Orwell’s Revenge: The 1984 Palimpsest – Peter Huber (03/2017)

Em 1994 Peter Huber teve uma brilhante idéia: desmembrar sua edição de 1984, escanear todas as páginas usando um software de reconhecimento de caracteres (OCR) e fazer uma análise do livro com a ajuda do seu computador pessoal, a máquina que Orwell quase chegou a prever e que seria o instrumento para a propagação e manutenção de tiranias, de acordo com o clássico publicado em 1949. Indo mais além, Huber também escaneou todas as obras publicadas de Orwell (ensaios, romances, contos), alguns outros textos, transcrições do programa que ele apresentou por algum tempo na rádio BBC e textos biográficos sobre Orwell de autoria de outros.

Ao analisar o livro e os demais textos ele notou que 1984 era um recorte de outros textos e pensamentos que Orwell havia escrito até então e resolveu, ele mesmo (Huber), “reescrever” 1984 usando a mesma técnica que Orwell utilizou (recortar e colar trechos de outros textos). Claro que depois de tomar esta liberdade, o próximo passo foi “corrigir” o que Orwell havia errado em suas previsões, adicionando coisas que talvez ele nem imaginasse que iriam acontecer. Na verdade, o livro é uma sequência, já que a estória relata fatos posteriores a 1984, em que o rumo da estória muda de acordo com e como as tecnologias se desenvolveram e foram adotadas desde que o livro havia sido escrito.

Além de ser uma estória nova, o livro é ao mesmo tempo um estudo sobre a obra e a vida de Orwell, inclusive chegando a fazer uma análise de como a infância e adolescência do autor (como um bolsista de origem simples dentro de uma escola de ricos) moldou seu carater e gerou um ódio ao rentismo, ao capitalismo, aos mercados (quando eles saem do nível de trocas voluntarias entre “pessoas físicas”) e ao dinheiro.

Um ponto importante a considerar é que a escolha do ano de 1984 como sendo o ponto futuro foi totalmente aleatória, apenas invertendo os dígitos finais do ano em que o livro foi concluído (1848 -> 1984). Orwell não estava de forma alguma querendo fazer uma previsão de que aquilo seriam os proximos passos, mas apenas retratar o que ele achava que aconteceria no futuro, sem estabelecer um prazo pra isto.

E o que ele (Orwell) imaginava que iria acontecer tem muito a ver com suas crenças e seu pessimismo. Quem lê apenas Animal Farm ou 1984 talvez imagine que Orwell fosse um ferrenho crítico das teorias de Karl Marx, mas na verdade ele era um socialista convicto e sua crítica ao sistema implementado na antiga União Soviética, por exemplo – e especialmente em Animal Farm – se dá justamente porque ele acredita que as sociedades só iriam evoluir para um estado de bem estar geral sob o comando central do Estado, de uma centralização nas decisões econômicas e com os meios de produção sendo controlados democraticamente através de um Estado.

E aí entra um dos maiores dilemas enfrentados por Orwell: enquanto ele abomina totalmente o capitalismo e os mercados, pois entende que, invariavelmente eles levam a uma concentração de poder (monopólio) nas mãos de meia dúzia de rentistas (oligarquias), ele também não consegue encontrar uma solução para que uma sociedade coletivizada mantenha-se democrática, pois ele entende que invariavelmente uma sociedade com planejamento central tende a se tornar um Estado totalitário, com o poder nas mãos do grupo político que conseguir controlar este Estado no momento certo. Huber traz justamente à tona este problema que Orwell não conseguiu resolver: se o capitalismo (livre mercado) e o socialismo (planejamento central através do Estado) resultam em concentração de poder na mão de poucos e opressão de muitos, o que fazer para evitar o Big Brother ou um Napoleão?

Segundo uma das “previsões” de Orwell, a Telescreen, um tipo de “telefone com imagem” (Skype?) seria utilizado como intrumento de controle social pelo partido no poder, que teria ascendido ou das oligarquias detentoras dos monopolios ou através de grupos politícos, no caso de uma sociedade centralizada. O que Orwell não consegue imaginar é que, da mesma forma que a Telescreen poderia transmitir informações para os ministérios, ela também poderia ser usada para transmitir informações entre qualquer pessoa, desta forma contrabalanceando a “centralização” de informações. Da mesma forma, a Telescreen como se desenvolveu (Internet) descentraliza a geração das informações, já que a história fica espalhada em milhares de lugares e fica difícil para qualquer governo controlar e alterar os fatos, como era comum na Alemanha Nazista e na União Soviética socialista, por exemplo. Mais um “tiro n’água” de Orwell.

Talvez os maiores “erros” (lembrando que o próprio Orwell evitava usar as palavras “profeta” e “profecia”, pois ele tinha consciência que a chance de erro é infinitamente maior do que a de acerto, sempre!) foi achar que o livre mercado sempre leva a monopólios e que, para produzir grandes inventos (como um avião, por exemplo) o planejamento central (estatal ou corporativo) seria mandatório. Quanto ao primeiro erro, talvez ele se surpreendesse se tivesse vivido um pouco mais para testemunhar que o livre mercado pode até conduzir a um monopólio temporário, mas que esta “bolha” sempre estoura e, por ironia, sempre são mantidas por intermédio do Estado, principalmente em democracias. É o Estado que, afim de “proteger os interesses nacionais” ou “evitar concorrência desleal”, cria regras para proteger monopólios e oligopólios. Quanto ao segundo erro, basta ver que quanto mais o conhecimento é distribuido e o planejamento “quebrado” em partes menores, mais avanços tecnológicos são obtidos. Talvez para tirar um grande projeto do papel realmente seja necessario um “sponsor”, porém a necessidade se dá mais pelo fator financeiro do que científico.

A solução para a questão do Estado Totalitário, que segundo Orwell invariavelmente ocorreria, acabou sendo a propria Telescreen/Internet. Porém, a Internet, as novas tecnologias e os modelos de economia compartilhada ameaçam o status quo: elas estão criando a possibilidade de uma sociedade com oportunidades e equidade que as teorias baseadas em Marx nunca conseguiram entregar, enquanto ao mesmo tempo quebram a lógica da concentração de poder e renda que as “elites” e os políticos tem no denominado “Capitalismo”. Só falta a massa perceber que o embate à partir de agora não deveria mais se dar entre Estado X Iniciativa Privada, Coletivo X Individual, Mercado X Planejamento Central, o embate à partir de agora é entre o progresso e o conservadorismo, tanto daqueles que querem manter as coisas no estado atual (concentração de renda e poder nas mãos de poucos), quanto daqueles que ainda insistem em uma utopia com quase dois séculos de idade: todo o poder na mão de um Estado, que em tese e utopicamente seria democratico, mas que apenas move a concentração de poder do campo econômico para o político.

Mesmo que Orwell não tenha estabelecido justamente 1984 para suas “previsões” e que boa parte delas não tenham ocorrido como ele imaginava, a epoca escolhida aleatoriamente por ele se dá exatamente quando uma das rupturas que geraram o mundo atual e, talvez tenham sido até uma das responsáveis por desviar a humanidade do caminho previsto por ele, foi massificada: o Computador Pessoal. No ultimo capitulo do livro, Huber trata justamente do nascimento de duas indústrias (B&B, Bell & Blue, Bell Telecom & IBM) que são as principais responsáveis pelos incríveis avancos tecnológicos ocorridos à partir da década de 80: as telecomunicações e os computadores. Mas Huber, assim como Orwell, tambem foi traido pelo tempo: ele escreveu seu livro em 1994, apenas alguns anos antes da popularização da Internet. A “rede” já existe desde os anos 60, mas seu uso ficava restrito às universidades, e a “barreira” foi ultrapassada justamente por conta do aumento da capacidade de tráfego nas redes de telecomunicações. Se tivesse esperado alguns anos, talvez Huber tivesse escrito um outro livro. Ou talvez já esteja na hora de escrever um Orwell’s re-revenge.

Uma coisa Orwell conseguiu acertar no alvo: o duplipensar. A unica diferenca é que ele imaginava que “dar sentidos diametralmente opostos a uma mesma palavra” seria algo imposto de cima para baixo, pelo “partido” (ou a corporação) detentora do poder. Talvez seu pessimismo se agravasse ao perceber que, com o “controle da verdade” nas mãos da massa, é a propria massa que cria expressões com sentido oposto no intuito de validar suas proprias incoerências (e justificar seus ódios e preconceitos). Exemplos? Os termos politicos “liberal conservador” ou “conservador liberal”, que nem semanticamente fazem sentido!

Be happy 🙂

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