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Meias verdades e mentiras por inteiro: Espectro Político ou Esquerda X Direita

Espectro PolíticoO brasileiro em geral tem uma coisa que eu chamo de “pensamento binário”: ele só pensa em termos de sim ou não, de 0 e 1. Por exemplo, se uma pessoa fala mal do PT ela só pode ser PDSBista (e o contrário também é verdadeiro). Se não gosta de samba, só pode ser roqueiro. Ou seja, a rejeição de uma coisa sempre vai implicar na aceitação automática do que é considerado a antítese, o contraponto, daquela que foi rejeitada. Se por um lado isto indica uma deficiência na capacidade raciocinar e perceber que não existem apenas A e B, por outro, vai muito de encontro ao “inimigo comum” que eu falei neste artigo: se não é nosso amigo, então é nosso inimigo.

Quando se fala de política então, ai este pensamento binário chega a níveis cômicos, como a pessoa não votar no PT por ser esquerda, e votar no PSDB, que também é esquerda (mas estas pessoas acham que, por ser o rival do PT, o PSDB é obrigatoriamente direita). Não vou entrar na questão da definição de esquerda e direita quando se fala em espectro político, primeiramente porque ela está em desuso, mas também porque basta uma googlada para descobrir / entender como o termo nasceu.

Para tentar derrubar este conceito, primeiro vou fazer uma brincadeira com algumas opniões que eu tenho, classificando-as como de direita ou esquerda (de acordo com o entendimento geral), e eventualmente neutras, montando assim um “placar” (e abrindo gancho para um monte de artigos posteriores 🙂 ).

Os direitistas pegam o livre comércio, a chamada economia de mercado, base do capitalismo (a economia de mercado é UMA das bases do capitalismo), sem interferência do Estado, enquanto os esquerdistas acham que o Estado é quem deve decidir o que deve ser produzido, em que quantidade, quanto deve ser cobrado de cada produto, etc. Como sou à favor do capitalismo e da economia de mercado, os esquerdistas me chamariam de “Facista”, portanto Ruivo Coxinha 1 x 0 Ruivo Petralha.

Os esquerdistas crêem que o Estado é que deve deter os meios de produção, enquanto os direitistas acham que o governo somente atrapalha. Eu acho que tudo depende do setor e alguns dos setores estratégicos devem ficar, mesmo que apenas parcilamente, sob gestão do Estado (e além do mais eu sou totalmente à favor das agências regulatórias), os direitistas me chutariam do clube deles, mesmo eu sendo um liberal (light é verdade) no quesito economia. Ruivo Coxinha 1 x Ruivo Petralha 1.

Vamos mudar para os assuntos mais polêmicos: os direitistas / conservadores são totalmente contra a descriminalização, quanto mais a legalização das atuais drogas ilícitas, eu já sou totalmente à favor da legalização de TODAS as drogas. E olha que as que eu consumo são as legalizadas (álcool e cigarro) e não tenho o mínimo interesse por outros tipos. Com certeza os discípulos de Olavo de Carvalho me chamariam de “maconheiro da FFLCH”. Ruivo Coxinha 1 x Ruivo Petralha 2.

Eu sou totalmente à favor de que os casais homossexuais que têm uma união estável desfrutem dos mesmos direitos que os casais heterossexuais. Neste momento um direitista solta um “viado!”. Ruivo Coxinha 1 x Ruivo Petralha 3.

Apesar de ser contra o aborto, sou à favor da descriminalização e legalização, desde que se utilizem critérios puramente científicos para determinar até quando poderia ocorrer. Sou a favor inclusive que o Estado, através do SUS, ofereça esta opção. Ruivo Coxinha 1 x Ruivo Petralha 4.

Ai um pastor que virou candidato, ou um padre (que nunca vai saber o que é ter filho), fala: “Hipócrita! É a favor do aborto e é contra a pena de morte!”. Ledo engano. Eu não sou à favor da pena de morte, mas acho que ela poderia ser aplicada em alguns casos por motivos puramente econômicos e lógicos (falarei em outro artigo sobre isto). Como os esquerdistas, em tese, são totalmente contra um Estado que tire vidas (quer dizer, quando o Estado não é regido por sua ideologia, Russia, Cuba, China, Coréia do Norte, entre outros, que o digam), o placar ficaria Ruivo Coxinha 2 x 4 Ruivo Petralha.

Redução da maioridade penal? Sou contra a redução da maioridade penal mas sou à favor de que menores de idade, em alguns casos em específicos, sejam  julgados e recebam penas de adultos (a diferença não é apenas semântica, é gigantesca, mas volto à carga em outro artigo). Como os esquerdistas sempre acham que o criminoso é sempre produto do meio, mais um “gol” pro Ruivo Coxinha, que agora está com 3 x 4 do Ruivo Petralha.

Meritocracia? Sou totalmente à favor, mas também sou à favor de programas sociais que diminuam diferenças, muitas delas causadas pelo próprio Estado. Como tanto direitistas quanto esquerdistas são radicais neste ponto, não dá para dar ponto para nenhum dos Ruivos: o Coxinha continua com 3 e o Petralha com 4 e agora temos 1 para o Ruivo “em cima do muro”.

Eu peguei aqui apenas 8 questões de 3 pilares (já já falo mais sobre eles). Para minha opnião sobre 4 delas os direitistas me chamariam de comunista e para 3 os esquerdistas me chamariam de “reaça” (taí outra palavra que os esquerdistas precisam aprender o significado: reacionário). No caso da última eu poderia ser linchado pelos dois grupos.

Como falei lá no início, o problema é que a maioria dos brasileiros enxergam o posicionamento político mais ou menos assim:
Binario

Quando na verdade, pouquíssimas coisas são preto no branco, e a imensa maioria se assemelha mais como uma paleta de vários tons:Varios tons

Isto quando falamos somente sobre um pilar, sobre determinado assunto ou área em específico, que poderiamos chamar de “eixo”. Eu particularmente costumo dividir o espectro político em pelo menos 3 eixos e acho que menos do que isto não é possível atualmente (podem existir mais, com certeza):

  • Econômico: se o Estado deve ou não ser um ator determinante na economia, ou seja, se a economia deve ser de mercado ou de Estado.
  • Meios de produção: se os meios de produção devem estar na iniciativa privada ou se o Estado deve ser o “proprietário” dos meios de produção.
  • Costumes e liberdades/direitos individuais: se o Estado deve ou não se meter em questões de foro íntimo e que só afetam cada indivíduo, sem afetar a sociedade.

E mesmo para cada um destes pilares não existe apenas um “concordo” ou “discordo”.

Vamos fazer um exercício: suponhamos que para cada um destes pilares existam apenas 5 opções de posicionamento (mas repito: existem mais, muitos mais). A pessoa pode ser radical ou moderada para cada um dos lados, além de poder ser neutra. Usando o exemplo do eixo econômico, a pessoa poderia ser totalmente à favor da economia de mercado (direitista radical), à favor da economia de mercado com leve interferência do Estado (direitista moderado), à favor de uma divisão entre mercado e estado (neutro), à favor de uma economia de Estado com alguns setores específicos abertos à iniciativa privada (esquerdista moderado) ou à favor de uma economia totalmente determinada pelo Estado (esquerdista radical).

Se formos considerar os 3 eixos e usando um pouco de estatística, teriamos 5 opções elevadas ao cubo, ou seja 5 x 5 x 5, o que resultaria em 125 combinações diferentes (maior que a quantidade de partidos, que já são muitos, que temos no Brasil). É claro que algumas combinações são excludentes, como por exemplo, uma economia totalmente de mercado não existe se todos os meios de produção forem estatais, pois fere um dos princípios da economia de mercado, que é a livre concorrência / inexistência de monopólio (no caso teriamos um monopólio estatal).

Poderiamos fazer um outro exercício: pegar estas questões que eu criei e respondi, adicionar mais algumas (como por exemplo questões ambientais) e fazer um censo. Com 10 questões com 3 alternativas cada teriamos possibilidades de mais de 59 mil combinações diferentes e, estatisticamente falando, seria difícil encontrar quatro mil brasileiros, do total de 200 milhões da população, que tivessem respostas exatamente iguais. Se tivéssemos 5 opções (duas moderadas, duas extremistas e uma neutra), haveriam quase 10 milhões de combinações possíveis e teoricamente só conseguiríamos encontrar apenas 20  pessoas que tivessem respondido exatamente igual.

Um outro ponto que é sempre preocupante deste pensamento  binário é a pessoa achar que a pessoa que não compartilha dos mesmos pensamentos e ideais que os seus é mal intencionada. Creio que o objetivo final da maioria das pessoas sejam os mesmos (uma sociedade mais justa, onde todos vivam com conforto, segurança e tenham as mesmas oportunidades), a única diferença é que as pessoas discordam dos meios para atingir este objetivo.

E ninguém está errado, já que não existe uma fórmula pronta que possa ser aplicada em todas as nações a todo o tempo. A única certeza que temos é que os exemplos de extremismos, seja para um lado, seja para o outro, em qualquer um destes pontos, dificilmente dão certo.

Haddad, o namoradinho de São Paulo

FotorCreatedNo recente artigo “O Lulo-Petismo e as relações amorosas” eu fiz um paralelo entre a relação do brasileiro com política (em especial com o PT) e os relacionamentos amorosos. Até expliquei um pouco do meu caso com o PT e da “traição” que sofri quando o PT chegou ao poder e, além de se aliar com o que de mais nefasto existe na política brasileira, rasgou toda a sua história e junto o seu discurso de ética.

Minha decepção com o governo Lula/PT (é impossível dissociar a imagem do PT da do Lula e creio até que quando o Lula morrer o PT começa a morrer junto) começou até antes do estouro do escândalo do mensalão, pois entendo que ali naquele momento o PT tinha um capital político para “bater de frente” com a tal da velha política (PMDB e PFL, atual DEM, mais especificamente) e não precisaria se alinhar à nenhum deles. Até porque, se fossem feitas algumas reformas que até hoje são tão necessárias, o próprio PSDB, que ao contrário do PT nunca fez oposição inconsequente (até agora né!), iria apoiar. Mas não, o PT chegou lá e simplesmente preferiu “jogar o jogo”, quando o discurso durante toda a sua trajetória era de que era justamente uma opção ao tipo de política que se praticava e ainda se pratica no Brasil.

Ai depois vieram outros fatos, como o próprio escândalo do mensalão, que me fizeram “desapaixonar” (o que eu tinha pelo PT não era bem uma paixão, mas vou usar este termo assim mesmo). Nas eleições de 2006, ainda “magoado” eu votei pela primeira vez contra o PT para quase todos os cargos (para senador ainda continuei votando no Suplicy). Em 2010, passada a “raivinha” e agindo com mais razão do que emoção, eu simplesmente fui viajar nos dois turnos da eleição e justifiquei. E garanto que não fiquei com nenhum peso na consciência por não ter “exercido meu dever cívico”.

Eu simplesmente achava que nenhum dos postulantes (Marina Silva inclusa) merecia meu voto e preferi me abster, pois não seria o caso nem de “escolher o menos pior”, eram todos, no meu ponto de vista à época, horríveis, e o que viesse daria na mesma.

Porém, confesso que os primeiros meses de mandato da Dilma me surpreenderam positivamente (até porque eu não tinha expectativa nenhuma criada). Agindo mais como “administradora” e menos como “política” e de maneira pragmática, até imaginei que se tratava de um “boi de piranha” que o PT tinha lançado para implementar algumas medidas impopulares (as tais reformas). Porém, no decorrer do mandato, talvez muito por influência do próprio partido, que não quer correr o risco de ficar de fora do poder, ela foi mudando de comportamento e passou a “jogar o jogo”, tomando medidas bastante populares, mesmo que inócuas, quando não danosas mesmo, afim de manter sua popularidade, sua base no congresso e as benesses dos companheiros e do próprio partido (quem duvida que o PT montou uma máquina que suga recursos do Estado para ser utilizado em campanhas com o intuito de se perpetuar no poder, ou é cego, ou é burro ou é conivente, não que outros partidos à partir de agora, seguindo o mau exemplo, farão diferente).

Nas eleições municipais de 2012 em São Paulo, com as opções de Fernando Haddad, José Serra e Celso Russomano, voltei a votar no PT no primeiro turno, mas na verdade era um voto contra o Celso Russomano (acho ele um dos políticos mais detestáveis que existem, o apoio da Universal foi só a “cereja do bolo” para eu votar contra ele) e no segundo turno, pela primeira vez na vida eu anulei meu voto (minha primeira eleição tinha sido em 1996).

Mas entendo que a gestão de Haddad nestes dois anos à frente da cidade vem me surpreendendo positivamente ao ponto de eu considerá-lo como o melhor prefeito de SP desde a Luiza Erundina (que é o que eu consigo analisar, antes disto eu era muito novo) e, em caso de uma candidatura dele à reeleição eu tenderia a votar nele.

Primeiramente eu fiquei supreso e contente com a montagem das suas secretarias. Ele jogou bem o jogo político ao entregar secretarias para partidos que inclusive haviam concorrido contra ele na eleição, porém, ao contrário do que a Dilma fez nos seus ministérios, ao apenas esperar as indicações de cada um dos partidos para o preenchimento destas vagas, o que invariavelmente acaba sendo uma escolha política, ele mesmo definiu quais políticos de cada um deles iria ocupar quais secretarias e assim pode colocar pessoas ligadas às respectivas áreas de cada secretaria, ou seja, ele conseguiu realizar um movimento político sem deixar de lado a questão técnica da coisa. Com isto e com o fato do PSDB não fazer oposição inconsequente, ele praticamente conseguiu unanimidade na câmara.

Com as subprefeituras aconteceu a mesma coisa: ele nomeou pessoas das regiões que já eram envolvidas com a política do bairro e eram lideranças nestes bairros, independente do partido a que fossem filiadas ou aliadas.

É claro que isto acabou gerando um isolamento dele dentro do próprio partido, já que os militantes e correligionários esperavam ser agraciados com secretarias e subprefeituras.

Outra coisa muito interessante que ele implementou são as audiências públicas realizadas para tratar de diversos assuntos, desde a mobilidade urbana até o plano diretor recentemente votado e aprovado. Ainda criou os conselhos populares nos bairros, onde um cidadão comum pode se tornar membro deste conselho, através de eleições diretas, e participar da tomada de decisões e da fiscalização das atividades da respectiva subprefeitura. Isto é um passo rumo à uma democracia participativa (o povo participa mais ativamente, através de conselhos, comissões, referendos, etc) que atende melhor e com mais rapidez os anseios e necessidades do povo em relação à democria representativa (aquela onde o povo apenas escolhe os seus representantes e estes decidem sozinhos pelo povo). Um adendo: o tal “decreto  bolivariano” nada mais era do que uma política nacional para a democracia participativa, que já acontece em vários países, como EUA, Alemanha, Canadá e Austrália, ou seja, não era tão “bolivariano” assim.

Mas o que mais tem me impressionado na sua gestão é o enfrentamento dos problemas da mobilidade urbana e da ocupação pública, que creio serem os principais problemas enfrentados hoje na cidade e que se encontram na alçada da prefeitura (o problema de segurança é de alçada do estado).

O próprio plano diretor é um grande avanço da sociedade em contraponto aos interesses da especulação imobiliária, já que agora privilegia-se uma ocupação mais inteligente das poucas áreas ainda disponíveis para a construção de empreendimentos imobiliários. A criação de novos parques e o incentivo do uso do espaço público durante seu mandato também têm sido louváveis. Chegamos ao ponto de termos vários ótimos shows e eventos acontecendo ao mesmo tempo em várias partes da cidade e tenho notado que o paulistano está aprendendo a trocar o shopping pelo parque como forma de lazer.

Além disto, havia a necessidade de se mudar a lógica do privilégio do carro na cidade e ele teve a coragem de mudar esta lógica com a ampla implementação dos corredores de ônibus e ciclofaixas. Alguém pode dizer que faltou planejamento, mas são tantos os interesses envolvidos que se ele fosse sentar e discutir com todos os atores era capaz de terminar o mandato sem ter conseguido implementar nada. Além do mais, quando se mexe com uma mudança de cultura, as vezes é melhor usar uma tática “big bang” (muito usada em implementação de sistemas e processos em empresas), ou seja, implementa e depois vai corrigindo, afim de remover as resistências.

É claro que ele vem enfrentando muita resistência, especialmente por quem está sendo afetado por estas mudanças e está sendo obrigado a sair da zona de conforto, porém a aprovação das faixas de ônibus e bicicletas é bem alta, o que gera uma situação inusitada, que são as ações do prefeito terem alta taxa de aprovação, porém o próprio prefeito não ter uma aprovação alta, mas creio que isto se explique pela própria resistência ao PT (falei disto no artigo anterior também) e pelo fato de que as ações no âmbito federal acabam “respingando” na administração Petista na capital.

É claro que ainda falta muita coisa, como por exemplo, enfrentar com mais vemência o uso privado do espaço público (o estacionamento em vias onde circulam ônibus deveria ser terminantemente proibido!) mas tenho notado que São Paulo deu um passo, ainda tímido, na direção do que eu imagino ser uma cidade mais habitável.

Mas (e sempre tem um mas) eu só fico assustado com uma certa “beatificação” do Haddad. Eu vejo nas redes sociais que qualquer ação que o prefeito toma vira motivo de exaltação, quando na verdade ele não está fazendo mais do que a obrigação e ao invés deste endeusamento, seria mais eficaz cobrar dos outros políticos ações iguais. Eu sou da opnião que político deve sempre ser visto com desconfiança, pois se ele em algum momento se sente confortável no cargo, é uma oportunidade de surgirem os corruptos e déspotas que sempre temos visto no país.

Update:
Eu já tinha terminado o texto quando algumas ações da prefeitura no meu bairro aconteceram e algumas notícias pipocaram na mídia, então para não ter que rever todo o texto vou colocar como update.

A primeira situação diz respeito ao combate do uso privado do espaço público. Na semana passada foi proibido o estacionamento em horário de pico em uma das principais vias da Freguesia do Ó, bairro onde moro, e o impacto positivo no trânsito já foi sentido. Poderia ter colocado faixa de ônibus e durante o dia todo, já que basicamente a avenida é usada como estacionamento pelos comércios locais ou como vitrine para várias agências de carro. Mas já é um começo e um ponto a mais para o Haddad.

Agora a segunda vai de encontro ao fato que eu havia citado de que o Haddad não havia distribuido cargos por motivos políticos. Desde semana passada ocorreram várias nomeações políticas: primeiro três amigos de seu filho ganharam cargos de assessores. Depois foi a vez dele convidar o Gabriel Chalita (PMDB), o Eduardo Suplicy (que não conseguiu se reeleger para Senador) e o Alexandre Padilha (que havia concorrido ao governo do estado de São Paulo) para cargos em secretarias, visando as eleições do ano que vem.

Todos eles podem ser muito competentes (não penso em um nome melhor do que o do Suplicy para a secretaria de Direitos Humanos), mas vale aquele ditado: “À mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta”. Apesar disto, o saldo de seu governo ainda é positivo, mas acho que ele mandou muito mal e podia se reeleger sem “apelar”. 

O Lulo-Petismo e os relacionamentos amorosos

PtismoAntes de começar com o assunto principal, acho que cabe esclarecer dois pontos nos quais sempre sou questionado quando critico o PT.

O primeiro deles é porque eu critico tanto o PT. Eu também critico os outros partidos. Aliás, eu critico políticos em geral, independente de partido e/ou corrente ideológica. Mas no caso do PT creio que eu critico com mais propriedade e talvez até com mais veemência. Eu posso fazer isto porque na minha juventude eu estive a ponto de me filiar ao partido e cheguei a trabalhar (gratuitamente, diga-se de passagem) nas eleições de 1998 e 2002, fazendo boca de urna e contribuindo com as campanhas através de aquisição de camisas, chaveiros e outros “souvenirs” que eram vendidos para custear a campanha. Não que eu fosse um Marxista e também sempre tive uma certa rejeição à este “esquerdismo sindical” do PT, mas eu havia caido no discurso da ética, do “vamos fazer política de forma diferente”, então eu acho que tenho um pouco de propriedade para falar, pois de certa forma já estive lá dentro.

O segundo ponto é que eu critico muitas coisas que o PT faz e que os outros partidos fazem também (o que é uma meia verdade, pois eu critico tudo aquilo que eu acho errado) ou tenho menos tolerância à desvios de conduta de políticos petistas. Bem, acho que não só eu, mas todos os brasileiros têm tolerância menor com erros do PT. A questão é: eu e muitos outros brasileiros acreditávamos no PT e esperávamos dele algumas ações e condutas que acabaram não condizendo com a realidade quando eles chegaram à instância máxima do poder. Dos demais partidos eu nunca esperei nada mesmo, então eu nunca tive expectativa de nada. Foi o próprio PT que disse que seria e faria diferente, inclusive.

Bem, isto posto, vamos ao ponto principal do artigo. Como já falei algumas vezes, eu gosto de observar o comportamento humano e com o advento das redes sociais isto ficou mais fácil, já que agora dá para analisar à distância uma quantidade maior de pessoas, inclusive que você não conhece e tem contato. Há algum tempo eu venho observando as reações que as pessoas têm a notícias e polêmicas relacionadas à política e comecei a fazer um paralelo entre o sentimento das pessoas em relação o PT e os relacionamentos amorosos.

Começando dos que mais detestam o PT para os que o veneram, segue uma “brincadeira” fazendo este paralelo:

Existem aquelas pessoas que vêm o PT como tudo o que de pior existe no mundo e preferem votar no capeta à votar no PT, mesmo se contra o capeta for Deus que estiver se candidatando a algum cargo pelo partido. Como eu já ouvi algumas vezes, é aquele caso em que “nem que fosse o último homem da face da terra e a continuidade da espécia humana dependesse disto”…..hahaha

Logo em seguida existem aqueles que também detestam o PT, mas eventualmente, dependendo das condições e do candidato do PT, abririam uma rara exceção. É tipo aquele caso da pessoa que não gosta de perder viagem (anular o voto) e no final da balada encara o que tiver pela frente.

Na sequência, existem aqueles que são indiferentes: não morrem de amores pelo PT mas também não os odeiam. Vai depender muito da situação. É o tipo “friends with benefits”, mais conhecido como amizade colorida: “se me valer a pena e quebrar meu galho até que eu vou sem muito sacrifício”.

Agora passemos para aqueles gostam ou gostaram do PT algum dia na vida mas já não gostam mais, e vamos começar pelo que eu chamo de “cornos do PT”.

Temos o caso daquela menina bonita e rica que foi conquistada pelo PT, que lhe prometeu o mundo, e que quando conseguiu o casamento com comunhão de bens, o “golpista/PT” lhe meteu uns cornos na lua de mel. Só que neste caso é aquela mulher vingativa e amargurada, que vai fazer de tudo para se vingar. Vai ficar com o melhor amigo do cara, vai furar os pneus do carro, se possível vai dar até pro pai do cara, tirar foto e espalhar para todo mundo e foder com a família dele. Eu coloco o Lobão e o Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, neste grupo. Chegam até a perder a dignidade para se tentar se vingar.

O segundo caso de “corno do PT” (no qual eu me enquadro) é aquele em que a menina havia se apaixonado sim, pois ele lhe falava e fazia coisas que os outros não faziam. Era um perfeito cavalheiro. Até conseguir a conquista e se mostrar igual aos outros. Como sabe que “todo homem é igual”, eventualmente encara até um “revival” se for interessante.

Bem, agora é a vez dos que, apesar dos pesares, ainda morrem de amor pelo PT.

Primeiramente, existem aqueles que reconhecem os erros e os desvios de conduta do PT, porém por algum motivo ainda continuam apaixonados ou ao menos tendo um  “casamento de conveniência”. Alguns deles simplesmente acham que todos os outros são iguais e não vale “voltar ao mercado”. Outros tiveram este “marido” há tanto tempo na vida, sendo que inclusive ele é amigo da família desde criança (é o caso dos filhos de petistas) que acha que o stress da separação não vale a pena. Outros tantos acham que, apesar dos pesares, é ele que sustenta a casa, que vai garantir a faculdade dos filhos, que tem a casa na praia, etc.

Para finalizar vem o pior caso. Neste em específico, o marido pode fazer as piores merdas do mundo: encher a cara e bater na mulher, trair, deixar faltar algo em casa. Mas a mulher (ou o militante) ainda acha que tudo o que o homem (ou o partido) faz está certo. Não bastasse achar que o que “o seu homem faz” está tudo certo, ainda condenam os maridos das vizinhas que agem exatamente igual ao seu marido. Bem naquele esquema: quando vocês fazem (corrupção, por exemplo) é abominável, quando eu faço é justificável!

Como bem percebido durante estas eleições, a maioria esmagadora dos brasileiros votam com o coração (e muitas vezes com o fígado) ao invés de votar com a razão. É estranho pensar que as pessoas escolhem a pessoa que vai ocupar o cargo mais importante do país usando as emoções. Mas as pessoas também escolhem com emoção aquelas pessoas com quem vão viver a vida (marido/esposa), o que inclusive afeta muito mais o dia a dia de cada um, então também não vejo muito problema. O problema maior, tanto no caso dos relacionamentos amorosos quanto nos políticos é aquele “amor cego”, que faz com que a pessoa deixe de enxergar quando aquele relacionamento já lhe está fazendo mais mal do que bem.

Músicas e histórias de vida e morte

legiaoComo a maioria dos trintões e quarentões brasileiros, eu fui introduzido ao Rock através das bandas nacionais dos anos 80, especialmente Legião Urbana e Ira!. Lembro que com um dos meus primeiros salários, lá em 1991, eu comprei um walkman (os newbies nem vão saber o que é….hehehe) e as fitas do primeiro e do segundo disco da Legião Urbana, que eu ouvia praticamente o dia todo.

Passados alguns anos, especialmente com o advento da Internet, eu acabei tomando contato com todo tipo de música, do mundo todo, e acabei deixando a Legião Urbana meio de lado, ouvindo esporadicamente, muito mais por memória afetiva do que pela qualidade das músicas e letras. O Ira! sempre continuou sendo minha banda de cabeceira.

Eu sempre estranhei que estas duas bandas (uma que acabou no final dos anos 90 e a outra que teve uma longa pausa, voltando recentemente) sempre renovou seu público e achava estranho que a molecada de 15, 20, 25 anos, que não teve as mesmas referências que a minha geração teve, curtissem estas bandas. Até porque elas não tocam muito em rádio e existem várias bandas da mesma geração que sempre permaneceram na ativa (Titãs, Paralamas do Sucesso e Capital Inicial) que não têm tido o seu público renovado. É só dar uma volta na Galeria do Rock, em São Paulo, para ver inúmeros adolescentes vestindo camisas da Legião Urbana. Ou ir em algum show do “reativado” Ira! para ver que mais da metade do público é de pessoas com menos de 30 anos.

Porém, há algumas semanas, por coincidência às vésperas do meu aniversário, eu estava ouvindo meus MP3s de Rock Nacional e, por sempre ouvir as músicas na sequencia, “a ficha caiu”.

Apesar de algumas composições terem mais de 30 anos e fazerem muitas referências à períodos que os mais jovens desconhecem, na verdade, ouvindo na sequência é como se fosse um livro, que conta a história de vida das bandas e seus respectivos artistas, suas histórias, suas fases de bonança, suas tragédias, e no caso da Legião, temos até um requiém, já que os dois últimos discos da banda foram feitos com o Renato Russo bem debilitado pela doença.

Ouvindo na sequência conseguimos identificar o período de rebeldia adolescente (Geração Coca Cola, Eu Era Um Lobisomem Juvenil e Ninguém Entende Um Mod!), a descoberta e perda do primeiro amor (Ainda É Cedo e Efeito Bumerangue), as incertezas da “fase do exército” (Soldados e Núcleo Base).

Depois a difícil tarefa de “virar gente grande” (Meninos Da Rua Paulo e Eduardo E Mônica), a realidade de ter que trabalhar para ganhar o pão de cada dia e a indecisão sobre o que fazer para isto (Fábrica,  Cabeças Quentes e Farto Do Rock’n’Roll), o envolvimento com drogas (Há Tempos e É Assim Que Me Querem) e até a vontade de deixar o mundo (Difícil É Viver).

A perda de um jovem amigo também é retratada (Feedback Song For A Dying Friend, Love In The Afternoon e Vida Passageira), bem como as incertezas acerca dos sentimentos (Te Odeio (Isto É o Amor), Na Minha Mente, Acrilic On Canvas e Andrea Doria)

Sem contar todas as músicas ligadas à política como Metrópole, Que País É Este, Receita Para Se Fazer um Herói, Pegue Essa Arma, Arrastão e tantas outras.

Um trecho que sempre me chama a atenção é a versão do Acústico da MTV da canção Mais do Mesmo, que tem um trecho que diz “enquanto isto / na enfermaria / todos os doentes / estão cantando / sucessos populares”, quando ao final da canção o Renato Russo, que a esta altura já sabia que havia contraido o vírus do HIV, solta: “…na hora da enfermaria ficou uma coisa assim…me lembrei de uma porção de coisas que estão acontecendo. Não se esqueçam sempre crianças: safe sex or no sex at all! Entendeu? Sexo seguro! Pode fazer tudo, contanto que seja com camisinha! Isto é importante de lembrar!”. Mas o requiém dele foi em A Via Lactea, do disco “A Tempestade”.

Creio que os mais jovens conseguem contar suas próprias histórias através das músicas destas duas grandes bandas. A história da Legião, que teve começo, meio e um fim precoce. E a história do Ira! que me resta torcer para que o fim esteja bem distante.

P.S. – Creio que com o Rush aconteça a mesma coisa.

Be happy 🙂

Ira

 

A democracia, a liberdade de expressão e o direito (ou não) de falar besteira

LevyFudelix

E tenho a teoria (mais uma!) que um dos grandes responsáveis pela incapacidade do brasileiro de analisar fatos e tomar decisões baseadas nos seus próprios conceitos são dos professores de ciências sociais, que na ânsia de promover uma doutrinação de esquerda, ao invés de ensinar os alunos a analisar fatos e tirarem suas próprias conclusões, fazem com que os brasileiros fiquem acostumados a receberem opniões prontas e as adotarem (mas isto é tema para outro artigo). Um grande exemplo é o conceito que a maioria dos brasileiros têm de democracia e um dos seus principais pilares: a liberdade de expressão.

O brasileiro comum faz uma mistura danada sem entender realmente o conceito de democracia. Democracia, segundo o conceito que boa parte dos brasileiros têm, é que a vontade da maioria deve se sobrepor à dos demais. Mas na verdade, a democracia é apenas um meio de gerenciar a discordância em temas que afetam a sociedade ou grupos dentro desta sociedade.

Ou seja, se a pessoa faz algo que afete somente a vida dela, não é o Estado que deve interferir.

Vamos exemplificar: reza a lenda que a palavra “fuck” (opa! Agora vai bombar o post!!!!…hahaha) é o acrônimo para “Fornication Under Consent of King” (fornicação sob consentimento do rei), que seria um aviso grudado na porta dos casais cujo Rei havia permitido que praticasse sexo (para fins de procriação). Na idade média, os Reis eram os donos de tudo o que havia no reino, inclusive das vidas dos seus súditos. Então (e isto não é lenda) eles determinavam até quando as pessoas iriam se procriar e inclusive se davam o direito de serem os primeiros a “experimentarem” cada mulher do reino.

Com o avanço das sociedades, “descoberta” da democracia e a evolução desta, chegou-se à conclusão que o Estado não deveria intervir em questões de foro íntimo dos cidadãos, desde que estas questões não inteferissem na vida de mais ninguém.

Seguindo pelo mesmo caminho, o do sexo, a democracia funciona da seguinte maneira: se duas pessoas praticam o ato sexual, de forma consensual, não é papel do estado intervir, já que isto não afeta a vida da população como um todo. Então se um homem trepa com uma mulher, ou mesmo que seja um homem com homem ou uma mulher com outra mulher, o ato só irá interferir na vida daquelas duas pessoas que, de livre e espontânea vontade, praticaram o ato.

Porém, se o ato sexual ocorreu entre duas pessoas sem o consentimento de uma delas (estupro), ai sim o Estado deve intervir. Ou se o ato aconteceu entre alguém com suas plenas capacidade mentais e intelectuais com alguém que não as tenha (menor de idade, deficientes mentais e mesmo pessoas que estejam incapacitadas momentaneamente, inclusive por álcool e outras drogas), ai o Estado deve interferir para proteger estas pessoas.

Agora vamos à questão da liberdade de expressão. É facultado à todo cidadão, em uma democracia, expressar o seu pensamento livremente. Porém, voltando ao ponto de que, você é livre para fazer o que quer desde que não prejudique alguém, que é um dos pilares da democracia (lembra quando sua mãe falava que “o seu direito termina quando começa o do outro”?), você pode expressar o que desejar sem prévia censura, só que, se alguém ou algum grupo se sentir prejudicado ou ofendido por aquilo que você falou, e se a justiça considerar que realmente aquilo causou algum constrangimento ou prejuízo, você irá pagar por isto.

A Liberdade de expressão quer dizer que ninguém vai cercear seu direto de se expressar, porém, também quer dizer que, se você falar algo que prejudique alguém, você terá que ser responsabilizado por isto.

Então agora vamos ao ponto principal: há algumas semanas atrás, em um dos debates entre os candidatos à presidencia que ocorreram antes do primeiro turno, o então candidado Levy Fidelix fez um discurso onde ele expressou toda a sua homofobia em rede nacional.

Ele ser homofóbico é todo um direito dele. Como é direito de qualquer cidadão não gostar de alguém por conta da etnia, do local de origem, de faixa etária, de gênero, etc. É um problema totalmente individual e o Estado não deve inteferir nisto.

Porém, e voltando ao assunto inicial, é problema do Estado quando isto interfere na vida de outras pessoas. O discurso do Levy Fidelix, que foi digno da caneta de Goebbels e do discurso de Hitler, por mais que fosse a livre expressão das idéias dele, vem a prejudicar outras pessoas, e no caso todo um grupo de pessoas. Quando ele fez aquele discurso dizendo que os homossexuais deveriam ser isolados e tratados (qualquer semelhança com os campos de concentração nazistas não é mera coincidência), desperta uma situação que exalta os animos agressivos (para ser “leve”) de quem não gosta de homossexuais e acaba por colocar os homossexuais em risco. E ai, voltando àquele ponto de que, enquanto você não atinge outro, você pode fazer o que quiser, o candidato Levy Fidelix colocou em risco a integridade física de pessoas.

É engraçado que muitas pessoas gostam de usar os Estados Unidos ou a Europa como parâmetro na área econômica e em questão de desenvolvimento, mas estas mesmas pessoas pregam um discurso totalmente contrário à estes países no que se refere aos direitos humanos, liberdades individuais e a tolerância. E boa parte delas sairam em defesa do Levy Fidelix, alegando a liberdade de expressão para defender o discurso e até para praticarem discurso iguais.

Conheço bem os EUA e conheço um pouco a Europa e se um discurso igual ao dele fosse proferido em rede nacional nos EUA e em boa parte da Europa Ocidental, ele sairia algemado do local do debate e já impugnado para as eleições. Na Alemanha então, uma “democracia cristã”, como gostam de usar como exemplo ideal de país os “cristãos fundamentalistas”, ele simplesmente estaria preso até agora e sua carreira política teria se acabado naquele momento.

Como bem disse a amiga Gisele Berto, naquele momento ele passou da categoria de caricato, a do “candidato do aerotrem”, para a categoria dos canalhas.

Meias verdades e mentiras por inteiro: o auxílio reclusão

Auxilio ReclusaoTrabalho com TI há mais de 20 anos e tive a oportunidade de ver o nascimento da Internet no Brasil. Como um consumidor voraz de todo tipo de informação eu imaginava, época o tanto de oportunidades que seriam criadas com o acesso fácil, amplo e praticamente gratuíto à informação. Não que antes da Internet fosse impossível ter este tipo de acesso (em menor escala, óbvio), já que as bibliotecas, jornais, revistas e livros sempre existiram. Porém eu imaginava que, com a facilidade de não precisar nem se deslocar e conseguir acesso à informação através de um clique, uma sede por conhecimento talvez surgisse nas massas e que, consequentemente, isto se transformasse em infinitas oportunidades de desenvolvimento da nossa sociedade.

Passados alguns anos da disseminação do acesso à internet no Brasil, é triste constatar que as pessoas ainda abrem mão de ter informação e conhecimento. Para piorar, ainda utilizam esta ferramenta para disseminar ódios e preconceitos e para repetir e propagar algumas inverdades sem ao menos “perder” alguns preciosos minutos para verificar a informação, analisá-la e ai sim, tirar suas próprias conclusões. Ao invés disto, as pessoas preferem adotar opniões alheias pela simples preguiça de buscar mais informações. Porém, já diria Nietzche, em Assim Falou Zaratrusta: “Melhor ser um louco segundo os próprios critérios, do que sábio segundo o critério dos outros”.

Pensando nisto, resolvi pegar algumas inverdades que circulam na internet e fazer uma pesquisa sobre cada um dos assuntos, afim de trazer um pouco de embasamento para a formação primeiramente de minha opnião, e que agora pretendo compartilhar (e cada um que tire suas conclusões). Como ficaria um texto muito longo, eu vou dividir em vários artigos com temas específicos. Por enquanto tenho 4 temas já programados. Se tiverem algum e quiserem me sugerir, eu agradeceria, já que minha curiosidade é grande.

Um dos vários boatos, que também é carregado de ódio e preconceito, que circula na internet, especialmente nas redes sociais, é a que se refere ao “bolsa bandido”, “bolsa vagabundo” e outros nomes pejorativos que dão ao benefício do Auxílio Reclusão.

Bem, primeiro vamos contextualizar: o Auxilio Reclusão é um benefício do INSS. INSS signifca Instituto Nacional de Seguridade Social. Como o próprio nome diz, este órgão é um instituto de seguro, semelhante a diversas empresas seguradoras existentes na iniciativa privada. O INSS em específico, visa proporcionar à população brasileira benefícios que as demais seguradoras de mercado, por opção, não proporcionariam, ou mesmo para atender segurados que estas seguradoras não têm interesse em atender. Além disto, alguns benefícios são de exclusividade do INSS e não podem ser oferecidos por nenhuma outra seguradora.

No caso do Auxilio Reclusão, ele é também um benefício do INSS, ou seja, é um seguro que permite que a familia do segurado receba um benefício, caso este esteja impossibilitado de prover-lhes o sustento, pelo fato de estar preso. Este tipo de seguro é muito comum em outros países, sendo oferecido por praticamente todas as operadoras de seguro do mercado e adquirido especialmente por profissionais que correm um risco maior de sofrerem ações penais (cirurgiões por exemplo). Não consegui descobrir o porque de, no Brasil, o INSS ter o monopólio deste tipo de seguro, não permitindo que ele seja oferecido por nenhuma seguradora privada.

Para ter direito a um benefício originado de um seguro, o segurado paga à seguradora um prêmio, ou seja, o segurado “premia” a seguradora por esta assumir um determinado risco. Isto também acontece no Auxílio reclusão. A pessoa, para ter direito ao benefício, precisa pagar este prêmio, que no caso do INSS acontece ou por meio de desconto em folha, para os profissionais que tenham carteira assinada, ou através do pagamento do carnê do INSS, para os demais profissionais. Atualmente, cerca de 40500 famílias utilizam-se do benefício. Dentro de uma população carcerária de aproximadamente 550 mil presos, isto corresponde a aproximadamente 7,4% das famílias dos detentos.

O benefício é concedido aos familiares do segurado e visa proporcionar à estes (esposa, filhos, pais, ou qualquer outro dependente legal) uma fonte de sustento, caso estes sejam dependentes do segurado, no caso da impossibilidade da continuação do trabalho, pelo motivo de condenação e detenção do segurado.

O valor para toda família é calculado com base no valor e tempo de contribuição de INSS por parte do segurado e tem um teto de R$ 971,00, que é corrigido com base no salário mínimo.

Este benefício foi criado há mais de 50 anos e incluido na Lei Orgânica da Previdência Social – LOPS (Lei nº 3.807, de 26 de agosto de 1960) e foi mantida para na Constituição Federal de 1988.

Estes são os fatos objetivos do Auxílio Reclusão, que, como podemos perceber, são omitidos ou distorcidos neste hoax que roda há anos pela internet.

Agora vamos a algumas considerações pessoais.

Levando-se em conta que só tem direito ao benefício quem contribui com o INSS e, pelo que eu saiba, “bandido profissional” ainda não tem carteira assinada (ainda!). O benefício vai chegar à família do trabalhador que, por uma besteira ou infelicidade, cometeu algum crime e deve pagar por isto. Porém, somente ele deve pagar pelos seus atos e não se deve condenar, por tabela, esposa, filhos, pais, ou quaisquer outros que dependam dele.

Infelizmente não encontrei dados sobre o tipo de pena que estes beneficiários cumprem, mas como um palpite eu duvido muito que existam latrocidas, assaltantes de banco e grandes traficantes entre eles. E como palpite, creio que a maioria sofreu condenações por furto, crimes relacionados ao transito ou crimes passionais. Eventualmente pode ter algum usuário que acabou “rodando” por portar uma quantidade maior de drogas do que o delegado achou que ele deveria.

O benefício é concedido à familia do detento. Ou seja, visa proporcionar aos familiares que perderam sua fonte de sustento, um meio de se manter. Entendo que é melhor conceder um benefício (que como já explicado, é um direito, pois já foi pago) a alguem que era sustentado por uma pessoa que cometeu um erro e deve pagar por isto, do que deixar estes dependentes à mercê da sorte, ai sim, correndo o grande risco de jogá-los à marginalidade.

Um dos argumentos dos detratores do Auxilio Reclusão é de que o criminoso recebe um auxílio (novamente, é um seguro!), enquanto a família da vítima (já supondo que todos sejam assassinos) fica à merce da sorte. Na verdade, a família da vítima, caso esta seja beneficiária do INSS, também tem direito a solicitar o auxílio por morte.

O valor não é por filho. O valor é um só, independente de filhos, e é relativo ao valor e tempo com que o beneficiário titular contribuiu com o INSS. Os tais quase mil reais É O VALOR DO TETO. O valor médio pago em 2013 foi de R$ 727,00.

Agora o argumento que eu acho mais estúpido usado pelos detratores é de que compensa mais roubar do que trabalhar, já que o benefício é maior que o salário mínimo. Bem, bandidos de carreira com certeza ganham muito mais do que um salário mínimo e mesmo mais do que o teto do Auxílio Reclusão, então não faria sentido cometerem crimes para serem presos e receberem o benefício (e como disse, não creio que eles tenham carteira assinada ou paguem carne, então não teriam direito). Não creio que exista um único caso deste tipo, de alguém cometer um crime somente para ser preso e obter o benefício, mas supondo que exista algum caso, imaginem o desespero pelo qual está passando uma pessoa que abre mão da sua liberdade para prover míseros R$ 900 reais para a sua familia!

Uma das várias imagens que circulam na internet com pouca informação e muito preconceito.

Uma das várias imagens que circulam na internet com pouca informação e muito preconceito.

 

Brasil do Norte, Brasil do Sul

mapaEu fiquei espantado semana passada com a polêmica sobre a entrevista que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso deu ao UOL, logo após a confirmação do segundo turno entre os candidatos Aécio Neves, do PSDB, e Dilma Roussef, do PT.

Primeiramente, para quem não ouviu a entrevista inteira, o reporter pergunta para o FHC analisar, como sociólogo que é, o eleitorado cativo do PT nos grotões do Brasil, se seria porque estas localidades seriam pobres. O FHC então disse que não é porque seriam pobres, mas porque seriam pessoas menos instruidas e/ou informadas, que a pobreza é consequência desta situação e população mal instruida é culpa do governo e não do próprio cidadão. Ele fez uma análise de que o PT vem perdendo votos nos bancos de faculdade e nas regiões industriais, que eram redutos Petistas, sem levantar críticas. A única crítica que ele fez na entrevista foi ao próprio PSDB, dizendo que o PT sabe falar com os menos instruídos, enquanto o PSDB precisa aprender a falar com pessoas com menor grau de instrução.

Ao contrário do que o título da reportagem e os compartilhamentos fizeram parecer, a crítica foi ao próprio PSDB, que precisa abandonar o “tucanês” para conseguir se comunicar com todas os extratos sociais. Talvez por não terem ouvido a entrevista toda, e talvez por desconhecerem o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, as pessoas entenderam que ele estava dizendo que “só burro vota no PT!”, mas passou longe disto. O FHC, como bom democrata que é, sabe que dentro de uma democracia, a vontade e desejo do anafabeto, expressado através de seu voto, deve ter o mesmo peso dos desejos de um pós Doutorado.

Talvez, até por conta do que ele mesmo disse sobre a dificuldade dos tucanos de falar claramente – além é claro da descontextualização da frase, as pessoas entenderam que o FHC estava pregando contra os pobres/desinformados. Porém, antes mesmo desta entrevista, já existiam nas redes sociais manifestações preconceituosas quanto à origem dos eleitores dos partidos. Era o pessoal pró-PT xingando os paulistanos de burros, por terem reeleito o Governador Geraldo Alckmin, eram os anti-PT xingando (até com ofensas racistas) os nordestinos/nortistas, pelo fato deles votarem no PT, ambos os lados numa clara prova de que o brasileiro ainda não entendeu o que é e não está acostumado a conviver com a democracia.

Para “piorar” o cenário, o ex-presidente Lula, em sua página no Facebook, se disse chocado com a onda de preconceitos contra nordestinos e “alfinetou” o FHC e ai eu pensei: pô, o Lula sempre pregou a luta de classes, depois mirou seus canhões contra a “classe média burguesa”, muitas vezes especificando “classe média burguesa sulista” e mais recentemente contra  a “elite branca paulistana”. Que moral ele tem para criticar a divisão de uma sociedade seja por qual critério for se ele mesmo, na ânsia pelo poder, sempre foi um dos que mais pregaram divisões, usando a tática de “dividir para conquistar”, ao invés de incentivar a união de todos por um bem comum?

Ai comecei a lembrar de alguns fatos históricos, em que os devotos de Marx sempre necessitaram de um “inimigo comum” com o intuito de conquistar e se manter no poder (será que porque o discurso marxista não tem sustentação própria?).  Lembrei de vários fatos, porém não vou perder tempo agora explicando, mas sugerindo alguns livros, que contam um pouco desta necessidade:  Dez Dias que Abalaram o Mundo, do jornalista americano John Reed (tem um breve resumo neste post); Adeus, China! de Li Cunxin e os clássicos obrigatórios “A Revolução dos Bichos” e 1984, de George Orwell.

Mas para exemplificar, basta citar nosso vizinho, a Venezuela, que ao mesmo tempo em que vende petróleo para os EUA, além de ter várias empresas americanas instaladas em seu território, gerando emprego e riquezas para o país, o tem como seu “inimigo comum” para que o governo “bolivariano” possa ter a quem atacar, quando for acusado de algo ou quando precisar simplesmente debater idéias e projetos.

Seria muito melhor para a democracia e a nação brasileira se o Lula, à exemplo de seus ex-companheiros Eduardo Jorge, que recentemente admitiu em uma entrevista ao canal Fluxo do youtube (veja aqui a primeira parte, as demais estão no relacionados) que a intenção da luta armada no Brasil não era derrubar a ditadura, mas sim instalar outra, que o PT sempre fez oposição inconsequente (inclusive dando exemplos) e que as ditaduras de esquerda foram (são) tão ruins como as de direita, e Luciana Genro, em entrevista ao mesmo canal (veja aqui a primeira parte, as demais também estão relacionadas), que admitiu que as ditaduras de Cuba, Russia, Leste Europeu e Coréia do Norte foram/são criminosas, fizesse seu “mea culpa” nesta divisão que recentemente se exacerbou no Brasil e é, em boa parte, culpa do discurso Petista, e tentasse pregar uma união em prol de um objetivo comum, de acordo com os desejos da maioria, como deve ser numa democracia.

Mas sei lá, acho mais fácil, em continuando esta divisão, ele (Lula) pregar a separação do país em Brasil do Sul e Brasil do Norte, para que ele possa sozinho, governar na parte que lhe coubesse. No que seria talvez a primeira concordância histórica entre PT e PSDB, já que o Serra também ficaria todo feliz em governar sozinho o Brasil do Sul.

P.S. Como meu pai é de Sergipe, acho que eu poderia pleitear a dupla cidadania 🙂

Tanto faz, é igual! Felizes são os peixes!

TantofazPrimeiramente gostaria de avisar que o post é desaconselhável para os torcedores de partido A ou B (ou para os que torcem contra A ou B).

Já havia decidido, antes mesmo da eleição começar, que só iria votar no segundo turno se alguém que não fosse do PT ou do PSDB que estivesse lá. Inicialmente havia a possibilidade do Eduardo Campos, e depois do falecimento deste, poderia ser a Marina Silva. Não porque tenha votado nela no primeiro turno, pois resolvi mudar meu voto para o Eduardo Jorge, mas por achar que a diferença entre PT e PSDB é pouca e por me recusar a votar em qualquer um destes dois partidos tão iguais (a não ser que o candidato em si me convença e nem Dilma nem Aécio conseguiram). Isto posto, é claro que surgiriam algumas perguntas dos meus três leitores, que tentarei “imaginar” quais seriam e tentarei responder.

Como são iguais se o PSDB é direita e o PT esquerda?
Para início de conversa, os dois partidos são originalmente de esquerda. O PT tem como origem o sindicalismo, ou seja, um esquerdismo mais “hard”, enquanto o PSDB tem como origem os bancos das faculdades, ou seja, um esquerdismo mais “light”. Figuras históricas de ambos os partidos lutaram juntos contra a ditadura militar e sofreram perseguições desta (o Lula foi preso, o Serra se exilou no Chile, para citar dois exemplos).

Como o PSDB é de esquerda se foram eles que privatizaram as estatais?
Um dos motivos pelo qual o PSDB nunca defendeu veementemente as privatizações que ocorreram (e tinham que ter ocorrido mesmo!), é justamente porque vai contra a ideologia deles. A diferença entre eles e o PT é que os tucanos são mais pragmáticos e estão mais propensos à concessões ideológicas, se enxergarem que é o melhor caminho a se tomar no momento.

Mas o Serra foi contra o aborto e a legalização das drogas, que são posições de direita!
O que ocorreu nos últimos 10 anos foi que o PT se moveu dentro do espectro em direção à centro-esquerda, que era a posição ocupada pelo PSDB (a tal esquerda light), o que fez com que o PSDB (erroneamente, pois deveria ter defendido posição) movesse em direção à direita, para fazer contraponto. Aliás, este é mais um motivo para eu não votar em nenhum dos dois: por causa da busca pelo poder eles mudam de posição ideológica muito facilmente.

Mas o PT quer implementar uma ditadura socialista no Brasil!
Quer nada. Eles já se renderam às maravilhas do capitalismo. A questão é que eles ainda precisam manter o discurso marxista para agradar à parcela mais radical do partido (aquela que não se debandou para o PSOL e PSTU) e aos comunistas de beira de piscina e copo de whisky na mão que são fãs do partido.

Mas o PT é corrupto! / Mas o PSDB é corrupto!
Ambos são corruptos e talvez na mesma medida. Talvez a única diferença entre os dois partidos é que o PT, como “estatista” que é, prefira roubar diretamente na fonte e o PSDB prefere roubar no mercado. E os escândalos do PT vieram mais à tona pois estes são (ou eram) mais amadores, enquanto o PSDB neste quesito sempre foi mais profissional e consegue fazer esquemas que sejam mais difíceis de investigar / provar.

Mas então por que a maioria dos escândalos que saem na imprensa são do PT?
Além do fato anterior (os Ptistas são mais amadores), o povo tem uma tolerância menor à falhas de caráter do PT (por culpa deles mesmos, foram eles que sempre disseram que seriam diferentes, o que gerou a expectativa), então os meios de imprensa “pressionam” o PT com reportagens, para que este libere verbas de propagandas institucionais ou de estatais. É só notar que tanto Folha, quanto Veja, Globo, Época, têm como seus maiores anunciantes o próprio governo. E note também que nas semanas subsequentes à qualquer escândalo divulgado na imprensa, a quantidade de reportagens sobre política diminui, enquanto a quantidade de páginas de propaganda dos Correios, Petrobrás, ministérios, etc aumenta.

Mas e por que o empresariado prefere o Aécio?
Como disse, o PT tem em suas bases o sindicalismo e sofre pressões destas bases. Para o empresariado é melhor um governo sem estas influências.

Então se o PT está com os sindicatos, está com os trabalhadores!
Ledo engano. Os sindicatos hoje são verdadeiras máfias (do nível do PCC, com a diferença é que os sindicatos são bancados por um dia de salário por ano de todo trabalhador registrado) que funcionam em função própria. Aliás, muitas vezes os próprios sindicatos se unem aos empresários para arrancar benesses do governo. Exemplo: as montadoras de carro anunciam demissões, o sindicato pressiona o partido, que concede isenção de IPI (ou aumenta o IPI para importados). Ou então as empresas de ônibus de SP atrasam pagamentos, os sindicalistas organizam greves e pressionam a prefeitura a aumentar o repasse às empresas. Pode até que não seja combinado (cada um acredita na mentira que quiser), mas uma classe (empregadores / sindicatos patronais) usa a outra (sindicatos dos trabalhadores) em benefício próprio e vice-versa.

Mas então tão faz votar em um ou em outro?
Sim. Para não dizer que eles são idênticos. O PSDB tem uma agenda levemente mais liberal no quesito economia, enquanto o PT prega uma maior intervenção do Estado nesta. Mas tirando esta “divergência”, em linhas gerais, as coisas não vão mudar. Da mesma forma que o PT não jogou fora todas as conquistas do governo PSDB na área econômica, este não vai dar um passo atrás desfazendo as conquistas no campo social que o PT conseguiu.

Como bem disse a Luciana Genro em um dos debates, Aécio, Dilma e Marina são irmãos siameses. Eu até tenderia a votar no Aécio pela alternância de poder, que é sempre saudável, e pela agenda econômica mais liberal do PSDB. Mas eu já cansei de escolher o menos pior e, se possível, farei como em 2010 e irei pegar uma praia. Se não rolar, anulo o voto e vou tomar umas cervejas, já que terei quatro anos de ressaca mesmo.

P.S. Para quem ficou curioso com o título, é uma música do disco Titanomaquia, na minha opnião o melhor disco da banda paulistana Titãs. E felizes são os peixes pois a memória deles se limita a alguns segundos, como a memória da grande parte do eleitorado brasileiro.

O racismo e o efeito pigmaleão

RacismoEu estava me esquivando de escrever sobre o tema, porque toda vez que surge algum tema polêmico como este, que em pleno século 21 não deveria nem existir, você acaba descobrindo o quão estúpidas são algumas pessoas, muitas das quais são seus amigos, e uma vez alguém já disse que “a ignorância (no sentido de desconhecimento) é uma benção!”. Mas também notei que muitas pessoas minimizaram ou relativizaram a agressão sofrida pelo goleiro Aranha, do Santos Futebol Clube, pela torcida do Grêmio por total desconhecimento do problema e seus efeitos.

Vou começar, primeiramente contando três histórias ligadas a minha família.

Quando eu nasci, meus pais moravam na Zona Sul de São Paulo e meu avô havia acabado de se mudar para a Zona Norte. Minha tia mais nova, que era solteira e morava com meus avós, veio para a Zona Norte, enquanto seu namorado morava perto da casa dos meus pais. Aos finais de semana o meu futuro tio ia até a Zona Norte para visitar a minha tia. Algumas vezes ele me trazia para que meus avós tivessem um tempo com seu primeiro (e então único) neto. Toda vez que ele me apresenta para alguém, ou me vê após algum tempo, ele conta entre gargalhadas que era parado no metrô e/ou na rua, por policiais ou seguranças do metrô, que pediam tanto os documentos dele quanto os meus (na época criança só tinha certidão de nascimento). Lá pelos 8 ou 10 anos eu fui “descobrir” que este meu tio é negro, já que para a criança, na sua pureza, é tudo gente, e o máximo de “classificação” que ela faz é “gente grande” e “gente pequena”. Lá pelos 14 anos eu parei de achar graça quando ele contava esta história, pois fui entender que ele só era parado porque era um “negão levando um alemãozinho”, para usar a mesma frase que ele usa quanto conta a história.

Racismo 2Meu tio se casou com a minha tia e viveram juntos até o falecimento dela, há alguns anos atrás. Porém meu avô só foi aprovar o casamento deles já no final de sua vida, quando foi começar a gostar do meu tio, pois era este meu tio que o levava ao médico quando ele precisava e que ajudava a minha tia a cuidar dele. Durante todo o tempo ele sempre se referiu ao meu tio com desprezo e usando termos pejorativos alusivos à cor da pele do meu tio. A primeira impressão que as pessoas terão ao ler este breve relato é “mas que fdp racista era seu avô”. Na verdade meu avô também era uma vítima do racismo, e para isto coloco uma foto dele ao lado. Sim, meu avô, que tinha preconceito contra meu tio, também era negro (e baiano!).

A terceira história ocorreu alguns anos após o falecimento do meu avô. Eu tenho duas sobrinhas, hoje com 10 e 6 anos, e toda vez que eu viajo eu trago alguma coisa para elas (um brinquedo, uma pelúcia). Em 2010 eu viajei à Colômbia e em um local que vendia artesanato local eu encontrei bonecas de pano feitas à mão. São bonecas negras, com cabelo rastafari e miçangas e usando roupas típicas de San Andrés (que fica no Caribe Colombiano, para onde havia viajado). Deixei a boneca com a minha mãe para que ela entregasse às minhas sobrinhas quando possível. Depois de cerca de um mês calhou de eu estar em casa e minha sobrinha maior (à época com 6 anos) também e ela me perguntou: “Por que você me deu esta boneca preta? Não sabe que eu não gosto de preto?”. Confesso que fiquei estupefato e nem consegui pensar em nada para responder (psicologia infantil não é o meu forte!). Até porque a ex-mulher do meu irmão, mãe da minha sobrinha, é negra! Consequentemente ela também é negra!

Um pequeno parêntese: se um negro se casa com uma branca e eles têm um filho, por que a criança é considerada negra e não branca? O mesmo acontece com orientais ou com índios: filhos de casais inter-raciais (detesto esta expressão mas não achei outra melhor) destas etnias com pessoas consideradas brancas serão sempre orientais ou índios, respectivamente. Se formos pensar em biologia, seria o “gene branco” recessivo à todos os outros? Portanto, estaria a “raça branca” fadada à extinção, pois outros genes mais “fortes” que se sobrepõe à este? Ou seja, as teorias das pessoas que acham que os arianos são uma raça superior não se sustentam nem com base nas teorias de Darwin (posso ter falado uma besteira enorme aqui do ponto de vista de biologia, genética, teoria da evolução, mas não é minha praia e no momento não vou procurar mais sobre o assunto).

O que aconteceu com meu avô, com meu tio e agora com minha sobrinha (três gerações de uma mesma família!) é o que é conhecido na psicologia como Efeito Pigmaleão: eles ouviram a vida inteira que negro não presta, é inferior, ouviram pessoas serem chamadas de macaco (ou foram eles próprios chamados), que negro não faz nada certo, não vêm negros em papéis importantes na sociedade (política, polícia, etc) e em programas de TV. Eles foram “convencidos” de que são realmente inferiores e então não se identificam como negros e chegam até a repudiar – caso do meu avô e da minha sobrinha. Ou então aceitam serem tratados de forma diferente, como meu tio, que achava normal ser abordado por estar com uma criança branca, fato este que nunca aconteceu com meu irmão quando ele passeia com a minha sobrinha (um alemão passeando com uma criança negra!), por exemplo. Veja este vídeo do Neil DeGrasse Tyson explicando de uma forma até engraçada como funciona o efeito pigmaleão.

Numa sociedade democrática a pessoa tem o direito de não gostar de alguém por qualquer o motivo, inclusive cor da pele, gênero, etnia, origem, orientação sexual. Do mesmo jeito que eu posso achar esta pessoa um imbecil. Eu tenho até o direito de chegar até esta pessoa e falar com todas as letras “você é um imbecil!”, assim como esta pessoa estará no pleno direito de mover um processo contra mim por injúria se ela se sentir ofendida. Porém eu só estaria ofendendo à ela. É muito diferente de uma pessoa estar no estádio gritando “Macaco!” a plenos pulmões ou mesmo fazendo sons que remetem ao animal.

À partir deste momento não existe uma ofensa somente à uma pessoa (o que já é descabível), mas à toda uma etnia (por isto chama-se “injuria racial”). E ao agirem desta forma colocam todos os negros em uma posição de inferioridade em relação aos brancos (ou outras etnias), transmitindo esta imagem à muitas outras pessoas, criando o tal efeito pigmaleão. Ou seja, os negros presentes no estádio ou que assitiram pela TV (principalmente as crianças, veja aqui este ótimo depoimento do rapper Emicida sobre o assunto), por força do meio, tendem a serem “convencidos” de que sim, eles são inferiores, tanto que haviam negros entre os próprios agressores, que por conseqüência também não deixam de ser vítimas desta lógica cruel.

Então antes de achar que estão exagerando, que a menina já se arrependeu e não merece tudo isto, que no “estádio isto é normal”, pense que o ato que ela cometeu, além de ofender um profissional no exercício do seu trabalho influência na vida de milhares de pessoas, por gerações e gerações.

Em tempo: eu acho simplesmente patético uma pessoa que usa a frase “eu até tenho amigos negros (ou gays, ou pobres, ou baixinhos, etc)”. É a própria confissão da imbecilidade. Eu nunca fiz um censo para saber quantos amigos negros, nordestinos, gays, pobres eu tenho. Nunca nem parei para contá-los. São meus amigos e isto me basta.

Alguns pitacos (que não consegui encaixar no texto):

  1. Se você não sente empatia ao ver a indignação do Aranha na imagem acima, então talvez você não esteja preparado para viver com nenhum outro ser vivo e deva ir viver isolado no meio do mato.
  2. Existe um filme com o Eddie Murphy que usa como base o filme “My Fair Lady”, citado no artigo da Wikipedia, sobre o Efeito Pigmaleão, e que se chama “Trocando as Bolas”.
  3. A “suposta” superioridade intelectual dos orientais também é causa do efeito pigmaleão. Durante toda a vida eles recebem estimulos dizendo que eles são os melhores, são capazes, são inteligentes. Imagine uma criança que recebeu estes estímulos quando se depara com um difícil problema de matemática. Ele vai pensar “eu consigo resolver, eu sou capaz” e vai se esforçar até resolver. Agora imagine uma outra criança que sempre foi chamada de burra, a reação dela frente ao mesmo problema será “eu sou burro, eu nunca vou conseguir”, e provavelmente vai desistir de tentar.
  4. Não sou advogado, mas só para contextualizar o que é injúria (do jeito que eu entendo, claro, e se algum amigo advogado quiser corrigir, fique à vontade): injúria é quando você diz algo que ofende alguém. Calúnia é quando você atribui um fato, característica, etc à uma pessoa, sendo que este fato não é verdadeiro. Difamação é você espalhar para outras pessoas algum fato que prejudique aquela pessoa, sendo fato verdadeiro ou não.
  5. Me recuso a dar mais ibope àquela idiota gremista, seja citando o nome dela, seja colocando foto no artigo para ilustrar. Ela devia estar na cadeia e não fazendo tour por programas de TV, até porque, ao menos para atriz ela não tem o menor cacoete: não convenceu ninguém o arrependimento e as tentativas forçadas de choro.

E para “sonorizar” o texto, um ótimo samba da Dona Ivone Lara:

Sobre o eleitorado brasileiro e porque a Dilma “merece” ganhar a eleição!

EleicoesEu sou um observador e curioso nato. Até por força de profissão, eu tenho uma tendência a coletar a maior quantidade de informação possível, “armazenar” e depois analisar, chegando a alguma conclusão. Um assunto, dentre os vários que me interessam, é política. Com o advento das redes sociais, a quantidade de informações a que eu tenho acesso hoje em dia é bem maior do que a que eu tinha há anos atrás e com isto posso formar algumas teorias (sou mestre nisto!).

Analisando como amostragem meus contatos nas redes sociais e observando o seu comportamento, eu tracei um “mapa” do eleitorado brasileiro.

Do total de eleitores (ou pessoas que se mostram minimamente interessadas em política), 30% são militantes ou apaixonados pelo PT. São aquelas pessoas que, se o Capeta sair como candidato pelo partido irão não somente votar nele, mas também irão defende-lo com unhas e dentes, inclusive dizendo que o que falam dele é boato inventado por Deus, um elitista branco tucano, que através da sua imprensa golpista e seu maior veículo, a Bíblia, perpetua mentiras e mais mentiras, afim de manter o status quo e evitar que o proletariado ascenda à classe de anjos e deuses.

Do mesmo modo, existem uns 30% que são anti PT. Não são necessariamente tucanos, até porque o PSDB é muito, mas muito parecido com o PT (nenhum dos dois lados quer admitir isto, pois seria “dar o braço a torcer”), mas apenas apoiam os tucanos por estes fazerem contraponto ao PT. Da mesma forma, se Deus sair candidato pelo PT, vão dizer que ele se vendeu, que está querendo implementar uma ditadura “divina” no país e vão mandá-lo morar em Cuba, ou na China (talvez o país mais capitalista da atualidade!), e votaria no Capiroto só pra não correrem o risco de ver alguém do PT, mesmo se este alguém fosse Deus, se elegendo.

Uma pequena pausa para um fato que tenho notado também nas redes sociais: os PTistas, que há alguns anos atrás eram desafiados pelos anti PTistas à irem morar em Cuba ou na China (aquela de 30 anos atrás) e se irritavam, são hoje os mesmo que mandam os segundos irem morar em Miami. A diferença é que os segundos, não fossem os problemas de visto de trabalho, não pensariam duas vezes para se mudarem para Miami, Europa, Canada, Austrália ou qualquer outro país de primeiro mundo. Mas os primeiros nunca tiveram vontade de ir à Cuba. Nem a passeio.

Mas voltando à vaca fria, temos 60% de pessoas que já têm opnião e voto formados, independente de programa de governo, de candidato, até de ideologia política (pois nenhum dos dois principais “players” têm uma ideologia definida que não seja conquista e manutenção de poder). Eu os considero como os eleitores que “votam com o coração”. Eles já têm uma escolha prévia e a partir daí tentam arrumar (ou inventar) argumentos que justifiquem a sua escolha e desqualifiquem escolhas contrárias, muitas vezes caindo em contradição. Restam 40%.

Destes, temos uns 5% que acham que políticos são todos iguais e que preferem pegar uma praia e justificarem seu voto. Não os condeno, até porque em 2010 eu fiz o mesmo, nos dois turnos, e não tive nenhum peso na consciência por não ter “exercido meu dever de cidadão”. Eu simplesmente havia me cansado de escolher o menos pior e preferi me abster.

Temos ainda 30% de pessoas que votam de acordo com a sua situação atual/recente. Se a pessoa conseguiu manter um certo conforto e qualidade de vida durante o mandato de determinado partido, ela tende a votar naquele partido novamente. Mas ele não é fiel. Se no próximo mandato algo não for bem (por exemplo, ele perder o emprego), ele tende a culpar os mesmos políticos que ele acabou de eleger e votar no adversário. Este eleitor tem uma visão restrita (ele enxerga somente o que acontece com ele mesmo, no máximo com sua família e amigos mais próximos) e de curto prazo (no máximo o período de um mandato, mas geralmente apenas os últimos seis meses), mas ao menos ele utiliza alguma razão lógica.

Os 5% restantes são aqueles que utilizam a razão, mas têm uma visão mais ampla e de longo prazo. Ele entende que ações tomadas hoje podem refletir daqui 10, 20 anos. Do mesmo jeito ele cobra dos governantes algumas ações que podem até lhe causar algum desconforto no curto prazo, mas que trará benefícios maiores no longo prazo. Entre estes temos esquerdistas e direitistas, liberais e conservadores, estatistas e privatistas. Porém eles não se limitam a votar somente no partido que reflete suas ideologias, mas a analisar o candidato e o momento, inclusive fazendo concessões ideológicas.

Particularmente eu navego entre os 5% desesperançosos e os 5% que utilizam a razão no longo prazo. Tudo depende do momento, dos candidatos e, porque não, do meu humor.

Já fui eleitor do PT, apesar de nunca ter sido um Marxista, mas havia caido no “canto da sereia” de se fazer política de uma forma diferente, e principalmente no discurso da ética, fatos abandonados tão logo o partido chegou à instância máxima de poder no país. Já votei no PSDB, no PV e, mesmo antes da tragédia com o Eduardo Campos, estava propenso a votar no PSB, por conta da Marina e do pessoal da Rede Solidariedade, apesar de não ter gostado da aliança em sí, fato este que já havia comentado neste artigo. Não votei no PTista Haddad (pela primeira vez na vida anulei meu voto), mas gosto da sua gestão na cidade de São Paulo e se ele estivesse saindo hoje como candidato a Governador, por exemplo, meu voto seria dele.

Apesar de estar propenso a votar na Marina (ou no Eduardo Jorge, ainda estou decidindo), eu torço para que a Dilma ganhe o pleito.

Ai o prezado leitor vai pensar “que cara louco! Ele vota em um candidato, mas quer que o adversário ganhe?”

Para explicar os motivos, é preciso fazer um pequeno recall dos mandatos dos últimos presidentes brasileiros. Já que, desde o Collor, todos eles contribuiram de alguma forma para a situação em que o país se encontra hoje, que se ainda está longe do que eu imagino ser um país ideal, também está distante do terrível período Sarney (é o que eu me lembro, antes disto eu era muito novo).

O Collor, apesar de todas as trapalhadas (confisco de poupança, planos econômicos desastrosos), fez uma coisa que pouca gente teria a coragem de fazer, da forma que foi feita: abriu o mercado brasileiro de uma vez. Ok! Isto gerou quebradeira de várias empresas nacionais, mas só quebraram aquelas que tinham se tornado acomodadas com a reserva de mercado, ou seja, quebrou quem tinha que quebrar. Se ele tivesse implementado uma abertura progressiva, como desejava o empresariado e as associações sindicais (um dos maiores males do Brasil, mas é papo para outro artigo), talvez até hoje estivéssemos andando em “carroças” e utilizando computadores Scopus, Micro Digital ou o MSX da Gradiente (google it!). Aliás, perto dos escandalos dos governos FHC, Lula e Dilma, o escandalo que disparou o movimento “Fora Collor” era fichinha. Coisa de moleque furtando chicletes no mercado.

Depois veio o Itamar, que deu carta branca para o Fernando Henrique Cardoso implementar o plano Real. O FHC conseguiu a tão sonhada estabilidade econômica (já vamos para 20 anos sem cortes de zeros e troca de moeda!), enxugou o Estado e se livrou das estatais. Algumas cresceram e viraram gigantes internacionais (Vale e Embraer), e algumas outras, se ainda não prestam com a qualidade devida os serviços que deveriam prestar pelo valor que se paga (caso das Teles e das Rodovias), ao menos prestam este serviço (enquanto estatais não o faziam) e a custos bem menores do tempo em que eram estatais (linha telefônica, dependendo da região, chegava a custar o valor de um imóvel!).

O Lula veio e, já com a estabilidade econômica consolidada, conseguiu expandir alguns programas sociais criados no governo FHC (Bolsa Escola, o embrião do bolsa família, FIES, etc), implementar outros e reduzir a grande diferença social existente no Brasil. Se hoje ela ainda é grande, basta lembrar que há 15 anos atrás era um verdadeiro abismo. Lula também agiu bem quando, diante da crise de 2008, tomou medidas para desenvolver e explorar o enorme potencial do mercado interno que tinhamos à época (o mercado ainda existe, mas hoje já não há mais espaço para expansão como havia).

Todos eles deram sua contribuição para que a nossa economia fosse, apesar dos pesares, uma das maiores do mundo, para que boa parte dos brasileiros tivessem acesso à bens e serviços que a geração do meu pai, por exemplo, não teve (faculdade, carro zero, imóvel próprio antes dos 40 anos, viagens, inclusive pro exterior, etc).

Porém, tanto o FHC quanto o Lula deixaram de tomar ações para garantir o crescimento sustentável do Brasil a longo prazo e para elevar a qualidade de vida dos Brasileiros a um padrão de primeiro mundo. Simplesmente deixaram de tomar porque “deitaram em berço esplêndido” das suas realizações e à partir dai preferiram jogar para a torcida para garantir a permanência de sua turma no poder. Só que o ser humano, à partir de um momento em que tem uma necessidade atendida, cria outra num patamar acima desta (grande Maslow, google it too!).

O FHC ainda pegou algumas “bombas” (medidas impopulares e crises) durante seu mandato, não que isto justifique a falta de investimentos em educação e infra estrutura, e a necessidade, cada vez mais proeminente, das reformas (política, tributária, trabalhista e previdenciária, por ordem de importância). Mas o Lula surfou durante boa parte do seu mandato em ondas havainas (o boom dos BRICs e o bom momento da economia mundial) e soube aproveitar o enorme potencial do mercado interno, quando estas ondas viraram “marolinhas”, mas mesmo assim também não mexeu nestes vespeiros. Dilma fez ainda pior: além de também não ter feito os investimentos e reformas necessários, manteve uma política econômica que deveria ser sido usada “com parcimônia” durante mais tempo do que necessário, também como forma de se sair bem no seu mandato e garantir um novo, mas esquecendo do impacto disto no longo prazo.

Só que crises econômicas vêm e vão em ciclos e o que difere o impacto delas nos países é justamente as atitudes tomadas  em tempos de vacas gordas (lembram da passagem bíblica do sonho de Faraó?) e o governo Dilma não “recolheu o quinto da colheita” para guardar para o tempo de vacas magras.

Com isto, independente de quem vencer estas eleições, o ano de 2015, mais tardar 2016, será um ano de estagnação, quando não crise mesmo.

Mas voltando à questão inicial, com base em tudo o que escrevi, tenho os seguintes motivos para, apesar de pretender votar na Marina ou no maluco beleza, torcer para que a Dilma ganhe:

  • O PT se fez em tempos de fartura e ele tem que sofrer também os anos de fome, já que ele não tomou as medidas necessárias para aplacar este “inverno” que se aproxima (lembrei agora da fábula da Cigarra e a Formiga).
  • O próximo presidente, devido a esta estagnação que se anuncia, seja quem for, irá se queimar para a disputa das eleições de 2018. Se for a Dilma, o Lula apenas a jogará aos leões e voltará para o pleito. Porém, se for o Aécio ou a Marina, este estará fora do páreo para o próximo pleito e, com um contendor a menos, o caminho estará aberto para a volta do “nosso senhor e salvador Luis Inácio” (lembrem-se que 30% do eleitorado, que é quem decide as eleições, o faz por conta de resultados recentes).
  • Como pode-se notar neste breve recall que eu fiz, grandes mudanças no Brasil só acontecem quando “a água bate na bunda” e, como eu acho que, com a Dilma este período de vacas magras tende a ser pior do que com algum outro (até pela expectativa, é a tal da “profecia autorealizável”), é melhor ser um período ruim “de verdade”, pois talvez desta forma alguns dos remédios amargos que temos que engolir sejam enfim utilizados.
  • Como disse, o Fernando Haddad vem fazendo um bom mandato à frente da cidade de São Paulo, inclusive arrumando briga dentro do próprio PT por não utilizar de populismo barato, por escolher para as secretarias pessoas técnicas e não por questões partidárias. Com um monte de PTistas desempregados, é capaz que ele acabe cedendo à pressão do partido para colocar este bando de gente em cargos na prefeitura de São Paulo (cidade em que moro). Até porque boa parte dos salários dos ocupantes dos cargos comissionados volta para o caixa do partido (isto acontece com TODOS os partidos, é um dízimo que qualquer postulante a cargos deste tipo têm que pagar).

P.S. Notem que na análise do eleitorado eu não fiz nenhum juízo de valor. Dentro de uma democracia, “votar com o coração”, ou mesmo se abster, é totalmente válido. Mas que eu acho engraçado o pessoal procurando argumentos lógicos para justificar uma escolha emocional, isto eu acho!

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