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Os Botões de Napoleão – As 17 Moléculas que Mudaram a História – Penny Le Couteur e Jay Burreson (15/2015)

arte_OsBotoesDeNapoleao_27.01.11.inddDe vez em quando a gente lê um livro que vale por anos e anos de estudo “formal”. Foi o caso deste.

Segundo relatos históricos, quando as tropas de Napoleão chegaram à Rússia, no rigoroso inverno de 1812, os soldados, famosos pelo asseio e elegância com que se vestiam, mais pareciam mendigos. Uma das hipóteses levantadas seria a de que os botões dos uniformes, feitos de estanho, metal que se esfarela à baixas temperaturas (fato já conhecido à época), tenham se desfeito e os soldados ou seguravam as armas, ou então seguravam os casacos. Partindo desta premissa, os autores, que são professores de química, resolveram listar algumas moléculas que podem ter mudado o rumo da história.

Primeiramente é bom dizer que eles não afirmam que elas realmente mudaram, mas que provavelmente devem ter contribuído bastante, entre outro fatores, para que o curso da história (e o mundo como conhecemos hoje) acontecesse da forma que aconteceu.

O livro apresenta na introdução alguns princípios básicos de química. Porém, nada que assuste. Muito pelo contrário, durante o decorrer do livro, quando eles mostram as fórmulas químicas das moléculas e as reações que as transformam, o pouco de teoria se torna algo agradável, inclusive despertando a curiosidade do leitor.

Além de relacionar moléculas ao curso da história, como o caso da noz-moscada, que foi a responsável pelo acordo entre os Holandeses e Ingleses que resultou na cessão da área hoje conhecida como Manhattan, nos EUA, para os Ingleses, inevitavelmente acaba-se entrando em outros assuntos, como biologia e física.

Um exemplo, no mesmo capítulo sobre a noz-moscada, é a explicação do porque da pimenta nos causar uma sensação de prazer: ao “sofrer a agressão” da pimenta, o nosso cérebro produz endorfina.

Já no segundo capítulo, os autores atribuem as grandes navegações à descoberta do ácido ascórbico e seus efeitos sobre o escorbuto, doença que era fatal para cerca de metade da tripulação dos navios que se propunham a desbravar mares desconhecidos, inclusive citando alguns casos em que toda a tripulação foi acometida pela doença e faleceu.

Outras moléculas muito importantes, principalmente para a formação étnica do continente americano, foram a celulose e a glicose. Como as plantações de algodão (celulose) e cana-de-açucar (glicose) demandavam muita mão de obra, elas provavelmente foram responsáveis pelo comércio escravagista.

Além dos fatos históricos importantes, o livro também tem algumas curiosidades que eram desconhecidas por mim, como por exemplo o fato de o TNT e a pólvora terem a celulose como origem (compostos nitratos + celulose geram explosões, e neste capítulo também teve uma pequena aula de física). Ou como a indústria de corantes foi responsável pelo surgimento das mais importântes indústrias farmacêuticas, especialmente as alemãs.

Gostaria de ter lido este livro quando estava no colegial e ter que decorar a tabela periódica me parecia algo totalmente inútil. Também gostaria que meus professores (de todas as matérias) usassem da mesma didática dos autores, que fizeram com que um tema que normalmente é enfadonho se tornasse muito interessante e divertido.

Be happy! 🙂

Duna – Frank Herbert (14/2015)

DunaNunca fui muito fã de livros de estórias fantásticas ou de ficção científica. Não lí e nem ví o Senhor dos Anéis, não me ligo muito em Star Wars ou Jornada nas Estrelas e ainda não senti nenhuma vontade de tentar Game of Thrones. Assisti Matrix mais pelo thriller do que pela ficção (tanto que nem vi o terceiro) e sou fãzaço do “Guia do Mochileiro das Galáxias” porque acho que a obra vai além da ficção ou fantasia e porque o Douglas Adams era um gênio.

Mas outro dia estava assistindo um desses vlogs que fazem listas, que no caso era de best sellers que viraram filmes merdas, e me interessei pelo mote de Duna, a obra prima de Frank Herbert, lançada em 1965. Muito premiado, é considerado o livro de ficção científica mais vendido de todos os tempos e gerou todo um universo de publicações ligadas à ele.

Para se ter uma idéia da importância e influência, o Iron Maiden compôs uma música usando a história do livro. To Tame a Land faz parte do álbum Piece of Mind, de 1983. O Blind Guardian também utilizou a temática do livro em Traveler in Time.

O livro conta a transformação do jovem Paul Atreides, o herdeiro da casa Artreides, no lider máximo de Arakis, o planeta deserto conhecido como Duna. O planeta praticamente inóspito é a única fonte no universo da especiaria melange, que apesar de viciar seus consumidores, estimula neles um aumento da capacidade dos sentidos e das percepções a ponto de, dependendo da quantidade e da forma consumidas, permitir às pessoas a capacidade de enxergar as várias possibilidades de futuro possíveis, de acordo com as ações tomadas no presente. Ou seja, um expansor das capacidades da mente.

Não existe uma referência exata de data, já que além de criar todo um universo, uma história para este universo e diversas culturas e religiões, o autor criou um calendário próprio, mas levando-se em conta as “pistas” dadas no livro, podemos calcular que ela se passaria em cerca 12500 D.C. considerando nosso calendário.

No universo criado por Frank Herbert, após uma revolta dos seres humanos contra as máquinas que haviam controlado o planeta terra, a humanidade, já com tecnologia avançada, coloniza os cantos mais distantes do universo. Como uma das leis após a revolta é nunca construir uma máquina que seja melhor que o ser humano, diferentemente de outras ficções, em Duna as máquinas são meros coadjuvantes ou acessórios de cena e o texto foca mais nas relações humanas e orgânicas.

Outro ponto interessante é que à exceção de alterações genéticas e fenótipas ocorridas por conta do planeta em que cada “tribo” humana se instalou (já que mais de 10 mil anos se passaram desde o início da ocupação humana do espaço), não existem seres com aparência muito diferente da dos humanos. As diferenças ocorreram apenas por conta de adaptações ao ambiente e devido às dietas alimentares.

Não existem vários idiomas nativos, já que provavelmente a colonização ocorreu à partir de apenas um povo da terra, porém, com o intuito de se comunicar sem os outros entenderem, os povos desenvolveram linguagens próprias, num processo inverso do que ocorre hoje em dia.

O mais interessante do livro é como as estruturas de poder são organizadas. Elas são uma mistura, em partes muito proporcionais, de política, religião e negócios. O objetivo maior do Império (que reune todas as casas reais), da Guilda (megacorporação que detém o monopólio do transporte espacial) e das Bene Gesserit (uma espécie de ordem religiosa formada apenas por mulheres) é apenas o lucro e tudo pelo lucro.

Neste processo não importam as pessoas, não importam os planetas. Um planeta pode ser explorado até a exaustão, mesmo que isto signifique a extinção do povo que habita aquele planeta. Guerras, conspirações e assassinatos são aceitos e até “regulados” pelo tripé dominante (Imperio com as casa reais, Guilda e Bene Gesserit). Quando não incentivados.

É um baita de um livro e que te faz pensar como a filosofia, as religiões, as estruturas de poder e as corporações se desenvolvem. O ruim foi apenas chegar ao final do livro e achar que este universo tão pouco “humano”, apesar de habitado por seres humanos, não deve demorar os 10500 anos da estória para chegar. Basta ver como as religiões e as grandes corporações se relacionam com as estruturas de poder, especialmente no Brasil.

Be happy! 🙂

Mussum Forevis – Samba, mé e Trapalhões – Juliano Barreto (13/2015)

Mussum ForevisPara quem até pouco tempo atrás não tinha lido uma biografia sequer, até que estou tirando o atraso nos últimos meses. Estou criando o hábito de ler alguma logo depois de uma leitura mais densa. Biografias geralmente são mais fluidas e com um ar mais leve e serve para dar uma “descansada”. Então resolvi ler a do Mussum logo após ter lido O Capital no Século XXI, do Thomas Piketty.

Como o próprio autor cita na contracapa do livro, praticamente todo brasileiro conhece e se divertiu com o Mussum, mesmo os mais novos que acabaram tendo acesso aos vídeos antigos dos Trapalhões através do Youtube. Porém, pouca gente conhece a história do Antônio Carlos Bernardes Gomes, o artista por trás do personagem. Se bem que o personagem tinha muito do artista.

Eu já conhecia um pouco da história do sambista Antônio Carlos, ou Carlinhos do reco-reco, por gostar de samba e pelo fato de “Os Originais do Samba” terem sido no final da década de 60 e durante a década de 70 um dos principais conjuntos atuantes no país e no exterior, conhecendo inclusive algumas de suas aventuras por terras estrangeiras (mais precisamente durante uma temporada no México), porém o autor, Juliano Barreto, conseguiu ir a fundo na história do grupo, pesquisando muitas outras obras que cobriram os artistas contemporâneos d’Os Originais, além de entrevistas com familiares, amigos e com Bigode, o único integrante ainda vivo da formação original do grupo.

Mas além disto, o livro entra em detalhes da vida pessoal de Mussum, inclusive em detalhes que talvez alguns familiares de artistas ficariam receosos em liberar numa biografia, como os casos de infidelidade. Ponto para o autor que não hesitou em entrar neste tema e o fez sem querer criar “polêmicas”, apenas retratando fatos ocorridos, e ponto para a família que inclusive colaborou com os relatos.

Talvez a parte que seja mais interessante para quem é fã dos Trapalhões (eu sempre fui dos filmes, mas tive pouco acesso aos programas de TV quando eles estavam no ar) são as histórias por trás da produção do programa de TV e dos filmes, que não eram tão “engraçadas” quanto o resultado das produções em sí.

Além de tudo isto, como toda biografia, este livro também é interessante para mostrar um pouco do Zeitgeist, isto é, do espírito do tempo das décadas de 60, 70 e 80 no Brasil.

Be happy! 🙂

O Capital no Século XXI – Thomas Piketty (12/2015)

O Capital no Seculo XXIAssim como aconteceu com O Capital, do Karl Marx, também demorei dois meses para ler este livro. Apesar de ser tão complexo quanto o do Marx, O Capital do Piketty tem uma leitura mais fluída e mais “amigável”, muito mais com um ar de tese de doutorado (que na verdade foi o ponto de partida do livro) do que de “bíblia”, como o Capital do Marx.

Neste livro Piketty analisa a evolução do capital ao longo dos últimos três séculos para a Inglaterra e a França, e para alguns outros países (EUA, Alemanha, Japão e os países nórdicos) para os períodos onde existem informações disponíveis. Ele faz um alerta aos leitores que desejarem comparar com trabalhos prévios de outros autores (como o próprio Marx) de que ele teve, além de um histórico maior de dados com os quais trabalhar, a ajuda de computadores para compilar as informações, coisa que seus predecessores não tiveram, portanto as falhas em trabalhos anteriores seriam mais passíveis de acontecer. Mesmo assim ele não deixa de “espetar” Marx, que tendeu a selecionar casos que reafirmassem sua “crença”.

Uma das primeiras conclusões a que ele chega é que o fator que mais motiva a geração de riqueza de uma sociedade, a divisão desta riqueza de forma mais igualitária entre os membros desta sociedade e mesmo a redução das diferenças entre os países é “…a difusão do conhecimento e a disseminação de educação de qualidade”.

Porém, ao analisar a evolução e concentração do capital ao longo do tempo, nota-se que invariavelmente a tendência é de que poucas pessoas sejam detentores deste capital, ou seja, a tendência é sempre a de concentração e aumento das diferenças. A tendência foi quebrada na primeira metade do século XX por conta das duas grandes guerras e do esforço de organização pós guerra, mas os dados indicam que nas duas últimas décadas do século passado a tendência de concentração voltou a aparecer.

Para reduzir as diferenças, Piketty alega serem necessários impostos progressivos sobre a riqueza e a herança que sejam mais pesados do que atualmente e que a cobrança destes impostos fosse mais efetiva. O ideal seria um imposto mundial, que ele mesmo admite ser uma utopia, mas que trocas de informações fiscais entre os países, para evitar evasão, poderia ser um ponto de partida para que estes impostos fossem cobrados, independente de onde os recursos estivessem.

Uma crítica importante que ele faz no livro é sobre a lógica dos Estados de, ao invés de cobrarem maiores impostos quando há a necessidade de mais recursos, simplesmente tomarem emprestado (através de títulos de dívida pública com pagamento de juros) destas mesmas pessoas que seriam as que provavelmente deveriam pagar mais impostos, por terem mais recursos. E são estas pessoas que geralmente influenciam na política dos países para que seja feito desta forma, ou seja, é o capital gerando mais capital e aumentando as diferenças. Além disto, esta elite geralmente consegue manipular a opnião pública para ser contra qualquer imposto que venha a lhes “prejudicar”, mesmo que a sociedade como um todo saia ganhando.

Mas talvez a principal dica que o livro dê é que todas as pessoas deveriam procurar entender os mecanismos de acumulação de capital, de renda, etc, pois as pessoas que estão no topo da pirâmide certamente conhecem e utilizam justamente o desconhecimento dos demais em seu favor (como no caso impostos X empréstimos tomados por Estados). E neste ponto, o próprio livro do Piketty deveria ser de leitura e discussão obrigatórios nos bancos escolares.

O Mundo Assombrado pelos Demônios – Carl Sagan (11/2015)

O Mundo Assombrado Pelos DemôniosCarl Sagan foi um famoso físico americano e é mais conhecido no Brasil por conta do vídeo “Pale Blue Point” (o pálido ponto azul), que é um vídeo em que ele mostra didadicamente o tamanho e a insignificância do nosso planeta dentro do universo, clamando pela preservação do planeta, já que é o único que temos. O engraçado é que já vi muita gente compartilhando o vídeo para “exaltar as maravilhas de Deus” que criou um universo todinho só para nos colocar nele, quando na verdade o Sagan diz exatamente o contrário: o universo é gigante e o fato de um pequeno planeta de uma pequena galáxia dentro desta imensidão conseguir gerar e manter formas de vida foi um mero acaso que ocorreu contra todas as probabilidades e por isto devemos aproveitar a nossa sorte.

Neste livro ele faz uma crítica a sociedade atual americana, que vem deixando a ciência de lado e se interessando por pseudociência, misticismo e até anticiência. Quando ele fala dos “demônios”, ele quer dizer justamente as crendices populares, os misticismos e superstições que se travestem de ciência ou tentam usar pseudociência como bases (como a crença em ETs, Horóscopo, Nova Era, etc). Os 25 capítulos do livro tratam de 5 temas principais ligados à ciência.

Ele começa o livro explicando como se iniciou a paixão dele pela ciência, o que é a ciência e qual a importância dela para a humanidade (cura de doenças, produção de alimentos, etc). Ele passa pelos conflitos éticos provenientes das descobertas científicas (praticamente toda descoberta pode ser usada para o bem e para o mal, geralmente em termos equivalentes) e das situações em que elas causaram mal (mas apesar disto, ainda trouxeram benefícios).

Em seguida ele passa por alguns casos de pseudociência que foram utilizadas para suportar crendices da humanidade, passando, é claro, por uma análise da necessidade que o ser humano tem de crer em algo, o que na verdade provém em parte de uma preguiça em procurar explicações mais racionais (e simples) e preferir atribuir tudo aquilo que ele não entende a um ser supremo, a uma força superior (Deus, a força da Natureza, extraterrestres).

É interessante notar que ele não elimina nenhuma possibilidade (de que existam ETs, de que Deus exista, de que exista uma força superior), porém, existem tantas outras hipóteses a serem tentadas para explicar a leis da Natureza que chega a ser burrice a pessoa aceitar simplesmente um “é obra de Deus”. De qualquer forma, diferentemente do Dawkins, Sagan reconhece a importância social das crenças e até sua eficácia na cura de doenças psicossomáticas e neste ponto nota-se que o que mais o incomoda não são as crendices, mas sim quando elas interferem no curso da ciência ou na capacidade de uma pessoa ter pensamento cético.

Na “terceira parte” ele discorre justamente sobre o pensamento cético, que é a base para a ciência e é uma ferramenta libertadora, em todos os sentidos (econômica, política, social, etc).

Já a quarta parte faz duras críticas ao sistema educacional americano (desde a educação básica) e o fomento à pesquisa, já que existe um foco grande em formar técnicos e especialistas e, no caso da pesquisa, em financiar somente a pesquisa aplicada com objetivo determinado. O problema é que ao privilegiar a pesquisa aplicada, eles acabam por deixar de lado o livre pensamento e, através de exemplos, ele mostra que no longo prazo é o livre pensar quem cria as bases para a ciência aplicada. Ele cita o exemplo de James Maxwell, que durante as duas últimas décadas do século 19 descobriu a relação entre campos elétricos e magnéticos e desenvolveu as fórmulas que se tornariam base para vários inventos que ocorreram depois de 30, 40, 50 anos (e até hoje!), como o caso do Rádio, da TV, da comunicação por satélite, etc.

Junto à crítica ao sistema educacional (que ele diz que deve ser obrigação do Estado a não deve estar na mão da iniciativa privada), ele faz uma pequena crítica aos próprios pais, que tendem cada vez mais a deixar a parte da educação que lhes caberia à cargo da escola, como no trecho a seguir:

…Um relatório de 1994, encomendado pelo Departamento de Educação dos Estados Unidos observa:

“O dia escolar tradicional deve agora se adaptar a todo um conjunto de exigências, necessárias para o que se tem chamado ‘o novo trabalho das escolas’ – educação acerca de segurança pessoal, questões dos consumidores, AIDS, conservação e energia, vida familiar e curso de motorista.”

Assim, devido às deficiências da sociedade e às insuficiências da educação em casa, apenas cerca de três horas por dia são dedicadas, na escola secundária, às disciplinas acadêmicas básicas.

Esta parte me fez pensar que, se o sistema educacional americano, do ponto de vista dos especialistas, já estava ruim na década de 90, imagine como está agora. E imagine o sistema educacional brasileiro!

Na quinta e última parte ele discorre sobre liberdades, democracia e desenvolvimento científico e traz alguns exemplos de que quando existe liberdade e democracia a ciência avança em ritmo alucinante. Mas o inverso também é verdadeiro. Ele cita a própria União Soviética, cujo ritmo dos avanços tecnológicos foi diminuindo conforme foram diminuindo as liberdades de expressão e de pensamento e que o atraso na corrida tecnológica foi justamente uma das causas da ruina da própria União Soviética. Ele clama para que os povos nunca abram mão de suas liberdades, mas ao contrário, briguem por elas e que o povo seja o “dono” da nação, pois se o povo abre mão disto, sempre haverá um tirano (imprensa, políticos, ricos, igreja, etc) que gostaria de tomar o controle e, em tomando o controle, várias das conquistas científicas ficariam ameaçadas.

Achei o livro fantástico e recomendo até para aqueles que têm algum tipo de superstição ou crença. Acho inclusive que deveria ser leitura obrigatórias nas escolas.

Duas Narrativas Fantásticas – Fiódor Dostoiévski (10/2015)

Duas Narrativas FantásticasAs duas novelas constantes de “Duas Narrativas Fantásticas”, denominação dada pelo próprio Dostoiévski, foram publicadas inicialmente pelo autor no Diário de um Escritor, publicação mensal redigida pelo próprio autor entre 1876 e 1879.

Nas duas estórias, os respectivos personagens principais, que não têm nome, é quem são os narradores.

A Dócil

Em A Dócil, um usurário, já na casa dos 40 anos, refaz, ao lado do corpo da jovem mulher que havia acabado de cometer suicídio, todos os passos do relacionamento dos dois. Este homem, que já fora maltratado pela vida e de certa forma se vingava da sociedade através de sua profissão, ao tentar entender as razões que levaram a esposa a cometer o suicídio, percebe que ela também havia sido vítima de sua vingança.

Ao propor o casamento para a moça, ele está apenas pensando na sua “utilidade”, afinal de contas, ele planejava em três anos juntar dinheiro suficiente para comprar uma propriedade, se aposentar e constituir uma família e ela era uma peça neste seu plano. Para isto, ele estabelecer com ela uma relação de dominância e tenta fazer com que ela lhe seja subserviente. Quando esta moça resolve atentar contra este plano, ele começa a se dar conta que sente verdadeiro amor por ela.

Talvez como represália, ela comete o suicídio justamente no momento em que ele começa a tomar consciência deste amor e inclusive começa a abrir mão de suas posses e seus planos.

O Sonho de um Homem Ridículo

Nesta novela, o narrador é um homem melancólico, que se autodenomina “ridículo” e que age com indiferença à ele mesmo e à tudo aquilo que o cerca. Ao tentar cometer suicídio (simplesmente “deixar de ser/existir”), adormece em frente ao revolver e tem um sonho com o planeta terra em uma outra realidade, onde os habitantes ainda não perderam a inocência e vivem usufruindo da vida em comunhão uns com os outros e com todos os seres que os cercam.

É uma ótima reflexão sobre a velha pergunta de “qual é o sentido da vida?” e conta também com algumas críticas à sociedade da época, mas que caberiam muito bem na nossa sociedade atual. Pincei dois trechos que eu achei particularmente interessante:

“Mas a sua sabedoria era mais profunda e mais elevada que a da nossa ciência; uma vez que a nossa ciência busca explicar o que é a vida, ela mesma anseia por tomar consciência da vida para ensinar os outros a viver; ao passo que eles (os habitantes desta outra “terra”), mesmo sem ciência, sabiam como viver, e isso eu entendi, mas não conseguia entender a sua sabedoria.”

“…os ‘sábios’ esforçavam-se o mais depressa possível por exterminar todos os ‘não sábios’ que não entendiam a sua ideia, para que não interferissem no triunfo dela.”

Be happy 🙂

A Morte de Ivan Ilitch – Lev Tolstói (09/2015)

A Morte de Ivan IlitchIvan Ilitch é um respeitado Juiz de Direito, morador de São Petesburgo, casado e com um casal de filhos, que vive uma digna, feliz e adequada, segundo tudo o que a sociedade lhe ensinou.

Porém ao se deparar com uma doença incurável, ele começa a enfrentar a dor de descobrir que sua vida não foi assim tão feliz como ele imaginava. O livro toca (e faz pensar) em três assuntos distintos mas relacionados entre si.

O primeiro é a relação que a maioria dos seres humanos tem com a morte e o fato de querer evitá-la à todo custo. Ivan, assim como todos que o cercam (inclusive os médicos que tentam tratá-lo), evitam a “entrega”, ou seja, a simplesmente aceitar que a morte vai chegar para ele, assim como vai chegar para todos.

O segundo assunto refere-se à compaixão (e empatia). Excetuando-se um empregado e seu filho adolescente, todos à sua volta parecem fazer parte de um grande teatro, mesmo quando vão visitá-lo e mesmo durante os funerais, sem se importarem ou se compadecerem dele com franqueza e do fundo da alma.

O terceiro assunto, acontece quando ele tem uma conversa com um “espírito” (acredito que não seja uma figura “divina”, mas sim com sua própria consciência) e ele pergunta o porque da morte e o espírito responde “para que viver?” (a vida que ele vivia). À partir daí ele começa a se questionar se aquela vida feliz era realmente feliz e adequada e fazendo um retrospecto ele chega à conclusão que os momentos realmente felizes, em que ele fez algo que reamente lhe dava prazer, e não porque alguém falou que dava prazer ou porque era daquele jeito que tinha que ser, eram os da infância e um pouco durante a faculdade.

Ele descobre que, durante toda a sua vida ele apenas seguiu o que as convenções sociais ditaram para ele: fez uma faculdade, galgou postos na vida profissional, casou com a mulher mais “adequada”, teve filhos, etc.

Como disse Milton Ratoun, que escreve a resenha das orelhas da capa deste livro, mais do que morte, o conto fala sobre vida e sobre como viver.

P.S. Impossível não pensar, ao ler o livro, em Canto Para Minha Morte e Quando Você Crescer, do gênio Raul Seixas!

Be happy 🙂

O Escaravelho do Diabo – Lúcia Machado de Almeida (08/2015)

O Escaravelho do DiaboEste é outro livro da literatura infanto-juvenil brasileira que todo mundo leu e eu ainda não tinha lido. E olha que posso contar nos dedos os poucos livros da famosa Coleção Vagalume que eu não lí.

Publicado pela primeira vez em 1956 na revista O Cruzeiro, em forma de folhetim (a cada semana um capítulo era publicado), o romance polícial, no estilo Agatha Christie, conta a história de Alberto, um estudante de medicina, cujo irmão foi brutalmente assassinado em um crime sem aparente razão e em que a polícia não conseguiu obter nenhuma pista sobre os motivos ou sobre o assassíno.

Porém, quando um outro assassinato ocorre na cidade, Alberto liga o caso ao do seu irmão por um detalhe: tanto seu irmão quanto a segunda vítima tinham os cabelos vermelhos. Além disto, durante a investigação da cena do novo crime, uma caixa com um besouro é descoberta, o que liga o crime ao de Hugo, irmão de Alberto, pois um besouro também havia sido encontrado no quarto deste.

À partir dai, Alberto se junta ao polícial encarregado do caso para auxiliar na busca deste “assassino em série” (acho que quando o livro foi escrito, o termo nem existia).

Apesar de usar uma linguagem mais antiga e coloquial, o livro é de fácil leitura e imagino até que a autora tenha usado alguns termos “modernos” para a época, pois o público alvo dela eram os jovens e adolescentes. O mistério em sí tem um bom desenvolvimento, apesar de eu achar que o fim poderia ter sido um pouco melhor.

Mas o mais interessante do livro é o fato de mostrar alguns costumes e comportamentos de quase 6 décadas atrás. Achei muito legal também as inserções em língua estrangeira, já que a autora também tinha estudado línguas e conseguiu colocar, com as devidas notas de rodapé, algumas expressões em inglês que são usadas até hoje. Ela só poderia ter colocado uma nota traduzindo a única expressão em alemão do livro.

Be happy 🙂

O Meu Pé de Laranja Lima – José Mauro de Vasconcelos (07/2015)

O Meu Pé de Laranja LimaApesar de ter lido muitos livros na minha infância e adolescência, não sei o por quê de eu não ter lido este clássico da literatura brasileira até agora. Ainda acompanhei alguns capítulos da novela baseada no livro que passava na Bandeirantes no começo da década de 80. Não sei se pela adaptação ou por causa da minha idade na época, não consegui perceber a beleza desta obra.

Na estória, que tem ares autobiográficos por se passar onde o autor nasceu e ter personagens que fizeram parte da infância dele, Zezé, um menino de quase 6 anos que faz parte de uma família muito pobre e com muitos filhos, cria um mundo de fantasias para fugir da dura realidade da fome, das agressões dos pais e dos irmãos e das privações de coisas que outras crianças de sua idade podem usufruir.

Neste mundo de fantasia, ele cria amizade com Minguinho, um pé de laranja lima, com quem ele conversa e com quem ele brinca e vive parte deste mundo de fantasia. O livro conta várias de suas aventuras até que ele conhece o Portuga, um senhor mais velho, que tem uma afeição por Zezé e se torna uma espécie de substituto do seu pai.

Com características como a inocência e imaginação de Saint-Exupery e a ternura de Gorki, o autor coloca uma certa pitada do “coitadismo” típico do brasileiro (que eu já havia citado no artigo do Gorki), mas ele o faz de uma forma que não fica uma coisa carregada, muito pelo contrário, traz algo a mais de emoção para a história que, junto com a inocência e a ternura faz com que seja inevitável que em algumas passagens os olhos fiquem marejados.

Vou dar o livro para minha sobrinha de 10 anos para ver se ela é mordida pelo bichinho da paixão pela leitura.

Be happy 🙂

Shada – Douglas Adams & Gareth Roberts (05/2015)

ShadaImpressionante como tudo que tem a marca do Douglas Adams é simplesmente fantástico. E viciante! Shada era um roteiro para a premiada série inglesa de TV Doctor Who, da qual Douglas era produtor e roteirista, mas que nunca chegou a ser levado ao ar (apesar de ter alguns episódios produzidos e gravados).

Shada conta a aventura do Doutor, que desta vez tem que salvar o universo de Skagra, um lunático (como muitos que o Doutor enfrentou ao longo de séculos) que pretende criar a “Mente Universal”. A descrição de Skagra que consta na contracapa do livro já dá uma amostra do que está por vir durante o texto: “Aos 5 anos, Skagra conclui sem sombra de dúvidas que Deus não existia. A maioria das pessoas que chegam a tal constatação reage de uma das seguintes formas: com alívio ou com desespero. Somente Skagra reagiu pensando: ‘Peraí. Isso significa que existe uma vaga disponível.'”

Claro que Adams teve que adptar os textos a uma série de personagens e situações já criadas, o que acabou por limitar um pouco a criatividade, especialmente relativo a algumas tiradas sobre o comportamento humano, tão presente em seus livros.

Como Douglas tinha feito um roteiro para uma série de TV, que é bem diferente de um livro, a missão da adaptação coube a Gareth Roberts, que fez um trabalho fenomenal e conseguiu colocar dentro de um texto fluido, sem nenhuma nota de rodapé, detalhes que em um roteiro são mais explícitos.

Doctor Who talvez seja uma das principais influências do próprio Guia do Mochileiro das Galáxias e é impossível não notar semelhanças entre o Doutor, Romana, Chris e K-9 com Ford Prefect, Trillian, Arthur Dent e Marvin, respectivamente. Aquele típico humor britânico do Guia também é muito presente em Shada e provavelmente deve ser nas demais aventuras do Doutor.

O pior do livro foi que agora eu fiquei com vontade de assistir à série Doctor Who. O problema é que ela está no ar desde 1963 com poucas interrupções. É tanta coisa para ler e para assistir que eu teria que ser um Gallyfreyano para poder ler e ver tudo.

Be happy 🙂