Arquivo mensal: janeiro 2015

Wanderlust #15 – Dublin, Irlanda

Dublin 4 - Guinness StorehouseDepois de conhecer Liverpool, a próxima parada nesta minha primeira tour européia era Dublin. Acho que junto com a Austrália (que ainda não conheço), a Irlanda era àquela época o país que eu sempre quis conhecer na vida. E de certa forma ocorreu o mesmo que ocorreu com Londres: a expectativa foi bem maior que a realidade. Não que seja ruim, mas eu imaginava uma outra coisa, especialmente em relação ao povo (do qual falarei daqui a pouco).

Castelo de Dublin

Castelo de Dublin

Ao chegar em Dublin e me registrar no Hostel, que ficava ao lado da Temple Bar, a via boêmia da cidade, fui fazer o de sempre e dar um rolê na cidade para fazer um reconhecimento. Em cerca de 3 horas eu rodei praticamente metade da cidade e já comecei a me acostumar com o fato de que a maioria das cidades européias são pequenas. Depois do passeio, um lanche para dar uma forrada, alguns (vários) pints de Guinness e cama que o outro dia seria corrido.

No outro dia, numa ressaca brava eu fui dar uma volta do outro lado da cidade que eu não havia conhecido e na sequência fazer uma visita na Guinnes Storehouse. A visita guiada à fábrica da Guinness é muito bem montada e faz com que você tenha acesso à toda a história da tradicional marca, ao processo de produção, aprenda a tirar uma Guinness  (aliás, poucos barmans no Brasil sabem). Mas o mais legal é que a visita termina no bar que fica no topo do prédio e de onde se tem uma visão de 360º da cidade. Ou seja, mesmo para quem não bebe e/ou não é muito fã da cerveja, vale muito à pena. Agora, para quem é fã da marca, melhor tomar cuidado para não se empolgar no gift shop da fábrica.

Catedral de St Patrick

Catedral de St Patrick

Depois da visita à fábrica, dei mais algumas voltas pela cidade, o que fez com que eu praticamente conhecesse todos os recantos dela em pouco mais de um dia e meio. Voltei para o Hostel para tomar um banho e fui provar um dos pratos típidos da Irlanda, o Beef Stew, que consiste em um ensopado de carne de ovino com batata e cenoura (lembra muito nosso picadão) e vale muito a pena. Como “digestivo” mandei um Irish Cofee. Não sei como fazem aqui, mas lá, eles fazem este drink com café quente e whisky gelado, sendo que o whisky fica por baixo e o café por cima, e você consegue sentir a diferença de temperatura dos dois. Na sequência desta almojanta (“linner”, que é a junção de lunch + dinner) voltei ao The Quays, o pub que eu havia ido no dia anterior, depois de perambular por vários.

Bem, eu gostei do Quays pois é um lugar mais voltado para turistas e com poucos locais, e aqui volto à questão do início, de porque eu me “decepcionei” em relação ao povo. Eu achava que o Irlandês era do tipo bonachão, festeiro, afeito a conversar (especialmente depois de uns pints), a fazer novas amizades, a querer trocar idéia. Porém, eles são exatamente o contrário disto. Acho que é uma mistura do enfado com turistas que existe, por exemplo, nos parisienses, ou nos habitantes de Praga (existe tanto turista nestas cidades que eles acabam por encher o saco dos habitantes) com desconfiança.

Certificado pela Guinness

Certificado pela Guinness

A “teoria da desconfiança” foi confirmada logo no outro dia, quando visitei o museu de Dublin e entendi um pouco mais da história da cidade e do povo. Depois de visitar eu percebi que entender a história do povo do local que você está visitando é a primeira coisa que se deve fazer ao conhecer um local e cultura novos, até para não fazer julgamentos precipitados como eu acabei fazendo.

Ao visitar o museu, eu aprendi que os Irlandeses, assim como os Poloneses (e falarei deles alguns artigos para frente), sempre estiveram no meio de conflitos dos quais talvez não quisessem fazer parte. Ou então foram feitos de escravos, ora por Ingleses, ora por Nórdicos. Quando a escravatura já não era mais tolerada, por terem um padrão de vida abaixo do da Europa ocidental (até pela distância geográfica), eles se submetiam a combater guerras que não eram deles afim de melhorar suas condições de vida, e com isto eram frequentemente usados como “bucha de canhão”. Isto fez com que eles, como povo, se tornassem arredios.

Museu da Irlanda

Museu da Irlanda

Talvez devesse ter programado mais alguns dias para conhecer o interior da Irlanda, que dizem ser muito bonito. Mas como já falei antes, era marinheiro de primeira viagem em mochilão e o erro é perdoável. Depois de visitar Dublin, a próxima e última parada desta trip foi Edimburgo, uma grata surpresa que conseguiu em apenas poucas horas conquistar o posto de um dos lugares mais legais, com um dos povos mais legais, que eu conheci nestas minhas (ainda) poucas andanças.

Observações, dicas e considerações:

  • Dependendo de onde você ficar hospedado, dá para conhecer praticamente a cidade toda sem precisar de transporte público ou táxi. Minha sugestão é ficar próximo à Temple Bar, mas não tão próximo quanto eu fiquei (meu hostel ficava a 10 metros), pois existe barulho constante.
  • O aeroporto fica afastado da cidade, mas existe opção de pegar um ônibus que deixa em frente ao Trinity College, na região central.
  • Achei que iria encontrar um monte de ruivas lá, mas as Irlandesas têm um estilo estranho: elas descolorem os cabelos, quase num tom branco. E para piorar arrancam quase toda a sombrancelha e passam um lápis preto. Fica muito estranho.
  • A maioria dos bares têm música ao vivo. Geralmente rock, mas alguns com música celta ou folk.
  • É costume dar 15% de gorjeta, mesmo nos pubs, onde você se dirige até o balcão para fazer seu pedido.

Dublin 8 - James Joyce Statue Dublin 9 - The Quay's bar

Haddad, o namoradinho de São Paulo

FotorCreatedNo recente artigo “O Lulo-Petismo e as relações amorosas” eu fiz um paralelo entre a relação do brasileiro com política (em especial com o PT) e os relacionamentos amorosos. Até expliquei um pouco do meu caso com o PT e da “traição” que sofri quando o PT chegou ao poder e, além de se aliar com o que de mais nefasto existe na política brasileira, rasgou toda a sua história e junto o seu discurso de ética.

Minha decepção com o governo Lula/PT (é impossível dissociar a imagem do PT da do Lula e creio até que quando o Lula morrer o PT começa a morrer junto) começou até antes do estouro do escândalo do mensalão, pois entendo que ali naquele momento o PT tinha um capital político para “bater de frente” com a tal da velha política (PMDB e PFL, atual DEM, mais especificamente) e não precisaria se alinhar à nenhum deles. Até porque, se fossem feitas algumas reformas que até hoje são tão necessárias, o próprio PSDB, que ao contrário do PT nunca fez oposição inconsequente (até agora né!), iria apoiar. Mas não, o PT chegou lá e simplesmente preferiu “jogar o jogo”, quando o discurso durante toda a sua trajetória era de que era justamente uma opção ao tipo de política que se praticava e ainda se pratica no Brasil.

Ai depois vieram outros fatos, como o próprio escândalo do mensalão, que me fizeram “desapaixonar” (o que eu tinha pelo PT não era bem uma paixão, mas vou usar este termo assim mesmo). Nas eleições de 2006, ainda “magoado” eu votei pela primeira vez contra o PT para quase todos os cargos (para senador ainda continuei votando no Suplicy). Em 2010, passada a “raivinha” e agindo com mais razão do que emoção, eu simplesmente fui viajar nos dois turnos da eleição e justifiquei. E garanto que não fiquei com nenhum peso na consciência por não ter “exercido meu dever cívico”.

Eu simplesmente achava que nenhum dos postulantes (Marina Silva inclusa) merecia meu voto e preferi me abster, pois não seria o caso nem de “escolher o menos pior”, eram todos, no meu ponto de vista à época, horríveis, e o que viesse daria na mesma.

Porém, confesso que os primeiros meses de mandato da Dilma me surpreenderam positivamente (até porque eu não tinha expectativa nenhuma criada). Agindo mais como “administradora” e menos como “política” e de maneira pragmática, até imaginei que se tratava de um “boi de piranha” que o PT tinha lançado para implementar algumas medidas impopulares (as tais reformas). Porém, no decorrer do mandato, talvez muito por influência do próprio partido, que não quer correr o risco de ficar de fora do poder, ela foi mudando de comportamento e passou a “jogar o jogo”, tomando medidas bastante populares, mesmo que inócuas, quando não danosas mesmo, afim de manter sua popularidade, sua base no congresso e as benesses dos companheiros e do próprio partido (quem duvida que o PT montou uma máquina que suga recursos do Estado para ser utilizado em campanhas com o intuito de se perpetuar no poder, ou é cego, ou é burro ou é conivente, não que outros partidos à partir de agora, seguindo o mau exemplo, farão diferente).

Nas eleições municipais de 2012 em São Paulo, com as opções de Fernando Haddad, José Serra e Celso Russomano, voltei a votar no PT no primeiro turno, mas na verdade era um voto contra o Celso Russomano (acho ele um dos políticos mais detestáveis que existem, o apoio da Universal foi só a “cereja do bolo” para eu votar contra ele) e no segundo turno, pela primeira vez na vida eu anulei meu voto (minha primeira eleição tinha sido em 1996).

Mas entendo que a gestão de Haddad nestes dois anos à frente da cidade vem me surpreendendo positivamente ao ponto de eu considerá-lo como o melhor prefeito de SP desde a Luiza Erundina (que é o que eu consigo analisar, antes disto eu era muito novo) e, em caso de uma candidatura dele à reeleição eu tenderia a votar nele.

Primeiramente eu fiquei supreso e contente com a montagem das suas secretarias. Ele jogou bem o jogo político ao entregar secretarias para partidos que inclusive haviam concorrido contra ele na eleição, porém, ao contrário do que a Dilma fez nos seus ministérios, ao apenas esperar as indicações de cada um dos partidos para o preenchimento destas vagas, o que invariavelmente acaba sendo uma escolha política, ele mesmo definiu quais políticos de cada um deles iria ocupar quais secretarias e assim pode colocar pessoas ligadas às respectivas áreas de cada secretaria, ou seja, ele conseguiu realizar um movimento político sem deixar de lado a questão técnica da coisa. Com isto e com o fato do PSDB não fazer oposição inconsequente, ele praticamente conseguiu unanimidade na câmara.

Com as subprefeituras aconteceu a mesma coisa: ele nomeou pessoas das regiões que já eram envolvidas com a política do bairro e eram lideranças nestes bairros, independente do partido a que fossem filiadas ou aliadas.

É claro que isto acabou gerando um isolamento dele dentro do próprio partido, já que os militantes e correligionários esperavam ser agraciados com secretarias e subprefeituras.

Outra coisa muito interessante que ele implementou são as audiências públicas realizadas para tratar de diversos assuntos, desde a mobilidade urbana até o plano diretor recentemente votado e aprovado. Ainda criou os conselhos populares nos bairros, onde um cidadão comum pode se tornar membro deste conselho, através de eleições diretas, e participar da tomada de decisões e da fiscalização das atividades da respectiva subprefeitura. Isto é um passo rumo à uma democracia participativa (o povo participa mais ativamente, através de conselhos, comissões, referendos, etc) que atende melhor e com mais rapidez os anseios e necessidades do povo em relação à democria representativa (aquela onde o povo apenas escolhe os seus representantes e estes decidem sozinhos pelo povo). Um adendo: o tal “decreto  bolivariano” nada mais era do que uma política nacional para a democracia participativa, que já acontece em vários países, como EUA, Alemanha, Canadá e Austrália, ou seja, não era tão “bolivariano” assim.

Mas o que mais tem me impressionado na sua gestão é o enfrentamento dos problemas da mobilidade urbana e da ocupação pública, que creio serem os principais problemas enfrentados hoje na cidade e que se encontram na alçada da prefeitura (o problema de segurança é de alçada do estado).

O próprio plano diretor é um grande avanço da sociedade em contraponto aos interesses da especulação imobiliária, já que agora privilegia-se uma ocupação mais inteligente das poucas áreas ainda disponíveis para a construção de empreendimentos imobiliários. A criação de novos parques e o incentivo do uso do espaço público durante seu mandato também têm sido louváveis. Chegamos ao ponto de termos vários ótimos shows e eventos acontecendo ao mesmo tempo em várias partes da cidade e tenho notado que o paulistano está aprendendo a trocar o shopping pelo parque como forma de lazer.

Além disto, havia a necessidade de se mudar a lógica do privilégio do carro na cidade e ele teve a coragem de mudar esta lógica com a ampla implementação dos corredores de ônibus e ciclofaixas. Alguém pode dizer que faltou planejamento, mas são tantos os interesses envolvidos que se ele fosse sentar e discutir com todos os atores era capaz de terminar o mandato sem ter conseguido implementar nada. Além do mais, quando se mexe com uma mudança de cultura, as vezes é melhor usar uma tática “big bang” (muito usada em implementação de sistemas e processos em empresas), ou seja, implementa e depois vai corrigindo, afim de remover as resistências.

É claro que ele vem enfrentando muita resistência, especialmente por quem está sendo afetado por estas mudanças e está sendo obrigado a sair da zona de conforto, porém a aprovação das faixas de ônibus e bicicletas é bem alta, o que gera uma situação inusitada, que são as ações do prefeito terem alta taxa de aprovação, porém o próprio prefeito não ter uma aprovação alta, mas creio que isto se explique pela própria resistência ao PT (falei disto no artigo anterior também) e pelo fato de que as ações no âmbito federal acabam “respingando” na administração Petista na capital.

É claro que ainda falta muita coisa, como por exemplo, enfrentar com mais vemência o uso privado do espaço público (o estacionamento em vias onde circulam ônibus deveria ser terminantemente proibido!) mas tenho notado que São Paulo deu um passo, ainda tímido, na direção do que eu imagino ser uma cidade mais habitável.

Mas (e sempre tem um mas) eu só fico assustado com uma certa “beatificação” do Haddad. Eu vejo nas redes sociais que qualquer ação que o prefeito toma vira motivo de exaltação, quando na verdade ele não está fazendo mais do que a obrigação e ao invés deste endeusamento, seria mais eficaz cobrar dos outros políticos ações iguais. Eu sou da opnião que político deve sempre ser visto com desconfiança, pois se ele em algum momento se sente confortável no cargo, é uma oportunidade de surgirem os corruptos e déspotas que sempre temos visto no país.

Update:
Eu já tinha terminado o texto quando algumas ações da prefeitura no meu bairro aconteceram e algumas notícias pipocaram na mídia, então para não ter que rever todo o texto vou colocar como update.

A primeira situação diz respeito ao combate do uso privado do espaço público. Na semana passada foi proibido o estacionamento em horário de pico em uma das principais vias da Freguesia do Ó, bairro onde moro, e o impacto positivo no trânsito já foi sentido. Poderia ter colocado faixa de ônibus e durante o dia todo, já que basicamente a avenida é usada como estacionamento pelos comércios locais ou como vitrine para várias agências de carro. Mas já é um começo e um ponto a mais para o Haddad.

Agora a segunda vai de encontro ao fato que eu havia citado de que o Haddad não havia distribuido cargos por motivos políticos. Desde semana passada ocorreram várias nomeações políticas: primeiro três amigos de seu filho ganharam cargos de assessores. Depois foi a vez dele convidar o Gabriel Chalita (PMDB), o Eduardo Suplicy (que não conseguiu se reeleger para Senador) e o Alexandre Padilha (que havia concorrido ao governo do estado de São Paulo) para cargos em secretarias, visando as eleições do ano que vem.

Todos eles podem ser muito competentes (não penso em um nome melhor do que o do Suplicy para a secretaria de Direitos Humanos), mas vale aquele ditado: “À mulher de César não basta ser honesta, tem que parecer honesta”. Apesar disto, o saldo de seu governo ainda é positivo, mas acho que ele mandou muito mal e podia se reeleger sem “apelar”. 

O Sári Vermelho – Javier Moro (01/2015)

O Sari VermelhoO Sári Vermelho é um romance biográfico, escrito pelo espanhol Javier Moro, que conta a história da italiana Sonia Maino, que durante uma temporada de estudos na Inglaterra, conhece um jovem indiano, chamado Rajiv, e logo de imediato uma grande paixão surge.

Só que Rajiv era um dos membros da dinastia Nehru-Ghandi, que dominou a política indiana durante praticamente todo o século XX, à partir da independência, sendo ele filho da então primeira ministra Indira Ghandi. Aqui vale um adendo: o “Ghandi” do sobrenome de Indira, Rajiv e mais tarde, de Sonia, não se origina do sobrenome do Mahatma, apesar do avô de Rajiv e pai de Indira, Jawaharlal Nehru, ter lutado ao lado do Ghandi mais famoso pela independência da Índia. Neste caso, Ghandi era o sobrenome do marido de Indira, Firoz Ghandi.

Como já havia dito sobre a biografia do Bussunda, o que mais têm me atraido nas poucas biografias que eu lí (nunca me interessei muito por biografias) é o contexto histórico e cultural onde o biografado se encaixa, o que acaba sendo uma aula de história mais divertida e com mais detalhes do que as que eu tinha quando estudava.

Eu sempre imaginei, por exemplo, que os conflitos existentes na Índia e dela com os seus vizinhos eram relacionados a questões étnicas ou a atritos entre as castas e seu complicado sistema. Porém, nos relatos do livro fica claro que a maioria Hindu, que se dividem nestas castas, são acostumados e aceitam este sistema e, sendo maioria, queriam impor seus costumes e cultura sobre as minorias (sikhs, muçulmanos e cristãos). E eu achava que o problema das religiões se restrigiam apenas às religiões ocidentais monoteístas.

Rajiv, Rahul, Sonia e Pryianka (no colo)

Rajiv, Rahul, Sonia e Pryianka (no colo)

Para contextualizar a história de Sônia, o autor conta um pouco da história da Índia desde pouco antes da independência do país e entra em grandes detalhes, especialmente sobre a história política, enquanto conta a história da personagem principal. Tanto que o livro acaba sendo quase uma biografia de toda a família (com destaque grande para Indira).

Porém, um dos problemas das biografias, que eu também havia citado na resenha do livro do Bussunda, é que o autor geralmente coloca os personagens como “heróis”. Isto fica muito evidente quando ele escreve a história de Sanjay, irmão de Rajiv e cunhado de Sônia, e seus casos de suspeita de corrupção. Ou quando fala sobre a própria Indira e o Emergency, o “estado de sítio” implementado na Índia durante 21 meses, entre 1975 e 1977, em que até hoje pairam dúvidas se este estado era realmente necessário ou se Indira tomou a atitude apenas para se livrar de um processo que cassaria seu mandato por corrupção e a alijaria dos direitos políticos pelos seis anos seguintes.

O autor parece ser um apaixonado pela Índia e sua cultura (os outros livros dele também têm o país como cenário) e muito provavelmente nutre esta mesma paixão pela família Nehru-Gandhi, o que torna os relatos muitas vezes parciais. Ele sempre coloca o fato da família estar sempre envolvida no poder central da Índia como uma missão e um fardo para eles, esquecendo-se que na maioria das vezes, a sede pelo poder de um déspota é bem maior do que sua entrega pela causa, povo ou nação.

Mesmo sendo uma biografia, o livro tem ares de romance, afinal de contas ele conta a história da “gata borralheira de Orbassano”, como Sônia ficou conhecida na região da Itália onde sua família vive, que encontrou o seu “príncipe indiano”. Só que neste caso, o “viveram felizes para sempre” foi interrompido pelas tragédias que marcaram a história da família.

Tanto como um romance, quanto como uma biografia, mas principalmente como um relato de parte da história deste país tão complexo, é um livro que vale a pena.

Botecando #47 – Barnaldo Lucrécia – São Paulo – SP

Barnaldo 1As vezes a gente fica tanto tempo frequentando os mesmos lugares que deixa de aproveitar o que São Paulo tem de melhor, que é justamente a quantidade e diversidade de lugares bons para ir. Fazia uns bons 6 ou 8 anos que não ia ao Barnaldo e tinha até esquecido como é um ótimo bar.

Barnaldo 2Situado em um antigo casarão situado a dois quarteirões da Bernardino de Campos e a menos de cinco minutos andando do metrô Paraíso, conta com dois pisos, cada um com um palco, onde se apresentam artistas e grupos de MPB (com umas pitadas de samba) de qualidade acima da média a encontrada em outros bares. Para quem frequentou o Bom Motivo, dá para comparar a qualidade dos artistas, bem como o repertório. Talvez eles pudessem aproveitar a mesma “tática” do Bom Motivo e fazer com que os músicos se alternassem entre os dois palcos, porque fica complicado você deixar de assistir um artista que está se apresentando no palco 2 (do segundo piso) porque conseguiu mesa no piso inferior.

Mas a qualidade do som não é o único atrativo da casa. A começar pela decoração, que lembra uma vendinha do interior com peneiras e panelas penduradas, além de muito artesanato brasileiro. A cerveja também vem sempre gelada e além das cervejas comerciais (Original, Serramalte, etc), ainda existem algumas opções de cervejas diferentes. Os “comes” também são feitos com capricho e o tamanho das porções vale o preço.

Barnaldo 3Mas o ponto maior de destaque, junto com a música, é o atendimento. Desde a recepção até pagar a conta a gente é atendido por funcionários muito atenciosos, bem humorados e com verdadeiro prazer em atender. Quando existe aniversariante, eles invariavelmente até fazem um batuque em panelas para ajudar na animação.

Outra grata surpresa foi curtir um pouco do som  e da energia do Elio Camale, um baita artista, que era regular na casa, mas que agora está morando na França, veio passar  férias no Brasil e não resistiu em fazer uma noite no Barnaldo.

Onde: Barnaldo Lucrécia (Rua Abilio Soares, 207 – São Paulo – SP)
Quando: 10/01/2015
Bom: música, atendimento, ambiente, enfim, tudo!!!
Ruim: só para ter do que reclamar, a fila para pagar foi um pouco demorada
Site: http://barnaldolucrecia.com.br/

 

Botecando #46 – Sociedade Rosas de Ouro – São Paulo – SP

20150107_232626Ok! Não é um bar, mas tem cerveja, tem música e tem gente se divertindo, então dá para enquadrar na categoria, e afinal de contas quem manda aqui sou eu….hehehe

Como moro na Freguesia do Ó, bairro onde a quadra da escola é situada hoje em dia (para quem não sabe, a Rosas é originária da Vila Brasilândia, inclusive, quando da mudança de localidade, houve uma cisão que gerou o GRES Iracema Meu Grande Amor), já frequentava a quadra há alguns anos (quase uns 20). Porém, havia 4 anos que não ia em ensaio.

20150108_002929O motivo é que o ensaio da Rosas de uns anos pra cá virou “balada”: custa relativamente caro (R$ 30,00 é caro comparando a outras escolas, porém entendo que a escola deve aproveitar a demanda), normalmente tem filas gigantescas e fica muito lotado. Para piorar, agora também está começando muito tarde (mesmo sendo uma quarta feira) e a bateria só entrou quase à meia noite.

Tudo isto acaba tirando um pouco daquele ar de “comunidade”, já o que mais se vê são pessoas que estão ali para mais para azarar e beber, e menos para curtir o samba e aproveitar para interagir com uma realidade que talvez seja distante da dele, além do mais, os valores afastam um pouco as pessoas com um poder aquisitivo menor e que não são associados da agremiação. Sem contar que a maioria das pessoas precisa levantar cedo para trabalhar.

Mas como era a primeira semana do ano imaginei que não estaria tão cheio e resolvi arriscar. O esquema é sempre o mesmo da maioria das escolas: uma roda de samba para esquentar, depois entra a bateria que toca os hinos da escola, eventualmente alguns sambas-enredo antigos e depois começam a tocar o samba do carnaval atual, repetindo inúmeras vezes para que as pessoas o decorem.

Não tem muito luxo (apesar de ser uma das melhores quadras de SP) e os comes e bebes estão disponíveis nos bares da quadra (cada bar é diferente, pois eles são arrendados). Para comer, sugiro bater um belo pernil em uma das barracas da frente antes de entrar (para se preparar para a bebida) e um na saída para dar aquela reforçada.

Infelizmente, cerveja é só devassa (o que me gerou uma baita ressaca!), mas existem outras opções de drinks (caipirinhas, vodka, whisky, etc).

Quanto ao enredo de 2015, achei o tema (“Depois da Tempestade, o Encanto”) bem interessante e com muitas possibilidades no desenvolvimento de fantasias e alegorias. Gostei bastante da letra, porém achei que a música não empolga e a melodia é difícil de decorar.

Os ensaios estão acontecendo todas as Segundas, Quartas (fuja, é o dia mais cheio) e Sextas. Para quem quiser ir, sugiro ir nesta ou no máximo na próxima semana, depois fica praticamente impossível se locomover lá dentro devido à lotação.

Onde: Sociedade Rosas de Ouro (Rua Coronel Euclides Machado, 1066 – São Paulo – SP)
Quando: 07/01/2015
Bom: samba!!!
Ruim: somente cerveja devassa
Site: http://www.sociedaderosasdeouro.com.br/

 

O Lulo-Petismo e os relacionamentos amorosos

PtismoAntes de começar com o assunto principal, acho que cabe esclarecer dois pontos nos quais sempre sou questionado quando critico o PT.

O primeiro deles é porque eu critico tanto o PT. Eu também critico os outros partidos. Aliás, eu critico políticos em geral, independente de partido e/ou corrente ideológica. Mas no caso do PT creio que eu critico com mais propriedade e talvez até com mais veemência. Eu posso fazer isto porque na minha juventude eu estive a ponto de me filiar ao partido e cheguei a trabalhar (gratuitamente, diga-se de passagem) nas eleições de 1998 e 2002, fazendo boca de urna e contribuindo com as campanhas através de aquisição de camisas, chaveiros e outros “souvenirs” que eram vendidos para custear a campanha. Não que eu fosse um Marxista e também sempre tive uma certa rejeição à este “esquerdismo sindical” do PT, mas eu havia caido no discurso da ética, do “vamos fazer política de forma diferente”, então eu acho que tenho um pouco de propriedade para falar, pois de certa forma já estive lá dentro.

O segundo ponto é que eu critico muitas coisas que o PT faz e que os outros partidos fazem também (o que é uma meia verdade, pois eu critico tudo aquilo que eu acho errado) ou tenho menos tolerância à desvios de conduta de políticos petistas. Bem, acho que não só eu, mas todos os brasileiros têm tolerância menor com erros do PT. A questão é: eu e muitos outros brasileiros acreditávamos no PT e esperávamos dele algumas ações e condutas que acabaram não condizendo com a realidade quando eles chegaram à instância máxima do poder. Dos demais partidos eu nunca esperei nada mesmo, então eu nunca tive expectativa de nada. Foi o próprio PT que disse que seria e faria diferente, inclusive.

Bem, isto posto, vamos ao ponto principal do artigo. Como já falei algumas vezes, eu gosto de observar o comportamento humano e com o advento das redes sociais isto ficou mais fácil, já que agora dá para analisar à distância uma quantidade maior de pessoas, inclusive que você não conhece e tem contato. Há algum tempo eu venho observando as reações que as pessoas têm a notícias e polêmicas relacionadas à política e comecei a fazer um paralelo entre o sentimento das pessoas em relação o PT e os relacionamentos amorosos.

Começando dos que mais detestam o PT para os que o veneram, segue uma “brincadeira” fazendo este paralelo:

Existem aquelas pessoas que vêm o PT como tudo o que de pior existe no mundo e preferem votar no capeta à votar no PT, mesmo se contra o capeta for Deus que estiver se candidatando a algum cargo pelo partido. Como eu já ouvi algumas vezes, é aquele caso em que “nem que fosse o último homem da face da terra e a continuidade da espécia humana dependesse disto”…..hahaha

Logo em seguida existem aqueles que também detestam o PT, mas eventualmente, dependendo das condições e do candidato do PT, abririam uma rara exceção. É tipo aquele caso da pessoa que não gosta de perder viagem (anular o voto) e no final da balada encara o que tiver pela frente.

Na sequência, existem aqueles que são indiferentes: não morrem de amores pelo PT mas também não os odeiam. Vai depender muito da situação. É o tipo “friends with benefits”, mais conhecido como amizade colorida: “se me valer a pena e quebrar meu galho até que eu vou sem muito sacrifício”.

Agora passemos para aqueles gostam ou gostaram do PT algum dia na vida mas já não gostam mais, e vamos começar pelo que eu chamo de “cornos do PT”.

Temos o caso daquela menina bonita e rica que foi conquistada pelo PT, que lhe prometeu o mundo, e que quando conseguiu o casamento com comunhão de bens, o “golpista/PT” lhe meteu uns cornos na lua de mel. Só que neste caso é aquela mulher vingativa e amargurada, que vai fazer de tudo para se vingar. Vai ficar com o melhor amigo do cara, vai furar os pneus do carro, se possível vai dar até pro pai do cara, tirar foto e espalhar para todo mundo e foder com a família dele. Eu coloco o Lobão e o Roger Moreira, do Ultraje a Rigor, neste grupo. Chegam até a perder a dignidade para se tentar se vingar.

O segundo caso de “corno do PT” (no qual eu me enquadro) é aquele em que a menina havia se apaixonado sim, pois ele lhe falava e fazia coisas que os outros não faziam. Era um perfeito cavalheiro. Até conseguir a conquista e se mostrar igual aos outros. Como sabe que “todo homem é igual”, eventualmente encara até um “revival” se for interessante.

Bem, agora é a vez dos que, apesar dos pesares, ainda morrem de amor pelo PT.

Primeiramente, existem aqueles que reconhecem os erros e os desvios de conduta do PT, porém por algum motivo ainda continuam apaixonados ou ao menos tendo um  “casamento de conveniência”. Alguns deles simplesmente acham que todos os outros são iguais e não vale “voltar ao mercado”. Outros tiveram este “marido” há tanto tempo na vida, sendo que inclusive ele é amigo da família desde criança (é o caso dos filhos de petistas) que acha que o stress da separação não vale a pena. Outros tantos acham que, apesar dos pesares, é ele que sustenta a casa, que vai garantir a faculdade dos filhos, que tem a casa na praia, etc.

Para finalizar vem o pior caso. Neste em específico, o marido pode fazer as piores merdas do mundo: encher a cara e bater na mulher, trair, deixar faltar algo em casa. Mas a mulher (ou o militante) ainda acha que tudo o que o homem (ou o partido) faz está certo. Não bastasse achar que o que “o seu homem faz” está tudo certo, ainda condenam os maridos das vizinhas que agem exatamente igual ao seu marido. Bem naquele esquema: quando vocês fazem (corrupção, por exemplo) é abominável, quando eu faço é justificável!

Como bem percebido durante estas eleições, a maioria esmagadora dos brasileiros votam com o coração (e muitas vezes com o fígado) ao invés de votar com a razão. É estranho pensar que as pessoas escolhem a pessoa que vai ocupar o cargo mais importante do país usando as emoções. Mas as pessoas também escolhem com emoção aquelas pessoas com quem vão viver a vida (marido/esposa), o que inclusive afeta muito mais o dia a dia de cada um, então também não vejo muito problema. O problema maior, tanto no caso dos relacionamentos amorosos quanto nos políticos é aquele “amor cego”, que faz com que a pessoa deixe de enxergar quando aquele relacionamento já lhe está fazendo mais mal do que bem.

Botecando #45 – Cachaçaria do Rancho – São Paulo – SP

Cachacaria do Rancho 1Eu já declarei várias vezes o meu amor à cidade de São Paulo e o centro da cidade. O centro de São Paulo, apesar de todos os problemas, é um lugar onde você encontra de tudo no quesito diversão, gastronomia e compras, desde coisas simples e baratas até artigos e restaurantes de luxo. Eu particularmente gosto desta mistura de classes e tipos que acontece no centro da cidade.

E nada melhor para curtir esta “geléia geral” do que curtir um bar que usa uma bela praça do centro para acomodar os fregueses.

A Cachaçaria do Rancho era um restaurante que ao longo do tempo mudou de dono e nome algumas vezes. Durante o dia é um restaurante que servem os famosos PFs e comerciais e no final da tarde e aos sábados se transforma em um local onde as pessoas que trabalham na região vão curtir o happy hour.

Como vários outros bares no centro têm feito durante o horário de happy hour, há algum tempo atrás ele também começou a oferecer música ao vivo para seus clientes (de quarta à sexta após as 18:00 e aos sábados à partir das 14:00).

Além do preço bem camarada (felizmente o raio gourmetizador ainda não chegou ao centro) e do bom atendimento, um dos pontos altos é que boa parte das mesas ficam do lado externo do bar, em plena praça, debaixo de suas árvores e atrás da bela Biblioteca Mário de Andrade.

O que é o ponto alto também pode se tornar um ponto ruim: se chover provavelmente muita gente tem que fechar a conta e ir embora, pois não caberá todo mundo lá dentro. Outro coisa que pode incomodar a alguns é que, como as mesas ficam em um espaço público, pode-se fumar nas mesas e invariávelmente algum pedinte e/ou algum vendedor vai interpelar as pessoas que estiverem na mesa.

Como eu particularmente gosto da “fauna” do centro de SP, para mim é um “plus” e não me incomoda, mas é de para se levar em consideração na hora de marcar um happy hour ali.

Onde: Cachaçaria do Rancho (Praça Dom José Gaspar, 86 – São Paulo – SP)
Quando: 26/12/2014
Bom: preços e poder fumar nas mesas
Ruim: como é aberto, a chance de ser interpelado por pedintes e vendedores é grande
Site: https://www.facebook.com/pages/Cacha%C3%A7aria-do-Rancho/277367529098578?fref=ts

Cachacaria do Rancho 2