Wanderlust #7 – Berlin, teil 1: Die Leute

0901 Berlin - Mauerpark

Karaokê no Mauer Park: o berlinense gosta de atividades coletivas

Ufa! Até que enfim! Esta era para ser a primeira cidade a ser tema da “coluna” Wanderlust do Botecoterapia, mas o negócio começou a ficar interminável e como eu já estava prestes à voltar para cá (escrevo este texto “in loco”), resolvi “soltar” os textos dos EUA (que também foram escritos “in loco”) e o de Parati enquanto estavam “frescos” na memória. O momento é até mais legal, pois pelo fato de terem poucos brasileiros na escola (não conheci nenhum, pois não tem nenhum na minha sala), acabei fazendo mais programas sozinhos e, para ajudar, é mês de copa, e pelo que tenho percebido, os alemães adoram assistir os jogos coletivamente, principalmente no que eles chamam de “WM Public View” (WM é a abreviação de Weltmeister, campeonato mundial).

À exemplo do texto dos EUA, em que quebrei em várias partes, para não ficar algo longo e chato, farei o mesmo com os textos de Berlin. Estou prevendo inicialmente 6 textos, abordando diversos aspectos da cidade, sua gente e suas atrações, porém como estou aqui e as experiências ainda estão sendo vivenciadas, este número pode mudar e, eventualmente, posso até voltar num assunto já tratado. Para iniciar, falarei um pouco sobre os berlinenses.

Os Alemães, por conta de todos os acontecimentos do século passado dos quais eles foram causadores e/ou protagonistas (duas guerras mundiais, guerra fria, muro de Berlin, Holocausto, etc) carregam em si uma culpa enorme.

Além dos vários monumentos em toda a parte para homenagear as vitimas e relembrar estes terríveis acontecimentos (“nós não podemos nos esquecer para que não aconteça novamente”, é a justificativa para tantos monumentos), a Alemanha tem sido um dos principais países à contribuir com causas sociais e humanitárias, com recuperação econômica de outros países e, mesmo com uma recente crise em países da zona do Euro, por culpa única e exclusiva destes, não abandonou o barco para não deixá-los à deriva (fato que poderia desencadear em uma crise bem pior, caso ocorresse). Talvez isto seja uma forma de autopunição na tentativa de expiar os pecados de um passado recente.

Verão é a época de atividades ao ar livre em Berlin

Verão é a época de atividades ao ar livre em Berlin

O Berlinense, por sua vez, já passou por esta fase. Eles tiveram a cidade dividida como um espólio da guerra e viveram uma divisão física e todas as tensões de ser a fronteira entre os contendores da guerra fria. Portanto, seus pecados aparentemente já foram pagos e com isto eles evoluiuram e o Berlinense é acima de tudo tolerante. Ele tem tolerância de gênero, de orientação sexual, de credo, de etnia e tudo quanto é tipo. Em Berlin, a frase “quer aparecer pendure uma melância no pescoço” é totalmente ineficaz, pois por mais que alguém não ache legal ou não goste de alguém com uma melância no pescoço, ele tende, genuinamente, a aceitar e respeitar.

Então ao andar de metrô por aqui você vê gente de todas as etnias, credos, culturas, etc. Os muçulmanos podem usar seus turbantes e barbas sem problemas, vejo todo dia mulheres de burka, você encontra uma senhora sexagenária com o cabelo moicano pintado de rosa, piercing e tatuagens por todo o corpo conversando com moleques de 15 anos vestidos com o melhor da moda nerd, casais homossexuais passeiam sossegadamente de mãos dadas, etc. Existe uma tolerância muito grande também aos imigrantes, sejam eles legais ou ilegais.

Dos países da zona do Euro, a Alemanha talvez seja o que mais consegue lidar com estas ondas migratórias e Berlin, em especial, é uma cidade que recebe e tenta, de algum modo, propiciar oportunidades para estas pessoas.

Além da tolerância, uma outra característica que é inerente aos berlinenses (muito provavelmente pelos mesmos motivos) é aproveitar a vida da melhor forma possível. E para eles, aproveitar a vida não é uma questão de grana, de posses. Eles querem apenas se divertir, tomar sua cerveja, assistir seu futebol, aproveitar os poucos meses de tempo bom ao ar livre, seja fazendo churrasco nos parques, seja apenas sentando na beira de um rio para aproveitar o clima ameno.

O povo é festeiro!

O povo é festeiro!

Estando desta vez sozinho “mesmo”, tenho tido a oportunidade de conversar bastante com alemães, especialmente nas exibições dos jogos da Copa. Uma coisa bem legal que existe por toda a Alemanha e que propiciam uma oportunidade maior de contato são as mesas coletivas em bares, Biergartens, restaurantes, etc. Toda vez que estou numa destas mesas, a pessoa que está do lado puxa conversa, se apresenta e, na medida em que meu alemão permite (quando esta pessoa não fala inglês) acontece uma conversa bastante amistosa, com os alemães muito interessados em saber onde eu moro no Brasil, o que eu faço, o que as pessoas fazem, como é o clima, as ruas, as pessoas.

Aqui um adendo interessante: já é a minha terceira vez na Europa e já fui uma dez vezes aos EUA. Os alemães, ao saberem que sou do Brasil, é o um dos poucos povos (o pessoal do leste europeu também age como eles) que não fala da “mulher brasileira” (no melhor estilo chauvinista, especialmente americanos e ingleses) ou de futebol (especialmente italianos e espanhóis). Ele parece se interessar genuinamente por uma cultura diferente da deles.

Mesmo no metrô ou na rua, se vc está com alguma camiseta engraçada, ou se acontece algo engraçado (como o exemplo do rapaz que foi tirar uma foto e virou o copo de cerveja que estava segurando nele mesmo), eles fazem piadas, dão risada e todo mundo leva na esportiva.

Dizem que os brasileiros são um povo que ri das próprias desgraças. Eu acho que o Berlinense é o povo que, apesar de ter sofrido e causado várias desgraças, aprendeu a rir da vida e sem a necessidade de se fazer de coitadinho, como os brasileiros.

Quer dizer, eles até se fazem um pouco de coitados, pois foram eles que, infelizmente, ficaram sob o controle da antiga URSS e, enquanto o restante do país, que estava sob o controle de EUA, França ou Inglaterra, se desenvolveu absurdamente em menos de meio século, Berlin ficou parada no tempo (inclusive o setor ocidental). Mas acho que este “coitadismo” deles, tem mais a ver com dar uma de pobre (em comparação com o restante da Alemanha, especialmente a região da Bavária, e outros países europeus, Berlin é sim pobre) e pagar menos na cerveja……hehehe.

Afinal de contas, como diz o lema: Bier ist billiger als Wasser, das ist Berlin!

Tá certo que o pragmatismo e o “metodismo” alemão várias vezes são irritantes (e olha que eu sou um cara metódico pra caramba!). A inflexibilidade deles também é algo que é complicado de lidar, ainda mais para nós, por conta do nossa “maleabilidade” (o famoso “jeitinho brasileiro”), mas mesmo assim, de todos os povos que eu conheci, por incrível que pareça, eles são um dos mais amistosos.

2 ideias sobre “Wanderlust #7 – Berlin, teil 1: Die Leute

  1. Pingback: O Verde Violentou o Muro – Ignácio de Loyola Brandão (16/2015) | Botecoterapia

  2. Pingback: Wanderlust #33 – Berlin (e Potsdam), Alemanha | Botecoterapia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s