Felicidade Foi-se Embora? – Leonardo Boff, Mario Sergio Cortella, Frei Betto (15/2016)

Felicidade Foi Se EmboraA Editora Vozes convidou três dos mais profícuos autores e pensadores brasileiros para discorrerem sobre o tema Felicidade. O pano de fundo da discussão são trechos de sucessos da MPB: Felicidade foi-se embora? A tristeza não tem fim, mas a felicidade sim? É impossível ser feliz sozinho? Cada um dos três discorre, em seções separadas, sobre o tema, e por isto vou avaliá-los também isoladamente.

Frei Betto tem dois grandes problemas: quer medir todo mundo pela sua régua e quer ideologizar qualquer assunto, claro que puxando para a ideologia à qual ele professa, que é o socialismo. Isto posto, para ele a felicidade está sempre no coletivo e nunca pode ser alcançada sozinha. Além disto, bens materiais não podem trazer felicidade. Dentro do conceito dele a felicidade é um objetivo a ser perseguido e que só será alcançado com uma sociedade igualitária, onde tudo seja de todos e todos sejam iguais (e talvez “alguns animais mais iguais que outros”, parafraseando Orwell), para isto, o socialismo é o caminho, sempre em oposição ao “malvado capitalismo” (qual deles? o de 2 séculos atrás? o de hoje? o Canadense? o Americano? o Chinês?). Ou seja, para ele as pessoas só serão felizes em uma sociedade onde todos compartilhem tudo, desde que seja da maneira que ele acredita e numa sociedade que ele idealiza. Pensamento típico de quem não tem o mínimo de empatia e não se coloca no lugar dos outros e, para piorar, não respeita a diversidade (de pensamentos, valores, idéias, etc).

Leonardo Boff também cai no mesmo problema de querer que os seus valores sejam padrão para todos. Mas ao menos escapa da tentação de partidarizar o texto. Ele também acha que felicidade não é um objetivo, mas um estado temporal que pode ser alcançado várias vezes e de diversas maneiras. O problema dele é tentar pintar o mundo como lugar horrível, que só será melhor quanto todas as pessoas forem capazes de alcançar certo nível de felicidade de acordo com os valores dele (espiritualidade, caridade, etc). Achei engraçado um trecho onde ele descreve este “momento da humanidade” onde afirma que “quase todos os vulcões do mundo estão se ativando”. Gostaria de saber de onde ele tirou esta informação. Apesar de tudo, concordo em parte com ele no ponto em que a felicidade é feita de momentos, muitos deles fugazes, e não é um estado constante. Também gostei de algumas citações no seu trecho.

Mário Sérgio Cortella já tem uma opnião um pouco parecida com a minha, de que a felicidade não é um estado constante, mas sim momentos (então o “ser” feliz é uma soma de muitos “estar feliz”), até porque, se fosse um estado constante perderia sentido, como o ar que respiramos, onde só nos damos conta dele quando ele nos falta. Ele relaciona os estados de felicidade com sensações de realização (quando terminamos um trabalho bem feito, terminamos de ler um livro), de contemplação (quando vemos um belo por do sol, ouvimos uma boa música) e de interação (quando nos relacionamos com algum ser vivo, especialmente entre nós mesmos, humanos). De certa forma ele acha que “é possível ser feliz sozinho”, mas que quando esta felicidade é compartilhada e ou originada das interações, ela é muito mais intensa e duradoura. Como quando você vê aquele belíssimo por do sol, mas gostaria que as pessoas das quais você gosta estivessem com você para partilhar este momento. Eu ainda acho que ele tem aquele resquício de querer que outros tenham os mesmos valores que ele, quando diz que a felicidade material é impossível e que a felicidade só pode ser alcançada através da espiritualidade. É uma característica do ser humano um pouco complexa de contornar, realmente.

O que Eu acho? Bem, era para ser uma resenha, mas vai virar uma Ruivopedia. Eu acho que a felicidade é como uma conta bancária: você tem depósitos (momentos de alegria) e saques (momentos de tristeza) e cabe somente à nós mesmos, individualmente, fazer com que no final de nossa jornada (na verdade durante ela, já que ao final nada mais vai importar) este saldo seja positívo. Um constante estado de “saldo positivo” ou pícos (felicidade durante muito tempo ou picos de felicidade extrema seguido por quedas) não são possíveis e podem indicar até um transtorno psíquico (estado de euforia, hiperatividade), bem como o inverso também é preocupante (pode ser depressão). Variações enormes também são anormalidades (bipolaridade). As vezes podemos ter um “depósito” alto (um nascimento de um filho, por exemplo), ou um saque muito impactante (uma morte de um ente querido), mas o saldo médio deve estar sempre próximo do “zero”, preferencialmente acima.

Eu não acredito que seja “impossível ser feliz sozinho”. Muito pelo contrário: você precisa primeiramente ser feliz sozinho, ser autosuficiente em sua felicidade, para depois poder multiplicar e inclusive “fazer doações” a quem talvez esteja com seu “saldo negativo”. Ao contrário dos autores do livro, eu acho que bens materiais podem ser sim causadores de felicidade. Novamente: cada um sabe o que é melhor para si, e quem sou eu para julgar alguém que acha que uma Ferrari vai fazê-lo feliz. Do mesmo modo, acho que não precisa de espiritualidade, do divino para ser feliz. Como ateu e conhecendo alguns ateus, acho até o contrário: quem se dá conta da sua insignificância dentro deste enorme universo, da fulgacidade da vida e de que só temos esta única vida para aproveitar consegue viver melhor, aproveitando estes pequenos bons momentos (depósitos) e relevando e superando mais facilmente os maus (saques). A fé inclusive pode ser a própria causadora da infelicidade no momento em que deixa as pessoas com a “eterna culpa do pecado”, com a tensão de ter que garantir o paraíso (ou uma boa reencarnação) para o além vida, ao cercear e censurar as várias formas de prazer (jogo, sexo, bebidas, drogas), etc.

Be happy 🙂

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