Arquivo da categoria: Literatura

Cartola: semente de amor sei que sou, desde nascença – Arley Pereira (02/2016)

CartolaSempre me intrigou e me impressionou a capacidade de alguns artistas praticamente iletrados de trabalhar com as palavras. Além de Cartola, um verdadeiro poeta, temos outros exemplos como o Jackson do Pandeiro ou o Gordurinha. Estes dois ainda usavam de licença poética para, de vez em quando, não utilizar a forma culta da língua. Mas Cartola é um caso à parte e pode-se contar nos dedos as raríssimas vezes em que ele usou desta licença, geralmente afim de colocar as palavras na boca de outras pessoas. Mas no geral, suas composições sempre foram de uma qualidade linguística impecável.

Portanto, nada mais justo do que convidar Arley Pereira, amigo pessoal de Cartola e outro mestre do jogo de bem usar as palavras, para escrever esta biografia.

O livro, apesar de curto (118 páginas), faz um apanhado geral da vida e da obra de Cartola e, além do texto primoroso (e carinhoso) de Arley, tem uma leitura fluída e cativante, daquelas que fazem com que você fique no “só vou ler mais um capítulo depois eu durmo”.

Alguém pode até reclamar que faltou precisão em datas, locais e outros fatos históricos, mas em se tratando da biografia do autor de versos como “Queixo-me às rosas, mas que bobagem / As rosas não falam / Simplesmente as rosas exalam / O perfume que roubam de ti, ai” e “Preste atenção, querida / De cada amor tu herdarás só o cinismo / Quando notares estás à beira do abismo / Abismo que cavaste com os teus pés” a exatidão histórica é menos importante do que a beleza das palavras, e neste ponto, o livro acerta em cheio.

Be happy 🙂

Cartola

O Jogo das Contas de Vidro – Herman Hesse (01/2016)

O Jogo das Contas de VidroConsiderado por muitos como o Magnus opus de Herman Hesse, o Jogo das Contas de Vidro conta a história de Castália, uma sociedade filosófica e mística (por mais que os integrantes de Castália queiram desvincular o misticismo de sua “arte”), existente no ano de 2200, que tem como principal atividade fim o “Jogo das Contas de Vidro” ou “Jogo de Avelórios”, um jogo onde a ciência e as artes se misturam, especialmente a matemática e a música. A primeira parte do livro se dedica a explicar a história (dentro da estória) do Jogo de Avelórios e de Castália.

Para integrar esta sociedade os jovens do sexo masculino são observados e recrutados por mestres e professores que possam identificar neles as virtudes necessárias a um membro de Castália e, objeto destas observações, surge um garoto chamado José Servo, um virtuose que chegará ao ponto mais alto entre os praticantes do jogo, o de Mestre de Avelórios (Magister Ludi). A segunda e mais extensa parte do livro trata-se de uma biografia de José Servo, desde os tempos de menino na escola até a sua morte.

A terceira parte é um conjunto de obras de José Servo.

Acho que dei azar com o Herman Hesse. Depois de uma tentativa frustrada de ler Der Steppenwolf em alemão (tentarei de novo num futuro próximo), fui tentar justo com uma obra densa como o Jogo das Contas de Vidro, que apesar de ter muito conteúdo interessante, tem um ritmo modorrento e cansaitvo.

A primeira parte é principalmente cansativa, pois tenta explicar o funcionamento e a origem do Jogo de Avelórios e precisa-se prestar muita atenção, quando não ler uma passagem mais de uma vez, para entender.

A segunda é modorrenta mesmo, pois reproduz muitos dos pensamentos e discussões filosóficas de Servo com seus interlocutores (Pedro Designori, “O Irmão mais velho”, “o Mestre da Música”, Frei Jakob, etc). Nada contra filosofia, que aliás acho bastante interessante, mas inserir estes pensamentos dentro de longos diálogos ou debates entre dois personagens de um romance não sei se foi a melhor idéia. De qualquer forma, existem várias passagens e pensamentos muito interessantes, mas o leitor precisa estar preparado para encontrar uma estória que não tem a devida fluidez de um romance.

A última parte foi a que achei mais interessante, pois traz os temas centrais de várias das discussões filosóficas ocorridas durante a segunda parte em forma de textos ou poemas de Servo.

Além de Der Steppenwolf, ainda tenho o Sidarta na lista, quem sabe eles não mudem minha impressão sobre Hesse.

Be happy 🙂

A Fúria de Maigret – Georges Simenon (23/2015)

AFuriaDeMagretAinda este ano lí pela primeira vez uma das estórias de Sherlock Holmes e agora li pela primeira um dos vários livros de Simenon com o Comissário Maigret como personagem principal e não dá para não fazer relações entre um personagem e outro.

Maigret é um comissário da Polícia Judiciária de Paris e é responsável por investigar casos de assassinato. Ou seja, ambas as séries são sobre crimes e as pessoas que buscam desvendar estes crimes, mas apesar do estilo ser o mesmo (estórias policiais / de detetive) os personagens são bem diferentes. Enquanto Holmes, afim de desvendar um mistério, se concentra nas evidências físicas e em ciências exatas para encontrar o criminoso, Maigret se preocupa mais em entender o comportamento e psique dos envolvidos (vítima e suspeitos) e a motivação do crime, a ponto dele se irritar ou se sentir angustiado quando se encontra em um beco sem saída.

Em “A Fúria de Maigret”, o comissário se vê envolvido em um caso de assassinato de um proprietário de vários cabarés de Paris. Apesar do negócio da vítima estar em uma área onde existe muita criminalidade, a vítima em sí mantinha uma conduta pessoal e profissional ilibada.

E é neste beco sem saída que Maigret se encontra: sem suspeitos, sem motivo, com o corpo da vítima aparecendo apenas depois de dois dias do sumiço e ainda com a vítima sendo morta de uma maneira incomum (por estrangulamento). E neste cenário além de ter que contar com sua intuição, ainda tem uma ajuda da sorte.

O estilo de escrita de Simenon é bem dinâmico e daqueles que preendem o leitor (li as 132 páginas em 3 dias!). Gostei. Tanto o Sir Arthur Conan Doyle quanto Georges Simenon têm despertado em mim a vontade de ler mais livros de um estilo que até agora não tinha me atraído (desconsiderando os livros de mistério/crime do Marcos Rey na coleção Vagalume).

Be happy 🙂

Barba Ensopada de Sangue – Daniel Galera (22/2015)

BarbaEnsopadaDeSangueApós o suicídio do pai, um professor de educação física e ex-atleta semi profissional gaúcho resolve se mudar para Garopaba, no litoral catarinense, com o intuito de se isolar dos acontecimentos recentes (o suicídio do pai e a recente separação da sua mulher, que o “trocou” pelo irmão) e também para tentar descobrir o que houve com seu avô que, de acordo com o que o pai havia lhe revelado um pouco antes da morte, foi assassinado na cidade na década de 60.

Além de enfrentar a resistência dos moradores locais a um “estranho” (e que ainda por cima resolve fazer perguntas que a cidade quer esquecer) ele ainda enfrenta um rara condição neurológica que o impede de memorizar rostos, inclusive o próprio, o que o torna ainda mais um “estranho no ninho”. Munido apenas de um video game, um álbum de fotografias (que o ajuda a recontar sua história), algumas roupas e na companhia da cachorra Beta, “herdada” do pai, ele se instala na cidade para buscar a verdade à respeito da morte do avô, mas acima de tudo, para buscar a sí mesmo.

O livro foi presente de aniversário de uma amiga e confesso que não conhecia o autor, que pelo que andei lendo, é uma “jovem promessa” dentro da literatura  brasileira (este é o quarto livro dele). O que eu mais gostei no livro é a qualidade da narrativa, especialmente quando o autor se propõe a descrever fisicamente os personagens, já que como o protagonista não memoriza rostos, ele precisa se atentar a outros detalhes para reconhecer as pessoas, como o tipo e tamanho de cabelo, as proporções do corpo, alguma marca ou mesmo o modo de falar. A narração das sensações do protagonista (como por exemplo quando nada no mar) também são impressionantes e, para quem como eu, monta aquele filme na cabeça enquanto lê o livro, é um prato cheio.

Um outro ponto que me chamou a atenção no livro é a personalidade do protagonista: ele é um cara não muito afeito a seguir um “padrão” de vida considerado normal pela sociedade (consumo, casamento, carreira, etc) e, apesar de ser cético, entende que o que aconteceu tinha que acontecer, melhor não se lamentar e tocar a vida adiante, guardando na memória o que foi bom (sem ficar buscando ou forçando uma situação de repetição) e apenas ignorando o que foi ruim.

É uma leitura simples e um ótimo entretenimento, sem grandes pretensões “literárias” (ou arrogância literária!), o que é ótimo, pois o intuito maior de um livro é este: entreter. E nisto o livro cumpre bem seu papel.

Be happy 🙂

Este Barco Também É Seu – D. Michael Abrashoff (21/2015)

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Eu não sou muito fã de livros de auto ajuda, tanto comportamental quanto empresarial. Acho muita pretensão de alguém querer sugerir algo para outra pessoa ou empresa. Como diria o Raul Seixas, “cada um de nós é um universo”, e o que funciona para um dificilmente funcionará para outro (pessoa, negócio, entidade, etc). Quando se fala em negócios então, acho ainda mais complexo. Por isto inicialmente torci o nariz quando fui convidado para um treinamento sobre “liderança servidora” baseado em um livro do estilo.

Felizmente depois de ler o capítulo que me era designado para o treinamento acabei criando o interesse de ler o livro todo, justamente porque raramente o autor, o Capitão da Marinha Americana D. Michael Abrashoff, diz o que se deve ou não fazer.

O livro é na verdade um compilado das experiências de implementação de uma gestão moderna em um ambiente altamente dominado por conceitos e tradições antigas, promovidas pelo Capitão Abrashoff quando este foi responsável, durante 20 meses, pelo comando do USS Benfold, um dos navios de guerra da frota americana no Pacífico.

É claro que ele destaca as experiências positivas, deixando os erros em segundo plano (ou eventualmente omitindo estes erros), mas a leitura vale a pena, tanto pelas experiências quanto por entender o propósito e o funcionamento de um navio de guerra.

A maioria dos capítulos do livro resumem os conselhos de Abrashoff, que são sempre repletos de exemplos. Estes capítulos são:

  • Assuma o Comando
  • Lidere pelo Exemplo
  • Ouça com o Máximo de Atenção
  • Comunique o Objetivo e o Sentido
  • Crie um Clima de Confiança
  • Busque Resultados, Não Elogios
  • Assuma Riscos Calculados
  • Vá Além do Procedimento Padrão
  • Estimule a União
  • Melhore a Qualidade de Vida do Seu Pessoal

Nos demais capítulos ele faz uma introdução contando sua história de vida e profissional e ao final um pouco do que ocorreu com ele após deixar o USS Benfold. Leitura bem interessante.

Be happy 🙂

O Amor Nos Tempos Do Cólera – Gabriel García Márquez (20/2015)

O Amor Nos Tempos do ColeraAcho que sofri com este livro aquele eterno problema causado por conta da relação “Expectativa X Realidade”. Eu sempre ouvi falar muito, mas muito bem de García Márquez (o cara é inclusive ganhador de Nobel de Literatura), então acho que acabei criando muita expecativa em torno deste livro, que foi o primeiro que eu li dele.

E o livro não é ruim, mas sei lá, estava esperando algo sensacional, daqueles livros que você não consegue largar até terminar. E infelizmente não aconteceu.

“O Amor Nos Tempos do Cólera” conta a estória de amor de Florentino Ariza e Fermina Daza um casal de jovens namorados que, separados principalmente por conta de convenções sociais, se reencontra mais de 50 anos depois, logo após Fermina ter perdido o marido, para retomarem sua história de amor, ou talvez iniciar uma de verdade.

O livro começa inicialmente contando os fatos que acabam culminando no falecimento do já idoso Juvenal Urbino, marido de Fermina. À partir deste ponto, Garcia Márquez desenrola, uma de cada vez, algumas linhas de estória: a do próprio Juvenal, a de Fermina, onde nos é introduzido Florentino, depois a estória do casal Juvenal e Fermina, depois a estória de Florentino durante os 50 anos em que ele esperou por Fermina. Cada uma destas linhas segue uma linha temporal própria, com elas se cruzando algumas vezes e ao final de cada uma delas, ele volta no tempo para iniciar a outra.

Apesar da narrativa ser muito bem construída (e o estilo ser muito bonito também), muitas vezes peca pelo excesso de detalhes e torna a leitura um tanto cansativa, especialmente por conta dos parágrafos e capítulos muito longos.

Muita gente acha um lindo romance e acha lindo o fato de Florentino esperar mais de 50 anos por este amor (“…por cinquenta e um anos, nove meses e quatro dias.”). Confesso que fiquei com sentimentos dúbios: algumas horas eu achava que era uma bela estória de amor, porém em vários eu achei que o que Florentino tinha era uma obsessão doentia, talvez um sentimento de posse, de que Fermina teria que ser sua à qualquer custo um dia.

Mas se a última impressão é a que fica, o último capítulo, onde os dois amantes (Fermina e Florentino) se desprendem de convenções sociais e resolvem viver um amor na terceira idade é sim muito bonito. Diria até terno. Especialmente porque eles simplesmente começam a viver uma vida sem se preocupar com o amanhã ou com o que as pessoas iriam pensar e se preocupam apenas em aproveitar aquele momento já no final de suas vidas.

Be happy 🙂

As Intermitências da Morte – José Saramago (19/2015)

As Intermitencias da Morte“O que aconteceria se a morte resolvesse tirar uma licença?” é o mote principal deste livro do Saramago (autor também do famoso “O Ensaio Sobre a Cegueira”). Em um país fictício, regida por uma monarquia que se imagina ser uma daquelas mornarquias decorativas européias, depois da virada de ano a morte resolve simplesmente “não aparecer”.

Muitos das pessoas que estavam praticamente a expirar, simplesmente ficam no estado em que se encontravam, mas ainda vivas. O mesmo acontece com as vítimas de acidentes, assassinatos ou qualquer outro desfortunio: o coração continua batendo, os principais órgãos estão funcionando, mas a pessoa entra em um estado de catatonia, um vivo morto (ou morto vivo).

À partir dai, Saramago descreve os desdobramentos das consequências de algo que inicialmente parece ser uma boa coisa, como a imortalidade, mas que se mostra um verdadeiro desastre sob vários pontos de vista. O cartel dos agentes funerários, sem ter o que fazer depois da extinção da morte, pressionam o governo para que este obrigue os cidadãos a darem um “enterro digno” a seus animais como forma de manter esta indústria funcionando. As companhias de seguros decidem pagar apólices por idade de morte presumida, já que, se ninguém mais vai morrer, as pessoas irão deixar de fazer seguro. Até a igreja pede ao governo que tome uma providência pois, sem vida após a morte, não há sentido na existência das religiões.

Depois de alguns dias de muitas alegrias com a nova possibilidade, os habitantes começam a perceber que os entes próximos se tornam um fardo para eles quando deixam de morrer por velhice, e extrapolando no nível do país, para toda a sociedade, pois se ninguém mais morre, bastariam poucas gerações para ter uma infinidade de idosos imortais sendo cuidados por pouquíssimos jovens.

À partir destas questões surge a Máphia (com PH, e que lembra muito, em estrutura e atuação, o PCC paulista), que através de acordos excusos com autoridades e corrupção de agentes públicos, consegue, mediante o pagamento feito pelas famílias, dar um jeito de “matar os imortais” (não vou contar como para não soltar spoilers).

Toda esta narrativa, desde o início até o retorno da morte (também não entrarei em detalhes) é feita com um humor ácido e uma ironia fina e o país fictício nos faz lembrar muito bem o Brasil, ou qualquer outra república de bananas mundo afora.

Porém, ao concluir a estória principal, Saramago deixa um gancho para uma segunda parte onde, sem deixar de lado o humor, conta a história de amor da morte pela vida, ou como gosto de chamar, vida plena, de um simples violoncelista. Nesta segunda parte ele entra mais fundo em questões filosóficas (e existenciais) com as quais ele flerta na primeira parte do livro.

Saramago tem um estilo um pouco complexo de escrever: ele vai colocando os diálogos dentro do parágrafo, junto com a narração, sem dar muitas indicações de onde começa a fala e de que personagem ela é, separando-as apenas por vírgulas, ao invés de criar parágrafos e usar o travessão. Isto também torna a leitura um pouco complexa e aconselho ler cada capítulo de uma só vez, sem “quebrá-lo” em várias partes, para não complicar. Mas apesar disto (e do português de Portugal, que às vezes exige um pouco mais de atenção), o texto ainda é fluído e daqueles que você não consegue parar de ler, mesmo ao final do capítulo.

Tanto que posso dizer que, apesar destes pesares, foi um dos melhores livros que já li na minha vida e estou, desde que terminei, pensando qual dos meu top 10 teria que sair da lista para dar lugar à este.

Be happy! 🙂

Um Estudo Em Vermelho – Sir Arthur Conan Doyle (18/2015)

Um Estudo Em VermelhoTirando os filmes de Sherlock Holmes mais recentes, com o Robert Downey Jr e o Jude Law, nunca tinha assistido ou lido nada de Sherlock Holmes. Achei bem legal e até fiquei interessado em ler outras estórias do detetive mais conhecido do mundo (bem como de ler algo da Agatha Christie, pois nunca li nada dela também).

Este é o primeiro livro com o inteligente e arrogante detetive, e conta como ele e o Dr Watson se conheceram e também dá uma pequena introdução à vida de Holmes e seu método dedutivo.

Narrada por Watson, conta a história de um assassinato ocorrido em situação bem estranha, e que justamente por este motivo, faz com que a Scotland Yard convoque o “consultor” Holmes para ajudar na investigação. Durante a investigação deste primeiro assassinato, um outro assassinato relacionado ao primeiro acontece e, rapidamente o livro nos leva à solução do caso, ou pelo menos à parte dela, que é saber quem é o assassino.

Na seqüencia existe um “interlúdio”, que inicialmente não faz sentido algum, mas que no final vai explicar as motivações dos dois crimes. Logo após este interlúdio, que é feito por um narrador “oculto”, Watson volta aos seus relatos, e então Holmes descreve a seqüência lógica que o levou a desvendar o crime.

Ok! Talvez nos dias de hoje, com computadores, testes de DNA, balística, etc as “pistas” de Holmes pareçam banais (lembremos também que provavelmente o autor partiu do final e depois “encontrou” evidências para suportar este final, o que também torna a tarefa mais fácil), mas imaginem como estas deduções lógicas, baseadas em fatos científicos, muito à frente da época em que os livros foram escritos, deviam aguçar a curiosidade dos leitores..

De qualquer forma, o livro é um ótimo entretenimento, que afinal é o que importa.

Be happy! 🙂

A Náusea – Jean-Paul Sartre (17/2015)

A NauseaA Náusea conta a estória de Antoine Roquentin, um jovem intelectual francês que, após ter passado vários anos viajando e “se aventurando” por diversos países, se estabelece na cidade costeira de Bouville para escrever a história de um tal Marquês de Rollerbon, porém ao se debruçar sobre a história do tal Marquês e sobre o próprio cotidiano da sociedade em que se encontra, começa a questionar o sentido da vida e, na verdade, a questionar a necessidade de um sentido.

Ele começa a sentir uma forte aversão pelos seres daquela cidade, tanto do passado quanto do presente, e sua incessante busca em seguir roteiros (se educar, casar, ter filhos, criá-los, etc) e convenções, especialmente com o objetivo de fazer algo de bem, de deixar algum legado para o mundo.

Esta aversão chega ao ponto de repulsa e se traduz em uma sensação de mal estar, a náusea. Roquentin, como uma pessoa que simplesmente se deixou levar pensando apenas na situação do momento, sem se preocupar muito com o futuro, a todo momento se questiona se deveria ter ou não procurado uma razão para a sua existência. Até o momento em que ele perde os poucos motivos que tinha para justificar a sua existência: o livro, que ele acabou por desistir de escrever, e a sua “amada” Anny, que no final ele percebe que não era exatamente um amor.

O contraponto à ele é feito pela figura do personagem Autodidata, um jovem que se tornou humanista (e socialista) depois de passar horas se instruindo nos livros da biblioteca e que acha que os seres humanos devem se amar uns aos outros e que os homens têm por objetivo a vida vivida em coletividade, o que se opõe ao individualismo de Roquentin.

É um livro um pouco denso, no sentido de que exige uma atenção maior, afim de que o cerne da mensagem do autor possa ser entendida. Mesmo assim, somente por este livro não dá para sacar se o autor estava criticando a necessidade das pessoas de se sentirem parte de algo, de fazerem algo grandioso, ou se ele está criticando exatamente a posição individualista e por vezes egoista do personagem. Eu fico com a primeira, até por concordar com a posição do personagem: existimos por existir, ninguém está aqui por conta de um plano divino ou coisa que o valha. Somos apenas um “acidente de percurso” e nos resta viver e aproveitar esta existência da melhor forma possível, sem querer nos colocarmos em uma posição de “escolhidos” para uma missão. Até porque isto é de uma arrogância sem tamanho.

Be happy! 🙂

O Verde Violentou o Muro – Ignácio de Loyola Brandão (16/2015)

O Verde Violentou o MuroEm 1982 o autor, após uma separação, aceitou uma proposta do DAAD, instituto alemão de intercâmbio acadêmico, para passar uma ano e meio em Berlin Ocidental. No livro, que tem como subtítulo “A vida em Berlin antes e agora”, ele relata as experiências de viver em uma cidade cercada por um muro (muita gente imagina, como eu imaginava antes de ir à Berlin pela primeira vez, que o país era “cortado” pelo muro, que passava pelo meio na cidade, mas na verdade o muro não dividia a Alemanha e sim cercava a parte ocidental de Berlin, expliquei um pouco aqui).

Depois deste período ele voltou mais três vezes à cidade depois da queda do muro e pode conhecer, com um pouco mais de detalhes, os pedaços do lado oriental da cidade. Como ele apenas visitava o “outro lado” em passeios de um dia, ele não tinha muitos detalhes de como era a vida ali e, ao visitar lugares que estavam atrás do cinza do muro, ele conta como ele imaginava que fosse.

Como ele deixa transparecer, ele parecia estar fugindo de alguma coisa, e como ele afirma em vários trechos, acabou se encontrando por várias vezes na cidade. Não é uma história com início, meio e fim, ou mesmo um relato. É apenas uma coleção de textos pequenos, onde ele relata experiências, curiosidades, observações e eventualmente dá algumas dicas, mais ou menos como eu faço nos artigos que escrevo sobre minhas viagens. É claro que ele tem muito mais bagagem do que eu (pelo fato de ter morado na cidade), além de ter um estilo infinitamente melhor que o meu de escrever. Por isto, a melhor forma de fazer um relato sobre o livro, é colocar alguns trechos que achei interessante (eventualmente com algum comentário meu):

  • “Não entendo conhecer uma cidade sem andar, andar. Cortando ruas, olhando para as casas, vitrines, supermercados, lojas. Tudo.”
  • “A cerveja alemã é mais suave, porém mais amarga que a brasileira. Mais cremosa, mais densa. Impossível encontrar aqui o que se chama no Brasil ‘estupidamente gelada’. Ou aquela que se tem de pedir ao garçom (se for íntimo da casa) ‘Me traz a que o dono guarda para ele!’. Descobri que beber cerveja estupidamente gelada é estúpido, mesmo ao calor de quarenta graus. Somente na Alemanha passei a sentir o sabor da cerveja, o gosto, o cheiro, a perceber as diferenças de paladar que o gelo anula.”
  • “Vá sábado de manhã, o espetáculo é curioso. Classes média e alta se acotovelam e entram em filas. Enfrentam aquilo por horas, sem protestos. Vendo as filas, achei curioso as críticas que costumam fazer a Berlim Leste. Uma delas diz: ‘Imagine, as pessoas têm que formar filas para fazer compras!’. Qual a diferença entre a fila do Leste e a do Oeste? Aqui estão comprando o supérfluo. Acho mais importante a fila do essencial” – sobre a KaDeWe, uma loja de departamentos gigante, ainda existente em Berlin, situada na Kurfürstendamm (ou KuDamm, uma mistura da Quinta Avenida com a Times Square, ambas de Nova Yorque), que oferece de tudo no que se refere à alimentos e bebidas.
  • “Meninas, adolescentes graciosas de vestidos vaporosos, longos, e pés no chão. Adoram andar descalças no verão”
  • “Ela existe, porém se conserva mais a distância. Posso andar sem medo pelas ruas, à noite. Não me incomodo muito se esqueço uma janela aberta. No cinema ou teatro deixo meu casaco guardando o lugar e vou tomar café, no intervalo. Sei que posso quebrar a cara, sofrer qualquer coisa, porém é hipótese, não uma comprovação e uma espera diária.” – sobre violência em Berlin.
  • “O normal nesta região moderna: espaço amplo entre os conjuntos, muita grama, playground com brinquedos imaginativos, bastante árvore e um rio canalizado e urbanizado, cheio de chorões nas margens. O que me fez pensar nos rios brasileiros. Riachos e córregos que atravessam nossas cidades e que os prefeitos enfiam por dentro de um cano, colocando uma avenida por cima, cheia de asfalto e nenhuma vegetação. O dinheiro gasto para aprisionar e fazer desaparecer uma água talvez seja maior do que enquadrar o rio numa paisagem urbana agradável e descontraída.”
  • “Não dá para ficar trabalhando o tempo inteiro, se matando como louco, como fizeram nossos pais, nossos avós. Não queremos competir com ninguém, nem ter os melhores postos, nem vencer brilhantemente na vida. Queremos lazer. Um pouco de trabalho e o resto de divertimento.” – de uma conversa entre jovens ouvida pelo autor.
  • “Política? Quem quer saber de política? Olha o que os políticos fizeram, fazem e estão fazendo a este país! Sou pelos verdes, mas sem política. Sou pela ecologia, sem política. Sou pacifista, sem política. Sou contra os mísseis nucleares, mas não preciso misturar política nisto.” – de uma outra conversa entre jovens ouvida pelo autor.
  • “O alemão confia no Estado para a solução de seus problemas. Se está desempregado, espera o socorro da assistência social, o seguro-desemprego. Se está doente, se tem um problema qualquer, se briga na rua, se alguém fecha o seu carro (ele não dá bronca, comunica à polícia e você recebe a visita dos agentes da lei que cagam regras), se tropeça num buraco, se as coisas não funcionam administrativamente, se o preço é extorsivo. O Estado é o pai, criado para resolver a vida. Sistema profundamente capitalista que vive como socialista. Contradição? Ou encontraram o regime (mais ou menos) ideal?” – pela posição econômica e política da Alemanha e pela qualidade de vida dos seus habitantes, creio que sim, encontraram o equilíbrio entre estes dois extremos, assim como os países Nórdicos, a Austrália e o Canadá.
  • “Hoje é um partido político que se organiza. Provoca polêmica, abre discussões, é amado ou odiado. Para uns, salvação. Para outros, o perigo que vai lançar a Alemanha nos braços da Rússia ou na terceira guerra mundial. Partido em ebulição, heterogêneo. Abriga amigos da natureza, defensores do meio ambiente, pacifistas, antinucleares, rebeldes de 68, leninistas, marxistas, dissidentes de outros partidos, social-democratas, contestadores do sistema, alternativos”. – sobre Die Grünen (os verdes), o partido verde alemão, um dos principais atores que levaram à queda do muro (título do livro explicado!).
  •  “‘Quem é diferente ou quer ser diferente, deve vir para Berlim. Aqui você é normal sendo diferente. As pessoas que não concordam com a visão de mundo que foi imposta a elas por educação e condicionamento se refugiam em Berlin’, escreveu Stefan Schaaf, de vinte e oito anos, jornalista do Die Tageszeitung.” – como em outras parte do livro, me identifiquei muito com as opniões do autor ou de seus interlocutores, neste caso em específico até escrevi sobre a diversidade e o respeito à ela que existe em Berlin neste artigo, bem antes de ler o livro.
  • “Berlim foi aquilo que sempre considerei o ideal para uma cidade. Nem megalópolis, nem província. Oferecendo vantagens e desvantagens das duas. Nesta cidade me reencontrei muitas vezes, divisei luzes e instantes que estiveram dentro de minha vida em determinados momentos. Cidade mágica, complexa, paradoxal, refúgio e verdade. Cidade que é aquilo que queremos que ela seja.” – outro trecho bem parecido com um que escrevi neste artigo.
  • “Recorro, mais uma vez, a Bernard Cailloux, escritor que nasceu na cidade de Erfurt, Turingia, parte oriental e mudou-se para o ocidente antes da divisão da Alemanha. Em 1978, ele radicou-se em Berlin e ‘precisou de dez anos para se adaptar, conhecer e começar a compreender a cidade’. Dez anos para um alemão. Portanto, não esperem de mim a definição de uma cidade indefinível.” – como já disse, Berlin não é para ser apenas visitada e conhecida (muito menos pela janela de um ônibus de excursão), é uma cidade para ser vivida, assim como São Paulo, Nova York e algumas poucas outras.
  • “Muita gente sentia pertencer a uma classe superior ao poder comprar produtos ocidentais. Havia justificativas as mais curiosas, às vezes: ‘O cheiro é diferente, é bom’. Depois da guerra, com a ocupação da Alemanha, a Guerra Fria e o isolamento a que a RDA se viu conduzida, parte da população acabou aderindo ao socialismo por crença, defendeu-o com idealismo. Muitos nasceram dentro do regime, não tiveram opção. Outros viveram inconformados. Sobre a antiga RDA perspassava sempre a utopia: viver do lado de lá ou, ao menos, conhecer, saber como era, poder comparar, ser livre para decidir. Um segmento sonhava em abandonar o país (no Brasil quantos não sonham com Miami, quantos não foram para o Japão?). Todavia, se as fronteiras fossem abertas, a Alemanha Oriental não se esvaziaria, como imaginavam os líderes. Boa parcela da população viveu tranqüila sob o socialismo e não é culpa dela a corrupção da cúpula, que desvirtuou uma idéia. O difícil, depois da queda do muro, disseram Zilly e Hoffman, foi, de um momento para o outro, passar a viver debaixo de normas e regulamentos que não eram os deles, eram opostos, cruéis, pode-se dizer… Após a queda do muro, os problemas se tornaram tão grandes que os antigos problemas se minimizaram. De repente, não existia mais o socialismo, mas também não existia a crença na social-democracia e não se acreditava nos conservadores. Ficou o vazio.” – tenho a mesma opnião sobre Cuba.
  • “Na antiga RDA (ou DDR) o nível de vida era baixo, mas todo mundo tinha emprego, salário, direito a creche, saúde e escola, e assim se sentia ‘parte da grande família’. Agora, o que governava era a concorrência global do mercado e a maior parte do parque industrial da antiga DDR teve que fechar. Tendo vivido décadas isolado, este parque estava desatualizado, desestruturado, arcaico e praticamente sucateado, segundo os conceitos do oeste, incapaz de produzir no ritmo exigido pelo mundo capitalista. Chegou, do dia para a noite, uma onda de desemprego que transformou grandes partes da DDR em desertos industriais, com a população sem emprego, sem o dinheiro necessário para desfrutar do paraíso de consumo e – mais importante – sem o sentido de vida e o prazer da auto-afirmação que o trabalho confere a um cidadão.”. – relato escrito de Sebastian Scherer, alemão casado com uma brasileira e residente de João Pessoa, enviado ao autor e reproduzido no livro.
  • “Quero voltar a essa cidade quantas vezes puder. Sinto que pertenço a ela. Sou paradoxal e incongruente, neurótico e tenso, calmo muitas vezes. Como ela. Continuo sem entender por que entrar aqui me dá paz.” – eu te entendo Ignácio, entendo pois sinto o mesmo.
  • “Para mim, que não encontro um lugar no mundo, inquieto onde esteja, sem descobrir um sentido para a vida, ela continua uma cidade de momentos, de fragmentos que me parecem congelados no tempo e me acompanham.” – sei bem como se sente Ignácio, sei mesmo.

Talvez o autor tenha um saudosismo do período em que ele morou lá, época em que a cidade era dividida, que talvez faça ele “rechaçar” um pouco das neue Berlin. Eu infelizmente não pude conhecer Berlin dividida (a divisão não era legal, mas teve algumas consequencias interessantes, especialmente na formação do povo), mas como dá para perceber lendo o relato dele de 30 anos atrás e comparando com os meus relatos e experiências na “nova” Berlin, a cidade ainda mantem sua aura e sua alma.

Be happy! 🙂