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O Capital – Volume 1 – Karl Marx (18/2014)

O Capital

Uma das várias teorias que eu tenho é a de que o Marxismo, assim como todas as suas vertentes, é uma religião. Outro dia até assiti à uma entrevista do Eduardo Jorge onde ele mesmo afirmava isto. Por isto sempre tive a curiosidade de entender o porque dos adeptos da ideologia terem tanta fé nela, mesmo com todos os males que a aplicação prática da doutrina de Marx causou ao longo da história.

Este foi o principal motivo para eu ler este livro, e garanto que o fiz com a cabeça o mais aberta possível.

Bem, o primeiro ponto a se considerar é que é um livro chato para caramba! É cansativo de ler, por ser muito repetitivo e conter muitas notas de rodapé.

É importante considerar que o livro foi lançado em 1867, contando ainda com mais 2 edições revisadas pelo próprio autor e uma versão final, de 1893, revisada pelo seu amigo Friedrich Engels e por sua filha, Eleanor Marx. Como todo livro, é importante ressaltar que ele reflete a sociedade do seu tempo, então é errado dizer que “Marx estava errado!”, já que, além de ser uma obra teórica, ela está relacionada ao tempo em que foi escrita, então muita coisa que ele escreveu fazia muito sentido para aquele momento histórico.

Uma característica importante do livro é a “arrogância” de Marx: ele simplesmente escarnece tudo o que vai contra o seu pensamento. Existem pontos em que só falta, tal qual Dante, criar um “inferno” para colocar aqueles que discordam dele ou dos quais ele discorda. Ele não considera, em nenhum momento, a possibilidade de de sua teorias não serem as mais corretas quando comparadas com outras.

Eu sempre achei que o capitalismo, como modelo econômico e de produção, é o que mais se adapta à natureza do homem de diferenciação perante os seus pares. Em determinado ponto do livro, ele mesmo admite que a acumulação de riquezas é da natureza humana.

Um outro ponto interessante é quando ele avalia que o ser humano tem como “missão” trabalhar em prol da sociedade e criar outros seres humanos que venham a trabalhar em prol da sociedade. Ou seja, uma pessoa que trabalha, deve trabalhar para manter o funcionamento da sociedade e para se procriar, afim de que sua prole seja a sua reposição, quando este já não puder oferecer sua força de trabalho. Sei lá, me pareceu meio que tratar o ser humano como “gado”.

Ele bate muito na tecla de que o que traz valor às mercadorias produzidas é a energia física do trabalhador, o que me faz pensar se ele, como filósofo, imaginava se produzia ou não algum valor, já que não aplicava sua força física e sim seu intelecto.

Engraçado notar também que ele usa várias vezes as sociedades indianas e chinesas, que se organizam em pequenas comunidades autosuficientes, como modelo ideal de sociedades, e analisar o nível de desenvolvimento atual destas sociedades em relação às sociedades capitalistas.

Em determinado ponto ele afirma que foram os avanços tecnológicos que aceleraram o processo de industrialização e não o contrário, o que me leva também a pensar se ele acharia melhor que não existissem estes avanços afim evitar a industrialização da sociedade.

Já na parte final do livro, onde ele discorre sobre algumas leis promulgadas na Inglaterra afim de garantir direitos básicos dos trabalhadores, como jornada de trabalho menor, proibição do emprego de menores, etc ele crítica as mesmas leis que estavam reduzindo o que ele havia criticado durante todo o livro, com o argumento de que os empresários com mais capital conseguiriam assimilar mais a redução da margem de lucro, o que iria prejudicar os empresários com menos posses.

Como disse, o livro é temporal e reflete aquela sociedade, mas uma presuposição errônea que eu creio que ele tenha cometido foi decretar que o capitalismo já havia atingido a maturidade. O capitalismo mudou muito desde então e, se comparado com a teoria dele, já nem seria classificado hoje como capitalismo.

Mas não dá para negar que, muito provávelmente algumas de suas teorias tenham sido responsáveis justamente por moldar a forma atual do capitalismo.

Devido à complexidade do livro, provavelmente não lerei os outros dois volumes, mas fiquei com a curiosidade de ler “O Manifesto Comunista”, já que “O Capital” é um livro mais “técnico”, por assim dizer, onde ele apenas explana teorias e casos, sem dizer como ele imaginaria uma sociedade ideal.

Mas vai ficar só para o ano que vem, já que este me tomou muito tempo e eu tenho, pelo menos, mais uns 10 livros me esperando na estante, ávidos para serem lidos.

Be happy 🙂

Cervejas, Brejas e Birras – Mauricio Beltramelli (17/2014)

Cervejas Brejas e BirrasApesar de já ter contato com as cervejas ditas especiais há mais de 20 anos, pelo fato de morar na Freguesia do Ó, lar do pioneiro bar de cervejas especiais Frangó, só fui realmente me interessar pela cultura cervejeira em 2008, quando estava à trabalho nos EUA e, ao ir a um mercado fazer compras me deparei com a imensa quantidade de cervejas disponíveis num simples mercado de bairro (chutando baixo devia ter pelo menos 100 rótulos diferentes).

À partir dai, e com tempo de sobra para “experimentos puramente científicos”, comecei a procurar mais informações sobre a história, os estilos e os processos de fabricação da cerveja, pois queria me munir de informações para poder escolher entre toda aquela enorme variedade. Foi o pontapé inicial para eu virar um apaixonado pela cultura cervejeira e acho que acabei inclusive indo aprender alemão por conta disto. Eu chuto que eu já tenha experimentado mais de 350 rótulos diferentes (incluindo as populares brasileiras), de mais de 70 países (alguns inusitados, como Namíbia, Cuba, El Salvador e Líbano), dos cinco continentes, muitas “in loco”. Infelizmente comecei a registrar quais eu havia tomado há pouco tempo (desde 2010) para ter o número exato.

Mas voltando à vaca fria, este livro do Mauricio Beltramelli, um dos mentores e criadores do ótimo www.brejas.com.br, que é basicamente o site sobre cervejas mais frequentado pelos apaixados no Brasil, e resume em pouco mais de 300 páginas informações que eu demorei anos para colher na internet.

Usando uma linguagem simples, de boteco mesmo (como não poderia deixar de ser), ele passa pelo essencial que qualquer pessoa que esteja se interessando pelo tema deva conhecer: história da cerveja, principais ingredientes, processos de fabricação, principais escolas cervejeiras e viagens relacionadas à cerveja, tanto no Brasil, quanto no exterior.

É o verdadeiro “Beer for dummies” em português. Mesmo eu tendo conhecimento de boa parte do conteúdo, ainda fui apresentado a bastante informação nova, alguns detalhes que eu desconhecia e também alguns mitos nos quais eu acreditava foram desmistificado (como o do chopp ser a cerveja não pasteurizada).

A parte sobre a história da cerveja no Brasil, país sem tradição em preservar o passado, por exemplo, foi bastante enriquecedora, pois é um pouco complicado encontrar informações na internet e o Maurício, com sua curiosidade e seus contatos conseguiu resumir o pouco de informação que ele conseguiu para tentar traçar um pouco a história da indústria cervejeira brasileira.

Uma outra parte que eu achei muito interessante também é a que ele descreve os dois tipos de “beer evangelizadores”: o intervencionista, que é aquele que quer impor sua vontade sobre os demais e acaba virando um chato (ou bierchato, numa alusão aos enochatos) e os libertários, que é aquele sujeito que aprecia cervejas especiais, mas também não se recusa a tomar uma skol “trincando” na beira da praia com um sol de 40 graus na cachola e que, no momento apropriado irá apresentar aos amigos as maravilhas das cervejas não comerciais.

Achei interessante também a lista com 150 cervejas elencadas por ele ao final do livro, que seria um bom ponto de partida para o iniciante ir abrindo sua mente e acostumando seu paladar.

Durante a leitura foi impossível não sentir vontade de abrir uma cerveja, nem que fosse aquela “de milho e arroz” do boteco da esquina! 🙂

P.S. Apesar de não querer me tornar um beerchato, a Itaipava simplesmente é horrível. É literalmente a única cerveja que eu evito de tomar, mesmo que não tenha outra opção. Prefiro ficar sem beber mesmo….hahaha

 

Good Omens – Terry Pratchett & Neil Gaiman (16/2014)

Minha dentista outro dia me comentou sobre este livro e fiquei na curiosidade de ler, pois a “sinopse” que ela havia feito me pareceu muito interessante: dois anjos, um do exército divino e um anjo caído, ou seja, do exército do inferno, se encontram na terra há mais de seis mil anos, com a missão de prepararem as coisas para o dia do armagedom.

O problema é que, além deles terem se tornado amigos, eles já viveram tanto tempo entre os humanos que se habituaram a alguns prazeres mortais (como carros, no caso de Crowley, o anjo caído, ou sushi e livros, no caso de Aziraphale, o anjo do exército divino). Além de terem desenvolvido afeição pelas pessoas e questionarem a necessidade de se extirpar a vida na terra por conta de um capricho divino.

Para piorar a situação, na hora de colocar o anticristo para ser criado em determinada família, os assistentes de Crowley acabam confundindo tudo e o bebê acaba indo para uma outra família, sem que ninguém saiba qual é, e ambos (Crowley e Aziraphale) têm que correr para descobrir onde se encontra o filho do senhor das trevas antes do dia do juizo final, que acontecerá em 4 dias e que eles estão, na verdade, tentando evitar.

Vale dizer que os autores são britânicos, então já dá para imaginar o tipo de humor encontrado no livro, que é uma mistura de Douglas Adams (O Guia do Mochileiro das Galáxias) com Monty Python (notaram a semelhança da confusão de bebês com “The Life of Bryan”?).

Existem partes simplesmente hilárias, como na que eles contam como uma freira satânica (a mesma que fez a confusão na troca de bebês) criou o que conhecemos hoje como “treinamentos corporativos”, daqueles em que o pessoal da empresa é levado à um hotel de luxo que têm piscina, quadras, bares, geralmente num dia de sol e calor, para que os funcionários fiquem enfurnados dentro de uma sala afim de construir uma canoa, ou uma torre, ou algum outro tipo de atividade que ninguém vê sentido algum, mas para qual todos inventam “lessons learned” (e eu concordo plenamente que este tipo de atividade só pode ser coisa do cão!).

Ou na “reconstrução” dos quatro cavaleiros do apocalipse, onde a fome, por exemplo, é um famoso guru de dietas, que criou uma linha de produtos que não engorda, mas também não alimenta, além de uma rede de fast food cuja descrição em muito lembra o McDonalds, Burger King, e outras gigantes americanas.

A acidez do humor britânico também se faz presente como no trecho abaixo, onde algumas crianças estavam querendo “brincar” de Inquisição Espanhola:

– Eu não acredito que seja permitido às pessoas sairem por ai queimando outras pessoas!
– É permitido se você for um religioso.

Foi um dos livros mais legais que eu li e em vários trechos eu não conseguia conter as gargalhadas, mesmo enquanto estava lendo em público. O único porém foi que eu comprei o livro em inglês e devo ter perdido várias piadas, pois estou mais habituado com o inglês americano. Ao menos entendi a do Greatest Hits do Queen, que diz que, ao escolher aleatoriamente uma fita no carro para colocar para tocar, é 100% de chances que esta fita seja o greatest hits do Queen e que a música que esteja “no ponto” seja precisamente “Bohemian Rhapsody”.

Tentei até encontrar o livro em português, cujo título é “Bons Presságios”, para ler novamente (sim, estou disposto a ler novamente, de tão bom que é), mas infelizmente está esgotado.

Não sei como ninguém teve a idéia de transformar em um seriado. Iria render umas boas 3 temporadas de estórias hilariantes.

Morte e Vida Severina – Joao Cabral de Melo Neto (15/2014)

Morte e Vida SeverinaEu sou um cara muito lógico e racional. Meu cérebro precisa de objetividade ou, se não é possível chegar direto ao ponto, informações suficientes para que ele conclua logicamente qual é o ponto.

Este foi o primeiro livro de poemas que eu lí e já vi que não é para mim. Meu cérebro simplesmente não consegue captar as nuances, reconhecer o sentido por detrás da poesia. Para ser sincero eu não consigo nem enxergar a beleza das palavras.

Até assisti o filme produzido pela TV Globo e, ai sim, aliado com o visual, pude captar um pouco da mensagem do livro (aproveitando: o José Dumont é um baita de um ator, lembro até do primeiro filme que eu vi com ele, chamado “O Homem Que Virou Suco“).

Mas vou me abster de dizer se o livro é bom ou não, pq eu não tenho capacidade para analisar poemas. Mas deve ser, devido aos inúmeros prêmios que já recebeu.

E fiquemos assim.

Bag of Bones – Stephen King (14/2014)

BagOfBonesNo artigo sobre o último livro do Stephen King que eu havia lido, Doctor Sleep, eu citei que, apesar dele ser o meu autor favorito (e para mim o maior escritor de ficção talvez da história, no texto eu explico o porque), eu acho que ele tem um grande defeito, que é estender demais suas estórias, muitas vezes com relatos que não agregam em nada a condução ou a conclusão do livro. E olha que eu gosto de relatos detalhados, pois sou o tipo de pessoa que, enquanto lê, monta o filme na cabeça (inclusive criando a imagem dos personagens). Neste livro ele comete o mesmo erro.

Nas 100 primeiras, das 700 e poucas páginas deste livro ele fica numa enrolação danada, contando a vida de Michael Noonan, o personagem principal do livro, que é um escritor “quase best seller” que perde a jovem mulher e à partir dai entra num bloqueio criativo.

Após quatro anos da morte de sua esposa, Michael resolve passar uma temporada na casa de veraneio do casal, que havia praticamente sido abandonada desde o falecimento de sua esposa. Nesta casa, que fica à beira de um lago em uma região não incorporada do Maine, ele começa a ter experiências sobrenaturais.

Na região, ele acaba por ter contato com uma jovem viúva e sua filha de 3 anos. A jovem está envolvida num processo pela guarda da criança contra o avô desta, que é um velho milionário. Michael se vê compelido a tomar para sí a causa da jovem garota e resolve ajudá-la a garantir a guarda da criança.

Durante o decorrer da estória, ele começa a perceber que as experiências da casa, a pequena menina e praticamente todos os moradores da região TR4 estão interligados a acontecimentos ocorridos há quase um século.

Mesmo durante o desenrolar da estória em Sara Laughs (como é chamada a propriedade de Michael à beira do lago), existem algumas passagens muito longas que seriam dispensáveis.

O mote principal da estória eu achei muito boa, mas acho que desta vez o Stephen King errou a mão no desenvolvimento, pois além das enrolações típicas dele, a estória vai e volta, quando você acha que está acabando acontece alguma coisa que faz com que toda a estória dê um passo atrás. Parece novela brasileira que faz sucesso e ai começam a esticar.

Mas ainda assim, é um livro dos Stephen King e ele é sempre um bom contador de estórias. Existe também uma minisérie, com o Pierce Brosnan, em dois capítulos, que pretendo ver em breve e que aconselho para quem não gosta de livros muito longos e tem curiosidade de saber sobre o que se trata o livro.

A Copa de Longe!!!!

20140630 1Nesta minha segunda viagem à Alemanha (com uma passagem de quatro dias pela Holanda) eu tive a oportunidade de acompanhar boa parte da copa de lá. Na verdade não foi uma oportunidade que “surgiu”: desde que o Brasil foi anunciado como o país sede da Copa de 2014 eu já havia planejado sair do país. Eu sempre fui contra a realização de eventos deste tipo aqui, expliquei até o motivo num artigo publicado na Feedback Magazine pouco antes da Copa e havia há muito tempo decidido passar a copa longe.

20140626Durante a minha estada por lá, os meus amigos começaram a perguntar como era, onde eu estava vendo os jogos, como os holandeses e alemães acompanhavam a copa, e mais um monte de coisas por whatsapp, por e-mail, pelo Facebook, etc. Eu resolvi contar um pouco do que via e sentia por lá em alguns post no Facebook, que eu entitulei como “A Copa de Longe”. Como prometido, farei um resumão aqui desta experiência.

20140628 2A primeira coisa que me chamou a atenção, ainda em Amsterdam, foi a quantidade de referências ao Brasil na cidade. A gente aqui nunca teve o costume de decorar a cidade, os bares e até as vitrines (o que invariavelmente se refletia na moda) com cores dos países sede das copas. A gente decora com cores, bandeiras e motivos do nosso país e pronto. Logo no primeiro dia andando por Amsterdam eu me espantei com a quantidade de bandeiras brasileiras em bares, lojas e restaurantes e com os manequins nas lojas com as cores verde e amarela e com estampas como “Brasil – São Paulo – Copacabana” (?!?!) ou com a nossa bandeira estampada com o desenho de uma girafa (?!?!).

20140628 7Porém, quando cheguei em Berlin (e mais tarde constatei em Dresden também) eu fiquei até assustado: em TODOS os lugares onde transmitiam os jogos (falarei sobre estes lugares um pouco mais abaixo) existiam várias bandeiras da Alemanha, eventualmente bandeiras de outras seleções participantes, mas sempre tinha pelo menos uma do Brasil, geralmente junto com uma da Alemanha, em posição de destaque. Das casas, carros e bicicletas que eu vi, posso dizer que ao menos 10% dos que tinham alguma referência à Alemanha também tinham ao Brasil (e o número de imigrantes brasileiros em Berlin está longe de 10% da população).

20140704 5Alem disto, as vitrines e consequentemente a moda na Alemanha também estava dominada pelo verde-amarelo-azul-e-branco (na Holanda era só verde e amarelo, mas na Alemanha eles faziam questão de fazer referência às quatro cores da nossa bandeira). Conversando depois com alguns alemães eles contaram que isto também não é comum lá, mas como a Copa seria no Brasil, um país amistoso e do qual eles gostam muito, aconteceu meio que espontaneamente esta “Brasilmania”. Em conversas com com italianos e espanhóis, estes também falaram que nos seus respectivos países esta moda do Brasil estava acontecendo desde um pouco antes da Copa. Um italiano de Monza disse que a cidade estava toda em verde e amarelo, e disse que a razão é que “o Brasil é um país simpático e amistoso”.

20140707 3Mas a admiração dos alemães pelo Brasil não foi só por causa da Copa. Ao conversar com eles nas “Weltmeisterschaft Public Viewing” (Weltmeisterschaft é “Copa do Mundo” em alemão e public viewing acho que não preciso traduzir), deu para perceber que eles admiram muito o país e são fãs do futebol sulamericano, especialmente o Brasileiro. Alguns chegaram a me dizer que na América do Sul é que se pratica o futebol de verdade (?!?!). Inclusive, para eles “Messi is gut, aber Neymar ist Wunderbar!” (o Messi é bom, mas o Neymar é fantástico).

20140707 5Assim como os brasileiros, eles estavam decepcionados pela maneira como o Brasil estava jogando. Eles esperavam toque de bola, dribles, jogadas sensacionais, e não o futebol burocrático, no esquema BNN (bola no Neymar) que o Brasil praticou durante a Copa. Durante o jogo Brasil e Chile teve um lançamento direto da defesa para o ataque que foi vaiado. O alemão que estava ao meu lado e que eu havia acabado de conhecer ali disse: “este não o tipo de jogo que nós esperamos do Brasil”. “Nem nós, brasileiros também”, foi a minha resposta.

20140707 6Neste jogo, que foi realizado na 11 Freunde Arena (Elf Freunde = onze amigos), um clube de amantes de futebol que edita um fanzine e montou esta arena em forma de arquibancada para as pessoas assistirem os jogos, a torcida dos Alemães estava meio dividida. Eles estavam no fundo querendo que o Brasil ganhasse, estavam crentes que iria dar Brasil X Argentina na final, pelo fator casa, mas estavam torcendo pelo Chile, com medo de pegar o Brasil nas semis (mal sabiam eles…). Mas mesmo com o “coração dividido”, haviam vários alemães torcendo pelo Brasil com camisa, boné, bandeira e tudo o que se tem direito. Outra coisa interessante é que, apesar de eles acharem que a Alemanha cairia contra o Brasil nas semis, eles estavam “aproveitando o caminho”, ou seja, “vamos curtir, até porque já sabemos o que é perder uma semi e ninguém vai morrer por causa disto”.

O Alemão e o Futebol

20140707 7No artigo citado acima, eu falei que gostaria que a Alemanha ou a Inglaterra ganhassem a Copa, por entender que estes sim é que são os países do futebol, ou seja, os países onde o povo realmente ama o futebol como esporte. Mas estando lá durante uma Copa do Mundo eu fiquei ainda mais impressionado com o fanatismo dos alemães pelo futebol. A opnião de que os alemães são realmente fanáticos por futebol foi corroborada por italianos, espanhóis e franceses!

20140707 10Lá, como cá, eles saem mais cedo do trabalho para ver o jogo. No dia do jogo contra a França, que aconteceu numa sexta-feira as 18:00hrs de lá, muita gente nem trabalhou à tarde e, faltando duas horas para o jogo, o transito de Berlin estava um inferno, com tudo travado.

Eles também são muito corneteiros. As únicas unanimidades eram o Schweinsteiger (o “criador de porcos”), o Özil e o Müller, que aliás era o xodó deles. O Joachim Löw era tão ou mais criticado do que o Felipão.

20140707Eu vi muitos comentários nas redes sociais criticando aqueles que vaiaram o hino chileno durante o jogo contra o Brasil e exaltando o hino cantado a capela pelos brasileiros. Os alemães também cantavam o hino juntos, talvez não com o mesmo empenho dos brasileiros, fato muito comentado por eles (eles diziam que era de emocionar), e vaiaram solenemente o hino francês no jogo contra a França.

20140708 4Acho que a coisa que eu mais achei legal foi o fato de eles gostarem de assistir jogos “na geral”, ou seja, junto com outras pessoas. Já falei acima da 11 Freunde Arena, mas esta era apenas uma das várias arenas montadas em Berlin, em média com capacidade entre 1500 e 2000 pessoas cada. Sem contar os bares e biergartens que sempre estavam lotados. A Hyundai montou um “fun park” no Portão de Brandemburgo, que podemos comparar ao nosso Anhagabaú, e a cada jogo pelo menos 500 mil pessoas se reuniam ali. Considerando que a região metropolitana de Berlin (a cidade de Berlin e mais os municípios ao redor) tem 5 milhões de habitantes, 10% da população estava presente. Se for contar todos os outros lugares que existiam para ver jogos, creio que metade da população assistia o jogo fora de casa.

Os animadores destas “fun fests” até tiravam barato de quem ficava em casa no sofá. Por falar em sofá, o FC Union Berlin teve uma idéia genial: antes da copa pediu para os torcedores levarem o sofá para o estádio para assitirem os jogos lá, o resultado foi este: http://epocanegocios.globo.com/Essa-E-Nossa/noticia/2014/06/na-alemanha-torcedores-levam-sofa-para-assistir-copa-no-estadio.html.

A cobertura da imprensa alemã

Eu gostei muito de como a imprensa alemã cobriu a Copa como um todo. Primeiro que eles não quiseram transformar a seleção deles em “heróis” ou coitadinhos (como fazem aqui), até porque é apenas um jogo de futebol.

20140708 5O segundo fato que eu gostei bastante foi como os repórteres que cobriam o “cotidiano” faziam as reportagens: nunca colocavam os brasileiros como coitadinhos, como povo sofrido ou apelavam para o “dramático” em suas reportagens. Eles apenas retratavam uma cultura diferente, e pelo que deu para perceber, muito interessante para eles. Os repórteres alemães não tinham frescura para irem em favela, dormirem numa tapera, comerem dobradinha, pegarem carona no lombo de um jegue. A impressão que eu tive foi que eles aceitam, entendem e até admiram mais a nossa cultura do que nós mesmos, brasileiros.

Talvez isto explique até o comportamento da seleção alemã durante sua estada na Bahia, interagindo com os locais, aproveitando cada experiência. Eles sim deixaram um baita legado: só pela exposição que o local teve na Alemanha, deve ter fila de 2 anos de alemães querendo conhecer a Vila de Santo André da Bahia.

20140708Outra coisa que eu achei muito legal foi eles tentando falar o nome das cidades, dos jogadores, dos estádios, da forma que os brasileiros falam. Eles inclusive chamavam a seleção brasileira de “Seleção”, a argentina de “Albiceleste”, além de utilizarem outras frases em português, como “joga bonito”. (só pra constar: “Feuer in den augen” – fogo nos olhos – é uma expressão bem mais legal que “sangue nos olhos”)

Em um jogo em que o Daniel Alves tomou (mais) uma bola nas costas, eles soltaram “Avenida Daniel Alves” em pleno português e depois explicaram a piada. Da mesma forma, no jogo do Chile, quando o Jô entrou, eles soltaram um “vem ai Jô, the joke”. Das zoeira endet nie!

Agora, a melhor coisa da imprensa alemã foi a Fernanda Brandão, uma brasileira radicada em Munique, escalada para fazer reportagens de rua, geralmente nas praias do Rio de Janeiro, sempre bem à vontade, como se estivesse pegando uma praia, interagindo com o pessoal, torcendo descaradamente pela seleção e sendo “gente como a gente”.

O fatídico 7×1

20140712No dia do jogo Brasil X Alemanha, iria acontecer um show do Ed Motta na Haus der Kulturen der Welt (casa de cultura do mundo), onde estavam ocorrendo eventos relacionados ao Brasil durante toda a Copa. O show foi sensacional. O público estava meio a meio, por conta da temática brasileira, porém a maioria dos alemães estava lá por alguma ligação com o Brasil (muitos alemães / alemãs casados/as com brasileiros/as, alemães que haviam morado no Brasil, etc) então não pode ser utilizado como parâmetro, mas à partir do quarto gol da Alemanha, os próprios alemães começaram a torcer contra o time deles. Mas não creio que só isto foi a razão, visto que o próprio time da Alemanha “tirou o pé”, senão teria sido uns 12!

A pergunta que eu mais respondi (até chegar a um ponto que nem repondia mais) era: “a Copa do Mundo é no Brasil, o que você está fazendo aqui?”.

Foi uma baita experiência. Eu que nunca fui muito ligado em Copa do Mundo fiquei até com vontade de assistir a próxima “in loco”, já aproveitando para conhecer um país que eu tenho muita curiosidade para conhecer, afinal, a Rússia é logo ali!!!!

Só preciso começar a estudar russo desde já e a “treinar” o fígado, desta vez com vodka!

Para quem quiser mais fotos que eu tirei durante os jogos e no dia-a-dia: http://www.4shared.com/folder/wjncMm2Y/ACopaDeLonge.html

Adeus, China – O Último Bailarino de Mao – Li Cunxin (13/2014)

~AdeusChina_capa-P1.tifRelato autobiográfico que conta a história de Li Cunxin, um garoto pobre, nascido no nordeste da China comunista de Mao Tsé-tung que, ao ser selecionado, aos 11 anos, para integrar a companhia de balé de Madame Mao, tem a oportunidade de fugir do destino sofrido de milhares de outros chineses (como seu pai, tios e irmãos).

O livro está divido em três partes principais. Após o prefácio que descreve o casamento dos pais de Cunxin, a primeira parte trata basicamente da infância do autor e das condições dos camponeses na China pós Revolução Cultural. Ele entra em detalhes de como as pessoas viviam, se relacionavam. Conta um pouco da formação que recebeu na escola (as primeiras frases que todos os alunos aprendiam eram “Salve o chefe Mao” e “Vida longa ao chefe Mao”). Descreve também, com bastante detalhes, como era a “lavagem cerebral” a que os alunos eram submetidos na escola, fazendo inclusive com que as “individualidades” fossem eliminadas e todos fossem apenas “peças” de uma grande engrenagem (o objetivo final do comunismo).

Eu já li alguns livros que tratam sobre estas implementações das teorias de Marx em diversos países (inclusive de simpatizantes destas teorias, como John Reed e George Orwell) e já tive a oportunidade de conversar com algumas pessoas que viveram nestes países durante estes sistemas e nunca consegui obter relatos favoráveis. Até hoje não entendo como tem gente que ainda defende a implementação destes sistemas, adoram estes líderes (Che Guevara, Fidel, Mao, Lênin, Stálin, etc) e países que ainda os adotam (como Cuba, Coréia do Norte e, até o momento a China).

A primeira parte do livro termina com a seleção de Cunxin para fazer parte da escola de balé. A segunda parte trata dos anos difíceis na escola, da adaptação à uma nova vida para um garoto do campo e do contato e o início  da paixão pela arte. Nesta parte, um pouco mais maduro, apesar de ainda existir muita doutrinação política e ideológica, ele começa a questionar um pouco os ensinamentos políticos que recebia, já que muita coisa se opunha à liberdade que a arte, em teoria, deveria ter e já que a arte, naquele contexto, era utilizada como ferramenta para mais doutrinação ideológica.

Durante uma apresentação de uma companhia de balé americana (a primeira apresentação em anos) na escola onde ele estudava, Cunxin tem seu primeiro contato com o ocidente e recebe o convite para, junto com outro estudante chinês, fazer um curso de três semanas na Companhia de Balé de Houston. Durante estas três semanas nos Estados Unidos, tudo aquilo em que ele acreditava cai por terra e, ao sentir o gosto da liberdade, ele percebe o quanto sua vida, até aquele momento, tinha sido “desperdiçada”.

A terceira parte do livro trata da segunda ida de Cunxin aos EUA, viagem esta que faria com que ele desertasse e se estabelecesse no Ocidente. Interessante também a descrição dos acontecimentos da sua deserção. O final do livro mostra as mudanças ocorridas na China desde a queda de Mao e a subida de Deng Xiaoping ao poder.

A biografia é muito interessante, tanto por contar a vida deste artista quanto para nos mostrar relatos de quem esteve dentro destes sistemas e pode descrever os fatos com mais precisão do que qualquer agente externo (professores, historiadores e jornalistas), que muitas vezes por ideologia acabam por “dourar a pílula”.

Existe um filme, produzido na Austrália (Cunxin vive hoje com sua família na Austrália) e que foi baseado no livro, chamado Mao’s Last Dancer.

Abaixo, algumas passagens interessantes do livro.

  • “…os jovens guardas vermelhos destruíam tudo que lembrasse o Ocidente: livros, pinturas, obras de arte – qualquer coisa. Demoliam templos e santuários: Mao não queria outras religiões competindo com o comunismo, que deveria ser nossa única fé.”
  • “Não foi fácil conseguir permissão para dar a Na-na (avó) um enterro tradicional. Aquela era então considerada uma prática ultrapassada e nociva. O governo começava a pressionar as pessoas a cremar seus mortos.”
  • “Eu esperava que, depois da minha morte, alguém lesse meu diário e concluisse que as minhas boas ações tinham sido mais numerosas que as de Lei Feng. Então, eu também seria herói! Mas só tinha 10 anos. Não percebia que aquela era mais uma campanha de propaganda para conquistar nossa lealdade a Mao e ao Estado comunista.”
  • “…fiquei muito impressionado e extremamente orgulhoso do passado glorioso da China – realmente, a nação mais feliz e mais rica do Planeta. Uma questão, porém, começou a me incomodar: se a China era assim tão rica, por que minha família não tinha comida bastante nem dinheiro para comprar roupas?”
  • “Havia ainda o Jornal de Referência, somente disponível para escalões superiores do Partido Comunista, que trazia um pouco mais de notícias internacionais e um pouco menos de propaganda. Ocasionalmente, porém, alguém conseguia um exemplar e passava adiante.”
  • “Os garotos de Xangai se davam bem entre si. Eles, em geral, tinham a pele mais clara que a nossa, pessoas do campo. Eu era provavelmente um dos mais escuros. Como na China considerava-se bonito ter a pele clara, eu me senti inadequado…”
  • “Depois de assistir à apresentação preparada especialmente para ela, madame Mao disse aos oficiais: ‘A dança me pareceu bela, mas onde estão as armas? E as granadas? Onde está o significado político?’ …A partir de então, nosso programa de treinamento sofreu importantes mudanças… Na verdade, aquilo era ideologia política levada à loucura, mas a universidade seguia rigorosamente as instruções e a orientação política que ela transmitia. Não passávamos de marionetes políticas de Mao.”
  • “…suas aulas tratavam apenas da história do comunismo e das idéias políticas de Mao. Era quase nada o que sabíamos a respeito do que acontecia fora da China. Aprendemos um pouco sobre Marx, Engels, Lênin e Stálin, mas apenas como pano de fundo para as grandes realizações políticas de Mao…retratava o chefe Mao como o maior estrategista político que já existira, o homem capaz de superar todos os inimígos políticos.”
  • “Aquela viagem à cidade natal destruíra de vez a fantasia de uma vida ideal no campo, que eu sempre julgara possível. O que acontecia na mente do meu segundo irmão era muito pior do que falta de comida, a fome. Era a morte da alma.”
  • “Assim como Zhang Shu, outros professores experientes, antes acusados de direitistas, foram reabilitados e chamados de volta. Um deles era um especialista em balé russo, que falava muito bem o inglês e tinha traduzido diversos libretos russos para o chinês. Durante o tempo que passara no campo, fora obrigado a executar as tarefas mais repugnantes, para expiar seu único crime: o conhecimento das artes do Ocidente.”
  • “Algum tempo depois, Yu Fangmei, um bailarino formado pela Academia de Dança de Pequim – amigo íntimo do professor Xiao –, chegou do Japão levando de presente para o departamento de balé uma televisão, um aparelho de vídeo e algumas fitas, novidades de que jamais havíamos sequer ouvido falar. As fitas mostravam balés dançados por Barishnikov, Nureyev, Margot Fonteine e até por bailarinos formados nos Estados Unidos, inclusive Gelsey Kirkland. Somente os oficiais e os professores da academia tinham acesso a este material, como ‘fonte de referência’. Não era permitido expor os estudantes às ‘influências perniciosas’ do Ocidente”.
  • “Jamais ouvira música tão bela e romântica. Seria impossível sob o comando de madame Mao; a valsa teria sido considerada uma influência perniciosa a ser banida junto com outras formas de lixo ocidental.”
  • “…felizmente não precisávamos mais analisar o conteúdo político do espetáculo.”
  • “Eram compreensíveis as preocupações de minha família em relação aos Estados Unidos. Durante anos ouvimos falar do perigo representado pelo Ocidente, em especial pelos Estados Unidos.”
  • “Vimos também quadrados azuis, que Ben, com gestos, nos explicou serem piscinas. Entre risadas, custamos a acreditar que pudesse haver tantas piscinas em uma área tão pequena. O contraste com a pobreza da China era tal que mais uma vez pensei na prosperidade dos Estados Unidos e nas histórias que nos contaram”.
  • “Ben e Richard contaram piadas, fazendo todos rirem. Mas Zhang e eu não esquecíamos estar diante de seis possíveis inimigos da classe. Não sabíamos que atitude tomar. Na China, sob o regime de Mao, eles seriam presos ou mortos somente por sua riqueza.”
  • “Eu me senti honrado em conhecer Barbara (Bush), mas o fato de ser casada com um homem de atitudes pouco discretas me fez suspeitar de suas intenções políticas. Iria ela tentar corromper nossas convicções? Fui mentalmente preparado e me surpreendi com a recepção generosa e cordial que tivemos. Barbara não parecia mulher de político. Elegante e bondosa, referiu-se sempre à China com respeito.”
  • “O que mais me ocupou o pensamento, porém, foram as imagens sombrias e assustadoras da sociedade capitalista, então substituídas por outras completamente diferentes. O inimigo que a China mais odiava e o sistema representado por ele me deram o que eu mais desejava. Estava assustado e confuso. Em que acreditar, afinal? No que o comunismo me ensinara ou no que acabara de ver e viver? Por que o chefe Mao, madame Mao e o governo chinês nos contavam mentiras sobre os Estados Unidos? Por que éramos tão pobres na China? E por que eles eram tão prósperos?”
  • “A liberdade experimentada nos Estados Unidos me vinha à memória constantemente. Na China seria impensável desafiar o chefe Mao e a autoridade absoluta de seu governo. Os direitos individuais não existiam. Tudo nos era imposto: o que fazer, quanto trabalhar, quanto receber, onde viver e quantos filhos ter. Minhas crenças comunistas entravam em choque com as lembranças da América, ainda tão vivas.”
  • “…eu não entendia por que o fato de não viajar aos Estados Unidos me afetava tanto. Ficava com raiva de mim por ser egoísta. Já tinha ido uma vez; devia estar satisfeito e agradecido. Mas uma voz mais forte se impunha sobre todas as outras em minha mente: ‘Eu quero voltar. Quero estudar com Ben. Quero melhorar minha técnica e, o mais importante, experimentar mais uma vez aquela preciosa liberdade’.”
  • “…nós não reconhecemos o seu casamento como legítimo. Quem decide sua vida não é você, é o Partido Comunista!…Você é propriedade da China…Temos o poder de fazer o que quisermos de você…O partido sabe o que é bom para você.”
  • “Antes de irmos embora, Barbara nos levou a um passeio pela Casa Branca, o que me deixou muito honrado. Minha maior surpresa foi a simplicidade da decoração. Ali, ficava o centro do poder da América, o centro do poder do mundo. Onde estaria a grandiosidade? Onde o luxuoso palácio da força política? Comparada ao monumento ao chefe Mao, na praça Tiananmen, a Casa Branca era mesmo muito simples.”
  • “Claro que eu sabia da situação do povo russo vivendo atrás da cortina de ferro, mas ainda assim me surpreendi com seu anseio de liberdade. Era pior do que eu imaginava. O medo da KGB parecia presente em todas as mentes.”

Conversations With God – Neale Donald Walsch (12/2014)

Conversations With GodSegundo o prefácio do livro, escrito pelo próprio autor, este livro lhe foi “revelado” em um momento complexo da sua vida, onde ele estava sem perspectivas e começou a questionar Deus sobre os motivos de nada dar certo em sua vida. À partir disto Deus se revelou para ele através destas conversas.

Primeiramente quero dizer que isto pra mim é bullshit. O autor, que até tem uns conceitos interessantes sobre Deus e religião (falarei mais à frente) pensou e muito bem pensando neste livro. Esta foi minha primeira impressão do livro, já não muito boa.

A segunda também não foi das melhores. Eu simplesmente detesto livro de autoajuda e este é mais um destes tenebrosos livros, bem no estilo de “The Secret”. Apesar dos pesares, mesmo nos livros ruins se encontra algo de bom.

Como dito anteriormente, o autor se propõe, no livro, a descrever o conteudo de uma conversa que ele teve com Deus, onde este responde vários de seus questionamentos, que são comuns à maioria das pessoas normais: por que Deus, em existindo, não dá uma prova concreta e incontestável de sua existência? Qual o propósito do homem na terra? Existe inferno? E o demônio? Por que algumas pessoas boas são “castigadas” por doenças e catástrofes enquanto algumas más não são afetados por estes males?

A forma como o autor (ou o seu Deus) responde às perguntas é o que eu achei interessante neste livro. Quer dizer, algumas respostas eu continuei achando a mais pura besteira, mas o que eu gostei foi da “personalidade” deste Deus.

Mas antes de continuar, quero fazer um “adendo” para explicar minha relação com religiões.

Bem, eu me considero um cara cético. Não tenho religião e não acredito em Deus, mas também não desacredito na existência de um ser superior a ponto de me considerar um ateu. Simplesmente eu acho que religião é questão de fé. Você tem fé em algo, aquilo te faz bem e não faz mal a mais ninguém, está tudo certo. Eu nunca fui tocado pela fé e a mim não faz a mínima falta religião, assim como não me importa se existe ou não um Deus, simplesmente porque a existência ou não dele não vai afetar minha vida.

Porém, eu acho muito interessante as religiões e como as pessoas se comportam em relação à elas e gosto de estudar e, eventualmente, presenciar estas relações (os ritos religiosos, de todas as religiões, me fascinam).

Voltando ao livro e à “personalidade” do Deus “criado” pelo autor, eu acabei gostando deste personagem pois ele é justamente a imagem que eu imagino que um Deus teria, caso ele existisse:

  • Ele não tem forma nenhuma, muito menos humana, mas está presente em tudo: nos homens, na natureza, nos pensamentos, nos sentimentos.
  • Ele não é necessariamente um só, mas pode ser vários deuses, ou várias “versões” de um mesmo Deus (ou Deusa).
  • Ele não é propriedade ou ligado à nenhuma religião ou seita em específico, mas cada uma destas seitas ou religiões, são extensões dele.

E as repostas mais legais, à perguntas do autor, que ele dá no livro foram:

  • Ele não deu o livre arbítrio para o ser humano, para depois criar um monte de regras que estes tivessem que seguir e, caso estes não seguissem, seriam punidos por Ele.
  • Ele não é este ser sádico, que colocou o homem na terra para simplesmente mandá-lo para o inferno para sofrer.
  • Ele não é a solução de todo e qualquer problema, pois com o advento do livre arbítrio, ele também deu ao homem a capacidade de guiar o seu destino e, ao fazer suas escolhas, também arcar com as consequências delas.

O livro entra em detalhes do que seria exatamente Deus e a relação dos seres humanos com ele, que particularmente não me interessaram e/ou agradaram muito, mas ao menos o Deus deste livro é um Deus baseado no amor (como no Novo Testamento) e não um Deus baseado no medo (como no Velho Testamento) e esta visão de Deus é a que acho que realmente pode tornar o nosso mundo um pouco melhor.

Algumas passagens interessantes do livro:

  • Livre arbítrio: “There are those who say that I have given you free will, yet these same people claim that, if you do no obey Me, I will send you to hell. What kind of free will is that?
  • Inferno: “Even if I did hold the extraordinarily ungodly thought that you did not ‘deserve’ heaven, why would I have a need to seek some kind of revenge, or punishment, for your falling? Wouldn’t it be a simple matter for Me to just dispose of you? What vengeful part of Me would require that I subject you to eternal suffering of a type and at a level beyond description?
  • Relação do homem com a natureza: “Nothing, nothing is more gentle than Nature. And nothing, nothing has been more cruel to Nature than man
  • Morte: “…to a doctor or a nurse, death is failure. To a friend or relative, death is disaster. Only to the soul is death a relief – a release
  • Intolerância: “You do worse than condemn – you actually seek to do harm to that which you do not choose. You seek to destroy it. If there is a person, place, or thing with which you do not agree, you attack it. If there is a religion that goes against yours, you make it wrong. If there is a thought that contradicts yours, you ridicule it
  • Amor x Expectativas: “Man often feels he needs a return on his investment. If we’re going to love someone, fine – but we’d better get some love back. That sort of thing. This is not passion. This is expectation
  • Sofrimento: “I am not pleased by suffering, and whoever says I am does not know me. Suffering is an unnecessary aspect of the human experience. It is not only unnecessary, it is unwise, uncomfortable and hazardous to your healt…suffering has nothing to do with events, but with one’s reaction to them
  • Imperfeição humana: “You are making mock of Me. You are saying that I, God, made inherently imperfect beings, then have demanded of them to be perfect, or face damnation
  • Relacionamentos: “You have no obligation in relationship. You have only opportunity. Opportunity, not obligation, is the cornerstone of religion, the basis of all spirituality. So long as you see it the other way around, you will have missed the point
  • Dinheiro: “Most people do what they hate for a living, so they don’t mind taking money for it. ‘Bad’ for the ‘bad’, so to speak…For you, therefore, to receive large amounts of money for what you do would be, in your thought system, taking ‘bad’ for the ‘good’ and that is unacceptable to you

Santa Puta – A Redentora – Yumbad Baguun Parral (11/2014)

Santa PutaEste foi o segundo livro do Parral que eu adquiri (leia a resenha do anterior aqui). Diferentemente do primeiro, que tem como ponto central a política, este segundo passa por vários assuntos, desde cultura, religião e claro, política também.

O livro, que conta com um prefácio de “Deus”, transcrito pelo Antonio Abujamra, parte de duas premissas interessantes. A primeira delas é usar um romance para tratar de questões filosóficas, bem ao estilo Nietzche, Camus, Dostoievsky, entre outros autores que ao longo da história usaram deste recurso. Eu acho bem interessante, pois quando se fala diretamente em filosofia, o livro tende a ficar um tanto quanto maçante (tente ler Sócrates ou Platão, por exemplo) e em forma de romance, as idéias do autor são colocadas dentro de um contexto e ilustradas, o que facilita a leitura e o entendimento. Além de atingir pessoas que normalmente não se interessariam pelo tema.

 “A capacidade natural de gerar a vida no próprio corpo e incapacidade inata de enfrentar os conflitos pela força são diferenciais fundamentais. Quem gera, pare, amamenta, educa e forma tem mais condição de gerir que quem, invariavelmente, abandona, massacra e mata…”

A segunda, é o mote principal da estória, de que Cristo, na sua segunda vinda à terra, viria na forma de uma mulher, pois somente o amor da mulher seria capaz de salvar a humanidade.

À partir desta premissa, a história toda é desenvolvida e o autor envereda por diversos assuntos, ligados diretamente ou não à este tema central, como por exemplo, o papel da mulher na nossa sociedade (machista), o porque das religiões ocidentais sempre ligarem a figura de um ser superior e/ou salvador a um homem, etc.

Mais pelo meio do livro, com a história já encaminhada, as questões filosóficas se desenrolam para o momento cultural da nossa sociedade e passa a fazer uma análise de cenários da política (e poder) mundiais.

“Uma das grandes deficiências do capitalismo é a falta de uma política social, ecológica e cultural mais sensível, voltada para a melhor distribuição dos resultados e o cuidado com seus custos ambientais.

Como sistema eficiente de produção é o que de melhor a história já produziu. Porém, como métodologia distributiva praticamente não avançou.”

O autor também trata de temas polêmicos e tabus, como poligamia, homossexualismo, aborto, entre outros tantos “vespeiros” em que outros autores geralmente só se arriscam a botar a mão em estórias totalmente fantasiosas.

“A bestialidade do mundo se alimenta da própria podridão. A aberração de que nos acusam geralmente está em que nos aponta e tenta rotular, não em quem é apontado. Normalmente nos convertem em espelho onde se fazem refletir e, por não se admitirem como se vêm nos acusam da própria bestialidade ou hediondez.”

Eu gostei de como os temas são introduzidos no texto, apesar de não ter gostado do romance em sí. Talvez por ter muito misticismo isto acabe fazendo com que eu crie uma certa antipatia inicial, mas gosto muito de como o Parral desenvolve suas idéias (quer concordando com elas ou não) e de como ele aborda os temas com uma imparcialidade rara no meio literário nacional, já que a maioria dos autores insistem em incutir suas ideologias de uma forma “passional”, mesmo pregando e apresentando-se como imparciais.

Doctor Sleep – Stephen King (10/2014)

Doctor Sleep 1Stephen King é o autor que eu mais lí e que eu considero o melhor de todos os tempos. Muitos podem achar que este “título” é exagerado, já que não faltam bons autores , mas existem alguns fatos que o colocam acima dos demais, mesmo os fora de série.

O primeiro é a quantidade de sua produção. Mesmo se ele fosse um escritor medíocre, só o fato dele escrever 3, às vezes 4 livros por ano (nem estou considerando os contos), já o colocaria, ao menos, como um dos escritores mais profícuos da história. Ele escreve tanto que seu agente pediu para ele escrever menos, para que o mercado não ficasse saturado de “Stephen King” e como ele disse que não consegue não escrever, acabou criando um pseudônimo (Richard Bachman) para lançar algumas de suas obras.

Fora isto, ele tem livros de sucesso em mais de um estilo. Apesar de ser conhecido como o “Mestre do Terror”, alcunha errônea, já que os livros dele na verdade são de suspense, ele já escreveu obras de enorme sucesso em outros estilos. The Green Mile (À Espera de Um Milagre) e The Rita Rayworth and The Shawshank Redemption (Um Sonho de Liberdade) são talvez os dois maiores exemplos mas podemos citar Under The Dome, The Apt Pupil, The Body – The Fall Of Innocence, Secret Window Secret Garden que são alguns dos seus sucessos que passam por temas como ficção científica, nazismo, adolescência, loucura, entre tantos outros que ele usa de fundo para fazer o que ele faz melhor: construir personagens e explorar suas relações.

Stephen King (aka Richard Bachman)

Stephen King (aka Richard Bachman)

Se você fizer uma busca no IMBD com os títulos de obras do Stephen King aqui citados, você vai encontrar uma adaptação para cinema para todos eles, a maioria muito bem avaliado pelos frequentadores do site (Um Sonho de Liberdade geralmente figura no primeiro lugar). Além disto, se procurar pelo nome, irá encontrar dezenas de obras dele adaptadas para cinema, teatro e TV. E isto é um ponto em que ele também é diferenciado: não existe um escritor que tenha tido tantas obras adaptadas para outras mídias como o Stephen King. E mesmo entre os roteiristas e autores que escrevem exclusivamente para cinema, não existe um cujo conjunto da obra tenha alcançado o sucesso do conjunto de adaptações dele.

Se isto não faz dele um dos maiores autores da história, não sei o que faria.

Em Doctor Sleep, King traz de volta Danny Torrance, o personagem central de um de seus maiores sucessos, The Shinning (O Iluminado). Após uma passagem rápida nos acontecimentos ocorridos logo após a derrocada do Overlook e nas consequências destes acontecimentos, o livro salta no tempo mais de 20 anos para mostrar um Dan Torrance (não mais Danny) seguindo os passos de seu pai como dependente de álcool.

Mais alguns acontecimentos que serão importantes no final do livro e um novo salto no tempo, para quase o momento atual, onde Dan, já na casa dos 40 anos, se vê envolvido com uma menina que possui o mesmo “brilho” que o seu e que se encontra à perigo, da mesma forma em que ele se encontrava no Overlook há mais de 30 anos. E agora é Dan quem tem que assumir o papel que um dia foi de Dick Halloran, e usar o seu brilho para ajudar a menina.

Um livro ótimo! Acho que entra nos top 5 dos que eu li dele. Uma coisa que eu não gostava um pouco no estilo de escrita dele, é que ele fazia uma narração que começava meio modorrenta, entrando em muitos detalhes (muitos desnecessários) e gastando quase metade do livro apenas para definir os personagens, enquanto na conclusão ele dava aquela “corrida”. Neste livro acho que ele dosou esta construção dos personagens ao longo do livro e não precisou entrar em detalhes que seriam desnecessários, utilizando-se inclusive deste recurso do “salto temporal”. Livro indicado para quem gosta de suspense com uma pitada de sobrenatural. E não precisa ter lido / visto “O Iluminado”, pois as referências à primeira obra são bem explicadas durante o decorrer do livro. Mas se você não leu o livro E não viu o filme (que tem direção do mestre Stanley Kubrick e uma atuação fenomenal do Jack Nickolson), não sabe o que está perdendo.