Adeus, China – O Último Bailarino de Mao – Li Cunxin (13/2014)

~AdeusChina_capa-P1.tifRelato autobiográfico que conta a história de Li Cunxin, um garoto pobre, nascido no nordeste da China comunista de Mao Tsé-tung que, ao ser selecionado, aos 11 anos, para integrar a companhia de balé de Madame Mao, tem a oportunidade de fugir do destino sofrido de milhares de outros chineses (como seu pai, tios e irmãos).

O livro está divido em três partes principais. Após o prefácio que descreve o casamento dos pais de Cunxin, a primeira parte trata basicamente da infância do autor e das condições dos camponeses na China pós Revolução Cultural. Ele entra em detalhes de como as pessoas viviam, se relacionavam. Conta um pouco da formação que recebeu na escola (as primeiras frases que todos os alunos aprendiam eram “Salve o chefe Mao” e “Vida longa ao chefe Mao”). Descreve também, com bastante detalhes, como era a “lavagem cerebral” a que os alunos eram submetidos na escola, fazendo inclusive com que as “individualidades” fossem eliminadas e todos fossem apenas “peças” de uma grande engrenagem (o objetivo final do comunismo).

Eu já li alguns livros que tratam sobre estas implementações das teorias de Marx em diversos países (inclusive de simpatizantes destas teorias, como John Reed e George Orwell) e já tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas que viveram nestes países durante estes sistemas e nunca consegui obter relatos favoráveis. Até hoje não entendo como tem gente que ainda defende a implementação destes sistemas, adoram estes líderes (Che Guevara, Fidel, Mao, Lênin, Stálin, etc) e países que ainda os adotam (como Cuba, Coréia do Norte e, até o momento a China).

A primeira parte do livro termina com a seleção de Cunxin para fazer parte da escola de balé. A segunda parte trata dos anos difíceis na escola, da adaptação à uma nova vida para um garoto do campo e do contato e o início  da paixão pela arte. Nesta parte, um pouco mais maduro, apesar de ainda existir muita doutrinação política e ideológica, ele começa a questionar um pouco os ensinamentos políticos que recebia, já que muita coisa se opunha à liberdade que a arte, em teoria, deveria ter e já que a arte, naquele contexto, era utilizada como ferramenta para mais doutrinação ideológica.

Durante uma apresentação de uma companhia de balé americana (a primeira apresentação em anos) na escola onde ele estudava, Cunxin tem seu primeiro contato com o ocidente e recebe o convite para, junto com outro estudante chinês, fazer um curso de três semanas na Companhia de Balé de Houston. Durante estas três semanas nos Estados Unidos, tudo aquilo em que ele acreditava cai por terra e, ao sentir o gosto da liberdade, ele percebe o quanto sua vida, até aquele momento, tinha sido “desperdiçada”.

A terceira parte do livro trata da segunda ida de Cunxin aos EUA, viagem esta que faria com que ele desertasse e se estabelecesse no Ocidente. Interessante também a descrição dos acontecimentos da sua deserção. O final do livro mostra as mudanças ocorridas na China desde a queda de Mao e a subida de Deng Xiaoping ao poder.

A biografia é muito interessante, tanto por contar a vida deste artista quanto para nos mostrar relatos de quem esteve dentro destes sistemas e pode descrever os fatos com mais precisão do que qualquer agente externo (professores, historiadores e jornalistas), que muitas vezes por ideologia acabam por “dourar a pílula”.

Existe um filme, produzido na Austrália (Cunxin vive hoje com sua família na Austrália) e que foi baseado no livro, chamado Mao’s Last Dancer.

Abaixo, algumas passagens interessantes do livro.

  • “…os jovens guardas vermelhos destruíam tudo que lembrasse o Ocidente: livros, pinturas, obras de arte – qualquer coisa. Demoliam templos e santuários: Mao não queria outras religiões competindo com o comunismo, que deveria ser nossa única fé.”
  • “Não foi fácil conseguir permissão para dar a Na-na (avó) um enterro tradicional. Aquela era então considerada uma prática ultrapassada e nociva. O governo começava a pressionar as pessoas a cremar seus mortos.”
  • “Eu esperava que, depois da minha morte, alguém lesse meu diário e concluisse que as minhas boas ações tinham sido mais numerosas que as de Lei Feng. Então, eu também seria herói! Mas só tinha 10 anos. Não percebia que aquela era mais uma campanha de propaganda para conquistar nossa lealdade a Mao e ao Estado comunista.”
  • “…fiquei muito impressionado e extremamente orgulhoso do passado glorioso da China – realmente, a nação mais feliz e mais rica do Planeta. Uma questão, porém, começou a me incomodar: se a China era assim tão rica, por que minha família não tinha comida bastante nem dinheiro para comprar roupas?”
  • “Havia ainda o Jornal de Referência, somente disponível para escalões superiores do Partido Comunista, que trazia um pouco mais de notícias internacionais e um pouco menos de propaganda. Ocasionalmente, porém, alguém conseguia um exemplar e passava adiante.”
  • “Os garotos de Xangai se davam bem entre si. Eles, em geral, tinham a pele mais clara que a nossa, pessoas do campo. Eu era provavelmente um dos mais escuros. Como na China considerava-se bonito ter a pele clara, eu me senti inadequado…”
  • “Depois de assistir à apresentação preparada especialmente para ela, madame Mao disse aos oficiais: ‘A dança me pareceu bela, mas onde estão as armas? E as granadas? Onde está o significado político?’ …A partir de então, nosso programa de treinamento sofreu importantes mudanças… Na verdade, aquilo era ideologia política levada à loucura, mas a universidade seguia rigorosamente as instruções e a orientação política que ela transmitia. Não passávamos de marionetes políticas de Mao.”
  • “…suas aulas tratavam apenas da história do comunismo e das idéias políticas de Mao. Era quase nada o que sabíamos a respeito do que acontecia fora da China. Aprendemos um pouco sobre Marx, Engels, Lênin e Stálin, mas apenas como pano de fundo para as grandes realizações políticas de Mao…retratava o chefe Mao como o maior estrategista político que já existira, o homem capaz de superar todos os inimígos políticos.”
  • “Aquela viagem à cidade natal destruíra de vez a fantasia de uma vida ideal no campo, que eu sempre julgara possível. O que acontecia na mente do meu segundo irmão era muito pior do que falta de comida, a fome. Era a morte da alma.”
  • “Assim como Zhang Shu, outros professores experientes, antes acusados de direitistas, foram reabilitados e chamados de volta. Um deles era um especialista em balé russo, que falava muito bem o inglês e tinha traduzido diversos libretos russos para o chinês. Durante o tempo que passara no campo, fora obrigado a executar as tarefas mais repugnantes, para expiar seu único crime: o conhecimento das artes do Ocidente.”
  • “Algum tempo depois, Yu Fangmei, um bailarino formado pela Academia de Dança de Pequim – amigo íntimo do professor Xiao –, chegou do Japão levando de presente para o departamento de balé uma televisão, um aparelho de vídeo e algumas fitas, novidades de que jamais havíamos sequer ouvido falar. As fitas mostravam balés dançados por Barishnikov, Nureyev, Margot Fonteine e até por bailarinos formados nos Estados Unidos, inclusive Gelsey Kirkland. Somente os oficiais e os professores da academia tinham acesso a este material, como ‘fonte de referência’. Não era permitido expor os estudantes às ‘influências perniciosas’ do Ocidente”.
  • “Jamais ouvira música tão bela e romântica. Seria impossível sob o comando de madame Mao; a valsa teria sido considerada uma influência perniciosa a ser banida junto com outras formas de lixo ocidental.”
  • “…felizmente não precisávamos mais analisar o conteúdo político do espetáculo.”
  • “Eram compreensíveis as preocupações de minha família em relação aos Estados Unidos. Durante anos ouvimos falar do perigo representado pelo Ocidente, em especial pelos Estados Unidos.”
  • “Vimos também quadrados azuis, que Ben, com gestos, nos explicou serem piscinas. Entre risadas, custamos a acreditar que pudesse haver tantas piscinas em uma área tão pequena. O contraste com a pobreza da China era tal que mais uma vez pensei na prosperidade dos Estados Unidos e nas histórias que nos contaram”.
  • “Ben e Richard contaram piadas, fazendo todos rirem. Mas Zhang e eu não esquecíamos estar diante de seis possíveis inimigos da classe. Não sabíamos que atitude tomar. Na China, sob o regime de Mao, eles seriam presos ou mortos somente por sua riqueza.”
  • “Eu me senti honrado em conhecer Barbara (Bush), mas o fato de ser casada com um homem de atitudes pouco discretas me fez suspeitar de suas intenções políticas. Iria ela tentar corromper nossas convicções? Fui mentalmente preparado e me surpreendi com a recepção generosa e cordial que tivemos. Barbara não parecia mulher de político. Elegante e bondosa, referiu-se sempre à China com respeito.”
  • “O que mais me ocupou o pensamento, porém, foram as imagens sombrias e assustadoras da sociedade capitalista, então substituídas por outras completamente diferentes. O inimigo que a China mais odiava e o sistema representado por ele me deram o que eu mais desejava. Estava assustado e confuso. Em que acreditar, afinal? No que o comunismo me ensinara ou no que acabara de ver e viver? Por que o chefe Mao, madame Mao e o governo chinês nos contavam mentiras sobre os Estados Unidos? Por que éramos tão pobres na China? E por que eles eram tão prósperos?”
  • “A liberdade experimentada nos Estados Unidos me vinha à memória constantemente. Na China seria impensável desafiar o chefe Mao e a autoridade absoluta de seu governo. Os direitos individuais não existiam. Tudo nos era imposto: o que fazer, quanto trabalhar, quanto receber, onde viver e quantos filhos ter. Minhas crenças comunistas entravam em choque com as lembranças da América, ainda tão vivas.”
  • “…eu não entendia por que o fato de não viajar aos Estados Unidos me afetava tanto. Ficava com raiva de mim por ser egoísta. Já tinha ido uma vez; devia estar satisfeito e agradecido. Mas uma voz mais forte se impunha sobre todas as outras em minha mente: ‘Eu quero voltar. Quero estudar com Ben. Quero melhorar minha técnica e, o mais importante, experimentar mais uma vez aquela preciosa liberdade’.”
  • “…nós não reconhecemos o seu casamento como legítimo. Quem decide sua vida não é você, é o Partido Comunista!…Você é propriedade da China…Temos o poder de fazer o que quisermos de você…O partido sabe o que é bom para você.”
  • “Antes de irmos embora, Barbara nos levou a um passeio pela Casa Branca, o que me deixou muito honrado. Minha maior surpresa foi a simplicidade da decoração. Ali, ficava o centro do poder da América, o centro do poder do mundo. Onde estaria a grandiosidade? Onde o luxuoso palácio da força política? Comparada ao monumento ao chefe Mao, na praça Tiananmen, a Casa Branca era mesmo muito simples.”
  • “Claro que eu sabia da situação do povo russo vivendo atrás da cortina de ferro, mas ainda assim me surpreendi com seu anseio de liberdade. Era pior do que eu imaginava. O medo da KGB parecia presente em todas as mentes.”

Uma ideia sobre “Adeus, China – O Último Bailarino de Mao – Li Cunxin (13/2014)

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