O racismo e o efeito pigmaleão

RacismoEu estava me esquivando de escrever sobre o tema, porque toda vez que surge algum tema polêmico como este, que em pleno século 21 não deveria nem existir, você acaba descobrindo o quão estúpidas são algumas pessoas, muitas das quais são seus amigos, e uma vez alguém já disse que “a ignorância (no sentido de desconhecimento) é uma benção!”. Mas também notei que muitas pessoas minimizaram ou relativizaram a agressão sofrida pelo goleiro Aranha, do Santos Futebol Clube, pela torcida do Grêmio por total desconhecimento do problema e seus efeitos.

Vou começar, primeiramente contando três histórias ligadas a minha família.

Quando eu nasci, meus pais moravam na Zona Sul de São Paulo e meu avô havia acabado de se mudar para a Zona Norte. Minha tia mais nova, que era solteira e morava com meus avós, veio para a Zona Norte, enquanto seu namorado morava perto da casa dos meus pais. Aos finais de semana o meu futuro tio ia até a Zona Norte para visitar a minha tia. Algumas vezes ele me trazia para que meus avós tivessem um tempo com seu primeiro (e então único) neto. Toda vez que ele me apresenta para alguém, ou me vê após algum tempo, ele conta entre gargalhadas que era parado no metrô e/ou na rua, por policiais ou seguranças do metrô, que pediam tanto os documentos dele quanto os meus (na época criança só tinha certidão de nascimento). Lá pelos 8 ou 10 anos eu fui “descobrir” que este meu tio é negro, já que para a criança, na sua pureza, é tudo gente, e o máximo de “classificação” que ela faz é “gente grande” e “gente pequena”. Lá pelos 14 anos eu parei de achar graça quando ele contava esta história, pois fui entender que ele só era parado porque era um “negão levando um alemãozinho”, para usar a mesma frase que ele usa quanto conta a história.

Racismo 2Meu tio se casou com a minha tia e viveram juntos até o falecimento dela, há alguns anos atrás. Porém meu avô só foi aprovar o casamento deles já no final de sua vida, quando foi começar a gostar do meu tio, pois era este meu tio que o levava ao médico quando ele precisava e que ajudava a minha tia a cuidar dele. Durante todo o tempo ele sempre se referiu ao meu tio com desprezo e usando termos pejorativos alusivos à cor da pele do meu tio. A primeira impressão que as pessoas terão ao ler este breve relato é “mas que fdp racista era seu avô”. Na verdade meu avô também era uma vítima do racismo, e para isto coloco uma foto dele ao lado. Sim, meu avô, que tinha preconceito contra meu tio, também era negro (e baiano!).

A terceira história ocorreu alguns anos após o falecimento do meu avô. Eu tenho duas sobrinhas, hoje com 10 e 6 anos, e toda vez que eu viajo eu trago alguma coisa para elas (um brinquedo, uma pelúcia). Em 2010 eu viajei à Colômbia e em um local que vendia artesanato local eu encontrei bonecas de pano feitas à mão. São bonecas negras, com cabelo rastafari e miçangas e usando roupas típicas de San Andrés (que fica no Caribe Colombiano, para onde havia viajado). Deixei a boneca com a minha mãe para que ela entregasse às minhas sobrinhas quando possível. Depois de cerca de um mês calhou de eu estar em casa e minha sobrinha maior (à época com 6 anos) também e ela me perguntou: “Por que você me deu esta boneca preta? Não sabe que eu não gosto de preto?”. Confesso que fiquei estupefato e nem consegui pensar em nada para responder (psicologia infantil não é o meu forte!). Até porque a ex-mulher do meu irmão, mãe da minha sobrinha, é negra! Consequentemente ela também é negra!

Um pequeno parêntese: se um negro se casa com uma branca e eles têm um filho, por que a criança é considerada negra e não branca? O mesmo acontece com orientais ou com índios: filhos de casais inter-raciais (detesto esta expressão mas não achei outra melhor) destas etnias com pessoas consideradas brancas serão sempre orientais ou índios, respectivamente. Se formos pensar em biologia, seria o “gene branco” recessivo à todos os outros? Portanto, estaria a “raça branca” fadada à extinção, pois outros genes mais “fortes” que se sobrepõe à este? Ou seja, as teorias das pessoas que acham que os arianos são uma raça superior não se sustentam nem com base nas teorias de Darwin (posso ter falado uma besteira enorme aqui do ponto de vista de biologia, genética, teoria da evolução, mas não é minha praia e no momento não vou procurar mais sobre o assunto).

O que aconteceu com meu avô, com meu tio e agora com minha sobrinha (três gerações de uma mesma família!) é o que é conhecido na psicologia como Efeito Pigmaleão: eles ouviram a vida inteira que negro não presta, é inferior, ouviram pessoas serem chamadas de macaco (ou foram eles próprios chamados), que negro não faz nada certo, não vêm negros em papéis importantes na sociedade (política, polícia, etc) e em programas de TV. Eles foram “convencidos” de que são realmente inferiores e então não se identificam como negros e chegam até a repudiar – caso do meu avô e da minha sobrinha. Ou então aceitam serem tratados de forma diferente, como meu tio, que achava normal ser abordado por estar com uma criança branca, fato este que nunca aconteceu com meu irmão quando ele passeia com a minha sobrinha (um alemão passeando com uma criança negra!), por exemplo. Veja este vídeo do Neil DeGrasse Tyson explicando de uma forma até engraçada como funciona o efeito pigmaleão.

Numa sociedade democrática a pessoa tem o direito de não gostar de alguém por qualquer o motivo, inclusive cor da pele, gênero, etnia, origem, orientação sexual. Do mesmo jeito que eu posso achar esta pessoa um imbecil. Eu tenho até o direito de chegar até esta pessoa e falar com todas as letras “você é um imbecil!”, assim como esta pessoa estará no pleno direito de mover um processo contra mim por injúria se ela se sentir ofendida. Porém eu só estaria ofendendo à ela. É muito diferente de uma pessoa estar no estádio gritando “Macaco!” a plenos pulmões ou mesmo fazendo sons que remetem ao animal.

À partir deste momento não existe uma ofensa somente à uma pessoa (o que já é descabível), mas à toda uma etnia (por isto chama-se “injuria racial”). E ao agirem desta forma colocam todos os negros em uma posição de inferioridade em relação aos brancos (ou outras etnias), transmitindo esta imagem à muitas outras pessoas, criando o tal efeito pigmaleão. Ou seja, os negros presentes no estádio ou que assitiram pela TV (principalmente as crianças, veja aqui este ótimo depoimento do rapper Emicida sobre o assunto), por força do meio, tendem a serem “convencidos” de que sim, eles são inferiores, tanto que haviam negros entre os próprios agressores, que por conseqüência também não deixam de ser vítimas desta lógica cruel.

Então antes de achar que estão exagerando, que a menina já se arrependeu e não merece tudo isto, que no “estádio isto é normal”, pense que o ato que ela cometeu, além de ofender um profissional no exercício do seu trabalho influência na vida de milhares de pessoas, por gerações e gerações.

Em tempo: eu acho simplesmente patético uma pessoa que usa a frase “eu até tenho amigos negros (ou gays, ou pobres, ou baixinhos, etc)”. É a própria confissão da imbecilidade. Eu nunca fiz um censo para saber quantos amigos negros, nordestinos, gays, pobres eu tenho. Nunca nem parei para contá-los. São meus amigos e isto me basta.

Alguns pitacos (que não consegui encaixar no texto):

  1. Se você não sente empatia ao ver a indignação do Aranha na imagem acima, então talvez você não esteja preparado para viver com nenhum outro ser vivo e deva ir viver isolado no meio do mato.
  2. Existe um filme com o Eddie Murphy que usa como base o filme “My Fair Lady”, citado no artigo da Wikipedia, sobre o Efeito Pigmaleão, e que se chama “Trocando as Bolas”.
  3. A “suposta” superioridade intelectual dos orientais também é causa do efeito pigmaleão. Durante toda a vida eles recebem estimulos dizendo que eles são os melhores, são capazes, são inteligentes. Imagine uma criança que recebeu estes estímulos quando se depara com um difícil problema de matemática. Ele vai pensar “eu consigo resolver, eu sou capaz” e vai se esforçar até resolver. Agora imagine uma outra criança que sempre foi chamada de burra, a reação dela frente ao mesmo problema será “eu sou burro, eu nunca vou conseguir”, e provavelmente vai desistir de tentar.
  4. Não sou advogado, mas só para contextualizar o que é injúria (do jeito que eu entendo, claro, e se algum amigo advogado quiser corrigir, fique à vontade): injúria é quando você diz algo que ofende alguém. Calúnia é quando você atribui um fato, característica, etc à uma pessoa, sendo que este fato não é verdadeiro. Difamação é você espalhar para outras pessoas algum fato que prejudique aquela pessoa, sendo fato verdadeiro ou não.
  5. Me recuso a dar mais ibope àquela idiota gremista, seja citando o nome dela, seja colocando foto no artigo para ilustrar. Ela devia estar na cadeia e não fazendo tour por programas de TV, até porque, ao menos para atriz ela não tem o menor cacoete: não convenceu ninguém o arrependimento e as tentativas forçadas de choro.

E para “sonorizar” o texto, um ótimo samba da Dona Ivone Lara:

Uma ideia sobre “O racismo e o efeito pigmaleão

  1. Pingback: Wanderlust #22 – Cuba: observações, dicas e curiosidades | Botecoterapia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s