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Wanderlust #27 – Aracaju e Canindé do São Francisco, Sergipe, Brasil

01 Aracaju - Sergipe - BrasilAcho que Aracajú foi o lugar que mais me surpreendeu positivamente nesta trip e talvez um dos que mais me surpreendeu no Brasil! Além do fato de ser uma capital com pouco apelo turístico, meu pai é de Sergipe e por isto inclui a cidade no roteiro. Porém, já ao chegar de avião você nota que é uma cidade bastante desenvolvida e andando pela cidade você realmente chega a conclusão que talvez seja uma das capitais nordestinas com o melhor nível de desenvolvimento e de qualidade de vida.

Orla de Atalaia

Orla de Atalaia

Depois de uma maratona de avião vindo de João Pessoa, cheguei no modesto mas moderno aeroporto de Aracaju já no final da tarde. O Aeroporto é bem perto da cidade e consegui me acomodar no hotel com o dia ainda claro, pensando em aproveitar o finalzinho de tarde em algum quiosque na praia. Porém, depois de me acomodar e tomar um banho, caiu uma tempestade que impossibilitava sair a pé.

A chuva passou já era começo de noite e resolvi caminhar até a Passarela do Caranguejo, na própria orla de Atalaia, onde estava hospedado, pois é uma região com bastante bares e restaurantes. Nesta caminhada de cerca de 4 kms já deu para perceber como a cidade tem uma infraestrutura muito boa, tanto para receber o turista como para os próprios moradores. Na orla existem restaurantes, praças, ciclovia, playgrounds e mais um monte de equipamentos de cultura e lazer providos pelo Estado e em ótimo estado de conservação.

A praia em sí fica distante da avenida e do calçadão

A praia fica distante da avenida e do calçadão

No outro dia fui conhecer o outro canto de Atalaia (sentido Coroa do Meio) e o centro de Aracaju. Já de dia pude notar um pouco mais como é a geografia do lugar: ao longo da avenida da praia existe um Jardim contínuo, que conta com várias atrações (Kartódromo, Parque de Diversões, Centro de Exposição, etc), após o jardim existem lagos e uma extensa faixa de areia e só então começa a praia. Desta forma, a praia fica bem afastada da avenida (cerca de 200mts) e também de prédios que poderiam causar sombra.

A beleza das praias de Sergipe não se comparam às das praias de Alagoas e Rio Grande do Norte, porém as de Aracaju além de serem infinamente melhor preservadas, ainda contam com uma infraestrutura melhor.

Depois de andar bastante, resolvi pegar uma bike (lá a patrocinadora é a Net ao invés do Itau, como em São Paulo e no Rio) para pedalar até o centro. Outro ponto bom de Aracajú é que você pode conhecer a cidade toda usando as ciclovias e ciclofaixas existentes. Além disto os pontos de retirada e entrega de bikes estão muito bem distribuidos.

Praça Almirante Barroso

Praça Almirante Barroso

Conheci a Praça Almirante Barroso, onde se encontram alguns prédios históricos, a Catedral, o Centro de Artesanato (bom para comprar artesanato de verdade, com produtos feitos a mão) e mais alguns pontos do Centro Histórico. Depois peguei outra bike com a intenção de conhecer o Parque do Cajueiro, porém não tinha estação para entrega de bike no parque e como iria ficar ruim ficar andando com ela, preferi seguir até a outra ponta da orla de Atalaia, perto da Passarela do Caranguejo, para entregar a bike e conhecer esta parte durante o dia. A praia neste pedaço da orla, apesar de ser ainda mais distante do que as que ficam próximas à Coroa do Meio, parecem ser mais agitadas. Mas o nível de beleza e infraestrutura é constante em toda a orla. Depois de 15 kms de caminhada e de mais uns 25 kms pedalando e não tendo encontrado nenhuma festa junina, resolvi comer algo e voltar para o hotel, já que no outro dia tinha agendado um passeio até Canindé de São Francisco, para conhecer o Canion do Xingó, no Velho Chico.

Barragem da Usina Hidrelétrica do Xingó

Barragem da Usina Hidrelétrica do Xingó

A viagem de ônibus de Aracaju até Xingó dura pouco mais de três horas, cruzando quase todo o Estado em direção ao Noroeste e passando por boa parte das cidades mais importantes, o que é uma boa oportunidade para admirar a flora do Estado.

A Usina Hidrelétrica do Xingó, que tecnicamente fica em Alagoas (o rio São Francisco separa os dois estados) é uma das mais recentes obras de infraestrutura deste porte no Brasil. Foi inaugurada em 1994 e hoje é responsável por gerar 35% de toda a energia elétrica consumida no nordeste brasileiro. Além disto, a força da gravidade que é usada para fazer as turbinas da hidroelétrica girarem também é responsável por mandar a água para canais de irrigação em Canindé do São Francisco, o que gerou ao redor dela um cinturão de producao de horti frutis no meio do sertão nordestino.

Canindé do São Francisco

Canindé do São Francisco

A construção da barragem aproveitou a existência de um paredão natural de pedras e a existência do Canion para diminuir ao máximo a necessidade de edificações: a barragem foi construida acima deste paredão de pedra o que gerou a inundação do Canion (o terceiro maior Canion inundado do mundo). Conforme explicou a guia do Catamarã, a profundidade média do São Francisco era de 20 metros antes da inundação e depois passou para 60 metros, chegando em alguns pontos a mais de 120 metros.

Durante o passeio de Catamarã até o porto de Brogodó (no município de Paulo Afonso, já estado de Alagoas) dá para notar a grandiosidade da formação do Canion e imaginar o tamanho que os paredões deviam ter antes da barragem. Além de tudo, dá para notar diversas formações nas rochas. Formações estas que indicam que há milhões de anos aquilo tudo estava debaixo do mar.

Acho que dentro do Brasil foi um dos locais mais belos que eu já conheci, quando se fala em beleza natural. É de tirar o fôlego mesmo!

Depois de encarar as 3 horas de volta para Aracaju, só restou dar uma descansada e tomar algumas cervejas para relaxar para encarar a volta e o fim das férias.

Observações, dicas e considerações:

  • Eu fiquei realmente impressionado em Aracaju com a disponibilidade de equipamentos de cultura e lazer: quadras e mais quadras (de futebol, volei, basquete, tenis, etc), parque de diversões, muitas ciclovias, skatepark e até pista de motocross e kartódromo. Tudo feito pelo poder público e em ótimo estado de conservação.
  • Existe uma unidade do Projeto Tamar na orla de Atalaia que vale a visita.
  • O pessoal leva o São João à sério em Sergipe. Todos os prédios residenciais e comércios estavam enfeitados com bandeiras. O pessoal me falou que lá o São João mexe mais com a cidade do que o natal e a Copa do Mundo.
  • Itabaiana, uma das várias cidades pelos quais passei a caminho de Xingó, é a cidade onde a profissão de caminhoneiro surgiu no Brasil. Uma curiosidade é o alto número de caminhões vermelhos, pois existe uma “lenda” de que caminhões vermelhos andam mais rápido que os demais.
  • Perto da barragem de Xingó formou-se uma  bela praia de água doce. Deve ser legal ir passar mais de um dia na região e aproveitar esta “praia” com sua água doce, quente e limpa.
  • Pelo pouco que conheci da cidade dá para imaginar que Aracajú, depois de João Pessoa, deve ser a capital do nordeste mais interessante para morar.

Be happy! 🙂

Catedral Metropolitana de Aracaju

Catedral Metropolitana de Aracaju

Praça General Valadão

Praça General Valadão

Passarela do Caranguejo

Passarela do Caranguejo

Arcos de Atalaia

Arcos de Atalaia

Morro do Gavião

Morro do Gavião

Morro do Japonês

Morro do Japonês

Cânion do Xingó

Cânion do Xingó

Porto de Brogodó

Porto de Brogodó

15 Canion do Xingo - Rio Sao Francisco - Canindé do São Francisco - Sergipe16 Canion do Xingo - Rio Sao Francisco - Canindé do São Francisco - Sergipe

O Verde Violentou o Muro – Ignácio de Loyola Brandão (16/2015)

O Verde Violentou o MuroEm 1982 o autor, após uma separação, aceitou uma proposta do DAAD, instituto alemão de intercâmbio acadêmico, para passar uma ano e meio em Berlin Ocidental. No livro, que tem como subtítulo “A vida em Berlin antes e agora”, ele relata as experiências de viver em uma cidade cercada por um muro (muita gente imagina, como eu imaginava antes de ir à Berlin pela primeira vez, que o país era “cortado” pelo muro, que passava pelo meio na cidade, mas na verdade o muro não dividia a Alemanha e sim cercava a parte ocidental de Berlin, expliquei um pouco aqui).

Depois deste período ele voltou mais três vezes à cidade depois da queda do muro e pode conhecer, com um pouco mais de detalhes, os pedaços do lado oriental da cidade. Como ele apenas visitava o “outro lado” em passeios de um dia, ele não tinha muitos detalhes de como era a vida ali e, ao visitar lugares que estavam atrás do cinza do muro, ele conta como ele imaginava que fosse.

Como ele deixa transparecer, ele parecia estar fugindo de alguma coisa, e como ele afirma em vários trechos, acabou se encontrando por várias vezes na cidade. Não é uma história com início, meio e fim, ou mesmo um relato. É apenas uma coleção de textos pequenos, onde ele relata experiências, curiosidades, observações e eventualmente dá algumas dicas, mais ou menos como eu faço nos artigos que escrevo sobre minhas viagens. É claro que ele tem muito mais bagagem do que eu (pelo fato de ter morado na cidade), além de ter um estilo infinitamente melhor que o meu de escrever. Por isto, a melhor forma de fazer um relato sobre o livro, é colocar alguns trechos que achei interessante (eventualmente com algum comentário meu):

  • “Não entendo conhecer uma cidade sem andar, andar. Cortando ruas, olhando para as casas, vitrines, supermercados, lojas. Tudo.”
  • “A cerveja alemã é mais suave, porém mais amarga que a brasileira. Mais cremosa, mais densa. Impossível encontrar aqui o que se chama no Brasil ‘estupidamente gelada’. Ou aquela que se tem de pedir ao garçom (se for íntimo da casa) ‘Me traz a que o dono guarda para ele!’. Descobri que beber cerveja estupidamente gelada é estúpido, mesmo ao calor de quarenta graus. Somente na Alemanha passei a sentir o sabor da cerveja, o gosto, o cheiro, a perceber as diferenças de paladar que o gelo anula.”
  • “Vá sábado de manhã, o espetáculo é curioso. Classes média e alta se acotovelam e entram em filas. Enfrentam aquilo por horas, sem protestos. Vendo as filas, achei curioso as críticas que costumam fazer a Berlim Leste. Uma delas diz: ‘Imagine, as pessoas têm que formar filas para fazer compras!’. Qual a diferença entre a fila do Leste e a do Oeste? Aqui estão comprando o supérfluo. Acho mais importante a fila do essencial” – sobre a KaDeWe, uma loja de departamentos gigante, ainda existente em Berlin, situada na Kurfürstendamm (ou KuDamm, uma mistura da Quinta Avenida com a Times Square, ambas de Nova Yorque), que oferece de tudo no que se refere à alimentos e bebidas.
  • “Meninas, adolescentes graciosas de vestidos vaporosos, longos, e pés no chão. Adoram andar descalças no verão”
  • “Ela existe, porém se conserva mais a distância. Posso andar sem medo pelas ruas, à noite. Não me incomodo muito se esqueço uma janela aberta. No cinema ou teatro deixo meu casaco guardando o lugar e vou tomar café, no intervalo. Sei que posso quebrar a cara, sofrer qualquer coisa, porém é hipótese, não uma comprovação e uma espera diária.” – sobre violência em Berlin.
  • “O normal nesta região moderna: espaço amplo entre os conjuntos, muita grama, playground com brinquedos imaginativos, bastante árvore e um rio canalizado e urbanizado, cheio de chorões nas margens. O que me fez pensar nos rios brasileiros. Riachos e córregos que atravessam nossas cidades e que os prefeitos enfiam por dentro de um cano, colocando uma avenida por cima, cheia de asfalto e nenhuma vegetação. O dinheiro gasto para aprisionar e fazer desaparecer uma água talvez seja maior do que enquadrar o rio numa paisagem urbana agradável e descontraída.”
  • “Não dá para ficar trabalhando o tempo inteiro, se matando como louco, como fizeram nossos pais, nossos avós. Não queremos competir com ninguém, nem ter os melhores postos, nem vencer brilhantemente na vida. Queremos lazer. Um pouco de trabalho e o resto de divertimento.” – de uma conversa entre jovens ouvida pelo autor.
  • “Política? Quem quer saber de política? Olha o que os políticos fizeram, fazem e estão fazendo a este país! Sou pelos verdes, mas sem política. Sou pela ecologia, sem política. Sou pacifista, sem política. Sou contra os mísseis nucleares, mas não preciso misturar política nisto.” – de uma outra conversa entre jovens ouvida pelo autor.
  • “O alemão confia no Estado para a solução de seus problemas. Se está desempregado, espera o socorro da assistência social, o seguro-desemprego. Se está doente, se tem um problema qualquer, se briga na rua, se alguém fecha o seu carro (ele não dá bronca, comunica à polícia e você recebe a visita dos agentes da lei que cagam regras), se tropeça num buraco, se as coisas não funcionam administrativamente, se o preço é extorsivo. O Estado é o pai, criado para resolver a vida. Sistema profundamente capitalista que vive como socialista. Contradição? Ou encontraram o regime (mais ou menos) ideal?” – pela posição econômica e política da Alemanha e pela qualidade de vida dos seus habitantes, creio que sim, encontraram o equilíbrio entre estes dois extremos, assim como os países Nórdicos, a Austrália e o Canadá.
  • “Hoje é um partido político que se organiza. Provoca polêmica, abre discussões, é amado ou odiado. Para uns, salvação. Para outros, o perigo que vai lançar a Alemanha nos braços da Rússia ou na terceira guerra mundial. Partido em ebulição, heterogêneo. Abriga amigos da natureza, defensores do meio ambiente, pacifistas, antinucleares, rebeldes de 68, leninistas, marxistas, dissidentes de outros partidos, social-democratas, contestadores do sistema, alternativos”. – sobre Die Grünen (os verdes), o partido verde alemão, um dos principais atores que levaram à queda do muro (título do livro explicado!).
  •  “‘Quem é diferente ou quer ser diferente, deve vir para Berlim. Aqui você é normal sendo diferente. As pessoas que não concordam com a visão de mundo que foi imposta a elas por educação e condicionamento se refugiam em Berlin’, escreveu Stefan Schaaf, de vinte e oito anos, jornalista do Die Tageszeitung.” – como em outras parte do livro, me identifiquei muito com as opniões do autor ou de seus interlocutores, neste caso em específico até escrevi sobre a diversidade e o respeito à ela que existe em Berlin neste artigo, bem antes de ler o livro.
  • “Berlim foi aquilo que sempre considerei o ideal para uma cidade. Nem megalópolis, nem província. Oferecendo vantagens e desvantagens das duas. Nesta cidade me reencontrei muitas vezes, divisei luzes e instantes que estiveram dentro de minha vida em determinados momentos. Cidade mágica, complexa, paradoxal, refúgio e verdade. Cidade que é aquilo que queremos que ela seja.” – outro trecho bem parecido com um que escrevi neste artigo.
  • “Recorro, mais uma vez, a Bernard Cailloux, escritor que nasceu na cidade de Erfurt, Turingia, parte oriental e mudou-se para o ocidente antes da divisão da Alemanha. Em 1978, ele radicou-se em Berlin e ‘precisou de dez anos para se adaptar, conhecer e começar a compreender a cidade’. Dez anos para um alemão. Portanto, não esperem de mim a definição de uma cidade indefinível.” – como já disse, Berlin não é para ser apenas visitada e conhecida (muito menos pela janela de um ônibus de excursão), é uma cidade para ser vivida, assim como São Paulo, Nova York e algumas poucas outras.
  • “Muita gente sentia pertencer a uma classe superior ao poder comprar produtos ocidentais. Havia justificativas as mais curiosas, às vezes: ‘O cheiro é diferente, é bom’. Depois da guerra, com a ocupação da Alemanha, a Guerra Fria e o isolamento a que a RDA se viu conduzida, parte da população acabou aderindo ao socialismo por crença, defendeu-o com idealismo. Muitos nasceram dentro do regime, não tiveram opção. Outros viveram inconformados. Sobre a antiga RDA perspassava sempre a utopia: viver do lado de lá ou, ao menos, conhecer, saber como era, poder comparar, ser livre para decidir. Um segmento sonhava em abandonar o país (no Brasil quantos não sonham com Miami, quantos não foram para o Japão?). Todavia, se as fronteiras fossem abertas, a Alemanha Oriental não se esvaziaria, como imaginavam os líderes. Boa parcela da população viveu tranqüila sob o socialismo e não é culpa dela a corrupção da cúpula, que desvirtuou uma idéia. O difícil, depois da queda do muro, disseram Zilly e Hoffman, foi, de um momento para o outro, passar a viver debaixo de normas e regulamentos que não eram os deles, eram opostos, cruéis, pode-se dizer… Após a queda do muro, os problemas se tornaram tão grandes que os antigos problemas se minimizaram. De repente, não existia mais o socialismo, mas também não existia a crença na social-democracia e não se acreditava nos conservadores. Ficou o vazio.” – tenho a mesma opnião sobre Cuba.
  • “Na antiga RDA (ou DDR) o nível de vida era baixo, mas todo mundo tinha emprego, salário, direito a creche, saúde e escola, e assim se sentia ‘parte da grande família’. Agora, o que governava era a concorrência global do mercado e a maior parte do parque industrial da antiga DDR teve que fechar. Tendo vivido décadas isolado, este parque estava desatualizado, desestruturado, arcaico e praticamente sucateado, segundo os conceitos do oeste, incapaz de produzir no ritmo exigido pelo mundo capitalista. Chegou, do dia para a noite, uma onda de desemprego que transformou grandes partes da DDR em desertos industriais, com a população sem emprego, sem o dinheiro necessário para desfrutar do paraíso de consumo e – mais importante – sem o sentido de vida e o prazer da auto-afirmação que o trabalho confere a um cidadão.”. – relato escrito de Sebastian Scherer, alemão casado com uma brasileira e residente de João Pessoa, enviado ao autor e reproduzido no livro.
  • “Quero voltar a essa cidade quantas vezes puder. Sinto que pertenço a ela. Sou paradoxal e incongruente, neurótico e tenso, calmo muitas vezes. Como ela. Continuo sem entender por que entrar aqui me dá paz.” – eu te entendo Ignácio, entendo pois sinto o mesmo.
  • “Para mim, que não encontro um lugar no mundo, inquieto onde esteja, sem descobrir um sentido para a vida, ela continua uma cidade de momentos, de fragmentos que me parecem congelados no tempo e me acompanham.” – sei bem como se sente Ignácio, sei mesmo.

Talvez o autor tenha um saudosismo do período em que ele morou lá, época em que a cidade era dividida, que talvez faça ele “rechaçar” um pouco das neue Berlin. Eu infelizmente não pude conhecer Berlin dividida (a divisão não era legal, mas teve algumas consequencias interessantes, especialmente na formação do povo), mas como dá para perceber lendo o relato dele de 30 anos atrás e comparando com os meus relatos e experiências na “nova” Berlin, a cidade ainda mantem sua aura e sua alma.

Be happy! 🙂

Wanderlust #26 – João Pessoa, Paraíba, Brasil

01 Joao Pessoa - Paraiba - BrasilNão conheço uma pessoa que tenha ido à João Pessoa e não tenha se apaixonado pela cidade. Ela não tem praias espetaculares como Alagoas ou Rio Grande do Norte, nem uma vida noturna agitada como Recife ou Salvador e nem tantos locais históricos como todos estes lugares (e outros do nordeste). Porém, se fôssemos dar nota para vários quesitos (segurança, limpeza, beleza, hospitalidade, simpatia das pessoas, etc) provavelmente a média de João Pessoa (e da Paraíba) seria a maior do nordeste e uma das maiores do Brasil.

Farol do Cabo Branco

Farol do Cabo Branco

Diferente da maioria das capitais do nordeste, Jampa (como é carinhosamente chamada) nasceu longe da costa, às margens do rio Sanhauá, e por isto o processo de urbanização de suas praias foi menos agressivo e contou com um pouco mais de planejamento. Os edifícios próximos à costa têm seu tamanho limitado para preservar a paisagem e evitar sombras.

Por estar localizada na Ponta do Seixas, o ponto mais oriental das Américas, a cidade é conhecida como “Porta do Sol”, pois é onde o sol nasce primeiro no continente americano.

No primeiro dos dois dias na cidade, resolvi andar um pouco pelas praias próximas de onde eu estava hospedado (Cabo Branco). Andei toda a orla da praia de Cabo Branco até a Ponta do Seixas, onde se encontram o farol de Cabo Branco e a Estação Cabo Branco, um museu de ciências que tem projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer (um dos poucos projetos dele que eu particularmente achei legal). Como o passeio foi agradável, ao invés de tomar um ônibus preferi voltar caminhando, refazendo todo o caminho da ida e esticando até Tambaú.

Acho que neste dia passei dos 20kms andados. Então resolvi voltar para a pousada pra descansar um pouco, já que havia combinado de ir tomar uma cerveja à noite com o Waltão, amigo da época da faculdade, radicado na Paraíba há 8 anos e que nem pensa em voltar para São Paulo.

Estação Cabo Branco

Estação Cabo Branco

Na orla de Cabo Branco, que é bem movimentada à noite, mesmo durante a semana, existem várias opções para beber e comer, tanto em quiosques “pé na areia” quanto em bares e restaurantes do outro lado da avenida da praia.

No outro dia fui conhecer o Centro Histórico de João Pessoa, que apesar de não contar com tanta história como os de São Luis e Salvador, por exemplo, tem alguns edifícios interessantes e principalmente conta uma conservação bem acima do padrão brasileiro.

Além de ficar com vontade de voltar logo para passear, já que acabei não conhecendo boa parte das praias e nem fui à Campina Grande, João Pessoa me despertou inclusive idéias de morar lá algum dia e acabou entrando na minha lista de cidades em que eu gostaria de morar, assim como Aracaju, a última “perna” desta trip e da qual falo no próximo Wanderlust.

Observações, dicas e considerações:

  • A limpeza e conservação das praias (Cabo Branco e Tambaú) é acima da média brasileira, inclusive das de Santa Catarina.
  • A população ajuda muito não sujando e mantendo os equipamentos conservados (dificilmente se vê lixo nas ruas).
  • Além de tudo isto, os preços em Jampa são muito baratos (ou seriam justos?). Cheguei a pagar R$ 4,50 por uma Skol de 600ml e vi porção de camarão alho e óleo de 1 kilo por R$ 35,00.
  • Uma pena somente os kioskes não terem Heineken, já que são todos patrocinados (e padronizados) pela Skol.
  • Nas minhas últimas viagens eu desenvolvi um método de “medir” a segurança do local (além das conversas com taxistas): é só reparar na rua como a população local utiliza o celular. Se a pessoa pára, se esconde num canto e fica atento ao redor quando fala ou tecla no celular, pode apostar que é uma cidade perigosa. Se a pessoa fala no celular andando e distraido, sem se preocupar com o que acontece à sua volta, provavelmente aquele é um local seguro. João Pessoa foi a cidade que eu conheci no Brasil onde as pessoas se sentiam mais à vontade para usar o celular (e correntinhas no pescoço também).
  • Inclusive no Centro Histórico, que normalmente é um ponto sensível nas cidades devido à grande quantidade de pessoas, era comum ver pessoas falando ao celular tranquilamente.
  • O lugar para ficar hospedado em João Pessoa é a Suisse Residence. Apesar de não estar tão perto da praia (dá uns 15 minutos andando), a pousada é bonita, aconchegante e os quartos são espaçosos e confortáveis. Seu Hans e dona Inês, os proprietários, são simpatia pura!

Be happy! 🙂

Tambaú

Tambaú

Com 30 reais por pessoa dá pra sair balão do quiosque...hahaha

Com 30 reais por pessoa dá pra sair balão do quiosque…hahaha

06 Palacio do Bispo - Centro Historico

Palácio do Bispo – Centro Histórico

Igreja de São Francisco - Centro Histórico

Igreja de São Francisco – Centro Histórico

Catedral da Basílica Nossa Senhora das Neves - Centro Histórico

Catedral da Basílica Nossa Senhora das Neves – Centro Histórico

Um velho piano atrás das grades no centro de Jampa! Que crime teria ele cometido?

Um velho piano atrás das grades no centro de Jampa! Que crime teria ele cometido?

Parque Solon de Lucena

Parque Solon de Lucena

Suisse Residence

Suisse Residence

Wanderlust #25 – São Luís (e região), Maranhão, Brasil

01 Sao LuisDepois de Belém, lá fui eu conhecer a “Jamaica Brasileira”, que já tinha vontade de conhecer desde as épocas em que ouvia muita Tribo de Jah e frequentava o Radiola São Luís, na Vila Madalena. A cidade me surpreendeu, um bom e outro ruim: a cidade é bem urbanizada, com bastante prédios, opções de shoppings, lojas e restaurantes e com avenidas largas, o que facilita a movimentação. Por outro lado, acho que dos lugares para os quais eu viajei é um nos quais eu senti maior sensação de insegurança. Mais do que no RJ ou SP, por exemplo.

Praia do Calhau

Praia do Calhau

Depois de fazer o check in no hostel e tomar uma ducha dei uma checada nos mapas que haviam na recepção e resolvi pedir umas dicas para o atendente do Hostel, que era Ucraniano, sobre que fazer. O cara era meio atrapalhado, mas me alertou que não fosse até o centro e nem pegasse a parte de trás do hostel, pois era perigoso. Eu não entendi direito (ou ele não se explicou direito) e resolvir ir então até a praia do Calhau andando. Infelizmente logo de cara eu errei o caminho e cai onde ele tentou me alertar sobre o perigo. Quando resolvi voltar creio que só não fui assaltado pois um vigilante de prédio saiu na hora.

Fui até a praia do Calhau, que é uma das mais “elitizadas” do município de São Luis, sendo inclusive o bairro onde a família real (os Sarneys) mora. A praia não é tão bonita como as de Natal ou Maceió, mas tem suas qualidades. Porém também tem seu pior defeito: é imprópria para banho, assim como qualquer praia de São Luís. E nem precisava de placa para avisar já que, diferentemente de outras cidades, não existe nem emissários submarinos para jogar o esgoto no mar a uma distância da praia. Lá o esgoto cai na praia mesmo! Realmente uma pena.

Janelas e azulejos típicos dos casarões do centro histórico

Janelas e azulejos típicos dos casarões do centro histórico

Resolvi procurar um quiosque para assistir a final da Champions. E dei sorte pois acabei conhecendo um casal neste quiosque que me aconselhou a ir até às Fronhas Maranhenses (falo delas já já), já que não teria tempo de ir até os Lençois, o que se mostrou uma ótima dica.

Uma das poucas coisas que eu havia programado de fazer em São Luís, além de conhecer o centro histórico, era ir a uma radiola, que é um local onde se toca reggae. Hoje em dia estes locais já nem são mais conhecidos por este nome e os principais locais para curtir reggae são conhecidos apenas pelo próprio nome, como o Bar do Nelson, que fica na praia do Caolho (ao lado da praia do Calhau) e é o local que “pega” aos sábados.

O Bar do Nelson é tipo um galpão, com alguns bares onde se vende as bebidas (comidas só nas barraquinhas do lado de fora), um palco onde o DJ se acomoda para rolar o som e, atrás deste palco, uma “parede” de caixas de som. Nem mesas existem e o pessoal usa algumas de cervejas para apoiar copos e garrafas (e ai já vão colocando as garrafas vazias dentro da caixa). Uma coisa que eu gosto muito e que somente em SP não existe é o sistema de pagar a entrada e comprar fichas, ao invés de comandas. Evita filas tanto na entrada quanto na saída e permite a livre circulação entre as áreas externas e interna (lá eles batiam um carimbo que ficava visível à luz negra). É muito mais inteligente e prático para os clientes.

Apoia as cervejas e copos na caixa e já vai preenchendo ela com as garrafas vazias

Apoia as cervejas e copos na caixa e já vai preenchendo ela com as garrafas vazias

Além da característica dos maranhenses de os casais dançarem o reggae juntos (o tal “agarradinho”), do mesmo jeito que se dança forró, pude comprovar o ditado que diz que “em São Luís reggae não se dança/ouve, se vive!”. Eram pessoas de todas as idades, com pulseiras, camisas, brincos, etc fazendo alusão aos símbolos (as cores da Jamaica, a bandeira, a folha da maconha, etc) ou a artistas do reggae.

Até que peguei leve na balada, que estava bem agradável, pois queria ir no centro histórico no dia seguinte, o que eu fiz, mesmo sendo aconselhado ao contrário pelo dono do hostel (brasileiro) pois “estaria muito vazio e portanto perigoso”. Peguei um busão até o centro e cheguei lá por volta de 12:00hrs, mas estava com muita fome e resolvi parar para almoçar (e já experimentar o icônico “Guaraná Jesus”), só que tudo no centro fechava as 13:00 e realmente tudo fica deserto após este horário aos finais de semana, o que torna um local perigo (quase que pela segunda vez eu sou assaltado).

O centro é formado por vários casarões antigos de 2 e 3 andares, com enormes e belas janelas e magníficos azulejos portugueses na fachada. Além disto, existem outras edificações, como palácios de governo e igrejas, que foram recentemente reformados e complementam o ar bucólico da região. Mas a maioria dos casarões e algumas ruas estão merecendo uma restauração.

Em São Luís reggae se dança "agarradinho"

Em São Luís reggae se dança “agarradinho”

Depois do centro fui até a Ponta da Areia onde rola um outro reggae muito famoso, o Chama Maré, que acontece aos domingos as 17:00 e por ficar à beira da praia é quase sempre banhado pela bela luz do por do sol. Também é muito legal e agradável. Só é uma encheção de saco os seguranças (do lado de dentro) ou os PMs (do lado de fora) fazendo ronda para evitar que as pessoas fumem maconha. O Brasil tem que liberar logo esta porcaria pois o combate é mais prejudicial (tanto em termos de segurança, quanto financeiramente) do que a liberação. E também porque cada um que faça o que bem entender da puta da sua vida!

Voltei para o hostel, pois tinha fechado o passeio para as fronhas, seguindo recomendação do casal que havia conhecido no sábado e do Laércio, dono do hostel, que me indicou uma agência para fazer o passeio.

As Fronhas Maranhenses são um conjunto de dunas, assim como os Lençois Maranhenses, ou Genipabu no Rio Grande do Norte,  e que fica localizado no município de Raposa, a cerca de 45 minutos de carro (por uma estrada péssima) do centro de São Luís. Têm este nome porque as dunas são menores do que a dos lençois e porque elas ficam bem antes. Por sorte a praia de Carimã, onde ficam as fronhas, é inacessível de carro e habitada apenas por alguns pescadores, o que deixa a natureza praticamente intocada. E por sorte existem pessoas como o Zequinha, o guia do barco que levou o grupo até lá: ele vai diariamente ao local, mesmo que não tenha passeios para fazer, com um saco para recolher o lixo deixado pelos visitantes (às segundas principalmente, pois alguns habitantes de Raposa vão até a praia para curtir o fim de semana). Acabei gostando mais de Carimã/Fronhas Maranhenses do que de Genipabu. Mesmo daquela Genipabu que conheci em 1995! Depois do passeio fomos almoçar e seguimos para São José de Ribamar, a terceira cidade que, junto com Raposa e São Luis, compõe a região metropolitana de São Luis (as 3 cidades ficam na Ilha).

Chama Maré: reggae com vista do por do sol.

Chama Maré: reggae com vista do por do sol.

São José de Ribamar não tem nada de muito interessante para quem não é um religioso fervoroso já que, mesmo sua igreja não tem nada de destaque. Talvez o destaque se dê pelo fato de “inserirem” São José, que sumiu da vida de Jesus na Bíblia, nas estátuas que representam o calvário. Afinal de contas, não ia ser nada legal retratarem a festa e deixarem o anfitrião de fora…hahaha

Como disse, de certa forma me surpreendi positivamente com a cidade e a viagem, mas ao contrário de João Pessoa (do qual falarei no próximo Wanderlust), não tenho vontade de voltar, mesmo não tendo conseguido ir à Alcantara. Sei lá, acho que o stress da insegurança não vale o local.

Observações, dicas e considerações:

  • Nota-se que existem grandes diferenças sociais na cidade (e no Estado) por conta dos prédios luxuosos que existem ou estão sendo contruídos à beira mar e as casas simples dos demais bairros. Sério, são prédios com apartamentos de 200 metros quadrados que, segundo os taxistas, são comercializados na faixa dos milhões de reais.
  • Parece que também existe um processo de gentrificação acontecendo, especialmente na Ponta da Areia. Segundo os taxistas as pessoas que antes moravam em casas simples e sem saneamento básico foram removidos para conjuntos habitacionais “nos fundos” da cidade, as áreas adquiridas por políticos e parentes destes e em seguida “surge” um plano de urbanização (contrução de ruas ou asfaltamento das existentes, saneamento, etc) e as áreas são vendidas para construtoras (também pertencentes à políticos e parentes destes) que erguem estes prédios de luxo.
  • Pelo que me falaram existe uma pequena rixa entre os Maranhenses e os Piauienses. O Piauienses chamam os Maranhenses de “papa arroz” devido ao enorme consumo deste grão no estado.
  • E realmente, metade do peso / volume de qualquer PF é arroz!
  • A variação da maré na Ilha, mas principalmente nos braços de mar que a circundam é enorme. Segundo os locais, a distância entre o ponto de maré alta com o de maré baixa chega a 200 metros e variação de profundidade chega a 8 metros
  • Os DJs dos bares de reggae parecem pastores protestantes. Entre as músicas soltam frases do tipo: “aqui é um lugar de paz”, “Deus deu este sol”, “Jah nos abençoe”, etc. Pense nas frases com a entonação do Canalhafaia!
  • Não ouvi NENHUM Bob Marley sequer (e muito pouca coisa nacional). Os caras devem ir lá na Jamaica buscar o que tem para tocar.
  • São José do Ribamar e Raposa sofrem de um problema que outros lugares do Norte e Nordeste sofrem: as pessoas têm adquirido motocicletas como meio de transporte e abandonando os pobres jegues à sua sorte. Além de falta de consideração com o pobre do animal, é também um risco para a saúde pública e para a segurança no trânsito.

Be happy! 🙂

04 Sao Luis

Palácio de Governo no Centro Histórico

05 Sao Luis

Catedral no Centro Histórico

06 Sao Luis

O tradicional Guaraná Jesus: cor de rosa, cheiro de chiclete e gosto daqueles sucos que vendiam nas feiras em embalagens em forma de revolver, jacaré, fusca, etc

07 Sao Luis

Casarões históricos no Centro

08 Sao Luis

Ponta da Areia, que aparentemente sofre um processo de gentrificação

09 Sao Luis

Chama Maré

10 Sao Luis

Ponta da Areia

14 Sao Luis

Carimã

15 Sao Luis

Fronhas Maranheses

16 Sao Luis

Fronhas Maranheses: natureza intocada!

Wanderlust #24 – Belém, Pará, Brasil

01 Belém - Brasil - Ver-o-pesoPara a segunda parte das minhas férias deste ano já havia decidido conhecer um pouco mais do Brasil e também havia resolvido conhecer locais que não vêm logo à cabeça quando se pensa em viajar pelo nosso imenso país. E a primeira parada desta trip foi Belém, a capital do Pará. Vale dizer que assim como Salvador, a cidade me despertou sentimentos dúbios.

Eu achei legal conhecer um lugar dentro do meu próprio país que é muito diferente de tudo o que eu já conhecia. Mas por outro lado, fiquei um pouco triste ao ver como muitos lugares do nosso país são mal cuidados e principalmente como o potencial (turístico, por exemplo) e os recursos (naturais, humanos, etc) são mal explorados.

Praça Batista Campos

Praça Batista Campos

Cheguei na cidade já tarde da noite e fui dormir cedo para aproveitar o outro dia, que era feriado de Corpus Christi. Sai caminhando pela cidade afim de conhecer um pouco. Passei pela Praça da República, que apesar de ser o local onde fica o Teatro da Paz, não apresenta muitos atrativos turísticos. Resolvi andar até Praça Batista Campos, esta sim uma bela praça, e cruzei com uma sorveteria Cairu. Aproveitei então para experimentar um dos vários sorvetes feitos com frutas da região. A Cairu é parada obrigatória em Belém. Sugiro parar mais de uma vez, tanto para aplacar o calor da cidade, quanto para ter a oportunidade de experimentar mais dos diferentes sabores oferecidos.

Depois caminhei por uma região não muito turística até o Portal da Amazônia, que é um calçadão construído em uma das margens do Rio Guamá. Este calçadão conta com infraestrutura para prática esportiva (bike, patins, caminhada, etc) e algumas praças. Depois segui até o Mangal das Garças que, junto com a Estação das Docas, é a principal atração da cidade.

Mangal das Garças

Mangal das Garças vista da torre

O parque é muito bem cuidado e montado e lá pode-se ter contato com um pouco da fauna e da flora da região. A entrada no parque é gratuita, mas algumas atrações são cobradas. Vale comprar o “passaporte” (R$ 15,00) que dá acesso às 4 atrações pagas do parque: a torre, o museu náutico, o viveiro de pássaros e o santuário de borboletas.

Após o Mangal, dei uma passada na Casa das Onze Janelas, mas preferi não entrar, e na sequência fui ao Forte do Castelo, que não tem lá muita coisa. Mas estando em Belém não custa perder uns 10 minutos e visitar, já que é de graça. Depois passei em frente à Catedral Metropolitana para tirar algumas fotos da bela praça em frente (não sou fã de ficar entrando em igrejas).

Catedral Metropolitana

Catedral Metropolitana

Dei uma rápida passada no ver-o-peso (tinha me programado para explorar o local apenas no outro dia) e fui até a Estação das Docas, onde resolvi almoçar em um dos restaurantes que ofereciam buffet com opções da região. Dos pratos que eu experimentei, achei interessante o tal do “filhote”, uma posta de um peixe da região (e olha que não sou chegado em peixe) feito com tucupi. Mas achei muito bom mesmo a maniçoba! Durante o almoço, um cara do outro lado do restaurante acenou e veio em minha direção. Quando ele chegou perto, pediu desculpas e disse que tinha me confundido com outra pessoa, no caso Felix Robatto, um artista local.

Como sobremesa, outro sorvete na unidade da Cairu da Estação das Docas. Como já tinha feito a programação do dia, fiquei morgando por ali até a abertura da Amazon Beer, que além de oferecer ótimas cervejas (a preços mais do que justos!), proporciona um belo visual do por do sol. Aproveitei para procurar algo para fazer à noite e acabei caindo no site do Templários Pub, que teria como atração naquela quinta-feira justamente o tal do Félix Robatto.

Chuva de 20 minutos com tanta água que daria para encher a Cantareira

E dá-lhe chuva!

Como não podia faltar, quando estava saindo da Estação das Docas caiu aquela baita tempestade que cessou depois de 20 minutos mas trouxe água suficiente para encher a Cantareira.

À noite fui ao tal pub para conhecer um pouco da noite Paraense. Achei interessante a mistura de ritmos dos estilos locais (tecno brega, guitarrada, carimbó). Creio que pelo fato do Pará estar bem próximo à linha do Equador, além das influências da música afro brasileira (axé, samba), os estilos locais também têm muita influência das músicas afro caribenhas, especialmente do mambo, da salsa e do reggae.

No outro dia, como já tinha me programado, fui conhecer o ver-o-peso. É interessante pelos cheiros e cores das diferentes frutas da região, e para observar alguns costumes dos locais, como por exemplo, de comer açaí com farinha como acompanhamento de peixe. Mas acabei achando que os relatos que eu havia lido e ouvido sobre o local eram sempre superestimados. Talvez para pessoas que sejam fascinadas por culinária seja uma atração mais interessante.

Ver-o-peso

Ver-o-peso

Como já tinha feito tudo o que eu tinha programado, fui andar por lugares não tão turísticos e acabei caindo na Belém da elite, que fica fora da cidade velha é formada por vários prédios de luxos e um grande shopping. Particularmente eu não gosto muito de cidades onde existe este tipo de segregação entre elite e o resto.

Depois voltei novamente para mais um happy hour na Amazon Beer, mas de leve, pois tive que pegar meu vôo na madrugada para o próximo destino, São Luís, no Maranhão, do qual falarei no próximo Wanderlust.

Observações, dicas e considerações:

  • Os motoristas em Belém são xaropes. Raramente respeitam farol, faixa de pedestre, mão de direção. E à noite ainda andam à 100 km/h.
  • Tem um negócio que me incomoda muito e acontece na maioria das cidades brasileiras, que é abandonarem uma área quando ela dá uma deteriorada, ao invés de tentarem recuperar. Isto acontece com a região do ver-o-peso. Apesar da criação da Estação das Docas numa tentativa de revitalizar a região portuária, o entorno está abandonado, o que abre espaço para a criminalidade. Quando a sociedade e o poder público não ocupam devidamente os espaços públicos, invariavelmente a criminalidade vai ocupar.
  • A variedade que se encontra na culinária local falta ao artesanato. Mesmo nas tendinhas do ver-o-peso foi difícil encontrar alguma coisa realmente “local” para trazer de souvenir.

Be happy! 🙂

Estação das Docas

Estação das Docas

Amazon Beer

Amazon Beer

Wanderlust #23 – Cidade do Panamá, Panamá (Ah! Vá!)

Panamá 001Por ter voado bastante de Copa Airlines, cujo hub fica na cidade do Panamá, eu já tenho umas boas horas de estada esperando conexão na cidade, mas nunca tinha pensado em conhecê-la. Resolvi aproveitar a viagem para Cuba e mais uma conexão no país centroamericano para pelo menos passar dois dias na cidade.

Confesso que a primeira impressão que tive não foi boa: a cidade era uma mini Miami (e eu não gostei de Miami), sem a organização norte americana, substituida pela bagunça latino americana. Mas bastou meio dia na cidade para eu mudar meu ponto de vista a ponto de considerar este pequeno, mas aconchegante país, uma ótima opção para viver. Mas antes de contar um pouco do que eu fiz por lá, vou falar um pouco da história.

Panamá 002A História
O istmo do Panamá foi uma das primeiras terras americanas descobertas e exploradas pelos espanhóis. Também foi através do Panamá que a Espanha conseguiu alcançar pela primeira vez o Oceano Pacífico. Além de explorarem o ouro no país, todo o resultado da exploração da parte oeste do continente sulamericano também passava pelo Panamá, já que a parte leste pertencia à Portugal. Talvez venha já daí a expressão “hub das Américas”, título pelo qual o aeroporto de Tocumén, na Cidade do Panamá, é conhecido.

No início do século XIX os movimentos de independência que ecoavam por todo o continente americano chegaram ao país e em 1821 a independência foi proclamada. Alguns meses mais tarde o Panamá integrou-se à Grande Colômbia de Simón Bolivar, se juntando à Venezula, Colômbia e Equador. Em 1840 houve uma independência de apenas 13 meses e em seguida o país foi incorporado à Colômbia.

Panamá 003Em 1846 o governo Colombiano costurou um acordo com os Estados Unidos para a construção da ferrovia interoceânica, que foi inaugurada em 1855, se tornando uma das maiores fontes de divisas do governo colombiano (e até hoje, junto com o Canal, do governo panamenho).  Os colombianos cresceram os olhos e iniciaram diversas e intermináveis frentes de negociação para a construção de um canal ligando os oceanos Atlântico e Pacífico. Após décadas de negociação, uma empresa francesa dirigida por Ferdinand de Lesseps, responsável pela construção do Canal de Suez, conseguiu autorização do governo colombiano para o início da construção.

Panamá 005

Casco Antíguo

Os franceses foram meio arrogantes (Ah! Vá!2) pelo fato de terem feito o Canal de Suez e resolveram aplicar basicamente o mesmo projeto para o Canal do Panamá sem terem feito muitos estudos sobre os terrenos, o clima e o relevo e após quase dez anos de chuvas torrenciais, enchentes, desmoronamentos e muitos operários mortos (cerca de 20 mil por causa de malária e febre amarela) a empresa veio a falir.

O presidente americano Roosevelt estava convencido de que os americanos seriam capazes de terminar a construção e também estava muito interessado no controle do canal por motivos militares, políticos e econômicos. Em 1903 EUA e Colômbia assinaram um tratado, porém o senado colombiano não ratificou o acordo. Como já havia um movimento pela independência do Panamá, os americanos deram a entender que, se os panamenhos declarassem a independência, os EUA garantiriam apoio militar caso a Colômbia resolvesse contra atacar. Em 3 de Novembro de 1903, os panamenhos declararam sua independência, garantidos por um “exercício naval da marinha americana” na região e os colombianos “deixaram pra lá, nem queria mesmo”. Quize dias após, o tratado que havia sido costurado com os Colombianos é assinado com os americanos e a construção do canal é reiniciada.

Ventiladores na parte externa de um bar. Depois eu entendi porque.

Ventiladores na parte externa de um bar. Depois eu entendi porque.

Não vou me alongar na história do canal pois o intuito é falar sobre o país e a wikipedia tem um artigo bem completo em português sobre esta história. Mas vale frisar que o acordo previa um pagamento de 10 milhões de dólares iniciais e de 250 mil dólares anuais à partir do término da construção, que duraria dez anos, a título de royalties, para o Panamá. Um outro ponto importante também é que, com a desculpa de proteger os investimentos dos EUA, criou-se uma área ao redor da eclusa de Miraflores, na cidade do Panamá, que era na prática um território americano dentro do país (o acesso aos panamenhos à esta grande parte da cidade era bloqueado) e que influenciou muito a cidade e o país inteiro.

Os panamenhos viram durante anos o Canal render vultuosas divisas que ficavam com os americanos, o que gerou ao longo deste tempo vários incidentes e uma instabilidade política enorme no país. Mas em 1977, finalmente foi assinado um acordo com o então presidente dos EUA, Jimmy Carter, para uma cessão gradual dos direitos sobre o Canal ao Panamá, cessão esta que foi concluída em 2000.

Desde então, com a entrada destas divisas e com a instalação de várias empresas no país, os panamenhos têm experimentado um salto em qualidade de vida.

Um dos famosos arranha céus do centro da cidade.

Um dos famosos arranha céus do centro da cidade.

O que fazer
Estando na cidade do Panamá é imprescindível ir conhecer a eclusa de Miraflores. Eu fiz este passeio através de uma agência, e também incluia um City Tour, fazia uma parada em um centro de artesanato ótimo para comprar lembranças e terminava em um grande mall. Acho que comprar o pacote através da agência é a melhor escolha a se fazer, só é interessante ir em um dia de final de semana para não perder valiosos minutos parado no trânsito infernal da cidade (eu fiz em um domingo).

Depois do City Tour, seguindo recomendação do guia (que falava português!), fomos até Casco Antiguo (ou Casco Viejo), um pedaço da cidade onde foi realizada a primeira reconstrução, no final do século 17, já que a cidade original (Panamá Vieja) havia sido destruida por saques de piratas e por incêndios. O belo e charmoso bairro conta com bastante edifícios históricos que vêm sendo restaurados e com boa variedade de restaurantes, bares e lojas de artesanato. Destaque para a Cerveceria La Rana Dorada, uma cervejaria artesanal panamenha que além de suas ótimas cervejas, também tem um cardápio interessante, tudo a preços justos.

Na segunda feira resolvemos alugar uma bike e pedalar os 5kms da Amador Causeway, uma via construida pelos americanos para isolar a entrada do Canal e para interligar o continente a três belas ilhas (Naos, Perico e Flamenco), porém os locais que alugam bicicletas estavam fechadas e resolvemos caminhar pela via mesmo assim. A caminhada valeu a pena e aproveitamos para almoçar na ilha Flamenco.

Amador Causeway: lembra os keys da Flórida

Amador Causeway: lembra os keys da Flórida

Depois de descansar um pouco, fomos até a Calle Uruguay, que conta com algumas opções de bares, pubs e restaurantes. Infelizmente tinhamos que voltar no outro dia e não pudemos conhecer Panamá Vieja, que pelo que eu soube são as ruínas da primeira cidade do Panamá, mas fiquei com vontade de conhecer mais o país, especialmente algumas praias e ilhas que ficam um pouco distantes da capital e parecem ser bem interessantes.

Como disse no início, de cara eu não gostei da cidade, mas aos poucos comecei a entender que a cidade é uma uma mistura de várias cidades do continente americano, de Miami (arquitetura, lojas) a São Paulo (correria, trânsito) e que o país ofere um conforto e qualidade de vida do nível do norte americano, mas sem deixar de ser calorosa como os latinos. Me fez até pensar que é uma boa opção para viver. Desde que arrumasse um trabalho onde não tivesse que usar gravata, que deve ser uma tortura com o calor do país.

É tanto trânsito e tanto carro que não dá nem pra saber o que é estacionamento e o que é rua

É tanto trânsito e tanto carro que não dá nem pra saber o que é estacionamento e o que é rua

Observações, dicas e considerações:

  • Achei estranho quando cheguei ao La Rana Dorada ver ventiladores na parte externa do bar. Eu já vi aquecedores, mas ventiladores nunca. No final da tarde e início da noite deu para perceber porque: mesmo sentado e tomando cerveja gelada, o calor era de fazer suar mais que tampa de cuscuz e os ventiladores davam uma aliviada.
  • No Panamá, por conta de sua posição geográfica, existem apenas duas estações no ano: a seca e a chuvosa. Mas ambas são quentes, muito quentes.
  • A dica para os táxis de Cuba também funciona para o Panamá: negocie antes de entrar, pechiche e tome o táxi fora do hotel. O Panamá não chega a ser tão seguro quanto Cuba, mas é bem mais seguro que o Brasil e tomar táxi nas ruas não é problema.
  • Os preços de bens (carros, roupas, perfumes e mesmo alimentação e bebidas) no Panamá é muito próximo dos preços praticados nos EUA. Mas atenção: não adianta comparar preços em outlet dos EUA com preços nos shoppings do Panamá. No Panamá é preço de shopping dos EUA, não preço de outlet. Ou seja, para compras é melhor ir até Miami mesmo.
  • Infelizmente a parte da cultura americana de obedecer regras não pegou no país e os motoristas desrespeitam totalmente as leis de trânsito. Precisa ter muito cuidado ao atravessar um farol de pedestres, por exemplo, mesmo que ele esteja aberto.
  • O trânsito na cidade do Panamá é infernal. Comparado aos piores dias em São Paulo. É transito o dia todo e com as ruas e avenidas praticamente paradas das 16:00 às 20:00 horas.
  • Dizem que existem mais carros na cidade do Panamá do que existem pessoas.
  • Apesar do trânsito, os ônibus passava vazios pelas faixas exclusivas enquanto os carros ficavam literalmente estacionados nas demais faixas. Mais um sinal da influência americana no país: todo mundo prefere andar de carro, mesmo que isto signifique mais tempo no trânsito.
  • Diablo rojo (preste atenção na foto do parabrisas)

    Diablo rojo (preste atenção na foto do parabrisas)

    Muitos ônibus escolares (naquele padrão dos americanos) foram transformados em transporte coletivo “extraoficial”, conhecidos como diablos rojos. O mais interessante é que eles são todos grafitados e/ou adesivados de acordo com a vontade do dono. O governo panamenho está aos poucos aposentando estes ônibus, substituindo-os por linhas oficiais. Mas tomara que mantenham alguns como atração turística.

  • Apesar da moeda oficial ser o Balboa, ela só existe na forma de moedas (de 1 balboa para baixo) e como o governo consegue manter uma paridade de 1 para 1 com o dólar, na prática a moeda americana é a oficial no país.
  • Por conta dos baixos impostos o país é considerado uma espécie de paraíso fiscal e muitas empresas têm instalado suas sedes para fugir de altas taxas de impostos nos seus países de origem (e também aproveitar a logística).
  • Este boom de empresas se instalando fez com que a pouca mão de obra qualificada desaparecesse do mercado, recebendo salários bem altos. Então fica a dica para quem tem interesse em mudar de país e conta com qualificação profissional.

Be happy! 🙂

Panamá 011

Wanderlust #22 – Cuba: observações, dicas e curiosidades

297 Museo de la Revolución - La Habana Vieja - Havana - CubaComo tinham muitas coisa interessante para mencionar sobre Cuba, eu coloquei em cada um dos artigos (aqui, aqui, aqui e aqui) curiosidades, dicas e observações específicas relacionadas à cada um dele e a exemplo do que eu fiz para os EUA, estou fazendo um artigo somente com coisas gerais sobre o país. Vou colocar os tópicos na ordem em que fui anotando sem ordená-los ou classificá-los. Então segue:

  • Existem apenas 4 canais de TV e menos de 50 estações de rádio, todas estatais, em Cuba. Uma das melhores rádios é a Rádio Enciclopédia, que tem uma programação musical e cultural variada. Ouvi um programa de meia hora só de chorinho. O engraçado é que eles chamam o cavaquinho de “violino” (faz sentido: um violão pequeno).
  • Mas o melhor nome de rádio é a Rádio Reloj (como ninguém teve esta idéia antes?).
  • Os brasileiros são bastante estimados em Cuba, muito por causa das novelas brasileiras. Apesar disto e apesar dos esforços brasileiros em ajudar Cuba (investimentos em portos e aeroportos, aquisição de serviços médicos), os países considerados como “parceiros” são o Canadá e o México (os unicos países das Américas que não aderiram ao bloqueio) e a Venezuela (que contribui com petróleo).
  • A fama da novela brasileira até se inseriu na cultura local: em 1995 o governo autorizou que famílias servissem refeições para turistas em suas casas (geralmente tem uma ou duas mesas, no quintal ou em um dos cômodos das casas). Nesta época a novela Vale Tudo era transmitida na ilha e a personagem de Regina Duarte (Rachel Accioli) tinha um pequeno restaurante chamado “Paladar”. Paladar então se tornou sinônimo de “pequeno restaurante familiar” em Cuba.
  • O Neymar é idolatrado em Cuba e na América Latina em geral. A maioria das camisas da seleção e do Barcelona que eu vi e que eram vestidas por latino americanos tinham o nome do Neymar. Acho que a garotada daqui se identifica muito mais com ele, por ser uma pessoa que tem uma origem humilde (o que não é verdade), e por ser negro (mesmo ele dizendo que “nunca sofreu racismo porque não é preto”, antes de criticá-lo, por favor, leia meu artigo O Racismo e o efeito pigmaleão), ao invés de se identificarem com os “imperialistas” Cristiano Ronaldo e Messi, por exemplo (eu sei que o Messi é argentino de nascimento, mas ele viveu praticamente a vida toda na Espanha).
  • Se você acha o pessoal do nordeste lento, então prepare-se muito bem para encarar Cuba. Os cubanos fazem tudo num ritmo lentíssimo. Pensando bem, creio que é o paulistano que é acelerado demais.
  • Existe um sentido de coletividade enorme nos locais de trabalho. Não é raro ver um garçon ou dançarino (no caso do Resort) ir ajudar a organizar as mesas. Ou um atendente ou gerente de hotel ir ele mesmo levar o recado a um quarto de hóspede pois quando os mensageiros estão ocupados.
  • A influência da cultura africana em Cuba é muito similar à influência no Brasil. A comida é parecida (arroz e feijão e os vegetais consumidos normalmente aqui) e a Santeria, a religião dos escravos, é muito parecida com o Candomblé e também mistura alguns santos católicos com orixás. Existe Yemanjá (Yemanja), Ogum e Oxum (Ochum), para citar alguns, e com indumentária muito parecida. Achei até que a origem dos escravos levados à Cuba era a mesma do Brasil, mas pelo que eu pesquisei eles vinham de regiões diferentes da África.
  • Sem duvida uma das principais características de Cuba é a segurança. Você pode andar à noite a pé, deixar camera e celular sobre a mesa do bar ou na cadeira de praia enquanto vai dar um mergulho sem problema nenhum. Quando você pergunta se pode deixar algo na mesa de um restaurante, por exemplo, eles até dão risada pois não imaginam o porque não poderia.
  • Apesar disto, não existe uma sensação de “vigilância” excessiva. Nada de big brother. O diferencial é que lá não existe a sensação de impunidade que existe no Brasil.
  • Talvez o único problema ligado à segurança sejam os jineteiros, que engloba desde prostitutas (tanto aquelas que fazem programa quanto as mulheres que buscam um marido para sair do país) e golpistas. Porém são aqueles pequenos golpes da pessoa te devolver troco errado, querer comer na sua conta, pedir um drink no bar e fazer você pagar sem pedir antes, ou seja, são “golpes” totalmente evitáveis. Mas mesmo assim, em número muito reduzido se comparado à outros países.
  • Os socialistas pedem nos países capitalistas que a jornada semanal de trabalho seja reduzida para 36, 34 e até 30 horas. Porém em Cuba a jornada é de 48 horas semanais (8 horas diárias durante 6 dias semanais). Ou seja, para o capitalista não pode, mas para o “regime” pode.
  • Inclusive, a mais valia que fica com o Estado cubano é bem maior do que o de qualquer empresa em qualquer país. O “overhead” para manter a estrutura do sistema é bem maior do que em qualquer empresa, afinal, precisam de bem mais controles.
  • Como o acesso a vários produtos industrializados é restrito, em muitos lugares (bares, restaurantes e aeroportos) não existe muito papel (higiênico, guardanapos, embrulhos, etc) e plástico (sacolas plasticas principalmente). Além disto, em alguns lugares públicos falta água (existe saneamento, talvez as pessoas não consigam é fazer a manutenção regular de torneiras e encanamentos). Então a dica é levar lenços umedecidos, que quebram um galhão para “lavar” as mãos.
  • O lado bom disto é que não se vê muita sujeira na rua (também por causa do senso de coletividade citado anteriormente).
  • Pensando bem, a dica de andar com lenço umedecido serve também para quem mora em São Paulo.
  • Como eles não têm acesso a muitos bens industrializados (é muito caro para eles), uma outra dica é levar alguns “regalos”. Para homens, leve uma camisa da seleção ou do time para o qual você torce. Para as mulheres e meninas batom, enfeites de cabelo, esmalte. Para crianças, leve algumas canetas, giz de cera, lápis, chiclete. Eles vão ficar superfelizes de ganhar algo que pra gente é uma coisa banal, mas para eles é algo quase inacessível.
  • Apesar de todas estas restrições, os cubanos são um povo muito feliz. O que me leva a pensar que a gente não precisa de muita coisa para ser feliz e o problema é que a gente sempre coloca nossas expectativas em um ponto inatingível (e depois nos decepcionamos).
  • Realmente em Cuba se fuma em tudo quanto é lugar. Fora de Havana ainda respeitam restaurantes, mas em Havana você pode estar jantando num restaurante e não será incomum alguém na mesa de trás da sua acender um cigarro ou charuto (inclusive nos hotéis, onde se pode fumar em praticamente qualquer lugar, inclusive quartos). Mas com tanta fumaça que os carros fazem, este é o menor dos problemas.
  • E não é exagero meu: os carros fazem tanta fumaça que você fica cheio de fuligem ao caminhar durante o dia e quando vai tomar banho sai aquele “caldo” preto.
  • Falando dos carros, como já é sabido, existem muitos carros das décadas de 40, 50 e 60 rodando por Cuba. Uma boa parte em perfeito estado de conservação (com o bloqueio, eles começaram a produzir as peças de reposição lá mesmo, em pequenas oficinas). O que nos leva a pensar que, sendo um bem durável, porque tem gente que precisa trocar de carro todo ano?
  • Eu não sou à favor do “os fins justificam os meios”, mas é inevitável notar como as restrições as religiões com poder central (especificamente a católica) impostas durante a primeira metade do regime gerou uma separação total entre Igreja e Estado, o que é sempre bom (se bem que o Marxismo em sí é praticamente uma religião).
  • Além da educação, saúde e segurança, uma coisa da qual os cubanos devem se orgulhar é o seu sorvete. Todos os que eu tomei estavam ótimos. Quando estava indo de Santiago para Havana, tomei o melhor sorvete de chocolate da minha vida (e por apenas R$ 1,50). Taí um produto que eles poderiam exportar para ajudar na economia.
  • Todos os táxis (táxis regulares, cocotáxis e carrões antigos) têm taximetro, porém ninguém liga. Para não ser passado para trás, o esquema é combinar o preço da corrida antes de entrar no táxi. Se informe antes no hotel quanto custa, mais ou menos, a corrida que você quer fazer. Outras duas dicas são: sempre pechinche e sempre leve trocado (se você combinar, por exemplo, 8 CUCs e só tiver 10, o taxista vai alegar que não tem troco).
  • Evite pegar os táxis na porta dos hotéis ou em lugares turísticos. Ande um pouco e pegue na rua (como falei, Cuba é seguro, pode pegar táxi sem problemas). E tente pegar os táxis mais antigos (os Ladas).
  • As filas lá são um negócio de doido: a pessoa chega no lugar e pergunta “quem é o último?”, ai esta pessoa se identifica e você têm que “marcar” ela. Quando alguém chegar e perguntar pelo último, se for você for, identifique-se para que a pessoa possa saber atrás de quem está. Eles não vão formar uma fila como fazemos aqui e se você comer bola vai ter várias pessoas passando na sua frente (não por maldade). Eu tinha visto nas minhas aulas de espanhol que na Espanha funciona assim também em açougues e padarias, por exemplo, porém nestes lugares tem 5, 10 pessoas. Quando tem 100 pessoas o sistema torna-se impossível de ser acompanhado por quem não está acostumado.
  • O transporte público (ônibus e papa filas, além de caminhões, caminhonetes e táxis coletivos) está sempre lotado! E olha que tem um monte de ônibus articulados por lá.
  • Pelo fato de a maioria dos estabelecimentos comerciais serem do Estado, ou seja, é um monopólio, não existe a necessidade de dar um nome para o estabelecimento. Muitos deles, especialmente os postos de gasolina, têm simplesmente o nome da rua (ou da esquina) em que se encontra: Posto Calle 23, restaurante Prado y Neptuno (na esquina destas ruas), etc.
  • Tem muito pedinte e muita gente querendo se oferecer pra te ajudar em troca de gorjeta. Uma hora enche o saco, pois você às vezes quer ficar sossegado numa mesa de bar, ou então já tem uma programação. Mesmo quando estiver nestas situações, trate todos com educação e respeito. Explique que você não tem dinheiro, ou “minta” que você já almoçou ou já comprou charutos (eles te oferecem para levar em um restaurante ou em uma cooperativa de produtores de charutos pois ganham comissão), explique que você já se programou para ir a outro lugar, mas nunca ignore ou falte com educação. Cordialidade e gentileza é bom em qualquer lugar do mundo e em qualquer situação e muitas vezes 5 minutos de conversa, que para você não custa nada, pode significar muito para a outra pessoa.

Be happy! 🙂

Wanderlust #21 – Havana, Cuba

123 Parque Central - Centro Habana - Havana - Cuba

Os tradicionais táxis cubanos na Plaza Central

Havana é a maior e mais populosa cidade cubana, com cerca de 2 milhões e meio de habitantes (quase 25% da população do país). Também é sua capital política, cultural e econômica. A cidade foi fundada oficialmente em 1519 e é, assim como a maioria das grandes cidades do continente americano, um verdadeiro caldeirão cultural, devido à chegada ao longo da história de povos de diversas origens, sendo a maioria espanhóis (os colonizadores) e africanos (que chegaram como escravos), mas também contando com pessoas de ascendência européia (italianos e ingleses) e até pequenas comunidades chinesas, árabes e israelitas.

052 Plaza de La Revolucion - Havana - Cuba

Plaza de La Revolucion

No primeiro dia planejamos caminhar por Vedado e Centro Habana. Pegamos a Avenida Paseo, onde ficava o hotel e seguimos em direção à Plaza de La Revolucion, que fica no final desta avenida. Antes porém desviamos um pouco o caminho para visitar o Parque Lennon, erguido em homenagem ao Beatle. Fidel sempre foi muito fã dos Beatles e sempre os considerou socialistas (?!?!?). Depois de nos perdermos um pouco conseguimos chegar à Necrópolis Cólon. Já não sou muito chegado em cemitérios, ainda mais tendo que pagar 5 pesos, então nem entrei. Mas valeu a pena “se perder” para andar em meio a bairros não turisticos de Vedado.

Sorveteria Coppélia: um dos melhores que eu já tomei!

Sorveteria Coppélia: um dos melhores que eu já tomei!

Resolvemos então voltar para a Avenida Paseo e continuar até a Plaza de La Revolucion, talvez o ponto turístico mais conhecido de Cuba. Depois de algumas fotos, seguimos pela Avenida de Los Presidentes até a Avenida 23, a principal avenida comercial de Havana. Nesta avenida se encontra o Parque Coppelia, onde fica a sorveteria Coppelia. Você não pode ir à Cuba e não tomar um sorvete da Coppelia (existe uma Coppelia na maioria das grandes cidades cubanas). Depois de pagar R$ 0,12 por um dos melhores sorvetes da sua vida você vai demorar muito tempo para pagar R$ 10,00 num Häagen Dazs.

A Avenida 23 termina no Malecon, bem onde fica o belo e imponente Hotel Nacional, onde as autoridades internacionais se hospedam quando estão em Havana.

Hotel Nacional

Hotel Nacional

A parte central de Havana, que é a mais turística, não tem praia e fica numa encosta de pedras. Ao longo da costa existe uma larga avenida, e entre esta avenida e a costa, um largo calçadão e uma mureta, que é muito usada para pesca e por casais de namorados.  Este conjunto “avenida + calçadão + mureta” é o famoso Malecon.

Durante o percurso de 1 kilômetro até a Avenida de Itália, que nos levaria até Centro Habana, notamos que vários prédios foram ou estão sendo reformados. Mais tarde soubemos que a  UNESCO está patrocinando a restauração dos bairros La Habana Vieja e Centro Habana. Porém, ao mesmo tempo que notamos que muitos prédios ao longo do Malecon estão novinhos (mas mantendo a arquitetura original), deu pra ver, andando à pé, que a parte que os turistas não enxergam de carro ou ônibus, ainda está muito deteriorada.  Quando pegamos a Avenida de Itália tinham alguns prédios que davam até medo de andar debaixo de suas marquises, com medo de algum pedaço desabar.

Capitólio - versão genérica do americano.

Capitólio – versão genérica do americano.

Seguimos pela Avenida de Itália até Centro Habana, onde podemos ver o Capitólio, o Gran Teatro de la Habana, o Hotel Inglaterra, entre outros prédios restaurados ou em frangalhos, existentes no bairro. Conhecemos também o Parque Central e o Paseo  de Marti e então resolvemos parar para “almoçar” no ótimo Prado y Neptuno, que além de ter uma boa variedade de pratos típicos e internacionais, também tem um preço bastante atrativo.

Após a “almojanta” resolvemos caminhar os 5 kilômetros de volta ao hotel pelo Malecon. Somando com o que tinhamos andado durante todo o dia creio que chegamos nos 20 kilômetros caminhados. Como já era fim de tarde quando chegarmo próximos ao hotel, esperamos para ver (e fotografar) o por do sol da mureta do malecon. E já que haviamos desembarcado no hotel na madrugada do dia anterior e tinhamos andado bastante durante o dia, resolvemos comprar umas cervejas na loja de conveniência que tinha em frente ao hotel e ficar por lá mesmo.

Por do sol visto do Malecon

Por do sol visto do Malecon

No segundo dia, pegamos um Cocotáxi e fomos até o Callejón de Hammel, que é uma viela que virou uma galeria de arte a céu aberto, muito pela iniciativa do artista Salvador González, que montou ali seu ateliê, o que acabou trazendo alguns outros artistas para a região.

Depois caminhamos uns 30 minutos até La Habana Vieja. Preferimos não entrar no Museo de la Revolución para não perder muito tempo e já seguimos para as ruazinhas estreitas no miolo da parte mais antiga de Havana. Passamos na Plaza de La Catedral e fomos até o La Bodeguita del Medio tomar o famoso mojito, que era o preferido de Ernest Hemingway, quando este viveu na cidade. Continuando o passeio pelo antigo bairro, passamos pelo Castillo de la Real Fuerza, Plaza de Armas e paramos para tomar outro ótimo sorvete (pqp!! Como eles são bons em fazer sorvete!!!). Depois passamos pela Plaza de San Francisco e, felizmente, caimos sem querer na Plaza Vieja, uma praça que foi toda reformada (dentro do projeto da UNESCO) e que conta com prédios históricos, bares e restaurantes no seu entorno.

Callejón de Hammel - a cultura afro cubana é muito parecida com a afro brasileira

Callejón de Hammel – a cultura afro cubana é muito parecida com a afro brasileira

Decidimos também meio que sem querer sentar em um dos bares e qual não foi a surpresa ao descobrir que este “bar” é a Cerveceria Plaza Vieja, uma cervejaria artesanal (talvez a única) cubana. Que além de ter uma cerveja muito boa, ainda tinha um preço muito em conta. Aproveitamos para tomar cervejas e almoçar e já programamos de voltar no outro dia à tarde para o happy hour do último dia na cidade. Depois da cerveja tomamos um velho Ford Fairlaine conversível para voltar para o hotel, pois à noite iriamos assistir um show dos Tradicionales de los 50, que são alguns artistas cubanos, no estilo “Buena Vista Social Club”. Na saída do show, demos a sorte de pegar um Chevrolet Bel Air da década de 50 para voltar ao hotel.

Linha de produção de mojitos em La Bodeguita del Medio

Linha de produção de mojitos em La Bodeguita del Medio

No terceiro dia, resolvemos seguir sentido contrário de La Habana Vieja e conhecer o pouco turístico bairro de Miramar, que é algo que poderiamos considerar a área nobre de Havana (inclusive lembra muito os EUA). Antes da revolução, este bairro era o local onde as pessoas ricas de Cuba e onde os estrangeiros tinham suas residências. Após a revolução, as casas foram abandonadas (muitos ricos fugiram para os EUA) e retomadas pelo governo, assim como as que eram propriedades de estrangeiros. Hoje em dia, boa parte das enormes casas foram transformadas em representações diplomáticas (contei umas 15 embaixadas ou consulados), escolas ou locais para atendimento à população.

Miramar e suas belas e enormes casas

Miramar e suas belas e enormes casas

É um bairro muito bonito para uma caminhada e, excetuando-se os velhos táxis lada (na área mais turística de Cuba, composta por La Habana Vieja, Habana Centro e Vedado, a grande maioria dos táxis ou são os carros americanos antigos restaurados ou então Hyundais novos) você poderia achar que está no subúrbio de alguma cidade dos EUA. Ou mesmo no Jardim Europa, em SP.

Caminhamos uns 5kms no bairro até chegarmos ao Acuário Nacional. Ele não é tão grande e acabei por não ver os shows dos leões marinhos ou dos golfinhos, mas é até interessante para ver um pouco da fauna marítima cubana. Se for passar mais de 3 dias na cidade, compensa. Depois disto pegamos um  táxi Lada para irmos para o Happy Hour programado na Cerveceria Plaza Vieja, o que acabou por derrubar a boa impressão que tinhamos tido no dia anterior.

Cerveceria Plaza Vieja - duas experiências totalmente opostas

Cerveceria Plaza Vieja – duas experiências totalmente opostas

O cardápio que nos trouxeram tinha preços bem maiores que o cardápio do dia anterior (um hamburguer tinha “aumentado” de 2 para 6 CUCs!!!). Questionamos a garçonete sobre as diferenças e ela inventou que existia um “cardápio social e um informal”. Eu até concordo que os “locais” devem pagar menos do que os turistas, mas para isto Cuba já conta com duas moedas distintas. Na verdade o preço ali era cobrado pela cara do cliente (como acontece muito no nordeste do Brasil). Depois disto o atendimento foi simplesmente péssimo e acabou por estragar um pouco uma viagem que tinha sido perfeita até ali.

Mas felizmente nada que apagasse a ótima experiência de conhecer Cuba, um país muito diferente dos que eu já visitei e com um dos povos mais calorosos e receptivos que eu já tive o prazer de conhecer.

Observações, dicas e considerações:

  • Tomara que no processo de restauração da parte central de Havana não ocorra, ao mesmo tempo, um processo de gentrificação. O que eu acho difícil até porque, em teoria, todos os imóveis são do Estado e eles podem realocar os moradores como bem entenderem. Podem simplesmente retirá-los de lá para as reformas, colocá-los em outros lugares e, após as reformas, cederem o espaço a outras pessoas.
  • O Capitólio é uma cópia em tamanho reduzido da sua versão americana. Mais uma prova da influência americana em Cuba.
  • O Cocotáxi é uma transporte que lembra bastante os riquixás chineses e os rickshaws indianos, com a diferença de não ser tração humana. É uma pequena moto (imagino eu que uma scooter) que tem um “cockpit” onde cabem 2 ou 3 pessoas sentadas, dependendo do modelo. Como o formato da maioria é arredondado e a cor oficial dos táxis em Cuba é amarelo, ele foi apelidado de Cocotáxi (o coco fresco, que conhecemos aqui como “coco verde”, pois é verde mesmo, em Cuba é amarelo).
  • A maioria dos músicos do projeto “Buena Vista Social Club” já são falecidos. Então não caia no “conto” de assistir a um show deles (nem lá e nem em lugar nenhum), pois vai ser só uma imitação. O filho de um dos músicos montou um novo grupo e faz shows na cidade e uma “franquia” excursiona pelo mundo. Se for só para curtir uma reunião de artistas cubanos, o show dos Tradicionales vai ser mais divertido, além de ser o “underground” e não o pop da música cubana das décadas de 50 e 60.
  • O bairro de Vedado tem este nome pois no final do século 19 e início do século 20 a construção de prédios, ou mesmo casa com mais de um andar era “vedado” por motivos de segurança (para permitir a visualização de qualquer tentativa de invasão de Cuba através do mar por aquele ponto)

Be happy 🙂

375 Plaza Vieja - La Habana Vieja - Havana - Cuba

Funcionário do mês

414 Passeio de Ford Fairlane - Havana - Cuba

Ford Fairlane

435 Sociedad Cultural Rosalia de Castro - La Habana Vieja - Havana - Cuba

Los Tradicionales de los 50

465 Passeio de Chevrolet Bel Air - Havana - Cuba

Chevrolet Bel Air

616 La Habana Vieja - Havana - Cuba

Cuba és amor!

216 El Malecón de Cocotaxi - Havana - Cuba

Cocotáxi

 

Wanderlust #20 – Santiago de Cuba, Cuba (ah vá!)

Santiago de Cuba 01

Santiago de Cuba é a segunda maior cidade cubana, com cerca de 500 mil habitantes e fica localizada a cerca de 900 kilômetros da capital, Havana. Por causa da proximidade com a Jamaica, o Haiti e a República Dominicana, é comum ver muitas pessoas com estas origens (muitos rastas, por exemplo).

Memorial Loma de San Juan

Memorial Loma de San Juan

Além da cultura de café, plantados nas cercanias da Sierra Maestra, a maior cadeia montanhosa de Cuba, a província de Santiago de Cuba (província é o equivalente ao nosso estado) também é famosa por seu porto e a mineração (cobre e ouro). Porém, a importância maior desta cidade é o fato dela ter sido o berço dos dois acontecimentos históricos mais importantes para Cuba: a independência da Espanha (e dos EUA, ver o artigo sobre a história de Cuba) e a revolução Cubana.

Por ser a maior cidade no leste de Cuba (ou como eles chamam, o Oriente cubano), ela foi um dos principais palcos das batalhas pela independência de Cuba. Na década de 50 serviu de berço da revolução cubana, pois foi na cidade em que Fidel se formou em direito e morou durante alguns anos. O Cuartel de Moncada, alvo do ataque da primeira tentativa da revolução armada liderada por Fidel fica na cidade (ver o mesmo artigo acima sobre a história).

Acho que o que mais eu gostei na cidade foi que ela respira música e o povo é muito festivo. Em qualquer lugar que você pare, invariavelmente terá algum conjunto ou artista tocando. Em todas as praças em que passei, entre o final da tarde / começo da noite tinha alguma festa acontecendo (inclusive na segunda feira!). Não à toa, o carnaval de Santiago, que acontece em Julho, é muito famoso.

Santuario de La Virgen de La Caridad del Cobre

Santuario de La Virgen de La Caridad del Cobre

O que fazer?
Santiago de Cuba é uma cidade pequena e sem grandes atrativos na sua área urbana. A não ser sentar num bar ou numa praça e ficar tomando cerveja, ouvindo os músicos de rua. Em termos de “atrações turísticas”, em um dia dá para conhecer praticamente toda a cidade.

Felizmente, ao tentar conseguir um mapa mais detalhado da cidade, a concierge do hotel sugeriu que contratássemos um taxista para fazer um passeio na “grande Santiago”, ao custo de 40 CUCs (cerca de 40 euros) por dia, para até 4 pessoas. Foi realmente uma ótima sugestão.

No primeiro dia o taxista nos levou para um “city tour” passando pelo Arbol de La Paz (onde o acordo de independência foi assinado), Memorial Loma de San Juan, alguns bairros residenciais, Bosque de Los Heroes, Plaza Antonio Maceo e Teatro Heredia e depois nos dirigimos ao Santuário de La Virgen de La Caridad del Cobre, a padroeira de Cuba.

Plaza Antonio Maceo

Plaza Antonio Maceo

Na volta para a cidade paramos no Cementério Santa Ifigenia, que conta com um imponente memorial à José Marti (um dos heróis cubanos) e túmulos de outras figuras históricas (como a família Bacardi). É interessante chegar por volta das 13:30, pois é quando acontece a troca da guarda, que é feita de forma tão sincronizada que você não consegue perceber quem foram os guardas que acabaram de chegar e quais acabaram de sair.

A próxima parada foi no Castillo de San Pedro de la Roca, ou simplesmente Castillo del Morro, uma fortaleza construida no topo de uma das colinas localizadas na entrada da baia de Santiago de Cuba, que foi erguida para servir como ponto de defesa contra invasores. Dali se tem uma vista da bela baia e também da costa.

Após a volta, ficamos no Parque Céspedes, que na verdade não é um parque, e sim uma praça (eles chamam qualquer praça com árvores de parque em Cuba), localizada no centro de Santiago e que é rodeada por alguns prédios históricos e interessantes. Fomos até a Casa de La Trova, onde podemos presenciar uma mini apresentaçao exclusiva de Pello 21, um músico local que toca um “instrumento” chamado Órgão Paris, que é como se fosse um enorme realejo. Visitamos também o Balcón de Velásquez, de onde se tem uma vista da parte costeira da cidade e depois fomos abordados por Livan, um morador de Santiago que nos levou para conhecer a maquete de Santiago e depois um restaurante local para tomarmos alguns mojitos. Depois paramos para almoçar na Taberna El Baturro, que tem um ambiente interessante (mas a comida não vale o preço).

Cementerio Santa Ifigenia

Cementerio Santa Ifigenia

Após o almoço, seguimos para a Plaza de Dolores, uma pequena praça cercada de bares com mesas na calçada que é ótimo para parar, tomar umas cervejas e mojitos e aproveitar para ouvir o som dos inúmeros músicos de rua que passam por ali (e portanto, prepare-se para dar caixinhas!). Na volta a pé para o hotel (cerca de 4kms) notamos que em TODAS as praças no caminho acontecia alguma festa, isto em pleno domingo, às 21:00hrs.

Haviamos combinado com o taxista de fazer um outro passeio no dia seguinte, desta vez fomos até a La Gran Piedra, um dos pontos mais altos de Cuba, situado na Sierra Maestra. O passeio é bem legal e a vista é fantástica, mas deve-se estar preparado para subir os quase 500 degraus até a pedra. Depois passamos no Museu Isabelica, um sítio histórico onde foi montada a primeira fazenda de café de Cuba. No sítio dá para se ter uma idéia de como viviam um fazendeiro e seus escravos.

Depois fomos até o Jardim Botânico, que é muito bonito e conta com uma variedade bem grande da flora cubana. Na sequência do passeio era para termos passado pela Granja Sibonay, o pequeno sítio que Fidel alugou e onde ele organizou a primeira tentativa de revolução. Porém, por ser uma segunda feira, o local estava fechado para visitas. Então nos dirigimos até o penúltimo ponto do passeio, que era a Praia de Sibonay, onde comemos em um legítimo Paladar cubano.

El Castillo del Morro

El Castillo del Morro

Há alguns anos o governo autorizou algumas pessoas a servirem refeições nas suas casas para os turistas. Na época, a novela brasileira Vale Tudo estava sendo transmitida em Cuba e a personagem da Regina Duarte nesta novela era a dona de um pequeno restaurante chamado “Paladar”. Por conta disto, o nome Paladar acabou “pegando” como denominação destes locais que servem refeições literalmente caseiras (os paladares são montados nos quintais ou em algum cômodo da casa).

A praia de Sibonay é bonita, porém o mar é um pouco agitado e de tombo.  Como não tinhamos planos de pegar praia, somente aproveitamos para tirar algumas fotos e voltamos para Santiago (Sibonay é um município na grande Santiago de Cuba) para o último ponto do passeio, que era o histórico Cuartel de Moncada, porém o museu do quartel também estava fechado por ser uma segunda. Então fomos conhecer o terraço do Casa Granda Hotel, de onde se tem uma vista 360º de quase toda a cidade, já que o hotel, apesar de não ser muito alto, fica numa colina e pelo fato de que em Santiago existem muito poucos prédios altos.

Parque Céspedes

Parque Céspedes

Depois passamos para tomar um café no la Isabelica Café, que é bem tradicional e que, além de qualidade, tem uma enorme variedade de bebidas que levam café como ingrediente principal. Depois de pararmos novamente para tomar algumas cervejas na Plaza Dolores, resolvemos voltar ao hotel. No caminho (que foi o mesmo do dia anterior), notamos que novamente haviam festas em TODAS as praças. Em plena segunda feira! Resolvemos parar em uma perto do hotel, que fica tipo num calçadão comercial e tinha música rolando ao vivo. Apesar do grupo tocar 3 músicas e fazer uma “pequena pausa” de meia hora, para voltar e tocar mais 3 músicas e fazer uma nova pausa, foi legal curtir esta última noite no meio dos locais, em um local que não é turístico e ainda de quebra descobrir que Kaoma e seu eterno sucesso “Chorando se Foi” também é sucesso em Cuba. Bem, ao menos em Santiago.

Observações, dicas e considerações:

  • Santiago de Cuba 08Se for voar de Cubana de Aviación prepare-se: como ela é basicamente a única companhia aérea que voa dentro de Cuba e por não ter muitas aeronaves, qualquer atraso desencadeia um efeito dominó em toda a malha. Na ida o atraso foi de 11 horas e na volta de duas.
  • Ainda assim valeu a experiência de andar num Antonov – AN 158, talvez a aeronave mais silenciosa em que eu já voei.
  • Eu não sou muito chegado em café então provavelmente não seja a pessoa certa para falar se um café é bom ou ruim, mas se eu morasse em Santiago com certeza iria virar um viciado no café do La Isabelica Café. O melhor que já tomei!
  • A maioria das atrações turísticas de Santiago fecham às segundas. Então é bom levar isto em consideração na hora de programar a viagem. Mas se a intenção for aproveitar festa, pode ir na segunda à vontade!
  • Quando estava em Havana, conheci um “local” e comentei com ele que tinha acabado de chegar de Santiago de Cuba, e ele soltou “Cuba é pobre, mas Santiago é mais pobre ainda!”, por conta disto, em Santiago existem muito mais pedintes e existem muito mais pessoas querendo ser “guias” para conseguir alguma gorjeta, ou mesmo uma refeição por conta do turista. Então prepare-se para ser abordado.
  • Apesar dos moradores de Santiago serem pobres e não terem acesso a vários bens e serviços que são corriqueiros para nós, eles são muito felizes e se divertem muito (mas muito mesmo!), o que nos leva a pensar como realmente não precisamos de muita coisa para ser feliz e viver bem.

Be happy 🙂

La Gran Piedra

La Gran Piedra

Wanderlust #19 – Varadero, Cuba

045 - Varadero - CubaFalar sobre Varadero, estando num all inclusive é facil.

Primeiro você acorda e vai tomar o cafe da manhã. Como eles atendem publicos de diversos países e culturas variadas, eles têm que oferecer variedade. No buffet tem morcela para os espanhóis e portugueses, bacon e panquecas (com maple syrup) para os americanos, pepino e tomate para os alemães, feijão e salsicha para os ingleses, e por aí vai. So de pães deve ter umas 20 opções. Chutando baixo, no total devem ter umas 150 opções de comida só no café da manhã.

Depois voce vai para a praia curtir o visual paradisiaco e aquele mar verde e limpo (uma pena é a água ser fria), deita na espreguiçadeira e passa o restante da manhã tomando cerveja. Regularmente tem alguma atividade que me permiti não fazer para evitar a fadiga.

Lá pelas 13:00 voce vai almocar e as opcões também não são poucas.

Depois do almoço vai para o bar molhado da piscina tomar umas cervejas, mojitos, daiquiris e piñas coladas.

Ao final da tarde, se dirige ao bar do lobby para um happy hour, afinal todo mundo precisa desestressar.

166 - Varadero - Cuba

A árdua tarefa de exercitar o ócio!

Umas sete horas volta para o apartamento, senta na varanda e abre uma cerveja para relaxar. Eventualmente tira uma soneca, já que ninguém é de ferro.

As 21 horas vai jantar em um dos restaurantes temáticos e logo após assiste a algum show ou participa de uma festa temática organizada pelo resort. Ainda dá tempo de dançar um pouco na balada do hotel, mas não até muito tarde, pois você precisa dormir cedo, já que o próximo dia também será duro!

Eu sinceramente acho que na declaração de direitos humanos da ONU deveria ter um parágrafo dizendo que “todo ser humano deve passar ao menos 3 dias de sua vida num all inclusive”.

Observações, dicas e considerações:

  • Achei impressionante a quantidade de alemães no resort. Chutando baixo cerca de 60% dos hóspedes. O restante se dividia em outros Europeus (principalmente espanhóis e franceses), pouquíssimos latino americanos e quase nenhum brasileiro. Uma pena.
  • Aquela empatia que a seleção e a imprensa alemã demostraram quando da passagem deles pela Bahia, na Copa do Mundo no Brasil, no ano passado, não parece ser apenas “jogada de marketing”. Eu vi os alemães interagindo muito com o pessoal do hotel (garçons, barmans, pessoal da limpeza, etc) com uma curiosidade genuína e um respeito enorme por uma cultura diferente da deles. Presenciei até uma cena bem legal: uma alemã, que pelo que eu entendi estava deixando o hotel, entregando uma lembrancinha para uma das moças que trabalhavam no buffet do café da manhã.
  • Uma coisa que eu notei e que achei muito legal foram alguns funcionários do hotel irem curtir o dia de folga com suas famílias no resort. Não sei a motivação disto, mas é interessante por não isolar “a casa grande da senzala”, ou seja, dá a oportunidade de pessoas que talvez não tivessem condições de bancar um hotel daquele tipo (e em Cuba isto corresponde a 90% da população) de aproveitarem um pouco daquilo que eles oferecem aos estrangeiros todos os dias.
  • Quando fui à Punta Cana uma das coisas que eu mais detestei foi o fato de que os funcionários não podiam se alimentar no Buffet (mesmo após o fechamento deles). Quando cheguei no resort em Varadero já eram mais de 3 horas da tarde e fui almoçar, pegando o fechamento do buffet, e os funcionários experimentavam os “quitutes” (imagino que eles já tinham almoçado antes) sem nenhum problema ou medo de punição. O mesmo acontecia nos bares: os funcionários dão uma parada depois do seu turno para “tomar um trago” antes de irem para casa, por conta do hotel.
  • O resort organizou uma festa (White Party) e uma das cenas mais legais foi ver uma centena de pessoas, literalmente dos 8 aos 80 anos, de nacionalidades diversas, se divertindo como se não houvesse amanha e dançando como se não houvesse ninguém assistindo (eu representei o Brasil…hehehe)

Be happy 🙂

052 - Varadero - Cuba