Arquivo do autor:Wellington Cunha - Ruivo

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Sobre Wellington Cunha - Ruivo

Paulistano de nascimento e cidadão do mundo por vocação. Trabalha atualmente com TI, porém se interessa, literalmente, por todo tipo de assunto, o que faz dele um "palpiteiro" de marca maior. Consegue ser cético e ter ao mesmo tempo o otimismo de Cândido, achando que no final tudo dará certo. Entre suas paixões estão a música, a literatura e as conversas com amigos numa mesa de bar, regado a uma boa cerveja.

Wanderlust #37 – Los Angeles, Califórnia (3/51), Estados Unidos

Huntington Beach: 21 anos de diferença (1996 e 2017). Até as bandas que eu gosto mudaram!

“Tu não podes tomar banho duas vezes no mesmo rio, pois aquelas águas já terão passado e também tu já não serás mais o mesmo.” – Heráclito de Éfeso

Desde 2008, quando passei uma temporada na cidade (algumas info adicionais aqui), Los Angeles se tornou a minha cidade pra se morar. Tipo assim: se me dessem a oportunidade de escolher qualquer cidade do mundo para morar para o resto da vida, sem possibilidade de trocas, até a pouco tempo não teria hesitado em apontar LA. Mesmo amando São Paulo, tendo uma paixão recente pelo Rio e de ter conhecido, desde então, Berlin (que pra mim ainda é a melhor cidade do mundo no quesito geral).

Los Angeles é cosmopolita (como São Paulo e New York), tem muitas belezas naturais e ótimas praias (como o Rio de Janeiro) e é tolerante e cultural (como Berlin, com a vantagem de ter um clima melhor).

E é o lado cosmopolita da cidade que talvez esteja me afastando dela (neste sentido de talvez não achá-la mais o “melhor lugar para se morar”). Los Angeles é ampla, muito ampla. Entre o extremo sul do condado (la por Huntington) e o extremo norte (Calabasas) sao mais de 200 quilômetros. De leste a oeste a distância também é grande e, por exemplo, do alto do Griffith Observatory já não se consegue enxergar o mar.

Como toda a vida econômica, cultural e educacional se concentra numa pequena parte desta área imensa, alguns problemas são críticos na cidade: o custo de vida nesta pequena área é altíssimo, isto acaba empurrando as pessoas para áreas mais distantes e como o sistema de transporte público ainda é limitado (apesar da visível melhora dos últimos 10 anos), o trânsito é caótico durante quase todo o dia, todos os dias, incluindo os finais de semana.

Então quando cheguei desta vez em LA, depois de ter passado por Huntington Beach (uma das praias mais movimentadas, mesmo estando longe da região “central” do condado) e por Long Beach (uma das maiores cidades do condado, que mereceria mais a minha atenção), a primeira sensação foi de que hoje eu já não encararia gastar duas ou três horas do meu dia dentro de um carro para ir e voltar do trabalho. Como também não teria condicoes de bancar o custo de viver em Venice ou Santa Monica. E como fora desta área as opções para trabalho já são mais limitadas, dificilmente seria um lugar em que eu “investiria” uma mudança.

Mas voltando ao passeio, depois da viagem desde San Diego e a road trip pelas praias que ficam no caminho entre as duas cidades, era hora de visitar, novamente, o lugar em que eu batia cartão em 2008, o Britannia Pub. A viagem foi planejada para que passássemos um domingo em LA para podermos ir ao pub ver uma apresentação da “Number 9”, uma tribute band de Beatles que eu ia assistir quase todos os domingos. O bar já não é mais o mesmo (o público na época era mais descontraído e desta vez o pub crawl Santa Monica passou por lá, gerando algum incômodo) e a banda em sí já não tem a mesma pegada. Mas ainda assim tem as figurinhas de sempre: o bartender Richard dando sua canja, L.J., e mais alguns que sempre batem cartão. Valeu pela memória afetiva.

Na segunda foi dia de levar a Lu para turistar: Hollywood Bowl (dizem que é o melhor lugar para ver o supervalorizado letreiro de Hollywood) e o Griffith Park (e o observatório) de onde também se tem uma vista do letreiro, que repito, é supervalorizado (a Lú teve a mesma reação de “é só isto?” que eu tive em 1996).

Depois fomos fazer as praias ao sul de  Los Angeles que ficaram faltando no domingo:

  • Redondo Beach: tem um pier bem grande e até conta com mais atrações que o de Santa Mônica (mais restaurantes e sem o parque, que também não é lá estas coisas).
  • Hermosa Beach: praia bem simpática e com ótima infraestrutura. Daria até pra pensar em ficar alguns dias numa próxima vez. Detalhe: o tabaco é banido na cidade e é proibido fumar em qualquer área pública. Mesmo em áreas privadas (casas), a fumaça ou o cheiro não podem incomodar vizinhos e transeuntes.
  • Mission Beach: também tem uma boa infraestrutura e parece ser um lugar não só pra veraneio, mas onde as pessoas moram. Estava bem cheia para uma segunda feira.

A próxima parada/praia seria Venice e claro que no caminho passamos por Marina Del Rey para rever o lugar onde morei. Venice é um lugar para perder algumas horas andando e observando a “fauna” local (turistas, artistas de rua, locais, skatistas, etc), bem como seu habitat (bares, lojas, feiras, etc). Infelizmente estava ventando demais e tivemos que abortar a missão. Fomos deixar o carro no hotel e depois andamos até Santa Mônica. Já haviamos passado no 3rd Street Promenade (um shopping a céu aberto, com bastante movimentação, artistas de rua, etc) no domingo, antes do Britannia, por isto fomos diretos para o Pier para podermos assistir o pôr-do-sol. Depois paramos num Biergarten (Big Dean’s Oceanfront Cafe) que tem por ali para tomarmos umas cervejas e comermos algo.

Na terça feira, resolvemos não sair de carro e pegamos um ônibus até Venice para “refazer” o passeio que havia sido interrompido pela ventania. Um ponto importante aqui: hoje já dá pra se virar bem com transporte público em Los Angeles e o que ficar mais inacessível (Hollywood Bowl e o observatório, por exemplo) pode ser feito de Uber ou Lyft. Como disse, o calçadão de Vênice é pra se perder algumas horas (e é um dos melhores lugares para souvenirs também) e fomos andando até Santa Mônica, passando por Ocean Park, a praia / parque que separa as duas mais famosas praias de LA. Uma caminhada de quase 5 kilometros.

De Santa Monica pegamos o metro para ir até Hollywood Boulevard, onde ficam a famosa “Calçada da Fama” e o Chinese Theater (aquele onde os artistas deixam suas pegadas). Não é aquele passeio fenomenal, mas eu acho que é algo obrigatório pra se fazer em LA. De lá, metrô novamente e fomos para downtown. Como havia falado no artigo de 2014, downtown vem passando por um processo de revitalização e, apesar de não ser uma das melhores atrações que a cidade tem a oferecer, tem lá seu charme. O Grand Central Market é um dos lugares que, agora revitalizado, se tornou “cult”.

Estávamos decidindo o que fazer a seguir e procurando opções quando, sem querer, descobri que havia um bar da Mikkeller em Downtown LA, pertinho de onde estávamos e perto da estação onde deveriamos pegar o metrô de volta para o hotel. Nem hesitamos muito para encerrarmos nossa passagem por uma cidade pela qual eu sempre terei um carinho fazendo algo que eu aprendi a fazer justamente nesta cidade: apreciar cervejas diferentes.

Tudo muda, as cidades mudam, as situações mudam, mas principalmente as pessoas mudam. Desde 2008 a cidade mudou bastante, mas eu mudei ainda mais: conheci outros lugares, tenho outros valores, estou vivendo uma outra situação. Hoje Los Angeles talvez perderia pra San Diego (ou mesmo San Francisco) o posto de “lugar para se morar para o resto da vida”. Mas a Califórnia ainda continua imbativel. E ganhou mais pontos ainda com a extensão desta viagem, que fica para os proximos Wanderlusts.

Observações, dicas e considerações:

  • Nos EUA é comum o garçom ou barman vir de tempos em tempos perguntar se esta tudo bem, se quer mais alguma coisa, etc. Quando voce senta em mesa, é praticamente certo que após algum tempo o garçom ja trará sua conta. O que nunca havia reparado é que os sistemas dos bares é feito para isto: quando voce pede algo, ele deixa seu status como verde, depois de um certo tempo o status passa para amarelo e é nesta hora que o garçom vem verificar se voce precisa de algo mais. Se voce pedir algo, ao entrar o pedido, o status volta novamente para o verde e o ciclo se reinicia. Porém, se não entrar pedido na mesa ou conta, depois do amarelo, o sistema muda pra vermelho, ou seja, o cliente está ali dando prejuízo, pois esta ocupando espaço sem consumir nada. É nesta hora que o garçom vem te expulsar…..hahaha
  • É chato para o cliente, mas do ponto de vista do “negócio” o sistema é interessante. Mas ele é meio burro num sentido e situação: quando o bar está vazio, é melhor voce ter uma “possibilidade” de consumo (alguém que esta lá e pode, a qualquer momento, fazer um pedido), do que simplesmente eliminar esta possibilidade mandando o cliente embora. Mas como os americanos já são acostumados, são poucos os lugares que não seguem este sistema à risca (preferindo ficar vazios) e são pouquíssimas pessoas que reclamam (geralmente os gringos).
  • Ande sempre com moedas para o parking. Apesar da maioria dos parquímetros aceitarem cartão, fica mais fácil estender o tempo programado com moedas.
  • Como citei, o transporte público de Los Angeles (e da Califórnia em geral) melhorou muito nos últimos 10 anos. Com o advento dos aplicativos de serviços de transporte individual privado, um carro já não é mais obrigatório para visitar a cidade, como era há uns 10 anos.

Be happy 🙂

Huntington Beach

Richard e sua tradicional canja com a Number 9 no Britannia Pub – Santa Monica

Griffith Park

Redondo Beach

Mission Beach

Genios no grafite de Venice Beach

Santa Monica vista do pier

Venice Beach

Ocean Park

O pier de Santa Monica

Grand Central Market, Downtown LA

Mikkeller Downtown LA: 40 torneiras (+ 2 casks + 5 torneiras de vinho) de Mikkeller e do melhor das cervejarias californianas.

Wanderlust #36 – San Diego, Califórnia (3/51), Estados Unidos

San Diego Bay

Como havia dito no post da minha visita a San Diego de 2014, este foi o primeiro lugar que eu conheci fora do Brasil, lá nos meus 19 anos. A cidade tem mudado muito, mas eu também tenho mudado, então algumas coisas acabaram por me surpreender novamente.

O sistema de transporte público da cidade esta muito mais abrangente. Hoje um carro já não é essencial para visitar a cidade e dá pra se virar bem com a rede de transportes atual e Uber / Lyft. A mudança de mentalidade em relação à mobilidade urbana é gritante na California em geral: em pouquissimo tempo (de 2008 pra cá) as cidades se organizaram e as pessoas mudaram seus habitos.

Como uma coisa puxa a outra, a cidade está mais bem preparada para quem se locomove a pé, com revitalização de bairros antes “perigosos” (ocupar o espaço público é uma das melhores formas pra combater a criminalidade), bares e restaurantes abertos e/ou com mesas na calçada, praças e até uma feira livre. Little Italy (um dos melhores lugares pra se hospedar), Downtown e o Gas Lamp district são os melhores exemplos desta mudança.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o movimento cervejeiro local. Em basicamente todo bairro tem um brew pub, inclusive alguns já ícones da recente escola cervejeira americana, como a Ballast Point e a Coronado.

Como era a primeira vez da Lu na California, basicamente fiz o mesmo roteiro de praias que fiz em 2014, e só troquei o USS Midway pelo Gas Lamp District.

Tambem fomos passear por uma manhã no Balboa Park, o principal parque da cidade, que também conta com uma série de museus.

Na subida pra Los Angeles, fomos passando e parando em algumas outras praias, algumas que eu já queria parar (pra conhecer ou rever) e algumas escolhidas aleatoriamente. Pra facilitar, vou colocar em tópicos:

  • Torrey Pines: o tempo estava meio fechado e como aparentemente não tinha muitas atrações, resolvemos nem parar. Mas se tivéssemos mais dias na cidade, talvez valeria à pena conhecer.
  • Del Mar e Solana Beach: o tempo ainda estava fechado e uma das faixas estava fechada por conta de uma corrida, então não conseguimos parar também.
  • Encinitas: esta escolhemos aleatoriamente. Interessante: as casas ficam em cima de uma encosta e tem um baita escadão pra acessar a praia. O tempo ainda estava meio fechado, mas deu pra ver que é uma das mais requisitadas da região, principalmente por surfistas.
  • Carlsbad: esta eu já tinha passado em 2014 (e muito provavelmente em 1996), mas nunca parei. Cidadezinha de veraneio, com alguns hotéis, pousadas, restaurantes. Muito simpática. Se tiver oportunidade no futuro, gostaria de passar mais tempo e pernoitar na cidade.
  • Ocean Side: havia parado em 2014 e achei interessante voltar. A praia e o pier são bem movimentados. É uma cidade de veraneio, maior e mais urbanizada que Carlsbad. Outra que valeria a pena para passar alguns dias e pegar uma praia.
  • San Clemente: acabamos só passando por dentro da cidade, fugindo do transito, já que ela não tem acesso ao mar, pois encontra-se atrás de uma base naval.
  • Dana Point: já no condado de Orange County (do famoso seriado OC), umas das praias menos badaladas e propícia para esportes em mar tranquilo (como stand up paddle). Pelo jeito é uma das preferidas de banhistas também. Queria ter parado da outra vez, não sei porque não o fiz, mas desta vez não deixei passar.
  • Laguna Beach: esta é uma das praias mais procuradas de Orange County, principalmente por gente jovem que só quer curtir a praia, e nao “ostentar” como em New Port. Infelizmente não paramos (senão teriamos que pular outras praias por conta do tempo).

Se à partir de 2008 eu vinha considerando Los Angeles a melhor cidade do mundo pra morar pro resto da vida (a melhor na categoria geral ainda é Berlin), depois desta viagem já estou considerando San Diego para o posto. Até porque as mudancas de Los Angeles estão levando a cidade para um caminho diferente do meu, que tambem vivo mudando. Mas falo disto no próximo Wanderlust.

Observações, dicas e considerações:

  • Achamos uma praça John Basilone, o heroi de Raritan (a cidade de menos de dez mil habitantes onde moramos, em New Jersey).
  • O brew pub da Ballast Point lota. Tentamos ir na sexta-feira e estava simplesmente impossível de ficar lá dentro. E como (ainda) não se pode beber em público em San Diego, preferimos deixar a visita pro sábado à tarde. Eles têm até um Biergarten (pra mim nunca será Beer Garden) que é uma boa pedida em dias de tempo ameno.
  • Interessante como a cultura de Biergartens está se disseminando nos EUA. As pessoas querem fazer do ato de ir ao bar mais do que aquele encostar no balcão de madeira e encher a cara de Bud Light. Isto está fazendo até as leis quanto ao consumo de bebida em público e de licenciamento de estabelecimentos que vendem álcool (onde era proibida a entrada de menores de 21 anos) ficarem menos restritas.
  • Se a Ballast Point estiver cheia, vale uma tentativa na Bolt Brewery, uns dois quarteirões pra frente (sentido Downtown). Não tem o Biergarten, mas tem ótimas cervejas.
  • Nos dois brew pubs o sistema é de ir pedir no balcão, inclusive a comida, que depois é trazida pelos garçons (a cerveja você mesmo leva). Eventualmente, dependendo da boa vontade do garçom (de ganhar umas gorjetas) e da lotação, depois da primeira cerveja, ao notar o copo vazio, eles vêm perguntar se quer mais uma. Mas não conte com isto.
  • Passeando pelo Balboa Park vi uma coisa bem interessante: uma barraca de “evangelistas ateus”! Sabe aquelas barraquinhas que se vê em vários pontos de São Paulo com duas ou três pessoas, em trajes “sociais”, um cavalete com uma placa, algumas revistas, etc? Imagino que sejam as Testemunhas de Jeová. Bem, primeiramente também tem nos EUA, Bélgica e Portugal. Mas voltando ao assunto principal: tinha uma barraquinha no mesmo estilo, com vários folhetos pendurados, revistas e algumas pessoas dispostas à conversar sobre pensamento cético, ateísmo, etc. Achei muito interessante!

Be happy 🙂

Imperial Beach – San Diego

Sunset Cliffs – San Diego

Sunset Cliffs – San Diego

La Jolla – San Diego

Balboa Park – San Diego

Ballast Point – San Diego

Praça John Basilone – Little Italy – San Diego

Encinitas

Carlsbad

Ocean Side

Dana Point

Wings of Madness: Alberto Santos-Dumont and the Invention of Flight – Paul Hoffman (06/2017)

Nunca imaginei que um dia iria ler uma biografia do Santos-Dumont. Não que não o ache um personagem interessante e importante para a história, não só do Brasil, como do mundo, pois ele teve participação importante num dos inventos que mudaram os rumos da humanidade. O que sempre me afasta dos “heróis nacionais” é justamente a maneira como o povo em geral trata os brasileiros com algum destaque (esportivo, científico, artístico, político, etc). Ou é uma exaltação exacerbada, ou trata como piada, ou infringe a eles uma cobrança excessiva. Na maioria das vezes as três coisas acontecem alternadamente e, incrivelmente, até simultaneamente.

Imaginei menos ainda que leria uma biografia sobre Santos-Dumont escrita por um americano. Mas a minha amiga Rebeca me presenteou com este livro, que foi uma grata surpresa justamente por fugir da “canonização” que provavelmente ocorreria se o autor fosse brasileiro. Mas que ao mesmo tempo dá o devido valor à importância do bibliografado, enquanto faz algumas correções históricas, todas elas muito bem documentadas.

Também é muito interessante, como toda biografia, como uma fotografia do Zeitgeist, o espirito do tempo, em que o personagem viveu.

O livro começa traçando a árvore genealógica de Santos-Dumont, contando brevemente a história de seus antepassados, desde os avós paternos e maternos, e dá uma atenção especial em como o pai de Santos-Dumont se estabeleceu e fez fortuna. Depois, passa brevemente pela infância do futuro inventor e por sua adolescência até a sua primeira mudança para a Franca.

A partir dai o livro relata de forma detalhada, incluindo muitas citações de publicações e do próprio Santos-Dumont, todo o processo de educação e de contato de um jovem com as novidades de uma metrópole mundial durante a virada de século. Depois começa a detalhar todos os seus experimento e experiências. Interessante notar a forma educada e sem extremismos ou julgamentos que o autor usa para documentar a suposta homossexualidade de Santos-Dumont.

Durante todo o livro, o autor vai contando, paralelamente à historia de Santos-Dumont, o que ocorria na mesma época em relação à aeronavegação, desde os primórdios do balonismo. Então invariavelmente, quando se aproxima de 1906 (o “vôo” oficial do 14-bis ocorreu em 23 de Outubro de 1906), outros inventores que trabalhavam em “máquinas voadoras” também são apresentados, como Samuel Langley e os irmãos Wright. Estes já haviam inclusive iniciado os estudos e experimentos com aeronaves mais pesadas que o ar bem antes de Santos-Dumont, que até o início de 1906 ainda focava em balões dirigíveis.

Assim como boa parte das invenções e descobertas da humanidade, os equipamentos que nos permitem voar também são o resultado de geração e disseminação coletiva de conhecimento: eles se baseiam em várias descobertas anteriores que foram sendo aperfeiçoadas e complementadas por diversas pessoas em diferentes partes do mundo, simultaneamente. Em algum momento, alguma destas pessoas teria a “sorte” de conseguir uma versão funcional do invento ou de realizar a descoberta, ficando desta forma com a glória e marcando seu nome na história (e, em alguns casos, obtendo lucro).

O livro não foge à polêmica (somente para os brasileiros, importante citar), e eu também não vou fugir: Santos-Dumont foi o primeiro homem a controlar um dispositivo de vôo, foi o primeiro homem a desenvolver equipamentos pessoais de voo (os tão sonhados “carros voadores”, e não desenvolveu apenas um, mas dois: um mais leve que o ar e um mais pesado), ganhou diversos prêmios, etc. Mas não foi a primeira pessoa a voar num equipamento mais pesado que o ar.

Além das testemunhas dos experimentos dos irmãos Wright, que ocorriam desde 1903, os avanços apresentados por eles em 1908, quando finalmente (e com todas as patentes garantidas) apresentaram o seu equipamento de forma oficial ao mundo, não seriam possíveis sem vôos anteriores. E não adianta nem alegar que “ah, mas ele não saiu do chão por conta própria”, primeiro porque isto não importa, podia ser um planador, uma asa delta, ainda assim teria atingido o feito de ser o primeiro equipamento mais pesado que o ar a voar, e em segundo, tirando a forca dos próprios motores, as aeronaves dos Wright só contavam com a força da gravidade (quem usava uma catapulta era o Aerodrome do Langley, que nunca chegou a voar). O avião, como existe hoje, tem muito mais dos Wrights do que de Santos-Dumont.

Mas isto, de forma alguma, tira a importância de Santos-Dumont para o desenvolvimento da aeronavegação. Muito pelo contrário, além de todos os feitos citados anteriormente, alguns dos estudos conduzidos por ele e algumas das soluções encontradas quando dos seus experimentos com os equipamentos mais leves que o ar devem ter sido utilizados por outros inventores e construtores, inclusive os irmãos Wright, no desenvolvimento dos seus equipamentos. Até porque Santos-Dumont tornava público todos os seus esquemas e desenhos. Um pioneiro do “open source”.

Be happy 🙂

P.S. o livro traz uma curiosidade interessante: a corda guia. Sabe aquelas cordas que ficam penduradas nos cestos dos balões? Além de servir para “ancorar” o  balão e para guiar o pouso (com a ajuda de pessoal em terra), ela tem a importante função de servir de lastro (ballast, outra curiosidade, esta cervejeira!). Explico: como o hidrogenio é um gás que se expande e se contrai muito rapidamente de acordo com a pressão, quando o balão está subindo, a expansão do gás poderia fazer com que ele “disparasse” para cima numa velocidade muito alta. O mesmo aconteceria durante o pouso: o gás contrairia a ponto de transformar o pouso numa “colisão com o solo”. Porém a corda serve como um lastro: enquanto ela esta no chão, ela nao gera peso para o balão, mas enquanto o balão está subindo, ela vai saindo do chão e gerando peso (lastro), impedindo assim a “disparada”, mesmo enquanto o hidrogênio se expande. O inverso também ocorre: durante o pouso, a medida em que o gás se contrai e acelera a queda, a corda vai sendo “deitada” no chão, reduzindo assim o peso do balão e desacelerando a descida. Solução simples mas genial!!!!

Cerveja, Alemães e Juiz de Fora – Alexandre Hill Maestrini (05/2017)

Quando conheci Juiz de Fora, no ano passado, eu fiquei impressionado com o movimento de cervejeiros artesanais na cidade. Diferentemente de São Paulo, onde excetuando-se alguns “dinossauros” (como o Frangó), o circuito de cervejas especiais se concentra em bares novos que nasceram especificamente para o ramo, enquanto os bares mais antigos parecem não aderir à nova “onda”, preferindo se concentrar nas cervejas comerciais já famosas, em Juiz de Fora voce encontra cervejas artesanais / especiais convivendo em perfeita harmonia com as cervejas comerciais, tanto em bares novos quanto em bares antigos.

Ponto para a diversidade e a ausência de “frescura” em querer dividir os consumidores entre “os seres iluminados que bebem puro malte” e a “ralé que toma SAL (Standard American Lager) estupidamente gelada”. Acho que já falei isto aqui, mas vale a repetição: cada um bebe aquilo que lhe convier, no momento em que lhe convier. Eu gosto de tomar IPAs, APAs e Witbiers, mas se eu estou numa praia no nordeste, sob um sol de 40 graus, aquela “cerveja de milho” estupidamente gelada e que desce que nem água é mais adequada ao momento e ao próposito (de matar a sede, de refrescar e, por que não, embriagar) do que uma Imperial IPA. E parafraseando o amigo e cervejeiro Cadú Zamoner: tem cerveja puro malte ruim e tem cerveja com aditivos boa.

Então, quando visitei a cidade, fiquei muito contente de poder tomar algumas especiais na Timboo e na Antuérpia, como tambem apreciar algumas cervejas diferentes no Bar do Bigode e no Bar do Leo, intercaladas por Originais ou Serramaltes.

O autor resgata no livro, além da história do recente renascimento da cultura cervejeira juizforana, um pouco da história do passado cervejeiro da cidade, ligado à migração alemã (lembrando que à época as fronteiras na Europa eram bem diferentes) que ocorreu para a cidade em meados do século XIX. Importante notar a ligação da recente onda de cervejarias/cervejeiros, que ocorreu justamente quando da instalação de uma planta da Mercedez Benz na cidade, que trouxe uma outra onda migratória de alemães para a região.

O livro tem ares de trabalho acadêmico, e a maior parte do conteúdo se refere a um mapeamento das cervejarias e cervejeiros locais e suas histórias. Portanto não é um livro de leitura fluida e talvez não aguce o interesse de quem não tenha uma ligação com a cidade ou não tenha interesse na cultura cervejeira.

Mesmo tendo o foco neste mapeamento da historia e da atual onda cervejeira, acho que ficou faltando algumas informações. Uma breve introdução contando a história da cerveja (como eu fiz neste post) seria interessante para os principiantes (o livro Cerveja, Brejas e Birras também serviria como um introdutório). Tambem teria sido interessante descrever um pouco do processo de produção, já que ao longo do livro, vários termos (como rampas, recirculação, priming, airlock, entre outros) aparecem e podem deixar os novatos um pouco perdidos.

Um ponto que se nota bastante no livro é a famosa burocracia brasileira, que impede que os cervejeiros artesanais possam comercializar seu produto, mesmo quando produzido em pequena escala, como produto artesanal que é. Poderiam estabelecer algumas regras mais simples para pessoas que comercializam, sei lá, até 100 ou 150 litros por mês. Afinal de contas, exigir todo um processo industrial para permitir que os produtores comercializem acaba por retirar o caráter artesanal.

Mas acho que a maior falha do livro acontece justamente ao cair no erro de “classificar” cerveja artesanal e/ou puro malte como cerveja boa e querer colocar as cervejas industriais / comerciais como produtos ruins. Primeiro que “bom e ruim” são conceitos subjetivos e pessoais. Não dá para falar para alguém que gosta de tomar Brahma que ela e uma cerveja ruim. No máximo pode-se falar que você não gosta de Brahma, mas para aquela pessoa que aprecia, ela é uma boa cerveja. Não se pode querer medir todo mundo com sua própria régua.

E quando se incorre neste erro (de querer elevar as “puro malte” como única cerveja “de verdade”), geralmente acaba-se apelando para a Reinheitsgebot, a famosa lei da pureza alemã, para “avalizar” que cervejas puro malte são as “verdadeiras cervejas”. Primeiramente que a famosa lei tinha um caráter mais econômico do que de busca da qualidade. Segundo é que ela ja não existe há algum tempo como lei, apesar de ainda ocorrer na prática na Alemanha (as grandes cervejarias alemãs ainda produzem segundo a lei, mais por costume do que por obrigação). Até tem surgido algumas ondas de cervejeiros inovadores, especialmente em Berlin, que não seguem a lei. Terceiro que alegar que cerveja é so “agua, malte e lúpulo (e fermento)” acaba por desprezar a criatividade da escola belga (com suas fruit beers) e da recente escola americana (com suas misturas e invenções), sem falar das rice beers japonesas, além de limitar o próprio potencial cervejeiro brasileiro, já que, como um pais de dimensões continentais e com uma flora bastante diversa, o país oferece inúmeras possibilidades de matérias primas para inovar e, quem sabe, fazer o país se tornar uma escola cervejeira relevante.

Be happy 🙂

Eduardo e Marina: mais do mesmo – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 14 de Outubro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


 

Devido ao meu ceticismo, acompanhei de longe (porém, com otimismo!) as já tão comentadas manifestações de junho por todo o Brasil. Muitos meios de comunicação, sociólogos, cientistas políticos, entre tantos outros, tentavam entender o que estava acontecendo, ou seja, o que estava por traz dos 20 centavos.

Acabei apelidando o movimento de “Marcha dos Descontentes”. As pessoas que estavam ali compunham toda a diversidade do povo brasileiro, em credos, ideologias políticas, classes sociais, etc. Por tratar-se de uma massa tão heterogênea, não havia um ponto específico em comum que seria o desejo, porém, estava muito claro o que todas aquelas pessoas não queriam. Não queriam a continuidade do modelo político atual, que apesar de ser democrático, permite que, com o devido conhecimento do processo, determinados grupos se perpetuem no poder, mesmo sendo estes grupos adversários ideológicos. Queriam também que os políticos brasileiros trabalhassem, como seria natural, em prol da população, e não em prol de interesse deles mesmos e de uma pequena minoria.

Usando como “amostra” amigos meus que participaram dos movimentos, notei esquerdistas radicais que se desiludiram com o movimento de centralização do PT (e também, por incrível que pareça, do PCdoB), esquerdistas moderados também desiludidos com o PT por conta do sepultamento do discurso da ética na política, sociais democratas descontentes com a movimentação rumo à direita do PSDB, direitistas descontentes com as alianças entre alguns de seus representantes (PP por exemplo) com o PT, entre tantos outros.

Marcha dos descontentes e não representados.

Notei uma grande semelhança desta massa com os quadros do movimento Rede Sustentabilidade, encabeçado pela Marina Silva, mas que conta com nomes como Walter Feldman (PSDB), Heloísa Helena (ex PT e PSOL) e Alfredo Sirkis (PV). Apesar de entender a opção da Rede de não se envolver diretamente como movimento, já que as manifestações estavam querendo se desvincular de partidos políticos (e até hostilizando membros de partidos), eu achei, na época, que seria uma boa oportunidade para ambos (a massa e o movimento Rede) afinarem discursos e criarem uma identidade político-ideológica (mesmo que isto gerasse divisões na hora do movimento virar partido, justamente por conta de ideologias totalmente distintas).

Também tenho acompanhado o movimento Rede Sustentabilidade desde o começo deste ano. A parte do manifesto da Rede que mais atraiu minha simpatia, foi a que trata do jogo político atual, ao qual à Rede se opunha, especialmente no que tange ao fisiologismo puro, ou seja, o abandono de sua ideologia em função apenas do poder. (Quem pensaria, há alguns anos atrás, em ver o PT se unindo a Paulo Maluf, por exemplo?)

Por ser um movimento novo, que ainda nem é um partido, e por ter uma identidade ainda em formação, como citado acima, não compreendia a pressa em se tornar partido e lançar candidatos na eleição do próximo ano, já que, como o próprio discurso diz, o movimento ia contra o “poder pelo poder”.

Qual não foi minha surpresa (e decepção) quando, no dia 02 de outubro, Marina Silva anunciou sua filiação ao PSB e a disposição de ser vice de Eduardo Campos, na próxima corrida presidencial, levando consigo a votação impressionante obtida na última eleição e seu bom desempenho nas pesquisas de intenção de voto para 2014.

À exemplo do que aconteceu com o PT, a Rede mostrou, mais uma vez, que o que move os partidos e os políticos (e aqui podemos generalizar, já que se trata da ampla maioria), ao invés de ideologias e um projeto de nação, é apenas o poder e projetos de poder. Infelizmente, acabo tendo que concordar com alguns estrangeiros que têm mais conhecimento do Brasil quando dizem que “o Brasil é o país do futuro. E sempre será!

Em tempo: o rompimento do PSB com o governo, a união deste com a Rede e a comemoração do fato pelo PSDB me lembrou muito o livro 1984. No clássico de George Orwell (imperdível, assim como A Revolução dos Bichos, outro clássico do autor), o mundo era dividido em três mega potências: a Eurásia, a Lestásia e a Oceania. Estas três potências alternavam entre si os aliados e inimigos: ora a Eurásia e a Lestásia se uniam em guerra contra a Oceania, no momento seguinte o inimigo comum da Oceania e da Lestásia virava a Eurásia, e assim sucessivamente, mantendo o mundo em um estado constante de guerra.

O inimigo a ser batido no momento é o PT e os demais se uniram para isto, mas não duvido nada que, num futuro próximo, PT e PSDB se unam em âmbito nacional (em níveis regionais já ocorreu) para derrotar o PSB e/ou a Rede, ou qualquer outro bloco que venha a surgir.

P.S.: O título deste texto me ocorreu devido à duas músicas da Legião Urbana: Eduardo e Mônica, do disco Dois, e Mais do Mesmo, do disco seguinte, Que País É Este? (pergunta que também poderia servir de título para este texto).

Be happy! 🙂

Dexter is Dead – Jeff Lindsay (04/2017)

Depois dos acontecimentos ao final do último livro, Dexter se encontra, finalmente, atrás das grades. Mas ironia do destino: desta vez por crimes que ele não cometeu. Além de preso, ele se vê abandonado pelos “amigos” e pela família, ficando perdido nas entranhas do sistema. E o único que se dispõe a ajudá-lo é seu irmao, Brian. Só que Brian também está envolvido em problemas tão grandes (ou até maiores) que os de Dexter e o preço desta “pequena” ajuda pode sair muito caro para o nosso querido anti-herói.

Não sei se é um recurso literário esta tática de enrolar bastante no início do livro e depois criar um êxtase fazendo as coisas correrem mais depressa do meio pro final (assim como começar com capitulos curtos e ir alongando durante o decorrer do livro), mas isto sempre me incomodou (inclusive no Stephen King, meu autor favorito). Se é um recurso literário, desta vez o Jeff Lindsay exagerou: quase 80 páginas (um quarto do livro) para descrever a monótona rotina do Dexter na cadeia.

Parece que ele tinha que bater uma meta de quantidade de páginas para poder vender o livro como um romance ao invés de classificar como um conto. Além do Lindsay parecer estar de saco cheio e cumprindo a obrigação de escrever o livro.

Talvez seja o pior da série, mas ainda assim ficou bem mais digno do que o final da série televisiva.

Para quem acompanhou toda a saga, vale para encerrar o ciclo, sem apresentar muitas surpresas e sem ser um ótimo livro.

Be happy 🙂

Wanderlust #35 – Washington, District of Columbia (2/51), Estados Unidos

Como havia falado no post de Baltimore, ao invés de ficarmos em Washington para o Thanksgiving, acabamos decidindo por fazer apenas um “day trip”, já que a cidade fica a cerca de uma hora de Baltimore. A decisão de ficar em Baltimore foi boa, como já comentado, mas acho que fazer apenas um bate e volta pra Washington não foi suficiente. Valeu a pena, claro, mas estando lá descobrimos que valeria a pena dispender mais tempo na cidade.

Como provavelmente voltarei à cidade e farei outro post, não me estenderei muito neste.

Assim como aconteceu no Brasil em relação a Brasília, a cidade de Washington (e todo o distrito de Colúmbia) foi criada já com o intuito de servir como capital do país. O ato que estabeleceu a criação, de 1790, também já instituiu a localização (às margens do rio Potomac) e, com a doação de terras pelos estados de Maryland e Virginia, estabeleceu-se o local atual. O ato também serviu para definir a organização política da cidade e do distrito em sí. Apesar de ter um prefeito, o congresso americano é quem tem a palavra final sobre qualquer lei da cidade. O Distrito também tem um deputado (apenas um), porém não tem senador.

A semelhança com Brasília vai além da idéia de uma cidade independente para servir de capital: a disposição dos prédios públicos nas duas cidades é bem parecida. Existe um parque contínuo (National Mall), equivalente à Esplanada dos Ministérios. Ao longo desta “esplanada” se concentram os ministérios e muitos museus. A diferença é que ao invés dos poderes se concentrarem em apenas um dos extremos, o Congresso americano se concentra em um dos extremos, enquanto no outro extremo se encontra a Casa Branca. Nas vias paralelas à esta esplanada ficam diversos outros órgãos, como o departamento de justiça, o FBI, etc.

Além de passearmos por esta esplanada, apenas demos uma volta por downtown, mas não deu pra vermos muita coisa.

Pretendemos voltar para passarmos um tempo maior, então, provavelmente num futuro (nem tão próximo), faça um post mais completo.

Observações, dicas e considerações:

  • É impressionante como existe a cultura de visitar museus nos EUA. Todos os vários museus ao longo da National Mall apresentavam filas gigantescas.
  • Fiquei impressionado com a quantidade de food trucks. Talvez porque na National Mall não tenha muitos locais para comer (precisa sair para as paralelas ou as transversais para encontrar restaurantes), a “esplanada” toda é tomada por food trucks. E quando eu falo “tomada” eu quero dizer pelo menos uma centena deles!

Be happy 🙂

The White House (os fundos!)

Downtown

Uélito em Uóshitu!

A Riqueza Na Base da Piramide e o Bolsa Familia – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 28 de Setembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Em 2005, um professor (já falecido) de Harvard, chamado CK Prahalad, lançou um livro chamado “A Riqueza na Base da Pirâmide”. A teoria dele basicamente diz que quanto mais a população pobre de determinado país (que são sempre a maioria da população) têm acesso ao mercado de consumo, mais isto gera riquezas para todos os extratos da sociedade e para a nação como um todo. Baseado nesta tese, ele diz que as empresas podem ajudar as pessoas em benefício próprio futuro. Um grande exemplo brasileiro, estudado por Prahalad, é o senhor Samuel Klein e suas Casas Bahia, que tem como público alvo as classes mais baixas.

Apesar de não citar explicitamente, a teoria dele faz contraponto à Mais-Valia descrita por Marx, já que, se as classes que controlam os meios de produção aumentarem a sua margem ao ponto de remover seus empregados do mercado de consumo, simplesmente irá extinguir este mercado de consumo.

Em 2009 estávamos discutindo as teorias de Prahalad em uma aula da minha pós-graduação e resolvi fazer a relação entre estas teorias e o principal programa social do governo Lula/Dilma, o Bolsa Família.

Assim como o PT demonizou as privatizações (E agora recorrem à ela!), a direita (a linha hoje é tão tênue que fica complicado utilizar conceito de direita e esquerda no Brasil) também tenta demonizar o principal programa do Lula.

O Bolsa Família é uma junção de várias bolsas (escola, gás, entre outras) que nasceram primeiramente no Distrito Federal, através do seu então governador Cristovam Buarque, em meados da década de 90. Depois foi levado ao âmbito nacional durante o primeiro governo de Fernando Henrique, através de uma proposta do senador Eduardo Suplicy.

Quando Lula se elegeu, ele unificou as bolsas em uma só e aumentou bastante a abrangência do programa.

O Bolsa Família tem três funções primordiais:

  1. Melhorar a distribuição de renda, diminuindo as diferenças;
  2. Combater a fome;
  3. Evitar o trabalho infantil e a evasão escolar.

O valor da bolsa é pensado de uma forma que supra as necessidades básicas de uma família, mas ao mesmo tempo não permita acomodação ou luxos. Ao contrário do que dizem, o valor não é “por cabeça” e existe a contrapartida das crianças estarem na escola (aí caímos no outro problema da educação básica, mas é assunto para outro texto).

O valor é em dinheiro, centralizado, através de um cartão benefício, por alguns motivos:

  • Problemas de logística: imaginem centralizar cestas básicas e ter que distribuir isto por um país com extensão continental igual ao Brasil;
  • Uso das “cestas” em troca de voto;
  • Desvio durante o processo;
  • E o principal: incentivo à economia local e consequentemente nacional.

Este último ponto é muito importante, pois a inserção dos beneficiários no mercado consumidor gira toda uma roda da economia que tem beneficiado até os tais “classe média” chorões.

Uma explicaçãozinha básica de como a “roda da economia” gira: uma certa região começa a receber o benefício do Bolsa Família. As pessoas do local passam a consumir mais. O “Seo Zé”, dono da vendinha, começa a vender mais, logo, terá que contratar mais funcionários, que por consequência, assim como o “Seo Zé”, também vão consumir. Gera renda e trabalho para o caminhoneiro, que terá mais produtos até a tal região. Gera renda nos postos de gasolina ao longo do caminho, nos restaurantes, etc.

Bem, este pessoal está consumindo todo tipo de produto, como alimentos, produtos de higiene e até alguns “supérfluos”, como computador, televisão, refrigerador, etc., incentiva a agricultura, incentiva as fábricas. A empresa em que eu trabalho, que faz bens de consumo (higiene pessoal, medicamentos…), também tem sua produção aumentada, portanto, terá que contratar mais funcionários, ou seja, mais pessoas dentro da economia de consumo.

Estes funcionários, os tais “classe média” que reclamam do “Bolsa Esmola”, ao invés de estarem desempregados, estão recebendo um bom salário porque o “vagabundo do beneficiário” está consumindo mais produtos.

Estes mesmos “classe média”, com emprego gerado pelo aumento do consumo, estão comprando TVs de LCD, carros, viajando pra Miami, gerando empregos em indústria automotiva, turismo, etc., que por consequência, gera emprego em atividades extrativistas (petróleo, minerais).

No final de tudo isto, o acionista da empresa onde eu trabalho, lá nos EUA, tá rindo de orelha a orelha, pois nos últimos anos viu sua operação no Brasil (e em outros mercados emergentes) crescer à taxa de 25% ao ano, enquanto as operações nos países de primeiro mundo, devido à uma crise mundial, encolheram. No final suas ações se valorizaram e ele recebeu seu quinhão de lucro.

P.S.: Sou capitalista até o último fio do cabelo, e como “capitalista” entendo que só existe lucro se existe mercado consumidor.

P.S. 2: Classe média, hoje em dia, mais do que uma classe social, é um “estado de espírito”. Existem “classe média” ricos, pobres e “classe média”, na acepção real do termo. Mas basicamente é aquele sujeito que acha que o mundo gira em torno dele, que só olha para o próprio rabo, que reclama que carrega o mundo nas costas, que critica ferozmente os atos de corrupção de políticos enquanto dá uma “cervejinha” para o guarda fazer vistas grossas à uma multa de trânsito.

Be happy! 🙂

Orwell’s Revenge: The 1984 Palimpsest – Peter Huber (03/2017)

Em 1994 Peter Huber teve uma brilhante idéia: desmembrar sua edição de 1984, escanear todas as páginas usando um software de reconhecimento de caracteres (OCR) e fazer uma análise do livro com a ajuda do seu computador pessoal, a máquina que Orwell quase chegou a prever e que seria o instrumento para a propagação e manutenção de tiranias, de acordo com o clássico publicado em 1949. Indo mais além, Huber também escaneou todas as obras publicadas de Orwell (ensaios, romances, contos), alguns outros textos, transcrições do programa que ele apresentou por algum tempo na rádio BBC e textos biográficos sobre Orwell de autoria de outros.

Ao analisar o livro e os demais textos ele notou que 1984 era um recorte de outros textos e pensamentos que Orwell havia escrito até então e resolveu, ele mesmo (Huber), “reescrever” 1984 usando a mesma técnica que Orwell utilizou (recortar e colar trechos de outros textos). Claro que depois de tomar esta liberdade, o próximo passo foi “corrigir” o que Orwell havia errado em suas previsões, adicionando coisas que talvez ele nem imaginasse que iriam acontecer. Na verdade, o livro é uma sequência, já que a estória relata fatos posteriores a 1984, em que o rumo da estória muda de acordo com e como as tecnologias se desenvolveram e foram adotadas desde que o livro havia sido escrito.

Além de ser uma estória nova, o livro é ao mesmo tempo um estudo sobre a obra e a vida de Orwell, inclusive chegando a fazer uma análise de como a infância e adolescência do autor (como um bolsista de origem simples dentro de uma escola de ricos) moldou seu carater e gerou um ódio ao rentismo, ao capitalismo, aos mercados (quando eles saem do nível de trocas voluntarias entre “pessoas físicas”) e ao dinheiro.

Um ponto importante a considerar é que a escolha do ano de 1984 como sendo o ponto futuro foi totalmente aleatória, apenas invertendo os dígitos finais do ano em que o livro foi concluído (1848 -> 1984). Orwell não estava de forma alguma querendo fazer uma previsão de que aquilo seriam os proximos passos, mas apenas retratar o que ele achava que aconteceria no futuro, sem estabelecer um prazo pra isto.

E o que ele (Orwell) imaginava que iria acontecer tem muito a ver com suas crenças e seu pessimismo. Quem lê apenas Animal Farm ou 1984 talvez imagine que Orwell fosse um ferrenho crítico das teorias de Karl Marx, mas na verdade ele era um socialista convicto e sua crítica ao sistema implementado na antiga União Soviética, por exemplo – e especialmente em Animal Farm – se dá justamente porque ele acredita que as sociedades só iriam evoluir para um estado de bem estar geral sob o comando central do Estado, de uma centralização nas decisões econômicas e com os meios de produção sendo controlados democraticamente através de um Estado.

E aí entra um dos maiores dilemas enfrentados por Orwell: enquanto ele abomina totalmente o capitalismo e os mercados, pois entende que, invariavelmente eles levam a uma concentração de poder (monopólio) nas mãos de meia dúzia de rentistas (oligarquias), ele também não consegue encontrar uma solução para que uma sociedade coletivizada mantenha-se democrática, pois ele entende que invariavelmente uma sociedade com planejamento central tende a se tornar um Estado totalitário, com o poder nas mãos do grupo político que conseguir controlar este Estado no momento certo. Huber traz justamente à tona este problema que Orwell não conseguiu resolver: se o capitalismo (livre mercado) e o socialismo (planejamento central através do Estado) resultam em concentração de poder na mão de poucos e opressão de muitos, o que fazer para evitar o Big Brother ou um Napoleão?

Segundo uma das “previsões” de Orwell, a Telescreen, um tipo de “telefone com imagem” (Skype?) seria utilizado como intrumento de controle social pelo partido no poder, que teria ascendido ou das oligarquias detentoras dos monopolios ou através de grupos politícos, no caso de uma sociedade centralizada. O que Orwell não consegue imaginar é que, da mesma forma que a Telescreen poderia transmitir informações para os ministérios, ela também poderia ser usada para transmitir informações entre qualquer pessoa, desta forma contrabalanceando a “centralização” de informações. Da mesma forma, a Telescreen como se desenvolveu (Internet) descentraliza a geração das informações, já que a história fica espalhada em milhares de lugares e fica difícil para qualquer governo controlar e alterar os fatos, como era comum na Alemanha Nazista e na União Soviética socialista, por exemplo. Mais um “tiro n’água” de Orwell.

Talvez os maiores “erros” (lembrando que o próprio Orwell evitava usar as palavras “profeta” e “profecia”, pois ele tinha consciência que a chance de erro é infinitamente maior do que a de acerto, sempre!) foi achar que o livre mercado sempre leva a monopólios e que, para produzir grandes inventos (como um avião, por exemplo) o planejamento central (estatal ou corporativo) seria mandatório. Quanto ao primeiro erro, talvez ele se surpreendesse se tivesse vivido um pouco mais para testemunhar que o livre mercado pode até conduzir a um monopólio temporário, mas que esta “bolha” sempre estoura e, por ironia, sempre são mantidas por intermédio do Estado, principalmente em democracias. É o Estado que, afim de “proteger os interesses nacionais” ou “evitar concorrência desleal”, cria regras para proteger monopólios e oligopólios. Quanto ao segundo erro, basta ver que quanto mais o conhecimento é distribuido e o planejamento “quebrado” em partes menores, mais avanços tecnológicos são obtidos. Talvez para tirar um grande projeto do papel realmente seja necessario um “sponsor”, porém a necessidade se dá mais pelo fator financeiro do que científico.

A solução para a questão do Estado Totalitário, que segundo Orwell invariavelmente ocorreria, acabou sendo a propria Telescreen/Internet. Porém, a Internet, as novas tecnologias e os modelos de economia compartilhada ameaçam o status quo: elas estão criando a possibilidade de uma sociedade com oportunidades e equidade que as teorias baseadas em Marx nunca conseguiram entregar, enquanto ao mesmo tempo quebram a lógica da concentração de poder e renda que as “elites” e os políticos tem no denominado “Capitalismo”. Só falta a massa perceber que o embate à partir de agora não deveria mais se dar entre Estado X Iniciativa Privada, Coletivo X Individual, Mercado X Planejamento Central, o embate à partir de agora é entre o progresso e o conservadorismo, tanto daqueles que querem manter as coisas no estado atual (concentração de renda e poder nas mãos de poucos), quanto daqueles que ainda insistem em uma utopia com quase dois séculos de idade: todo o poder na mão de um Estado, que em tese e utopicamente seria democratico, mas que apenas move a concentração de poder do campo econômico para o político.

Mesmo que Orwell não tenha estabelecido justamente 1984 para suas “previsões” e que boa parte delas não tenham ocorrido como ele imaginava, a epoca escolhida aleatoriamente por ele se dá exatamente quando uma das rupturas que geraram o mundo atual e, talvez tenham sido até uma das responsáveis por desviar a humanidade do caminho previsto por ele, foi massificada: o Computador Pessoal. No ultimo capitulo do livro, Huber trata justamente do nascimento de duas indústrias (B&B, Bell & Blue, Bell Telecom & IBM) que são as principais responsáveis pelos incríveis avancos tecnológicos ocorridos à partir da década de 80: as telecomunicações e os computadores. Mas Huber, assim como Orwell, tambem foi traido pelo tempo: ele escreveu seu livro em 1994, apenas alguns anos antes da popularização da Internet. A “rede” já existe desde os anos 60, mas seu uso ficava restrito às universidades, e a “barreira” foi ultrapassada justamente por conta do aumento da capacidade de tráfego nas redes de telecomunicações. Se tivesse esperado alguns anos, talvez Huber tivesse escrito um outro livro. Ou talvez já esteja na hora de escrever um Orwell’s re-revenge.

Uma coisa Orwell conseguiu acertar no alvo: o duplipensar. A unica diferenca é que ele imaginava que “dar sentidos diametralmente opostos a uma mesma palavra” seria algo imposto de cima para baixo, pelo “partido” (ou a corporação) detentora do poder. Talvez seu pessimismo se agravasse ao perceber que, com o “controle da verdade” nas mãos da massa, é a propria massa que cria expressões com sentido oposto no intuito de validar suas proprias incoerências (e justificar seus ódios e preconceitos). Exemplos? Os termos politicos “liberal conservador” ou “conservador liberal”, que nem semanticamente fazem sentido!

Be happy 🙂

Justiça – Michael J. Sandel (02/2017)

Este é mais um daqueles livros que deveriam ser de leitura obrigatória nas escolas e universidades, inclusive devendo ser relido algumas vezes. Exagerando um pouco: deveria ser pré-requisito para quem quisesse comentar sobre política na Internet….hehehe.

Sandel é um filosófo americano e o livro, cujo subtítulo é “O que é fazer a coisa certa”, é um apanhado do que ele discute em uma materia chamada “Justiça” que ele mesmo leciona em Harvard e que é atendida especialmente por alunos de direito.

O livro discorre sobre três principais linhas filosoficas do que é certo: o utilitarismo (o bem comum como princípio básico das sociedades), o libertarianismo (a liberdade individual como o princípio básico) e uma “terceira via” que fica no meio termo e que, justamente por variar de sociedade para sociedade, é de dificil delimitação e generalização. Ele aborda cada uma das linhas através do uso de muitos exemplos reais, alguns casos de dilemas morais e, principalmente, confrontando estes casos e dilemas com as duas primeiras linhas e tentando chegar a um meio termo que, repito, varia muito de acordo com os valores e a formação histórica das sociedades.

Durante o livro ele traz idéias de vários filosofos, tais como Aristóteles, Immanuel Kant, John Stuart Mill, John Locke, John Rawls, entre outros, sempre situando as idéias destes autores dentro do espectro entre o interesse comum (da família, da sociedade, de uma nação, da humanidade) e a liberdade individual.

Entre os assuntos, casos e dilemas, o livro fala de intervenção no livre mercado (“é  errado que vendedores possam cobrar mais por seus produtos se aproveitando da escassez gerada por um desatre natural?”), a relação entre igreja e Estado, direitos humanos, as obrigações impostas através de acordos sociais tácitos (impostos, voto, serviço militar obrigatório), o “valor da vida” (qual a quantidade de mortes aceitáveis no transito para justificar um aumento de velocidade, por exemplo), aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outros. Mas dois me chamaram bastante a atenção, especialmente pelo fato de vermos, pelo menos no Brasil, discussões muito exacerbadas e onde cada um dos lados nunca procura entender as causas da própria posição, quem dirá da posição do outro.

O primeiro é a questão da meritocracia. No Brasil existem os defensores e os detratores do sistema meritocrático, com poucas pessoas realmente entendendo o que seria a meritocracia em sí. A meritocracia tem a intenção de premiar o esforço do indivíduo ao realizar determinada tarefa ou função. Mas ai entra na questão de realmente separar o que é mérito do que são circunstâncias do acaso, ou seja, a pura sorte. Até que ponto o fato de eu ter nascido com um bom raciocínio lógico em uma época e sociedade onde esta aptidão é valorizada é merito meu? Certamente eu investi bastante tempo desenvolvendo este “dom”, mas será que conseguimos mensurar o quanto realmente existe de esforço individual e onde, portanto, a meritocracia é aplicável, da pura sorte ou das condições do ambiente? Alguem que recebeu uma heranca, certamente não pode contá-la como mérito próprio, por exemplo. Como criar mecanismos para equilibrar as condições, ou seja, a linha de partida, entre pessoas que não tiveram a sorte de nascer em um lar com melhores condições com aqueles que tiveram esta sorte?

Outro assunto que me chamou a atenção foi a da questão das cotas raciais, que trouxe um ponto de vista totalmente diferente e que fez com que eu mudasse de idéia sobre o assunto pela terceira vez na minha vida. Inicialmente eu tinha restrições, por achar que acabam por criar um grupo de “excluidos entre os excluidos”, depois fui entender que não se trata de “corrigir erros do passado”, mas sim “corrigir o futuro” e agora eu ja mudei totalmente a minha visão, concordando com o Sandel.

Primeiro o Sandel traz o  caso de uma universidade pública no Texas onde uma candidata não conseguiu ser aceita para determinado curso, apesar de ter um histórico escolar melhor e melhores notas no SAT (o “ENEM” dos EUA) do que alguns outros alunos que entraram através de outros critérios (étnicos, esportivos, etc). Esta aluna entrou com uma ação e a justiça entendeu (como tem entendido para a maioria dos casos parecidos) que, se a regra quanto aos critérios de admissão eram claras antes do inicio do processo, não há do que reclamar. A instituição tem o poder de definir os critérios que bem entender para selecionar seus alunos.

E ai o Sandel diz que, para que os critérios sejam justos, a universidade deve adotar os criterios de seleção que se adequem à sua missão e valores, independente de ser uma instituição particular ou pública. O “justo” neste caso é medido do ponto de vista universidade, e não do candidato/aluno. E foi ai que eu acabei concordando totalmente com ele e mudando de opnião sobre o assunto.

Vou tentar aplicar este pensamento no caso da USP.

Se a missao da USP, por exemplo, é “proporcionar ensino de alta qualidade e gratuito para aqueles que melhor se classificarem no teste de aptidão”, realmente o vestibular, da maneira que é hoje, seria a maneira “justa” de acordo com a missão da instituição. Mas se esta for a missão da USP eu, como contribuinte, sou até a favor do fechamento dela e que os recursos destinado a ela fossem investidos em outras prioridades (como educação básica). Nao faz sentido a sociedade pagar para que alguns poucos afortunados tenham a chance de obter uma qualificação acima da média, sem retorno (ao menos mensurável) para a própria sociedade. Para mim, educação deve ser encarada como investimento por uma nação.

Agora, se entre uma das missoes da USP estiver a “disseminação do conhecimento, afim de proporcionar o bem estar geral da sociedade, promovendo um ambiente diverso e plural…”, acho inclusive que as “cotas” são muito pouco para atingir esta missão e deveriam criar uma forma de reproduzir entre seus quadros a mesma pluralidade existente na sociedade, criando “cotas” de gênero, classe social, etnias e até de orientação sexual, usando como base a distribuição geral de cada um destes grupos na sociedade brasileira.

E ao refletir sobre isto, tambem me ocorreu o seguinte pensamento: será que alguns detratores das cotas raciais existentes hoje, ao aplicarem para cursos em universidades estrangeiras, que valorizam muito a diversidade entre seus quadros, especialmente nos cursos de graduação (mestrado e doutorado), pois entendem que se tiverem apenas alunos com as mesmas caracteristicas (sociais, étnicas, etc) a geração e disseminação de conhecimento fica comprometida, apelam para a sua “latinidade” afim de aumentar as suas chances? No minimo seria incoerente, pra nao dizer hipócrita mesmo.

Be happy 🙂