Wanderlust #23 – Cidade do Panamá, Panamá (Ah! Vá!)

Panamá 001Por ter voado bastante de Copa Airlines, cujo hub fica na cidade do Panamá, eu já tenho umas boas horas de estada esperando conexão na cidade, mas nunca tinha pensado em conhecê-la. Resolvi aproveitar a viagem para Cuba e mais uma conexão no país centroamericano para pelo menos passar dois dias na cidade.

Confesso que a primeira impressão que tive não foi boa: a cidade era uma mini Miami (e eu não gostei de Miami), sem a organização norte americana, substituida pela bagunça latino americana. Mas bastou meio dia na cidade para eu mudar meu ponto de vista a ponto de considerar este pequeno, mas aconchegante país, uma ótima opção para viver. Mas antes de contar um pouco do que eu fiz por lá, vou falar um pouco da história.

Panamá 002A História
O istmo do Panamá foi uma das primeiras terras americanas descobertas e exploradas pelos espanhóis. Também foi através do Panamá que a Espanha conseguiu alcançar pela primeira vez o Oceano Pacífico. Além de explorarem o ouro no país, todo o resultado da exploração da parte oeste do continente sulamericano também passava pelo Panamá, já que a parte leste pertencia à Portugal. Talvez venha já daí a expressão “hub das Américas”, título pelo qual o aeroporto de Tocumén, na Cidade do Panamá, é conhecido.

No início do século XIX os movimentos de independência que ecoavam por todo o continente americano chegaram ao país e em 1821 a independência foi proclamada. Alguns meses mais tarde o Panamá integrou-se à Grande Colômbia de Simón Bolivar, se juntando à Venezula, Colômbia e Equador. Em 1840 houve uma independência de apenas 13 meses e em seguida o país foi incorporado à Colômbia.

Panamá 003Em 1846 o governo Colombiano costurou um acordo com os Estados Unidos para a construção da ferrovia interoceânica, que foi inaugurada em 1855, se tornando uma das maiores fontes de divisas do governo colombiano (e até hoje, junto com o Canal, do governo panamenho).  Os colombianos cresceram os olhos e iniciaram diversas e intermináveis frentes de negociação para a construção de um canal ligando os oceanos Atlântico e Pacífico. Após décadas de negociação, uma empresa francesa dirigida por Ferdinand de Lesseps, responsável pela construção do Canal de Suez, conseguiu autorização do governo colombiano para o início da construção.

Panamá 005

Casco Antíguo

Os franceses foram meio arrogantes (Ah! Vá!2) pelo fato de terem feito o Canal de Suez e resolveram aplicar basicamente o mesmo projeto para o Canal do Panamá sem terem feito muitos estudos sobre os terrenos, o clima e o relevo e após quase dez anos de chuvas torrenciais, enchentes, desmoronamentos e muitos operários mortos (cerca de 20 mil por causa de malária e febre amarela) a empresa veio a falir.

O presidente americano Roosevelt estava convencido de que os americanos seriam capazes de terminar a construção e também estava muito interessado no controle do canal por motivos militares, políticos e econômicos. Em 1903 EUA e Colômbia assinaram um tratado, porém o senado colombiano não ratificou o acordo. Como já havia um movimento pela independência do Panamá, os americanos deram a entender que, se os panamenhos declarassem a independência, os EUA garantiriam apoio militar caso a Colômbia resolvesse contra atacar. Em 3 de Novembro de 1903, os panamenhos declararam sua independência, garantidos por um “exercício naval da marinha americana” na região e os colombianos “deixaram pra lá, nem queria mesmo”. Quize dias após, o tratado que havia sido costurado com os Colombianos é assinado com os americanos e a construção do canal é reiniciada.

Ventiladores na parte externa de um bar. Depois eu entendi porque.

Ventiladores na parte externa de um bar. Depois eu entendi porque.

Não vou me alongar na história do canal pois o intuito é falar sobre o país e a wikipedia tem um artigo bem completo em português sobre esta história. Mas vale frisar que o acordo previa um pagamento de 10 milhões de dólares iniciais e de 250 mil dólares anuais à partir do término da construção, que duraria dez anos, a título de royalties, para o Panamá. Um outro ponto importante também é que, com a desculpa de proteger os investimentos dos EUA, criou-se uma área ao redor da eclusa de Miraflores, na cidade do Panamá, que era na prática um território americano dentro do país (o acesso aos panamenhos à esta grande parte da cidade era bloqueado) e que influenciou muito a cidade e o país inteiro.

Os panamenhos viram durante anos o Canal render vultuosas divisas que ficavam com os americanos, o que gerou ao longo deste tempo vários incidentes e uma instabilidade política enorme no país. Mas em 1977, finalmente foi assinado um acordo com o então presidente dos EUA, Jimmy Carter, para uma cessão gradual dos direitos sobre o Canal ao Panamá, cessão esta que foi concluída em 2000.

Desde então, com a entrada destas divisas e com a instalação de várias empresas no país, os panamenhos têm experimentado um salto em qualidade de vida.

Um dos famosos arranha céus do centro da cidade.

Um dos famosos arranha céus do centro da cidade.

O que fazer
Estando na cidade do Panamá é imprescindível ir conhecer a eclusa de Miraflores. Eu fiz este passeio através de uma agência, e também incluia um City Tour, fazia uma parada em um centro de artesanato ótimo para comprar lembranças e terminava em um grande mall. Acho que comprar o pacote através da agência é a melhor escolha a se fazer, só é interessante ir em um dia de final de semana para não perder valiosos minutos parado no trânsito infernal da cidade (eu fiz em um domingo).

Depois do City Tour, seguindo recomendação do guia (que falava português!), fomos até Casco Antiguo (ou Casco Viejo), um pedaço da cidade onde foi realizada a primeira reconstrução, no final do século 17, já que a cidade original (Panamá Vieja) havia sido destruida por saques de piratas e por incêndios. O belo e charmoso bairro conta com bastante edifícios históricos que vêm sendo restaurados e com boa variedade de restaurantes, bares e lojas de artesanato. Destaque para a Cerveceria La Rana Dorada, uma cervejaria artesanal panamenha que além de suas ótimas cervejas, também tem um cardápio interessante, tudo a preços justos.

Na segunda feira resolvemos alugar uma bike e pedalar os 5kms da Amador Causeway, uma via construida pelos americanos para isolar a entrada do Canal e para interligar o continente a três belas ilhas (Naos, Perico e Flamenco), porém os locais que alugam bicicletas estavam fechadas e resolvemos caminhar pela via mesmo assim. A caminhada valeu a pena e aproveitamos para almoçar na ilha Flamenco.

Amador Causeway: lembra os keys da Flórida

Amador Causeway: lembra os keys da Flórida

Depois de descansar um pouco, fomos até a Calle Uruguay, que conta com algumas opções de bares, pubs e restaurantes. Infelizmente tinhamos que voltar no outro dia e não pudemos conhecer Panamá Vieja, que pelo que eu soube são as ruínas da primeira cidade do Panamá, mas fiquei com vontade de conhecer mais o país, especialmente algumas praias e ilhas que ficam um pouco distantes da capital e parecem ser bem interessantes.

Como disse no início, de cara eu não gostei da cidade, mas aos poucos comecei a entender que a cidade é uma uma mistura de várias cidades do continente americano, de Miami (arquitetura, lojas) a São Paulo (correria, trânsito) e que o país ofere um conforto e qualidade de vida do nível do norte americano, mas sem deixar de ser calorosa como os latinos. Me fez até pensar que é uma boa opção para viver. Desde que arrumasse um trabalho onde não tivesse que usar gravata, que deve ser uma tortura com o calor do país.

É tanto trânsito e tanto carro que não dá nem pra saber o que é estacionamento e o que é rua

É tanto trânsito e tanto carro que não dá nem pra saber o que é estacionamento e o que é rua

Observações, dicas e considerações:

  • Achei estranho quando cheguei ao La Rana Dorada ver ventiladores na parte externa do bar. Eu já vi aquecedores, mas ventiladores nunca. No final da tarde e início da noite deu para perceber porque: mesmo sentado e tomando cerveja gelada, o calor era de fazer suar mais que tampa de cuscuz e os ventiladores davam uma aliviada.
  • No Panamá, por conta de sua posição geográfica, existem apenas duas estações no ano: a seca e a chuvosa. Mas ambas são quentes, muito quentes.
  • A dica para os táxis de Cuba também funciona para o Panamá: negocie antes de entrar, pechiche e tome o táxi fora do hotel. O Panamá não chega a ser tão seguro quanto Cuba, mas é bem mais seguro que o Brasil e tomar táxi nas ruas não é problema.
  • Os preços de bens (carros, roupas, perfumes e mesmo alimentação e bebidas) no Panamá é muito próximo dos preços praticados nos EUA. Mas atenção: não adianta comparar preços em outlet dos EUA com preços nos shoppings do Panamá. No Panamá é preço de shopping dos EUA, não preço de outlet. Ou seja, para compras é melhor ir até Miami mesmo.
  • Infelizmente a parte da cultura americana de obedecer regras não pegou no país e os motoristas desrespeitam totalmente as leis de trânsito. Precisa ter muito cuidado ao atravessar um farol de pedestres, por exemplo, mesmo que ele esteja aberto.
  • O trânsito na cidade do Panamá é infernal. Comparado aos piores dias em São Paulo. É transito o dia todo e com as ruas e avenidas praticamente paradas das 16:00 às 20:00 horas.
  • Dizem que existem mais carros na cidade do Panamá do que existem pessoas.
  • Apesar do trânsito, os ônibus passava vazios pelas faixas exclusivas enquanto os carros ficavam literalmente estacionados nas demais faixas. Mais um sinal da influência americana no país: todo mundo prefere andar de carro, mesmo que isto signifique mais tempo no trânsito.
  • Diablo rojo (preste atenção na foto do parabrisas)

    Diablo rojo (preste atenção na foto do parabrisas)

    Muitos ônibus escolares (naquele padrão dos americanos) foram transformados em transporte coletivo “extraoficial”, conhecidos como diablos rojos. O mais interessante é que eles são todos grafitados e/ou adesivados de acordo com a vontade do dono. O governo panamenho está aos poucos aposentando estes ônibus, substituindo-os por linhas oficiais. Mas tomara que mantenham alguns como atração turística.

  • Apesar da moeda oficial ser o Balboa, ela só existe na forma de moedas (de 1 balboa para baixo) e como o governo consegue manter uma paridade de 1 para 1 com o dólar, na prática a moeda americana é a oficial no país.
  • Por conta dos baixos impostos o país é considerado uma espécie de paraíso fiscal e muitas empresas têm instalado suas sedes para fugir de altas taxas de impostos nos seus países de origem (e também aproveitar a logística).
  • Este boom de empresas se instalando fez com que a pouca mão de obra qualificada desaparecesse do mercado, recebendo salários bem altos. Então fica a dica para quem tem interesse em mudar de país e conta com qualificação profissional.

Be happy! 🙂

Panamá 011

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