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Precisamos Falar Sobre Kevin – Lionel Shriver (04/2015)

Precisamos Falar Sobre KevinPrecisamos falar sobre Kevin é o relato ficcional de uma mulher, feito através de cartas escritas para seu marido (cada uma das cartas é um capítulo), sobre acontecimentos relativos à vida do filho, um “garoto Columbine” que, aos 16 anos, perpetuou um ataque contra colegas e funcionários da escola onde estudava, matando nove deles e ferindo um outro.

Inicialmente achei o livro um pouco cansativo, especialmente por estas cartas parecerem uma DR que Eva resolve fazer com seu marido, Franklin, revisitando os fatos desde a decisão de ter um filho até alguns anos depois da condenação de Kevin. Falando assim parece um spoiler, mas não é, já que logo no começo do livro já fica claro que o ataque ocorreu e que Kevin foi condenado à prisão. Mas o interessante do livro é justamente o caminho, e não a conclusão (se bem que existem algumas surpresas nos últimos capítulos). Como disse, inicialmente achei o livro chato, monótono até, porém depois de umas cem páginas o livro pega um ritmo bom. Interessante notar que cada capitulo vai ficando maior (já notei isto em outros autores também, não sei se existe um motivo literário ou é apenas coincidência).

Eva intercala relatos sobre acontecimentos antigos com relatos de suas recentes conversas com Kevin durante as visitas semanais à casa de correção onde Kevin está preso e também com informações sobre o decorrer do processo. Mas apesar do livro não seguir uma linha temporal contínua, ficou bastante interessante o uso do recurso e não ficou nada confuso.

Durante estes relatos ela vai descrevendo os sentimentos de ambos, dela e de Kevin, ou melhor dizendo, a falta de sentimento (ao menos os bons sentimentos) que havia entre eles desde o nascimento de Kevin e, no meu entendimento existem três temas principais abordados por detrás da estória.

O primeiro tema, que não é mais importante, é o panorama e clima que havia nos EUA quando os casos destes garotos virou “moda” nos EUA (final da década de 90 e início dos anos 2000) e de como a população americana reagiu e ainda reage à eles.

O segundo, que eu achei mais importante, é o que leva as pessoas a terem um filho e as responsabilidades decorrentes desta decisão.

A maioria dos casais que conheço resolveram ter filhos para satisfazer uma vontade ou necessidade própria (talvez biológica, de perpetuação da espécie) e só depois, durante a gestação é que começaram a ter uma noção das responsabilidades para com este ser, esta criança. Ou seja, ter um filho, é uma responsabilidade de uma vida toda em prover para um pequeno ser que vai ser dependente por pelo menos 15 anos de alguém.

Porém, a segunda responsabilidade, que acho que poucos casais se dão conta, é a de criar um ser, um membro da sociedade e faz uma análise sobre até que ponto a influência dos pais, do ambiente e da criação são suficientes para formar um “bom cidadão”.

O terceiro tema foi o que eu mais achei mais interessante: Kevin já demonstra uma certa apatia desde o momento do nascimento e, mesmo não sendo um sociopata e tendo sido criado no melhor ambiente possível (apesar dos problemas com a mãe), vem a planejar e cometer friamente o ataque.

Eu achei interessante justamente porque eu creio que, apesar do meio influenciar, acho que as pessoas já nascem com certas tendências quanto ao comportamento. Não sou especialista e nunca tive curiosidade de ir atrás de informação nesta área (talvez já até tenham achado um “gene da maldade” e eu não saiba), mas é uma opnião baseada em observação, em ver irmãos que foram criados exatamente da mesma forma e com as mesmas oportunidades agirem de forma totalmente diferente.

É um baita de um livro, especialmente para quem, como eu, tem interesse pelo comportamento humano.

Existe uma adaptação para o cinema de 2001 que ganhou alguns prêmios em festivais de cinema e recebeu boas críticas, especialmente pela atuação da atriz Tilda Swinton, que interpreta Eva.

O Cordeiro – Christopher Moore (03/2015)

O CordeiroEu devorei as quase 600 páginas deste livro em 5 dias! Ele conseguiu me preender mais do que o Belas Maldições. Aliás, o estilo dos livros é o mesmo e creio que o Christopher Moore bebeu na mesma fonte do Neil Gaiman e Terry Pratchett, ou seja, muito Monty Phython com doses de Douglas Adams. E a mistura não poderia ter saído melhor.

Com o subtítulo “O Evangelho segundo Biif, o brother de infância de Cristo” o livro cobre a vida de Jesus entre os 6 e os 30 anos de idade, período que é ignorado nos evangelhos canônicos presentes na Bíblia. Como o livro é uma peça de humor, não vale nem entrar no mérito da existência ou não de Jesus e o autor parte do princípio de que ele existiu.

Levi, a quem chamam de Biff, é ressuscitado nos anos 2000 por um anjo para que ele escreva a sua versão do evangelho, já que ele acompanhou Josué (o nome verdadeiro de Jesus) praticamente durante toda a sua vida, à partir da infância e até poucos momentos após a sua morte (ele já não estava quando da ressuscitação).

Através da busca de Jesus dos ensinamentos que o tornariam o Messias, ele passa anos aprendendo diversas filosofias, como o Taoísmo, o Budismo e o Induísmo, para condensar tudo na sua própria filosofia. Durante este período ele precisa lidar com a sua condição humana, com os problemas de todo adolescente (especialmente no sentido de se manter celibatário), além de ter que lidar com o fardo de ser “O” escolhido.

Felizmente ele conta com a ajuda do seu fiel amigo Biff, que é exatamente o contrário de Joshua: mentiroso, encrenqueiro, mulherengo e sarcástico (aliás, o sarcasmo é uma invenção do próprio Biff!). Infelizmente Madá (sim, ela mesma, Maria Madalena) aparece apenas no início (antes dos 13 anos) e na fase final (à partir dos 30 anos), pois também é um personagem muito interessante (“mais esperta do que nós dois”, como diria Biff, no que Joshua concordou plenamente).

O autor, além de utilizar muita pesquisa sobre as filosofias já citadas, fez um estudo muito sério sobre a Torá, as condições culturais e sociais do povo judeu no século I (ele inclusive foi até Israel para pesquisar) e da própria Biblia, tanto do velho (que é praticamente uma cópia da Torá, assim como o Corão também o é) quanto do novo testamento. Com isto ele conseguiu, na medida do possível, encaixar os fatos ficcionais do livro com fatos históricos ou bíblicos. O que ele não conseguiu, como ele explica no posfácio, foi pela liberdade literária afim de tornar a estória mais interessante e dinâmica.

Assim como já tinha acontecido com Belas Maldições e com os seis livros da trilogia de cinco do Guia do Mochileiro das Galáxias, várias vezes me peguei gargalhando com algumas passagens mais engraçadas, inclusive em público (no ônibus, por exemplo).

Mas apesar de ser uma obra de ficção e de humor, existem muitas citações interessantes que foram retiradas da própria bíblia e das filosofias utilizadas como base para a estória e que me arrependi de não ter tomado notas (como geralmente faço com livros mais “sérios”).

De qualquer forma, ao final do livro fiquei com a sensação de que, se realmente Jesus existiu, ele deve ter sido mais como o Jesus do livro (amoroso, pacífico, com compaixão, etc) do que o que a maioria das denominações Cristãs e seus fiéis dão testemunho.

Deus Um Delírio – Richard Dawkins (02/2015)

Deus-um-DelirioEngraçado como as vezes um livro aparece na sua vida num momento bem propício. Eu sempre tive uma relação estranha com as religiões. Eu fui criado na doutrina evangélica até os 14 anos de idade, mas nunca tive fé e, graças a minha curiosidade, sempre questionei os dogmas religiosos e a existência de um ser superior (seja ele qual for). Mas também nunca duvidei da existência deste ser (ou seres, dependendo da religião). Simplesmente eu sempre achei que eu não preciso de fé em algo sobrenatural e, desde que a fé alheia não interfira na minha vida eu nunca liguei para religiões em geral. Inclusive eu eu até acho os ritos religiosos muito interessantes.

Mas de uns tempos para cá, especialmente com a ascenção do fundamentalismo evangélico no Brasil e o avanço dos tentáculos de seitas evangélicas sobre Estado brasileiro, eu comecei a rever estes meus conceitos. O livro O Sári Vermelho, que eu li no começo do ano, ajudou a derrubar um mito em que eu acreditava, de que as religiões orientais eram pacifistas e tolerantes. O ataque dos terroristas muçulmanos (sim, é esta a denominação, não adianta dourar a pílula) ao jornal francês Charlie Hebdo foi a gota d’água para eu definitivamente chegar a conclusão de que a religião é sim um mal imenso para o mundo, que não tem como elas não interferirem na minha ou na vida de qualquer pessoa e que as religiões (TODAS) não devem ser apenas ignoradas, mas sim combatidas.

E ai leio este livro do Richard Dawkins, que me traz argumentos infinitamente melhores e com mais embasamento que as minhas próprias conclusões. O livro funciona como se fosse um “Evangelho do Ateísmo”, como o autor propôs que fosse (e ele deixa isto bem claro no prefácio) e é dividido em 10 capítulos que desconstróem alguns mitos das religiões e é respaldado por vários estudos, livros e citações, todos eles devidamente bibliografados ao final do livro, de cientistas, teólogos, celebridades e políticos, religosos ou não. Um dos pontos fortes do livro é justamente desconstruir “teorias” e discursos religiosos. Dentre os 10 capítulos, 3 foram os que me mais chamaram a atenção:

O sexto capítulo trata das raízes da moralidade e desconstrói o argumento de que a ética e a moral são frutos da religião (até porque tanto o Deus da Bíblia quanto a própria Bíblia em sí não são nenhum exemplo de moral, muito pelo contrário). Isto sempre foi um dos meus questionamentos, mesmo quando frequentava a igreja eu já pensava que uma pessoa que precisa ser ameaçada com as chamas do inferno ou “incentivada” com uma vida no paraíso para que pratique atos morais e de caridade só pode ser um canalha ou um interesseiro, mas este capítulo traz uma abordagem do ponto de vista do desenvolvimento da espécie humana para as questões de moral. Não que as razões da moral do ponto de vista da evolução sejam muito altruístas, já que elas se formaram pelo bem da manutenção da espécie, mas ao menos explicam de uma maneira lógica do porque da moralidade e mostra que ela não tem nada a ver com religião.

No oitavo capítulo ele trata sobre os males da religião em sí e das razões para ser tão hostil com todas elas. Um motivo para mim já estava claro há algum tempo: toda religião é fundamentalista ao definir-se como a única certa e buscar a conversão de todas as pessoas à ela ou, quando isto não é possível, a eliminação das demais pessoas e religiões. Não adianta cair no discurso de que “não se pode condenar a instituição por conta de atos de seus membros”, já que se a instituição não existisse, aquele membro muito provavelmente não cometeria aquele ato.

O nono capítulo trata da violência que é doutrinar uma criança em qualquer religião ao invés dar à ela condições de analisar e a opção de escolha, quando ela tiver capacidade para fazer esta escolha. E aqui o livro toca num ponto particularmente interessante para mim. Como disse eu fui criado na doutrina cristã evangélica e, caso não tivesse uma curiosidade natural e capacidade de questionar aquilo que me foi imposto durante anos, provavelmente hoje eu estaria ainda nas garras de alguma igreja, sem a compreensão que tenho hoje do mundo. Poderia falar de várias coisas das quais eu fui privado por conta da escolha que meus pais me impuseram (e nem posso culpá-los já que eles também são vítimas deste ciclo), tais como acesso às artes (cinema, música, etc), TV e à Ciência em geral, mas só o fato eu ter sido levado a acreditar em algo sem a capacidade de questionar já é motivo suficiente para eu concordar plenamente com Dawkins quanto à este tema.

Outro ponto forte do livro é que, ao invés dele cair no lugar comum de utilizar o fanatismo religioso muçulmano, ele prefere usar muitos exemplos do fanatismo cristão americano, o que faz com que as pessoas com capacidade de abstração e análise consigam entender que tudo o que se aplica ao fanatismo muçulmano, também é aplicável à qualquer outra religião.

O livro não é dos melhores, do ponto de vista literário, como muitos fãs de Dawkins também afirmam, mas certamente, dentro do propósito é uma leitura clarificante. Nem posso indicar para amigos que têm fé em algum tipo de religião pois, com quase toda certeza, o livro iria fazer com que elas sintam desprezo e revolta (e talvez até por mim!), mas para aqueles que têm alguma capacidade de analisar fatos e argumentos válidos, independente da fé, é uma ótima leitura.

Algumas citações interessantes:

Joga fora todos os medos de preconceitos servis, sob os quais as mentes dos fracos se curvam. Coloca a razão firmemente no trono dela, e apela ao tribunal dela para todos os fatos, todas as opniões. Questiona com coragem até a existência de Deus; porque, se houver um, ele deve aprovar mais o respeito à razão que o medo cego. – Thomas Jefferson

O espetáculo daquilo que é chamado religião, ou qualquer outro tipo de religião organizada, na Índia ou em qualquer outro lugar, enche-me de horror e já o condenei com freqüência, no desejo de eliminá-lo. Quase sempre ele parece significar crença e reação cegas, dogma e intolerância, superstição, exploração e a preservação de direitos adquiridos. – Jawaharlal Nehru

Temos nomes para as pessoas que têm muitas crenças para as quais não há justificativa racional. Quando suas crenças são extremamente comuns, nós a chamamos de “religiosas”; nos outros casos, elas provavelmente serão chamadas de “loucas”, “psicóticas” ou “delirantes” […] Claramente, a sanidade está nos números. E, mesmo assim, é apenas um acidente da história o fato de ser considerado normal em nossa sociedade acreditar que o Criador do universo é capaz de ouvir nossos pensamentos, enquanto é uma demonstração de doença mental acreditar que ele está se comunicando com você fazendo a chuva bater em código Morse na janela de seu quarto. Assim, se as pessoas religiosas não são generalizadamente loucas, suas principais crenças absolutamente o são. – Sam Harris

“Você é tão bruto, tão pouco sutil, como pode ser tão insensível e mal-educado a ponto de me fazer uma pergunta direta, à queima-roupa, como ‘Você acredita em milagres?’ ou ‘Você acredita que Jesus nasceu de uma virgem?’. Você não sabe que entre pessoas educadas não se faz este tipo de pergunta”. Mas reflita por que é indelicado fazer perguntas tão diretas e factuais para pessoas religiosas hoje em dia. É porque dá vergonha! Só que é a resposta que dá vergonha, se ela for sim. – Richard Dawkins

Você realmente quer me dizer que o único motivo para você tentar ser bom é para obter a aprovação e a recompensa de Deus, ou para evitar a desaprovação dele e a punição? Isso não é moralidade, é só bajulação, puxação de saco, estar preocupado com a grande câmera de vigilância dos céus, ou com o pequeno grampo dentro da sua cabeça que monitora cada movimento seu, até seus pensamentos mais ordinários. – Richard Dawkins

…se as pessoas são boas só porque temem a punição, e esperam a recompensa, então nós somos mesmo uns probres coitados. – Albert Einstein

Mesmo que fosse verdade que precisamos de Deus para ser bons, isso obviamente não tornaria a existência de Deus mais provável, apenas mais desejável (muita gente não consegue enxergar a diferença). – Richard Dawkins

Deus e a Pátria são um time imbatível; eles quebram todos os recordes de opressão e derramamento de sangue – Luis Buñuel

…a religião é um insulto à dignidade humana. Com ou sem ela, teríamos gente boa fazendo coisas boas e gente ruim fazendo coisas ruins. Mas, para que gente boa faça coisas ruins, é preciso a religião. – Steven Weinberg

A Bíblia é um guia da moralidade entre os membros do mesmo grupo, contendo instruções para o genocídio, para a escravização de forasteiros e para a dominação do mundo. Mas a Bíblia não é malévola devido a seus objetivos ou à glorificação do assassinato, da crueldade e do estupro. Muitas obras antigas fazem a mesma coisa – a Ilíada, as sagas islandesas, as lendas dos sírios da Antigüidade ou as inscrições dos maias, por exemplo. Mas ninguém sai por ai vendendo a Ilíada como base da moralidade. Ai é que está o problema. A Bíblia é vendida, e comprada, como um guia para orientar a vida das pessoas. E é, de longe, o maior best-seller de todos os tempos. – John Hartung

A religião é considerada verdade pelas pessoas comuns, mentira pelos sábios e útil pelos governantes. – Sêneca

Os fundamentalistas sabem que estão certos porque leram a verdade num livro sagrado e sabem, desde o começo, que nada os afastará de sua crença. A verdade do livro sagrado é um axioma, não o produto final de um processo de raciocínio. O livro é a verdade e, se as provas parecem contradizê-lo, são as provas que devem ser rejeitadas, não o livro… As pessoas acreditam nos livros sobre evolução não porque eles sejam sagrados. Acreditam porque eles apresentam quantidades imensas de evidências mutuamente sustentadas. Quando um livro de ciência está errado, alguém acaba descobrindo o erro, e ele é corrigido nos livros subsequentes. Isso evidentemente não acontece com os livros sagrados. – Richard Dawkins

O Sári Vermelho – Javier Moro (01/2015)

O Sari VermelhoO Sári Vermelho é um romance biográfico, escrito pelo espanhol Javier Moro, que conta a história da italiana Sonia Maino, que durante uma temporada de estudos na Inglaterra, conhece um jovem indiano, chamado Rajiv, e logo de imediato uma grande paixão surge.

Só que Rajiv era um dos membros da dinastia Nehru-Ghandi, que dominou a política indiana durante praticamente todo o século XX, à partir da independência, sendo ele filho da então primeira ministra Indira Ghandi. Aqui vale um adendo: o “Ghandi” do sobrenome de Indira, Rajiv e mais tarde, de Sonia, não se origina do sobrenome do Mahatma, apesar do avô de Rajiv e pai de Indira, Jawaharlal Nehru, ter lutado ao lado do Ghandi mais famoso pela independência da Índia. Neste caso, Ghandi era o sobrenome do marido de Indira, Firoz Ghandi.

Como já havia dito sobre a biografia do Bussunda, o que mais têm me atraido nas poucas biografias que eu lí (nunca me interessei muito por biografias) é o contexto histórico e cultural onde o biografado se encaixa, o que acaba sendo uma aula de história mais divertida e com mais detalhes do que as que eu tinha quando estudava.

Eu sempre imaginei, por exemplo, que os conflitos existentes na Índia e dela com os seus vizinhos eram relacionados a questões étnicas ou a atritos entre as castas e seu complicado sistema. Porém, nos relatos do livro fica claro que a maioria Hindu, que se dividem nestas castas, são acostumados e aceitam este sistema e, sendo maioria, queriam impor seus costumes e cultura sobre as minorias (sikhs, muçulmanos e cristãos). E eu achava que o problema das religiões se restrigiam apenas às religiões ocidentais monoteístas.

Rajiv, Rahul, Sonia e Pryianka (no colo)

Rajiv, Rahul, Sonia e Pryianka (no colo)

Para contextualizar a história de Sônia, o autor conta um pouco da história da Índia desde pouco antes da independência do país e entra em grandes detalhes, especialmente sobre a história política, enquanto conta a história da personagem principal. Tanto que o livro acaba sendo quase uma biografia de toda a família (com destaque grande para Indira).

Porém, um dos problemas das biografias, que eu também havia citado na resenha do livro do Bussunda, é que o autor geralmente coloca os personagens como “heróis”. Isto fica muito evidente quando ele escreve a história de Sanjay, irmão de Rajiv e cunhado de Sônia, e seus casos de suspeita de corrupção. Ou quando fala sobre a própria Indira e o Emergency, o “estado de sítio” implementado na Índia durante 21 meses, entre 1975 e 1977, em que até hoje pairam dúvidas se este estado era realmente necessário ou se Indira tomou a atitude apenas para se livrar de um processo que cassaria seu mandato por corrupção e a alijaria dos direitos políticos pelos seis anos seguintes.

O autor parece ser um apaixonado pela Índia e sua cultura (os outros livros dele também têm o país como cenário) e muito provavelmente nutre esta mesma paixão pela família Nehru-Gandhi, o que torna os relatos muitas vezes parciais. Ele sempre coloca o fato da família estar sempre envolvida no poder central da Índia como uma missão e um fardo para eles, esquecendo-se que na maioria das vezes, a sede pelo poder de um déspota é bem maior do que sua entrega pela causa, povo ou nação.

Mesmo sendo uma biografia, o livro tem ares de romance, afinal de contas ele conta a história da “gata borralheira de Orbassano”, como Sônia ficou conhecida na região da Itália onde sua família vive, que encontrou o seu “príncipe indiano”. Só que neste caso, o “viveram felizes para sempre” foi interrompido pelas tragédias que marcaram a história da família.

Tanto como um romance, quanto como uma biografia, mas principalmente como um relato de parte da história deste país tão complexo, é um livro que vale a pena.

Bussunda: a vida do casseta – Guilherme Fiuza (24/2014)

BussundaTalvez por não ter tido aparelho de TV em casa até cerca de 12 anos e, após disto, por preferir outras formas de entretenimento, eu nunca tive muita dimensão da importância para a TV brasileira e nunca achei muita graça tanto na TV Pirata quanto no Casseta & Planeta (e mais recentemente com o Pânico na TV). Como estes programas usam a própria programação da TV como base para seu humor, quem não acompanha regularmente a programação televisiva fica perdido.

Apesar de não ser um leitor de biografias (esta é apenas a terceira que eu leio), resolvi comprar este livro ao vê-lo em uma banca.

Biografias, especialmente as autorizadas, não são meu tipo de leitura preferido, pois o autor, até para poder publicar, ter acesso às fontes, aos amigos do biografado, etc tende a dar um foco maior nas virtudes (isto quando não aumenta, elevando o biografado quase ao posto de santo ou herói, como na biografia do Lobão), enquanto releva a segundo plano, ou miniminiza suas as falhas.

No caso em específico da biografia de Claudio Besseman Vianna, mais conhecido como Bussunda, o autor não precisou relevar ou minimizar as falhas, já que eram elas que compunham este “personagem da vida real”: a falta de compromisso, a vadiagem, a falta de responsabilidade.

É claro que alguns dos feitos, bem como o caráter dele, deve ter tido uma maquiagem, mas pelo pouco que vi de suas colunas ou entrevistas, não parece que neste caso o autor precisou “inventar” muita coisa para o biografado ficar “bem na foto”.

O livro conta a história de Bussunda desde o nascimento, passando pela adolescência “complicada” (“gastava” os dias na praia, jogando sinuca, fazendo literalmente nada), a juventude na universidade, onde viria a conhecer alguns dos membros do futuro grupo e a contratação dos dois grupos (Casseta Popular e Planeta Diário, que viriam a se unir e virar o Casseta & Planeta) como redatores da TV Pirata. Tudo isto bem na virada entre o fim da ditadura militar e o início da democracia.

À partir deste ponto, a história de Bussunda, do próprio grupo (ou grupos) e do humor na TV brasileira meio que se fundem e, além da história do próprio “personagem”, o livro também vale a pena para entender um pouco do que acontecia nos bastidores da TV, que à esta altura estava perdida, já que havia ficado anos sob regime de censura.

Para quem gosta de biografias ou quer apenas uma leitura leve, sem nada muito denso, é um bom livro.

Lembrancinha do Adeus: História(s) de um Bandido – Julio Ludemir (23/2014)

Lembrancinha do AdeusSegundo o autor, o livro era para ser um romance-reportagem, mas ao checar as informações colhidas junto ao bandido Lambreta, usado como fonte para a parte da reportagem, ele descobriu que muita informação não batia e na verdade o bandido se colocava como um personagem principal de muitos eventos importantes no desenvolvimento do crime organizado no Rio de Janeiro desde o final da década de 70.

Ele descobriu ai que a fama de um bandido é sempre acompanhada de muitas lendas e resolveu desenvolver um romance baseado neste mote: o bandido que aumenta enormemente os seus feitos para impressionar os outros. Neste caso, um outro, Lembrancinha, o adolescente do morro do Adeus aspirante a bandido.

O livro é praticamente um diálogo entre os dois (Lambreta e Lembrancinha), onde o velho Lambreta, recentemente liberado da prisão após cumprir 30 anos, conta para Lembrancinha, como se fosse “contos de fada” a história do crime organizado no Rio, tendo sempre ele mesmo, claro, como personagem principal. O relato ocorre durante vários dias, enquanto ambos estão em um esconderijo devido à uma guerra no morro.

Apenas mais um personagem interage, rapidamente com os dois: o Pastor Uóston, conhecido em sua vida de bandido como Presença, e recém convertido à alguma das várias seitas evangélicas que infestam os bairros pobres e periféricos da maioria das cidades brasileiras.

A estória faz um apanhado geral do desenvolvimento do crime organizado atual do Rio de Janeiro, desde o já conhecido envolvimento de bandidos comuns com crimes políticos na Colônia Penal de Ilha Grande, apontado por vários especialistas como fator determinante para a conversão de bandidos comuns em bandidos organizados que houve no Rio.

Para quem não é do Rio ou não tem familiaridade com eventos e personagens dos últimos 30 anos (guerras entre quadrilhas, chacinas, bicheiros, traficantes, etc) e não tem familiaridade com a geografia do Rio, às vezes fica um pouco complicado “ligar os pontos”, apesar do autor fazer com que Lambreta, ao contar suas histórias, tente “situar” um pouco as pessoas, fatos e locais.

Para quem não conhece gíria (ou não conhece as do Rio, como eu), o início também é um pouco complicado, pois, como disse, não existe um narrador e o livro é basicamente um diálogo entre dois bandidos, que como deve ser, usam gírias (Lambreta usa inclusive gírias mais antigas, mas tem o cuidado de explicar à Lembrancinha).

Mas é um livro bem interessante, especialmente para quem tem interesse em antropologia, segurança pública, etc. Eu fiquei achando que o livro seria ótimo como base para um filme deste “cinema marginal” (Carandiru, Cidade de Deus, Salve Geral, Tropa de Elite, etc) que surgiu nos últimos anos no Brasil.

Não Entre em Pânico: Douglas Adams & O Guia Do Mochileiro das Galáxias – Neil Gaiman (22/2014)

Nao Entre Em PanicoO Douglas Adams era um cara tão estranho que ele “encomendou” uma biografia póstuma. Não que ele fosse um cara arrogante, mas acho que ele nunca entendeu o tamanho sucesso que ele fez e por isto havia solicitado algumas vezes que alguém escrevesse sobre o guia.

Depois de algumas recusas por parte de outros autores, Neil Gaiman (Sandman e Good Omens), topou o desafio. Aliás, mais do que topou: encarou como um dádiva recebida dos deuses. Como não era um projeto com prazo definido, Neil foi recolhendo material e fazendo entrevistas num ritmo lento, porém neste meio tempo Douglas veio a falecer, então Neil resolveu fazer um livro não somente sobre o Guia, mas sobre Douglas e suas outras obras.

O livro começa contando a história da vida de Douglas, desde quando ele nasceu, a época no internato, a ida à faculdade e sua decisão de se tornar um escritor e foca muito nos problemas de Douglas, especialmente com prazos. Em várias entrevistas concedidas (para este livro e outros veículos) Douglas afirma que “odiava escrever”.

Depois de “dissecar” a vida de Douglas, o livro entra na parte para o qual foi planejado e mergulha no universo do Guia, desde a concepção e produção da série de rádio original até a adaptação para outras mídias, como TV e computador. Existem bastante detalhes de bastidores, declaração dos atores e muitos trechos de roteiros, tanto da série de rádio quanto da TV. Esta parte é até um pouco chata, pois como Neil conta a história por trás de cada uma das produções do Guia (incluindo as montagens teatrais), acaba se tornando meio repetitiva.

No que podemos chamar de terceira parte do livro, Neil mostra em ordem cronológica os outros projetos de Douglas: livros da série Dirk Gently, projeto Last Chance to See, sua participação em projetos de conservação, como a Save the Rhino Foundation, outras participações em TV, o filme que ele não veria produzido, a empresa pontocom e vários outras atividades que se podem chamar de “o legado de Adams”.

Este livro junto com O Salmão da Dúvida conseguem cobrir toda a vida e obra deste escritor que foi um gênio.

O Salmão da Dúvida – Douglas Adams (21/2014)

O Salmao da DuvidaQuando estava escrevendo a resenha sobre o E Tem Outra Coisa… eu estava lendo O Salmão da Dúvida, o que me fez chamar o Douglas Adams de gênio naquela resenha.

Muitos já o classificariam assim pelo compêndio do Guia do Mochileiro das Galáxias, porém talvez sejam as outras obras e especialmente textos de não ficção que o levem a este patamar.

O Salmão da Dúvida é um livro póstumo, que contém uma historia na qual Adams estava trabalhando e que dá o título ao livro e um coniunto de textos, artigos, cartas, entrevistas e um ótimo ensaio (do qual falarei mais abaixo) reunidos por seu editor, com a ajuda de sua assistente e sua viúva. O livro foi dividido em três partes: A Vida, O Universo e Tudo Mais.

Tudo Mais, a última parte do livro, contém o romance título do livro. Conforme entrevistas do proprio Douglas, o roteiro no qual ele estava trabalhando e que entre outros títulos provisórios, teve “O Salmão da Dúvida” como um deles, estava mais propício a ser utilizado para um livro do Guia, mas como ele começou a ser desenvolvido como um texto do Dirk Gently e foram estas as versões encontradas no computador de Douglas, acabou sendo um compilado de doze capitulos extraídos das 3 versões encontradas tendo Dirk Gently como personagem principal. Vale o aviso de que a história ficou sem final. Mas mesmo assim vale a pena, especialmente pelo capitulo que é descrito pela perspectiva de Desmond (e mais não falo para não estragar a surpresa).

Mas o mais interessante mesmo no livro são as duas primeiras partes (A Vida e O Universo). Os artigos selecionados para o livro contam um pouco da vida do autor e as entrevistas publicadas no livro demonstram bastante da personalidade de Douglas já no pós guia e sua relação com as suas obras. Interessante notar como ele, como apaixonado por tecnologia, “previu” muitas coisas que viriam a acontecer em alguns anos, especialmente no que se refere à Internet e como ela vem mudando o mundo. Por exemplo, ele já previa/pensava em Big Data quando o termo ainda nem existia.

Todos os textos ou entrevistas tem o humor tipico de Adams, o que por si só já vale o livro.

Os dois capitulos que eu achei mais interessantes foram o da descrição de uma aventura dele para testar um sub bug e um discurso dele em uma convenção de biotecnologia, na qual ele explana sua teoria do “Deus Artificial”.

O primeiro conta a aventura que ele planejou, de mergulhar na grande barreira de corais, na Austrália com um sub bug (equipamento para mergulho) e fazer a comparação entre mergulhar usando o sub bug e usar uma arraia jamanta.

O segundo é um discurso onde ele explana a sua “Teoria das 4 eras da areia e do Deus Artificial”, que é simplesmente sensacional e mostra toda a genialidade de Douglas.

Mais do que um escritor ou roteirista, ao final deste livro eu me convenci que Douglas era também um visionário, pensador e filósofo. Pena que partiu tão cedo.

E Tem Outra Coisa… – Eoin Colfer (20/2014)

E tem Outra Coisa“E tem outra coisa…” é o sexto livro da trilogia de cinco livros do Guia do Mochileiro das Galáxias. Para quem não conhece, o Guia do Mochileiro das Galáxias foi uma serie ficção científica cômica criada para o radio e transmitida pela BBC no final da decada de 70. O responsável pela criação foi o gênio Douglas Adams.

A série de rádio deu origem a uma série de livros, uma série de TV britânica na década de 80, um filme em 2005, web sites, gibis, jogos de computador e gerou todo um universo (na verdade vários universos, ou seja, um multiverso) em torno de Arthur Dent, Ford Prefect, Tricia McMillan, Zaphod Beeblebrox e todos os insólitos e estranhos personagens e suas aventuras.

Para quem esteve nas ultimas décadas na Nebulosa Cabeça de Cavalo ou em um fiorde de algum planeta construído pelos Magrateanos nos confins deste universo (ou de algum outro) e não sabe nada sobre o Guia, sugiro que corra ate livraria (eletrônica ou física) mais próxima e adquira a série. Prometo que não vai se arrepender. É o tipo de livro que você não consegue parar de ler. Eu li os 5 livros originais da série em cerca de 20 dias, numa toada de 50 páginas por dia.

Mas voltando à este sexto livro em específico, ele foi lançado em 2009, portanto 8 anos após o falecimento de Douglas Adams. A missao foi confiada a Eoin Colfer, um autor irlandês de obras infanto-juvenis.

Acho que a escolha nao poderia ter sido melhor. Colfer soube usar a própria improbabilidade tipica de Adams para trazer de volta os personagens e conseguiu manter a “pegada” do humor britânico que ele tinha, além de inserir um toque próprio, o que não faz com que o estilo seja uma simples cópia do estilo de Adams..

Colfer também inseriu algumas novidades tecnológicas, especialmente ligadas à Internet, que não existiam quando Adams escreveu os cinco livros originais (apesar de ele ter “criado” a subeta.net, uma Internet do universo, nos seus livros, ainda na década de 80). Um exemplo são vídeos virais de celebridades, coisa tão comum nos dias de hoje.

O livro abusa das “notas do guia” para refrescar a memória dos leitores e introduzir novos conceitos, porém não é algo chato ou enfadonho. E mesmo com muita coisa explicada nas notas é interessante que os outros livros sejam lidos previamente para uma melhor compreensão do texto.

Assim como toda a obra de Adams e como o Belas Maldições (será que a escolha de Adam como nome do personagem principal de Belas Maldições não seria uma homenagem à Douglas?), este é um livro que dá vontade de ler novamente tão logo você o termine.

Certo Dia De Outono e Outros Contos – Maximo Gorki (19/2014)

CertoDiaDeOutonoO tradutor José Herculano Pires, que escreve o prefácio desta coletânea de contos de Gorki, foi muito feliz ao comparar a literatura Brasileira com a Russa. Primeiramente pela situação de “periferia”, tanto geográfica, quanto de idioma, em que as duas escolas literárias se encontram em relação à literatura mundial. E em segundo lugar, e talvez mais importante, pela semelhança entre o desenvolvimento das duas nações, que está sempre um passo atrás em relação à Europa e América do Norte, o que faz com que os respectivos povos sofram das mesmas agruras e angústias.

Ao ler os contos, nota-se mais ainda a semelhança. As estórias (ou histórias?) contadas por Gorki, com algumas pequenas adaptações, poderiam ter ocorrido em uma vila de pescadores do litoral do Brasil, ou na periferia de uma das capitais brasileiras, mais ou menos na mesma época em que se passam em seus contos. Da mesma forma que Jorge Amado poderia ter escrito Certo Dia De Outono ou Caim e Artem, dois dos sete contos presente neste livro, Capitães da Areia ou Morte e Vida Severina poderia ter sido escrito por Gorki.

A diferença básica entre Gorki e os autores que retrataram as desventuras do povo brasileiro, em especial dos menos afortunados, é que os brasileiros, até por conta da nossa “síndrome de cachorro vira latas”, tratam seus personagens com um certo “coitadismo”, Gorki trata os seus com uma ternura ímpar.

Talvez isto se dê até pela diferença de origens: enquanto os autores clássicos brasileiros normalmente eram originários das camadas mais altas e instruídas da sociedade, Gorki era de origem tão pobre quanto aqueles que ele retratava.

Só sei que é impossível não sentir compaixão e empatia por praticamente todos os personagens, mesmo os mais abjetos e mesmo quando eles demonstram os mais reprimíveis desvios de caráter. E Gorki consegue retratá-los com uma singeleza impressionante!

Felizmente, fiquei conhecendo esta obra através da resenha “A Ternura de Maximo Gorki” feita pelo Henrique Fendrich, colega de Feedback Magazine. Eu nem vou entrar em detalhes dos contos pois o Henrique soube, bem melhor do que eu saberia, dar uma amostra de cada um deles e traduzir o que se sente ao ler o livro, então sugiro apenas clicar no link (e claro, ler o livro). Só sei que a sensação que eu tive já ao final do primeiro conto foi: “porque eu não conheci este autor antes?”.

Be happy 🙂