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Wanderlust #22 – Cuba: observações, dicas e curiosidades

297 Museo de la Revolución - La Habana Vieja - Havana - CubaComo tinham muitas coisa interessante para mencionar sobre Cuba, eu coloquei em cada um dos artigos (aqui, aqui, aqui e aqui) curiosidades, dicas e observações específicas relacionadas à cada um dele e a exemplo do que eu fiz para os EUA, estou fazendo um artigo somente com coisas gerais sobre o país. Vou colocar os tópicos na ordem em que fui anotando sem ordená-los ou classificá-los. Então segue:

  • Existem apenas 4 canais de TV e menos de 50 estações de rádio, todas estatais, em Cuba. Uma das melhores rádios é a Rádio Enciclopédia, que tem uma programação musical e cultural variada. Ouvi um programa de meia hora só de chorinho. O engraçado é que eles chamam o cavaquinho de “violino” (faz sentido: um violão pequeno).
  • Mas o melhor nome de rádio é a Rádio Reloj (como ninguém teve esta idéia antes?).
  • Os brasileiros são bastante estimados em Cuba, muito por causa das novelas brasileiras. Apesar disto e apesar dos esforços brasileiros em ajudar Cuba (investimentos em portos e aeroportos, aquisição de serviços médicos), os países considerados como “parceiros” são o Canadá e o México (os unicos países das Américas que não aderiram ao bloqueio) e a Venezuela (que contribui com petróleo).
  • A fama da novela brasileira até se inseriu na cultura local: em 1995 o governo autorizou que famílias servissem refeições para turistas em suas casas (geralmente tem uma ou duas mesas, no quintal ou em um dos cômodos das casas). Nesta época a novela Vale Tudo era transmitida na ilha e a personagem de Regina Duarte (Rachel Accioli) tinha um pequeno restaurante chamado “Paladar”. Paladar então se tornou sinônimo de “pequeno restaurante familiar” em Cuba.
  • O Neymar é idolatrado em Cuba e na América Latina em geral. A maioria das camisas da seleção e do Barcelona que eu vi e que eram vestidas por latino americanos tinham o nome do Neymar. Acho que a garotada daqui se identifica muito mais com ele, por ser uma pessoa que tem uma origem humilde (o que não é verdade), e por ser negro (mesmo ele dizendo que “nunca sofreu racismo porque não é preto”, antes de criticá-lo, por favor, leia meu artigo O Racismo e o efeito pigmaleão), ao invés de se identificarem com os “imperialistas” Cristiano Ronaldo e Messi, por exemplo (eu sei que o Messi é argentino de nascimento, mas ele viveu praticamente a vida toda na Espanha).
  • Se você acha o pessoal do nordeste lento, então prepare-se muito bem para encarar Cuba. Os cubanos fazem tudo num ritmo lentíssimo. Pensando bem, creio que é o paulistano que é acelerado demais.
  • Existe um sentido de coletividade enorme nos locais de trabalho. Não é raro ver um garçon ou dançarino (no caso do Resort) ir ajudar a organizar as mesas. Ou um atendente ou gerente de hotel ir ele mesmo levar o recado a um quarto de hóspede pois quando os mensageiros estão ocupados.
  • A influência da cultura africana em Cuba é muito similar à influência no Brasil. A comida é parecida (arroz e feijão e os vegetais consumidos normalmente aqui) e a Santeria, a religião dos escravos, é muito parecida com o Candomblé e também mistura alguns santos católicos com orixás. Existe Yemanjá (Yemanja), Ogum e Oxum (Ochum), para citar alguns, e com indumentária muito parecida. Achei até que a origem dos escravos levados à Cuba era a mesma do Brasil, mas pelo que eu pesquisei eles vinham de regiões diferentes da África.
  • Sem duvida uma das principais características de Cuba é a segurança. Você pode andar à noite a pé, deixar camera e celular sobre a mesa do bar ou na cadeira de praia enquanto vai dar um mergulho sem problema nenhum. Quando você pergunta se pode deixar algo na mesa de um restaurante, por exemplo, eles até dão risada pois não imaginam o porque não poderia.
  • Apesar disto, não existe uma sensação de “vigilância” excessiva. Nada de big brother. O diferencial é que lá não existe a sensação de impunidade que existe no Brasil.
  • Talvez o único problema ligado à segurança sejam os jineteiros, que engloba desde prostitutas (tanto aquelas que fazem programa quanto as mulheres que buscam um marido para sair do país) e golpistas. Porém são aqueles pequenos golpes da pessoa te devolver troco errado, querer comer na sua conta, pedir um drink no bar e fazer você pagar sem pedir antes, ou seja, são “golpes” totalmente evitáveis. Mas mesmo assim, em número muito reduzido se comparado à outros países.
  • Os socialistas pedem nos países capitalistas que a jornada semanal de trabalho seja reduzida para 36, 34 e até 30 horas. Porém em Cuba a jornada é de 48 horas semanais (8 horas diárias durante 6 dias semanais). Ou seja, para o capitalista não pode, mas para o “regime” pode.
  • Inclusive, a mais valia que fica com o Estado cubano é bem maior do que o de qualquer empresa em qualquer país. O “overhead” para manter a estrutura do sistema é bem maior do que em qualquer empresa, afinal, precisam de bem mais controles.
  • Como o acesso a vários produtos industrializados é restrito, em muitos lugares (bares, restaurantes e aeroportos) não existe muito papel (higiênico, guardanapos, embrulhos, etc) e plástico (sacolas plasticas principalmente). Além disto, em alguns lugares públicos falta água (existe saneamento, talvez as pessoas não consigam é fazer a manutenção regular de torneiras e encanamentos). Então a dica é levar lenços umedecidos, que quebram um galhão para “lavar” as mãos.
  • O lado bom disto é que não se vê muita sujeira na rua (também por causa do senso de coletividade citado anteriormente).
  • Pensando bem, a dica de andar com lenço umedecido serve também para quem mora em São Paulo.
  • Como eles não têm acesso a muitos bens industrializados (é muito caro para eles), uma outra dica é levar alguns “regalos”. Para homens, leve uma camisa da seleção ou do time para o qual você torce. Para as mulheres e meninas batom, enfeites de cabelo, esmalte. Para crianças, leve algumas canetas, giz de cera, lápis, chiclete. Eles vão ficar superfelizes de ganhar algo que pra gente é uma coisa banal, mas para eles é algo quase inacessível.
  • Apesar de todas estas restrições, os cubanos são um povo muito feliz. O que me leva a pensar que a gente não precisa de muita coisa para ser feliz e o problema é que a gente sempre coloca nossas expectativas em um ponto inatingível (e depois nos decepcionamos).
  • Realmente em Cuba se fuma em tudo quanto é lugar. Fora de Havana ainda respeitam restaurantes, mas em Havana você pode estar jantando num restaurante e não será incomum alguém na mesa de trás da sua acender um cigarro ou charuto (inclusive nos hotéis, onde se pode fumar em praticamente qualquer lugar, inclusive quartos). Mas com tanta fumaça que os carros fazem, este é o menor dos problemas.
  • E não é exagero meu: os carros fazem tanta fumaça que você fica cheio de fuligem ao caminhar durante o dia e quando vai tomar banho sai aquele “caldo” preto.
  • Falando dos carros, como já é sabido, existem muitos carros das décadas de 40, 50 e 60 rodando por Cuba. Uma boa parte em perfeito estado de conservação (com o bloqueio, eles começaram a produzir as peças de reposição lá mesmo, em pequenas oficinas). O que nos leva a pensar que, sendo um bem durável, porque tem gente que precisa trocar de carro todo ano?
  • Eu não sou à favor do “os fins justificam os meios”, mas é inevitável notar como as restrições as religiões com poder central (especificamente a católica) impostas durante a primeira metade do regime gerou uma separação total entre Igreja e Estado, o que é sempre bom (se bem que o Marxismo em sí é praticamente uma religião).
  • Além da educação, saúde e segurança, uma coisa da qual os cubanos devem se orgulhar é o seu sorvete. Todos os que eu tomei estavam ótimos. Quando estava indo de Santiago para Havana, tomei o melhor sorvete de chocolate da minha vida (e por apenas R$ 1,50). Taí um produto que eles poderiam exportar para ajudar na economia.
  • Todos os táxis (táxis regulares, cocotáxis e carrões antigos) têm taximetro, porém ninguém liga. Para não ser passado para trás, o esquema é combinar o preço da corrida antes de entrar no táxi. Se informe antes no hotel quanto custa, mais ou menos, a corrida que você quer fazer. Outras duas dicas são: sempre pechinche e sempre leve trocado (se você combinar, por exemplo, 8 CUCs e só tiver 10, o taxista vai alegar que não tem troco).
  • Evite pegar os táxis na porta dos hotéis ou em lugares turísticos. Ande um pouco e pegue na rua (como falei, Cuba é seguro, pode pegar táxi sem problemas). E tente pegar os táxis mais antigos (os Ladas).
  • As filas lá são um negócio de doido: a pessoa chega no lugar e pergunta “quem é o último?”, ai esta pessoa se identifica e você têm que “marcar” ela. Quando alguém chegar e perguntar pelo último, se for você for, identifique-se para que a pessoa possa saber atrás de quem está. Eles não vão formar uma fila como fazemos aqui e se você comer bola vai ter várias pessoas passando na sua frente (não por maldade). Eu tinha visto nas minhas aulas de espanhol que na Espanha funciona assim também em açougues e padarias, por exemplo, porém nestes lugares tem 5, 10 pessoas. Quando tem 100 pessoas o sistema torna-se impossível de ser acompanhado por quem não está acostumado.
  • O transporte público (ônibus e papa filas, além de caminhões, caminhonetes e táxis coletivos) está sempre lotado! E olha que tem um monte de ônibus articulados por lá.
  • Pelo fato de a maioria dos estabelecimentos comerciais serem do Estado, ou seja, é um monopólio, não existe a necessidade de dar um nome para o estabelecimento. Muitos deles, especialmente os postos de gasolina, têm simplesmente o nome da rua (ou da esquina) em que se encontra: Posto Calle 23, restaurante Prado y Neptuno (na esquina destas ruas), etc.
  • Tem muito pedinte e muita gente querendo se oferecer pra te ajudar em troca de gorjeta. Uma hora enche o saco, pois você às vezes quer ficar sossegado numa mesa de bar, ou então já tem uma programação. Mesmo quando estiver nestas situações, trate todos com educação e respeito. Explique que você não tem dinheiro, ou “minta” que você já almoçou ou já comprou charutos (eles te oferecem para levar em um restaurante ou em uma cooperativa de produtores de charutos pois ganham comissão), explique que você já se programou para ir a outro lugar, mas nunca ignore ou falte com educação. Cordialidade e gentileza é bom em qualquer lugar do mundo e em qualquer situação e muitas vezes 5 minutos de conversa, que para você não custa nada, pode significar muito para a outra pessoa.

Be happy! 🙂

Wanderlust #21 – Havana, Cuba

123 Parque Central - Centro Habana - Havana - Cuba

Os tradicionais táxis cubanos na Plaza Central

Havana é a maior e mais populosa cidade cubana, com cerca de 2 milhões e meio de habitantes (quase 25% da população do país). Também é sua capital política, cultural e econômica. A cidade foi fundada oficialmente em 1519 e é, assim como a maioria das grandes cidades do continente americano, um verdadeiro caldeirão cultural, devido à chegada ao longo da história de povos de diversas origens, sendo a maioria espanhóis (os colonizadores) e africanos (que chegaram como escravos), mas também contando com pessoas de ascendência européia (italianos e ingleses) e até pequenas comunidades chinesas, árabes e israelitas.

052 Plaza de La Revolucion - Havana - Cuba

Plaza de La Revolucion

No primeiro dia planejamos caminhar por Vedado e Centro Habana. Pegamos a Avenida Paseo, onde ficava o hotel e seguimos em direção à Plaza de La Revolucion, que fica no final desta avenida. Antes porém desviamos um pouco o caminho para visitar o Parque Lennon, erguido em homenagem ao Beatle. Fidel sempre foi muito fã dos Beatles e sempre os considerou socialistas (?!?!?). Depois de nos perdermos um pouco conseguimos chegar à Necrópolis Cólon. Já não sou muito chegado em cemitérios, ainda mais tendo que pagar 5 pesos, então nem entrei. Mas valeu a pena “se perder” para andar em meio a bairros não turisticos de Vedado.

Sorveteria Coppélia: um dos melhores que eu já tomei!

Sorveteria Coppélia: um dos melhores que eu já tomei!

Resolvemos então voltar para a Avenida Paseo e continuar até a Plaza de La Revolucion, talvez o ponto turístico mais conhecido de Cuba. Depois de algumas fotos, seguimos pela Avenida de Los Presidentes até a Avenida 23, a principal avenida comercial de Havana. Nesta avenida se encontra o Parque Coppelia, onde fica a sorveteria Coppelia. Você não pode ir à Cuba e não tomar um sorvete da Coppelia (existe uma Coppelia na maioria das grandes cidades cubanas). Depois de pagar R$ 0,12 por um dos melhores sorvetes da sua vida você vai demorar muito tempo para pagar R$ 10,00 num Häagen Dazs.

A Avenida 23 termina no Malecon, bem onde fica o belo e imponente Hotel Nacional, onde as autoridades internacionais se hospedam quando estão em Havana.

Hotel Nacional

Hotel Nacional

A parte central de Havana, que é a mais turística, não tem praia e fica numa encosta de pedras. Ao longo da costa existe uma larga avenida, e entre esta avenida e a costa, um largo calçadão e uma mureta, que é muito usada para pesca e por casais de namorados.  Este conjunto “avenida + calçadão + mureta” é o famoso Malecon.

Durante o percurso de 1 kilômetro até a Avenida de Itália, que nos levaria até Centro Habana, notamos que vários prédios foram ou estão sendo reformados. Mais tarde soubemos que a  UNESCO está patrocinando a restauração dos bairros La Habana Vieja e Centro Habana. Porém, ao mesmo tempo que notamos que muitos prédios ao longo do Malecon estão novinhos (mas mantendo a arquitetura original), deu pra ver, andando à pé, que a parte que os turistas não enxergam de carro ou ônibus, ainda está muito deteriorada.  Quando pegamos a Avenida de Itália tinham alguns prédios que davam até medo de andar debaixo de suas marquises, com medo de algum pedaço desabar.

Capitólio - versão genérica do americano.

Capitólio – versão genérica do americano.

Seguimos pela Avenida de Itália até Centro Habana, onde podemos ver o Capitólio, o Gran Teatro de la Habana, o Hotel Inglaterra, entre outros prédios restaurados ou em frangalhos, existentes no bairro. Conhecemos também o Parque Central e o Paseo  de Marti e então resolvemos parar para “almoçar” no ótimo Prado y Neptuno, que além de ter uma boa variedade de pratos típicos e internacionais, também tem um preço bastante atrativo.

Após a “almojanta” resolvemos caminhar os 5 kilômetros de volta ao hotel pelo Malecon. Somando com o que tinhamos andado durante todo o dia creio que chegamos nos 20 kilômetros caminhados. Como já era fim de tarde quando chegarmo próximos ao hotel, esperamos para ver (e fotografar) o por do sol da mureta do malecon. E já que haviamos desembarcado no hotel na madrugada do dia anterior e tinhamos andado bastante durante o dia, resolvemos comprar umas cervejas na loja de conveniência que tinha em frente ao hotel e ficar por lá mesmo.

Por do sol visto do Malecon

Por do sol visto do Malecon

No segundo dia, pegamos um Cocotáxi e fomos até o Callejón de Hammel, que é uma viela que virou uma galeria de arte a céu aberto, muito pela iniciativa do artista Salvador González, que montou ali seu ateliê, o que acabou trazendo alguns outros artistas para a região.

Depois caminhamos uns 30 minutos até La Habana Vieja. Preferimos não entrar no Museo de la Revolución para não perder muito tempo e já seguimos para as ruazinhas estreitas no miolo da parte mais antiga de Havana. Passamos na Plaza de La Catedral e fomos até o La Bodeguita del Medio tomar o famoso mojito, que era o preferido de Ernest Hemingway, quando este viveu na cidade. Continuando o passeio pelo antigo bairro, passamos pelo Castillo de la Real Fuerza, Plaza de Armas e paramos para tomar outro ótimo sorvete (pqp!! Como eles são bons em fazer sorvete!!!). Depois passamos pela Plaza de San Francisco e, felizmente, caimos sem querer na Plaza Vieja, uma praça que foi toda reformada (dentro do projeto da UNESCO) e que conta com prédios históricos, bares e restaurantes no seu entorno.

Callejón de Hammel - a cultura afro cubana é muito parecida com a afro brasileira

Callejón de Hammel – a cultura afro cubana é muito parecida com a afro brasileira

Decidimos também meio que sem querer sentar em um dos bares e qual não foi a surpresa ao descobrir que este “bar” é a Cerveceria Plaza Vieja, uma cervejaria artesanal (talvez a única) cubana. Que além de ter uma cerveja muito boa, ainda tinha um preço muito em conta. Aproveitamos para tomar cervejas e almoçar e já programamos de voltar no outro dia à tarde para o happy hour do último dia na cidade. Depois da cerveja tomamos um velho Ford Fairlaine conversível para voltar para o hotel, pois à noite iriamos assistir um show dos Tradicionales de los 50, que são alguns artistas cubanos, no estilo “Buena Vista Social Club”. Na saída do show, demos a sorte de pegar um Chevrolet Bel Air da década de 50 para voltar ao hotel.

Linha de produção de mojitos em La Bodeguita del Medio

Linha de produção de mojitos em La Bodeguita del Medio

No terceiro dia, resolvemos seguir sentido contrário de La Habana Vieja e conhecer o pouco turístico bairro de Miramar, que é algo que poderiamos considerar a área nobre de Havana (inclusive lembra muito os EUA). Antes da revolução, este bairro era o local onde as pessoas ricas de Cuba e onde os estrangeiros tinham suas residências. Após a revolução, as casas foram abandonadas (muitos ricos fugiram para os EUA) e retomadas pelo governo, assim como as que eram propriedades de estrangeiros. Hoje em dia, boa parte das enormes casas foram transformadas em representações diplomáticas (contei umas 15 embaixadas ou consulados), escolas ou locais para atendimento à população.

Miramar e suas belas e enormes casas

Miramar e suas belas e enormes casas

É um bairro muito bonito para uma caminhada e, excetuando-se os velhos táxis lada (na área mais turística de Cuba, composta por La Habana Vieja, Habana Centro e Vedado, a grande maioria dos táxis ou são os carros americanos antigos restaurados ou então Hyundais novos) você poderia achar que está no subúrbio de alguma cidade dos EUA. Ou mesmo no Jardim Europa, em SP.

Caminhamos uns 5kms no bairro até chegarmos ao Acuário Nacional. Ele não é tão grande e acabei por não ver os shows dos leões marinhos ou dos golfinhos, mas é até interessante para ver um pouco da fauna marítima cubana. Se for passar mais de 3 dias na cidade, compensa. Depois disto pegamos um  táxi Lada para irmos para o Happy Hour programado na Cerveceria Plaza Vieja, o que acabou por derrubar a boa impressão que tinhamos tido no dia anterior.

Cerveceria Plaza Vieja - duas experiências totalmente opostas

Cerveceria Plaza Vieja – duas experiências totalmente opostas

O cardápio que nos trouxeram tinha preços bem maiores que o cardápio do dia anterior (um hamburguer tinha “aumentado” de 2 para 6 CUCs!!!). Questionamos a garçonete sobre as diferenças e ela inventou que existia um “cardápio social e um informal”. Eu até concordo que os “locais” devem pagar menos do que os turistas, mas para isto Cuba já conta com duas moedas distintas. Na verdade o preço ali era cobrado pela cara do cliente (como acontece muito no nordeste do Brasil). Depois disto o atendimento foi simplesmente péssimo e acabou por estragar um pouco uma viagem que tinha sido perfeita até ali.

Mas felizmente nada que apagasse a ótima experiência de conhecer Cuba, um país muito diferente dos que eu já visitei e com um dos povos mais calorosos e receptivos que eu já tive o prazer de conhecer.

Observações, dicas e considerações:

  • Tomara que no processo de restauração da parte central de Havana não ocorra, ao mesmo tempo, um processo de gentrificação. O que eu acho difícil até porque, em teoria, todos os imóveis são do Estado e eles podem realocar os moradores como bem entenderem. Podem simplesmente retirá-los de lá para as reformas, colocá-los em outros lugares e, após as reformas, cederem o espaço a outras pessoas.
  • O Capitólio é uma cópia em tamanho reduzido da sua versão americana. Mais uma prova da influência americana em Cuba.
  • O Cocotáxi é uma transporte que lembra bastante os riquixás chineses e os rickshaws indianos, com a diferença de não ser tração humana. É uma pequena moto (imagino eu que uma scooter) que tem um “cockpit” onde cabem 2 ou 3 pessoas sentadas, dependendo do modelo. Como o formato da maioria é arredondado e a cor oficial dos táxis em Cuba é amarelo, ele foi apelidado de Cocotáxi (o coco fresco, que conhecemos aqui como “coco verde”, pois é verde mesmo, em Cuba é amarelo).
  • A maioria dos músicos do projeto “Buena Vista Social Club” já são falecidos. Então não caia no “conto” de assistir a um show deles (nem lá e nem em lugar nenhum), pois vai ser só uma imitação. O filho de um dos músicos montou um novo grupo e faz shows na cidade e uma “franquia” excursiona pelo mundo. Se for só para curtir uma reunião de artistas cubanos, o show dos Tradicionales vai ser mais divertido, além de ser o “underground” e não o pop da música cubana das décadas de 50 e 60.
  • O bairro de Vedado tem este nome pois no final do século 19 e início do século 20 a construção de prédios, ou mesmo casa com mais de um andar era “vedado” por motivos de segurança (para permitir a visualização de qualquer tentativa de invasão de Cuba através do mar por aquele ponto)

Be happy 🙂

375 Plaza Vieja - La Habana Vieja - Havana - Cuba

Funcionário do mês

414 Passeio de Ford Fairlane - Havana - Cuba

Ford Fairlane

435 Sociedad Cultural Rosalia de Castro - La Habana Vieja - Havana - Cuba

Los Tradicionales de los 50

465 Passeio de Chevrolet Bel Air - Havana - Cuba

Chevrolet Bel Air

616 La Habana Vieja - Havana - Cuba

Cuba és amor!

216 El Malecón de Cocotaxi - Havana - Cuba

Cocotáxi

 

Wanderlust #20 – Santiago de Cuba, Cuba (ah vá!)

Santiago de Cuba 01

Santiago de Cuba é a segunda maior cidade cubana, com cerca de 500 mil habitantes e fica localizada a cerca de 900 kilômetros da capital, Havana. Por causa da proximidade com a Jamaica, o Haiti e a República Dominicana, é comum ver muitas pessoas com estas origens (muitos rastas, por exemplo).

Memorial Loma de San Juan

Memorial Loma de San Juan

Além da cultura de café, plantados nas cercanias da Sierra Maestra, a maior cadeia montanhosa de Cuba, a província de Santiago de Cuba (província é o equivalente ao nosso estado) também é famosa por seu porto e a mineração (cobre e ouro). Porém, a importância maior desta cidade é o fato dela ter sido o berço dos dois acontecimentos históricos mais importantes para Cuba: a independência da Espanha (e dos EUA, ver o artigo sobre a história de Cuba) e a revolução Cubana.

Por ser a maior cidade no leste de Cuba (ou como eles chamam, o Oriente cubano), ela foi um dos principais palcos das batalhas pela independência de Cuba. Na década de 50 serviu de berço da revolução cubana, pois foi na cidade em que Fidel se formou em direito e morou durante alguns anos. O Cuartel de Moncada, alvo do ataque da primeira tentativa da revolução armada liderada por Fidel fica na cidade (ver o mesmo artigo acima sobre a história).

Acho que o que mais eu gostei na cidade foi que ela respira música e o povo é muito festivo. Em qualquer lugar que você pare, invariavelmente terá algum conjunto ou artista tocando. Em todas as praças em que passei, entre o final da tarde / começo da noite tinha alguma festa acontecendo (inclusive na segunda feira!). Não à toa, o carnaval de Santiago, que acontece em Julho, é muito famoso.

Santuario de La Virgen de La Caridad del Cobre

Santuario de La Virgen de La Caridad del Cobre

O que fazer?
Santiago de Cuba é uma cidade pequena e sem grandes atrativos na sua área urbana. A não ser sentar num bar ou numa praça e ficar tomando cerveja, ouvindo os músicos de rua. Em termos de “atrações turísticas”, em um dia dá para conhecer praticamente toda a cidade.

Felizmente, ao tentar conseguir um mapa mais detalhado da cidade, a concierge do hotel sugeriu que contratássemos um taxista para fazer um passeio na “grande Santiago”, ao custo de 40 CUCs (cerca de 40 euros) por dia, para até 4 pessoas. Foi realmente uma ótima sugestão.

No primeiro dia o taxista nos levou para um “city tour” passando pelo Arbol de La Paz (onde o acordo de independência foi assinado), Memorial Loma de San Juan, alguns bairros residenciais, Bosque de Los Heroes, Plaza Antonio Maceo e Teatro Heredia e depois nos dirigimos ao Santuário de La Virgen de La Caridad del Cobre, a padroeira de Cuba.

Plaza Antonio Maceo

Plaza Antonio Maceo

Na volta para a cidade paramos no Cementério Santa Ifigenia, que conta com um imponente memorial à José Marti (um dos heróis cubanos) e túmulos de outras figuras históricas (como a família Bacardi). É interessante chegar por volta das 13:30, pois é quando acontece a troca da guarda, que é feita de forma tão sincronizada que você não consegue perceber quem foram os guardas que acabaram de chegar e quais acabaram de sair.

A próxima parada foi no Castillo de San Pedro de la Roca, ou simplesmente Castillo del Morro, uma fortaleza construida no topo de uma das colinas localizadas na entrada da baia de Santiago de Cuba, que foi erguida para servir como ponto de defesa contra invasores. Dali se tem uma vista da bela baia e também da costa.

Após a volta, ficamos no Parque Céspedes, que na verdade não é um parque, e sim uma praça (eles chamam qualquer praça com árvores de parque em Cuba), localizada no centro de Santiago e que é rodeada por alguns prédios históricos e interessantes. Fomos até a Casa de La Trova, onde podemos presenciar uma mini apresentaçao exclusiva de Pello 21, um músico local que toca um “instrumento” chamado Órgão Paris, que é como se fosse um enorme realejo. Visitamos também o Balcón de Velásquez, de onde se tem uma vista da parte costeira da cidade e depois fomos abordados por Livan, um morador de Santiago que nos levou para conhecer a maquete de Santiago e depois um restaurante local para tomarmos alguns mojitos. Depois paramos para almoçar na Taberna El Baturro, que tem um ambiente interessante (mas a comida não vale o preço).

Cementerio Santa Ifigenia

Cementerio Santa Ifigenia

Após o almoço, seguimos para a Plaza de Dolores, uma pequena praça cercada de bares com mesas na calçada que é ótimo para parar, tomar umas cervejas e mojitos e aproveitar para ouvir o som dos inúmeros músicos de rua que passam por ali (e portanto, prepare-se para dar caixinhas!). Na volta a pé para o hotel (cerca de 4kms) notamos que em TODAS as praças no caminho acontecia alguma festa, isto em pleno domingo, às 21:00hrs.

Haviamos combinado com o taxista de fazer um outro passeio no dia seguinte, desta vez fomos até a La Gran Piedra, um dos pontos mais altos de Cuba, situado na Sierra Maestra. O passeio é bem legal e a vista é fantástica, mas deve-se estar preparado para subir os quase 500 degraus até a pedra. Depois passamos no Museu Isabelica, um sítio histórico onde foi montada a primeira fazenda de café de Cuba. No sítio dá para se ter uma idéia de como viviam um fazendeiro e seus escravos.

Depois fomos até o Jardim Botânico, que é muito bonito e conta com uma variedade bem grande da flora cubana. Na sequência do passeio era para termos passado pela Granja Sibonay, o pequeno sítio que Fidel alugou e onde ele organizou a primeira tentativa de revolução. Porém, por ser uma segunda feira, o local estava fechado para visitas. Então nos dirigimos até o penúltimo ponto do passeio, que era a Praia de Sibonay, onde comemos em um legítimo Paladar cubano.

El Castillo del Morro

El Castillo del Morro

Há alguns anos o governo autorizou algumas pessoas a servirem refeições nas suas casas para os turistas. Na época, a novela brasileira Vale Tudo estava sendo transmitida em Cuba e a personagem da Regina Duarte nesta novela era a dona de um pequeno restaurante chamado “Paladar”. Por conta disto, o nome Paladar acabou “pegando” como denominação destes locais que servem refeições literalmente caseiras (os paladares são montados nos quintais ou em algum cômodo da casa).

A praia de Sibonay é bonita, porém o mar é um pouco agitado e de tombo.  Como não tinhamos planos de pegar praia, somente aproveitamos para tirar algumas fotos e voltamos para Santiago (Sibonay é um município na grande Santiago de Cuba) para o último ponto do passeio, que era o histórico Cuartel de Moncada, porém o museu do quartel também estava fechado por ser uma segunda. Então fomos conhecer o terraço do Casa Granda Hotel, de onde se tem uma vista 360º de quase toda a cidade, já que o hotel, apesar de não ser muito alto, fica numa colina e pelo fato de que em Santiago existem muito poucos prédios altos.

Parque Céspedes

Parque Céspedes

Depois passamos para tomar um café no la Isabelica Café, que é bem tradicional e que, além de qualidade, tem uma enorme variedade de bebidas que levam café como ingrediente principal. Depois de pararmos novamente para tomar algumas cervejas na Plaza Dolores, resolvemos voltar ao hotel. No caminho (que foi o mesmo do dia anterior), notamos que novamente haviam festas em TODAS as praças. Em plena segunda feira! Resolvemos parar em uma perto do hotel, que fica tipo num calçadão comercial e tinha música rolando ao vivo. Apesar do grupo tocar 3 músicas e fazer uma “pequena pausa” de meia hora, para voltar e tocar mais 3 músicas e fazer uma nova pausa, foi legal curtir esta última noite no meio dos locais, em um local que não é turístico e ainda de quebra descobrir que Kaoma e seu eterno sucesso “Chorando se Foi” também é sucesso em Cuba. Bem, ao menos em Santiago.

Observações, dicas e considerações:

  • Santiago de Cuba 08Se for voar de Cubana de Aviación prepare-se: como ela é basicamente a única companhia aérea que voa dentro de Cuba e por não ter muitas aeronaves, qualquer atraso desencadeia um efeito dominó em toda a malha. Na ida o atraso foi de 11 horas e na volta de duas.
  • Ainda assim valeu a experiência de andar num Antonov – AN 158, talvez a aeronave mais silenciosa em que eu já voei.
  • Eu não sou muito chegado em café então provavelmente não seja a pessoa certa para falar se um café é bom ou ruim, mas se eu morasse em Santiago com certeza iria virar um viciado no café do La Isabelica Café. O melhor que já tomei!
  • A maioria das atrações turísticas de Santiago fecham às segundas. Então é bom levar isto em consideração na hora de programar a viagem. Mas se a intenção for aproveitar festa, pode ir na segunda à vontade!
  • Quando estava em Havana, conheci um “local” e comentei com ele que tinha acabado de chegar de Santiago de Cuba, e ele soltou “Cuba é pobre, mas Santiago é mais pobre ainda!”, por conta disto, em Santiago existem muito mais pedintes e existem muito mais pessoas querendo ser “guias” para conseguir alguma gorjeta, ou mesmo uma refeição por conta do turista. Então prepare-se para ser abordado.
  • Apesar dos moradores de Santiago serem pobres e não terem acesso a vários bens e serviços que são corriqueiros para nós, eles são muito felizes e se divertem muito (mas muito mesmo!), o que nos leva a pensar como realmente não precisamos de muita coisa para ser feliz e viver bem.

Be happy 🙂

La Gran Piedra

La Gran Piedra

Wanderlust #19 – Varadero, Cuba

045 - Varadero - CubaFalar sobre Varadero, estando num all inclusive é facil.

Primeiro você acorda e vai tomar o cafe da manhã. Como eles atendem publicos de diversos países e culturas variadas, eles têm que oferecer variedade. No buffet tem morcela para os espanhóis e portugueses, bacon e panquecas (com maple syrup) para os americanos, pepino e tomate para os alemães, feijão e salsicha para os ingleses, e por aí vai. So de pães deve ter umas 20 opções. Chutando baixo, no total devem ter umas 150 opções de comida só no café da manhã.

Depois voce vai para a praia curtir o visual paradisiaco e aquele mar verde e limpo (uma pena é a água ser fria), deita na espreguiçadeira e passa o restante da manhã tomando cerveja. Regularmente tem alguma atividade que me permiti não fazer para evitar a fadiga.

Lá pelas 13:00 voce vai almocar e as opcões também não são poucas.

Depois do almoço vai para o bar molhado da piscina tomar umas cervejas, mojitos, daiquiris e piñas coladas.

Ao final da tarde, se dirige ao bar do lobby para um happy hour, afinal todo mundo precisa desestressar.

166 - Varadero - Cuba

A árdua tarefa de exercitar o ócio!

Umas sete horas volta para o apartamento, senta na varanda e abre uma cerveja para relaxar. Eventualmente tira uma soneca, já que ninguém é de ferro.

As 21 horas vai jantar em um dos restaurantes temáticos e logo após assiste a algum show ou participa de uma festa temática organizada pelo resort. Ainda dá tempo de dançar um pouco na balada do hotel, mas não até muito tarde, pois você precisa dormir cedo, já que o próximo dia também será duro!

Eu sinceramente acho que na declaração de direitos humanos da ONU deveria ter um parágrafo dizendo que “todo ser humano deve passar ao menos 3 dias de sua vida num all inclusive”.

Observações, dicas e considerações:

  • Achei impressionante a quantidade de alemães no resort. Chutando baixo cerca de 60% dos hóspedes. O restante se dividia em outros Europeus (principalmente espanhóis e franceses), pouquíssimos latino americanos e quase nenhum brasileiro. Uma pena.
  • Aquela empatia que a seleção e a imprensa alemã demostraram quando da passagem deles pela Bahia, na Copa do Mundo no Brasil, no ano passado, não parece ser apenas “jogada de marketing”. Eu vi os alemães interagindo muito com o pessoal do hotel (garçons, barmans, pessoal da limpeza, etc) com uma curiosidade genuína e um respeito enorme por uma cultura diferente da deles. Presenciei até uma cena bem legal: uma alemã, que pelo que eu entendi estava deixando o hotel, entregando uma lembrancinha para uma das moças que trabalhavam no buffet do café da manhã.
  • Uma coisa que eu notei e que achei muito legal foram alguns funcionários do hotel irem curtir o dia de folga com suas famílias no resort. Não sei a motivação disto, mas é interessante por não isolar “a casa grande da senzala”, ou seja, dá a oportunidade de pessoas que talvez não tivessem condições de bancar um hotel daquele tipo (e em Cuba isto corresponde a 90% da população) de aproveitarem um pouco daquilo que eles oferecem aos estrangeiros todos os dias.
  • Quando fui à Punta Cana uma das coisas que eu mais detestei foi o fato de que os funcionários não podiam se alimentar no Buffet (mesmo após o fechamento deles). Quando cheguei no resort em Varadero já eram mais de 3 horas da tarde e fui almoçar, pegando o fechamento do buffet, e os funcionários experimentavam os “quitutes” (imagino que eles já tinham almoçado antes) sem nenhum problema ou medo de punição. O mesmo acontecia nos bares: os funcionários dão uma parada depois do seu turno para “tomar um trago” antes de irem para casa, por conta do hotel.
  • O resort organizou uma festa (White Party) e uma das cenas mais legais foi ver uma centena de pessoas, literalmente dos 8 aos 80 anos, de nacionalidades diversas, se divertindo como se não houvesse amanha e dançando como se não houvesse ninguém assistindo (eu representei o Brasil…hehehe)

Be happy 🙂

052 - Varadero - Cuba

Wanderlust #18 – Cuba: história, economia e política (e minha opnião sobre tudo isto)

Cuba 01Eu sempre achei que extremismos são sempre ruins e, via de regra, quando alguém tem alguma opnião extrema sobre algo ele está errado. O mundo não é 0 e 1, não é preto e branco. Isto sempre me levou a ter uma curiosidade em conhecer os países socialistas, já que nunca achei que estes países fossem o inferno pregado pelos capitalistas e muito menos o paraíso pregado pelos socialistas/comunistas. Então resolvi aproveitar antes que o regime em Cuba caia (ou se adapte) para conhecer o país.

Mas antes de entrar nos detalhes da viagem, acho necessário entender um pouco o país. Porém antes da vaca fria vou dar alguns aviso para os meus poucos leitores:

  1. O texto vai ficar longo e não quero quebra-lo em partes, então prepare-se.
  2. As informações históricas eu retirei do guia que comprei, de informações obtidas lá e de algum ou outro site. Não vou ficar checando fonte, origem ou procurar opniões diferentes já que devem existir inúmeros livros, com inúmeros pontos de vista sobre a história e a atual situação cubana.
  3. Invariavelmente irei fazer paralelos da história e atual situação com os livros “A revolução dos bichos” e 1984, ambos do George Orwell.
  4. E mais importante: se você for um capitalista/anti-comunista fanático, você com certeza vai discordar de metade das minhas opniões e informações. Se você for um comunista/anti-capitalista (neste caso fanático seria redundância) também vai discordar de metade das minhas opniões. Minha sugestão: viaje a Cuba e tire suas próprias.

História
A Ilha de Cuba foi descoberta em 1492 por Cristóvão Colombo e foi anexada à Espanha em 1510. Durante a colonização da Ilha, as 3 tribos que a habitavam então foram dizimadas. Porém os espanhóis não encontraram o que procuravam na ilha (ouro e especiarias) e a abandonaram, preferindo explorar a parte continental das Américas.

Durante a exploração do continente e a necessidade de transporte dos bens até a Europa, Cuba passou a ser um ponto estratégico importante do ponto de vista logístico (talvez isto também explique o interesse do Brasil, Canadá, Alemanha e Espanha em investir no Porto de Mariel) e como primeiro ponto de defesa das outras colônias. Durante esta época, a Ilha era alvo constante de ataques de piratas e também neste mesmo período  iniciou-se a inserção de escravos trazidos da África.

No verão de 1762 a ilha foi finalmente conquistada pelos Ingleses após alguns anos de ataques mas foi logo devolvida à Espanha com a assinatura do Tratado de Paris, de 1763, em troca da Flórida. Foi quando ocorreu o que poderia se chamar de “segunda colonização da ilha”: devido ao incremento do comércio do açúcar a ilha passou a ser usada para produzir este bem. Isto também gerou uma onda ainda maior do comércio de escravos.

A cultura de cana de açúcar trouxe uma parte da aristocracia espanhola para a ilha, o que ajudou a moldar a cultura e, principalmente, a arquitetura. A mistura das culturas (e dos genes) dos espanhóis e dos africanos deu origem à cultura criola. Em meados de 1830 Cuba era o maior produtor mundial de açúcar e metade da sua população era composta por negros (libertos e escravos). A ilha já era habitada pela segunda, às vezes terceira geração dos decendentes dos colonizadores, que se sentiam mais cubanos do que espanhóis e que já almejavam uma independência. Para tanto, eles precisavam contar com a ajuda dos escravos e por isto a luta pela independência de Cuba aconteceu em conjunto com a luta pelo fim da escravidão. Depois de algumas guerras, a Espanha conseguiu subjulgar os rebeldes, que foram exilados nos EUA (o que viria a servir para estreitar as relações destes com os EUA) e, em 1886 a escravidão foi abolida como parte de um “pacote” que a Espanha prometera para aplacar os ímpetos dos rebeldes.

As guerras contra a Espanha foram retomadas em 1895 e em 1898, quando os cubanos já haviam praticamente vencido a Espanha, o cruzador Maine (que fora enviado à baia de Havana para proteger cidadãos e propriedades americanas em Cuba) explodiu misteriosamente, matando 250 marinheiros americanos. Os americanos culparam os espanhóis e encontraram uma razão para entrar na guerra. Em julho a frota espanhola foi finalmente derrotada pela frota americana e em dezembro do mesmo ano um acordo entre a Espanha e os EUA selou o fim do domínio colonial da Espanha nas Américas. Acordo este que não incluiu os cubanos e que, na prática, apenas transferia o domínio da colônia aos americanos. Alguns conflitos se seguiram e em 1901 uma assembléia aprovou a primeira constituição cubana e finalmente o primeiro presidente cubano tomou posse, apesar de ainda existirem fortes vínculos com os EUA.

A independência cubana finalmente aconteceu em 20 de maio de 1902, porém o país ainda viveria algumas décadas sob forte influência norte americana, que em várias oportunidades enviariam fuzileiros com o pretexto de proteger cidadãos e propriedades americanas.

Nos primeiros 20 e poucos anos da República Cubana, alguns avanços foram alcançados, tais como: educação pública gratuíta, liberdade de associação e expressão, separação entre Igreja e Estado. A cultura de cana de açúcar se tornou praticamente a única atividade econômica de Cuba, o que beneficiava alguns, porém a grande maioria não se beneficiou e não via muita diferença entre ser colônia e ser um país independente. Em 1925 surgiram os primeiros sindicatos e o Partido Comunista Cubano. Neste mesmo ano, Gerardo Machado tornou-se presidente e viria a alterar a constituição para poder governar por mais um mandato, o que fez com tirania e violência.

A situação do povo piorou ainda mais com a grande depressão e após uma longa greve geral e a perda do apoio do exército, Machado fugiu. À partir dai, vários presidentes, considerados apenas marionetes do Sargento Fulgêncio Batista, se revezaram no poder. Durante este tempo algumas reformas foram implementadas, como a jornada de oito horas diárias e o voto feminino. Em 1952 Batista deu um golpe, se tornando presidente e durante esta década ele praticamente vendeu a Ilha aos americanos (especialmente aos mafiosos). Cuba se tornou um puteiro onde os americanos iam jogar, consumir drogas e contratar prostitutas.

Carretera Sibonay e o um dos memoriais aos rebeldes executados após o assalto ao Cuartel de Moncada

Carretera Sibonay e o um dos memoriais aos rebeldes executados após o assalto ao Cuartel de Moncada

Em 1953 o jovem advogado Fidel Alejandro Castro Ruz denunciou a ilegitimidade do governo de Batista à magistratura. Como isto não surtiu efeito, Fidel alugou um pequeno sítio em Sibonay, na grande Santiago de Cuba, e organizou ali uma revolta. Em 26 de Julho de 1953, no último dia do Carnaval cubano (Santiago é famosa por seu carnaval), tentando se aproveitarem do estado de embriaguez dos soldados, os rebeldes tentaram um assalto ao Cuartel de Moncada. Dos 159 rebeldes então instalados no sítio, 155 participaram da empreitada (4 desistiram) que acabou por fracassar, já que os soldados que estavam em Moncada, além de terem um arsenal melhor, estavam entrincheirados. Além disto, vários dos carros que levariam combatentes e armamento se perderam em Santiago pelo fato dos ocupantes não conhecerem a cidade. 6 rebeldes morreram durante o ataque e 55 deles foram mortos posteriormente. Para “disfarçar” as execuções sumárias, o exército de Batista espalhou os corpos destes 55 rebeldes pela Carretera de Sibonay, a estrada onde se encontrava o sítio e que terminava em Santiago. Hoje em dia existem memoriais para estes rebeldes, nos lugares onde os corpos foram abandonados, em que constam somente o primeiro nome e a profissão de cada um dos executados.

Fidel foi preso, junto com seu irmão Raul. Após dois anos de prisão uma anistia foi concedida e os dois foram exilados no México, onde viriam a conhecer o jovem médico argentino Ernesto “Che” Guevara. Juntos com Che e contando com a ajuda de outros exilados e de rebeldes ainda presentes na Ilha eles organizaram novamente a revolução. Raul, Fidel, Che, Camilo Cienfuegos e mais 78 membros da revolução embarcaram no iate Granma (projetado para 12 pessoas) em 25 de novembro de 1956 com destino as Playas Coloradas, no leste de Cuba (conhecido como oriente entre os cubanos). A chegada estava prevista para 30 de novembro porém,  devido a alguns contratempos o navio só chegou à costa cubana no dia 2 de dezembro e três dias depois foi atacado pelas tropas de Batista, onde grande parte dos rebeldes foi  morta (durante a batalha ou posteriormente). Alguns poucos, entre eles Fidel, Raul, Che e Camilo conseguiram escapar e se refugiar na Sierra Maestra onde camponeses, estudantes e desertores do exército regular se juntaram à eles para reorganizar a guerrilha. Eles ficaram conhecidos como “barbudos”, pois no meio da selva e com outras coisas para se preocupar, deixaram de se barbear.

A crescente insatisfação do povo com os demandos de Batista, em conjunto com a “conscientização” da população feita através da Rádio Rebelde, uma rádio pirata montada por Che e que transmitia os ideiais da revolução, fez com que, após dois anos de guerrilhas e conquistando cada espaço, a revolução conseguisse dominar as principais cidades cubanas (praticamente o leste de Cuba inteiro). Em outubro de 1958, a coluna liderada por Che e Cienfuegos parte rumo ao oeste e consegue tomar Santa Clara (que fica a 300 kilômetros de Havana) em 31 de dezembro. Batista foge para Santo Domingo, Fidel entra em Havana em 8 de janeiro de 1959 e é aclamado primeiro-ministro.

Uma grande campanha contra o analfabetismo é a grande primeira bandeira dos novos governantes, que consegue extinguir o analfabetismo em pouco tempo. Outro passo foi uma reforma agrária, só que para que isto acontecesse, muitas propriedades de latinfundiários norte americanos foram nacionalizadas, o que iniciou as hostilidades entre os dois países e fez com que, em outubro de 1960, os EUA declarassem um boicote econômico, bloqueando a exportação de petróleo para Cuba e a importação de açúcar cubano. Isto só fez estreitar as relações de Cuba com os países da cortina de ferro, alinhados ideológicamente. Preocupado com a influência soviética, os EUA patrocinam uma tentativa de invasão à Cuba, que ficou conhecida como o “incidente da baia dos Porcos” (Playa Girón), no qual os contra revolucionários foram derrotados, o que acirrou mais as animosidades. Oito dias depois, o presidente Kennedy declarou um embargo comercial à Cuba, no que foi seguido por quase todos os países das Américas, com exceção do Canadá e do México. Desta vez as relações diplomáticas também foram cortadas.

Raul assina com Kruschov, no mesmo ano, um tratado para instalação de mísseis nucleares na ilha e, um ano mais tarde, quandos os EUA descobrem a presença destes mísseis, ocorre a famosa “Crise dos Mísseis”, talvez o momento em que a humanidade talvez esteve mais perto da extinção por conta de uma guerra nuclear.

Em 1980 Cuba abre as portas do turismo para cidadãos de países não alinhados com o comunismo. Em 1990, logo após o colapso do comunismo, Cuba enfrenta um dos períodos mais difíceis da sua história, o que persistiu até 1994.

Desde então, muito por influência de Raul Castro, mesmo antes deste assumir a presidência do país, Cuba vem implementando algumas reformas, como a possibilidade de negócios privados, a permissão do uso do dólar no país (afim de incrementar o turismo) e, mais recentemente, temos visto uma aproximação de Cuba com os EUA que tende, num futuro bem próximo, a resultar no fim do embargo comercial.

Política
O primeiro ponto a citar aqui é que: sim, os cubanos votam! Existem conselhos de bairro onde os representantes são eleitos através do voto direto. Para o legislativo nos níveis municipal, de províncias (o equivalente aos estados brasileiros) e mesmo no federal, os representantes são eleitos através de voto direto. Para os cargos executivos, as eleições acontecem através destas câmaras (municipais, provinciais e nacionais), como acontece em algumas outras democracias.

Isto quer dizer que Cuba é uma democracia? Também não! Dois dos principais pilares dos sistemas democráticos de fato são a liberdade para criar associações (sindicatos, partidos, conselhos, etc) e a liberdade de expressão e isto, infelizmente, não existe em Cuba. Toda associação política deve ter prévia aprovação do PCC, o Partido Comunista Cubano, que é o único partido político, ou seja, você vota, mas somente em membros de um mesmo partido e que, por razões óbvias, compartilham da mesma ideologia.

Além disto, existem diversas restrições quanto à liberdade de expressão e liberdades individuais: o cubano precisa de autorização para deixar o país e tem muitas, mas muitas restrições no que se refere ao acesso à informação. Todos os canais de TV e as estações de rádio são estatais, assim como os jornais e revistas. A Internet é inacessível à maioria dos cubanos por conta do custo. Mesmo aqueles que conseguem ter acesso à Internet são impossibitados de usar e-mail (a não ser para fins estritamente comerciais) e de acessar diversos sites, que são previamente bloqueados.

Economia
Talvez este seja o ponto mais complicado de entender.

A moeda oficial em Cuba é o Peso Cubano (CUP), que é utilizado para pagar salários e consequentemente para que a população local adquira bens de consumo. Porém, como o CUP é muito desvalorizado em relação à outras moedas (vale cerca de 25 vezes menos que o Euro e 8 vezes menos que o Real) e como boa parte dos bens, especialmente os industrializados, é importado, o governo subsidia uma grande parte dos bens básicos necessários à população. Como a grana do Estado geralmente é curta na maioria dos países, e também para evitar que pessoas que não precisem deste subsídio (turistas e os trabalhadores do turismo, que ganham gorjetas em CUCs, já falo dele) se aproveitem dos subsídios, o governo utiliza um sistema de cupons de racionamento.

Com a abertura e a expansão do turismo na ilha, os preços para turistas eram cobrados em dólar, afim de trazer divisas para o país, e isto começou a fazer com que muitos dólares começassem a circular pela ilha. Para reduzir a circulação de dólares, o governo criou em 2004 o Peso Conversível (CUC, que mantem uma certa paridade com o Euro).

Através dos cupons (na verdade cadernetas) cada cidadão cubano tem direito a, por exemplo, 1 frango a cada quinzena, um quilo de arroz, duas latas de pescado enlatado e meio litro de óleo a cada dez dias, e por ai vai. Qualquer coisa acima da cota teria que ser comprada em mercados que operam sem subsídios e em CUCs, o que invariavelmente torna o bem muito caro. Além disto, alguns bens não são subsidiados e se tornam inviáveis para um cubano que obtenha uma renda apenas em CUPs.

Para exemplificar: um médico cubano ganha cerca de mil pesos cubanos mensais (1000 CUPs), o que equivale em CUCs (ou Euros) a apenas 40. Em 2009 o governo liberou a importação de carros usados para a ilha. Supondo que um carro seja vendido a 5000 CUCs/Euros, um médico teria que trabalhar 125 meses, ou quase 10 anos e meio, para conseguir comprar um carro.

Uma cerveja em um mercado que não vende bens subsidiados custa cerca de 1 CUC, o que para muita gente corresponde a 10% do salário. Eu tomei um sorvete na ótima sorveteria Copellia (se tem uma coisa que Cuba poderia exportar é sorvete, muito bons) e paguei 1 peso cubano/CUP (alguns bens que são produzidos na ilha não são subsidiados e portanto, não são racionados), ou o equivalente a 4 centavos de CUC/Euro, apenas R$ 0,12.

Esta diferença acabou por criar uma nova classe social em Cuba (“todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”, vide Revolução dos Bichos), a dos trabalhadores do turismo, que eventualmente cobram em CUCs e também recebem gorjetas nesta moeda. Um taxista pode em apenas 2 ou 3 corridas ganhar o que ganha um médico por mês. Esta “classe social” em conjunto com o núcleo central do PCC e mais alguns funcionários de alto escalão (vide 1984), especialmente os dirigentes políticos e os militares (os porcos e os cães, vide Revolução dos Bichos novamente), mostra que mesmo em um sistema que pretende eliminar as diferenças de classes, acaba por criar outras.

O que eu acho de tudo isto?
Em um artigo na Feedback Magazine em novembro de 2013 (leia aqui) eu disse que “a diferença entre revolução e golpe é apenas de perspectiva: se vai de encontro aos seus ideais, você enxerga como revolução, se vai contra, como golpe.” (esta frase um dia será usada como citação….hahaha). A “revolução” que houve em Cuba no final da década de 50 apenas substituiu uma ditadura por outra. Qual delas foi mais cruel ao combater seus inimigos, nunca se saberá. Ao menos uma coisa é certa: ao menos Fidel e os líderes da revolução sempre foram machos e sempre estiveram no front de batalha, ao contrário de muitos outros ditadores, que sempre sentaram a bunda em uma cadeira de um belo escritório, muito bem protegido, enquanto os “peões” literalmente se matavam para garantir o poder à estes e, no caso específico do Batista (mas cabe a muitos outros déspotas), quando vêm que a coisa vai apertar, tratam de fugir.

Não se pode negar os avanços sociais conseguidos pelo governo socialista cubano: erradicação do analfabetismo, erradicação de várias doenças que ainda assolam outros países, inclusive o Brasil (Malária, Dengue e Febre Amarela, por exemplo), a segunda menor taxa de mortalidade infantil e a maior expectativa de vida das Américas (perde apenas para o Canadá em ambos os critérios). Só que também não se pode negar que alguns destes números já eram muito baixos mesmo durante a época de Batista: a taxa de mortalidade infantil já era a segunda menor na década de 50 e a expectativa era a 5ª menor na mesma década (além de Canadá, só ficava abaixo de EUA, Uruguai e Argentina, mas muito à frente da média da América Latina e do Brasil).

A falta de democracia plena, do acesso pleno à informação e a liberdade de expressão provavelmente são hoje os maiores problemas de Cuba. Como disse Carl Sagan no ótimo “O Mundo Assombrado pelos Demônios” (tem uma resenha minha aqui), a falta de liberdades de expressão e acesso à informação tolhe o pensamento crítico, que é base para as descobertas científicas que geram desenvolvimento. E como conclui Thomas Piketty no também ótimo “O Capital no Século XXI” (ainda estou lendo), a produção e disseminação de conhecimento é o fator que reduz as diferenças sociais, tanto dentro de um país, quanto entre países (eu já tinha chegado à esta conclusão quando estive na Alemanha, está neste artigo). O problema porém é que com liberdades vêm os questionamentos, e ai seria impossível manter o regime como hoje.

As pessoas de Santiago de Cuba, a segunda maior cidade de Cuba, com apenas 500 mil habitantes e com um fluxo bem menor de turistas ainda têm uma enorme fé no socialismo e acreditam piamente que o PCC sempre faz o melhor para eles. Porém, os habitantes de Havana, que têm muito mais contato com turistas, ou seja, de uma forma rudimentar têm um acesso maior à informação, já começam a questionar se o sistema é realmente bom.

Se até pouco tempo atrás eles viam apenas Europeus e Norte Americanos desfilando pela cidade e consumindo somas inimagináveis de dinheiro para um cubano comum (como disse, 1000 Euros são 25 salários de um médico), nos últimos 15 anos eles têm vistos Panamenhos, Costa Riquenhos, Brasileiros, Mexicanos, e outros latinoamericanos com o mesmo poder aquisitivo e capacidade de consumo dos antigos “imperialistas” e agora questionam a razão pela qual eles (os cubanos comuns) só podem comer pescados enlatados, enquanto os turistas podem comprar pescados frescos, além de acesso à outros bens, muitas vezes básicos para nós (um isqueiro, uma caneta, um batom, um sabonete).

O cubano com quem conversei e que levantou a questão do pescado tem a esperança de que quando o embargo americano for retirado, os americanos irão em peso investir na ilha, especialmente na industria açucareira, que se deteriorou durante o regime socialista. Porém, me questiono se os americanos estariam dispostos a aceitar o risco de investir no país sem a certeza de que regras serão respeitadas, já que eles já passaram no passado por expropriações e nacionalizações promovidas pelo mesmo regime. E se decidirem investir, qual a taxa de retorno que esperam para compensar estes riscos.

É claro que, após o fim do embargo (que está muito próximo, acredito eu), o fluxo de turistas americanos irá aumentar muito (hoje em dia um americano que queira ir à Cuba tem que comprar passagem em outro país), o que invariávelmente traria um fluxo alto de dinheiro para a ilha durante algum tempo (até passar o fator novidade). Porém creio que o embargo é o menor dos problemas de Cuba, já que eles têm relações comerciais com quase todos os outros países e mesmo assim ainda é um país que carece de muitos bens hoje comuns à maioria dos outros latinoamericanos.

Agora, existem três coisas que os cubanos têm e que são de causar inveja a nós, brasileiros. A primeira delas é educação: todo cubano passa ao menos 11 anos na escola e todo cubano têm acesso à educação superior, totalmente gratuitos. Aliás, o Brasil precisa rever o seu modelo educacional: creio que em nenhum dos países desenvolvidos a educação fundamental e média é um negócio que visa lucro e em pouquíssimos casos o ensino superior também tem esta função “capitalista” (mesmo nos EUA as Universidades, em sua maioria, são fundações sem fins lucrativos e qualquer mensalidade, que normalmente é paga somente por estrangeiros, é revertida em prol da própria instituição).

A segunda é o acesso à saúde. Qualquer cubano tem tratamento médico de alta qualidade, já que a medicina e a indústria farmacêutica cubana, ambas estatais, estão reconhecidamente entre as melhores do mundo. Como já citei, a taxa de mortalidade e a expectativa de vida em Cuba ficam à frente dos EUA, não se morre em Cuba, por exemplo, de diarréia (como ocorre nos rincões do Brasil), 98% das casas são atendidas por esgoto e 91% têm água potável encanada. Só para citar alguns dados.

O terceiro fator em que Cuba é diferenciada é de causar muita inveja, não só a Brasileiros, mas a americanos e europeus também: a segurança em Cuba é uma coisa impressionante! Você pode andar de madrugada por qualquer lugar sem nenhum problema. Pode deixar seu celular em cima da mesa de um restaurante sem ter que ficar vigiando. Pode, estando na praia, deixar sua câmera fotográfica na cadeira e ir dar um mergulho, que quando voltar ela estará lá. Nos primeiros dias você até pergunta ao garçom se pode deixar um óculos em cima da mesa enquanto vai ao buffet se servir e ele dá risada, já que não passa pela cabeça dele qual seria o problema. E apesar disto não se têm uma sensação de que se está sendo vigiado. O que eles não têm e que temos de sobra aqui no Brasil é a sensação de impunidade.

Que os cubanos tem suas dificuldades isto é óbvio, mas é óbvio também que eles têm muitas benesses (educação, segurança, saúde) e que, a seu modo, vivem uma vida relativamente confortável. Lhes falta muita coisa, mas não creio que os cubanos, no geral, sejam mais pobres ou vivam em piores condições do que os moradores das periferias das grandes cidades brasileiras, como São Paulo ou Rio. Aliás, fui à Salvador no final de março e garanto que Cuba não é mais pobre que a Bahia.

Be happy! 🙂

Cuba 03