Músicas e histórias de vida e morte

legiaoComo a maioria dos trintões e quarentões brasileiros, eu fui introduzido ao Rock através das bandas nacionais dos anos 80, especialmente Legião Urbana e Ira!. Lembro que com um dos meus primeiros salários, lá em 1991, eu comprei um walkman (os newbies nem vão saber o que é….hehehe) e as fitas do primeiro e do segundo disco da Legião Urbana, que eu ouvia praticamente o dia todo.

Passados alguns anos, especialmente com o advento da Internet, eu acabei tomando contato com todo tipo de música, do mundo todo, e acabei deixando a Legião Urbana meio de lado, ouvindo esporadicamente, muito mais por memória afetiva do que pela qualidade das músicas e letras. O Ira! sempre continuou sendo minha banda de cabeceira.

Eu sempre estranhei que estas duas bandas (uma que acabou no final dos anos 90 e a outra que teve uma longa pausa, voltando recentemente) sempre renovou seu público e achava estranho que a molecada de 15, 20, 25 anos, que não teve as mesmas referências que a minha geração teve, curtissem estas bandas. Até porque elas não tocam muito em rádio e existem várias bandas da mesma geração que sempre permaneceram na ativa (Titãs, Paralamas do Sucesso e Capital Inicial) que não têm tido o seu público renovado. É só dar uma volta na Galeria do Rock, em São Paulo, para ver inúmeros adolescentes vestindo camisas da Legião Urbana. Ou ir em algum show do “reativado” Ira! para ver que mais da metade do público é de pessoas com menos de 30 anos.

Porém, há algumas semanas, por coincidência às vésperas do meu aniversário, eu estava ouvindo meus MP3s de Rock Nacional e, por sempre ouvir as músicas na sequencia, “a ficha caiu”.

Apesar de algumas composições terem mais de 30 anos e fazerem muitas referências à períodos que os mais jovens desconhecem, na verdade, ouvindo na sequência é como se fosse um livro, que conta a história de vida das bandas e seus respectivos artistas, suas histórias, suas fases de bonança, suas tragédias, e no caso da Legião, temos até um requiém, já que os dois últimos discos da banda foram feitos com o Renato Russo bem debilitado pela doença.

Ouvindo na sequência conseguimos identificar o período de rebeldia adolescente (Geração Coca Cola, Eu Era Um Lobisomem Juvenil e Ninguém Entende Um Mod!), a descoberta e perda do primeiro amor (Ainda É Cedo e Efeito Bumerangue), as incertezas da “fase do exército” (Soldados e Núcleo Base).

Depois a difícil tarefa de “virar gente grande” (Meninos Da Rua Paulo e Eduardo E Mônica), a realidade de ter que trabalhar para ganhar o pão de cada dia e a indecisão sobre o que fazer para isto (Fábrica,  Cabeças Quentes e Farto Do Rock’n’Roll), o envolvimento com drogas (Há Tempos e É Assim Que Me Querem) e até a vontade de deixar o mundo (Difícil É Viver).

A perda de um jovem amigo também é retratada (Feedback Song For A Dying Friend, Love In The Afternoon e Vida Passageira), bem como as incertezas acerca dos sentimentos (Te Odeio (Isto É o Amor), Na Minha Mente, Acrilic On Canvas e Andrea Doria)

Sem contar todas as músicas ligadas à política como Metrópole, Que País É Este, Receita Para Se Fazer um Herói, Pegue Essa Arma, Arrastão e tantas outras.

Um trecho que sempre me chama a atenção é a versão do Acústico da MTV da canção Mais do Mesmo, que tem um trecho que diz “enquanto isto / na enfermaria / todos os doentes / estão cantando / sucessos populares”, quando ao final da canção o Renato Russo, que a esta altura já sabia que havia contraido o vírus do HIV, solta: “…na hora da enfermaria ficou uma coisa assim…me lembrei de uma porção de coisas que estão acontecendo. Não se esqueçam sempre crianças: safe sex or no sex at all! Entendeu? Sexo seguro! Pode fazer tudo, contanto que seja com camisinha! Isto é importante de lembrar!”. Mas o requiém dele foi em A Via Lactea, do disco “A Tempestade”.

Creio que os mais jovens conseguem contar suas próprias histórias através das músicas destas duas grandes bandas. A história da Legião, que teve começo, meio e um fim precoce. E a história do Ira! que me resta torcer para que o fim esteja bem distante.

P.S. – Creio que com o Rush aconteça a mesma coisa.

Be happy 🙂

Ira

 

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