Wanderlust #22 – Cuba: observações, dicas e curiosidades

297 Museo de la Revolución - La Habana Vieja - Havana - CubaComo tinham muitas coisa interessante para mencionar sobre Cuba, eu coloquei em cada um dos artigos (aqui, aqui, aqui e aqui) curiosidades, dicas e observações específicas relacionadas à cada um dele e a exemplo do que eu fiz para os EUA, estou fazendo um artigo somente com coisas gerais sobre o país. Vou colocar os tópicos na ordem em que fui anotando sem ordená-los ou classificá-los. Então segue:

  • Existem apenas 4 canais de TV e menos de 50 estações de rádio, todas estatais, em Cuba. Uma das melhores rádios é a Rádio Enciclopédia, que tem uma programação musical e cultural variada. Ouvi um programa de meia hora só de chorinho. O engraçado é que eles chamam o cavaquinho de “violino” (faz sentido: um violão pequeno).
  • Mas o melhor nome de rádio é a Rádio Reloj (como ninguém teve esta idéia antes?).
  • Os brasileiros são bastante estimados em Cuba, muito por causa das novelas brasileiras. Apesar disto e apesar dos esforços brasileiros em ajudar Cuba (investimentos em portos e aeroportos, aquisição de serviços médicos), os países considerados como “parceiros” são o Canadá e o México (os unicos países das Américas que não aderiram ao bloqueio) e a Venezuela (que contribui com petróleo).
  • A fama da novela brasileira até se inseriu na cultura local: em 1995 o governo autorizou que famílias servissem refeições para turistas em suas casas (geralmente tem uma ou duas mesas, no quintal ou em um dos cômodos das casas). Nesta época a novela Vale Tudo era transmitida na ilha e a personagem de Regina Duarte (Rachel Accioli) tinha um pequeno restaurante chamado “Paladar”. Paladar então se tornou sinônimo de “pequeno restaurante familiar” em Cuba.
  • O Neymar é idolatrado em Cuba e na América Latina em geral. A maioria das camisas da seleção e do Barcelona que eu vi e que eram vestidas por latino americanos tinham o nome do Neymar. Acho que a garotada daqui se identifica muito mais com ele, por ser uma pessoa que tem uma origem humilde (o que não é verdade), e por ser negro (mesmo ele dizendo que “nunca sofreu racismo porque não é preto”, antes de criticá-lo, por favor, leia meu artigo O Racismo e o efeito pigmaleão), ao invés de se identificarem com os “imperialistas” Cristiano Ronaldo e Messi, por exemplo (eu sei que o Messi é argentino de nascimento, mas ele viveu praticamente a vida toda na Espanha).
  • Se você acha o pessoal do nordeste lento, então prepare-se muito bem para encarar Cuba. Os cubanos fazem tudo num ritmo lentíssimo. Pensando bem, creio que é o paulistano que é acelerado demais.
  • Existe um sentido de coletividade enorme nos locais de trabalho. Não é raro ver um garçon ou dançarino (no caso do Resort) ir ajudar a organizar as mesas. Ou um atendente ou gerente de hotel ir ele mesmo levar o recado a um quarto de hóspede pois quando os mensageiros estão ocupados.
  • A influência da cultura africana em Cuba é muito similar à influência no Brasil. A comida é parecida (arroz e feijão e os vegetais consumidos normalmente aqui) e a Santeria, a religião dos escravos, é muito parecida com o Candomblé e também mistura alguns santos católicos com orixás. Existe Yemanjá (Yemanja), Ogum e Oxum (Ochum), para citar alguns, e com indumentária muito parecida. Achei até que a origem dos escravos levados à Cuba era a mesma do Brasil, mas pelo que eu pesquisei eles vinham de regiões diferentes da África.
  • Sem duvida uma das principais características de Cuba é a segurança. Você pode andar à noite a pé, deixar camera e celular sobre a mesa do bar ou na cadeira de praia enquanto vai dar um mergulho sem problema nenhum. Quando você pergunta se pode deixar algo na mesa de um restaurante, por exemplo, eles até dão risada pois não imaginam o porque não poderia.
  • Apesar disto, não existe uma sensação de “vigilância” excessiva. Nada de big brother. O diferencial é que lá não existe a sensação de impunidade que existe no Brasil.
  • Talvez o único problema ligado à segurança sejam os jineteiros, que engloba desde prostitutas (tanto aquelas que fazem programa quanto as mulheres que buscam um marido para sair do país) e golpistas. Porém são aqueles pequenos golpes da pessoa te devolver troco errado, querer comer na sua conta, pedir um drink no bar e fazer você pagar sem pedir antes, ou seja, são “golpes” totalmente evitáveis. Mas mesmo assim, em número muito reduzido se comparado à outros países.
  • Os socialistas pedem nos países capitalistas que a jornada semanal de trabalho seja reduzida para 36, 34 e até 30 horas. Porém em Cuba a jornada é de 48 horas semanais (8 horas diárias durante 6 dias semanais). Ou seja, para o capitalista não pode, mas para o “regime” pode.
  • Inclusive, a mais valia que fica com o Estado cubano é bem maior do que o de qualquer empresa em qualquer país. O “overhead” para manter a estrutura do sistema é bem maior do que em qualquer empresa, afinal, precisam de bem mais controles.
  • Como o acesso a vários produtos industrializados é restrito, em muitos lugares (bares, restaurantes e aeroportos) não existe muito papel (higiênico, guardanapos, embrulhos, etc) e plástico (sacolas plasticas principalmente). Além disto, em alguns lugares públicos falta água (existe saneamento, talvez as pessoas não consigam é fazer a manutenção regular de torneiras e encanamentos). Então a dica é levar lenços umedecidos, que quebram um galhão para “lavar” as mãos.
  • O lado bom disto é que não se vê muita sujeira na rua (também por causa do senso de coletividade citado anteriormente).
  • Pensando bem, a dica de andar com lenço umedecido serve também para quem mora em São Paulo.
  • Como eles não têm acesso a muitos bens industrializados (é muito caro para eles), uma outra dica é levar alguns “regalos”. Para homens, leve uma camisa da seleção ou do time para o qual você torce. Para as mulheres e meninas batom, enfeites de cabelo, esmalte. Para crianças, leve algumas canetas, giz de cera, lápis, chiclete. Eles vão ficar superfelizes de ganhar algo que pra gente é uma coisa banal, mas para eles é algo quase inacessível.
  • Apesar de todas estas restrições, os cubanos são um povo muito feliz. O que me leva a pensar que a gente não precisa de muita coisa para ser feliz e o problema é que a gente sempre coloca nossas expectativas em um ponto inatingível (e depois nos decepcionamos).
  • Realmente em Cuba se fuma em tudo quanto é lugar. Fora de Havana ainda respeitam restaurantes, mas em Havana você pode estar jantando num restaurante e não será incomum alguém na mesa de trás da sua acender um cigarro ou charuto (inclusive nos hotéis, onde se pode fumar em praticamente qualquer lugar, inclusive quartos). Mas com tanta fumaça que os carros fazem, este é o menor dos problemas.
  • E não é exagero meu: os carros fazem tanta fumaça que você fica cheio de fuligem ao caminhar durante o dia e quando vai tomar banho sai aquele “caldo” preto.
  • Falando dos carros, como já é sabido, existem muitos carros das décadas de 40, 50 e 60 rodando por Cuba. Uma boa parte em perfeito estado de conservação (com o bloqueio, eles começaram a produzir as peças de reposição lá mesmo, em pequenas oficinas). O que nos leva a pensar que, sendo um bem durável, porque tem gente que precisa trocar de carro todo ano?
  • Eu não sou à favor do “os fins justificam os meios”, mas é inevitável notar como as restrições as religiões com poder central (especificamente a católica) impostas durante a primeira metade do regime gerou uma separação total entre Igreja e Estado, o que é sempre bom (se bem que o Marxismo em sí é praticamente uma religião).
  • Além da educação, saúde e segurança, uma coisa da qual os cubanos devem se orgulhar é o seu sorvete. Todos os que eu tomei estavam ótimos. Quando estava indo de Santiago para Havana, tomei o melhor sorvete de chocolate da minha vida (e por apenas R$ 1,50). Taí um produto que eles poderiam exportar para ajudar na economia.
  • Todos os táxis (táxis regulares, cocotáxis e carrões antigos) têm taximetro, porém ninguém liga. Para não ser passado para trás, o esquema é combinar o preço da corrida antes de entrar no táxi. Se informe antes no hotel quanto custa, mais ou menos, a corrida que você quer fazer. Outras duas dicas são: sempre pechinche e sempre leve trocado (se você combinar, por exemplo, 8 CUCs e só tiver 10, o taxista vai alegar que não tem troco).
  • Evite pegar os táxis na porta dos hotéis ou em lugares turísticos. Ande um pouco e pegue na rua (como falei, Cuba é seguro, pode pegar táxi sem problemas). E tente pegar os táxis mais antigos (os Ladas).
  • As filas lá são um negócio de doido: a pessoa chega no lugar e pergunta “quem é o último?”, ai esta pessoa se identifica e você têm que “marcar” ela. Quando alguém chegar e perguntar pelo último, se for você for, identifique-se para que a pessoa possa saber atrás de quem está. Eles não vão formar uma fila como fazemos aqui e se você comer bola vai ter várias pessoas passando na sua frente (não por maldade). Eu tinha visto nas minhas aulas de espanhol que na Espanha funciona assim também em açougues e padarias, por exemplo, porém nestes lugares tem 5, 10 pessoas. Quando tem 100 pessoas o sistema torna-se impossível de ser acompanhado por quem não está acostumado.
  • O transporte público (ônibus e papa filas, além de caminhões, caminhonetes e táxis coletivos) está sempre lotado! E olha que tem um monte de ônibus articulados por lá.
  • Pelo fato de a maioria dos estabelecimentos comerciais serem do Estado, ou seja, é um monopólio, não existe a necessidade de dar um nome para o estabelecimento. Muitos deles, especialmente os postos de gasolina, têm simplesmente o nome da rua (ou da esquina) em que se encontra: Posto Calle 23, restaurante Prado y Neptuno (na esquina destas ruas), etc.
  • Tem muito pedinte e muita gente querendo se oferecer pra te ajudar em troca de gorjeta. Uma hora enche o saco, pois você às vezes quer ficar sossegado numa mesa de bar, ou então já tem uma programação. Mesmo quando estiver nestas situações, trate todos com educação e respeito. Explique que você não tem dinheiro, ou “minta” que você já almoçou ou já comprou charutos (eles te oferecem para levar em um restaurante ou em uma cooperativa de produtores de charutos pois ganham comissão), explique que você já se programou para ir a outro lugar, mas nunca ignore ou falte com educação. Cordialidade e gentileza é bom em qualquer lugar do mundo e em qualquer situação e muitas vezes 5 minutos de conversa, que para você não custa nada, pode significar muito para a outra pessoa.

Be happy! 🙂

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