Arquivo anual: 2014

Minha Virada Cultural – Edição 2014

Virada 01Não é segredo para ninguém o quanto eu amo São Paulo (apesar dos pesares). Inclusive tenho a oportunidade de, devido ao trabalho, morar em uma cidade do interior de SP, não tão distante da capital, porém eu prefiro conviver com o ônus de morar aqui para poder aproveitar o bônus (vida noturna, cultural, amigos, família, etc). Particularmente eu gosto bastante do Centro de SP, local em que trabalhei de 1991 à 2004 (e gostaria de voltar a trabalhar lá).

No centro de SP você encontra todo tipo de pessoas (brancos, negros, índios, nigerianos, bolivianos, ricos, pobres, etc) e de lugares (shoppings, centros comerciais, restaurantes populares, restaurantes luxuosos, hospitais, dentistas). Além de tudo, apesar de bastante descuidada, a arquitetura da região central é bela e, guardadas as devidas proporções (500 anos contra 2 mil!), não deve em nada para as principais cidades da Europa (ao menos as que eu conheço).

Eu fico muito feliz quando existem eventos ou ações que ocupem o centro da cidade (aliás, a cidade toda) afim de proporcionar cultura, esportes, lazer, etc (já falei sobre o Carnaval de rua Paulistano aqui). Ou seja, que procuram fazer com que os paulistas (de nascimento e de coração) aproveitem esta maravilhosa cidade. Talvez o evento mais esperado todo ano seja a Virada Cultural, em 2014 na sua 10ª edição.

Desde 2008, ou seja, da sua quarta edição, que eu aproveito este evento. Nas primeiras edições eu não compareci por conta de preconceitos que eu tinha (“é bagunçado”, “é perigoso”, etc) e que muita gente ainda tem. Mas à partir do momento que eu me permiti ter esta experiência, se tornou um dos meus eventos preferidos e mais esperados do ano.

Este ano não foi diferente e no sábado às 16:00hrs, peguei o ônibus para me dirigir ao centro para aproveitar alguns dos eventos desta festa.

Pobre Paulista
Talvez um dos shows mais esperados este ano foi o retorno da paulistaníssima banda Ira!, após 7 anos de separação e brigas. E acho que não haveria um evento melhor para este retorno do que a Virada Cultural. Eu nem vou falar que o show foi sensacional, porque eu sou muito suspeito, já que o Ira! é minha banda nacional favorita.

Virada 02

Bandeiras de SP tremulam ao som do Ira!

De qualquer forma eles montaram um set muito bom para esta volta, colocando bastante músicas curtas para tocarem o máximo de músicas possíveis no pouco tempo de show, incluindo no set muitos lados Bs. “Como os Ponteiros de um Relógio” e “Prisão das Ruas” eram duas músicas que eu nunca os tinha visto tocar ao vivo (e olha que eu já vi uns 100 shows do Ira!, chutando bem baixo!).

Não gostei muito dos novos membros da banda, especialmente do baterista, que me pareceu muito “mecânico” (talvez com o tempo ele se solte), mas era um show para curtir e não para ficar analisando qualidade técnica e até o fato do Nasi esquecer e errar algumas letras (como em Tolices) foi parte do espetáculo.

Underground
Depois do show do Ira! dei uma passada no palco São João para assistir um pouco do Tributo ao Hélcio Aguirra, guitarrista do Golpe de Estado (a segunda banda que eu mais vi, só perdendo pro Ira!), falecido ano passado.

Da formação original da banda só sobrou o baixista Nelson Britto, porém eles tocaram sob o nome de “Golpe de Estado”. No início da apresentação, que foi anunciada pelo Luis Calanca, da Baratos & Afins (o selo pelo qual o Golpe lançou os primeiros discos, justíssima escolha, aliás), levaram ao palco a famosa Gibson Flying V Preta e Branca que era a marca registrada do Hélcio.

O show foi até legal, mas nestas horas você percebe que esta história de que “ninguém é insubstituível” é uma balela: o guitarrista escalado para “substituir”o Hélcio era muito bom, mas mesmo assim não era o Hélcio e apesar do Nelson estar ali tocando, não parecia ser o Golpe.

Mas valeu a homenagem, já que o Hélcio, além de ser um baita músico, foi uma das pessoas que ajudaram a desenvolver (ou ajudaram a não deixar morrer) a indústria musical brasileira, sendo ele responsável por prover equipamentos de PA para vários shows ocorridos na década de 80 (antes da abertura comercial em que era praticamente impossível importar equipamentos), desenvolver efeitos e amplificadores, etc.

Retirantes
Bixiga 70 era um um dos shows que eu mais queria ver, já que apesar de ter adquirido os dois álbuns da banda, nunca os tinha visto ao vivo.

Aqui vale uma consideração: o brasileiro em geral não é muito ligado em música instrumental, mas vez ou outra uma banda ou músico se destaca e conquista relativa popularidade. Foi o caso da Banda Black Rio nos anos 70, d’A Cor do Som nos anos 80, do Funk Como Le Gusta na década de 2000 e parece que a bola da vez é o Bixiga 70.

Montaram um set bem legal, inclusive permitindo espaços para improvisações e suspresas (como uma versão bem inusitada de Kashmir, do Led Zeppelin). Uma pena que colocaram em um palco secundário e a procura foi grande, o que tornou o espaço um pouco lotado.

Outra coisa ruim foi a “marofa” que se formou no show. Parecia uma névoa de tanta maconha e saí de perto do palco antes do final pois já estava ficando louco de tabela. Eu fumo meu cigarro e bebo minha cerveja e talvez não tenha moral pra falar, mas acho que a galera podia ter um pouco mais de consideração com quem não tá afim de “chapar o côco”.

Depois do show do Bixiga 70, um já tradicional churrasco grego pra dar uma forrada e bora pra casa dormir um pouco pois o outro dia reservava algumas boas atrações também. Estou pensando até em pegar um hotel no centro no próximo ano para aproveitar mais a festa.

Todo Amor ao Jimi
No domingo de manhã, logo as 9:00hrs, teria um show que já havia visto em algumas viradas atrás, mas quis assistir de novo, pois é bem legal, que é o do Pepeu Gomes, um dos melhores guitarristas da história musical do Brasil.

Virada 03

Pepeu Gomes e a bela Estação Julio Prestes ao fundo!

Mas antes do show, como não poderia deixar de ser para alguém que parece um para ráios de louco como eu, um tiozinho ex-morador de rua resolve pedir cigarro e ai lá se vão 30 minutos ouvindo histórias meio disconexas e sem sentido (“eu tenho 6 profissões: balconista, amigo do cafú…”). Mesmo assim é divertido e o que estas pessoas querem é apenas alguém que lhes dê um pouquinho de atenção e dar um pouco de atenção a outra pessoa não custa nada.

O show do Pepeu começou com uns 20 minutos de atraso, o que me impediu de acompanhar até o final, já que tinha outros planos. Mesmo assim, é bem legal e ele mistura músicas de sua carreira solo, sucesso da época dos novos baianos e algumas homenagens, como um instrumental de “Maracatu Atomico” que ele dedicou ao Chico Science (poderia ter aproveitado e dedicado ao Jorge Mautner, autor da música).

A banda que o acompanha é competente e sabem dosar a quantidade de solos e improvisos para não virar aquela “punhetagem” musical que geralmente existe em shows de música instrumental.

Mas como disse, a agenda estava apertada e as 10 e pouco precisei ir embora rumo ao minhocão para dar uma olhada em como estaria o evento “Chefs na Rua”, que desta vez contou com participação de food trucks e de cervejarias artesanais e importadores de cervejas ditas “gourmet”.

Cerveja é cultura
Desde 2012 ocorre, como uma das atrações da Virada Cultural, o evento “Chefs na Rua”, onde chefes e restaurantes badalados servem algumas de suas criações a preços populares. Este ano o evento ganhou a ótima companhia de food trucks (que parece que vieram para ficar) e de algumas empresas do mercado de cervejarias artesanais (importadores, microcervejarias e uma escola que produziu uma cerveja durante o evento), também conhecidas como cervejas gourmet.

Muito bom este interesse pela cultura cervejeira

Muito bom este interesse pela cultura cervejeira

Devido à recente popularização deste mercado no Brasil, posso me considerar da “velha guarda” dos apreciadores de cervejas gourmet, afinal de contas, frequento o Frangó há uns 20 anos, e fico muito feliz com o aumento deste mercado por aqui. Então claro que não poderia deixar de dar uma passada no evento.

A variedade de cervejas era boa, contando com cervejarias nacionais e importadas e achei muito legal que estavam vendendo “degustações” em copos de 100mls. Pelo que eu percebi haviam muitos “curiosos” em descobrir este fantástico mundo das cervejas, que afinal de contas, assim como a música, a culinária, os trajes, fazem parte da cultura de um povo.

Rapaziada da Zona Oeste
Não posso nem dizer que “vi” o show do RZO, pois na verdade escutei duas músicas quando estava à caminho do palco Luz e passeoi pelo palco Júlio Prestes, mas como eles estavam tocando as minhas duas músicas prediletas do grupo, Paz Interior e O Trem, então vou contar como uma das atrações que eu vi…..hehehe

Qui Nem Jiló
Quando da morte do Jair Rodrigues eu publiquei um post no Facebook falando que, mais do que a perda do artista, a maior perda era da pessoa, já que ele era um ser que, se eu não fosse tão cético, acreditaria ser um espírito de luz ou ter uma aura do bem. A Teresa Cristina é uma destas pessoas também. Só a presença dela no palco já faz você abrir um sorriso.

Além disto, ela canta bem para caramba, sabe montar um repertório fantástico, colocando músicas menos conhecidas intercaladas com grandes sucessos de outros artistas que ela interpreta. Para “ajudar” ela ainda conta com uma competentíssima banda.

Por tudo isto este show acabou entrando no rol de um dos melhores que eu vi em minhas 7 edições de virada cultura, ao lado do próprio show do Jair Rodrigues e do Living Colour, que assisti na virada cultural de 2010.

E agora virou obrigação assistí-la quando ela vier a São Paulo ou da próxima vez em que eu for ao Rio e ela estiver se apresentando.

Underere
Entre a Teresa Cristina e o Pagode 90 (que iria assistir mais pela memória afetiva) tinha a Eliana de Lima e como já estava cansado de andar de um canto pra outro, resolvi assistir tb. Não foi tão legal pois ela está longe de ser uma baita cantora, então acabou valendo também pela memória afetiva.

Enquanto comia um pastel na espera pelo Pagode 90 o tempo fechou (literalmente), mal dando tempo de engolir o ultimo pedaço e correr para a marquise da Estação da Luz. E a chuva acabou trazendo uma agradável surpresa…

Até a acústica da Estação da Luz ajudou.

Até a acústica ajudou.

Proteja o meu Maracatu!
No momento da forte chuva que caiu sobre São Paulo, o Grupo Maracatu Bloco de Pedra, que se apresentaria no Parque da Luz, correu para dentro da estação de trem da Luz e, meio que espontaneamente, começaram a tocar ali mesmo. Um som legal, um público empolgado (e um tanto quanto “emocionado” pelo álcool), a bela arquitetura da estação (que inclusive ajudou na acústica) e a surpresa fizeram desta curta apresentação uma atração bem legal.

Pena que, por não ter sido programada, os seguranças e a administração da estação solicitaram a interrupção da apresentação. Mesmo assim, até eles estavam com boa vontade e permitiram que rolasse mais um pouco.

Mas seria legal se nas próximas edições utilizassem este “aparelho” para programar eventos.

Nem tudo são flores
Como já disse, esta foi minha 7ª Virada Cultural, todas elas sem nenhum incidente comigo ou com conhecidos (e algumas vezes eu varei a madrugada sozinho, como em 2010). É um evento muito legal e São Paulo precisa de mais eventos que ocupem o espaço público. Sua população merece isto. A cidade merece isto.

Eu não gosto muito destas “teorias conspiratórias”, mas é estranho porque enquanto era a gestão Serra/Kassab (que deixou este legado de bom pra cidade) que comandava a cidade, não davam tanta atenção para os incidentes que SEMPRE ocorreram e ocorrerão em eventos deste tamanho (ocorrerão aqui em SP, ocorrem no carnaval da Bahia e do Rio, ocorreriam em NY, em Berlin, em Londres, em qualquer lugar onde você junta uma multidão deste tamanho)

Mas três coisas que vi e ouvi me deixaram com um misto de perplexidade, tristeza e falta de esperança, não em relação ao evento, mas ao rumo que nossa sociedade toma:

  • O comandante da PM assinando seu atestado de incompetência pedindo que o evento seja diurno e com acesso restrito para que exista revista. Ele simplesmente admitiu a falência do sistema do qual ele faz parte, que é o de segurança pública. (e aqui não é uma crítica à instituição, pois a PM fez ótimo trabalho, na medida em que puderam, durante esta virada).
  • O apresentador da Globo perguntando se vale a pena investir 13 milhões num evento como este. O público estimado foi de 4 milhões de pessoas! Quer investimento melhor do que este? Poderiam investir mais ainda e fazer o evento 2, 3, 4 vezes por ano.
  • Das 4 confusões que eu presenciei, 3 delas foram causadas pela Guarda Civil Metropolitana tentando apreender produtos de vendedores ambulantes, o que invariavelmente gerava uma correria generalizada, pois as pessoas inicialmente não sabiam do que se tratava e em um segundo momento a revolta do próprio público, que em uma das confusões quase resultou em agressão aos próprios guardas. Ao invés deles focarem em apreensões, poderiam ao menos neste evento, ajudar na segurança. Seriam muito mais úteis.

Valeu a pena!
Após 10 anos de eventos, nota-se que ele vem progredindo em todos os sentidos. Inicialmente houveram problemas com falta de banheiros e de pontos de alimentação, que já foram solucionados lá pela 6ª edição. Depois o problema da segurança, que também vem melhorando a cada ano.

Nos primeiros eventos eu presenciei algumas confusões (brigas e discussões) entre o público ou entre tribos (roqueiros, punks, pessoal do RAP, Samba, Eletrônico, etc) no caminho entre um palco e outro. Porém, nas últimas 3 ou 4 edições não presenciei nenhuma confusão deste tipo, até porque, hoje a turma do “deixa disso” deve corresponder a pelo menos 90% do público e qualquer tensão é logo aplacada pelo próprio público. Ou seja, o evento está servindo também para aumentar a tolerância das pessoas ao que é diferente.

Em outros anos a quantidade de atrações boas (para o meu gosto, que fique claro) impressionava e ficava até complicado escolher o que eu iria ver. De uns três anos para cá eles aumentaram mais a variedade de estilos, o que fez com que as opções para o meu gosto diminuissem, mas em compensação está atraindo bem mais pessoas (inclusive de outras cidade e até estados, e desta vez vi bastante gringos também). Mas é uma festa popular e é mais do que justo tentar atender à todos os gostos.

Muita gente deixa de ir na Virada Cultural alegando que vai ter muito bandido, drogado, travesti. Sim, o centro é cheio de travestis, prostitutas, drogados, mendigos. Mas antes do nóia, da puta, do traveco ou do dorme sujo, o que existe ali é um ser humano, e se você não consegue ao menos sentir empatia e tolerância por outro ser humano a ponto de não conseguir conviver no mesmo espaço que ele por algumas horas que sejam, então o melhor mesmo é não ir (aliás, o melhor ainda é que você vá viver isolado, pois você ainda não aprendeu a viver em sociedade).

Todas as vezes eu sou sim interpelado por estas pessoas que vivem na região central. Algumas vezes me pedem cigarro, outras a cerveja que estou tomando, alguns poucos me pedem dinheiro (a maioria explica que é pra tomar uma cachaça, afinal cobertor de mendigo é pinga), muitos nem me pedem nada. O que todos eles no fundo querem é alguém que lhes dê atenção, por 5 ou 10 minutos que sejam, ao invés de enjeitá-los, isolá-los, tratá-los como párias da sociedade. E se 10 minutos de minha atenção foram suficientes para melhorar um pouco o dia destas pessoas, isto já me valeu muito a pena. Até mais do que os shows.

Algumas outras fotos:

Virada 06

A lateral do Teatro Municipal, vista da 24 de Maio

Virada 07

Venha correndo Mappin!!!

Virada 08

A frente do belo Teatro Municipal

Virada 09

Estação da Luz

Virada 10

Festa para todos os credos…

Virada 11

…e crenças (instalação no Parque da Luz)

Virada 12

Outro ângulo da Estação da Luz

Virada 13

Não era atômico, mas era um belo Maracatú!

Virada 14

A arquitetura da Estação da Luz me lembrou a da Estação de Hamburgo, na Alemanha (por isto ela não me era estranha quando tomei trem lá)

Wanderlust #3 – Los Angeles – EUA (parte 3 de 4)

Los Angeles 1

O calçadão de Venice Beach

Se eu tivesse que escolher uma cidade no mundo para morar, com certeza esta cidade seria Los Angeles. É a cidade que eu imagino que seria Sao Paulo se o Brasil fosse um país sério (e se São Paulo tivesse praia).

Eu estou falando cidade, mas Los Angeles e mais do que apenas uma cidade. Explico abaixo.

LA County
A estrutura geopolitica dos EUA é um pouco diferente do Brasil. Além da praticamente independência de cada estado da federação (é só ver como existem leis bem diferentes de um pra outro), a organização é um pouco diferente.

Aqui no Brasil temos o país, que é dividido em estados e que, por sua vez, são divididos em cidades/municipios. Nos EUA existe uma outra “entidade”: o condado. O condado fica entre o estado e as cidades, ou seja, um condado é formado por várias cidades e existem vários (quer dizer, dependendo do estado nem tanto) condados dentro de um estado. Seria mais ou menos como se existisse uma entidade para a Grande Sao Paulo, ou a baixada Santista, que reuniria as cidades destas macro regiões. Porém, o condado conta com alguns aparelhos próprios, como a polícia (quando se fala em polícia de NY ou de LA, está se falando do condado, pois não existe polícia no nível de cidade), o departamento de bombeiros (algumas cidades também mantêm bombeiros), alguns tribunais e o Xerife do condado, que é o responsável pela segurança naquela macro região.

O condado de Los Angeles (LA County) é uma região gigantesca de mais de 10 mil quilometros quadrados, que se estende desde Huntington Beach, no extremo sul, ate Calabasas, no extremo norte, e é composto por cidades como a própria Los Angeles, Long Beach, Santa Monica e Malibu. Para se ter uma idéia do tamanho desta região, para sair de Huntington e chegar a Calabasas, utilizandos as Freeways e sem trânsito, demora quase duas horas. Com trânsito não menos que 4.

Nobody Walks in LA
Los Angeles 2Cada uma das cidadezinhas que compoem o condado têm suas peculiaridades e seu charme. Venice Beach é famosa pelo seu estilo mais despojado e pelo seu calçadão, que reúne uma série de artistas de rua e lojas de bugigangas (e muitas lojas de maconha medicinal….hahaha).

Santa Monica é famosa pelo seu pier, que contém alguns restaurantes e um parque de diversões, e por sua vida noturna (restaurantes, bares, clubes, etc), além de ser um região para compras.

Malibú é onde se concentram as casas a beira de praia dos artistas. Hollywood é onde se encontra a indústria cinematográfica, a famosa calçada da fama e o Hollywood Sign. Beverly Hills é famosa pelas casas dos artistas e pelas suas lojas de luxo.

Na Marina Del Rey ficam os iates, barcos e veleiros (foi o lugar onde morei). Huntington Beach é conhecida como praia dos surfistas (uma das poucas realmente boas para pranchinhas, já que o mar da região é mais propício a pranchões ou funboards).

Indo para o Vale de San Fernando (a Hollywood do cinema pornô!), se encontram o que podemos chamar de cidades dormitórios: Calabasas, Tarzana, Sherman Oaks, Canoga Park, entre outras.

Uma coisa que eu notei desta vez é que o transito está terrível, mesmo fora dos horários de pico ou aos finais de semana. As freeways (vias rápidas no meio de cidades) que cortam a região ficavam praticamente paradas das 6 da manha as 10 da noite. Mesmo utilizando o Waze, que me oferecia caminhos alternativos, nota-se que a cidade chegou ao seu limite e me fez pensar em não reclamar mais (quer dizer, já não o faço) do trânsito em SP.

Falando em SP, em Los Angeles também estão tomando medidas um tanto quanto drásticas e impopulares para tentar aliviar o transito e mudar o comportamento dos habitantes. Estão construindo (em regime de urgência) algumas linhas de metrô ligando as cidades mais distantes aos centros comerciais e industriais, construiram algumas ciclovias (já que a topografia ajuda) e, vejam só, também criaram corredores exclusivos de ônibus!

O centro da cidade (Downtown LA) também está sofrendo um processo de revitalização, onde vários predios antigos estão sendo transformados em centros comerciais e alguns deles estão inclusive sendo demolidos para darem lugar a novos prédios comerciais e eventualmente residenciais (também estão tentando atrair as pessoas para morarem perto do trabalho).

Mesmo com a falta de planejamento que ocorreu no crescimento de LA, ainda nota-se que existe ao menos algum planejamento, ao contrário de nossas cidades, onde não existe nenhum.

Espero voltar em breve a LA e, quando voltar, que muitos destes problemas ja estejam solucionados.

There’s no place like home LA

Oakwookd Suites @ Marina Del Rey - aqui onde passei 9 meses fantásticos da minha vida

Oakwookd Suites @ Marina Del Rey – aqui onde passei 9 meses fantásticos da minha vida

Em 2008, devido a um projeto da empresa onde trabalho, passei quase 9 meses praticamente morando em LA. Para quem detesta frio, como eu, já foi ótimo por emendar um verão atrás do outro (sai do Brasil no final do verão, peguei o verão de lá e voltei no final da primavera brasileira). Para ajudar, como estava a trabalho, todas as despesas foram pagas e ficava hospedado num flat a 500 metros de Venice Beach.

Apesar de ter trabalhado dobrado (em função do fuso), valeu muito a pena a experiência. A única coisa que, visitando novamente, eu me dei conta é de como eu podia ter aproveitado mais. Infelizmente, àquela época eu ainda não tinha descoberto os prazeres e as vantagens que se tem ao viajar sozinho, então praticamente não fiz turismo. Inclusive, apesar de 9 meses lá, em vários dos lugares que visitei desta vez não havia ido.

Como disse lá no começo, LA é a cidade que eu escolheria para morar. Quem sabe num futuro próximo eu não tenha uma oportunidade de passar mais uma temporada por lá.

 

Dexter’s Final Cut – Jeff Lindsay (9/2014)

Dexter's Final CutO primeiro livro da série (Darkly Dreaming Dexter) foi o que deu origem à série televisiva do anti-heroi mais “amado” dos últimos tempos (talvez ele acabe perdendo o posto para o Hannibal!) e este já é o sétimo livro do serial killer que mata serial killers.

Para quem acompanhou ou pretende acompanhar o seriado, vale um esclarecimento: com exceção da primeira temporada da série, que é realmente baseada no livro (apesar de algumas diferenças, especialmente no final), os livros tomaram um rumo totalmente diferente, então, não existe problema em ler e assistir o seriado.

Além disto, existem algumas diferenças entre os personagens: no livro, o Dexter é totalmente sem sentimentos, o que faz com que ele seja mais dissimulado ao fingir os sentimentos de seres humanos normais. As piadas dele no livro também são mais ácidas e sarcásticas. Além disto, no livro, como não existe censura, não existem limites para os palavrões de sua irmã, Deb.

A descrição das cenas de crime também entram em detalhes que, se você for como eu, que monta um filme na sua cabeça, são bem fortes. No ínicio do seriado (três ou quatro primeiros capítulos), as cenas de crime eram bem explícitas também, mas creio que como começou a fazer sucesso resolveram dar uma amenizada.

O estilo de escrita do Jeff Lindsay é bem interessante e fluida e é do tipo do texto que você não consegue parar de ler. Este livro, por exemplo, que conta com 357 páginas, eu lí em 6 dias. E isto porque eu comprei a versão em inglês. Falando nisto, é um bom livro para quem quer aumentar o vocabulário e consequentemente a fluência no idioma. Sugiro adquirir as versões na língua original, já que o Dexter, que é o próprio narrador dos livros, faz umas brincadeiras com palavras, quando se refere à ele mesmo (sempre em terceira pessoa), que creio terem se perdido na tradução. Do meio do nível intermediário de Inglês para cima (B2 da tabela européia), acho já ser possível alguém conseguir ler o livro. No início dá um pouco de trabalho, mas depois de umas 100 páginas a coisa começa a fluir e a necessidade de consultar dicionário diminui bastante pois você começa a entender as palavras pelo contexto.

Neste livro, Dexter é designado para servir de conselheiro técnico para um ator que vai interpretar um perito em um seriado cujo piloto está sendo filmado em Miami. O problema é que, enquanto a equipe de filmagens está na cidade, uma série de assassinatos estranhos começam a ocorrer e Dexter, na ânsia de encontrar o serial killer (e ao mesmo tempo satisfazer seu Dark Passenger), se mete em uma encrenca que vai mudar os rumos da série literária. E que me deixou na expectativa para o próximo livro da série.

O seriado foi bem legal (bem, até a 6ª temporada, pelo menos), mas como o livro sempre foi mais interessante (pelas características do personagem, citadas acima), eu torço para que em algum momento resolvam fazer um filme ou um seriado que seja fiel ao livro.

Botecando #21 – Neptune’s Net

Neptune's Net 1Este é mais um restaurante/lanchonete do que um bar propriamente dito, mas como oferece várias opções de cerveja e é um dos poucos lugares nos EUA que voce consegue beber olhando o mar, vou colocar na categoria de boteco também.

Localizado em frente à praia de Dana Beach, na cidade de Malibu, este bar oferece várias opcoes de frutos do mar (para quem gosta) e conta com geladeiras com os mais variados tipos de cerveja. A coisa funciona no sistema self service: voce vai até a geladeira, escolhe sua cerveja, passa no caixa (onde se pode fazer os pedidos de comidas, incluindo muitos petiscos), paga, escolhe uma mesa e se senta.

Neptune's Net 2O bar é tambem ponto de encontro de motociclistas que o utilizam como ponto de encontro, ou apenas como parada para comer algo, durante os passeios pela Pacific Coast Highway, mais conhecida como PHC-01, a estrada que percorre a costa oeste americana, desde San Diego ate a fronteira com o Canada.

A vista para a praia de Dana Beach é bem legal e podemos inclusive enxergar alguns filhotes de baleia se exibindo. Infelizmente meu celular nao tem um zoom bom e não deu pra tirar foto.

Opcões de cerveja é que não faltam aqui e inclusive eu acabei experimentando uma dark lager da Guinness, que é mais famosa pela sua stout, que eu nem sabia que existia.

O cardápio, para alguem que nao curte frutos do mar como eu, não é lá muito atraente, mas aparentemente, pelo movimento no local, deve ser muito bom e com preços razoaveis.

Vale uma passada para quem estiver por LA e resolver fazer um passeio (praticamente obrigatório), pela PCH-01.

Onde: Neptune’s Net (42505 Pacific Coast Hwy, Malibu, CA)
Quando: 25/04/2014
Bom: beber olhando o mar
Ruim: nothing
Site: http://neptunesnet.com

Botecando #20 – O’Malleys

omalleys 1Putz, eu estava quase me esquecendo de fazer este review. E justo do O’Malleys, que é um dos pubs de São Paulo que eu mais gosto!

O O’Malleys é um dos pubs mais antigos e mais tradicionais de São Paulo (acho que nos dois quesitos ele só perde para o Finnegan’s). Situado na esquina da Rua da Consolação (do lado do Jardins) com a Alameda Itu, fica num imóvei dividido em vários ambientes: logo na entrada se encontra o bar mesmo, ao lado existe uma “saleta” com uma meia dúzia de mesas. Mais pro fundo se encontra um salão um pouco maior, também ocupado por algumas mesas e também o acesso a um pequeno mesanino onde se encontra uma mesa de snooker. Na parte de cima do bar fica a “pista”, com um palco ao fundo.

Em todos os ambientes existem várias TVs que ficam transmitindo constantemente prograções esportivas e, quando existe banda tocando no piso superior, algumas destas TVs “transmitem” a performance da banda (é apenas uma câmera estática em frente ao palco).

Normalmente durante a semana, devido à proposta de ser um pub Irlandês/Inglês e a proximidade com a Avenida Paulista, é reduto da gringaida que está na cidade, principalmente à trabalho.

omalleys 2Uma das coisas que eu mais gosto aqui é que é possível tomar pints de Guinness que são tirados da tap, ou seja, é a Guinness na sua forma tradicional. Os petiscos também são bons e não ficam focados somente na culinária Irlandesa e Inglesa, e pode-se encontrar algumas coisas da culinária mexicana (nachos), americana (burgers) e brasileira (petiscos, tábuas de frios, etc).

As bandas que normalmente se apresentam são de pop/rock internacional. Não sei se é a proposta da casa, mas em todas as vezes que eu fui ao O’Malleys, as bandas focavam num repertório mais anos 80.

omalleys 3Às sextas e sábados, e também no dia de São Patrício, a casa fica lotada (bem menos do que ficava antes da tragédia de Santa Maria, que teve este “lado bom”), o que faz com que enormes filas se formem e a espera ultrapasse as duas horas. Se estiver pensando em ir num dia destes, o ideal é chegar antes das 22:00hrs (antes das 21:00 até) ou depois da 1:00.

Outra coisa ruim, para quem fuma, é a área destinada a fumantes: é um chiqueirinho externo e, devido à proximidade de vários prédios residenciais, só 3 pessoas podem sair para fumar ao mesmo tempo, o que gera uma considerável fila nos dias mais cheios.

Mas é um lugar ótimo para tomar umas com os amigos, especialmente fazer um happy hour nos dias de semana.

Onde: O’Malleys (Alameda Itu, 1529 – Jardim Paulista)
Quando: 15/04/2014
Bom: Guinness on Tap!!!!
Ruim: fumódromo e filas aos finais de semana
Site: http://www.omalleysbar.net/

Wanderlust #2 – San Diego – USA – Apr/2014

San Diego Bay (com o USS Midway ao fundo)

San Diego Bay (com o USS Midway ao fundo)

Em Fevereiro de 1996 eu partia para o que seria minha primeira aventura internacional. Depois de um visto negado e de ter dado um “jeitinho brasileiro” para aprovar o segundo pedido de visto, eu parti num 747 da JAL com destino a LA e depois num ônibus da Greyhound para San Diego afim de fazer um curso de imersão em Inglês.

Na época, tinha apenas 19 anos, mal sabia o verbo “to be” e contava com apenas 500 dólares para passar um mês. Era uma epoca pré internet, onde se conseguia poucas informações sobre o destino, sobre o que fazer, o que visitar e com tão poucos recursos (o curso e a estadia estavam pagas, assim como a passagem, que obtive quase de graça pois trabalhava na época na Transbrasil, mas nem cartão de crédito eu tinha), foi uma aventura e tanto.

O "Ruivomóvel" da vez

O “Ruivomóvel” da vez

Desta vez foi um “pouco” diferente. Apesar do pouco tempo, hoje conto com mais recursos, o que me permitiu inclusive o aluguel de um carro para tirar um lazer (um Mustang 2014 conversivel!). Pena que pude passar apenas 3 dias.

A Cidade
San Diego é uma cidade interessante. Apesar de ser gigante e ficar no estado mais rico dos EUA, talvez por estar no extremo sul da costa oeste e fazer fronteira com o México, é uma cidade meio que “interiorana”. As coisas lá andam num ritmo bem lento, se comparado a outras cidades americanas e mesmo a São Paulo.

Alem de tudo, a cidade é praticamente uma base militar (boa parte do filme Top Gun foi filmada lá).

É impressionante tambem a quantidade de brasileiros que visitam (ou moram, vai saber) San Diego. Eventualmente você está andando pela rua e houve um grupo de pessoas falando português, coisa que, mesmo em Los Angeles ou Nova Iorque, não é tanto comum (a não ser nos centros turísticos ou de compras).

Construida em torno da Baia de San Diego, conta com varias praias e é a sede do Sea World que existe na Costa Oeste (existem outros dois, um no Texas, no centro dos EUA, e outro na Flórida, na Costa Leste). Seu Zoológico é conhecido como “o maior do mundo”, porem creio ser uma denominação exagerada, pois o de Sao Paulo é maior em área ocupada. Talvez o San Diego Zoo seja o que conte com mais espécies de animais.

A cidade tambem é muito bem servida por uma rede de transporte publico composta por ônibus, trens e trolleys, porém, assim como na maior parte dos EUA, um carro é indispensável para quem deseja aproveitar o que a cidade oferece (até por conta da sua grande extensão).

O que ver?
Alem do Zoo, já citado, e do Balboa Parque, que abriga o Zoo, San Diego Downtown, com seus restaurantes e bares, são paradas obrigatórias. Em downtown, à beira da baia, tambem se encontram dois museus interessantes: o USS Midway Museum, um porta aviões aposentado que virou museu, e o museu maritimo (infelizmente não pude conhecer). Seaport Village, também à beira da baia, em downtown, é um passeio interessante: é basicamente uma “feira de artesanato” que fica na beira da baia.

Mas a mim, o que me atrai em San Diego são suas praias, que têm uma composição bem diferente das do Brasil, mas não deixam de ter sua beleza. Desde Imperial Beach, no extremo sul da cidade, já na fronteira com o Mexico, passando por Coronado Beach, que fica na ilha de Coronado e é onde fica o famoso “Hotel Del Coronado”, que já foi utilizado para várias filmagens, passando por Mission e Pacific Beaches, todas as praias têm o seu charme.

O sol se pondo em Sunset Clifs

O sol se pondo em Sunset Clifs

Duas que particularmente me atraem bastante, se é que posso chama-las de praias, já que na verdade eu curto ficar no alto da colina vendo o mar, são Sunset Cliffs e La Jolla.

Sunset Cliffs é a primeira praia no lado norte da baia. Na verdade trata-se de um paredão de pedra com o mar logo abaixo e poucas praias, algumas delas com acesso somente pelo mar. É a praia preferida dos surfistas, que se aventuram a entrar no mar pulando com suas pranchas das pedras e usam o canto sul da praia, que dá acesso ao Sunset Cliffs Park, para sair do mar, tendo que depois praticamente escalar um morro para conseguir efetivamente sair da praia. As casas em frente à praia sao casas simples (pros padrões americanos) e normalmente sao alugadas ou compradas por surfistas que querem ter acesso mais fácil às melhores ondas da região. Eventualmente, no final da tarde, é possível ver golfinhos nadando ao lado dos surfistas e, com um binoculo, avistar algumas tartarugas marinhas.

Children's Poll em La Jolla

Children’s Poll em La Jolla

La Jolla estava bem diferente do que era há 18 anos atrás. Já era meio que uma “Maresias” de San Diego, mas desta vez parece que a ostentação chegou de vez. Mesmo assim não perdeu seu encanto. Tambem é composta por vários paredões de pedra, só que com mais praias e com acesso melhor à elas do que Sunset Cliffs. Aqui sempre é possivel avistar grupos de focas. Existé ate um “santuário”, chamado de Children’s Pool, onde elas ficam se espreguicando no sol durante o dia.

É muito interessante voce voltar para um lugar que voce conheceu há bastante tempo e notar as diferenças que ocorreram durante quase duas décadas. Mas para mim San Diego ainda guarda o mesmo encanto que tinha quando conheci da primeira vez. Uma pena somente não ter encontrado a casa onde fiquei quando estive lá em 1996 (a escola eu achei), mas ao passar pela rua eu lembrei das musicas que faziam sucesso nos EUA naquela epoca e que passavam direto na MTV: Smashing Pumpkins – 1979, Green Day – Brain Stew/Jaded e The Presidents Of The United States Of America – Peaches.

Cotas: a necessidade, os prós e os contras

Level Playing Field 1

Quem alguma vez na vida já jogou futebol na rua, sabe o quanto é importante, na hora do par ou impar, escolher o campo e, em se tratando de uma subida (ou descida, depende do ponto de vista), estar na parte mais alta. Quem joga na parte de cima, além de ter a vantagem de se cansar menos, ainda conta com a ajuda da gravidade, tanto em benefício do ataque, quanto em benefício da defesa, ou seja, o desnível do campo pode favorecer ou desfavorecer determinado time.

Os americanos costumam utilizar a expressão “level playing field” (campo de jogo “equalizado”) para descrever situações onde os “competidores” (sejam no esporte, nos negócios ou na vida acadêmica) têm as mesmas regras, as mesmas oportunidades e o mesmo ponto de partida. É claro que, usando o esporte como exemplo, um atleta pode ter um patrocínio maior e ter mais disponibilidade, para por exemplo, adquirir equipamentos melhores, porém, deve existir um ponto de partida mais equalizado para que a competição não se torne injusta (as divisões por peso e idade nos esportes de luta, por exemplo).

(Antes de continuar, um aparte: eu não gosto muito de utilizar experiências pessoais negativas, pois fica parecendo que é “choro de perdedor” ou que eu estou me fazendo de coitadinho, o que não é o caso. As usarei aqui somente para ilustrar minhas idéias)

Quando no último ano de faculdade, em 2002, já com 25 anos (por diversos motivos não pude cursar uma faculdade antes, aliás, até comecei uma com 19 anos e não pude continuar), fui atrás de estágio, eu senti na pele como pontos de partida diferentes influenciam na vida de uma pessoa. Eu me candidatei para inúmeros estágios, nas mais diversas empresas, especialmente as grandes (era um sonho fazer carreira numa grande empresa).

Porém, quando eventualmente era selecionado para participar do processo seletivo (fato raro), eu entrava na disputa como um azarão. Seja porque os outros “competidores” tinham estudado em colégios de renome (fiz o primeiro e segundo graus em colégios estaduais), seja porque eles puderam ter acesso às melhores faculdades (que ou eram públicas, e apesar de eu achar que estudando com afinco conseguiria uma vaga, eu não poderia deixar de trabalhar para estudar, ou eram mais caras do que a faculdade que eu pude pagar) ou mesmo porque tiveram experiência internacional, sabiam falar 2 idiomas além do português, entre outras coisas.

No final das contas eu fui fazer estágio em uma pequena consultoria de tecnologia, muito mais porque eu tinha um background profissional na área em que eles estavam precisando (e muito porque quem tinha o melhor curriculum, preferia as empresas maiores e de renome).

Por estes motivos, e por achar que a função maior do Estado é proporcionar qualidade de vida aos seus cidadãos, e que, qualidade de vida passa por oportunidades de desenvolvimento, eu entendo que o Estado deve sim interferir para corrigir injustiças e erros, que muito provavelmente foram causados por ele mesmo, e que irão influir no futuro dos cidadãos (e consequentemente da própria nação). Já deixei isto claro no meu artigo de estréia na Feedback Magazine.

Level Playing FieldEu comecei com esta história como um “gancho” para falar do assunto principal do artigo. Há algumas semanas vi algumas pessoas compartilhando a notícia de que a CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da câmara dos deputados aprovou uma cota de 20% das vagas para negros em concursos federais. A notícia quase passou despercebida pois as pessoas estava mais preocupadas com a votação do Marco Civil da Internet (Ok! Atualmente, pra muita gente, a Internet é mais importante do que pessoas), porém, pelas poucas pessoas que compartilharam e discutiram sobre o assunto, o que eu mais notei foram extremismos. Tinha quem é contra toda e qualquer cota, pois entendem que, independente de qualquer coisa, as pessoas têm que se esforçar para conseguir algo (talvez elas também achem que as paraolimpíadas sejam uma bobagem e, quem quiser competir, que o faça entre os atletas “normais”). Também tinha quem era totalmente à favor, pois o Estado deve corrigir injustiças do passado. Não vi ninguém discutindo a forma como esta compensação/correção é feita, o que para mim é o maior erro.

Como disse anteriormente, não sou contra estas compensações, porém eu discordo da forma com que elas são feitas atualmente e, principalmente da justificativa.

A principal justificativa para a implementação das cotas raciais (pior que o conceito de raça nem é mais utilizado, e sim o de etnia) é corrigir o mal que foi causado aos negros por conta da escravidão.

Agora eu volto a outra história pessoal. Eu nasci e cresci nas periferias de São Paulo (e até da Grande São Paulo). Meu pai é de Sergipe e também filho de nordestinos, sendo que sua mãe tinha ascendência européia e seu pai era índio. Minha mãe nasceu no interior de São Paulo, sua mãe também tinha ascendência européia (até onde eu sei portuguesa) e seu pai, ou seja, meu avô materno, era um mulato originário da Bahia. Sim, apesar da minha tez branca e jeito europeu, eu sou decendente de índios e negros.

Meu avô, como todos os negros no Brasil, sofreu com falta de oportunidades para estudar (ele era semialfabetizado) e para arrumar emprego (ele trabalhava de segurança noturno), ou seja, ele herdou todos os problemas causados pela escravidão no Brasil. O mesmo aconteceu com o meu outro avô, que herdou todos os problemas (extermínio, escravidão, migrações forçadas, etc) que os índios sofreram na colonização do nosso país. Pois bem, se a justificativa para as cotas raciais é corrigir o grave erro da escravidão no Brasil, como seria possível mensurar que impacto a situação dos meus avôs influenciou a do meu pai (que era torneiro mecânico) e da minha mãe (que cursou até a quarta série e é costureira até hoje) e consequentemente a minha? Será que eu nasci e me criei na periferia, tendo que estudar em colégios público (no meu caso, o famoso “Malocão”, cujo lema extraoficial era “Entra burro e sai ladrão!”), porque meus avôs também não tiveram oportunidades? De que forma seria possível identificar algum impacto disto na minha vida e fazer com que eu também fosse compensado?

Não sou idiota a ponto de falar que eu entendo o que um negro sente quando é preterido de algo, ou mesmo ofendido, por causa da cor da sua pele, apesar de ter presenciado muitos casos (até hoje!), inclusive na família. Mas eu entendo que, apesar da maior parte da população de baixa renda e que, consequentemente, não têm o mesmo “ponto de partida” dos mais abastados, ser formada por negros, existem também muitas pessoas de outras etnias (os índios, como meu avô e boa parte do pessoal do norte e nordeste), que também não puderam ter acesso às mesmas oportunidades. E ai eu entendo que as cotas apenas raciais acabam criando uma “exclusão entre os excluidos” ou uma “inclusão seletiva”, pois o “baiano” (para quem é de São Paulo, ou “paraiba” pra quem é do Rio), que já teve oportunidades negadas no seu nascimento, novamente é colocado de lado em prol de outra “minoria”.

Mas o que mais me incomoda realmente é que estes mecanismos de ajustes são o remédio para o sintoma. E todo mundo fica discutindo como tratar ou não o sintoma enquanto se esquecem da causa do problema. O Brasil já tem um histórico de, pelo menos, 20 anos de uso de dispositivos sociais para diminuir as diferenças e injustiças, que têm sim sua efetividade, porém não vemos uma melhora nas causas do problema, especialmente no que tange à educação (já falei disto em um outro artigo meu).

Eu acho sim que devem existir dispositivos (auxilios, cotas, benefícios, etc) afim de corrigir injustiças do passado e erros que o Estado tenha cometido. Porém, estes dispositivos devem ser muito bem pensados, para que não acabem criando mais injustiças. E o principal: eles devem ser um paliativo enquanto a causa do problema não é solucionada, sendo que esta sim, é que deve demandar a maior parte dos esforços.

E não estou advogando em causa própria, já que eu já estou formado, pós graduado, trabalho numa grande empresa multinacional e consegui, apesar dos pesares, conquistar um certo nível de conforto.

Botecando #19 – Brennan’s Pub

Brennans 1Este legítimo pub Irlandes, aberto em 1972, era um dos lugares que eu mais frequentava enquanto estive em LA, muito pela proximidade de casa (uns 25 minutos andando), quanto pela qualidade do som que sempre rola lá.

Este e um pub “pub” mesmo: aquela “ilha” no centro do bar, com balcão de madeira, um jogo de dardos num canto, uma mesa de snooker no outro e um palco onde as bandas se apresentam.

Geralmente ia de sexta feira, já que como estava lá à trabalho (e trabalhava em horário dobrado, pois são 4 horas de diferença para o Brasil), ir às quintas era meio complicado. Porém é as quintas que ocorrem uma das grandes atrações da casa: a corrida de tartarugas (veja o vídeo que eu fiz aqui).

Brennans 3Quando falo sobre tartarugas correndo a galera acha que é piada, mas realmente ocorre. Em 2008 a casa ficava lotada às quintas por conta da corrida, inclusive com fila de espera, coisa inimaginável para um pub nos EUA. Acho que com a proibição das apostas que ocorriam (hoje em dia não se aposta, mas voce pode “alugar” uma tartaruga e, se ela vencer, voce leva um premio) e o checkpoint do DUI (Drug Under Influence de álcool ou drogas, o nosso famoso comando da lei seca), que fiquei sabendo que ocorre toda quinta feira, a menos de 50 metros do Brennan’s, o publico estava relativamente pequeno.

Mas nao deixa de ser uma diversão ver as pobres tartaruguinhas correndo feito loucas e imaginar o que faz com que elas se comportem deste jeito.

Brennans 2

O pátio onde ocorrem as corridas e também se pode fumar

Uma outra coisa legal do Brennan’s é que, por ter um pátio, é um dos poucos lugares nos EUA que dá pra fumar e beber ao mesmo tempo, já que fumar em locais fechados nos EUA é proibido, assim como beber em lugares públicos é crime (por isto em filme vemos as pessoas escondendo a bebida dentro de sacos, não que isto alivie), então, para sair para fumar, geralmente voce tem que deixar a cerveja dentro do local.

Para quem estiver por Los Angeles e for passar uma quinta feira por lá, este é um programa no mínimo interessante, além do pub em si que é bem legal e vale a pena a qualquer tempo. Só não tente ir no dia de São Patrício pois voce tera que chegar umas 3 da tarde para conseguir entrar (e se conseguir ficar de pé, a festa rola até umas 11 do dia seguinte!)

Onde: Brennan’s Pub (4089 Lincoln Blvd – Marina Del Rey – CA)
Quando: 24/04/2014
Bom: bandas e turtle racing
Ruim: people get too drunk, DUI check point
Site: http://www.brennanspub-la.com/

Wanderlust #1 – Phoenix – USA – Apr/2014

Uma opção no Arizona é pilotar uma Harley por suas belas estradas

Uma opção no Arizona é pilotar uma Harley por suas belas estradas

O primeiro post desta coluna era para ser sobre Berlin, mas estou trabalhando a tanto tempo no texto e está ficando tão longo (pensei até em quebrar em varias partes) que estou pensando em esperar minha proxima ida a Alemanha, que será em Junho, para escrever tudo de uma vez. Enquanto isto, vou falar sobre a minha mais recente viagem, aos EUA, mas irei dividir em 4 partes: uma para cada uma das três cidades que visitei e uma com dicas para quem viaja aos EUA e algumas observacoes ao longo desta estada (e de outras tantas que já tive por aqui).

Primeiramente, vamos falar de Phoenix, no Arizona, que já conhecia e fui novamente afim de visitar um casal de amigos. Mas antes de entrar nos detalhes da viagem em si, quero falar um pouco sobre os americanos.

BR x EUA
Eu sempre ouvi de todos que não conhecem os EUA, que o Americano é arrogante, frio e individualista. Bem, tem um pouco da doutrinação ideológica que recebemos na escola (“os imperialistas que acham que sao os donos do mundo”), mas também tem outros motivos.

O Brasileiro acha o Americano arrogante, o Inglês antipático, o Alemão muito fechado, os Japoneses muito sérios, mas nunca pára para fazer uma autoanálise e a verdade é que o brasileiro é chato. Esta chatisse é causada por muitos fatores, mas os principais são: a síndrome de cachorro vira latas (já falei disto neste artigo), a sua inconveniência e sua invasividade, e são poucas as culturas que toleram estas características.

Alem disto, o brasileiro acha que existe um “socialismo” nas relacões humanas: ele chega em uma roda de pessoas e acha que tem direito ao seu quinhão de atenção, de confiança, quando na verdade, atenção e confiança devem ser conquistados. Nao vou nem falar da mania de contato fisico que brasileiro tem e que é incomum na maioria das outras culturas.

Mas o Americano (assim como o Inglês, o Alemão, o Japonês, e todos os outros), em sua maioria são pessoas muito educadas, receptivas e, diferentemente do Brasileiro, são mais diretos e objetivos. Se ele não gosta de alguma atitude sua, ele vai falar na sua cara, sem rodeios, mas nao quer dizer que ele tem alguma coisa contra você. Ele só não gosta de perder tempo “dourando a pílula” ou “engolir sapo”. E mesmo que ele não goste de você, ele vai deixar isto claro, porém te tratar com respeito.

Alem disto, também falam que os norte americanos (incluindo ai os Canadenses) e os Europeus são individualistas e até egoístas. Não é bem assim. Eles primeiro cuidam de si para depois poderem ajudar os outros e não há nada de errado nisto. E só ver a quantidade de Americanos e Europeus que praticam voluntariado (anônimo!) comparado com os latino americanos que este estereótipo cai por terra.

Pessoas escrotas existem em qualquer cultura mais ou menos na mesma proporção, então nunca é bom generalizar ou estereotipar todo um povo.

Phoenix

Eu, Rebeca e Tony no show do Paul McCartney, em Phoenix, em 2010

Eu, Rebeca e Tony no show do Paul McCartney, em Phoenix, em 2010

Desde que minha amiga Rebeca e seu marido, Tony, se mudaram para Phoenix, este tem sido um destino obrigatório toda vez que vou aos EUA. Da mesma maneira que eles me “acolheram” em 2008, quando estive alguns meses a trabalho em LA (falarei mais sobre isto no post sobre Los Angeles), eles sempre me recebem com carinho e atenção e eu faço questão de passar alguns dias com estas companhias tão agradáveis.

A cidade de Phoenix, no Arizona, é relativamente nova (pouco mais de 100 anos) e um tanto diferente dos demais lugares nos EUA que eu conheço. A cidade é mais horizontal e são poucos edifícios, na sua maioria de empresas ou universidades e geralmente concentrados no centro da cidade.

É uma cidade bem planejada, com vias muito largas e bairros padronizados. Por ser uma cidade nova, não existem muitas atrações históricas (como em NY ou na Pennsylvania, por exemplo), porém conta com algumas poucas atrações intessantes. Uma delas, que eu havia visitado em 2010, é o Museu do Intrumento Musical, que é parada obrigatoria para quem estiver na cidade e que tem interesse e/ou paixão pelo tema e que reúne em sua coleção mais de mil (sim, mil!!!) instrumentos diferentes, das mais variadas partes do globo e de épocas passadas.

Phoenix 2

Sedona: a Campos do Jordão do Arizona

Em 2010 eu também visitei a cidade de Sedona, que fica a pouco mais de uma hora de distância de Phoenix e que costumo dizer que é a “Campos do Jordão” do Arizona: uma cidadezinha no alto das montanhas (lembrando que o Arizona fica no meio de um deserto), com casinhas típicas (neste caso, lembrando casas do velho oeste) e atrações voltadas à gastronomia e às artes.

Phoenix 4

Saguaro Lake

Desta vez tambem conheci o lago Saguaro, que na verdade é uma área inundada por uma represa, mas que forma um belo conjunto para a prática de esportes aquáticos ou mesmo para quem quer apenas aproveitar uma “praia”.

Fora isto, não existem muitos pontos turistícos que fariam alguem se deslocar do Brasil para conhecer este estado americano, porém, para quem estiver por la por algum motivo, vale a pena conhecer estas atrações. Também é possível ir até o Grand Canyon (fica no norte do estado, na divisa com Nevada), saltar de para quedas ou, como eu fiz tambem em 2010, dar umas voltas de Harley Davidson pelas ótimas estradas da região, que cruzam plantações de milho ou desertos.

Para quem curte uma jogatina, tambem existem varios cassinos.

Não é uma cidade, e mesmo um estado, que eu aconselharia alguém a ir conhecer nos EUA. Não porque seja ruim, mas pela falta de mais atrações e por existirem lugares mais interessantes lá para conhecer.

Big Data Marketing – Lisa Arthur (8/2014)

TERADATA CORPORATION

Nos dias de hoje, praticamente tudo o que fazemos deixa um “rastro digital”: corremos de manha usando o Endomondo para fazer o tracking dos nosso treinamentos, depois pagamos nosso café da manha com cartão de crédito (e ainda colocamos “CPF na nota”) e depois usamos o Waze para encontrar o melhor caminho até o trabalho. Basicamente todas as profissões atualmente usam algum tipo de dispositivo que coleta e/ou exibe dados. Usar Twitter, Facebook, Google e algum serviço de e-mail já é parte constante das nossas vidas.

Tudo isto gera um montante absurdo de dados que podem (e devem) ser utilizados pelas empresas para que estas possam criar e oferecer produtos e serviços mais específicos para seu mercado alvo, assim como pautar as estratégias de marketing das empresas.

Este livro trata justamente de todo este montante de dados disponíveis e as estratégias para transformar esta massa de dados em informação relevante, principalmente em como “desenrolar este novelo de dados” (o termo usado é “untangle the data hairball”).

O interessante é que este livro é direcionado aos profissionais de Marketing e foi escrito por uma profissional de marketing de uma empresa de tecnologia que é voltada justamente para o mercado de business analytics: Lisa Arthur, Chief Marketing Office da Teradata.

Ela foca as discussões em 5 itens principais e que devem ser a base para o desenvolvimento de um projeto / cultura de utilização de dados pelas áreas de marketing das empresas:

  1. Get Smart. Get Strategic – os responsáveis pelas áreas de marketing devem usar os dados de forma a desenhar a estratégia de marketing de suas empresas (ou linhas de produtos/serviços, conforme o caso).
  2. Tear Down the Silos – as informações geradas através destes dados devem estar concentradas num ponto único, pois se os dados estiverem em silos, será muito difícil a utilização deles, bem como definir a relevância destes para o negócio.
  3. Untangle the Data Hairball – este é o ponto principal do livro. Não adianta querer usar todos os dados disponíveis, pois isto irá pode fazer com que a empresa acabe perdendo muito tempo apenas em análise de informações. As áreas de Marketing devem identificar quais dados são realmente relevantes para o negócio para então poder utilizá-los.
  4. Make Metrics Your Mantra – os níveis estratégicos da empresa não podem perder tempo analisando relatórios detalhados ou navegando no raw data. Metricas devem ser definidas para que então os dados sejam utilizados para prover estas métricas.
  5. Process Is The New Black – segundo ela, apesar dos profissionais de marketing não serem muito fãs de processos, afim de que a empresa não se perca no emaranhado de dados e informações que são geradas e colhidas, processos devem ser definidos e seguidos à risca.

Outro ponto importante tratado no livro, já focando na implementação das estratégias, diz respeito ao relacionamento entre as áreas de Marketing e IT e de como elas devem trabalhar juntas, quando não eventualmente se tornarem uma só. Nesta parte ela entra um pouco no detalhe da estratégia, dando exemplos de vários tipos possíveis, mas faz uma ressalva muito importante: você pode fazer outsource de IT, porém nunca deve fazer outsourcing da estratégia de IT para Big Data.

É um livro bem interessante, tanto para o pessoal de marketing que está sendo bombardeado com o termo “big data”, quanto para os profissionais de IT, que já tem mais conhecimento dos termos técnicos ligados à big data entenderem o “outro lado”, o do pessoal de Marketing.