narrativas Fantásticas – Fiódor Dostoiévski (10/2015)

Duas Narrativas FantásticasAs duas novelas constantes de “Duas Narrativas Fantásticas”, denominação dada pelo próprio Dostoiévski, foram publicadas inicialmente pelo autor no Diário de um Escritor, publicação mensal redigida pelo próprio autor entre 1876 e 1879.

Nas duas estórias, os respectivos personagens principais, que não têm nome, é quem são os narradores.

A Dócil

Em A Dócil, um usurário, já na casa dos 40 anos, refaz, ao lado do corpo da jovem mulher que havia acabado de cometer suicídio, todos os passos do relacionamento dos dois. Este homem, que já fora maltratado pela vida e de certa forma se vingava da sociedade através de sua profissão, ao tentar entender as razões que levaram a esposa a cometer o suicídio, percebe que ela também havia sido vítima de sua vingança.

Ao propor o casamento para a moça, ele está apenas pensando na sua “utilidade”, afinal de contas, ele planejava em três anos juntar dinheiro suficiente para comprar uma propriedade, se aposentar e constituir uma família e ela era uma peça neste seu plano. Para isto, ele estabelecer com ela uma relação de dominância e tenta fazer com que ela lhe seja subserviente. Quando esta moça resolve atentar contra este plano, ele começa a se dar conta que sente verdadeiro amor por ela.

Talvez como represália, ela comete o suicídio justamente no momento em que ele começa a tomar consciência deste amor e inclusive começa a abrir mão de suas posses e seus planos.

O Sonho de um Homem Ridículo

Nesta novela, o narrador é um homem melancólico, que se autodenomina “ridículo” e que age com indiferença à ele mesmo e à tudo aquilo que o cerca. Ao tentar cometer suicídio (simplesmente “deixar de ser/existir”), adormece em frente ao revolver e tem um sonho com o planeta terra em uma outra realidade, onde os habitantes ainda não perderam a inocência e vivem usufruindo da vida em comunhão uns com os outros e com todos os seres que os cercam.

É uma ótima reflexão sobre a velha pergunta de “qual é o sentido da vida?” e conta também com algumas críticas à sociedade da época, mas que caberiam muito bem na nossa sociedade atual. Pincei dois trechos que eu achei particularmente interessante:

“Mas a sua sabedoria era mais profunda e mais elevada que a da nossa ciência; uma vez que a nossa ciência busca explicar o que é a vida, ela mesma anseia por tomar consciência da vida para ensinar os outros a viver; ao passo que eles (os habitantes desta outra “terra”), mesmo sem ciência, sabiam como viver, e isso eu entendi, mas não conseguia entender a sua sabedoria.”

“…os ‘sábios’ esforçavam-se o mais depressa possível por exterminar todos os ‘não sábios’ que não entendiam a sua ideia, para que não interferissem no triunfo dela.”

Be happy 🙂

A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstói (09/2015)

A Morte de Ivan IlitchIvan Ilitch é um respeitado Juiz de Direito, morador de São Petesburgo, casado e com um casal de filhos, que vive uma digna, feliz e adequada, segundo tudo o que a sociedade lhe ensinou.

Porém ao se deparar com uma doença incurável, ele começa a enfrentar a dor de descobrir que sua vida não foi assim tão feliz como ele imaginava. O livro toca (e faz pensar) em três assuntos distintos mas relacionados entre si.

O primeiro é a relação que a maioria dos seres humanos tem com a morte e o fato de querer evitá-la à todo custo. Ivan, assim como todos que o cercam (inclusive os médicos que tentam tratá-lo), evitam a “entrega”, ou seja, a simplesmente aceitar que a morte vai chegar para ele, assim como vai chegar para todos.

O segundo assunto refere-se à compaixão (e empatia). Excetuando-se um empregado e seu filho adolescente, todos à sua volta parecem fazer parte de um grande teatro, mesmo quando vão visitá-lo e mesmo durante os funerais, sem se importarem ou se compadecerem dele com franqueza e do fundo da alma.

O terceiro assunto, acontece quando ele tem uma conversa com um “espírito” (acredito que não seja uma figura “divina”, mas sim com sua própria consciência) e ele pergunta o porque da morte e o espírito responde “para que viver?” (a vida que ele vivia). À partir daí ele começa a se questionar se aquela vida feliz era realmente feliz e adequada e fazendo um retrospecto ele chega à conclusão que os momentos realmente felizes, em que ele fez algo que reamente lhe dava prazer, e não porque alguém falou que dava prazer ou porque era daquele jeito que tinha que ser, eram os da infância e um pouco durante a faculdade.

Ele descobre que, durante toda a sua vida ele apenas seguiu o que as convenções sociais ditaram para ele: fez uma faculdade, galgou postos na vida profissional, casou com a mulher mais “adequada”, teve filhos, etc.

Como disse Milton Ratoun, que escreve a resenha das orelhas da capa deste livro, mais do que morte, o conto fala sobre vida e sobre como viver.

P.S. Impossível não pensar, ao ler o livro, em Canto Para Minha Morte e Quando Você Crescer, do gênio Raul Seixas!

Be happy 🙂

O Escaravelho do Diabo – Lúcia Machado de Almeida (08/2015)

O Escaravelho do DiaboEste é outro livro da literatura infanto-juvenil brasileira que todo mundo leu e eu ainda não tinha lido. E olha que posso contar nos dedos os poucos livros da famosa Coleção Vagalume que eu não lí.

Publicado pela primeira vez em 1956 na revista O Cruzeiro, em forma de folhetim (a cada semana um capítulo era publicado), o romance polícial, no estilo Agatha Christie, conta a história de Alberto, um estudante de medicina, cujo irmão foi brutalmente assassinado em um crime sem aparente razão e em que a polícia não conseguiu obter nenhuma pista sobre os motivos ou sobre o assassíno.

Porém, quando um outro assassinato ocorre na cidade, Alberto liga o caso ao do seu irmão por um detalhe: tanto seu irmão quanto a segunda vítima tinham os cabelos vermelhos. Além disto, durante a investigação da cena do novo crime, uma caixa com um besouro é descoberta, o que liga o crime ao de Hugo, irmão de Alberto, pois um besouro também havia sido encontrado no quarto deste.

À partir dai, Alberto se junta ao polícial encarregado do caso para auxiliar na busca deste “assassino em série” (acho que quando o livro foi escrito, o termo nem existia).

Apesar de usar uma linguagem mais antiga e coloquial, o livro é de fácil leitura e imagino até que a autora tenha usado alguns termos “modernos” para a época, pois o público alvo dela eram os jovens e adolescentes. O mistério em sí tem um bom desenvolvimento, apesar de eu achar que o fim poderia ter sido um pouco melhor.

Mas o mais interessante do livro é o fato de mostrar alguns costumes e comportamentos de quase 6 décadas atrás. Achei muito legal também as inserções em língua estrangeira, já que a autora também tinha estudado línguas e conseguiu colocar, com as devidas notas de rodapé, algumas expressões em inglês que são usadas até hoje. Ela só poderia ter colocado uma nota traduzindo a única expressão em alemão do livro.

Be happy 🙂