Arquivo anual: 2015

Um Estudo Em Vermelho – Sir Arthur Conan Doyle (18/2015)

Um Estudo Em VermelhoTirando os filmes de Sherlock Holmes mais recentes, com o Robert Downey Jr e o Jude Law, nunca tinha assistido ou lido nada de Sherlock Holmes. Achei bem legal e até fiquei interessado em ler outras estórias do detetive mais conhecido do mundo (bem como de ler algo da Agatha Christie, pois nunca li nada dela também).

Este é o primeiro livro com o inteligente e arrogante detetive, e conta como ele e o Dr Watson se conheceram e também dá uma pequena introdução à vida de Holmes e seu método dedutivo.

Narrada por Watson, conta a história de um assassinato ocorrido em situação bem estranha, e que justamente por este motivo, faz com que a Scotland Yard convoque o “consultor” Holmes para ajudar na investigação. Durante a investigação deste primeiro assassinato, um outro assassinato relacionado ao primeiro acontece e, rapidamente o livro nos leva à solução do caso, ou pelo menos à parte dela, que é saber quem é o assassino.

Na seqüencia existe um “interlúdio”, que inicialmente não faz sentido algum, mas que no final vai explicar as motivações dos dois crimes. Logo após este interlúdio, que é feito por um narrador “oculto”, Watson volta aos seus relatos, e então Holmes descreve a seqüência lógica que o levou a desvendar o crime.

Ok! Talvez nos dias de hoje, com computadores, testes de DNA, balística, etc as “pistas” de Holmes pareçam banais (lembremos também que provavelmente o autor partiu do final e depois “encontrou” evidências para suportar este final, o que também torna a tarefa mais fácil), mas imaginem como estas deduções lógicas, baseadas em fatos científicos, muito à frente da época em que os livros foram escritos, deviam aguçar a curiosidade dos leitores..

De qualquer forma, o livro é um ótimo entretenimento, que afinal é o que importa.

Be happy! 🙂

Wanderlust #29 – Brasília, Distrito Federal, Brasil

01 Eixo Monumental - Brasilia - DF - BrasilEntre as pessoas que eu conheço e que já manifestaram alguma opnião sobre Brasília, existem 3 grupos facilmente identificáveis: o primeiro grupo é de pessoas que amam a cidade, formado na sua maioria por pessoas que nasceram ou cresceram na cidade, ou pelo menos que já vivem lá durante algum tempo. O segundo grupo é de pessoas que simplesmente odeiam a cidade. Uma boa parte nem sequer a visitou, mas já formou seu julgamento à partir do que ouviu ou do que viu através de fotos. Alguns poucos já estiveram (ou viveram) realmente na cidade, mas não se adaptaram. O terceiro grupo é daqueles que tiveram uma primeira impressão ruim, mas que foram cativadas, porém não têm coragem de admitir que gostam e por isto falam mal dela, mas ficam putos se outra pessoa fala mal.

CONIC

CONIC

Vou dizer que eu sou “ponto fora da curva”, já que não tinha uma opnião pré concebida e acabei gostando muito da cidade. Apesar de achar que deve ser uma cidade muito, mas muito mais legal para morar do que para fazer turismo.

Não vou nem entrar na história da cidade, já que é obrigação de todo brasileiro saber como se deu a construção da cidade, que foi planejada para ser a capital do Brasil. Vou direto ao que eu fiz lá.

Jardins do Palácio Itamaraty

Jardins do Palácio Itamaraty

Na quinta feira era feriado de 9 de Julho em São Paulo e foi bom para “sentir” a cidade no seu dia a dia. Primeiramente fomos até a torre de TV, localizada no Eixo Monumental (o “corpo” do avião), cujo mirante dá vista para praticamente todo o plano piloto. De lá, seguimos sentido Esplanada dos Ministérios, mas antes, próximo à Rodoviária Central, demos uma passada no CONIC, que é uma mistura de Galeria Pajé com Galeria do Rock em São Paulo, e onde se encontram diversas lojas populares (restaurantes, cabelereiros, lojas de departamentos, etc) e alternativas (camisetas, discos, tatuagem, etc). Um destaque do CONIC são os grafites em sua área interna, que valem a visita para quem curte street art. Infelizmente não conseguimos passar na Rodoviária para comer um pastel, que me disseram ser o melhor de Brasília.

Praça dos Três Poderes

Praça dos Três Poderes

Em seguida passamos em frente à Biblioteca Nacional e fomos até o Museu Nacional. Ambos os edifícios são bonitos mas, assim como no Memorial da América Latina, em São Paulo, a área onde eles se encontram poderia ter uma pouco mais de verde e menos, bem menos, de concreto. O Museu apresenta algumas obras interessantes de artistas contemporâneos. Vale a visita. Logo em seguida, fomos à Catedral Metropolitana,  e simplesmente não achei a maravilha da arquitetura que a maioria das pessoas acha (não é implicância com o Niemeyer, juro). Pode até ser interessante do ponto de vista técnico, mas visualmente não gostei.

Logo na sequencia, após a Catedral e indo sentido à Praça dos Três Poderes, fica a Esplanada dos Ministérios. Engraçado que quando a gente vê na TV imagina que cada prédio (que abriga um ou mais ministérios) fica a uma distância considerável de outro, já que normalmente fazem um enquadramento fechado, para pegar somente aquele ministério, mas na verdade é um conjunto de prédios enfileirados, a não mais do que 100 metros um do outro. Atrás deles ficam os anexos dos ministérios, que foram construidos posteriormente para abrigar o crescimento tanto dos ministérios como da quantidade deles.

Supremo Tribunal Federal

Supremo Tribunal Federal

Após os ministérios, ficam os dois prédios mais bonitos da Esplanada (um de cada lado): o Palácio Itamaraty, que tem um belo paisagismo do Burle Marx e o Palácio da Justiça, com seus arcos invertidos formando cascatas. Ligando os dois palácios se encontra a Alameda dos Estados, onde se enfileiram os pavilhões de todos os estados brasileiros, mais o do Distrito Federal e a própria bandeira do Brasil.

Em seguida vem o Congresso Nacional, talvez o prédio mais famoso do Niemeyer e do Brasil, que fica na Praça dos Três Poderes, tendo o STF de um lado e o Palácio do Planalto do outro lado. Novamente na praça dos três poderes senti falta de verde, de árvores. Tinhamos programado fazer a visita guiada ao Itamaraty neste dia, mas eu estava de bermuda e durante a semana não é permitido, assim como na visita ao Congresso. Mas agendei para voltar no outro dia (é uma boa agendar, até para verificar se existe cerimonial, que podem causar a suspensão dos tours guiados).

Palácio do Planalto

Palácio do Planalto

À noite conhecemos um bar chamado “La Loca de tu Madre”, na Asa Sul. Achei bem legal os bares, restaurantes e outros estabelecimentos similares em Brasilia, pois as áreas externas destes se encontram nos fundos das quadras (se imaginarmos que a frente seja a rua), geralmente em uma área gramada e cheia de árvores.

No outro dia resolvemos andar pelo Parque da Cidade, desde a W3 Sul 713 até o Eixo Monumental, uma caminhada de uns 5kms. Logo após tomei um táxi até o Congresso, pois queriamos fazer a visita guiada. No Congresso, o salão verde, com suas obras de arte, é um dos destaques especialmente pela exposição rotativa dos presentes oferecidos por autoridades de outras nações. Após a passagem pelo salão verde, o grupo tomou uma passagem subterrânea que dá acesso ao Senado e lá pudemos observar o “plenarinho”, que eram os móveis que compunham o Senado original, no Rio de Janeiro, e que ainda está aguardando um local para serem expostos. Nos dirigimos até a Câmara dos Deputados, onde o guia nos explicou todo o funcionamento, tanto processual quanto técnico, das votações. Depois fomos até o plenário do Senado, onde estava ocorrendo uma sessão solene. Gostaria de ter acompanhado uma votação, mas já valeu a sessão solene.

Palácio da Justiça

Palácio da Justiça

Após a visita, um “amigo de um amigo” que trabalha no Senado nos levou para tomar o café de graça mais caro da minha vida (o café é gratuito, qualquer cidadão pode tomar, mas ele é pago com nossos impostos!) e para conhecer alguns lugares no Congresso que, apesar de abertos ao público, não são incluidos na visita guiada. Então passamos por outra passagem subterrânea (que lembra um filme de ficção científica) até o Anexo IV da Câmara dos Deputados. Lá subimos até o terraço, onde se encontram um restaurante e uma lanchonete (abertos ao público) e de onde se tem uma vista bem legal do Congresso.

O próximo passeio era a visita guiada no Palácio Itamaraty. Se por fora o prédio já é o mais belo da Esplanada, por dentro não deixa para menos. Depois da visita guiada, novamente encontramos uma “amiga de um amigo” que é diplomata e que nos levou para conhecer salões que não são abertos ao público e, como ela já trabalhou no cerimonal do Itamaraty, nos explicar com mais detalhes o funcionamento do órgão. Após o passeio era hora de voltar para ver o famoso por do Sol de Brasília.

Congresso Nacional

Congresso Nacional

A noite fomos jantar no Faisão Dourado, um ótimo restaurante onde além da qualidade, o preço vale muito a pena (também pela quantidade servida).

No sábado de manhã demos um pulo no Mercado Municipal, que é uma imitação em menor escala (bem menor) do Mercado Municipal de São Paulo. Apesar de ser pequeno, a variedade de produtos é muito grande até impressiona! Depois fomos até o Quituart, uma “praça de alimentação” que fica perto do Lago Norte, degustar uma bela de uma Porqueta no Le Birosque. Depois do almoço seguimos rolando até o Mercado Cobogó, um misto de café e galeria de arte, na SCRN 704/705, onde estava rolando uma feira de artes muito legal. Ótimo é notar que, assim como vem ocorrendo em São Paulo, a galera de Brasília tem ocupado os espaços públicos com arte, culinária ou qualquer coisa que o valha. Inclusive uma galera de Valinhos que faz xilografia “despencou” do interior de São Paulo à bordo de uma bela Veraneio para participar do evento. Além de poder prestigiar vários artistas locais, ainda foi possível tomar umas cervejas especiais no Fusbier. Depois da feira fomos até o Objeto Encontrado, um outro misto de café e galeria que, segundo os brasilienses, tem o melhor cheese cake da cidade. Discordo deles: é o melhor cheese cake do Brasil.

Parque da Cidade

Parque da Cidade

À noite já estava reservada para curtir a festa Simetria, organizada também por um “amigo de um amigo”, no Velvet Pub, uma casa que poderia estar tranquilamente localizada no Bixiga. Interessante notar a mistura de tribos convivendo em harmonia no mesmo local.

No domingo fomos conhecer  a ponte JK, uma ponte estaiada cuja arquitetura dá de dez a zero nas duas estaiadas de São Paulo, e que passa pelo Lago Sul, que conta nas suas margens com uma ótima área de lazer e uma “praia” para quem está longe do litoral (senti uma ponta de inveja pelos rios Tietê e Pinheiros não serem limpos) e na sequência fomos até o Palácio da Alvorada. Deve ser legal fazer o passeio lá, mas ele que ocorre somente às quartas feiras.

Salão Verde - Congresso Nacional

Salão Verde – Congresso Nacional

Para finalizar fomos almoçar no restaurante Casarão, que serve em mesas espalhadas por uma praça e cuja refeição (e algumas cervejas) são acompanhadas por um grupo de chorinho. O programa é tão agradável que dá vontade de voltar só para curtir um domingo ali. Como o resto da cidade também te atrai de volta, existem muitos motivos para eu voltar à Brasilia. Aliás, existem vários motivos para até morar em Brasília!

Observações, dicas e considerações:

  • A falta de conhecimento do funcionamento da nossa democracia e a falta de respeito às nossas instituições democráticas talvez diga muito do porque sempre sermos “o país do futuro”. Tinha gente que estava na visita ao congresso esperando para encontrar a Dilma. E muito provavelmente para chamá-la de vaca, cadela, terrorista, etc. Lamentável!!!!
  • Gostei bastante da forte presença da arte de rua em Brasília. Tem muito grafite e lambe-lambe espalhados pela cidade. E o melhor de tudo: sem desrespeitar a arquitetura.
  • Por falar em arquitetura, aqueles prediozinhos todos padronizados, com os “jardins” entre eles, lembra muito a arquitetura da parte oriental de Berlin com seus prédios “comunistas”.
  • Fiquei curioso para saber o porque do choro ser tão popular e forte em Brasília!
  • Os motoristas em Brasília respeitam faixa de pedestre. Outro ponto positivo para a cidade.
  • Sério que alguém não consegue entender o sistema de ruas de Brasília? Em meia hora na cidade dá para você aprender a se localizar: asa norte, asa sul e cada lado do “corpo do avião”. Contando à patir do eixo central, os “bairros” são numerados em centenas (a centenas ímpares ficam no oeste e as pares no leste, em relação às asas) e as quadras são contadas em decimais, à partir do eixo central. É lógica pura! Se me der o endereço me acho fácil por lá.
  • Pessoal de Brasília tem mania de falar que tudo é longe e que táxi é caro. Acho que eles têm a mesma cultura “carrista” de SP. Do Velvet Pub até a W3 Sul, na Q 713 (quase no final) deu 20 reais de táxi. Eu gasto entre 40 e 50 para ir da Vila Madalena, na Zona Oeste, até a Freguesia, que podemos considerar Zona Noroeste (fica na Zona Norte, mas bem na divisa entre as duas regiões).
  • A receptividade do povo de Brasília é bem acima da média brasileira e muito acima de São Paulo.

Be happy! 🙂

Senado Federal

Senado Federal

Plenarinho - Senado Federal

Plenarinho – Senado Federal

Câmara dos Deputados

Câmara dos Deputados

Congresso Nacional

Congresso Nacional

Palácio Itamaraty

Palácio Itamaraty

Cobogó

Cobogó

Cobogó

Cobogó

Cobogó

Cobogó

Objeto Encontrado

Objeto Encontrado

Ponte JK

Ponte JK

Palácio da Alvorada

Palácio da Alvorada

Chorinho dominical no Casarão Restaurante

Chorinho dominical no Casarão Restaurante

A Náusea – Jean-Paul Sartre (17/2015)

A NauseaA Náusea conta a estória de Antoine Roquentin, um jovem intelectual francês que, após ter passado vários anos viajando e “se aventurando” por diversos países, se estabelece na cidade costeira de Bouville para escrever a história de um tal Marquês de Rollerbon, porém ao se debruçar sobre a história do tal Marquês e sobre o próprio cotidiano da sociedade em que se encontra, começa a questionar o sentido da vida e, na verdade, a questionar a necessidade de um sentido.

Ele começa a sentir uma forte aversão pelos seres daquela cidade, tanto do passado quanto do presente, e sua incessante busca em seguir roteiros (se educar, casar, ter filhos, criá-los, etc) e convenções, especialmente com o objetivo de fazer algo de bem, de deixar algum legado para o mundo.

Esta aversão chega ao ponto de repulsa e se traduz em uma sensação de mal estar, a náusea. Roquentin, como uma pessoa que simplesmente se deixou levar pensando apenas na situação do momento, sem se preocupar muito com o futuro, a todo momento se questiona se deveria ter ou não procurado uma razão para a sua existência. Até o momento em que ele perde os poucos motivos que tinha para justificar a sua existência: o livro, que ele acabou por desistir de escrever, e a sua “amada” Anny, que no final ele percebe que não era exatamente um amor.

O contraponto à ele é feito pela figura do personagem Autodidata, um jovem que se tornou humanista (e socialista) depois de passar horas se instruindo nos livros da biblioteca e que acha que os seres humanos devem se amar uns aos outros e que os homens têm por objetivo a vida vivida em coletividade, o que se opõe ao individualismo de Roquentin.

É um livro um pouco denso, no sentido de que exige uma atenção maior, afim de que o cerne da mensagem do autor possa ser entendida. Mesmo assim, somente por este livro não dá para sacar se o autor estava criticando a necessidade das pessoas de se sentirem parte de algo, de fazerem algo grandioso, ou se ele está criticando exatamente a posição individualista e por vezes egoista do personagem. Eu fico com a primeira, até por concordar com a posição do personagem: existimos por existir, ninguém está aqui por conta de um plano divino ou coisa que o valha. Somos apenas um “acidente de percurso” e nos resta viver e aproveitar esta existência da melhor forma possível, sem querer nos colocarmos em uma posição de “escolhidos” para uma missão. Até porque isto é de uma arrogância sem tamanho.

Be happy! 🙂

Wanderlust #28 – Norte e Nordeste Brasileiro

Brasil 1Há alguns anos eu vinha tendo vergonha de um fato: eu conhecia mais estados dos EUA do que do Brasil. Este ano resolvi mudar isto e fui conhecer um pouco mais do meu próprio país. Em março fui a Salvador, agora rodei por mais 4 estados. Também fui à Brasilia, mas falarei no próximo Wanderlust.

Propositalmente eu foquei minhas férias em capitais / estados que não ficam na rota do turismo comum e são pouco explorados pelos proprios brasileiros: Pará, Maranhão, Paraíba e Sergipe.

A minha primeira impressão ao chegar no Pará e depois no Maranhão foi “por quê diabos estes locais são pouco explorados?”, não so pela indústria do turismo, mas por inúmeros tipos de negócios que poderiam (e deveriam) ser melhor desenvolvidos por lá. São estados com inúmeros recursos, tanto naturais quanto de mão de obra.

Tanto Belém quanto São Luís são cidades mal conservadas, com regiões (notadamente as regiões centrais e as periferias) com prédios abandonados e entregues ao crime e à contravenção.

Ai depois eu fui até João Pessoa e tive uma impressão totalmente diferente. João Pessoa é uma cidade organizada, limpa, segura. Você se sente à vontade em andar pela cidade sem ter que ficar tenso e prestando atenção ao que ocorre à sua volta, a não ser a paisagem. O custo de vida também é barato e você vê que as pessoas, independente da classe econômica, conseguem ter uma boa qualidade de vida, que ao final é o que importa.

Aracaju então me surpreendeu demais. Muitas e muitas quadras – de futebol (society e salão), tênis  (cimento e saibro), basquete, vôlei. Parque de diversões, um belo jardim linear na orla da praia, muitas ciclovias, praças, skatepark e até pista de motocross e kartódromo. Tudo feito pelo poder público. Assim como João Pessoa, Aracaju me mostou que com um pouco de boa vontade o Estado pode propiciar uma qualidade de vida melhor para todos os cidadãos.

Mas a diferença entre os lugares que eu conheci nesta trip me leva a pensar em duas coisas:
1 – Comparados com o Pará e Maranhão, Paraíba e Sergipe são muito pequenos e com muitas restrições de recursos, tanto os finaceiros quanto de espaço e naturais. O que me leva a pensar que o problema do Brasil é a abundância: nos estados mais ricos e no país como um todo nós apenas nos preocupamos em abusar dos recursos que temos, sem fazermos o melhor uso deles e pensando sempre no curto prazo.
2 – A sensação de segurança em João Pessoa e Aracaju é enorme em comparação com Belém e São Luís  (e também Salvador, Rio e São Paulo), o que me leva a pensar que o problema da violência não é causado apenas por conta da impunidade, mas também pela baixa qualidade de vida e a sensação de exclusāo que a população mais pobre sofre nas grandes cidades.

Acho que um dos maiores problemas do brasileiro hoje é o fato de que a maioria dos cidadãos não pensa em qualidade de vida como objetivo final para sua própria vida e para a sociedade. O brasileiro pensa em se sentir diferenciado. Ele não quer que todo mundo tenha condições de ir e voltar para o trabalho/escola usando transporte público, com conforto, segurança e no menor tempo possível. Ele quer isto só pra ele e ai ele quer comprar o melhor (e maior) carro e quer que as avenidas sejam dele. Ele não quer que todo mundo seja capaz de viajar para os mesmos lugares que ele nas férias (que sentido teria viajar se não for pra contar vantagem né?!?!). Ele não pensa que todos poderiam usar a cidade e os seus aparelhos (de lazer, cultura, saúde), ele quer é ir morar num prédio com piscina, playground, varanda gourmet (argh!), até cinema, para não precisar nem sair para o shopping. Ele não quer que as desigualdades sejam menores, ele quer é estar no topo da pirâmide, mesmo que isto signifique que ele tenha que andar de carro blindado.

Como já deixei claro em um artigo recente: o brasileiro precisa decidir o que ele quer, se é ser diferente ou se é ter uma sociedade segura, sem corrupção e onde o Estado cumpra o seu papel com a maior eficiência possível. A história e mesmo os exemplos atuais mostram que desigualdade e qualidade de vida não caminham juntas e, sinto informar, nem se mudar para Miami vai adiantar.

Be happy! 🙂

Wanderlust #27 – Aracaju e Canindé do São Francisco, Sergipe, Brasil

01 Aracaju - Sergipe - BrasilAcho que Aracajú foi o lugar que mais me surpreendeu positivamente nesta trip e talvez um dos que mais me surpreendeu no Brasil! Além do fato de ser uma capital com pouco apelo turístico, meu pai é de Sergipe e por isto inclui a cidade no roteiro. Porém, já ao chegar de avião você nota que é uma cidade bastante desenvolvida e andando pela cidade você realmente chega a conclusão que talvez seja uma das capitais nordestinas com o melhor nível de desenvolvimento e de qualidade de vida.

Orla de Atalaia

Orla de Atalaia

Depois de uma maratona de avião vindo de João Pessoa, cheguei no modesto mas moderno aeroporto de Aracaju já no final da tarde. O Aeroporto é bem perto da cidade e consegui me acomodar no hotel com o dia ainda claro, pensando em aproveitar o finalzinho de tarde em algum quiosque na praia. Porém, depois de me acomodar e tomar um banho, caiu uma tempestade que impossibilitava sair a pé.

A chuva passou já era começo de noite e resolvi caminhar até a Passarela do Caranguejo, na própria orla de Atalaia, onde estava hospedado, pois é uma região com bastante bares e restaurantes. Nesta caminhada de cerca de 4 kms já deu para perceber como a cidade tem uma infraestrutura muito boa, tanto para receber o turista como para os próprios moradores. Na orla existem restaurantes, praças, ciclovia, playgrounds e mais um monte de equipamentos de cultura e lazer providos pelo Estado e em ótimo estado de conservação.

A praia em sí fica distante da avenida e do calçadão

A praia fica distante da avenida e do calçadão

No outro dia fui conhecer o outro canto de Atalaia (sentido Coroa do Meio) e o centro de Aracaju. Já de dia pude notar um pouco mais como é a geografia do lugar: ao longo da avenida da praia existe um Jardim contínuo, que conta com várias atrações (Kartódromo, Parque de Diversões, Centro de Exposição, etc), após o jardim existem lagos e uma extensa faixa de areia e só então começa a praia. Desta forma, a praia fica bem afastada da avenida (cerca de 200mts) e também de prédios que poderiam causar sombra.

A beleza das praias de Sergipe não se comparam às das praias de Alagoas e Rio Grande do Norte, porém as de Aracaju além de serem infinamente melhor preservadas, ainda contam com uma infraestrutura melhor.

Depois de andar bastante, resolvi pegar uma bike (lá a patrocinadora é a Net ao invés do Itau, como em São Paulo e no Rio) para pedalar até o centro. Outro ponto bom de Aracajú é que você pode conhecer a cidade toda usando as ciclovias e ciclofaixas existentes. Além disto os pontos de retirada e entrega de bikes estão muito bem distribuidos.

Praça Almirante Barroso

Praça Almirante Barroso

Conheci a Praça Almirante Barroso, onde se encontram alguns prédios históricos, a Catedral, o Centro de Artesanato (bom para comprar artesanato de verdade, com produtos feitos a mão) e mais alguns pontos do Centro Histórico. Depois peguei outra bike com a intenção de conhecer o Parque do Cajueiro, porém não tinha estação para entrega de bike no parque e como iria ficar ruim ficar andando com ela, preferi seguir até a outra ponta da orla de Atalaia, perto da Passarela do Caranguejo, para entregar a bike e conhecer esta parte durante o dia. A praia neste pedaço da orla, apesar de ser ainda mais distante do que as que ficam próximas à Coroa do Meio, parecem ser mais agitadas. Mas o nível de beleza e infraestrutura é constante em toda a orla. Depois de 15 kms de caminhada e de mais uns 25 kms pedalando e não tendo encontrado nenhuma festa junina, resolvi comer algo e voltar para o hotel, já que no outro dia tinha agendado um passeio até Canindé de São Francisco, para conhecer o Canion do Xingó, no Velho Chico.

Barragem da Usina Hidrelétrica do Xingó

Barragem da Usina Hidrelétrica do Xingó

A viagem de ônibus de Aracaju até Xingó dura pouco mais de três horas, cruzando quase todo o Estado em direção ao Noroeste e passando por boa parte das cidades mais importantes, o que é uma boa oportunidade para admirar a flora do Estado.

A Usina Hidrelétrica do Xingó, que tecnicamente fica em Alagoas (o rio São Francisco separa os dois estados) é uma das mais recentes obras de infraestrutura deste porte no Brasil. Foi inaugurada em 1994 e hoje é responsável por gerar 35% de toda a energia elétrica consumida no nordeste brasileiro. Além disto, a força da gravidade que é usada para fazer as turbinas da hidroelétrica girarem também é responsável por mandar a água para canais de irrigação em Canindé do São Francisco, o que gerou ao redor dela um cinturão de producao de horti frutis no meio do sertão nordestino.

Canindé do São Francisco

Canindé do São Francisco

A construção da barragem aproveitou a existência de um paredão natural de pedras e a existência do Canion para diminuir ao máximo a necessidade de edificações: a barragem foi construida acima deste paredão de pedra o que gerou a inundação do Canion (o terceiro maior Canion inundado do mundo). Conforme explicou a guia do Catamarã, a profundidade média do São Francisco era de 20 metros antes da inundação e depois passou para 60 metros, chegando em alguns pontos a mais de 120 metros.

Durante o passeio de Catamarã até o porto de Brogodó (no município de Paulo Afonso, já estado de Alagoas) dá para notar a grandiosidade da formação do Canion e imaginar o tamanho que os paredões deviam ter antes da barragem. Além de tudo, dá para notar diversas formações nas rochas. Formações estas que indicam que há milhões de anos aquilo tudo estava debaixo do mar.

Acho que dentro do Brasil foi um dos locais mais belos que eu já conheci, quando se fala em beleza natural. É de tirar o fôlego mesmo!

Depois de encarar as 3 horas de volta para Aracaju, só restou dar uma descansada e tomar algumas cervejas para relaxar para encarar a volta e o fim das férias.

Observações, dicas e considerações:

  • Eu fiquei realmente impressionado em Aracaju com a disponibilidade de equipamentos de cultura e lazer: quadras e mais quadras (de futebol, volei, basquete, tenis, etc), parque de diversões, muitas ciclovias, skatepark e até pista de motocross e kartódromo. Tudo feito pelo poder público e em ótimo estado de conservação.
  • Existe uma unidade do Projeto Tamar na orla de Atalaia que vale a visita.
  • O pessoal leva o São João à sério em Sergipe. Todos os prédios residenciais e comércios estavam enfeitados com bandeiras. O pessoal me falou que lá o São João mexe mais com a cidade do que o natal e a Copa do Mundo.
  • Itabaiana, uma das várias cidades pelos quais passei a caminho de Xingó, é a cidade onde a profissão de caminhoneiro surgiu no Brasil. Uma curiosidade é o alto número de caminhões vermelhos, pois existe uma “lenda” de que caminhões vermelhos andam mais rápido que os demais.
  • Perto da barragem de Xingó formou-se uma  bela praia de água doce. Deve ser legal ir passar mais de um dia na região e aproveitar esta “praia” com sua água doce, quente e limpa.
  • Pelo pouco que conheci da cidade dá para imaginar que Aracajú, depois de João Pessoa, deve ser a capital do nordeste mais interessante para morar.

Be happy! 🙂

Catedral Metropolitana de Aracaju

Catedral Metropolitana de Aracaju

Praça General Valadão

Praça General Valadão

Passarela do Caranguejo

Passarela do Caranguejo

Arcos de Atalaia

Arcos de Atalaia

Morro do Gavião

Morro do Gavião

Morro do Japonês

Morro do Japonês

Cânion do Xingó

Cânion do Xingó

Porto de Brogodó

Porto de Brogodó

15 Canion do Xingo - Rio Sao Francisco - Canindé do São Francisco - Sergipe16 Canion do Xingo - Rio Sao Francisco - Canindé do São Francisco - Sergipe

O Verde Violentou o Muro – Ignácio de Loyola Brandão (16/2015)

O Verde Violentou o MuroEm 1982 o autor, após uma separação, aceitou uma proposta do DAAD, instituto alemão de intercâmbio acadêmico, para passar uma ano e meio em Berlin Ocidental. No livro, que tem como subtítulo “A vida em Berlin antes e agora”, ele relata as experiências de viver em uma cidade cercada por um muro (muita gente imagina, como eu imaginava antes de ir à Berlin pela primeira vez, que o país era “cortado” pelo muro, que passava pelo meio na cidade, mas na verdade o muro não dividia a Alemanha e sim cercava a parte ocidental de Berlin, expliquei um pouco aqui).

Depois deste período ele voltou mais três vezes à cidade depois da queda do muro e pode conhecer, com um pouco mais de detalhes, os pedaços do lado oriental da cidade. Como ele apenas visitava o “outro lado” em passeios de um dia, ele não tinha muitos detalhes de como era a vida ali e, ao visitar lugares que estavam atrás do cinza do muro, ele conta como ele imaginava que fosse.

Como ele deixa transparecer, ele parecia estar fugindo de alguma coisa, e como ele afirma em vários trechos, acabou se encontrando por várias vezes na cidade. Não é uma história com início, meio e fim, ou mesmo um relato. É apenas uma coleção de textos pequenos, onde ele relata experiências, curiosidades, observações e eventualmente dá algumas dicas, mais ou menos como eu faço nos artigos que escrevo sobre minhas viagens. É claro que ele tem muito mais bagagem do que eu (pelo fato de ter morado na cidade), além de ter um estilo infinitamente melhor que o meu de escrever. Por isto, a melhor forma de fazer um relato sobre o livro, é colocar alguns trechos que achei interessante (eventualmente com algum comentário meu):

  • “Não entendo conhecer uma cidade sem andar, andar. Cortando ruas, olhando para as casas, vitrines, supermercados, lojas. Tudo.”
  • “A cerveja alemã é mais suave, porém mais amarga que a brasileira. Mais cremosa, mais densa. Impossível encontrar aqui o que se chama no Brasil ‘estupidamente gelada’. Ou aquela que se tem de pedir ao garçom (se for íntimo da casa) ‘Me traz a que o dono guarda para ele!’. Descobri que beber cerveja estupidamente gelada é estúpido, mesmo ao calor de quarenta graus. Somente na Alemanha passei a sentir o sabor da cerveja, o gosto, o cheiro, a perceber as diferenças de paladar que o gelo anula.”
  • “Vá sábado de manhã, o espetáculo é curioso. Classes média e alta se acotovelam e entram em filas. Enfrentam aquilo por horas, sem protestos. Vendo as filas, achei curioso as críticas que costumam fazer a Berlim Leste. Uma delas diz: ‘Imagine, as pessoas têm que formar filas para fazer compras!’. Qual a diferença entre a fila do Leste e a do Oeste? Aqui estão comprando o supérfluo. Acho mais importante a fila do essencial” – sobre a KaDeWe, uma loja de departamentos gigante, ainda existente em Berlin, situada na Kurfürstendamm (ou KuDamm, uma mistura da Quinta Avenida com a Times Square, ambas de Nova Yorque), que oferece de tudo no que se refere à alimentos e bebidas.
  • “Meninas, adolescentes graciosas de vestidos vaporosos, longos, e pés no chão. Adoram andar descalças no verão”
  • “Ela existe, porém se conserva mais a distância. Posso andar sem medo pelas ruas, à noite. Não me incomodo muito se esqueço uma janela aberta. No cinema ou teatro deixo meu casaco guardando o lugar e vou tomar café, no intervalo. Sei que posso quebrar a cara, sofrer qualquer coisa, porém é hipótese, não uma comprovação e uma espera diária.” – sobre violência em Berlin.
  • “O normal nesta região moderna: espaço amplo entre os conjuntos, muita grama, playground com brinquedos imaginativos, bastante árvore e um rio canalizado e urbanizado, cheio de chorões nas margens. O que me fez pensar nos rios brasileiros. Riachos e córregos que atravessam nossas cidades e que os prefeitos enfiam por dentro de um cano, colocando uma avenida por cima, cheia de asfalto e nenhuma vegetação. O dinheiro gasto para aprisionar e fazer desaparecer uma água talvez seja maior do que enquadrar o rio numa paisagem urbana agradável e descontraída.”
  • “Não dá para ficar trabalhando o tempo inteiro, se matando como louco, como fizeram nossos pais, nossos avós. Não queremos competir com ninguém, nem ter os melhores postos, nem vencer brilhantemente na vida. Queremos lazer. Um pouco de trabalho e o resto de divertimento.” – de uma conversa entre jovens ouvida pelo autor.
  • “Política? Quem quer saber de política? Olha o que os políticos fizeram, fazem e estão fazendo a este país! Sou pelos verdes, mas sem política. Sou pela ecologia, sem política. Sou pacifista, sem política. Sou contra os mísseis nucleares, mas não preciso misturar política nisto.” – de uma outra conversa entre jovens ouvida pelo autor.
  • “O alemão confia no Estado para a solução de seus problemas. Se está desempregado, espera o socorro da assistência social, o seguro-desemprego. Se está doente, se tem um problema qualquer, se briga na rua, se alguém fecha o seu carro (ele não dá bronca, comunica à polícia e você recebe a visita dos agentes da lei que cagam regras), se tropeça num buraco, se as coisas não funcionam administrativamente, se o preço é extorsivo. O Estado é o pai, criado para resolver a vida. Sistema profundamente capitalista que vive como socialista. Contradição? Ou encontraram o regime (mais ou menos) ideal?” – pela posição econômica e política da Alemanha e pela qualidade de vida dos seus habitantes, creio que sim, encontraram o equilíbrio entre estes dois extremos, assim como os países Nórdicos, a Austrália e o Canadá.
  • “Hoje é um partido político que se organiza. Provoca polêmica, abre discussões, é amado ou odiado. Para uns, salvação. Para outros, o perigo que vai lançar a Alemanha nos braços da Rússia ou na terceira guerra mundial. Partido em ebulição, heterogêneo. Abriga amigos da natureza, defensores do meio ambiente, pacifistas, antinucleares, rebeldes de 68, leninistas, marxistas, dissidentes de outros partidos, social-democratas, contestadores do sistema, alternativos”. – sobre Die Grünen (os verdes), o partido verde alemão, um dos principais atores que levaram à queda do muro (título do livro explicado!).
  •  “‘Quem é diferente ou quer ser diferente, deve vir para Berlim. Aqui você é normal sendo diferente. As pessoas que não concordam com a visão de mundo que foi imposta a elas por educação e condicionamento se refugiam em Berlin’, escreveu Stefan Schaaf, de vinte e oito anos, jornalista do Die Tageszeitung.” – como em outras parte do livro, me identifiquei muito com as opniões do autor ou de seus interlocutores, neste caso em específico até escrevi sobre a diversidade e o respeito à ela que existe em Berlin neste artigo, bem antes de ler o livro.
  • “Berlim foi aquilo que sempre considerei o ideal para uma cidade. Nem megalópolis, nem província. Oferecendo vantagens e desvantagens das duas. Nesta cidade me reencontrei muitas vezes, divisei luzes e instantes que estiveram dentro de minha vida em determinados momentos. Cidade mágica, complexa, paradoxal, refúgio e verdade. Cidade que é aquilo que queremos que ela seja.” – outro trecho bem parecido com um que escrevi neste artigo.
  • “Recorro, mais uma vez, a Bernard Cailloux, escritor que nasceu na cidade de Erfurt, Turingia, parte oriental e mudou-se para o ocidente antes da divisão da Alemanha. Em 1978, ele radicou-se em Berlin e ‘precisou de dez anos para se adaptar, conhecer e começar a compreender a cidade’. Dez anos para um alemão. Portanto, não esperem de mim a definição de uma cidade indefinível.” – como já disse, Berlin não é para ser apenas visitada e conhecida (muito menos pela janela de um ônibus de excursão), é uma cidade para ser vivida, assim como São Paulo, Nova York e algumas poucas outras.
  • “Muita gente sentia pertencer a uma classe superior ao poder comprar produtos ocidentais. Havia justificativas as mais curiosas, às vezes: ‘O cheiro é diferente, é bom’. Depois da guerra, com a ocupação da Alemanha, a Guerra Fria e o isolamento a que a RDA se viu conduzida, parte da população acabou aderindo ao socialismo por crença, defendeu-o com idealismo. Muitos nasceram dentro do regime, não tiveram opção. Outros viveram inconformados. Sobre a antiga RDA perspassava sempre a utopia: viver do lado de lá ou, ao menos, conhecer, saber como era, poder comparar, ser livre para decidir. Um segmento sonhava em abandonar o país (no Brasil quantos não sonham com Miami, quantos não foram para o Japão?). Todavia, se as fronteiras fossem abertas, a Alemanha Oriental não se esvaziaria, como imaginavam os líderes. Boa parcela da população viveu tranqüila sob o socialismo e não é culpa dela a corrupção da cúpula, que desvirtuou uma idéia. O difícil, depois da queda do muro, disseram Zilly e Hoffman, foi, de um momento para o outro, passar a viver debaixo de normas e regulamentos que não eram os deles, eram opostos, cruéis, pode-se dizer… Após a queda do muro, os problemas se tornaram tão grandes que os antigos problemas se minimizaram. De repente, não existia mais o socialismo, mas também não existia a crença na social-democracia e não se acreditava nos conservadores. Ficou o vazio.” – tenho a mesma opnião sobre Cuba.
  • “Na antiga RDA (ou DDR) o nível de vida era baixo, mas todo mundo tinha emprego, salário, direito a creche, saúde e escola, e assim se sentia ‘parte da grande família’. Agora, o que governava era a concorrência global do mercado e a maior parte do parque industrial da antiga DDR teve que fechar. Tendo vivido décadas isolado, este parque estava desatualizado, desestruturado, arcaico e praticamente sucateado, segundo os conceitos do oeste, incapaz de produzir no ritmo exigido pelo mundo capitalista. Chegou, do dia para a noite, uma onda de desemprego que transformou grandes partes da DDR em desertos industriais, com a população sem emprego, sem o dinheiro necessário para desfrutar do paraíso de consumo e – mais importante – sem o sentido de vida e o prazer da auto-afirmação que o trabalho confere a um cidadão.”. – relato escrito de Sebastian Scherer, alemão casado com uma brasileira e residente de João Pessoa, enviado ao autor e reproduzido no livro.
  • “Quero voltar a essa cidade quantas vezes puder. Sinto que pertenço a ela. Sou paradoxal e incongruente, neurótico e tenso, calmo muitas vezes. Como ela. Continuo sem entender por que entrar aqui me dá paz.” – eu te entendo Ignácio, entendo pois sinto o mesmo.
  • “Para mim, que não encontro um lugar no mundo, inquieto onde esteja, sem descobrir um sentido para a vida, ela continua uma cidade de momentos, de fragmentos que me parecem congelados no tempo e me acompanham.” – sei bem como se sente Ignácio, sei mesmo.

Talvez o autor tenha um saudosismo do período em que ele morou lá, época em que a cidade era dividida, que talvez faça ele “rechaçar” um pouco das neue Berlin. Eu infelizmente não pude conhecer Berlin dividida (a divisão não era legal, mas teve algumas consequencias interessantes, especialmente na formação do povo), mas como dá para perceber lendo o relato dele de 30 anos atrás e comparando com os meus relatos e experiências na “nova” Berlin, a cidade ainda mantem sua aura e sua alma.

Be happy! 🙂

Wanderlust #26 – João Pessoa, Paraíba, Brasil

01 Joao Pessoa - Paraiba - BrasilNão conheço uma pessoa que tenha ido à João Pessoa e não tenha se apaixonado pela cidade. Ela não tem praias espetaculares como Alagoas ou Rio Grande do Norte, nem uma vida noturna agitada como Recife ou Salvador e nem tantos locais históricos como todos estes lugares (e outros do nordeste). Porém, se fôssemos dar nota para vários quesitos (segurança, limpeza, beleza, hospitalidade, simpatia das pessoas, etc) provavelmente a média de João Pessoa (e da Paraíba) seria a maior do nordeste e uma das maiores do Brasil.

Farol do Cabo Branco

Farol do Cabo Branco

Diferente da maioria das capitais do nordeste, Jampa (como é carinhosamente chamada) nasceu longe da costa, às margens do rio Sanhauá, e por isto o processo de urbanização de suas praias foi menos agressivo e contou com um pouco mais de planejamento. Os edifícios próximos à costa têm seu tamanho limitado para preservar a paisagem e evitar sombras.

Por estar localizada na Ponta do Seixas, o ponto mais oriental das Américas, a cidade é conhecida como “Porta do Sol”, pois é onde o sol nasce primeiro no continente americano.

No primeiro dos dois dias na cidade, resolvi andar um pouco pelas praias próximas de onde eu estava hospedado (Cabo Branco). Andei toda a orla da praia de Cabo Branco até a Ponta do Seixas, onde se encontram o farol de Cabo Branco e a Estação Cabo Branco, um museu de ciências que tem projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer (um dos poucos projetos dele que eu particularmente achei legal). Como o passeio foi agradável, ao invés de tomar um ônibus preferi voltar caminhando, refazendo todo o caminho da ida e esticando até Tambaú.

Acho que neste dia passei dos 20kms andados. Então resolvi voltar para a pousada pra descansar um pouco, já que havia combinado de ir tomar uma cerveja à noite com o Waltão, amigo da época da faculdade, radicado na Paraíba há 8 anos e que nem pensa em voltar para São Paulo.

Estação Cabo Branco

Estação Cabo Branco

Na orla de Cabo Branco, que é bem movimentada à noite, mesmo durante a semana, existem várias opções para beber e comer, tanto em quiosques “pé na areia” quanto em bares e restaurantes do outro lado da avenida da praia.

No outro dia fui conhecer o Centro Histórico de João Pessoa, que apesar de não contar com tanta história como os de São Luis e Salvador, por exemplo, tem alguns edifícios interessantes e principalmente conta uma conservação bem acima do padrão brasileiro.

Além de ficar com vontade de voltar logo para passear, já que acabei não conhecendo boa parte das praias e nem fui à Campina Grande, João Pessoa me despertou inclusive idéias de morar lá algum dia e acabou entrando na minha lista de cidades em que eu gostaria de morar, assim como Aracaju, a última “perna” desta trip e da qual falo no próximo Wanderlust.

Observações, dicas e considerações:

  • A limpeza e conservação das praias (Cabo Branco e Tambaú) é acima da média brasileira, inclusive das de Santa Catarina.
  • A população ajuda muito não sujando e mantendo os equipamentos conservados (dificilmente se vê lixo nas ruas).
  • Além de tudo isto, os preços em Jampa são muito baratos (ou seriam justos?). Cheguei a pagar R$ 4,50 por uma Skol de 600ml e vi porção de camarão alho e óleo de 1 kilo por R$ 35,00.
  • Uma pena somente os kioskes não terem Heineken, já que são todos patrocinados (e padronizados) pela Skol.
  • Nas minhas últimas viagens eu desenvolvi um método de “medir” a segurança do local (além das conversas com taxistas): é só reparar na rua como a população local utiliza o celular. Se a pessoa pára, se esconde num canto e fica atento ao redor quando fala ou tecla no celular, pode apostar que é uma cidade perigosa. Se a pessoa fala no celular andando e distraido, sem se preocupar com o que acontece à sua volta, provavelmente aquele é um local seguro. João Pessoa foi a cidade que eu conheci no Brasil onde as pessoas se sentiam mais à vontade para usar o celular (e correntinhas no pescoço também).
  • Inclusive no Centro Histórico, que normalmente é um ponto sensível nas cidades devido à grande quantidade de pessoas, era comum ver pessoas falando ao celular tranquilamente.
  • O lugar para ficar hospedado em João Pessoa é a Suisse Residence. Apesar de não estar tão perto da praia (dá uns 15 minutos andando), a pousada é bonita, aconchegante e os quartos são espaçosos e confortáveis. Seu Hans e dona Inês, os proprietários, são simpatia pura!

Be happy! 🙂

Tambaú

Tambaú

Com 30 reais por pessoa dá pra sair balão do quiosque...hahaha

Com 30 reais por pessoa dá pra sair balão do quiosque…hahaha

06 Palacio do Bispo - Centro Historico

Palácio do Bispo – Centro Histórico

Igreja de São Francisco - Centro Histórico

Igreja de São Francisco – Centro Histórico

Catedral da Basílica Nossa Senhora das Neves - Centro Histórico

Catedral da Basílica Nossa Senhora das Neves – Centro Histórico

Um velho piano atrás das grades no centro de Jampa! Que crime teria ele cometido?

Um velho piano atrás das grades no centro de Jampa! Que crime teria ele cometido?

Parque Solon de Lucena

Parque Solon de Lucena

Suisse Residence

Suisse Residence

Botecando #65 – North Beer – São Paulo – SP

northbeer1Um bar já começa a contar pontos comigo quando oferece chopp Heineken (e no caso, também tinha a opção de Amstel). Quando é double chopp a noite toda então, ai já ganhou o cliente!

O North Beer fica localizado num dos vários corredores boêmios da Zona Norte, neste caso na Avenida Luiz Dumont Villares, bem próximo ao metrô Parada Inglesa que fica na linha azul (a dica é ir de metro e voltar de táxi). O local é bem espaçoso e conta com dois andares, além de um “deck” envidraçado. Um ponto positivo é que existe um bom espaço entre as mesas, o que permite aos garçons e clientes circularem com mais facilidade.

Além dos chopps Heineken e Amstel, também existem algumas poucas opções de cervejas, mas fora das linhas artesanais e especiais (talvez uma das poucas falhas da casa). Existem também algumas opções de cachaça, whisky, entre outros spirits e drinks. Uma adega no porâo, que é aberta aos clientes, é uma atração para os enólogos de plantão, que podem descer até lá para escolher seu vinho.

Desta vez acabei não comendo nada, mas sei que existem variadas e boas opções neste quesito, passando pela mesa de acepipes (queijos, frios, pães, patês, etc), petiscos vindos da cozinha e opções de pizza, já que a casa conta também com um forno à lenha.

Apesar do som estar meio alto para um esquema voz e violão, o artista que estava cantando tinha um ótimo repertório, principalmente focado no rock das décadas de 70 à 90.

Bom lugar para marcar um happy hour com os amigos!

Onde: North Beer (Avenida Luiz Dumont Villares 1543 – Parada Inglesa – SP)
Quando: 15/07/2015
Bom: chopp heineken, som e ambiente
Ruim: som estava um pouco alto, mas nada em excesso também
Site: http://www.northbeer.com.br/
Facebook: https://www.facebook.com/Northbeeroficial?fref=ts

Be happy! 🙂

NorthBeer2

Os Botões de Napoleão – As 17 Moléculas que Mudaram a História – Penny Le Couteur e Jay Burreson (15/2015)

arte_OsBotoesDeNapoleao_27.01.11.inddDe vez em quando a gente lê um livro que vale por anos e anos de estudo “formal”. Foi o caso deste.

Segundo relatos históricos, quando as tropas de Napoleão chegaram à Rússia, no rigoroso inverno de 1812, os soldados, famosos pelo asseio e elegância com que se vestiam, mais pareciam mendigos. Uma das hipóteses levantadas seria a de que os botões dos uniformes, feitos de estanho, metal que se esfarela à baixas temperaturas (fato já conhecido à época), tenham se desfeito e os soldados ou seguravam as armas, ou então seguravam os casacos. Partindo desta premissa, os autores, que são professores de química, resolveram listar algumas moléculas que podem ter mudado o rumo da história.

Primeiramente é bom dizer que eles não afirmam que elas realmente mudaram, mas que provavelmente devem ter contribuído bastante, entre outro fatores, para que o curso da história (e o mundo como conhecemos hoje) acontecesse da forma que aconteceu.

O livro apresenta na introdução alguns princípios básicos de química. Porém, nada que assuste. Muito pelo contrário, durante o decorrer do livro, quando eles mostram as fórmulas químicas das moléculas e as reações que as transformam, o pouco de teoria se torna algo agradável, inclusive despertando a curiosidade do leitor.

Além de relacionar moléculas ao curso da história, como o caso da noz-moscada, que foi a responsável pelo acordo entre os Holandeses e Ingleses que resultou na cessão da área hoje conhecida como Manhattan, nos EUA, para os Ingleses, inevitavelmente acaba-se entrando em outros assuntos, como biologia e física.

Um exemplo, no mesmo capítulo sobre a noz-moscada, é a explicação do porque da pimenta nos causar uma sensação de prazer: ao “sofrer a agressão” da pimenta, o nosso cérebro produz endorfina.

Já no segundo capítulo, os autores atribuem as grandes navegações à descoberta do ácido ascórbico e seus efeitos sobre o escorbuto, doença que era fatal para cerca de metade da tripulação dos navios que se propunham a desbravar mares desconhecidos, inclusive citando alguns casos em que toda a tripulação foi acometida pela doença e faleceu.

Outras moléculas muito importantes, principalmente para a formação étnica do continente americano, foram a celulose e a glicose. Como as plantações de algodão (celulose) e cana-de-açucar (glicose) demandavam muita mão de obra, elas provavelmente foram responsáveis pelo comércio escravagista.

Além dos fatos históricos importantes, o livro também tem algumas curiosidades que eram desconhecidas por mim, como por exemplo o fato de o TNT e a pólvora terem a celulose como origem (compostos nitratos + celulose geram explosões, e neste capítulo também teve uma pequena aula de física). Ou como a indústria de corantes foi responsável pelo surgimento das mais importântes indústrias farmacêuticas, especialmente as alemãs.

Gostaria de ter lido este livro quando estava no colegial e ter que decorar a tabela periódica me parecia algo totalmente inútil. Também gostaria que meus professores (de todas as matérias) usassem da mesma didática dos autores, que fizeram com que um tema que normalmente é enfadonho se tornasse muito interessante e divertido.

Be happy! 🙂

Wanderlust #25 – São Luís (e região), Maranhão, Brasil

01 Sao LuisDepois de Belém, lá fui eu conhecer a “Jamaica Brasileira”, que já tinha vontade de conhecer desde as épocas em que ouvia muita Tribo de Jah e frequentava o Radiola São Luís, na Vila Madalena. A cidade me surpreendeu, um bom e outro ruim: a cidade é bem urbanizada, com bastante prédios, opções de shoppings, lojas e restaurantes e com avenidas largas, o que facilita a movimentação. Por outro lado, acho que dos lugares para os quais eu viajei é um nos quais eu senti maior sensação de insegurança. Mais do que no RJ ou SP, por exemplo.

Praia do Calhau

Praia do Calhau

Depois de fazer o check in no hostel e tomar uma ducha dei uma checada nos mapas que haviam na recepção e resolvi pedir umas dicas para o atendente do Hostel, que era Ucraniano, sobre que fazer. O cara era meio atrapalhado, mas me alertou que não fosse até o centro e nem pegasse a parte de trás do hostel, pois era perigoso. Eu não entendi direito (ou ele não se explicou direito) e resolvir ir então até a praia do Calhau andando. Infelizmente logo de cara eu errei o caminho e cai onde ele tentou me alertar sobre o perigo. Quando resolvi voltar creio que só não fui assaltado pois um vigilante de prédio saiu na hora.

Fui até a praia do Calhau, que é uma das mais “elitizadas” do município de São Luis, sendo inclusive o bairro onde a família real (os Sarneys) mora. A praia não é tão bonita como as de Natal ou Maceió, mas tem suas qualidades. Porém também tem seu pior defeito: é imprópria para banho, assim como qualquer praia de São Luís. E nem precisava de placa para avisar já que, diferentemente de outras cidades, não existe nem emissários submarinos para jogar o esgoto no mar a uma distância da praia. Lá o esgoto cai na praia mesmo! Realmente uma pena.

Janelas e azulejos típicos dos casarões do centro histórico

Janelas e azulejos típicos dos casarões do centro histórico

Resolvi procurar um quiosque para assistir a final da Champions. E dei sorte pois acabei conhecendo um casal neste quiosque que me aconselhou a ir até às Fronhas Maranhenses (falo delas já já), já que não teria tempo de ir até os Lençois, o que se mostrou uma ótima dica.

Uma das poucas coisas que eu havia programado de fazer em São Luís, além de conhecer o centro histórico, era ir a uma radiola, que é um local onde se toca reggae. Hoje em dia estes locais já nem são mais conhecidos por este nome e os principais locais para curtir reggae são conhecidos apenas pelo próprio nome, como o Bar do Nelson, que fica na praia do Caolho (ao lado da praia do Calhau) e é o local que “pega” aos sábados.

O Bar do Nelson é tipo um galpão, com alguns bares onde se vende as bebidas (comidas só nas barraquinhas do lado de fora), um palco onde o DJ se acomoda para rolar o som e, atrás deste palco, uma “parede” de caixas de som. Nem mesas existem e o pessoal usa algumas de cervejas para apoiar copos e garrafas (e ai já vão colocando as garrafas vazias dentro da caixa). Uma coisa que eu gosto muito e que somente em SP não existe é o sistema de pagar a entrada e comprar fichas, ao invés de comandas. Evita filas tanto na entrada quanto na saída e permite a livre circulação entre as áreas externas e interna (lá eles batiam um carimbo que ficava visível à luz negra). É muito mais inteligente e prático para os clientes.

Apoia as cervejas e copos na caixa e já vai preenchendo ela com as garrafas vazias

Apoia as cervejas e copos na caixa e já vai preenchendo ela com as garrafas vazias

Além da característica dos maranhenses de os casais dançarem o reggae juntos (o tal “agarradinho”), do mesmo jeito que se dança forró, pude comprovar o ditado que diz que “em São Luís reggae não se dança/ouve, se vive!”. Eram pessoas de todas as idades, com pulseiras, camisas, brincos, etc fazendo alusão aos símbolos (as cores da Jamaica, a bandeira, a folha da maconha, etc) ou a artistas do reggae.

Até que peguei leve na balada, que estava bem agradável, pois queria ir no centro histórico no dia seguinte, o que eu fiz, mesmo sendo aconselhado ao contrário pelo dono do hostel (brasileiro) pois “estaria muito vazio e portanto perigoso”. Peguei um busão até o centro e cheguei lá por volta de 12:00hrs, mas estava com muita fome e resolvi parar para almoçar (e já experimentar o icônico “Guaraná Jesus”), só que tudo no centro fechava as 13:00 e realmente tudo fica deserto após este horário aos finais de semana, o que torna um local perigo (quase que pela segunda vez eu sou assaltado).

O centro é formado por vários casarões antigos de 2 e 3 andares, com enormes e belas janelas e magníficos azulejos portugueses na fachada. Além disto, existem outras edificações, como palácios de governo e igrejas, que foram recentemente reformados e complementam o ar bucólico da região. Mas a maioria dos casarões e algumas ruas estão merecendo uma restauração.

Em São Luís reggae se dança "agarradinho"

Em São Luís reggae se dança “agarradinho”

Depois do centro fui até a Ponta da Areia onde rola um outro reggae muito famoso, o Chama Maré, que acontece aos domingos as 17:00 e por ficar à beira da praia é quase sempre banhado pela bela luz do por do sol. Também é muito legal e agradável. Só é uma encheção de saco os seguranças (do lado de dentro) ou os PMs (do lado de fora) fazendo ronda para evitar que as pessoas fumem maconha. O Brasil tem que liberar logo esta porcaria pois o combate é mais prejudicial (tanto em termos de segurança, quanto financeiramente) do que a liberação. E também porque cada um que faça o que bem entender da puta da sua vida!

Voltei para o hostel, pois tinha fechado o passeio para as fronhas, seguindo recomendação do casal que havia conhecido no sábado e do Laércio, dono do hostel, que me indicou uma agência para fazer o passeio.

As Fronhas Maranhenses são um conjunto de dunas, assim como os Lençois Maranhenses, ou Genipabu no Rio Grande do Norte,  e que fica localizado no município de Raposa, a cerca de 45 minutos de carro (por uma estrada péssima) do centro de São Luís. Têm este nome porque as dunas são menores do que a dos lençois e porque elas ficam bem antes. Por sorte a praia de Carimã, onde ficam as fronhas, é inacessível de carro e habitada apenas por alguns pescadores, o que deixa a natureza praticamente intocada. E por sorte existem pessoas como o Zequinha, o guia do barco que levou o grupo até lá: ele vai diariamente ao local, mesmo que não tenha passeios para fazer, com um saco para recolher o lixo deixado pelos visitantes (às segundas principalmente, pois alguns habitantes de Raposa vão até a praia para curtir o fim de semana). Acabei gostando mais de Carimã/Fronhas Maranhenses do que de Genipabu. Mesmo daquela Genipabu que conheci em 1995! Depois do passeio fomos almoçar e seguimos para São José de Ribamar, a terceira cidade que, junto com Raposa e São Luis, compõe a região metropolitana de São Luis (as 3 cidades ficam na Ilha).

Chama Maré: reggae com vista do por do sol.

Chama Maré: reggae com vista do por do sol.

São José de Ribamar não tem nada de muito interessante para quem não é um religioso fervoroso já que, mesmo sua igreja não tem nada de destaque. Talvez o destaque se dê pelo fato de “inserirem” São José, que sumiu da vida de Jesus na Bíblia, nas estátuas que representam o calvário. Afinal de contas, não ia ser nada legal retratarem a festa e deixarem o anfitrião de fora…hahaha

Como disse, de certa forma me surpreendi positivamente com a cidade e a viagem, mas ao contrário de João Pessoa (do qual falarei no próximo Wanderlust), não tenho vontade de voltar, mesmo não tendo conseguido ir à Alcantara. Sei lá, acho que o stress da insegurança não vale o local.

Observações, dicas e considerações:

  • Nota-se que existem grandes diferenças sociais na cidade (e no Estado) por conta dos prédios luxuosos que existem ou estão sendo contruídos à beira mar e as casas simples dos demais bairros. Sério, são prédios com apartamentos de 200 metros quadrados que, segundo os taxistas, são comercializados na faixa dos milhões de reais.
  • Parece que também existe um processo de gentrificação acontecendo, especialmente na Ponta da Areia. Segundo os taxistas as pessoas que antes moravam em casas simples e sem saneamento básico foram removidos para conjuntos habitacionais “nos fundos” da cidade, as áreas adquiridas por políticos e parentes destes e em seguida “surge” um plano de urbanização (contrução de ruas ou asfaltamento das existentes, saneamento, etc) e as áreas são vendidas para construtoras (também pertencentes à políticos e parentes destes) que erguem estes prédios de luxo.
  • Pelo que me falaram existe uma pequena rixa entre os Maranhenses e os Piauienses. O Piauienses chamam os Maranhenses de “papa arroz” devido ao enorme consumo deste grão no estado.
  • E realmente, metade do peso / volume de qualquer PF é arroz!
  • A variação da maré na Ilha, mas principalmente nos braços de mar que a circundam é enorme. Segundo os locais, a distância entre o ponto de maré alta com o de maré baixa chega a 200 metros e variação de profundidade chega a 8 metros
  • Os DJs dos bares de reggae parecem pastores protestantes. Entre as músicas soltam frases do tipo: “aqui é um lugar de paz”, “Deus deu este sol”, “Jah nos abençoe”, etc. Pense nas frases com a entonação do Canalhafaia!
  • Não ouvi NENHUM Bob Marley sequer (e muito pouca coisa nacional). Os caras devem ir lá na Jamaica buscar o que tem para tocar.
  • São José do Ribamar e Raposa sofrem de um problema que outros lugares do Norte e Nordeste sofrem: as pessoas têm adquirido motocicletas como meio de transporte e abandonando os pobres jegues à sua sorte. Além de falta de consideração com o pobre do animal, é também um risco para a saúde pública e para a segurança no trânsito.

Be happy! 🙂

04 Sao Luis

Palácio de Governo no Centro Histórico

05 Sao Luis

Catedral no Centro Histórico

06 Sao Luis

O tradicional Guaraná Jesus: cor de rosa, cheiro de chiclete e gosto daqueles sucos que vendiam nas feiras em embalagens em forma de revolver, jacaré, fusca, etc

07 Sao Luis

Casarões históricos no Centro

08 Sao Luis

Ponta da Areia, que aparentemente sofre um processo de gentrificação

09 Sao Luis

Chama Maré

10 Sao Luis

Ponta da Areia

14 Sao Luis

Carimã

15 Sao Luis

Fronhas Maranheses

16 Sao Luis

Fronhas Maranheses: natureza intocada!