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Os Filhos de Anansi – Neil Gaiman (13/2016)

Os Filhos de AnansiNeil Gaiman é um dos expoentes do que eu chamo de “Escola Douglas Adams de Humor Literário Britânico”. Tá certo que o Douglas Adams bebeu muito na fonte do Monty Python, mas por sua vez ninguém melhor do que ele conseguiu transcrever o estilo das gags visuais do famoso grupo britânico em textos. Infelizmente este gênio nos deixou cedo, mas existem vários outros autores que, mesmo sem intenção, seguem o seu estilo: aquele humor non-sense e ao mesmo tempo cheio de sentido (para quem tiver percepção suficiente para entender as sutilezas), fantástico e ao mesmo tempo realista e que parece que está falando diretamente com você.

Talvez o Neil Gaiman seja o melhor “discípulo” desta escola e, em “Os Filhos de Anansi”, todas estas características estão muito presentes. O livro conta a história de Fat Charlie, um sujeito desajeitado, desafortunado, que passou a vida sendo alvo de piadas e pegadinhas do próprio pai. Após a morte do pai ele descobre que ele era um deus: Anansi, a aranha, com origens na África. Não só isto, descobre ter também um “irmão gêmeo”, este já consciente de que se trata de um filho de um deus e que usa isto a seu bel prazer.

Spider (o irmão), na sua “vida despreocupada de filho de um deus”, coloca Fat Charlie em diversas situações adversas, muitas delas quase trágicas, mas que ao final se tornam cômicas.

As passagens “místicas” do livro são tão surreais que mesmo eu, que monto aquele filminho na cabeça enquanto leio, não consegui imaginar completamente e com clareza os cenários e personagens destas passagens. Muito interessante o Gaiman usar mitologia africana para criar a estória.

Deu até curiosidade agora de ler o SandMan, que pelo que conheço é menos humor escrachado e mais um humor ácido, sútil, que é apenas complemento para suspense e drama. Mas do jeito que Gaiman consegue conduzir bem uma trama, não duvido que seja um livro para se devorar em poucos dias, como devorei as mais de 300 páginas de Os Filhos de Anansi (apenas quatro dias!).

Be happy 🙂

Não Entre em Pânico: Douglas Adams & O Guia Do Mochileiro das Galáxias – Neil Gaiman (22/2014)

Nao Entre Em PanicoO Douglas Adams era um cara tão estranho que ele “encomendou” uma biografia póstuma. Não que ele fosse um cara arrogante, mas acho que ele nunca entendeu o tamanho sucesso que ele fez e por isto havia solicitado algumas vezes que alguém escrevesse sobre o guia.

Depois de algumas recusas por parte de outros autores, Neil Gaiman (Sandman e Good Omens), topou o desafio. Aliás, mais do que topou: encarou como um dádiva recebida dos deuses. Como não era um projeto com prazo definido, Neil foi recolhendo material e fazendo entrevistas num ritmo lento, porém neste meio tempo Douglas veio a falecer, então Neil resolveu fazer um livro não somente sobre o Guia, mas sobre Douglas e suas outras obras.

O livro começa contando a história da vida de Douglas, desde quando ele nasceu, a época no internato, a ida à faculdade e sua decisão de se tornar um escritor e foca muito nos problemas de Douglas, especialmente com prazos. Em várias entrevistas concedidas (para este livro e outros veículos) Douglas afirma que “odiava escrever”.

Depois de “dissecar” a vida de Douglas, o livro entra na parte para o qual foi planejado e mergulha no universo do Guia, desde a concepção e produção da série de rádio original até a adaptação para outras mídias, como TV e computador. Existem bastante detalhes de bastidores, declaração dos atores e muitos trechos de roteiros, tanto da série de rádio quanto da TV. Esta parte é até um pouco chata, pois como Neil conta a história por trás de cada uma das produções do Guia (incluindo as montagens teatrais), acaba se tornando meio repetitiva.

No que podemos chamar de terceira parte do livro, Neil mostra em ordem cronológica os outros projetos de Douglas: livros da série Dirk Gently, projeto Last Chance to See, sua participação em projetos de conservação, como a Save the Rhino Foundation, outras participações em TV, o filme que ele não veria produzido, a empresa pontocom e vários outras atividades que se podem chamar de “o legado de Adams”.

Este livro junto com O Salmão da Dúvida conseguem cobrir toda a vida e obra deste escritor que foi um gênio.

Cervejas, Brejas e Birras – Mauricio Beltramelli (17/2014)

Cervejas Brejas e BirrasApesar de já ter contato com as cervejas ditas especiais há mais de 20 anos, pelo fato de morar na Freguesia do Ó, lar do pioneiro bar de cervejas especiais Frangó, só fui realmente me interessar pela cultura cervejeira em 2008, quando estava à trabalho nos EUA e, ao ir a um mercado fazer compras me deparei com a imensa quantidade de cervejas disponíveis num simples mercado de bairro (chutando baixo devia ter pelo menos 100 rótulos diferentes).

À partir dai, e com tempo de sobra para “experimentos puramente científicos”, comecei a procurar mais informações sobre a história, os estilos e os processos de fabricação da cerveja, pois queria me munir de informações para poder escolher entre toda aquela enorme variedade. Foi o pontapé inicial para eu virar um apaixonado pela cultura cervejeira e acho que acabei inclusive indo aprender alemão por conta disto. Eu chuto que eu já tenha experimentado mais de 350 rótulos diferentes (incluindo as populares brasileiras), de mais de 70 países (alguns inusitados, como Namíbia, Cuba, El Salvador e Líbano), dos cinco continentes, muitas “in loco”. Infelizmente comecei a registrar quais eu havia tomado há pouco tempo (desde 2010) para ter o número exato.

Mas voltando à vaca fria, este livro do Mauricio Beltramelli, um dos mentores e criadores do ótimo www.brejas.com.br, que é basicamente o site sobre cervejas mais frequentado pelos apaixados no Brasil, e resume em pouco mais de 300 páginas informações que eu demorei anos para colher na internet.

Usando uma linguagem simples, de boteco mesmo (como não poderia deixar de ser), ele passa pelo essencial que qualquer pessoa que esteja se interessando pelo tema deva conhecer: história da cerveja, principais ingredientes, processos de fabricação, principais escolas cervejeiras e viagens relacionadas à cerveja, tanto no Brasil, quanto no exterior.

É o verdadeiro “Beer for dummies” em português. Mesmo eu tendo conhecimento de boa parte do conteúdo, ainda fui apresentado a bastante informação nova, alguns detalhes que eu desconhecia e também alguns mitos nos quais eu acreditava foram desmistificado (como o do chopp ser a cerveja não pasteurizada).

A parte sobre a história da cerveja no Brasil, país sem tradição em preservar o passado, por exemplo, foi bastante enriquecedora, pois é um pouco complicado encontrar informações na internet e o Maurício, com sua curiosidade e seus contatos conseguiu resumir o pouco de informação que ele conseguiu para tentar traçar um pouco a história da indústria cervejeira brasileira.

Uma outra parte que eu achei muito interessante também é a que ele descreve os dois tipos de “beer evangelizadores”: o intervencionista, que é aquele que quer impor sua vontade sobre os demais e acaba virando um chato (ou bierchato, numa alusão aos enochatos) e os libertários, que é aquele sujeito que aprecia cervejas especiais, mas também não se recusa a tomar uma skol “trincando” na beira da praia com um sol de 40 graus na cachola e que, no momento apropriado irá apresentar aos amigos as maravilhas das cervejas não comerciais.

Achei interessante também a lista com 150 cervejas elencadas por ele ao final do livro, que seria um bom ponto de partida para o iniciante ir abrindo sua mente e acostumando seu paladar.

Durante a leitura foi impossível não sentir vontade de abrir uma cerveja, nem que fosse aquela “de milho e arroz” do boteco da esquina! 🙂

P.S. Apesar de não querer me tornar um beerchato, a Itaipava simplesmente é horrível. É literalmente a única cerveja que eu evito de tomar, mesmo que não tenha outra opção. Prefiro ficar sem beber mesmo….hahaha

 

Good Omens – Terry Pratchett & Neil Gaiman (16/2014)

Minha dentista outro dia me comentou sobre este livro e fiquei na curiosidade de ler, pois a “sinopse” que ela havia feito me pareceu muito interessante: dois anjos, um do exército divino e um anjo caído, ou seja, do exército do inferno, se encontram na terra há mais de seis mil anos, com a missão de prepararem as coisas para o dia do armagedom.

O problema é que, além deles terem se tornado amigos, eles já viveram tanto tempo entre os humanos que se habituaram a alguns prazeres mortais (como carros, no caso de Crowley, o anjo caído, ou sushi e livros, no caso de Aziraphale, o anjo do exército divino). Além de terem desenvolvido afeição pelas pessoas e questionarem a necessidade de se extirpar a vida na terra por conta de um capricho divino.

Para piorar a situação, na hora de colocar o anticristo para ser criado em determinada família, os assistentes de Crowley acabam confundindo tudo e o bebê acaba indo para uma outra família, sem que ninguém saiba qual é, e ambos (Crowley e Aziraphale) têm que correr para descobrir onde se encontra o filho do senhor das trevas antes do dia do juizo final, que acontecerá em 4 dias e que eles estão, na verdade, tentando evitar.

Vale dizer que os autores são britânicos, então já dá para imaginar o tipo de humor encontrado no livro, que é uma mistura de Douglas Adams (O Guia do Mochileiro das Galáxias) com Monty Python (notaram a semelhança da confusão de bebês com “The Life of Bryan”?).

Existem partes simplesmente hilárias, como na que eles contam como uma freira satânica (a mesma que fez a confusão na troca de bebês) criou o que conhecemos hoje como “treinamentos corporativos”, daqueles em que o pessoal da empresa é levado à um hotel de luxo que têm piscina, quadras, bares, geralmente num dia de sol e calor, para que os funcionários fiquem enfurnados dentro de uma sala afim de construir uma canoa, ou uma torre, ou algum outro tipo de atividade que ninguém vê sentido algum, mas para qual todos inventam “lessons learned” (e eu concordo plenamente que este tipo de atividade só pode ser coisa do cão!).

Ou na “reconstrução” dos quatro cavaleiros do apocalipse, onde a fome, por exemplo, é um famoso guru de dietas, que criou uma linha de produtos que não engorda, mas também não alimenta, além de uma rede de fast food cuja descrição em muito lembra o McDonalds, Burger King, e outras gigantes americanas.

A acidez do humor britânico também se faz presente como no trecho abaixo, onde algumas crianças estavam querendo “brincar” de Inquisição Espanhola:

– Eu não acredito que seja permitido às pessoas sairem por ai queimando outras pessoas!
– É permitido se você for um religioso.

Foi um dos livros mais legais que eu li e em vários trechos eu não conseguia conter as gargalhadas, mesmo enquanto estava lendo em público. O único porém foi que eu comprei o livro em inglês e devo ter perdido várias piadas, pois estou mais habituado com o inglês americano. Ao menos entendi a do Greatest Hits do Queen, que diz que, ao escolher aleatoriamente uma fita no carro para colocar para tocar, é 100% de chances que esta fita seja o greatest hits do Queen e que a música que esteja “no ponto” seja precisamente “Bohemian Rhapsody”.

Tentei até encontrar o livro em português, cujo título é “Bons Presságios”, para ler novamente (sim, estou disposto a ler novamente, de tão bom que é), mas infelizmente está esgotado.

Não sei como ninguém teve a idéia de transformar em um seriado. Iria render umas boas 3 temporadas de estórias hilariantes.