Haddad, o namoradinho de São Paulo

FotorCreatedNo recente artigo “O Lulo-Petismo e as relações amorosas” eu fiz um paralelo entre a relação do brasileiro com política (em especial com o PT) e os relacionamentos amorosos. Até expliquei um pouco do meu caso com o PT e da “traição” que sofri quando o PT chegou ao poder e, além de se aliar com o que de mais nefasto existe na política brasileira, rasgou toda a sua história e junto o seu discurso de ética.

Minha decepção com o governo Lula/PT (é impossível dissociar a imagem do PT da do Lula e creio até que quando o Lula morrer o PT começa a morrer junto) começou até antes do estouro do escândalo do mensalão, pois entendo que ali naquele momento o PT tinha um capital político para “bater de frente” com a tal da velha política (PMDB e PFL, atual DEM, mais especificamente) e não precisaria se alinhar à nenhum deles. Até porque, se fossem feitas algumas reformas que até hoje são tão necessárias, o próprio PSDB, que ao contrário do PT nunca fez oposição inconsequente (até agora né!), iria apoiar. Mas não, o PT chegou lá e simplesmente preferiu “jogar o jogo”, quando o discurso durante toda a sua trajetória era de que era justamente uma opção ao tipo de política que se praticava e ainda se pratica no Brasil.

Ai depois vieram outros fatos, como o próprio escândalo do mensalão, que me fizeram “desapaixonar” (o que eu tinha pelo PT não era bem uma paixão, mas vou usar este termo assim mesmo). Nas eleições de 2006, ainda “magoado” eu votei pela primeira vez contra o PT para quase todos os cargos (para senador ainda continuei votando no Suplicy). Em 2010, passada a “raivinha” e agindo com mais razão do que emoção, eu simplesmente fui viajar nos dois turnos da eleição e justifiquei. E garanto que não fiquei com nenhum peso na consciência por não ter “exercido meu dever cívico”.

Eu simplesmente achava que nenhum dos postulantes (Marina Silva inclusa) merecia meu voto e preferi me abster, pois não seria o caso nem de “escolher o menos pior”, eram todos, no meu ponto de vista à época, horríveis, e o que viesse daria na mesma.

Porém, confesso que os primeiros meses de mandato da Dilma me surpreenderam positivamente (até porque eu não tinha expectativa nenhuma criada). Agindo mais como “administradora” e menos como “política” e de maneira pragmática, até imaginei que se tratava de um “boi de piranha” que o PT tinha lançado para implementar algumas medidas impopulares (as tais reformas). Porém, no decorrer do mandato, talvez muito por influência do próprio partido, que não quer correr o risco de ficar de fora do poder, ela foi mudando de comportamento e passou a “jogar o jogo”, tomando medidas bastante populares, mesmo que inócuas, quando não danosas mesmo, afim de manter sua popularidade, sua base no congresso e as benesses dos companheiros e do próprio partido (quem duvida que o PT montou uma máquina que suga recursos do Estado para ser utilizado em campanhas com o intuito de se perpetuar no poder, ou é cego, ou é burro ou é conivente, não que outros partidos à partir de agora, seguindo o mau exemplo, farão diferente).

Nas eleições municipais de 2012 em São Paulo, com as opções de Fernando Haddad, José Serra e Celso Russomano, voltei a votar no PT no primeiro turno, mas na verdade era um voto contra o Celso Russomano (acho ele um dos políticos mais detestáveis que existem, o apoio da Universal foi só a “cereja do bolo” para eu votar contra ele) e no segundo turno, pela primeira vez na vida eu anulei meu voto (minha primeira eleição tinha sido em 1996).

Mas entendo que a gestão de Haddad nestes dois anos à frente da cidade vem me surpreendendo positivamente ao ponto de eu considerá-lo como o melhor prefeito de SP desde a Luiza Erundina (que é o que eu consigo analisar, antes disto eu era muito novo) e, em caso de uma candidatura dele à reeleição eu tenderia a votar nele.

Primeiramente eu fiquei supreso e contente com a montagem das suas secretarias. Ele jogou bem o jogo político ao entregar secretarias para partidos que inclusive haviam concorrido contra ele na eleição, porém, ao contrário do que a Dilma fez nos seus ministérios, ao apenas esperar as indicações de cada um dos partidos para o preenchimento destas vagas, o que invariavelmente acaba sendo uma escolha política, ele mesmo definiu quais políticos de cada um deles iria ocupar quais secretarias e assim pode colocar pessoas ligadas às respectivas áreas de cada secretaria, ou seja, ele conseguiu realizar um movimento político sem deixar de lado a questão técnica da coisa. Com isto e com o fato do PSDB não fazer oposição inconsequente, ele praticamente conseguiu unanimidade na câmara.

Com as subprefeituras aconteceu a mesma coisa: ele nomeou pessoas das regiões que já eram envolvidas com a política do bairro e eram lideranças nestes bairros, independente do partido a que fossem filiadas ou aliadas.

É claro que isto acabou gerando um isolamento dele dentro do próprio partido, já que os militantes e correligionários esperavam ser agraciados com secretarias e subprefeituras.

Outra coisa muito interessante que ele implementou são as audiências públicas realizadas para tratar de diversos assuntos, desde a mobilidade urbana até o plano diretor recentemente votado e aprovado. Ainda criou os conselhos populares nos bairros, onde um cidadão comum pode se tornar membro deste conselho, através de eleições diretas, e participar da tomada de decisões e da fiscalização das atividades da respectiva subprefeitura. Isto é um passo rumo à uma democracia participativa (o povo participa mais ativamente, através de conselhos, comissões, referendos, etc) que atende melhor e com mais rapidez os anseios e necessidades do povo em relação à democria representativa (aquela onde o povo apenas escolhe os seus representantes e estes decidem sozinhos pelo povo). Um adendo: o tal “decreto  bolivariano” nada mais era do que uma política nacional para a democracia participativa, que já acontece em vários países, como EUA, Alemanha, Canadá e Austrália, ou seja, não era tão “bolivariano” assim.

Mas o que mais tem me impressionado na sua gestão é o enfrentamento dos problemas da mobilidade urbana e da ocupação pública, que creio serem os principais problemas enfrentados hoje na cidade e que se encontram na alçada da prefeitura (o problema de segurança é de alçada do estado).

O próprio plano diretor é um grande avanço da sociedade em contraponto aos interesses da especulação imobiliária, já que agora privilegia-se uma ocupação mais inteligente das poucas áreas ainda disponíveis para a construção de empreendimentos imobiliários. A criação de novos parques e o incentivo do uso do espaço público durante seu mandato também têm sido louváveis. Chegamos ao ponto de termos vários ótimos shows e eventos acontecendo ao mesmo tempo em várias partes da cidade e tenho notado que o paulistano está aprendendo a trocar o shopping pelo parque como forma de lazer.

Além disto, havia a necessidade de se mudar a lógica do privilégio do carro na cidade e ele teve a coragem de mudar esta lógica com a ampla implementação dos corredores de ônibus e ciclofaixas. Alguém pode dizer que faltou planejamento, mas são tantos os interesses envolvidos que se ele fosse sentar e discutir com todos os atores era capaz de terminar o mandato sem ter conseguido implementar nada. Além do mais, quando se mexe com uma mudança de cultura, as vezes é melhor usar uma tática “big bang” (muito usada em implementação de sistemas e processos em empresas), ou seja, implementa e depois vai corrigindo, afim de remover as resistências.

É claro que ele vem enfrentando muita resistência, especialmente por quem está sendo afetado por estas mudanças e está sendo obrigado a sair da zona de conforto, porém a aprovação das faixas de ônibus e bicicletas é bem alta, o que gera uma situação inusitada, que são as ações do prefeito terem alta taxa de aprovação, porém o próprio prefeito não ter uma aprovação alta, mas creio que isto se explique pela própria resistência ao PT (falei disto no artigo anterior também) e pelo fato de que as ações no âmbito federal acabam “respingando” na administração Petista na capital.

É claro que ainda falta muita coisa, como por exemplo, enfrentar com mais vemência o uso privado do espaço público (o estacionamento em vias onde circulam ônibus deveria ser terminantemente proibido!) mas tenho notado que São Paulo deu um passo, ainda tímido, na direção do que eu imagino ser uma cidade mais habitável.

Mas (e sempre tem um mas) eu só fico assustado com uma certa “beatificação” do Haddad. Eu vejo nas redes sociais que qualquer ação que o prefeito toma vira motivo de exaltação, quando na verdade ele não está fazendo mais do que a obrigação e ao invés deste endeusamento, seria mais eficaz cobrar dos outros políticos ações iguais. Eu sou da opnião que político deve sempre ser visto com desconfiança, pois se ele em algum momento se sente confortável no cargo, é uma oportunidade de surgirem os corruptos e déspotas que sempre temos visto no país.

Update:
Eu já tinha terminado o texto quando algumas ações da prefeitura no meu bairro aconteceram e algumas notícias pipocaram na mídia, então para não ter que rever todo o texto vou colocar como update.

A primeira situação diz respeito ao combate do uso privado do espaço público. Na semana passada foi proibido o estacionamento em horário de pico em uma das principais vias da Freguesia do Ó, bairro onde moro, e o impacto positivo no trânsito já foi sentido. Poderia ter colocado faixa de ônibus e durante o dia todo, já que basicamente a avenida é usada como estacionamento pelos comércios locais ou como vitrine para várias agências de carro. Mas já é um começo e um ponto a mais para o Haddad.

Agora a segunda vai de encontro ao fato que eu havia citado de que o Haddad não havia distribuido cargos por motivos políticos. Desde semana passada ocorreram várias nomeações políticas: primeiro três amigos de seu filho ganharam cargos de assessores. Depois foi a vez dele convidar o Gabriel Chalita (PMDB), o Eduardo Suplicy (que não conseguiu se reeleger para Senador) e o Alexandre Padilha (que havia concorrido ao governo do estado de São Paulo) para cargos em secretarias, visando as eleições do ano que vem.

Todos eles podem ser muito competentes (não penso em um nome melhor do que o do Suplicy para a secretaria de Direitos Humanos), mas vale aquele ditado: “À mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta”. Apesar disto, o saldo de seu governo ainda é positivo, mas acho que ele mandou muito mal e podia se reeleger sem “apelar”. 

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