Deus Um Delírio – Richard Dawkins (02/2015)

Deus-um-DelirioEngraçado como as vezes um livro aparece na sua vida num momento bem propício. Eu sempre tive uma relação estranha com as religiões. Eu fui criado na doutrina evangélica até os 14 anos de idade, mas nunca tive fé e, graças a minha curiosidade, sempre questionei os dogmas religiosos e a existência de um ser superior (seja ele qual for). Mas também nunca duvidei da existência deste ser (ou seres, dependendo da religião). Simplesmente eu sempre achei que eu não preciso de fé em algo sobrenatural e, desde que a fé alheia não interfira na minha vida eu nunca liguei para religiões em geral. Inclusive eu eu até acho os ritos religiosos muito interessantes.

Mas de uns tempos para cá, especialmente com a ascenção do fundamentalismo evangélico no Brasil e o avanço dos tentáculos de seitas evangélicas sobre Estado brasileiro, eu comecei a rever estes meus conceitos. O livro O Sári Vermelho, que eu li no começo do ano, ajudou a derrubar um mito em que eu acreditava, de que as religiões orientais eram pacifistas e tolerantes. O ataque dos terroristas muçulmanos (sim, é esta a denominação, não adianta dourar a pílula) ao jornal francês Charlie Hebdo foi a gota d’água para eu definitivamente chegar a conclusão de que a religião é sim um mal imenso para o mundo, que não tem como elas não interferirem na minha ou na vida de qualquer pessoa e que as religiões (TODAS) não devem ser apenas ignoradas, mas sim combatidas.

E ai leio este livro do Richard Dawkins, que me traz argumentos infinitamente melhores e com mais embasamento que as minhas próprias conclusões. O livro funciona como se fosse um “Evangelho do Ateísmo”, como o autor propôs que fosse (e ele deixa isto bem claro no prefácio) e é dividido em 10 capítulos que desconstróem alguns mitos das religiões e é respaldado por vários estudos, livros e citações, todos eles devidamente bibliografados ao final do livro, de cientistas, teólogos, celebridades e políticos, religosos ou não. Um dos pontos fortes do livro é justamente desconstruir “teorias” e discursos religiosos. Dentre os 10 capítulos, 3 foram os que me mais chamaram a atenção:

O sexto capítulo trata das raízes da moralidade e desconstrói o argumento de que a ética e a moral são frutos da religião (até porque tanto o Deus da Bíblia quanto a própria Bíblia em sí não são nenhum exemplo de moral, muito pelo contrário). Isto sempre foi um dos meus questionamentos, mesmo quando frequentava a igreja eu já pensava que uma pessoa que precisa ser ameaçada com as chamas do inferno ou “incentivada” com uma vida no paraíso para que pratique atos morais e de caridade só pode ser um canalha ou um interesseiro, mas este capítulo traz uma abordagem do ponto de vista do desenvolvimento da espécie humana para as questões de moral. Não que as razões da moral do ponto de vista da evolução sejam muito altruístas, já que elas se formaram pelo bem da manutenção da espécie, mas ao menos explicam de uma maneira lógica do porque da moralidade e mostra que ela não tem nada a ver com religião.

No oitavo capítulo ele trata sobre os males da religião em sí e das razões para ser tão hostil com todas elas. Um motivo para mim já estava claro há algum tempo: toda religião é fundamentalista ao definir-se como a única certa e buscar a conversão de todas as pessoas à ela ou, quando isto não é possível, a eliminação das demais pessoas e religiões. Não adianta cair no discurso de que “não se pode condenar a instituição por conta de atos de seus membros”, já que se a instituição não existisse, aquele membro muito provavelmente não cometeria aquele ato.

O nono capítulo trata da violência que é doutrinar uma criança em qualquer religião ao invés dar à ela condições de analisar e a opção de escolha, quando ela tiver capacidade para fazer esta escolha. E aqui o livro toca num ponto particularmente interessante para mim. Como disse eu fui criado na doutrina cristã evangélica e, caso não tivesse uma curiosidade natural e capacidade de questionar aquilo que me foi imposto durante anos, provavelmente hoje eu estaria ainda nas garras de alguma igreja, sem a compreensão que tenho hoje do mundo. Poderia falar de várias coisas das quais eu fui privado por conta da escolha que meus pais me impuseram (e nem posso culpá-los já que eles também são vítimas deste ciclo), tais como acesso às artes (cinema, música, etc), TV e à Ciência em geral, mas só o fato eu ter sido levado a acreditar em algo sem a capacidade de questionar já é motivo suficiente para eu concordar plenamente com Dawkins quanto à este tema.

Outro ponto forte do livro é que, ao invés dele cair no lugar comum de utilizar o fanatismo religioso muçulmano, ele prefere usar muitos exemplos do fanatismo cristão americano, o que faz com que as pessoas com capacidade de abstração e análise consigam entender que tudo o que se aplica ao fanatismo muçulmano, também é aplicável à qualquer outra religião.

O livro não é dos melhores, do ponto de vista literário, como muitos fãs de Dawkins também afirmam, mas certamente, dentro do propósito é uma leitura clarificante. Nem posso indicar para amigos que têm fé em algum tipo de religião pois, com quase toda certeza, o livro iria fazer com que elas sintam desprezo e revolta (e talvez até por mim!), mas para aqueles que têm alguma capacidade de analisar fatos e argumentos válidos, independente da fé, é uma ótima leitura.

Algumas citações interessantes:

Joga fora todos os medos de preconceitos servis, sob os quais as mentes dos fracos se curvam. Coloca a razão firmemente no trono dela, e apela ao tribunal dela para todos os fatos, todas as opniões. Questiona com coragem até a existência de Deus; porque, se houver um, ele deve aprovar mais o respeito à razão que o medo cego. – Thomas Jefferson

O espetáculo daquilo que é chamado religião, ou qualquer outro tipo de religião organizada, na Índia ou em qualquer outro lugar, enche-me de horror e já o condenei com freqüência, no desejo de eliminá-lo. Quase sempre ele parece significar crença e reação cegas, dogma e intolerância, superstição, exploração e a preservação de direitos adquiridos. – Jawaharlal Nehru

Temos nomes para as pessoas que têm muitas crenças para as quais não há justificativa racional. Quando suas crenças são extremamente comuns, nós a chamamos de “religiosas”; nos outros casos, elas provavelmente serão chamadas de “loucas”, “psicóticas” ou “delirantes” […] Claramente, a sanidade está nos números. E, mesmo assim, é apenas um acidente da história o fato de ser considerado normal em nossa sociedade acreditar que o Criador do universo é capaz de ouvir nossos pensamentos, enquanto é uma demonstração de doença mental acreditar que ele está se comunicando com você fazendo a chuva bater em código Morse na janela de seu quarto. Assim, se as pessoas religiosas não são generalizadamente loucas, suas principais crenças absolutamente o são. – Sam Harris

“Você é tão bruto, tão pouco sutil, como pode ser tão insensível e mal-educado a ponto de me fazer uma pergunta direta, à queima-roupa, como ‘Você acredita em milagres?’ ou ‘Você acredita que Jesus nasceu de uma virgem?’. Você não sabe que entre pessoas educadas não se faz este tipo de pergunta”. Mas reflita por que é indelicado fazer perguntas tão diretas e factuais para pessoas religiosas hoje em dia. É porque dá vergonha! Só que é a resposta que dá vergonha, se ela for sim. – Richard Dawkins

Você realmente quer me dizer que o único motivo para você tentar ser bom é para obter a aprovação e a recompensa de Deus, ou para evitar a desaprovação dele e a punição? Isso não é moralidade, é só bajulação, puxação de saco, estar preocupado com a grande câmera de vigilância dos céus, ou com o pequeno grampo dentro da sua cabeça que monitora cada movimento seu, até seus pensamentos mais ordinários. – Richard Dawkins

…se as pessoas são boas só porque temem a punição, e esperam a recompensa, então nós somos mesmo uns probres coitados. – Albert Einstein

Mesmo que fosse verdade que precisamos de Deus para ser bons, isso obviamente não tornaria a existência de Deus mais provável, apenas mais desejável (muita gente não consegue enxergar a diferença). – Richard Dawkins

Deus e a Pátria são um time imbatível; eles quebram todos os recordes de opressão e derramamento de sangue – Luis Buñuel

…a religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos gente boa fazendo coisas boas e gente ruim fazendo coisas ruins. Mas, para que gente boa faça coisas ruins, é preciso a religião. – Steven Weinberg

A Bíblia é um guia da moralidade entre os membros do mesmo grupo, contendo instruções para o genocídio, para a escravização de forasteiros e para a dominação do mundo. Mas a Bíblia não é malévola devido a seus objetivos ou à glorificação do assassinato, da crueldade e do estupro. Muitas obras antigas fazem a mesma coisa – a Ilíada, as sagas islandesas, as lendas dos sírios da Antigüidade ou as inscrições dos maias, por exemplo. Mas ninguém sai por ai vendendo a Ilíada como base da moralidade. Ai é que está o problema. A Bíblia é vendida, e comprada, como um guia para orientar a vida das pessoas. E é, de longe, o maior best-seller de todos os tempos. – John Hartung

A religião é considerada verdade pelas pessoas comuns, mentira pelos sábios e útil pelos governantes. – Sêneca

Os fundamentalistas sabem que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado e sabem, desde o começo, que nada os afastará de sua crença. A verdade do livro sagrado é um axioma, não o produto final de um processo de raciocínio. O livro é a verdade e, se as provas parecem contradizê-lo, são as provas que devem ser rejeitadas, não o livro… As pessoas acreditam nos livros sobre evolução não porque eles sejam sagrados. Acreditam porque eles apresentam quantidades imensas de evidências mutuamente sustentadas. Quando um livro de ciência está errado, alguém acaba descobrindo o erro, e ele é corrigido nos livros subsequentes. Isso evidentemente não acontece com os livros sagrados. – Richard Dawkins

4 ideias sobre “Deus Um Delírio – Richard Dawkins (02/2015)

  1. Pingback: O Mundo Assombrado pelos Demônios – Carl Sagan (11/2015) | Botecoterapia

  2. Ncy Silva

    Obrigada por deixar os trechos do livro. Gostei de 2. Um é o que o autor afirma que comportamentos indiscretos são uma falta de educação do caralho, uma idéia tão simples que escapa aos superiores, os religiosos. O outro trecho legal de citar, ah, só agora vi que é do R. Dawkins também. Ele diz que realmente precisamos de muito, muito, esse muito inclui Deus. Mas seria muito bom se o simples fato de precisarmos de gerasse tudo de que que precisamos. Precisar de algo tem o único poder de tornar esse algo desejável, tornálo possível ou provável é o cada pai, cada mãe ou cada criança sempre desejou. O Dawkins escancara que não existe só o livro religioso, o aspecto forte é a interpretação. O doloso pederasta mal caráter de ontem é o geneticamente desfavorecido homossexual de amanhã. Aliás, aqui no Brasil, prá não dizer que só enxergamos os defeitos … gula sempre foi um dentre os PECADOS, tb existem os pecados. Quem começou com a culinária, os ingredientes importados, 10 padrões de fogão para 200 padrões de panelas? Café aromatizado, excesso de etapas de preparação da comida, restaurantes com 30 pratos no almoço, 100 tipos de queijos, atenção à madeira usada na construção da adega, a comida como espetáculo de TV. O que o livro sagrado fala não é tão sagrado assim e os interpretadores do livro têm comportamento total flex enquanto um ingênuo gasta a juventude com preceitos.

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  3. Ncy Silva

    Obrigada por deixar os trechos do livro.
    Gostei de 2. Um é o que o autor afirma que comportamentos indiscretos são uma falta de educação do caralho, uma idéia tão simples que escapa aos superiores, os religiosos. O outro trecho legal de citar, ah, só agora vi que é do R. Dawkins também. Ele diz que realmente precisamos de muito, muito, esse muito inclui Deus. Mas seria muito bom se o simples fato de precisarmos de gerasse tudo de que que precisamos. Precisar de algo tem o único poder de tornar esse algo desejável: tornálo possível ou provável é o cada pai, cada mãe ou cada criança sempre desejou. O Dawkins escancara que não existe só o livro religioso, o aspecto forte é a interpretação. O doloso pederasta mau caráter de ontem é o geneticamente desfavorecido homossexual de amanhã. Aliás, aqui no Brasil, prá não dizer que só enxergamos os defeitos … gula sempre foi um dentre os PECADOS, tb existem os pecados. Quem começou com a culinária gourmet, os ingredientes importados, 10 padrões de fogão para 200 padrões de panelas? Café aromatizado, excesso de etapas de preparação da comida, restaurantes com 30 pratos no almoço, 100 tipos de queijos, atenção à madeira usada na construção da adega, a comida como espetáculo de TV. O que o livro sagrado fala não é tão sagrado assim e os interpretadores do livro têm comportamento total flex enquanto um ingênuo gasta a juventude com preceitos.

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  4. Pingback: O Gene Egoísta – Richard Dawkins (18/2016) | Botecoterapia

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