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Biomarketing – Yumbad Baguun Parral (6/2019)

Este é o quarto livro que eu leio do Parral. As outras três resenhas estão aqui, aqui e aqui (no primeiro link tem uma explicação de quem é o autor e um link para uma matéria da Piaui sobre ele, então não vou repetir). Entre todos este foi o mais fraco. A impressão que me deu é que este é uma colagem de pequenos trechos e textos avulsos que não foram muito bem ligados.

A idéia central do livro é fazer um paralelo entre o livre mercado (e suas ferramentas, como o marketing) e o desenvolvimento de um indivíduo. Também tenta trazer uma fórmula para atingir o sucesso em ambos: nos negócios e na vida pessoal. Existe também um paralelo entre as duas situações e a teoria da evoluçao de Darwin. Porém este segundo paralelo é bem fraco, pois o livro dá a entender que um indivíduo é responsável pelo desenvolvimento de sua prole (e por consequência da espécie) quando na verdade, segundo a teoria de Darwin, o processo é totalmente aleatório. O máximo que um indivíduo faz é tentar espalhar ao máximo o seu gene.

Depois de desenvolver estes paralelos, contando inclusive com muitas dissertações sobre componentes individuais (novamente dando a impressão de serem textos independentes), existe uma pequena autobiografia, onde o autor conta um pouco da sua trajetória e de como ele atingiu o sucesso segundo os seus critérios. E aqui eu concordo totalmente com o autor: o critério para o sucesso é muito pessoal. E ainda vou mais além: à partir do momento em que alguém deixou outro ente (outra pessoa, um grupo, a sociedade, etc.) determinar o que é seu sucesso, isto em sí já é um fracasso. Outro ponto é que o livro tem uma pegada de auto-ajuda, o que pode ter contribuido também para a minha má impressão. Mas fica a dica: se encontrarem o Parral pelos bares da Vila Madalena, adquiram um exemplar deste ou de algum outro (“E já vem autografado, pra virar relíquia!”).

Be happy 🙂

Santa Puta – A Redentora – Yumbad Baguun Parral (11/2014)

Santa PutaEste foi o segundo livro do Parral que eu adquiri (leia a resenha do anterior aqui). Diferentemente do primeiro, que tem como ponto central a política, este segundo passa por vários assuntos, desde cultura, religião e claro, política também.

O livro, que conta com um prefácio de “Deus”, transcrito pelo Antonio Abujamra, parte de duas premissas interessantes. A primeira delas é usar um romance para tratar de questões filosóficas, bem ao estilo Nietzche, Camus, Dostoievsky, entre outros autores que ao longo da história usaram deste recurso. Eu acho bem interessante, pois quando se fala diretamente em filosofia, o livro tende a ficar um tanto quanto maçante (tente ler Sócrates ou Platão, por exemplo) e em forma de romance, as idéias do autor são colocadas dentro de um contexto e ilustradas, o que facilita a leitura e o entendimento. Além de atingir pessoas que normalmente não se interessariam pelo tema.

 “A capacidade natural de gerar a vida no próprio corpo e incapacidade inata de enfrentar os conflitos pela força são diferenciais fundamentais. Quem gera, pare, amamenta, educa e forma tem mais condição de gerir que quem, invariavelmente, abandona, massacra e mata…”

A segunda, é o mote principal da estória, de que Cristo, na sua segunda vinda à terra, viria na forma de uma mulher, pois somente o amor da mulher seria capaz de salvar a humanidade.

À partir desta premissa, a história toda é desenvolvida e o autor envereda por diversos assuntos, ligados diretamente ou não à este tema central, como por exemplo, o papel da mulher na nossa sociedade (machista), o porque das religiões ocidentais sempre ligarem a figura de um ser superior e/ou salvador a um homem, etc.

Mais pelo meio do livro, com a história já encaminhada, as questões filosóficas se desenrolam para o momento cultural da nossa sociedade e passa a fazer uma análise de cenários da política (e poder) mundiais.

“Uma das grandes deficiências do capitalismo é a falta de uma política social, ecológica e cultural mais sensível, voltada para a melhor distribuição dos resultados e o cuidado com seus custos ambientais.

Como sistema eficiente de produção é o que de melhor a história já produziu. Porém, como métodologia distributiva praticamente não avançou.”

O autor também trata de temas polêmicos e tabus, como poligamia, homossexualismo, aborto, entre outros tantos “vespeiros” em que outros autores geralmente só se arriscam a botar a mão em estórias totalmente fantasiosas.

“A bestialidade do mundo se alimenta da própria podridão. A aberração de que nos acusam geralmente está em que nos aponta e tenta rotular, não em quem é apontado. Normalmente nos convertem em espelho onde se fazem refletir e, por não se admitirem como se vêm nos acusam da própria bestialidade ou hediondez.”

Eu gostei de como os temas são introduzidos no texto, apesar de não ter gostado do romance em sí. Talvez por ter muito misticismo isto acabe fazendo com que eu crie uma certa antipatia inicial, mas gosto muito de como o Parral desenvolve suas idéias (quer concordando com elas ou não) e de como ele aborda os temas com uma imparcialidade rara no meio literário nacional, já que a maioria dos autores insistem em incutir suas ideologias de uma forma “passional”, mesmo pregando e apresentando-se como imparciais.

Sua Excrecência Senadô Sivirino – Yumbad Baguun Parral (5/2014)

Sua Excrecencia

Yumbad Baguun Parral é o pseudônimo do Alagoano Miguel Cavalcante Félix. Quem frequenta os bares da Vila Madalena já deve ter sido abordado por esta figura singular que, vestido com seu chapéu de couro, circula por entre as mesas vendendo suas obras (Veja também esta ótima reportagem sobre o Parral na revista Piauí).

Como frequentador assíduo da Vila, ele deve ter me oferecido seus livros dezenas de vezes e não sei por que (talvez por sempre andar com pouco dinheiro no bolso, geralmente o suficiente para o estacionamento e um dog) nunca havia adquirido um (e olha que eu sou um ávido consumidor de obras de artistas de rua, especialmente CDs). Na última vez em que ele me interpelou resolvi comprar um de seus livros e escolhi este meio que aleatóriamente.

Sempre imaginei que suas obras fossem mais relacionadas à literatura de cordel ou à sátiras (como ele mesmo as descreve), mas me surpreendi pela profundidade do conteudo deste livro, bem como a lucidez, coerência e isenção com que ele trata de assuntos sérios.

O livro pode ser dividido em três partes principais.

O prefácio foi a parte que mais me chamou a atenção. Trata-se de um ensaio sobre moral, ética, política, cidadania, enfim, do papel do homem na sociedade, tanto quanto relacionado à sua natureza e seu instinto de autopreservação, que quase sempre se choca com o que se imagina o papel de um ser dotado de capacidade de raciocínio, quanto à sua função como parte de um coletivo, de uma sociedade.

A segunda parte trata-se da estória em sí: uma sátira que conta a trajetória de um ser castigado pelas mazelas da vida que sai da mais absoluta miséria até chegar ao posto mais alto do legislativo do “Braséu”, claro, não sem o “apoio” de estruturas e personagens interessados nesta ascensão. É claro que, para se dar bem, tanto na vida e na política, este ser abjeto utiliza de todas as artimanhas amorais, ilegais e anti éticas possíveis.

A terceira e importante parte (que na verdade é inserida antes do epílogo) é um outro tratado, num estilo que mistura Maquiável com Sun Tsu, sobre o poder, a conquista, o uso e a manutenção deste, em forma de uma “bíblia” da política.

Da próxima vez que for à Vila já deixarei separado alguns reais na carteira na esperança de encontrá-lo e adquirir outro de seus livros.