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Dexter is Dead – Jeff Lindsay (04/2017)

Depois dos acontecimentos ao final do último livro, Dexter se encontra, finalmente, atrás das grades. Mas ironia do destino: desta vez por crimes que ele não cometeu. Além de preso, ele se vê abandonado pelos “amigos” e pela família, ficando perdido nas entranhas do sistema. E o único que se dispõe a ajudá-lo é seu irmao, Brian. Só que Brian também está envolvido em problemas tão grandes (ou até maiores) que os de Dexter e o preço desta “pequena” ajuda pode sair muito caro para o nosso querido anti-herói.

Não sei se é um recurso literário esta tática de enrolar bastante no início do livro e depois criar um êxtase fazendo as coisas correrem mais depressa do meio pro final (assim como começar com capitulos curtos e ir alongando durante o decorrer do livro), mas isto sempre me incomodou (inclusive no Stephen King, meu autor favorito). Se é um recurso literário, desta vez o Jeff Lindsay exagerou: quase 80 páginas (um quarto do livro) para descrever a monótona rotina do Dexter na cadeia.

Parece que ele tinha que bater uma meta de quantidade de páginas para poder vender o livro como um romance ao invés de classificar como um conto. Além do Lindsay parecer estar de saco cheio e cumprindo a obrigação de escrever o livro.

Talvez seja o pior da série, mas ainda assim ficou bem mais digno do que o final da série televisiva.

Para quem acompanhou toda a saga, vale para encerrar o ciclo, sem apresentar muitas surpresas e sem ser um ótimo livro.

Be happy 🙂

Orwell’s Revenge: The 1984 Palimpsest – Peter Huber (03/2017)

Em 1994 Peter Huber teve uma brilhante idéia: desmembrar sua edição de 1984, escanear todas as páginas usando um software de reconhecimento de caracteres (OCR) e fazer uma análise do livro com a ajuda do seu computador pessoal, a máquina que Orwell quase chegou a prever e que seria o instrumento para a propagação e manutenção de tiranias, de acordo com o clássico publicado em 1949. Indo mais além, Huber também escaneou todas as obras publicadas de Orwell (ensaios, romances, contos), alguns outros textos, transcrições do programa que ele apresentou por algum tempo na rádio BBC e textos biográficos sobre Orwell de autoria de outros.

Ao analisar o livro e os demais textos ele notou que 1984 era um recorte de outros textos e pensamentos que Orwell havia escrito até então e resolveu, ele mesmo (Huber), “reescrever” 1984 usando a mesma técnica que Orwell utilizou (recortar e colar trechos de outros textos). Claro que depois de tomar esta liberdade, o próximo passo foi “corrigir” o que Orwell havia errado em suas previsões, adicionando coisas que talvez ele nem imaginasse que iriam acontecer. Na verdade, o livro é uma sequência, já que a estória relata fatos posteriores a 1984, em que o rumo da estória muda de acordo com e como as tecnologias se desenvolveram e foram adotadas desde que o livro havia sido escrito.

Além de ser uma estória nova, o livro é ao mesmo tempo um estudo sobre a obra e a vida de Orwell, inclusive chegando a fazer uma análise de como a infância e adolescência do autor (como um bolsista de origem simples dentro de uma escola de ricos) moldou seu carater e gerou um ódio ao rentismo, ao capitalismo, aos mercados (quando eles saem do nível de trocas voluntarias entre “pessoas físicas”) e ao dinheiro.

Um ponto importante a considerar é que a escolha do ano de 1984 como sendo o ponto futuro foi totalmente aleatória, apenas invertendo os dígitos finais do ano em que o livro foi concluído (1848 -> 1984). Orwell não estava de forma alguma querendo fazer uma previsão de que aquilo seriam os proximos passos, mas apenas retratar o que ele achava que aconteceria no futuro, sem estabelecer um prazo pra isto.

E o que ele (Orwell) imaginava que iria acontecer tem muito a ver com suas crenças e seu pessimismo. Quem lê apenas Animal Farm ou 1984 talvez imagine que Orwell fosse um ferrenho crítico das teorias de Karl Marx, mas na verdade ele era um socialista convicto e sua crítica ao sistema implementado na antiga União Soviética, por exemplo – e especialmente em Animal Farm – se dá justamente porque ele acredita que as sociedades só iriam evoluir para um estado de bem estar geral sob o comando central do Estado, de uma centralização nas decisões econômicas e com os meios de produção sendo controlados democraticamente através de um Estado.

E aí entra um dos maiores dilemas enfrentados por Orwell: enquanto ele abomina totalmente o capitalismo e os mercados, pois entende que, invariavelmente eles levam a uma concentração de poder (monopólio) nas mãos de meia dúzia de rentistas (oligarquias), ele também não consegue encontrar uma solução para que uma sociedade coletivizada mantenha-se democrática, pois ele entende que invariavelmente uma sociedade com planejamento central tende a se tornar um Estado totalitário, com o poder nas mãos do grupo político que conseguir controlar este Estado no momento certo. Huber traz justamente à tona este problema que Orwell não conseguiu resolver: se o capitalismo (livre mercado) e o socialismo (planejamento central através do Estado) resultam em concentração de poder na mão de poucos e opressão de muitos, o que fazer para evitar o Big Brother ou um Napoleão?

Segundo uma das “previsões” de Orwell, a Telescreen, um tipo de “telefone com imagem” (Skype?) seria utilizado como intrumento de controle social pelo partido no poder, que teria ascendido ou das oligarquias detentoras dos monopolios ou através de grupos politícos, no caso de uma sociedade centralizada. O que Orwell não consegue imaginar é que, da mesma forma que a Telescreen poderia transmitir informações para os ministérios, ela também poderia ser usada para transmitir informações entre qualquer pessoa, desta forma contrabalanceando a “centralização” de informações. Da mesma forma, a Telescreen como se desenvolveu (Internet) descentraliza a geração das informações, já que a história fica espalhada em milhares de lugares e fica difícil para qualquer governo controlar e alterar os fatos, como era comum na Alemanha Nazista e na União Soviética socialista, por exemplo. Mais um “tiro n’água” de Orwell.

Talvez os maiores “erros” (lembrando que o próprio Orwell evitava usar as palavras “profeta” e “profecia”, pois ele tinha consciência que a chance de erro é infinitamente maior do que a de acerto, sempre!) foi achar que o livre mercado sempre leva a monopólios e que, para produzir grandes inventos (como um avião, por exemplo) o planejamento central (estatal ou corporativo) seria mandatório. Quanto ao primeiro erro, talvez ele se surpreendesse se tivesse vivido um pouco mais para testemunhar que o livre mercado pode até conduzir a um monopólio temporário, mas que esta “bolha” sempre estoura e, por ironia, sempre são mantidas por intermédio do Estado, principalmente em democracias. É o Estado que, afim de “proteger os interesses nacionais” ou “evitar concorrência desleal”, cria regras para proteger monopólios e oligopólios. Quanto ao segundo erro, basta ver que quanto mais o conhecimento é distribuido e o planejamento “quebrado” em partes menores, mais avanços tecnológicos são obtidos. Talvez para tirar um grande projeto do papel realmente seja necessario um “sponsor”, porém a necessidade se dá mais pelo fator financeiro do que científico.

A solução para a questão do Estado Totalitário, que segundo Orwell invariavelmente ocorreria, acabou sendo a propria Telescreen/Internet. Porém, a Internet, as novas tecnologias e os modelos de economia compartilhada ameaçam o status quo: elas estão criando a possibilidade de uma sociedade com oportunidades e equidade que as teorias baseadas em Marx nunca conseguiram entregar, enquanto ao mesmo tempo quebram a lógica da concentração de poder e renda que as “elites” e os políticos tem no denominado “Capitalismo”. Só falta a massa perceber que o embate à partir de agora não deveria mais se dar entre Estado X Iniciativa Privada, Coletivo X Individual, Mercado X Planejamento Central, o embate à partir de agora é entre o progresso e o conservadorismo, tanto daqueles que querem manter as coisas no estado atual (concentração de renda e poder nas mãos de poucos), quanto daqueles que ainda insistem em uma utopia com quase dois séculos de idade: todo o poder na mão de um Estado, que em tese e utopicamente seria democratico, mas que apenas move a concentração de poder do campo econômico para o político.

Mesmo que Orwell não tenha estabelecido justamente 1984 para suas “previsões” e que boa parte delas não tenham ocorrido como ele imaginava, a epoca escolhida aleatoriamente por ele se dá exatamente quando uma das rupturas que geraram o mundo atual e, talvez tenham sido até uma das responsáveis por desviar a humanidade do caminho previsto por ele, foi massificada: o Computador Pessoal. No ultimo capitulo do livro, Huber trata justamente do nascimento de duas indústrias (B&B, Bell & Blue, Bell Telecom & IBM) que são as principais responsáveis pelos incríveis avancos tecnológicos ocorridos à partir da década de 80: as telecomunicações e os computadores. Mas Huber, assim como Orwell, tambem foi traido pelo tempo: ele escreveu seu livro em 1994, apenas alguns anos antes da popularização da Internet. A “rede” já existe desde os anos 60, mas seu uso ficava restrito às universidades, e a “barreira” foi ultrapassada justamente por conta do aumento da capacidade de tráfego nas redes de telecomunicações. Se tivesse esperado alguns anos, talvez Huber tivesse escrito um outro livro. Ou talvez já esteja na hora de escrever um Orwell’s re-revenge.

Uma coisa Orwell conseguiu acertar no alvo: o duplipensar. A unica diferenca é que ele imaginava que “dar sentidos diametralmente opostos a uma mesma palavra” seria algo imposto de cima para baixo, pelo “partido” (ou a corporação) detentora do poder. Talvez seu pessimismo se agravasse ao perceber que, com o “controle da verdade” nas mãos da massa, é a propria massa que cria expressões com sentido oposto no intuito de validar suas proprias incoerências (e justificar seus ódios e preconceitos). Exemplos? Os termos politicos “liberal conservador” ou “conservador liberal”, que nem semanticamente fazem sentido!

Be happy 🙂

Justiça – Michael J. Sandel (02/2017)

Este é mais um daqueles livros que deveriam ser de leitura obrigatória nas escolas e universidades, inclusive devendo ser relido algumas vezes. Exagerando um pouco: deveria ser pré-requisito para quem quisesse comentar sobre política na Internet….hehehe.

Sandel é um filosófo americano e o livro, cujo subtítulo é “O que é fazer a coisa certa”, é um apanhado do que ele discute em uma materia chamada “Justiça” que ele mesmo leciona em Harvard e que é atendida especialmente por alunos de direito.

O livro discorre sobre três principais linhas filosoficas do que é certo: o utilitarismo (o bem comum como princípio básico das sociedades), o libertarianismo (a liberdade individual como o princípio básico) e uma “terceira via” que fica no meio termo e que, justamente por variar de sociedade para sociedade, é de dificil delimitação e generalização. Ele aborda cada uma das linhas através do uso de muitos exemplos reais, alguns casos de dilemas morais e, principalmente, confrontando estes casos e dilemas com as duas primeiras linhas e tentando chegar a um meio termo que, repito, varia muito de acordo com os valores e a formação histórica das sociedades.

Durante o livro ele traz idéias de vários filosofos, tais como Aristóteles, Immanuel Kant, John Stuart Mill, John Locke, John Rawls, entre outros, sempre situando as idéias destes autores dentro do espectro entre o interesse comum (da família, da sociedade, de uma nação, da humanidade) e a liberdade individual.

Entre os assuntos, casos e dilemas, o livro fala de intervenção no livre mercado (“é  errado que vendedores possam cobrar mais por seus produtos se aproveitando da escassez gerada por um desatre natural?”), a relação entre igreja e Estado, direitos humanos, as obrigações impostas através de acordos sociais tácitos (impostos, voto, serviço militar obrigatório), o “valor da vida” (qual a quantidade de mortes aceitáveis no transito para justificar um aumento de velocidade, por exemplo), aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outros. Mas dois me chamaram bastante a atenção, especialmente pelo fato de vermos, pelo menos no Brasil, discussões muito exacerbadas e onde cada um dos lados nunca procura entender as causas da própria posição, quem dirá da posição do outro.

O primeiro é a questão da meritocracia. No Brasil existem os defensores e os detratores do sistema meritocrático, com poucas pessoas realmente entendendo o que seria a meritocracia em sí. A meritocracia tem a intenção de premiar o esforço do indivíduo ao realizar determinada tarefa ou função. Mas ai entra na questão de realmente separar o que é mérito do que são circunstâncias do acaso, ou seja, a pura sorte. Até que ponto o fato de eu ter nascido com um bom raciocínio lógico em uma época e sociedade onde esta aptidão é valorizada é merito meu? Certamente eu investi bastante tempo desenvolvendo este “dom”, mas será que conseguimos mensurar o quanto realmente existe de esforço individual e onde, portanto, a meritocracia é aplicável, da pura sorte ou das condições do ambiente? Alguem que recebeu uma heranca, certamente não pode contá-la como mérito próprio, por exemplo. Como criar mecanismos para equilibrar as condições, ou seja, a linha de partida, entre pessoas que não tiveram a sorte de nascer em um lar com melhores condições com aqueles que tiveram esta sorte?

Outro assunto que me chamou a atenção foi a da questão das cotas raciais, que trouxe um ponto de vista totalmente diferente e que fez com que eu mudasse de idéia sobre o assunto pela terceira vez na minha vida. Inicialmente eu tinha restrições, por achar que acabam por criar um grupo de “excluidos entre os excluidos”, depois fui entender que não se trata de “corrigir erros do passado”, mas sim “corrigir o futuro” e agora eu ja mudei totalmente a minha visão, concordando com o Sandel.

Primeiro o Sandel traz o  caso de uma universidade pública no Texas onde uma candidata não conseguiu ser aceita para determinado curso, apesar de ter um histórico escolar melhor e melhores notas no SAT (o “ENEM” dos EUA) do que alguns outros alunos que entraram através de outros critérios (étnicos, esportivos, etc). Esta aluna entrou com uma ação e a justiça entendeu (como tem entendido para a maioria dos casos parecidos) que, se a regra quanto aos critérios de admissão eram claras antes do inicio do processo, não há do que reclamar. A instituição tem o poder de definir os critérios que bem entender para selecionar seus alunos.

E ai o Sandel diz que, para que os critérios sejam justos, a universidade deve adotar os criterios de seleção que se adequem à sua missão e valores, independente de ser uma instituição particular ou pública. O “justo” neste caso é medido do ponto de vista universidade, e não do candidato/aluno. E foi ai que eu acabei concordando totalmente com ele e mudando de opnião sobre o assunto.

Vou tentar aplicar este pensamento no caso da USP.

Se a missao da USP, por exemplo, é “proporcionar ensino de alta qualidade e gratuito para aqueles que melhor se classificarem no teste de aptidão”, realmente o vestibular, da maneira que é hoje, seria a maneira “justa” de acordo com a missão da instituição. Mas se esta for a missão da USP eu, como contribuinte, sou até a favor do fechamento dela e que os recursos destinado a ela fossem investidos em outras prioridades (como educação básica). Nao faz sentido a sociedade pagar para que alguns poucos afortunados tenham a chance de obter uma qualificação acima da média, sem retorno (ao menos mensurável) para a própria sociedade. Para mim, educação deve ser encarada como investimento por uma nação.

Agora, se entre uma das missoes da USP estiver a “disseminação do conhecimento, afim de proporcionar o bem estar geral da sociedade, promovendo um ambiente diverso e plural…”, acho inclusive que as “cotas” são muito pouco para atingir esta missão e deveriam criar uma forma de reproduzir entre seus quadros a mesma pluralidade existente na sociedade, criando “cotas” de gênero, classe social, etnias e até de orientação sexual, usando como base a distribuição geral de cada um destes grupos na sociedade brasileira.

E ao refletir sobre isto, tambem me ocorreu o seguinte pensamento: será que alguns detratores das cotas raciais existentes hoje, ao aplicarem para cursos em universidades estrangeiras, que valorizam muito a diversidade entre seus quadros, especialmente nos cursos de graduação (mestrado e doutorado), pois entendem que se tiverem apenas alunos com as mesmas caracteristicas (sociais, étnicas, etc) a geração e disseminação de conhecimento fica comprometida, apelam para a sua “latinidade” afim de aumentar as suas chances? No minimo seria incoerente, pra nao dizer hipócrita mesmo.

Be happy 🙂

The Invention of Solitude – Paul Auster (01/2017)

the-invention-of-solutideCheguei neste livro por conta de um post no Blog do Flávio Gomes onde ele citava uma frase do livro: “Foi. Não será de novo. Lembre.”. Achei a frase muito interessante, pois creio que existem dois tipos de saudade: uma boa e outra ruim. A boa é aquela saudade nostálgica: você lembra de um fato que foi interessante, o que te propicia um momento de prazer ao relembrá-lo, mas que você sabe que aquilo ficou no tempo (“não será de novo”). E existe a saudade ruim, aquela em que a pessoa fica comparando e se remoendo pois “antigamente era melhor”, “quando era jovem…”, “no meu tempo”, etc.

O mundo muda (e mudou muito rapidamente nos últimos vinte ou trinta anos), as pessoas mudam, as situações nunca serão as mesmas. “Foi. Lembre”. Então fui atrás do livro que continha a frase. Livro bom, ótimo até. Mas que não te dá uma “boa” sensação. Mas explico abaixo.

Em Português o livro tem o título de “A Invenção da Solidão”, que numa tradução literal difere do título original. Solitude em Inglês seria traduzido, ao pé da letra, por solitude em Português, que é um estado de privacidade, mas não exatamente ligado ao sofrimento, o que seria o caso da solidão (loneliness em Inglês). Porém, esta “tradução errônea” não perde o sentido quando comparado ao conteúdo do livro, que trata da “solitude” de Sam, o pai de Paul, e da própria solidão do autor.

Na primeira parte do livro, chamada “Retrato de um homem invisível”, Austin retrata os fatos que se seguiram após a morte “súbita” (não estava doente, morreu em casa) do próprio pai e o processo de conhecê-lo durante os “trâmites” post mortem. Conhecê-lo pois Sam, o pai de Austin, era uma pessoa que, enquanto não conseguia se “encaixar” no mundo (ou não queria), também não conseguia se isolar e que, desta forma, acabou criando uma camada, uma zona intermediária entre sua inserção e o isolamento. E durante este processo o autor começa a entender melhor o pai , sua complexa relação com ele, bem como o relacionamento do pai com o restante da família (a mãe, da qual Sam havia se separado há alguns anos, e a irmã). A descoberta de fatos da infância do pai (nao darei spoilers, já que é uma das melhores partes do livro), aliado a memórias que ficaram escondidas (ou talvez tivessem sido ignoradas) faz com que Austin comece a compreender melhor o pai e seu relacionamento com ele, o que leva à segunda parte do livro, denominado inicialmente de “The Book of Memory” (O Livro da Memória).

Logo após a morte do pai e passando por uma separação, o autor se isola para tentar, ao mesmo tempo, um processo de autoconhecimento e a criação de um novo livro. Neste processo (escrito em terceira pessoa), ele próprio passa a analisar fatos importantes da sua vida, que moldaram a pessoa que ele era à época e que, de alguma forma, guiam o relacionamento dele com o próprio filho (então com três anos). Ele se descobre uma pessoa com uma “nostalgia do presente”: aquele medo de que as coisas deixem de ser como são e que faz com que as pessoas tentem manter, a todo custo, o estado atual das coisas, isto quando não querem fazer com que algumas coisas do passado voltem a ser como eram (qualquer semelhança com os conservadores não é mera coincidência…hahaha).

Revisitando passagens da vida de alguns nomes da arte (escritores, poetas, pintores) e mesmo evocando algumas passagens bíblicas, ele vai comparando os relacionamentos e as reações destes “personagens”, fazendo paralelos com seus próprios relacionamentos, suas reações e suas motivações. Até o ponto em que “O Livro da Memória” vira “A Invenção da Solitude”, culminando com a maravilhosa frase.

Para explicar a “sensação ruim” (que é boa ao mesmo tempo): existem algumas músicas que mexem comigo de uma forma estranha. Sabe aquela sensação do peito apertado, que você precisa inspirar fundo e expirar pela boca? A Sonata ao Luar do Beethoven, o Requiem do Mozart e o album Obscured by Clouds do Pink Floyd são algumas das obras que me causam esta sensação. Mas este livro, especialmente a primeira parte, talvez seja a primeira obra literaria que me causou a mesma sensação (“O Processo” de Kafka e “O Estrangeiro” de Camus foram obras que chegaram perto).

Não é um livro para ser devorado. É para ser degustado aos poucos. Pois a experiência de “descobri-lo” acontecerá uma vez, não se repetirá, e só restará lembrar.

It was. It will never be again. Remember.

Be happy 🙂

O Gene Egoísta – Richard Dawkins (18/2016)

o-gene-egoistaExistem alguns assuntos que, por mais que alguém não vá ser especialista neles, formam um conjunto de conhecimentos nos quais todo mundo deveria ter ao menos uma visão macro, um nível mínimo básico de conhecimento. Basicamente são as áreas de conhecimento que fazem parte do curriculum escolar. Biologia é um deles. Eu ainda não entendo porque deva ser estudado em separado da Química. E porque a Química deva ser estudado em separado da Física. E porque a Física tem que ser estudada a parte da Matemática. E por ai vai. Mas acho que já estou ficando repetitivo neste ponto.

Dentro da Biologia, talvez o assunto mais importante desta base geral seja a teoria da evolução de Charles Darwin e as teorias baseadas nela.

Além destes assuntos, um que deveria constar no curriculum escolar deveria ser aplicação dos conceitos de pensamento científico, metodologia de pesquisa científica (que geralmente é muito mal ensinada nas faculdades) e tudo ligado aos mecanismos de geração de conhecimento, ou seja, à ciência.

Em “O Gene Egoísta”, primeiro livro publicado por Dawkins, em 1976, ele defende a teoria da seleção no nível do gene, em contraponto às teorias da seleção de indivíduo, de grupo e de espécie, aplicando exatamente os métodos científicos (as idéias, hipóteses e teorias podem e devem ser confrontados, mas o método em sí é o que garante o bom funcionamento de todo o sistema).

Segundo esta teoria, cada gene sozinho luta por sua própria sobrevivência e propagação, sendo que ele se alinha a outros genes na medida em que esta união traz mais benefícios do que a competição com estes demais genes. Ou seja, um gene se alia a outro, para formar um determinado “veículo” afim de que ele possa continuar sobrevivendo. O que ele chama de veículo são os seres vivos (todos, desde uma bactéria até o ser humano), que na verdade são apenas meios para que o gene possa continuar se propagando.

Este egoísmo também é repassado para os veículos, que se unem (com veículos de espécies diferentes, em vários tipos de arranjos, ou veículos da mesma espécie, em colônias ou sociedades) ou competem entre si. Deixando de lado simplesmente a teoria biológica e partindo para a filosofia e moral, a teoria torna-se um tanto quanto controversa, já que até o cuidado parental é uma face deste egoísmo (o seu filho tem 50% dos seus genes, assim como seus irmãos, portanto, é interessante cuidar deles para que o gene possa sobreviver).

Dawkins chega ao ponto de mencionar a xenofobia e o racismo como faces desta teoria: o gene produz alguns sinais externos (fenótipos, como cor dos olhos e tom da pele), também com o intuito de que genes de mesma origem, em veículos distintos, possam se reconhecer. Pensando na teoria, faria sentido. A discussão moral, em tese, não caberia aqui.

O mesmo vale para os sinais externos usados na escolha do parceiro com o qual se reproduzir, como a cauda do pavão, que gera um custo grande para o veículo (de energia para produzi-la), mas serve como um indicativo de que os genes que compõem aquele veículo são bons e que a fêmea faria uma boa escolha ao copular com aquele indivíduo, pois desta forma as chances de que seus genes venham a se propagar (os 50% que estariam na cria) seriam maiores.

E ai aparece outra polêmica (das várias do livro), de que a fêmea (independente da espécie), por investir mais na geração de um novo ser (os óvulos são várias vezes maiores do que os espermatozóides em qualquer espécie), tende a selecionar melhor o parceiro e a também investir mais em cuidado parental, enquanto o macho, por produzir uma quantidade enorme de gametas, investindo pouco em cada um deles (e geralmente bem menos na somatória do que a fêmea no óvulo), estaria mais propício a tentar a cópula com o máximo de fêmeas possível e a abandonar as crias à própria sorte.

O livro gerou tanta polêmica que foi “acusado” de ter inclusive colaborado para a ascenção da Margareth Thatcher, que pregava o individualismo acima do coletivo, ao posto de primeira ministra da Inglaterra ao final da década de 1970.

Tanto que nesta terceira edição revisada, o Dawkins faz questão de esclarecer, na introdução e nas notas, que a análise dele não é filosófica, nem moral e nem social e inclusive, erroneamente a meu ver, chega ao ponto de explicitar que ele mesmo votou contra a então candidata Thatcher à época. Se por um lado mostra que ele coloca a ciência acima de suas convicções pessoais, por outro ele parece “pedir perdão” pelo livro e pelo fato das pessoas não terem interpretado corretamente.

O novo capitulo adicionado na segunda edição, de 1989, é o relativo ao que ele denomina memes (sim! Esta palavra tão comum em tempos de internet foi cunhada pelo Dawkins!). Ele traça um paralelo entre o nascimento, a propagação e a “evolução” da cultura, com o mesmo processo executado pelos genes. Ele traz vários exemplos, sendo o mais notável a religião.

Um outro ponto que tem me interessado muito já há alguns anos e que ele traz no livro é o que eu chamo de “mecanismo do ‘vale à pena'”. Como eu trabalho com análise de dados, sempre tem me intrigado como, para quase todas as decisões que o ser humano toma, ele realiza, inconscientemente, milhares de cálculos para ver a relação “custo X benefício” daquilo. Na verdade isto é um mecanismo que existe em diversas outras espécies. Um outro exemplo que eu uso é: quando um leão sabe exatamente quando não vale mais à pena perseguir determinada presa e guardar energia para tentar a sorte com uma outra, ao invés de ficar perseguindo indefinidamente, até que suas forças se esgotem? Dawkins traz o tema, dizendo que, provavelmente a evolução fez com que nossos cérebros fizessem estes cálculos sem que percebamos, da mesma forma que um morcego faz um cálculo complicado para detectar a distância dos objetos através do eco do próprio som emitido (a própria emissão do som já é bem complexa).

O livro é bem longo e cansativo, com o Dawkins sendo até prolíxo ao explicar o mesmo tema diversas vezes, utilizando apenas metáforas diferentes, mas há de se perdoar esta “falha” por se tratar do primeiro livro de alguém acostumado a escrever literatura científica e acadêmica. Apesar disto, é uma leitura que vale a pena, mesmo assim não sendo melhor que os dois outros livros dele que eu li: Deus Um Delírio (o melhor) e O Relojoeiro Cego.

Be happy 🙂

Vale Tudo – Tim Maia – Nelson Motta (17/2016)

vale-tudoA biografia deste grande ícone da música brasileira (e que, infelizmente, é pouco conhecido internacionalmente) me provocou sentimentos dúbios. Não o livro em sí, mas em relação ao próprio Tim Maia. Mas volto ao assunto daqui a pouco.

Escrita pelo jornalista (e compositor e produtor musical e escritor, etc.) Nelson Motta, tem um quê de obra de ficção e lembra pouco uma biografia escrita por um especialista, que se atenta a datas, busca diversas fontes, etc. Talvez seja assim que o livro deva ser encarado: uma história de ficção baseada na vida de um artista. Não que eu duvide que muitas das histórias/estórias contadas sejam reais, mas sabe como é, o autor floreou e romanceou boa parte dos acontecimentos. Além do que, alguns trechos provavelmente são histórias verdadeiras que foram sendo contadas de boca em boca e, como diz o ditado, “quem conta um conto, aumenta um ponto”.

Mas isto não tira o brilho da obra e, para contar a vida de um artista tão singular e polêmico, talvez esta seja a melhor maneira.

O livro conta toda a epopéia de vida do Sebastião Rodrigues Maia, o Tião da Tijuca, Tião Marmiteiro, mais tarde Tim Maia (e como ele mesmo se chamava “Tim Maia do Brasil”), desde sua infância na Tijuca, os perrengues em que passou em busca do sucesso e, principalmente, todos os problemas pelos quais ele passou, mesmo tendo alcançado o posto de um dos artistas mais populares (e talvez a voz mais potente) do Brasil.

Diga-se de passagem que a maioria dos problemas foram causados por ele mesmo e sua forte personalidade e ai entra o meu sentimento dúbio.

Eu sempre considerei o Tim Maia como um dos melhores músicos do Brasil e, apesar de todas as polêmicas em que ele se envolveu, eu imaginava que apesar de ser um artista e uma pessoa difícil de lidar, que ele era aquele “gordinho gente boa”. Porém, após ler o livro, fiquei com a impressão de que ele era um egocentrista e que, em benefício próprio ou simplesmente durante arroubos, acabou por prejudicar além de si mesmo, vários dos que viviam à sua volta, incluindo familiares, casos amorosos, funcionários e colegas de trabalho. Não bastava a ele se destruir (com drogas, financeiramente, amorosamente, profissionalmente). Ele precisava “sugar” para o buraco negro que o puxava (e que era ele mesmo) todos que orbitavam ao seu redor.

Felizmente, ao contrário de muita gente que acaba por julgar a obra do artista pela pessoa (como fazem atualmente, por exemplo, com o Chico Buarque e o Lobão, dois artistas importantíssimos, mas dois babacas como pessoa), eu consigo separar a “pessoa física” da “pessoa jurídica” e continuo admirando sua obra. Só parei de achar que foi alguém que “perdemos cedo demais” e hoje já acho que, por tudo o que ele fez a si mesmo, até que durou bastante.

Enfim, vale a leitura, que é bem fluida e feita para divertir.

Be happy 🙂

O Relojoeiro Cego – Richard Dawkins (16/2016)

o-relojoeiro-cegoApesar da forma sempre contundente com que Dawkins defende suas idéias, especialmente quando instado a debater entre o Criacionismo e o Evolucionismo, é impossível negar que ele se arma de argumentos e dados que fazem com que fique difícil para qualquer debatedor refutá-lo. É claro que nunca será o suficiente para convencer um crente, mas ao menos deixa aquela “pulga atrás da orelha” em alguém que, por mais convicto de sua fé, ainda tem uma capacidade de raciocínio lógico.

Em O Relojoeiro Cego, Dawkins tenta (com sucesso!) desconstruir a teoria do Design Inteligente, que credita a complexidade da vida na terra (e acima de tudo, à existência da terra e de todo o universo) a um ser superior, alegando que o corpo humano, por exemplo, por ser uma “máquina” tão complexa, só poderia ter sido obra de alguma inteligência ou poder superior.

Se for parar para pensar friamente nesta teoria do “design inteligente” chegaremos a conclusão que ele não é tão inteligente assim, através de varios exemplos. Um dos mais fáceis de se compreender é o do sistema alimentar e respiratório humano, que compartilham boa parte de orgãos e, caso fosse “projetado” por um engenheiro iriamos dizer que, no mínimo, o engenheiro foi descuidado ao ignorar o risco de algum alimento se desviar para a via destinada ao ar (o famoso engasgar).

Por outro lado, os defensores do design inteligente, sempre trazem o exemplo do olho humano, que possui uma tecnologia impressionante, mesmo para o atual nível de desenvolvimento da humanidade. Porém, Dawkins traz vários exemplos de diferentes estágios de desenvolvimento de um orgão fotosensor na natureza, desde os mais simples, até chegar no olho humano (ou o do polvo, que também tem uma complexidade parecida).

Dawkins vai bem mais além, explicando em detalhes os pequenos passos que diferentes órgão de vários seres possam ter dado, adicionando pequenas modificações (anomalias) que, se proviam uma certa vantagem sobre os outros seres da mesma espécie que não tinham estas modificações, teriam grandes chances de serem propagadas para as gerações seguintes, eliminando assim, na concorrência pela sobrevivência, aqueles competidores que não tivessem esta pequena vantagem.

Outro ponto interessante que ele traz é a incrível capacidade de armazenamento de informações que uma simples célula carrega. Eu trabalho com tecnologia da informação e nunca tinha feito o paralelo entre o sistema de armazenamento e processamento de um computador, que é binario, ou seja, onde cada “bit” assume apenas 2 possíveis valores (zero e um) com o de uma molécula de DNA, que pode assumir quatro possíveis valores (G, A, T e C). Por exemplo, um par de bits possibilita a construção de 4 combinações diferentes, enquanto um par de moléculas de DNA possui 16 combinações diferentes. Com 3 bits são possíveis 8 combinações diferentes e com 3 moléculas 64 combinações. Um byte, que é o conjunto de 8 bits, normalmente usado para armazenar uma letra, possui 256 possíveis combinações, enquanto um “byte” de moléculas de DNA possui mais de 65 mil combinações (mais de 8 mil vezes mais do que um byte de computador). Como ele disse no livro: em uma célula de um fungo é possível armazenar uma enciclopédia inteira.

Mas falar em números, tamanhos e tempo quando se pensa na natureza é muito complicado para nossa capacidade de entendimento, já que as razões são muito menores ou imensamentamente maiores do que nossa capacidade de abstração permite.

Talvez seja muito difícil para o ego do ser humano admitir que somos apenas uma obra do acaso, que este planeta nao foi “pensado” para nos abrigar e servir e que, devido à esta improbabilidade estatística de que somos fruto, devemos valorizar esta oportunidade única que temos e, principalmente, respeitar esta oportunidade que os outros também estão tendo.

Quem sabe no dia em que entendermos isto, a humanidade como um todo se respeitará e respeitará este planeta e todos os seres que nele habitam.

Be happy 🙂

Felicidade Foi-se Embora? – Leonardo Boff, Mario Sergio Cortella, Frei Betto (15/2016)

Felicidade Foi Se EmboraA Editora Vozes convidou três dos mais profícuos autores e pensadores brasileiros para discorrerem sobre o tema Felicidade. O pano de fundo da discussão são trechos de sucessos da MPB: Felicidade foi-se embora? A tristeza não tem fim, mas a felicidade sim? É impossível ser feliz sozinho? Cada um dos três discorre, em seções separadas, sobre o tema, e por isto vou avaliá-los também isoladamente.

Frei Betto tem dois grandes problemas: quer medir todo mundo pela sua régua e quer ideologizar qualquer assunto, claro que puxando para a ideologia à qual ele professa, que é o socialismo. Isto posto, para ele a felicidade está sempre no coletivo e nunca pode ser alcançada sozinha. Além disto, bens materiais não podem trazer felicidade. Dentro do conceito dele a felicidade é um objetivo a ser perseguido e que só será alcançado com uma sociedade igualitária, onde tudo seja de todos e todos sejam iguais (e talvez “alguns animais mais iguais que outros”, parafraseando Orwell), para isto, o socialismo é o caminho, sempre em oposição ao “malvado capitalismo” (qual deles? o de 2 séculos atrás? o de hoje? o Canadense? o Americano? o Chinês?). Ou seja, para ele as pessoas só serão felizes em uma sociedade onde todos compartilhem tudo, desde que seja da maneira que ele acredita e numa sociedade que ele idealiza. Pensamento típico de quem não tem o mínimo de empatia e não se coloca no lugar dos outros e, para piorar, não respeita a diversidade (de pensamentos, valores, idéias, etc).

Leonardo Boff também cai no mesmo problema de querer que os seus valores sejam padrão para todos. Mas ao menos escapa da tentação de partidarizar o texto. Ele também acha que felicidade não é um objetivo, mas um estado temporal que pode ser alcançado várias vezes e de diversas maneiras. O problema dele é tentar pintar o mundo como lugar horrível, que só será melhor quanto todas as pessoas forem capazes de alcançar certo nível de felicidade de acordo com os valores dele (espiritualidade, caridade, etc). Achei engraçado um trecho onde ele descreve este “momento da humanidade” onde afirma que “quase todos os vulcões do mundo estão se ativando”. Gostaria de saber de onde ele tirou esta informação. Apesar de tudo, concordo em parte com ele no ponto em que a felicidade é feita de momentos, muitos deles fugazes, e não é um estado constante. Também gostei de algumas citações no seu trecho.

Mário Sérgio Cortella já tem uma opnião um pouco parecida com a minha, de que a felicidade não é um estado constante, mas sim momentos (então o “ser” feliz é uma soma de muitos “estar feliz”), até porque, se fosse um estado constante perderia sentido, como o ar que respiramos, onde só nos damos conta dele quando ele nos falta. Ele relaciona os estados de felicidade com sensações de realização (quando terminamos um trabalho bem feito, terminamos de ler um livro), de contemplação (quando vemos um belo por do sol, ouvimos uma boa música) e de interação (quando nos relacionamos com algum ser vivo, especialmente entre nós mesmos, humanos). De certa forma ele acha que “é possível ser feliz sozinho”, mas que quando esta felicidade é compartilhada e ou originada das interações, ela é muito mais intensa e duradoura. Como quando você vê aquele belíssimo por do sol, mas gostaria que as pessoas das quais você gosta estivessem com você para partilhar este momento. Eu ainda acho que ele tem aquele resquício de querer que outros tenham os mesmos valores que ele, quando diz que a felicidade material é impossível e que a felicidade só pode ser alcançada através da espiritualidade. É uma característica do ser humano um pouco complexa de contornar, realmente.

O que Eu acho? Bem, era para ser uma resenha, mas vai virar uma Ruivopedia. Eu acho que a felicidade é como uma conta bancária: você tem depósitos (momentos de alegria) e saques (momentos de tristeza) e cabe somente à nós mesmos, individualmente, fazer com que no final de nossa jornada (na verdade durante ela, já que ao final nada mais vai importar) este saldo seja positívo. Um constante estado de “saldo positivo” ou pícos (felicidade durante muito tempo ou picos de felicidade extrema seguido por quedas) não são possíveis e podem indicar até um transtorno psíquico (estado de euforia, hiperatividade), bem como o inverso também é preocupante (pode ser depressão). Variações enormes também são anormalidades (bipolaridade). As vezes podemos ter um “depósito” alto (um nascimento de um filho, por exemplo), ou um saque muito impactante (uma morte de um ente querido), mas o saldo médio deve estar sempre próximo do “zero”, preferencialmente acima.

Eu não acredito que seja “impossível ser feliz sozinho”. Muito pelo contrário: você precisa primeiramente ser feliz sozinho, ser autosuficiente em sua felicidade, para depois poder multiplicar e inclusive “fazer doações” a quem talvez esteja com seu “saldo negativo”. Ao contrário dos autores do livro, eu acho que bens materiais podem ser sim causadores de felicidade. Novamente: cada um sabe o que é melhor para si, e quem sou eu para julgar alguém que acha que uma Ferrari vai fazê-lo feliz. Do mesmo modo, acho que não precisa de espiritualidade, do divino para ser feliz. Como ateu e conhecendo alguns ateus, acho até o contrário: quem se dá conta da sua insignificância dentro deste enorme universo, da fulgacidade da vida e de que só temos esta única vida para aproveitar consegue viver melhor, aproveitando estes pequenos bons momentos (depósitos) e relevando e superando mais facilmente os maus (saques). A fé inclusive pode ser a própria causadora da infelicidade no momento em que deixa as pessoas com a “eterna culpa do pecado”, com a tensão de ter que garantir o paraíso (ou uma boa reencarnação) para o além vida, ao cercear e censurar as várias formas de prazer (jogo, sexo, bebidas, drogas), etc.

Be happy 🙂

A Dança do Universo – Marcelo Gleiser (14/2016)

A Danca do UniversoMarcelo Gleiser é um físico e astrônomo carioca que, à exemplo de seus pares Carl Sagan, Neil deGrasse Tyson e Richard Dawkins, além da pesquisa científica se dedica à divulgação científica. Em A Dança do Universo, ele faz um apanhado geral das teorias e mitos sobre a criação do Universo, que ele chama de a Pergunta (com P maísculo, que é simplesmente o “de onde viemos”).

Vou dizer que no início eu não gostei muito do livro. Inicialmente, ao explicar os mitos sobre a criação criados por várias civilizações antigas e que, consequentemente envolviam muita religiosidade. Nesta parte um, composta de dois capítulos e denominada “Origens”, aparentemente ele dava a impressão de querer de qualquer forma justificar uma ligação entre ciência e religião.

Porém durante o desenvolvimento do livro fica claro que o ponto que ele quer demonstrar é que os cientistas não estão e não devem se preocupar com as religiões e, muito pelo contrário, a maioria dos cientistas que foram relevantes para o nível de conhecimento que temos hoje sobre o universo e os fenômenos naturais tiveram na fé um grande motivador. O problema é que muitas destas descobertas contrariavam dogmas religiosos e consequentemente ainda ameaçam o poder (político) das religiões. É bom aqui fazer uma bela distinção entre fé (ou espiritualidade) e religião: a fé é algo intrínsseco e pessoal e religião é a institucionalização da fé.

Seguindo a linha cronológica desde mitos antigos até as descobertas mais recentes da física (e suas vertentes, como astrologia e cosmologia), o autor vai ligando o texto com fatos históricos, biologia, química, matemática e muitos outros assuntos, todos eles relacionados, o que torna a compreensão de conceitos que, quando apresentados isoladamente são chatos e/ou incompreensíveis, bem mais fácil e com algum sentido prático.

Isto novamente me levou a questionar o porque da atual metodologia educacional separar os assuntos em “áreas de conhecimento”, isolando-os e tornando-os mais incompreensíveis. E nem é questão de “reinventar” o modelo educacional, já que no século XVII, o próprio Newton teve uma educação diferente: no primeiro “termo”, denominado trivium, aprendia-se sobre retórica, gramática e lógica (o primeiro ciclo do nosso ensino fundamental deveria se concentrar nisto, e  ainda incluir o inglês “de verdade”), no segundo “termo”, chamado de quadrivium, as aulas eram de geometria, aritmética, música (que envolve muita matemática) e astronomia (poderia ser muito bem ensinado no nosso segundo ciclo do ensino fundamental). À partir dai a base para estudar assuntos específicos (como filosofia, história, geografia, física, química, etc), que poderia ser feita no ensino médio, estaria bem sólida. Não que estes assuntos fossem desprezados durante os primeiros ciclos, mas eles eram “complementos” para o desenvolvimento de habilidades básicas como o desenvolvimento da comprensão de texto, da capacidade de argumentação (e de pesquisa, já que para argumentar você precisa ter uma boa base de conhecimento) e de raciocínio lógico e matemático (raciocínio, não decoreba de fórmula).

Mas voltando à vaca fria, é um ótimo livro, mais um que deveria ser leitura obrigatória nas escolas. Para se ter uma idéia de como ele te prende, eu tenho uma dificuldade para me concentrar e temas como matemática e física nunca foram os meus preferidos e, mesmo assim, cheguei a ler 50 páginas deste livro de uma só vez!

Be happy 🙂

Os Filhos de Anansi – Neil Gaiman (13/2016)

Os Filhos de AnansiNeil Gaiman é um dos expoentes do que eu chamo de “Escola Douglas Adams de Humor Literário Britânico”. Tá certo que o Douglas Adams bebeu muito na fonte do Monty Python, mas por sua vez ninguém melhor do que ele conseguiu transcrever o estilo das gags visuais do famoso grupo britânico em textos. Infelizmente este gênio nos deixou cedo, mas existem vários outros autores que, mesmo sem intenção, seguem o seu estilo: aquele humor non-sense e ao mesmo tempo cheio de sentido (para quem tiver percepção suficiente para entender as sutilezas), fantástico e ao mesmo tempo realista e que parece que está falando diretamente com você.

Talvez o Neil Gaiman seja o melhor “discípulo” desta escola e, em “Os Filhos de Anansi”, todas estas características estão muito presentes. O livro conta a história de Fat Charlie, um sujeito desajeitado, desafortunado, que passou a vida sendo alvo de piadas e pegadinhas do próprio pai. Após a morte do pai ele descobre que ele era um deus: Anansi, a aranha, com origens na África. Não só isto, descobre ter também um “irmão gêmeo”, este já consciente de que se trata de um filho de um deus e que usa isto a seu bel prazer.

Spider (o irmão), na sua “vida despreocupada de filho de um deus”, coloca Fat Charlie em diversas situações adversas, muitas delas quase trágicas, mas que ao final se tornam cômicas.

As passagens “místicas” do livro são tão surreais que mesmo eu, que monto aquele filminho na cabeça enquanto leio, não consegui imaginar completamente e com clareza os cenários e personagens destas passagens. Muito interessante o Gaiman usar mitologia africana para criar a estória.

Deu até curiosidade agora de ler o SandMan, que pelo que conheço é menos humor escrachado e mais um humor ácido, sútil, que é apenas complemento para suspense e drama. Mas do jeito que Gaiman consegue conduzir bem uma trama, não duvido que seja um livro para se devorar em poucos dias, como devorei as mais de 300 páginas de Os Filhos de Anansi (apenas quatro dias!).

Be happy 🙂