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Wanderlust #26 – João Pessoa, Paraíba, Brasil

01 Joao Pessoa - Paraiba - BrasilNão conheço uma pessoa que tenha ido à João Pessoa e não tenha se apaixonado pela cidade. Ela não tem praias espetaculares como Alagoas ou Rio Grande do Norte, nem uma vida noturna agitada como Recife ou Salvador e nem tantos locais históricos como todos estes lugares (e outros do nordeste). Porém, se fôssemos dar nota para vários quesitos (segurança, limpeza, beleza, hospitalidade, simpatia das pessoas, etc) provavelmente a média de João Pessoa (e da Paraíba) seria a maior do nordeste e uma das maiores do Brasil.

Farol do Cabo Branco

Farol do Cabo Branco

Diferente da maioria das capitais do nordeste, Jampa (como é carinhosamente chamada) nasceu longe da costa, às margens do rio Sanhauá, e por isto o processo de urbanização de suas praias foi menos agressivo e contou com um pouco mais de planejamento. Os edifícios próximos à costa têm seu tamanho limitado para preservar a paisagem e evitar sombras.

Por estar localizada na Ponta do Seixas, o ponto mais oriental das Américas, a cidade é conhecida como “Porta do Sol”, pois é onde o sol nasce primeiro no continente americano.

No primeiro dos dois dias na cidade, resolvi andar um pouco pelas praias próximas de onde eu estava hospedado (Cabo Branco). Andei toda a orla da praia de Cabo Branco até a Ponta do Seixas, onde se encontram o farol de Cabo Branco e a Estação Cabo Branco, um museu de ciências que tem projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer (um dos poucos projetos dele que eu particularmente achei legal). Como o passeio foi agradável, ao invés de tomar um ônibus preferi voltar caminhando, refazendo todo o caminho da ida e esticando até Tambaú.

Acho que neste dia passei dos 20kms andados. Então resolvi voltar para a pousada pra descansar um pouco, já que havia combinado de ir tomar uma cerveja à noite com o Waltão, amigo da época da faculdade, radicado na Paraíba há 8 anos e que nem pensa em voltar para São Paulo.

Estação Cabo Branco

Estação Cabo Branco

Na orla de Cabo Branco, que é bem movimentada à noite, mesmo durante a semana, existem várias opções para beber e comer, tanto em quiosques “pé na areia” quanto em bares e restaurantes do outro lado da avenida da praia.

No outro dia fui conhecer o Centro Histórico de João Pessoa, que apesar de não contar com tanta história como os de São Luis e Salvador, por exemplo, tem alguns edifícios interessantes e principalmente conta uma conservação bem acima do padrão brasileiro.

Além de ficar com vontade de voltar logo para passear, já que acabei não conhecendo boa parte das praias e nem fui à Campina Grande, João Pessoa me despertou inclusive idéias de morar lá algum dia e acabou entrando na minha lista de cidades em que eu gostaria de morar, assim como Aracaju, a última “perna” desta trip e da qual falo no próximo Wanderlust.

Observações, dicas e considerações:

  • A limpeza e conservação das praias (Cabo Branco e Tambaú) é acima da média brasileira, inclusive das de Santa Catarina.
  • A população ajuda muito não sujando e mantendo os equipamentos conservados (dificilmente se vê lixo nas ruas).
  • Além de tudo isto, os preços em Jampa são muito baratos (ou seriam justos?). Cheguei a pagar R$ 4,50 por uma Skol de 600ml e vi porção de camarão alho e óleo de 1 kilo por R$ 35,00.
  • Uma pena somente os kioskes não terem Heineken, já que são todos patrocinados (e padronizados) pela Skol.
  • Nas minhas últimas viagens eu desenvolvi um método de “medir” a segurança do local (além das conversas com taxistas): é só reparar na rua como a população local utiliza o celular. Se a pessoa pára, se esconde num canto e fica atento ao redor quando fala ou tecla no celular, pode apostar que é uma cidade perigosa. Se a pessoa fala no celular andando e distraido, sem se preocupar com o que acontece à sua volta, provavelmente aquele é um local seguro. João Pessoa foi a cidade que eu conheci no Brasil onde as pessoas se sentiam mais à vontade para usar o celular (e correntinhas no pescoço também).
  • Inclusive no Centro Histórico, que normalmente é um ponto sensível nas cidades devido à grande quantidade de pessoas, era comum ver pessoas falando ao celular tranquilamente.
  • O lugar para ficar hospedado em João Pessoa é a Suisse Residence. Apesar de não estar tão perto da praia (dá uns 15 minutos andando), a pousada é bonita, aconchegante e os quartos são espaçosos e confortáveis. Seu Hans e dona Inês, os proprietários, são simpatia pura!

Be happy! 🙂

Tambaú

Tambaú

Com 30 reais por pessoa dá pra sair balão do quiosque...hahaha

Com 30 reais por pessoa dá pra sair balão do quiosque…hahaha

06 Palacio do Bispo - Centro Historico

Palácio do Bispo – Centro Histórico

Igreja de São Francisco - Centro Histórico

Igreja de São Francisco – Centro Histórico

Catedral da Basílica Nossa Senhora das Neves - Centro Histórico

Catedral da Basílica Nossa Senhora das Neves – Centro Histórico

Um velho piano atrás das grades no centro de Jampa! Que crime teria ele cometido?

Um velho piano atrás das grades no centro de Jampa! Que crime teria ele cometido?

Parque Solon de Lucena

Parque Solon de Lucena

Suisse Residence

Suisse Residence

Wanderlust #25 – São Luís (e região), Maranhão, Brasil

01 Sao LuisDepois de Belém, lá fui eu conhecer a “Jamaica Brasileira”, que já tinha vontade de conhecer desde as épocas em que ouvia muita Tribo de Jah e frequentava o Radiola São Luís, na Vila Madalena. A cidade me surpreendeu, um bom e outro ruim: a cidade é bem urbanizada, com bastante prédios, opções de shoppings, lojas e restaurantes e com avenidas largas, o que facilita a movimentação. Por outro lado, acho que dos lugares para os quais eu viajei é um nos quais eu senti maior sensação de insegurança. Mais do que no RJ ou SP, por exemplo.

Praia do Calhau

Praia do Calhau

Depois de fazer o check in no hostel e tomar uma ducha dei uma checada nos mapas que haviam na recepção e resolvi pedir umas dicas para o atendente do Hostel, que era Ucraniano, sobre que fazer. O cara era meio atrapalhado, mas me alertou que não fosse até o centro e nem pegasse a parte de trás do hostel, pois era perigoso. Eu não entendi direito (ou ele não se explicou direito) e resolvir ir então até a praia do Calhau andando. Infelizmente logo de cara eu errei o caminho e cai onde ele tentou me alertar sobre o perigo. Quando resolvi voltar creio que só não fui assaltado pois um vigilante de prédio saiu na hora.

Fui até a praia do Calhau, que é uma das mais “elitizadas” do município de São Luis, sendo inclusive o bairro onde a família real (os Sarneys) mora. A praia não é tão bonita como as de Natal ou Maceió, mas tem suas qualidades. Porém também tem seu pior defeito: é imprópria para banho, assim como qualquer praia de São Luís. E nem precisava de placa para avisar já que, diferentemente de outras cidades, não existe nem emissários submarinos para jogar o esgoto no mar a uma distância da praia. Lá o esgoto cai na praia mesmo! Realmente uma pena.

Janelas e azulejos típicos dos casarões do centro histórico

Janelas e azulejos típicos dos casarões do centro histórico

Resolvi procurar um quiosque para assistir a final da Champions. E dei sorte pois acabei conhecendo um casal neste quiosque que me aconselhou a ir até às Fronhas Maranhenses (falo delas já já), já que não teria tempo de ir até os Lençois, o que se mostrou uma ótima dica.

Uma das poucas coisas que eu havia programado de fazer em São Luís, além de conhecer o centro histórico, era ir a uma radiola, que é um local onde se toca reggae. Hoje em dia estes locais já nem são mais conhecidos por este nome e os principais locais para curtir reggae são conhecidos apenas pelo próprio nome, como o Bar do Nelson, que fica na praia do Caolho (ao lado da praia do Calhau) e é o local que “pega” aos sábados.

O Bar do Nelson é tipo um galpão, com alguns bares onde se vende as bebidas (comidas só nas barraquinhas do lado de fora), um palco onde o DJ se acomoda para rolar o som e, atrás deste palco, uma “parede” de caixas de som. Nem mesas existem e o pessoal usa algumas de cervejas para apoiar copos e garrafas (e ai já vão colocando as garrafas vazias dentro da caixa). Uma coisa que eu gosto muito e que somente em SP não existe é o sistema de pagar a entrada e comprar fichas, ao invés de comandas. Evita filas tanto na entrada quanto na saída e permite a livre circulação entre as áreas externas e interna (lá eles batiam um carimbo que ficava visível à luz negra). É muito mais inteligente e prático para os clientes.

Apoia as cervejas e copos na caixa e já vai preenchendo ela com as garrafas vazias

Apoia as cervejas e copos na caixa e já vai preenchendo ela com as garrafas vazias

Além da característica dos maranhenses de os casais dançarem o reggae juntos (o tal “agarradinho”), do mesmo jeito que se dança forró, pude comprovar o ditado que diz que “em São Luís reggae não se dança/ouve, se vive!”. Eram pessoas de todas as idades, com pulseiras, camisas, brincos, etc fazendo alusão aos símbolos (as cores da Jamaica, a bandeira, a folha da maconha, etc) ou a artistas do reggae.

Até que peguei leve na balada, que estava bem agradável, pois queria ir no centro histórico no dia seguinte, o que eu fiz, mesmo sendo aconselhado ao contrário pelo dono do hostel (brasileiro) pois “estaria muito vazio e portanto perigoso”. Peguei um busão até o centro e cheguei lá por volta de 12:00hrs, mas estava com muita fome e resolvi parar para almoçar (e já experimentar o icônico “Guaraná Jesus”), só que tudo no centro fechava as 13:00 e realmente tudo fica deserto após este horário aos finais de semana, o que torna um local perigo (quase que pela segunda vez eu sou assaltado).

O centro é formado por vários casarões antigos de 2 e 3 andares, com enormes e belas janelas e magníficos azulejos portugueses na fachada. Além disto, existem outras edificações, como palácios de governo e igrejas, que foram recentemente reformados e complementam o ar bucólico da região. Mas a maioria dos casarões e algumas ruas estão merecendo uma restauração.

Em São Luís reggae se dança "agarradinho"

Em São Luís reggae se dança “agarradinho”

Depois do centro fui até a Ponta da Areia onde rola um outro reggae muito famoso, o Chama Maré, que acontece aos domingos as 17:00 e por ficar à beira da praia é quase sempre banhado pela bela luz do por do sol. Também é muito legal e agradável. Só é uma encheção de saco os seguranças (do lado de dentro) ou os PMs (do lado de fora) fazendo ronda para evitar que as pessoas fumem maconha. O Brasil tem que liberar logo esta porcaria pois o combate é mais prejudicial (tanto em termos de segurança, quanto financeiramente) do que a liberação. E também porque cada um que faça o que bem entender da puta da sua vida!

Voltei para o hostel, pois tinha fechado o passeio para as fronhas, seguindo recomendação do casal que havia conhecido no sábado e do Laércio, dono do hostel, que me indicou uma agência para fazer o passeio.

As Fronhas Maranhenses são um conjunto de dunas, assim como os Lençois Maranhenses, ou Genipabu no Rio Grande do Norte,  e que fica localizado no município de Raposa, a cerca de 45 minutos de carro (por uma estrada péssima) do centro de São Luís. Têm este nome porque as dunas são menores do que a dos lençois e porque elas ficam bem antes. Por sorte a praia de Carimã, onde ficam as fronhas, é inacessível de carro e habitada apenas por alguns pescadores, o que deixa a natureza praticamente intocada. E por sorte existem pessoas como o Zequinha, o guia do barco que levou o grupo até lá: ele vai diariamente ao local, mesmo que não tenha passeios para fazer, com um saco para recolher o lixo deixado pelos visitantes (às segundas principalmente, pois alguns habitantes de Raposa vão até a praia para curtir o fim de semana). Acabei gostando mais de Carimã/Fronhas Maranhenses do que de Genipabu. Mesmo daquela Genipabu que conheci em 1995! Depois do passeio fomos almoçar e seguimos para São José de Ribamar, a terceira cidade que, junto com Raposa e São Luis, compõe a região metropolitana de São Luis (as 3 cidades ficam na Ilha).

Chama Maré: reggae com vista do por do sol.

Chama Maré: reggae com vista do por do sol.

São José de Ribamar não tem nada de muito interessante para quem não é um religioso fervoroso já que, mesmo sua igreja não tem nada de destaque. Talvez o destaque se dê pelo fato de “inserirem” São José, que sumiu da vida de Jesus na Bíblia, nas estátuas que representam o calvário. Afinal de contas, não ia ser nada legal retratarem a festa e deixarem o anfitrião de fora…hahaha

Como disse, de certa forma me surpreendi positivamente com a cidade e a viagem, mas ao contrário de João Pessoa (do qual falarei no próximo Wanderlust), não tenho vontade de voltar, mesmo não tendo conseguido ir à Alcantara. Sei lá, acho que o stress da insegurança não vale o local.

Observações, dicas e considerações:

  • Nota-se que existem grandes diferenças sociais na cidade (e no Estado) por conta dos prédios luxuosos que existem ou estão sendo contruídos à beira mar e as casas simples dos demais bairros. Sério, são prédios com apartamentos de 200 metros quadrados que, segundo os taxistas, são comercializados na faixa dos milhões de reais.
  • Parece que também existe um processo de gentrificação acontecendo, especialmente na Ponta da Areia. Segundo os taxistas as pessoas que antes moravam em casas simples e sem saneamento básico foram removidos para conjuntos habitacionais “nos fundos” da cidade, as áreas adquiridas por políticos e parentes destes e em seguida “surge” um plano de urbanização (contrução de ruas ou asfaltamento das existentes, saneamento, etc) e as áreas são vendidas para construtoras (também pertencentes à políticos e parentes destes) que erguem estes prédios de luxo.
  • Pelo que me falaram existe uma pequena rixa entre os Maranhenses e os Piauienses. O Piauienses chamam os Maranhenses de “papa arroz” devido ao enorme consumo deste grão no estado.
  • E realmente, metade do peso / volume de qualquer PF é arroz!
  • A variação da maré na Ilha, mas principalmente nos braços de mar que a circundam é enorme. Segundo os locais, a distância entre o ponto de maré alta com o de maré baixa chega a 200 metros e variação de profundidade chega a 8 metros
  • Os DJs dos bares de reggae parecem pastores protestantes. Entre as músicas soltam frases do tipo: “aqui é um lugar de paz”, “Deus deu este sol”, “Jah nos abençoe”, etc. Pense nas frases com a entonação do Canalhafaia!
  • Não ouvi NENHUM Bob Marley sequer (e muito pouca coisa nacional). Os caras devem ir lá na Jamaica buscar o que tem para tocar.
  • São José do Ribamar e Raposa sofrem de um problema que outros lugares do Norte e Nordeste sofrem: as pessoas têm adquirido motocicletas como meio de transporte e abandonando os pobres jegues à sua sorte. Além de falta de consideração com o pobre do animal, é também um risco para a saúde pública e para a segurança no trânsito.

Be happy! 🙂

04 Sao Luis

Palácio de Governo no Centro Histórico

05 Sao Luis

Catedral no Centro Histórico

06 Sao Luis

O tradicional Guaraná Jesus: cor de rosa, cheiro de chiclete e gosto daqueles sucos que vendiam nas feiras em embalagens em forma de revolver, jacaré, fusca, etc

07 Sao Luis

Casarões históricos no Centro

08 Sao Luis

Ponta da Areia, que aparentemente sofre um processo de gentrificação

09 Sao Luis

Chama Maré

10 Sao Luis

Ponta da Areia

14 Sao Luis

Carimã

15 Sao Luis

Fronhas Maranheses

16 Sao Luis

Fronhas Maranheses: natureza intocada!

Wanderlust #24 – Belém, Pará, Brasil

01 Belém - Brasil - Ver-o-pesoPara a segunda parte das minhas férias deste ano já havia decidido conhecer um pouco mais do Brasil e também havia resolvido conhecer locais que não vêm logo à cabeça quando se pensa em viajar pelo nosso imenso país. E a primeira parada desta trip foi Belém, a capital do Pará. Vale dizer que assim como Salvador, a cidade me despertou sentimentos dúbios.

Eu achei legal conhecer um lugar dentro do meu próprio país que é muito diferente de tudo o que eu já conhecia. Mas por outro lado, fiquei um pouco triste ao ver como muitos lugares do nosso país são mal cuidados e principalmente como o potencial (turístico, por exemplo) e os recursos (naturais, humanos, etc) são mal explorados.

Praça Batista Campos

Praça Batista Campos

Cheguei na cidade já tarde da noite e fui dormir cedo para aproveitar o outro dia, que era feriado de Corpus Christi. Sai caminhando pela cidade afim de conhecer um pouco. Passei pela Praça da República, que apesar de ser o local onde fica o Teatro da Paz, não apresenta muitos atrativos turísticos. Resolvi andar até Praça Batista Campos, esta sim uma bela praça, e cruzei com uma sorveteria Cairu. Aproveitei então para experimentar um dos vários sorvetes feitos com frutas da região. A Cairu é parada obrigatória em Belém. Sugiro parar mais de uma vez, tanto para aplacar o calor da cidade, quanto para ter a oportunidade de experimentar mais dos diferentes sabores oferecidos.

Depois caminhei por uma região não muito turística até o Portal da Amazônia, que é um calçadão construído em uma das margens do Rio Guamá. Este calçadão conta com infraestrutura para prática esportiva (bike, patins, caminhada, etc) e algumas praças. Depois segui até o Mangal das Garças que, junto com a Estação das Docas, é a principal atração da cidade.

Mangal das Garças

Mangal das Garças vista da torre

O parque é muito bem cuidado e montado e lá pode-se ter contato com um pouco da fauna e da flora da região. A entrada no parque é gratuita, mas algumas atrações são cobradas. Vale comprar o “passaporte” (R$ 15,00) que dá acesso às 4 atrações pagas do parque: a torre, o museu náutico, o viveiro de pássaros e o santuário de borboletas.

Após o Mangal, dei uma passada na Casa das Onze Janelas, mas preferi não entrar, e na sequência fui ao Forte do Castelo, que não tem lá muita coisa. Mas estando em Belém não custa perder uns 10 minutos e visitar, já que é de graça. Depois passei em frente à Catedral Metropolitana para tirar algumas fotos da bela praça em frente (não sou fã de ficar entrando em igrejas).

Catedral Metropolitana

Catedral Metropolitana

Dei uma rápida passada no ver-o-peso (tinha me programado para explorar o local apenas no outro dia) e fui até a Estação das Docas, onde resolvi almoçar em um dos restaurantes que ofereciam buffet com opções da região. Dos pratos que eu experimentei, achei interessante o tal do “filhote”, uma posta de um peixe da região (e olha que não sou chegado em peixe) feito com tucupi. Mas achei muito bom mesmo a maniçoba! Durante o almoço, um cara do outro lado do restaurante acenou e veio em minha direção. Quando ele chegou perto, pediu desculpas e disse que tinha me confundido com outra pessoa, no caso Felix Robatto, um artista local.

Como sobremesa, outro sorvete na unidade da Cairu da Estação das Docas. Como já tinha feito a programação do dia, fiquei morgando por ali até a abertura da Amazon Beer, que além de oferecer ótimas cervejas (a preços mais do que justos!), proporciona um belo visual do por do sol. Aproveitei para procurar algo para fazer à noite e acabei caindo no site do Templários Pub, que teria como atração naquela quinta-feira justamente o tal do Félix Robatto.

Chuva de 20 minutos com tanta água que daria para encher a Cantareira

E dá-lhe chuva!

Como não podia faltar, quando estava saindo da Estação das Docas caiu aquela baita tempestade que cessou depois de 20 minutos mas trouxe água suficiente para encher a Cantareira.

À noite fui ao tal pub para conhecer um pouco da noite Paraense. Achei interessante a mistura de ritmos dos estilos locais (tecno brega, guitarrada, carimbó). Creio que pelo fato do Pará estar bem próximo à linha do Equador, além das influências da música afro brasileira (axé, samba), os estilos locais também têm muita influência das músicas afro caribenhas, especialmente do mambo, da salsa e do reggae.

No outro dia, como já tinha me programado, fui conhecer o ver-o-peso. É interessante pelos cheiros e cores das diferentes frutas da região, e para observar alguns costumes dos locais, como por exemplo, de comer açaí com farinha como acompanhamento de peixe. Mas acabei achando que os relatos que eu havia lido e ouvido sobre o local eram sempre superestimados. Talvez para pessoas que sejam fascinadas por culinária seja uma atração mais interessante.

Ver-o-peso

Ver-o-peso

Como já tinha feito tudo o que eu tinha programado, fui andar por lugares não tão turísticos e acabei caindo na Belém da elite, que fica fora da cidade velha é formada por vários prédios de luxos e um grande shopping. Particularmente eu não gosto muito de cidades onde existe este tipo de segregação entre elite e o resto.

Depois voltei novamente para mais um happy hour na Amazon Beer, mas de leve, pois tive que pegar meu vôo na madrugada para o próximo destino, São Luís, no Maranhão, do qual falarei no próximo Wanderlust.

Observações, dicas e considerações:

  • Os motoristas em Belém são xaropes. Raramente respeitam farol, faixa de pedestre, mão de direção. E à noite ainda andam à 100 km/h.
  • Tem um negócio que me incomoda muito e acontece na maioria das cidades brasileiras, que é abandonarem uma área quando ela dá uma deteriorada, ao invés de tentarem recuperar. Isto acontece com a região do ver-o-peso. Apesar da criação da Estação das Docas numa tentativa de revitalizar a região portuária, o entorno está abandonado, o que abre espaço para a criminalidade. Quando a sociedade e o poder público não ocupam devidamente os espaços públicos, invariavelmente a criminalidade vai ocupar.
  • A variedade que se encontra na culinária local falta ao artesanato. Mesmo nas tendinhas do ver-o-peso foi difícil encontrar alguma coisa realmente “local” para trazer de souvenir.

Be happy! 🙂

Estação das Docas

Estação das Docas

Amazon Beer

Amazon Beer

Wanderlust #23 – Cidade do Panamá, Panamá (Ah! Vá!)

Panamá 001Por ter voado bastante de Copa Airlines, cujo hub fica na cidade do Panamá, eu já tenho umas boas horas de estada esperando conexão na cidade, mas nunca tinha pensado em conhecê-la. Resolvi aproveitar a viagem para Cuba e mais uma conexão no país centroamericano para pelo menos passar dois dias na cidade.

Confesso que a primeira impressão que tive não foi boa: a cidade era uma mini Miami (e eu não gostei de Miami), sem a organização norte americana, substituida pela bagunça latino americana. Mas bastou meio dia na cidade para eu mudar meu ponto de vista a ponto de considerar este pequeno, mas aconchegante país, uma ótima opção para viver. Mas antes de contar um pouco do que eu fiz por lá, vou falar um pouco da história.

Panamá 002A História
O istmo do Panamá foi uma das primeiras terras americanas descobertas e exploradas pelos espanhóis. Também foi através do Panamá que a Espanha conseguiu alcançar pela primeira vez o Oceano Pacífico. Além de explorarem o ouro no país, todo o resultado da exploração da parte oeste do continente sulamericano também passava pelo Panamá, já que a parte leste pertencia à Portugal. Talvez venha já daí a expressão “hub das Américas”, título pelo qual o aeroporto de Tocumén, na Cidade do Panamá, é conhecido.

No início do século XIX os movimentos de independência que ecoavam por todo o continente americano chegaram ao país e em 1821 a independência foi proclamada. Alguns meses mais tarde o Panamá integrou-se à Grande Colômbia de Simón Bolivar, se juntando à Venezula, Colômbia e Equador. Em 1840 houve uma independência de apenas 13 meses e em seguida o país foi incorporado à Colômbia.

Panamá 003Em 1846 o governo Colombiano costurou um acordo com os Estados Unidos para a construção da ferrovia interoceânica, que foi inaugurada em 1855, se tornando uma das maiores fontes de divisas do governo colombiano (e até hoje, junto com o Canal, do governo panamenho).  Os colombianos cresceram os olhos e iniciaram diversas e intermináveis frentes de negociação para a construção de um canal ligando os oceanos Atlântico e Pacífico. Após décadas de negociação, uma empresa francesa dirigida por Ferdinand de Lesseps, responsável pela construção do Canal de Suez, conseguiu autorização do governo colombiano para o início da construção.

Panamá 005

Casco Antíguo

Os franceses foram meio arrogantes (Ah! Vá!2) pelo fato de terem feito o Canal de Suez e resolveram aplicar basicamente o mesmo projeto para o Canal do Panamá sem terem feito muitos estudos sobre os terrenos, o clima e o relevo e após quase dez anos de chuvas torrenciais, enchentes, desmoronamentos e muitos operários mortos (cerca de 20 mil por causa de malária e febre amarela) a empresa veio a falir.

O presidente americano Roosevelt estava convencido de que os americanos seriam capazes de terminar a construção e também estava muito interessado no controle do canal por motivos militares, políticos e econômicos. Em 1903 EUA e Colômbia assinaram um tratado, porém o senado colombiano não ratificou o acordo. Como já havia um movimento pela independência do Panamá, os americanos deram a entender que, se os panamenhos declarassem a independência, os EUA garantiriam apoio militar caso a Colômbia resolvesse contra atacar. Em 3 de Novembro de 1903, os panamenhos declararam sua independência, garantidos por um “exercício naval da marinha americana” na região e os colombianos “deixaram pra lá, nem queria mesmo”. Quize dias após, o tratado que havia sido costurado com os Colombianos é assinado com os americanos e a construção do canal é reiniciada.

Ventiladores na parte externa de um bar. Depois eu entendi porque.

Ventiladores na parte externa de um bar. Depois eu entendi porque.

Não vou me alongar na história do canal pois o intuito é falar sobre o país e a wikipedia tem um artigo bem completo em português sobre esta história. Mas vale frisar que o acordo previa um pagamento de 10 milhões de dólares iniciais e de 250 mil dólares anuais à partir do término da construção, que duraria dez anos, a título de royalties, para o Panamá. Um outro ponto importante também é que, com a desculpa de proteger os investimentos dos EUA, criou-se uma área ao redor da eclusa de Miraflores, na cidade do Panamá, que era na prática um território americano dentro do país (o acesso aos panamenhos à esta grande parte da cidade era bloqueado) e que influenciou muito a cidade e o país inteiro.

Os panamenhos viram durante anos o Canal render vultuosas divisas que ficavam com os americanos, o que gerou ao longo deste tempo vários incidentes e uma instabilidade política enorme no país. Mas em 1977, finalmente foi assinado um acordo com o então presidente dos EUA, Jimmy Carter, para uma cessão gradual dos direitos sobre o Canal ao Panamá, cessão esta que foi concluída em 2000.

Desde então, com a entrada destas divisas e com a instalação de várias empresas no país, os panamenhos têm experimentado um salto em qualidade de vida.

Um dos famosos arranha céus do centro da cidade.

Um dos famosos arranha céus do centro da cidade.

O que fazer
Estando na cidade do Panamá é imprescindível ir conhecer a eclusa de Miraflores. Eu fiz este passeio através de uma agência, e também incluia um City Tour, fazia uma parada em um centro de artesanato ótimo para comprar lembranças e terminava em um grande mall. Acho que comprar o pacote através da agência é a melhor escolha a se fazer, só é interessante ir em um dia de final de semana para não perder valiosos minutos parado no trânsito infernal da cidade (eu fiz em um domingo).

Depois do City Tour, seguindo recomendação do guia (que falava português!), fomos até Casco Antiguo (ou Casco Viejo), um pedaço da cidade onde foi realizada a primeira reconstrução, no final do século 17, já que a cidade original (Panamá Vieja) havia sido destruida por saques de piratas e por incêndios. O belo e charmoso bairro conta com bastante edifícios históricos que vêm sendo restaurados e com boa variedade de restaurantes, bares e lojas de artesanato. Destaque para a Cerveceria La Rana Dorada, uma cervejaria artesanal panamenha que além de suas ótimas cervejas, também tem um cardápio interessante, tudo a preços justos.

Na segunda feira resolvemos alugar uma bike e pedalar os 5kms da Amador Causeway, uma via construida pelos americanos para isolar a entrada do Canal e para interligar o continente a três belas ilhas (Naos, Perico e Flamenco), porém os locais que alugam bicicletas estavam fechadas e resolvemos caminhar pela via mesmo assim. A caminhada valeu a pena e aproveitamos para almoçar na ilha Flamenco.

Amador Causeway: lembra os keys da Flórida

Amador Causeway: lembra os keys da Flórida

Depois de descansar um pouco, fomos até a Calle Uruguay, que conta com algumas opções de bares, pubs e restaurantes. Infelizmente tinhamos que voltar no outro dia e não pudemos conhecer Panamá Vieja, que pelo que eu soube são as ruínas da primeira cidade do Panamá, mas fiquei com vontade de conhecer mais o país, especialmente algumas praias e ilhas que ficam um pouco distantes da capital e parecem ser bem interessantes.

Como disse no início, de cara eu não gostei da cidade, mas aos poucos comecei a entender que a cidade é uma uma mistura de várias cidades do continente americano, de Miami (arquitetura, lojas) a São Paulo (correria, trânsito) e que o país ofere um conforto e qualidade de vida do nível do norte americano, mas sem deixar de ser calorosa como os latinos. Me fez até pensar que é uma boa opção para viver. Desde que arrumasse um trabalho onde não tivesse que usar gravata, que deve ser uma tortura com o calor do país.

É tanto trânsito e tanto carro que não dá nem pra saber o que é estacionamento e o que é rua

É tanto trânsito e tanto carro que não dá nem pra saber o que é estacionamento e o que é rua

Observações, dicas e considerações:

  • Achei estranho quando cheguei ao La Rana Dorada ver ventiladores na parte externa do bar. Eu já vi aquecedores, mas ventiladores nunca. No final da tarde e início da noite deu para perceber porque: mesmo sentado e tomando cerveja gelada, o calor era de fazer suar mais que tampa de cuscuz e os ventiladores davam uma aliviada.
  • No Panamá, por conta de sua posição geográfica, existem apenas duas estações no ano: a seca e a chuvosa. Mas ambas são quentes, muito quentes.
  • A dica para os táxis de Cuba também funciona para o Panamá: negocie antes de entrar, pechiche e tome o táxi fora do hotel. O Panamá não chega a ser tão seguro quanto Cuba, mas é bem mais seguro que o Brasil e tomar táxi nas ruas não é problema.
  • Os preços de bens (carros, roupas, perfumes e mesmo alimentação e bebidas) no Panamá é muito próximo dos preços praticados nos EUA. Mas atenção: não adianta comparar preços em outlet dos EUA com preços nos shoppings do Panamá. No Panamá é preço de shopping dos EUA, não preço de outlet. Ou seja, para compras é melhor ir até Miami mesmo.
  • Infelizmente a parte da cultura americana de obedecer regras não pegou no país e os motoristas desrespeitam totalmente as leis de trânsito. Precisa ter muito cuidado ao atravessar um farol de pedestres, por exemplo, mesmo que ele esteja aberto.
  • O trânsito na cidade do Panamá é infernal. Comparado aos piores dias em São Paulo. É transito o dia todo e com as ruas e avenidas praticamente paradas das 16:00 às 20:00 horas.
  • Dizem que existem mais carros na cidade do Panamá do que existem pessoas.
  • Apesar do trânsito, os ônibus passava vazios pelas faixas exclusivas enquanto os carros ficavam literalmente estacionados nas demais faixas. Mais um sinal da influência americana no país: todo mundo prefere andar de carro, mesmo que isto signifique mais tempo no trânsito.
  • Diablo rojo (preste atenção na foto do parabrisas)

    Diablo rojo (preste atenção na foto do parabrisas)

    Muitos ônibus escolares (naquele padrão dos americanos) foram transformados em transporte coletivo “extraoficial”, conhecidos como diablos rojos. O mais interessante é que eles são todos grafitados e/ou adesivados de acordo com a vontade do dono. O governo panamenho está aos poucos aposentando estes ônibus, substituindo-os por linhas oficiais. Mas tomara que mantenham alguns como atração turística.

  • Apesar da moeda oficial ser o Balboa, ela só existe na forma de moedas (de 1 balboa para baixo) e como o governo consegue manter uma paridade de 1 para 1 com o dólar, na prática a moeda americana é a oficial no país.
  • Por conta dos baixos impostos o país é considerado uma espécie de paraíso fiscal e muitas empresas têm instalado suas sedes para fugir de altas taxas de impostos nos seus países de origem (e também aproveitar a logística).
  • Este boom de empresas se instalando fez com que a pouca mão de obra qualificada desaparecesse do mercado, recebendo salários bem altos. Então fica a dica para quem tem interesse em mudar de país e conta com qualificação profissional.

Be happy! 🙂

Panamá 011

Wanderlust #22 – Cuba: observações, dicas e curiosidades

297 Museo de la Revolución - La Habana Vieja - Havana - CubaComo tinham muitas coisa interessante para mencionar sobre Cuba, eu coloquei em cada um dos artigos (aqui, aqui, aqui e aqui) curiosidades, dicas e observações específicas relacionadas à cada um dele e a exemplo do que eu fiz para os EUA, estou fazendo um artigo somente com coisas gerais sobre o país. Vou colocar os tópicos na ordem em que fui anotando sem ordená-los ou classificá-los. Então segue:

  • Existem apenas 4 canais de TV e menos de 50 estações de rádio, todas estatais, em Cuba. Uma das melhores rádios é a Rádio Enciclopédia, que tem uma programação musical e cultural variada. Ouvi um programa de meia hora só de chorinho. O engraçado é que eles chamam o cavaquinho de “violino” (faz sentido: um violão pequeno).
  • Mas o melhor nome de rádio é a Rádio Reloj (como ninguém teve esta idéia antes?).
  • Os brasileiros são bastante estimados em Cuba, muito por causa das novelas brasileiras. Apesar disto e apesar dos esforços brasileiros em ajudar Cuba (investimentos em portos e aeroportos, aquisição de serviços médicos), os países considerados como “parceiros” são o Canadá e o México (os unicos países das Américas que não aderiram ao bloqueio) e a Venezuela (que contribui com petróleo).
  • A fama da novela brasileira até se inseriu na cultura local: em 1995 o governo autorizou que famílias servissem refeições para turistas em suas casas (geralmente tem uma ou duas mesas, no quintal ou em um dos cômodos das casas). Nesta época a novela Vale Tudo era transmitida na ilha e a personagem de Regina Duarte (Rachel Accioli) tinha um pequeno restaurante chamado “Paladar”. Paladar então se tornou sinônimo de “pequeno restaurante familiar” em Cuba.
  • O Neymar é idolatrado em Cuba e na América Latina em geral. A maioria das camisas da seleção e do Barcelona que eu vi e que eram vestidas por latino americanos tinham o nome do Neymar. Acho que a garotada daqui se identifica muito mais com ele, por ser uma pessoa que tem uma origem humilde (o que não é verdade), e por ser negro (mesmo ele dizendo que “nunca sofreu racismo porque não é preto”, antes de criticá-lo, por favor, leia meu artigo O Racismo e o efeito pigmaleão), ao invés de se identificarem com os “imperialistas” Cristiano Ronaldo e Messi, por exemplo (eu sei que o Messi é argentino de nascimento, mas ele viveu praticamente a vida toda na Espanha).
  • Se você acha o pessoal do nordeste lento, então prepare-se muito bem para encarar Cuba. Os cubanos fazem tudo num ritmo lentíssimo. Pensando bem, creio que é o paulistano que é acelerado demais.
  • Existe um sentido de coletividade enorme nos locais de trabalho. Não é raro ver um garçon ou dançarino (no caso do Resort) ir ajudar a organizar as mesas. Ou um atendente ou gerente de hotel ir ele mesmo levar o recado a um quarto de hóspede pois quando os mensageiros estão ocupados.
  • A influência da cultura africana em Cuba é muito similar à influência no Brasil. A comida é parecida (arroz e feijão e os vegetais consumidos normalmente aqui) e a Santeria, a religião dos escravos, é muito parecida com o Candomblé e também mistura alguns santos católicos com orixás. Existe Yemanjá (Yemanja), Ogum e Oxum (Ochum), para citar alguns, e com indumentária muito parecida. Achei até que a origem dos escravos levados à Cuba era a mesma do Brasil, mas pelo que eu pesquisei eles vinham de regiões diferentes da África.
  • Sem duvida uma das principais características de Cuba é a segurança. Você pode andar à noite a pé, deixar camera e celular sobre a mesa do bar ou na cadeira de praia enquanto vai dar um mergulho sem problema nenhum. Quando você pergunta se pode deixar algo na mesa de um restaurante, por exemplo, eles até dão risada pois não imaginam o porque não poderia.
  • Apesar disto, não existe uma sensação de “vigilância” excessiva. Nada de big brother. O diferencial é que lá não existe a sensação de impunidade que existe no Brasil.
  • Talvez o único problema ligado à segurança sejam os jineteiros, que engloba desde prostitutas (tanto aquelas que fazem programa quanto as mulheres que buscam um marido para sair do país) e golpistas. Porém são aqueles pequenos golpes da pessoa te devolver troco errado, querer comer na sua conta, pedir um drink no bar e fazer você pagar sem pedir antes, ou seja, são “golpes” totalmente evitáveis. Mas mesmo assim, em número muito reduzido se comparado à outros países.
  • Os socialistas pedem nos países capitalistas que a jornada semanal de trabalho seja reduzida para 36, 34 e até 30 horas. Porém em Cuba a jornada é de 48 horas semanais (8 horas diárias durante 6 dias semanais). Ou seja, para o capitalista não pode, mas para o “regime” pode.
  • Inclusive, a mais valia que fica com o Estado cubano é bem maior do que o de qualquer empresa em qualquer país. O “overhead” para manter a estrutura do sistema é bem maior do que em qualquer empresa, afinal, precisam de bem mais controles.
  • Como o acesso a vários produtos industrializados é restrito, em muitos lugares (bares, restaurantes e aeroportos) não existe muito papel (higiênico, guardanapos, embrulhos, etc) e plástico (sacolas plasticas principalmente). Além disto, em alguns lugares públicos falta água (existe saneamento, talvez as pessoas não consigam é fazer a manutenção regular de torneiras e encanamentos). Então a dica é levar lenços umedecidos, que quebram um galhão para “lavar” as mãos.
  • O lado bom disto é que não se vê muita sujeira na rua (também por causa do senso de coletividade citado anteriormente).
  • Pensando bem, a dica de andar com lenço umedecido serve também para quem mora em São Paulo.
  • Como eles não têm acesso a muitos bens industrializados (é muito caro para eles), uma outra dica é levar alguns “regalos”. Para homens, leve uma camisa da seleção ou do time para o qual você torce. Para as mulheres e meninas batom, enfeites de cabelo, esmalte. Para crianças, leve algumas canetas, giz de cera, lápis, chiclete. Eles vão ficar superfelizes de ganhar algo que pra gente é uma coisa banal, mas para eles é algo quase inacessível.
  • Apesar de todas estas restrições, os cubanos são um povo muito feliz. O que me leva a pensar que a gente não precisa de muita coisa para ser feliz e o problema é que a gente sempre coloca nossas expectativas em um ponto inatingível (e depois nos decepcionamos).
  • Realmente em Cuba se fuma em tudo quanto é lugar. Fora de Havana ainda respeitam restaurantes, mas em Havana você pode estar jantando num restaurante e não será incomum alguém na mesa de trás da sua acender um cigarro ou charuto (inclusive nos hotéis, onde se pode fumar em praticamente qualquer lugar, inclusive quartos). Mas com tanta fumaça que os carros fazem, este é o menor dos problemas.
  • E não é exagero meu: os carros fazem tanta fumaça que você fica cheio de fuligem ao caminhar durante o dia e quando vai tomar banho sai aquele “caldo” preto.
  • Falando dos carros, como já é sabido, existem muitos carros das décadas de 40, 50 e 60 rodando por Cuba. Uma boa parte em perfeito estado de conservação (com o bloqueio, eles começaram a produzir as peças de reposição lá mesmo, em pequenas oficinas). O que nos leva a pensar que, sendo um bem durável, porque tem gente que precisa trocar de carro todo ano?
  • Eu não sou à favor do “os fins justificam os meios”, mas é inevitável notar como as restrições as religiões com poder central (especificamente a católica) impostas durante a primeira metade do regime gerou uma separação total entre Igreja e Estado, o que é sempre bom (se bem que o Marxismo em sí é praticamente uma religião).
  • Além da educação, saúde e segurança, uma coisa da qual os cubanos devem se orgulhar é o seu sorvete. Todos os que eu tomei estavam ótimos. Quando estava indo de Santiago para Havana, tomei o melhor sorvete de chocolate da minha vida (e por apenas R$ 1,50). Taí um produto que eles poderiam exportar para ajudar na economia.
  • Todos os táxis (táxis regulares, cocotáxis e carrões antigos) têm taximetro, porém ninguém liga. Para não ser passado para trás, o esquema é combinar o preço da corrida antes de entrar no táxi. Se informe antes no hotel quanto custa, mais ou menos, a corrida que você quer fazer. Outras duas dicas são: sempre pechinche e sempre leve trocado (se você combinar, por exemplo, 8 CUCs e só tiver 10, o taxista vai alegar que não tem troco).
  • Evite pegar os táxis na porta dos hotéis ou em lugares turísticos. Ande um pouco e pegue na rua (como falei, Cuba é seguro, pode pegar táxi sem problemas). E tente pegar os táxis mais antigos (os Ladas).
  • As filas lá são um negócio de doido: a pessoa chega no lugar e pergunta “quem é o último?”, ai esta pessoa se identifica e você têm que “marcar” ela. Quando alguém chegar e perguntar pelo último, se for você for, identifique-se para que a pessoa possa saber atrás de quem está. Eles não vão formar uma fila como fazemos aqui e se você comer bola vai ter várias pessoas passando na sua frente (não por maldade). Eu tinha visto nas minhas aulas de espanhol que na Espanha funciona assim também em açougues e padarias, por exemplo, porém nestes lugares tem 5, 10 pessoas. Quando tem 100 pessoas o sistema torna-se impossível de ser acompanhado por quem não está acostumado.
  • O transporte público (ônibus e papa filas, além de caminhões, caminhonetes e táxis coletivos) está sempre lotado! E olha que tem um monte de ônibus articulados por lá.
  • Pelo fato de a maioria dos estabelecimentos comerciais serem do Estado, ou seja, é um monopólio, não existe a necessidade de dar um nome para o estabelecimento. Muitos deles, especialmente os postos de gasolina, têm simplesmente o nome da rua (ou da esquina) em que se encontra: Posto Calle 23, restaurante Prado y Neptuno (na esquina destas ruas), etc.
  • Tem muito pedinte e muita gente querendo se oferecer pra te ajudar em troca de gorjeta. Uma hora enche o saco, pois você às vezes quer ficar sossegado numa mesa de bar, ou então já tem uma programação. Mesmo quando estiver nestas situações, trate todos com educação e respeito. Explique que você não tem dinheiro, ou “minta” que você já almoçou ou já comprou charutos (eles te oferecem para levar em um restaurante ou em uma cooperativa de produtores de charutos pois ganham comissão), explique que você já se programou para ir a outro lugar, mas nunca ignore ou falte com educação. Cordialidade e gentileza é bom em qualquer lugar do mundo e em qualquer situação e muitas vezes 5 minutos de conversa, que para você não custa nada, pode significar muito para a outra pessoa.

Be happy! 🙂

Wanderlust #21 – Havana, Cuba

123 Parque Central - Centro Habana - Havana - Cuba

Os tradicionais táxis cubanos na Plaza Central

Havana é a maior e mais populosa cidade cubana, com cerca de 2 milhões e meio de habitantes (quase 25% da população do país). Também é sua capital política, cultural e econômica. A cidade foi fundada oficialmente em 1519 e é, assim como a maioria das grandes cidades do continente americano, um verdadeiro caldeirão cultural, devido à chegada ao longo da história de povos de diversas origens, sendo a maioria espanhóis (os colonizadores) e africanos (que chegaram como escravos), mas também contando com pessoas de ascendência européia (italianos e ingleses) e até pequenas comunidades chinesas, árabes e israelitas.

052 Plaza de La Revolucion - Havana - Cuba

Plaza de La Revolucion

No primeiro dia planejamos caminhar por Vedado e Centro Habana. Pegamos a Avenida Paseo, onde ficava o hotel e seguimos em direção à Plaza de La Revolucion, que fica no final desta avenida. Antes porém desviamos um pouco o caminho para visitar o Parque Lennon, erguido em homenagem ao Beatle. Fidel sempre foi muito fã dos Beatles e sempre os considerou socialistas (?!?!?). Depois de nos perdermos um pouco conseguimos chegar à Necrópolis Cólon. Já não sou muito chegado em cemitérios, ainda mais tendo que pagar 5 pesos, então nem entrei. Mas valeu a pena “se perder” para andar em meio a bairros não turisticos de Vedado.

Sorveteria Coppélia: um dos melhores que eu já tomei!

Sorveteria Coppélia: um dos melhores que eu já tomei!

Resolvemos então voltar para a Avenida Paseo e continuar até a Plaza de La Revolucion, talvez o ponto turístico mais conhecido de Cuba. Depois de algumas fotos, seguimos pela Avenida de Los Presidentes até a Avenida 23, a principal avenida comercial de Havana. Nesta avenida se encontra o Parque Coppelia, onde fica a sorveteria Coppelia. Você não pode ir à Cuba e não tomar um sorvete da Coppelia (existe uma Coppelia na maioria das grandes cidades cubanas). Depois de pagar R$ 0,12 por um dos melhores sorvetes da sua vida você vai demorar muito tempo para pagar R$ 10,00 num Häagen Dazs.

A Avenida 23 termina no Malecon, bem onde fica o belo e imponente Hotel Nacional, onde as autoridades internacionais se hospedam quando estão em Havana.

Hotel Nacional

Hotel Nacional

A parte central de Havana, que é a mais turística, não tem praia e fica numa encosta de pedras. Ao longo da costa existe uma larga avenida, e entre esta avenida e a costa, um largo calçadão e uma mureta, que é muito usada para pesca e por casais de namorados.  Este conjunto “avenida + calçadão + mureta” é o famoso Malecon.

Durante o percurso de 1 kilômetro até a Avenida de Itália, que nos levaria até Centro Habana, notamos que vários prédios foram ou estão sendo reformados. Mais tarde soubemos que a  UNESCO está patrocinando a restauração dos bairros La Habana Vieja e Centro Habana. Porém, ao mesmo tempo que notamos que muitos prédios ao longo do Malecon estão novinhos (mas mantendo a arquitetura original), deu pra ver, andando à pé, que a parte que os turistas não enxergam de carro ou ônibus, ainda está muito deteriorada.  Quando pegamos a Avenida de Itália tinham alguns prédios que davam até medo de andar debaixo de suas marquises, com medo de algum pedaço desabar.

Capitólio - versão genérica do americano.

Capitólio – versão genérica do americano.

Seguimos pela Avenida de Itália até Centro Habana, onde podemos ver o Capitólio, o Gran Teatro de la Habana, o Hotel Inglaterra, entre outros prédios restaurados ou em frangalhos, existentes no bairro. Conhecemos também o Parque Central e o Paseo  de Marti e então resolvemos parar para “almoçar” no ótimo Prado y Neptuno, que além de ter uma boa variedade de pratos típicos e internacionais, também tem um preço bastante atrativo.

Após a “almojanta” resolvemos caminhar os 5 kilômetros de volta ao hotel pelo Malecon. Somando com o que tinhamos andado durante todo o dia creio que chegamos nos 20 kilômetros caminhados. Como já era fim de tarde quando chegarmo próximos ao hotel, esperamos para ver (e fotografar) o por do sol da mureta do malecon. E já que haviamos desembarcado no hotel na madrugada do dia anterior e tinhamos andado bastante durante o dia, resolvemos comprar umas cervejas na loja de conveniência que tinha em frente ao hotel e ficar por lá mesmo.

Por do sol visto do Malecon

Por do sol visto do Malecon

No segundo dia, pegamos um Cocotáxi e fomos até o Callejón de Hammel, que é uma viela que virou uma galeria de arte a céu aberto, muito pela iniciativa do artista Salvador González, que montou ali seu ateliê, o que acabou trazendo alguns outros artistas para a região.

Depois caminhamos uns 30 minutos até La Habana Vieja. Preferimos não entrar no Museo de la Revolución para não perder muito tempo e já seguimos para as ruazinhas estreitas no miolo da parte mais antiga de Havana. Passamos na Plaza de La Catedral e fomos até o La Bodeguita del Medio tomar o famoso mojito, que era o preferido de Ernest Hemingway, quando este viveu na cidade. Continuando o passeio pelo antigo bairro, passamos pelo Castillo de la Real Fuerza, Plaza de Armas e paramos para tomar outro ótimo sorvete (pqp!! Como eles são bons em fazer sorvete!!!). Depois passamos pela Plaza de San Francisco e, felizmente, caimos sem querer na Plaza Vieja, uma praça que foi toda reformada (dentro do projeto da UNESCO) e que conta com prédios históricos, bares e restaurantes no seu entorno.

Callejón de Hammel - a cultura afro cubana é muito parecida com a afro brasileira

Callejón de Hammel – a cultura afro cubana é muito parecida com a afro brasileira

Decidimos também meio que sem querer sentar em um dos bares e qual não foi a surpresa ao descobrir que este “bar” é a Cerveceria Plaza Vieja, uma cervejaria artesanal (talvez a única) cubana. Que além de ter uma cerveja muito boa, ainda tinha um preço muito em conta. Aproveitamos para tomar cervejas e almoçar e já programamos de voltar no outro dia à tarde para o happy hour do último dia na cidade. Depois da cerveja tomamos um velho Ford Fairlaine conversível para voltar para o hotel, pois à noite iriamos assistir um show dos Tradicionales de los 50, que são alguns artistas cubanos, no estilo “Buena Vista Social Club”. Na saída do show, demos a sorte de pegar um Chevrolet Bel Air da década de 50 para voltar ao hotel.

Linha de produção de mojitos em La Bodeguita del Medio

Linha de produção de mojitos em La Bodeguita del Medio

No terceiro dia, resolvemos seguir sentido contrário de La Habana Vieja e conhecer o pouco turístico bairro de Miramar, que é algo que poderiamos considerar a área nobre de Havana (inclusive lembra muito os EUA). Antes da revolução, este bairro era o local onde as pessoas ricas de Cuba e onde os estrangeiros tinham suas residências. Após a revolução, as casas foram abandonadas (muitos ricos fugiram para os EUA) e retomadas pelo governo, assim como as que eram propriedades de estrangeiros. Hoje em dia, boa parte das enormes casas foram transformadas em representações diplomáticas (contei umas 15 embaixadas ou consulados), escolas ou locais para atendimento à população.

Miramar e suas belas e enormes casas

Miramar e suas belas e enormes casas

É um bairro muito bonito para uma caminhada e, excetuando-se os velhos táxis lada (na área mais turística de Cuba, composta por La Habana Vieja, Habana Centro e Vedado, a grande maioria dos táxis ou são os carros americanos antigos restaurados ou então Hyundais novos) você poderia achar que está no subúrbio de alguma cidade dos EUA. Ou mesmo no Jardim Europa, em SP.

Caminhamos uns 5kms no bairro até chegarmos ao Acuário Nacional. Ele não é tão grande e acabei por não ver os shows dos leões marinhos ou dos golfinhos, mas é até interessante para ver um pouco da fauna marítima cubana. Se for passar mais de 3 dias na cidade, compensa. Depois disto pegamos um  táxi Lada para irmos para o Happy Hour programado na Cerveceria Plaza Vieja, o que acabou por derrubar a boa impressão que tinhamos tido no dia anterior.

Cerveceria Plaza Vieja - duas experiências totalmente opostas

Cerveceria Plaza Vieja – duas experiências totalmente opostas

O cardápio que nos trouxeram tinha preços bem maiores que o cardápio do dia anterior (um hamburguer tinha “aumentado” de 2 para 6 CUCs!!!). Questionamos a garçonete sobre as diferenças e ela inventou que existia um “cardápio social e um informal”. Eu até concordo que os “locais” devem pagar menos do que os turistas, mas para isto Cuba já conta com duas moedas distintas. Na verdade o preço ali era cobrado pela cara do cliente (como acontece muito no nordeste do Brasil). Depois disto o atendimento foi simplesmente péssimo e acabou por estragar um pouco uma viagem que tinha sido perfeita até ali.

Mas felizmente nada que apagasse a ótima experiência de conhecer Cuba, um país muito diferente dos que eu já visitei e com um dos povos mais calorosos e receptivos que eu já tive o prazer de conhecer.

Observações, dicas e considerações:

  • Tomara que no processo de restauração da parte central de Havana não ocorra, ao mesmo tempo, um processo de gentrificação. O que eu acho difícil até porque, em teoria, todos os imóveis são do Estado e eles podem realocar os moradores como bem entenderem. Podem simplesmente retirá-los de lá para as reformas, colocá-los em outros lugares e, após as reformas, cederem o espaço a outras pessoas.
  • O Capitólio é uma cópia em tamanho reduzido da sua versão americana. Mais uma prova da influência americana em Cuba.
  • O Cocotáxi é uma transporte que lembra bastante os riquixás chineses e os rickshaws indianos, com a diferença de não ser tração humana. É uma pequena moto (imagino eu que uma scooter) que tem um “cockpit” onde cabem 2 ou 3 pessoas sentadas, dependendo do modelo. Como o formato da maioria é arredondado e a cor oficial dos táxis em Cuba é amarelo, ele foi apelidado de Cocotáxi (o coco fresco, que conhecemos aqui como “coco verde”, pois é verde mesmo, em Cuba é amarelo).
  • A maioria dos músicos do projeto “Buena Vista Social Club” já são falecidos. Então não caia no “conto” de assistir a um show deles (nem lá e nem em lugar nenhum), pois vai ser só uma imitação. O filho de um dos músicos montou um novo grupo e faz shows na cidade e uma “franquia” excursiona pelo mundo. Se for só para curtir uma reunião de artistas cubanos, o show dos Tradicionales vai ser mais divertido, além de ser o “underground” e não o pop da música cubana das décadas de 50 e 60.
  • O bairro de Vedado tem este nome pois no final do século 19 e início do século 20 a construção de prédios, ou mesmo casa com mais de um andar era “vedado” por motivos de segurança (para permitir a visualização de qualquer tentativa de invasão de Cuba através do mar por aquele ponto)

Be happy 🙂

375 Plaza Vieja - La Habana Vieja - Havana - Cuba

Funcionário do mês

414 Passeio de Ford Fairlane - Havana - Cuba

Ford Fairlane

435 Sociedad Cultural Rosalia de Castro - La Habana Vieja - Havana - Cuba

Los Tradicionales de los 50

465 Passeio de Chevrolet Bel Air - Havana - Cuba

Chevrolet Bel Air

616 La Habana Vieja - Havana - Cuba

Cuba és amor!

216 El Malecón de Cocotaxi - Havana - Cuba

Cocotáxi

 

Wanderlust #20 – Santiago de Cuba, Cuba (ah vá!)

Santiago de Cuba 01

Santiago de Cuba é a segunda maior cidade cubana, com cerca de 500 mil habitantes e fica localizada a cerca de 900 kilômetros da capital, Havana. Por causa da proximidade com a Jamaica, o Haiti e a República Dominicana, é comum ver muitas pessoas com estas origens (muitos rastas, por exemplo).

Memorial Loma de San Juan

Memorial Loma de San Juan

Além da cultura de café, plantados nas cercanias da Sierra Maestra, a maior cadeia montanhosa de Cuba, a província de Santiago de Cuba (província é o equivalente ao nosso estado) também é famosa por seu porto e a mineração (cobre e ouro). Porém, a importância maior desta cidade é o fato dela ter sido o berço dos dois acontecimentos históricos mais importantes para Cuba: a independência da Espanha (e dos EUA, ver o artigo sobre a história de Cuba) e a revolução Cubana.

Por ser a maior cidade no leste de Cuba (ou como eles chamam, o Oriente cubano), ela foi um dos principais palcos das batalhas pela independência de Cuba. Na década de 50 serviu de berço da revolução cubana, pois foi na cidade em que Fidel se formou em direito e morou durante alguns anos. O Cuartel de Moncada, alvo do ataque da primeira tentativa da revolução armada liderada por Fidel fica na cidade (ver o mesmo artigo acima sobre a história).

Acho que o que mais eu gostei na cidade foi que ela respira música e o povo é muito festivo. Em qualquer lugar que você pare, invariavelmente terá algum conjunto ou artista tocando. Em todas as praças em que passei, entre o final da tarde / começo da noite tinha alguma festa acontecendo (inclusive na segunda feira!). Não à toa, o carnaval de Santiago, que acontece em Julho, é muito famoso.

Santuario de La Virgen de La Caridad del Cobre

Santuario de La Virgen de La Caridad del Cobre

O que fazer?
Santiago de Cuba é uma cidade pequena e sem grandes atrativos na sua área urbana. A não ser sentar num bar ou numa praça e ficar tomando cerveja, ouvindo os músicos de rua. Em termos de “atrações turísticas”, em um dia dá para conhecer praticamente toda a cidade.

Felizmente, ao tentar conseguir um mapa mais detalhado da cidade, a concierge do hotel sugeriu que contratássemos um taxista para fazer um passeio na “grande Santiago”, ao custo de 40 CUCs (cerca de 40 euros) por dia, para até 4 pessoas. Foi realmente uma ótima sugestão.

No primeiro dia o taxista nos levou para um “city tour” passando pelo Arbol de La Paz (onde o acordo de independência foi assinado), Memorial Loma de San Juan, alguns bairros residenciais, Bosque de Los Heroes, Plaza Antonio Maceo e Teatro Heredia e depois nos dirigimos ao Santuário de La Virgen de La Caridad del Cobre, a padroeira de Cuba.

Plaza Antonio Maceo

Plaza Antonio Maceo

Na volta para a cidade paramos no Cementério Santa Ifigenia, que conta com um imponente memorial à José Marti (um dos heróis cubanos) e túmulos de outras figuras históricas (como a família Bacardi). É interessante chegar por volta das 13:30, pois é quando acontece a troca da guarda, que é feita de forma tão sincronizada que você não consegue perceber quem foram os guardas que acabaram de chegar e quais acabaram de sair.

A próxima parada foi no Castillo de San Pedro de la Roca, ou simplesmente Castillo del Morro, uma fortaleza construida no topo de uma das colinas localizadas na entrada da baia de Santiago de Cuba, que foi erguida para servir como ponto de defesa contra invasores. Dali se tem uma vista da bela baia e também da costa.

Após a volta, ficamos no Parque Céspedes, que na verdade não é um parque, e sim uma praça (eles chamam qualquer praça com árvores de parque em Cuba), localizada no centro de Santiago e que é rodeada por alguns prédios históricos e interessantes. Fomos até a Casa de La Trova, onde podemos presenciar uma mini apresentaçao exclusiva de Pello 21, um músico local que toca um “instrumento” chamado Órgão Paris, que é como se fosse um enorme realejo. Visitamos também o Balcón de Velásquez, de onde se tem uma vista da parte costeira da cidade e depois fomos abordados por Livan, um morador de Santiago que nos levou para conhecer a maquete de Santiago e depois um restaurante local para tomarmos alguns mojitos. Depois paramos para almoçar na Taberna El Baturro, que tem um ambiente interessante (mas a comida não vale o preço).

Cementerio Santa Ifigenia

Cementerio Santa Ifigenia

Após o almoço, seguimos para a Plaza de Dolores, uma pequena praça cercada de bares com mesas na calçada que é ótimo para parar, tomar umas cervejas e mojitos e aproveitar para ouvir o som dos inúmeros músicos de rua que passam por ali (e portanto, prepare-se para dar caixinhas!). Na volta a pé para o hotel (cerca de 4kms) notamos que em TODAS as praças no caminho acontecia alguma festa, isto em pleno domingo, às 21:00hrs.

Haviamos combinado com o taxista de fazer um outro passeio no dia seguinte, desta vez fomos até a La Gran Piedra, um dos pontos mais altos de Cuba, situado na Sierra Maestra. O passeio é bem legal e a vista é fantástica, mas deve-se estar preparado para subir os quase 500 degraus até a pedra. Depois passamos no Museu Isabelica, um sítio histórico onde foi montada a primeira fazenda de café de Cuba. No sítio dá para se ter uma idéia de como viviam um fazendeiro e seus escravos.

Depois fomos até o Jardim Botânico, que é muito bonito e conta com uma variedade bem grande da flora cubana. Na sequência do passeio era para termos passado pela Granja Sibonay, o pequeno sítio que Fidel alugou e onde ele organizou a primeira tentativa de revolução. Porém, por ser uma segunda feira, o local estava fechado para visitas. Então nos dirigimos até o penúltimo ponto do passeio, que era a Praia de Sibonay, onde comemos em um legítimo Paladar cubano.

El Castillo del Morro

El Castillo del Morro

Há alguns anos o governo autorizou algumas pessoas a servirem refeições nas suas casas para os turistas. Na época, a novela brasileira Vale Tudo estava sendo transmitida em Cuba e a personagem da Regina Duarte nesta novela era a dona de um pequeno restaurante chamado “Paladar”. Por conta disto, o nome Paladar acabou “pegando” como denominação destes locais que servem refeições literalmente caseiras (os paladares são montados nos quintais ou em algum cômodo da casa).

A praia de Sibonay é bonita, porém o mar é um pouco agitado e de tombo.  Como não tinhamos planos de pegar praia, somente aproveitamos para tirar algumas fotos e voltamos para Santiago (Sibonay é um município na grande Santiago de Cuba) para o último ponto do passeio, que era o histórico Cuartel de Moncada, porém o museu do quartel também estava fechado por ser uma segunda. Então fomos conhecer o terraço do Casa Granda Hotel, de onde se tem uma vista 360º de quase toda a cidade, já que o hotel, apesar de não ser muito alto, fica numa colina e pelo fato de que em Santiago existem muito poucos prédios altos.

Parque Céspedes

Parque Céspedes

Depois passamos para tomar um café no la Isabelica Café, que é bem tradicional e que, além de qualidade, tem uma enorme variedade de bebidas que levam café como ingrediente principal. Depois de pararmos novamente para tomar algumas cervejas na Plaza Dolores, resolvemos voltar ao hotel. No caminho (que foi o mesmo do dia anterior), notamos que novamente haviam festas em TODAS as praças. Em plena segunda feira! Resolvemos parar em uma perto do hotel, que fica tipo num calçadão comercial e tinha música rolando ao vivo. Apesar do grupo tocar 3 músicas e fazer uma “pequena pausa” de meia hora, para voltar e tocar mais 3 músicas e fazer uma nova pausa, foi legal curtir esta última noite no meio dos locais, em um local que não é turístico e ainda de quebra descobrir que Kaoma e seu eterno sucesso “Chorando se Foi” também é sucesso em Cuba. Bem, ao menos em Santiago.

Observações, dicas e considerações:

  • Santiago de Cuba 08Se for voar de Cubana de Aviación prepare-se: como ela é basicamente a única companhia aérea que voa dentro de Cuba e por não ter muitas aeronaves, qualquer atraso desencadeia um efeito dominó em toda a malha. Na ida o atraso foi de 11 horas e na volta de duas.
  • Ainda assim valeu a experiência de andar num Antonov – AN 158, talvez a aeronave mais silenciosa em que eu já voei.
  • Eu não sou muito chegado em café então provavelmente não seja a pessoa certa para falar se um café é bom ou ruim, mas se eu morasse em Santiago com certeza iria virar um viciado no café do La Isabelica Café. O melhor que já tomei!
  • A maioria das atrações turísticas de Santiago fecham às segundas. Então é bom levar isto em consideração na hora de programar a viagem. Mas se a intenção for aproveitar festa, pode ir na segunda à vontade!
  • Quando estava em Havana, conheci um “local” e comentei com ele que tinha acabado de chegar de Santiago de Cuba, e ele soltou “Cuba é pobre, mas Santiago é mais pobre ainda!”, por conta disto, em Santiago existem muito mais pedintes e existem muito mais pessoas querendo ser “guias” para conseguir alguma gorjeta, ou mesmo uma refeição por conta do turista. Então prepare-se para ser abordado.
  • Apesar dos moradores de Santiago serem pobres e não terem acesso a vários bens e serviços que são corriqueiros para nós, eles são muito felizes e se divertem muito (mas muito mesmo!), o que nos leva a pensar como realmente não precisamos de muita coisa para ser feliz e viver bem.

Be happy 🙂

La Gran Piedra

La Gran Piedra

Wanderlust #19 – Varadero, Cuba

045 - Varadero - CubaFalar sobre Varadero, estando num all inclusive é facil.

Primeiro você acorda e vai tomar o cafe da manhã. Como eles atendem publicos de diversos países e culturas variadas, eles têm que oferecer variedade. No buffet tem morcela para os espanhóis e portugueses, bacon e panquecas (com maple syrup) para os americanos, pepino e tomate para os alemães, feijão e salsicha para os ingleses, e por aí vai. So de pães deve ter umas 20 opções. Chutando baixo, no total devem ter umas 150 opções de comida só no café da manhã.

Depois voce vai para a praia curtir o visual paradisiaco e aquele mar verde e limpo (uma pena é a água ser fria), deita na espreguiçadeira e passa o restante da manhã tomando cerveja. Regularmente tem alguma atividade que me permiti não fazer para evitar a fadiga.

Lá pelas 13:00 voce vai almocar e as opcões também não são poucas.

Depois do almoço vai para o bar molhado da piscina tomar umas cervejas, mojitos, daiquiris e piñas coladas.

Ao final da tarde, se dirige ao bar do lobby para um happy hour, afinal todo mundo precisa desestressar.

166 - Varadero - Cuba

A árdua tarefa de exercitar o ócio!

Umas sete horas volta para o apartamento, senta na varanda e abre uma cerveja para relaxar. Eventualmente tira uma soneca, já que ninguém é de ferro.

As 21 horas vai jantar em um dos restaurantes temáticos e logo após assiste a algum show ou participa de uma festa temática organizada pelo resort. Ainda dá tempo de dançar um pouco na balada do hotel, mas não até muito tarde, pois você precisa dormir cedo, já que o próximo dia também será duro!

Eu sinceramente acho que na declaração de direitos humanos da ONU deveria ter um parágrafo dizendo que “todo ser humano deve passar ao menos 3 dias de sua vida num all inclusive”.

Observações, dicas e considerações:

  • Achei impressionante a quantidade de alemães no resort. Chutando baixo cerca de 60% dos hóspedes. O restante se dividia em outros Europeus (principalmente espanhóis e franceses), pouquíssimos latino americanos e quase nenhum brasileiro. Uma pena.
  • Aquela empatia que a seleção e a imprensa alemã demostraram quando da passagem deles pela Bahia, na Copa do Mundo no Brasil, no ano passado, não parece ser apenas “jogada de marketing”. Eu vi os alemães interagindo muito com o pessoal do hotel (garçons, barmans, pessoal da limpeza, etc) com uma curiosidade genuína e um respeito enorme por uma cultura diferente da deles. Presenciei até uma cena bem legal: uma alemã, que pelo que eu entendi estava deixando o hotel, entregando uma lembrancinha para uma das moças que trabalhavam no buffet do café da manhã.
  • Uma coisa que eu notei e que achei muito legal foram alguns funcionários do hotel irem curtir o dia de folga com suas famílias no resort. Não sei a motivação disto, mas é interessante por não isolar “a casa grande da senzala”, ou seja, dá a oportunidade de pessoas que talvez não tivessem condições de bancar um hotel daquele tipo (e em Cuba isto corresponde a 90% da população) de aproveitarem um pouco daquilo que eles oferecem aos estrangeiros todos os dias.
  • Quando fui à Punta Cana uma das coisas que eu mais detestei foi o fato de que os funcionários não podiam se alimentar no Buffet (mesmo após o fechamento deles). Quando cheguei no resort em Varadero já eram mais de 3 horas da tarde e fui almoçar, pegando o fechamento do buffet, e os funcionários experimentavam os “quitutes” (imagino que eles já tinham almoçado antes) sem nenhum problema ou medo de punição. O mesmo acontecia nos bares: os funcionários dão uma parada depois do seu turno para “tomar um trago” antes de irem para casa, por conta do hotel.
  • O resort organizou uma festa (White Party) e uma das cenas mais legais foi ver uma centena de pessoas, literalmente dos 8 aos 80 anos, de nacionalidades diversas, se divertindo como se não houvesse amanha e dançando como se não houvesse ninguém assistindo (eu representei o Brasil…hehehe)

Be happy 🙂

052 - Varadero - Cuba

Wanderlust #18 – Cuba: história, economia e política (e minha opnião sobre tudo isto)

Cuba 01Eu sempre achei que extremismos são sempre ruins e, via de regra, quando alguém tem alguma opnião extrema sobre algo ele está errado. O mundo não é 0 e 1, não é preto e branco. Isto sempre me levou a ter uma curiosidade em conhecer os países socialistas, já que nunca achei que estes países fossem o inferno pregado pelos capitalistas e muito menos o paraíso pregado pelos socialistas/comunistas. Então resolvi aproveitar antes que o regime em Cuba caia (ou se adapte) para conhecer o país.

Mas antes de entrar nos detalhes da viagem, acho necessário entender um pouco o país. Porém antes da vaca fria vou dar alguns aviso para os meus poucos leitores:

  1. O texto vai ficar longo e não quero quebra-lo em partes, então prepare-se.
  2. As informações históricas eu retirei do guia que comprei, de informações obtidas lá e de algum ou outro site. Não vou ficar checando fonte, origem ou procurar opniões diferentes já que devem existir inúmeros livros, com inúmeros pontos de vista sobre a história e a atual situação cubana.
  3. Invariavelmente irei fazer paralelos da história e atual situação com os livros “A revolução dos bichos” e 1984, ambos do George Orwell.
  4. E mais importante: se você for um capitalista/anti-comunista fanático, você com certeza vai discordar de metade das minhas opniões e informações. Se você for um comunista/anti-capitalista (neste caso fanático seria redundância) também vai discordar de metade das minhas opniões. Minha sugestão: viaje a Cuba e tire suas próprias.

História
A Ilha de Cuba foi descoberta em 1492 por Cristóvão Colombo e foi anexada à Espanha em 1510. Durante a colonização da Ilha, as 3 tribos que a habitavam então foram dizimadas. Porém os espanhóis não encontraram o que procuravam na ilha (ouro e especiarias) e a abandonaram, preferindo explorar a parte continental das Américas.

Durante a exploração do continente e a necessidade de transporte dos bens até a Europa, Cuba passou a ser um ponto estratégico importante do ponto de vista logístico (talvez isto também explique o interesse do Brasil, Canadá, Alemanha e Espanha em investir no Porto de Mariel) e como primeiro ponto de defesa das outras colônias. Durante esta época, a Ilha era alvo constante de ataques de piratas e também neste mesmo período  iniciou-se a inserção de escravos trazidos da África.

No verão de 1762 a ilha foi finalmente conquistada pelos Ingleses após alguns anos de ataques mas foi logo devolvida à Espanha com a assinatura do Tratado de Paris, de 1763, em troca da Flórida. Foi quando ocorreu o que poderia se chamar de “segunda colonização da ilha”: devido ao incremento do comércio do açúcar a ilha passou a ser usada para produzir este bem. Isto também gerou uma onda ainda maior do comércio de escravos.

A cultura de cana de açúcar trouxe uma parte da aristocracia espanhola para a ilha, o que ajudou a moldar a cultura e, principalmente, a arquitetura. A mistura das culturas (e dos genes) dos espanhóis e dos africanos deu origem à cultura criola. Em meados de 1830 Cuba era o maior produtor mundial de açúcar e metade da sua população era composta por negros (libertos e escravos). A ilha já era habitada pela segunda, às vezes terceira geração dos decendentes dos colonizadores, que se sentiam mais cubanos do que espanhóis e que já almejavam uma independência. Para tanto, eles precisavam contar com a ajuda dos escravos e por isto a luta pela independência de Cuba aconteceu em conjunto com a luta pelo fim da escravidão. Depois de algumas guerras, a Espanha conseguiu subjulgar os rebeldes, que foram exilados nos EUA (o que viria a servir para estreitar as relações destes com os EUA) e, em 1886 a escravidão foi abolida como parte de um “pacote” que a Espanha prometera para aplacar os ímpetos dos rebeldes.

As guerras contra a Espanha foram retomadas em 1895 e em 1898, quando os cubanos já haviam praticamente vencido a Espanha, o cruzador Maine (que fora enviado à baia de Havana para proteger cidadãos e propriedades americanas em Cuba) explodiu misteriosamente, matando 250 marinheiros americanos. Os americanos culparam os espanhóis e encontraram uma razão para entrar na guerra. Em julho a frota espanhola foi finalmente derrotada pela frota americana e em dezembro do mesmo ano um acordo entre a Espanha e os EUA selou o fim do domínio colonial da Espanha nas Américas. Acordo este que não incluiu os cubanos e que, na prática, apenas transferia o domínio da colônia aos americanos. Alguns conflitos se seguiram e em 1901 uma assembléia aprovou a primeira constituição cubana e finalmente o primeiro presidente cubano tomou posse, apesar de ainda existirem fortes vínculos com os EUA.

A independência cubana finalmente aconteceu em 20 de maio de 1902, porém o país ainda viveria algumas décadas sob forte influência norte americana, que em várias oportunidades enviariam fuzileiros com o pretexto de proteger cidadãos e propriedades americanas.

Nos primeiros 20 e poucos anos da República Cubana, alguns avanços foram alcançados, tais como: educação pública gratuíta, liberdade de associação e expressão, separação entre Igreja e Estado. A cultura de cana de açúcar se tornou praticamente a única atividade econômica de Cuba, o que beneficiava alguns, porém a grande maioria não se beneficiou e não via muita diferença entre ser colônia e ser um país independente. Em 1925 surgiram os primeiros sindicatos e o Partido Comunista Cubano. Neste mesmo ano, Gerardo Machado tornou-se presidente e viria a alterar a constituição para poder governar por mais um mandato, o que fez com tirania e violência.

A situação do povo piorou ainda mais com a grande depressão e após uma longa greve geral e a perda do apoio do exército, Machado fugiu. À partir dai, vários presidentes, considerados apenas marionetes do Sargento Fulgêncio Batista, se revezaram no poder. Durante este tempo algumas reformas foram implementadas, como a jornada de oito horas diárias e o voto feminino. Em 1952 Batista deu um golpe, se tornando presidente e durante esta década ele praticamente vendeu a Ilha aos americanos (especialmente aos mafiosos). Cuba se tornou um puteiro onde os americanos iam jogar, consumir drogas e contratar prostitutas.

Carretera Sibonay e o um dos memoriais aos rebeldes executados após o assalto ao Cuartel de Moncada

Carretera Sibonay e o um dos memoriais aos rebeldes executados após o assalto ao Cuartel de Moncada

Em 1953 o jovem advogado Fidel Alejandro Castro Ruz denunciou a ilegitimidade do governo de Batista à magistratura. Como isto não surtiu efeito, Fidel alugou um pequeno sítio em Sibonay, na grande Santiago de Cuba, e organizou ali uma revolta. Em 26 de Julho de 1953, no último dia do Carnaval cubano (Santiago é famosa por seu carnaval), tentando se aproveitarem do estado de embriaguez dos soldados, os rebeldes tentaram um assalto ao Cuartel de Moncada. Dos 159 rebeldes então instalados no sítio, 155 participaram da empreitada (4 desistiram) que acabou por fracassar, já que os soldados que estavam em Moncada, além de terem um arsenal melhor, estavam entrincheirados. Além disto, vários dos carros que levariam combatentes e armamento se perderam em Santiago pelo fato dos ocupantes não conhecerem a cidade. 6 rebeldes morreram durante o ataque e 55 deles foram mortos posteriormente. Para “disfarçar” as execuções sumárias, o exército de Batista espalhou os corpos destes 55 rebeldes pela Carretera de Sibonay, a estrada onde se encontrava o sítio e que terminava em Santiago. Hoje em dia existem memoriais para estes rebeldes, nos lugares onde os corpos foram abandonados, em que constam somente o primeiro nome e a profissão de cada um dos executados.

Fidel foi preso, junto com seu irmão Raul. Após dois anos de prisão uma anistia foi concedida e os dois foram exilados no México, onde viriam a conhecer o jovem médico argentino Ernesto “Che” Guevara. Juntos com Che e contando com a ajuda de outros exilados e de rebeldes ainda presentes na Ilha eles organizaram novamente a revolução. Raul, Fidel, Che, Camilo Cienfuegos e mais 78 membros da revolução embarcaram no iate Granma (projetado para 12 pessoas) em 25 de novembro de 1956 com destino as Playas Coloradas, no leste de Cuba (conhecido como oriente entre os cubanos). A chegada estava prevista para 30 de novembro porém,  devido a alguns contratempos o navio só chegou à costa cubana no dia 2 de dezembro e três dias depois foi atacado pelas tropas de Batista, onde grande parte dos rebeldes foi  morta (durante a batalha ou posteriormente). Alguns poucos, entre eles Fidel, Raul, Che e Camilo conseguiram escapar e se refugiar na Sierra Maestra onde camponeses, estudantes e desertores do exército regular se juntaram à eles para reorganizar a guerrilha. Eles ficaram conhecidos como “barbudos”, pois no meio da selva e com outras coisas para se preocupar, deixaram de se barbear.

A crescente insatisfação do povo com os demandos de Batista, em conjunto com a “conscientização” da população feita através da Rádio Rebelde, uma rádio pirata montada por Che e que transmitia os ideiais da revolução, fez com que, após dois anos de guerrilhas e conquistando cada espaço, a revolução conseguisse dominar as principais cidades cubanas (praticamente o leste de Cuba inteiro). Em outubro de 1958, a coluna liderada por Che e Cienfuegos parte rumo ao oeste e consegue tomar Santa Clara (que fica a 300 kilômetros de Havana) em 31 de dezembro. Batista foge para Santo Domingo, Fidel entra em Havana em 8 de janeiro de 1959 e é aclamado primeiro-ministro.

Uma grande campanha contra o analfabetismo é a grande primeira bandeira dos novos governantes, que consegue extinguir o analfabetismo em pouco tempo. Outro passo foi uma reforma agrária, só que para que isto acontecesse, muitas propriedades de latinfundiários norte americanos foram nacionalizadas, o que iniciou as hostilidades entre os dois países e fez com que, em outubro de 1960, os EUA declarassem um boicote econômico, bloqueando a exportação de petróleo para Cuba e a importação de açúcar cubano. Isto só fez estreitar as relações de Cuba com os países da cortina de ferro, alinhados ideológicamente. Preocupado com a influência soviética, os EUA patrocinam uma tentativa de invasão à Cuba, que ficou conhecida como o “incidente da baia dos Porcos” (Playa Girón), no qual os contra revolucionários foram derrotados, o que acirrou mais as animosidades. Oito dias depois, o presidente Kennedy declarou um embargo comercial à Cuba, no que foi seguido por quase todos os países das Américas, com exceção do Canadá e do México. Desta vez as relações diplomáticas também foram cortadas.

Raul assina com Kruschov, no mesmo ano, um tratado para instalação de mísseis nucleares na ilha e, um ano mais tarde, quandos os EUA descobrem a presença destes mísseis, ocorre a famosa “Crise dos Mísseis”, talvez o momento em que a humanidade talvez esteve mais perto da extinção por conta de uma guerra nuclear.

Em 1980 Cuba abre as portas do turismo para cidadãos de países não alinhados com o comunismo. Em 1990, logo após o colapso do comunismo, Cuba enfrenta um dos períodos mais difíceis da sua história, o que persistiu até 1994.

Desde então, muito por influência de Raul Castro, mesmo antes deste assumir a presidência do país, Cuba vem implementando algumas reformas, como a possibilidade de negócios privados, a permissão do uso do dólar no país (afim de incrementar o turismo) e, mais recentemente, temos visto uma aproximação de Cuba com os EUA que tende, num futuro bem próximo, a resultar no fim do embargo comercial.

Política
O primeiro ponto a citar aqui é que: sim, os cubanos votam! Existem conselhos de bairro onde os representantes são eleitos através do voto direto. Para o legislativo nos níveis municipal, de províncias (o equivalente aos estados brasileiros) e mesmo no federal, os representantes são eleitos através de voto direto. Para os cargos executivos, as eleições acontecem através destas câmaras (municipais, provinciais e nacionais), como acontece em algumas outras democracias.

Isto quer dizer que Cuba é uma democracia? Também não! Dois dos principais pilares dos sistemas democráticos de fato são a liberdade para criar associações (sindicatos, partidos, conselhos, etc) e a liberdade de expressão e isto, infelizmente, não existe em Cuba. Toda associação política deve ter prévia aprovação do PCC, o Partido Comunista Cubano, que é o único partido político, ou seja, você vota, mas somente em membros de um mesmo partido e que, por razões óbvias, compartilham da mesma ideologia.

Além disto, existem diversas restrições quanto à liberdade de expressão e liberdades individuais: o cubano precisa de autorização para deixar o país e tem muitas, mas muitas restrições no que se refere ao acesso à informação. Todos os canais de TV e as estações de rádio são estatais, assim como os jornais e revistas. A Internet é inacessível à maioria dos cubanos por conta do custo. Mesmo aqueles que conseguem ter acesso à Internet são impossibitados de usar e-mail (a não ser para fins estritamente comerciais) e de acessar diversos sites, que são previamente bloqueados.

Economia
Talvez este seja o ponto mais complicado de entender.

A moeda oficial em Cuba é o Peso Cubano (CUP), que é utilizado para pagar salários e consequentemente para que a população local adquira bens de consumo. Porém, como o CUP é muito desvalorizado em relação à outras moedas (vale cerca de 25 vezes menos que o Euro e 8 vezes menos que o Real) e como boa parte dos bens, especialmente os industrializados, é importado, o governo subsidia uma grande parte dos bens básicos necessários à população. Como a grana do Estado geralmente é curta na maioria dos países, e também para evitar que pessoas que não precisem deste subsídio (turistas e os trabalhadores do turismo, que ganham gorjetas em CUCs, já falo dele) se aproveitem dos subsídios, o governo utiliza um sistema de cupons de racionamento.

Com a abertura e a expansão do turismo na ilha, os preços para turistas eram cobrados em dólar, afim de trazer divisas para o país, e isto começou a fazer com que muitos dólares começassem a circular pela ilha. Para reduzir a circulação de dólares, o governo criou em 2004 o Peso Conversível (CUC, que mantem uma certa paridade com o Euro).

Através dos cupons (na verdade cadernetas) cada cidadão cubano tem direito a, por exemplo, 1 frango a cada quinzena, um quilo de arroz, duas latas de pescado enlatado e meio litro de óleo a cada dez dias, e por ai vai. Qualquer coisa acima da cota teria que ser comprada em mercados que operam sem subsídios e em CUCs, o que invariavelmente torna o bem muito caro. Além disto, alguns bens não são subsidiados e se tornam inviáveis para um cubano que obtenha uma renda apenas em CUPs.

Para exemplificar: um médico cubano ganha cerca de mil pesos cubanos mensais (1000 CUPs), o que equivale em CUCs (ou Euros) a apenas 40. Em 2009 o governo liberou a importação de carros usados para a ilha. Supondo que um carro seja vendido a 5000 CUCs/Euros, um médico teria que trabalhar 125 meses, ou quase 10 anos e meio, para conseguir comprar um carro.

Uma cerveja em um mercado que não vende bens subsidiados custa cerca de 1 CUC, o que para muita gente corresponde a 10% do salário. Eu tomei um sorvete na ótima sorveteria Copellia (se tem uma coisa que Cuba poderia exportar é sorvete, muito bons) e paguei 1 peso cubano/CUP (alguns bens que são produzidos na ilha não são subsidiados e portanto, não são racionados), ou o equivalente a 4 centavos de CUC/Euro, apenas R$ 0,12.

Esta diferença acabou por criar uma nova classe social em Cuba (“todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”, vide Revolução dos Bichos), a dos trabalhadores do turismo, que eventualmente cobram em CUCs e também recebem gorjetas nesta moeda. Um taxista pode em apenas 2 ou 3 corridas ganhar o que ganha um médico por mês. Esta “classe social” em conjunto com o núcleo central do PCC e mais alguns funcionários de alto escalão (vide 1984), especialmente os dirigentes políticos e os militares (os porcos e os cães, vide Revolução dos Bichos novamente), mostra que mesmo em um sistema que pretende eliminar as diferenças de classes, acaba por criar outras.

O que eu acho de tudo isto?
Em um artigo na Feedback Magazine em novembro de 2013 (leia aqui) eu disse que “a diferença entre revolução e golpe é apenas de perspectiva: se vai de encontro aos seus ideais, você enxerga como revolução, se vai contra, como golpe.” (esta frase um dia será usada como citação….hahaha). A “revolução” que houve em Cuba no final da década de 50 apenas substituiu uma ditadura por outra. Qual delas foi mais cruel ao combater seus inimigos, nunca se saberá. Ao menos uma coisa é certa: ao menos Fidel e os líderes da revolução sempre foram machos e sempre estiveram no front de batalha, ao contrário de muitos outros ditadores, que sempre sentaram a bunda em uma cadeira de um belo escritório, muito bem protegido, enquanto os “peões” literalmente se matavam para garantir o poder à estes e, no caso específico do Batista (mas cabe a muitos outros déspotas), quando vêm que a coisa vai apertar, tratam de fugir.

Não se pode negar os avanços sociais conseguidos pelo governo socialista cubano: erradicação do analfabetismo, erradicação de várias doenças que ainda assolam outros países, inclusive o Brasil (Malária, Dengue e Febre Amarela, por exemplo), a segunda menor taxa de mortalidade infantil e a maior expectativa de vida das Américas (perde apenas para o Canadá em ambos os critérios). Só que também não se pode negar que alguns destes números já eram muito baixos mesmo durante a época de Batista: a taxa de mortalidade infantil já era a segunda menor na década de 50 e a expectativa era a 5ª menor na mesma década (além de Canadá, só ficava abaixo de EUA, Uruguai e Argentina, mas muito à frente da média da América Latina e do Brasil).

A falta de democracia plena, do acesso pleno à informação e a liberdade de expressão provavelmente são hoje os maiores problemas de Cuba. Como disse Carl Sagan no ótimo “O Mundo Assombrado pelos Demônios” (tem uma resenha minha aqui), a falta de liberdades de expressão e acesso à informação tolhe o pensamento crítico, que é base para as descobertas científicas que geram desenvolvimento. E como conclui Thomas Piketty no também ótimo “O Capital no Século XXI” (ainda estou lendo), a produção e disseminação de conhecimento é o fator que reduz as diferenças sociais, tanto dentro de um país, quanto entre países (eu já tinha chegado à esta conclusão quando estive na Alemanha, está neste artigo). O problema porém é que com liberdades vêm os questionamentos, e ai seria impossível manter o regime como hoje.

As pessoas de Santiago de Cuba, a segunda maior cidade de Cuba, com apenas 500 mil habitantes e com um fluxo bem menor de turistas ainda têm uma enorme fé no socialismo e acreditam piamente que o PCC sempre faz o melhor para eles. Porém, os habitantes de Havana, que têm muito mais contato com turistas, ou seja, de uma forma rudimentar têm um acesso maior à informação, já começam a questionar se o sistema é realmente bom.

Se até pouco tempo atrás eles viam apenas Europeus e Norte Americanos desfilando pela cidade e consumindo somas inimagináveis de dinheiro para um cubano comum (como disse, 1000 Euros são 25 salários de um médico), nos últimos 15 anos eles têm vistos Panamenhos, Costa Riquenhos, Brasileiros, Mexicanos, e outros latinoamericanos com o mesmo poder aquisitivo e capacidade de consumo dos antigos “imperialistas” e agora questionam a razão pela qual eles (os cubanos comuns) só podem comer pescados enlatados, enquanto os turistas podem comprar pescados frescos, além de acesso à outros bens, muitas vezes básicos para nós (um isqueiro, uma caneta, um batom, um sabonete).

O cubano com quem conversei e que levantou a questão do pescado tem a esperança de que quando o embargo americano for retirado, os americanos irão em peso investir na ilha, especialmente na industria açucareira, que se deteriorou durante o regime socialista. Porém, me questiono se os americanos estariam dispostos a aceitar o risco de investir no país sem a certeza de que regras serão respeitadas, já que eles já passaram no passado por expropriações e nacionalizações promovidas pelo mesmo regime. E se decidirem investir, qual a taxa de retorno que esperam para compensar estes riscos.

É claro que, após o fim do embargo (que está muito próximo, acredito eu), o fluxo de turistas americanos irá aumentar muito (hoje em dia um americano que queira ir à Cuba tem que comprar passagem em outro país), o que invariávelmente traria um fluxo alto de dinheiro para a ilha durante algum tempo (até passar o fator novidade). Porém creio que o embargo é o menor dos problemas de Cuba, já que eles têm relações comerciais com quase todos os outros países e mesmo assim ainda é um país que carece de muitos bens hoje comuns à maioria dos outros latinoamericanos.

Agora, existem três coisas que os cubanos têm e que são de causar inveja a nós, brasileiros. A primeira delas é educação: todo cubano passa ao menos 11 anos na escola e todo cubano têm acesso à educação superior, totalmente gratuitos. Aliás, o Brasil precisa rever o seu modelo educacional: creio que em nenhum dos países desenvolvidos a educação fundamental e média é um negócio que visa lucro e em pouquíssimos casos o ensino superior também tem esta função “capitalista” (mesmo nos EUA as Universidades, em sua maioria, são fundações sem fins lucrativos e qualquer mensalidade, que normalmente é paga somente por estrangeiros, é revertida em prol da própria instituição).

A segunda é o acesso à saúde. Qualquer cubano tem tratamento médico de alta qualidade, já que a medicina e a indústria farmacêutica cubana, ambas estatais, estão reconhecidamente entre as melhores do mundo. Como já citei, a taxa de mortalidade e a expectativa de vida em Cuba ficam à frente dos EUA, não se morre em Cuba, por exemplo, de diarréia (como ocorre nos rincões do Brasil), 98% das casas são atendidas por esgoto e 91% têm água potável encanada. Só para citar alguns dados.

O terceiro fator em que Cuba é diferenciada é de causar muita inveja, não só a Brasileiros, mas a americanos e europeus também: a segurança em Cuba é uma coisa impressionante! Você pode andar de madrugada por qualquer lugar sem nenhum problema. Pode deixar seu celular em cima da mesa de um restaurante sem ter que ficar vigiando. Pode, estando na praia, deixar sua câmera fotográfica na cadeira e ir dar um mergulho, que quando voltar ela estará lá. Nos primeiros dias você até pergunta ao garçom se pode deixar um óculos em cima da mesa enquanto vai ao buffet se servir e ele dá risada, já que não passa pela cabeça dele qual seria o problema. E apesar disto não se têm uma sensação de que se está sendo vigiado. O que eles não têm e que temos de sobra aqui no Brasil é a sensação de impunidade.

Que os cubanos tem suas dificuldades isto é óbvio, mas é óbvio também que eles têm muitas benesses (educação, segurança, saúde) e que, a seu modo, vivem uma vida relativamente confortável. Lhes falta muita coisa, mas não creio que os cubanos, no geral, sejam mais pobres ou vivam em piores condições do que os moradores das periferias das grandes cidades brasileiras, como São Paulo ou Rio. Aliás, fui à Salvador no final de março e garanto que Cuba não é mais pobre que a Bahia.

Be happy! 🙂

Cuba 03

Wanderlust #17 – Salvador, Bahia, Brasil

Elevardor Lacerda e Mercado Modelo, com a Baia de Todos os Santos ao fundo!

Elevardor Lacerda e Mercado Modelo, com a Baia de Todos os Santos ao fundo

Há tempos vinha querendo conhecer a Bahia e resolvi aproveitar o feriado do padroeiro de São José dos Campos para iniciar meu contato com a Bahia por Salvador. Mas a cidade me despertou sentimentos dúbios, dos quais falarei mais tarde. Primeiro vamos à um “giro” durante estes quatro dias.

Basílica do Senhor do Bonfim

Basílica do Senhor do Bonfim

A revista da Avianca que havia no avião trazia justamente uma reportagem sobre Salvador e foi interessante já ter umas primeiras impressões sobre a cidade, algumas dicas de pontos turísticos, etc. Durante a aproximação do avião à Salvador o que mais me chamou a atenção, ao olhar a cidade de cima, é a quantidade de favelas. Não aquelas favelas antigas feitas de barracos de madeira com teto de zinco, mas uma quantidade enorme de casas sem acabamento, especialmente nos morros.

Após chegar no hostel, que ficava no Largo do Pelourinho, e fazer o check in, aproveitei a tarde da quinta feira para conhecer a região do Pelourinho, passando pela Praça Terreiro de Jesus, Praça da Sé e me dirigi ao elevador Lacerda para seguir para a cidade baixa. Somente neste caminho pude realmente comprovar a quantidade enorme de igrejas existentes em Salvador (dizem que mais de 300!). Quanto ao elevador Lacerda, apesar de ser considerada uma atração turística, não tem nada demais: é apenas um elevador para que as pessoas evitem subir e descer as ladeiras e becos entre a cidade alta e a baixa.

Lagoa do Abaeté

Lagoa do Abaeté

Depois do elevador fui conhecer o Mercado Modelo, que é basicamente uma feira de artesanato e é uma boa opção para comprar souvenirs, tendo inclusive preços melhores do que as lojas do Pelourinho. Após uma passada rápida pelo mercado havia planejado andar até a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim pela orla. Só não sabia que a praia neste pedaço da cidade é inacessível, já que existem portos, construções, etc. A ida à pé não vale a pena como passeio turístico. Vale para ver a Salvador que não é feita para turista (e que é pobre) e mais algumas igrejas distribuidas pelo caminho. Além de notar que, depois de igrejas, o que mais existe em Salvador são escolas. Após uma hora de caminhada debaixo de um sol de mais de 30 graus, cheguei à Ladeira do Bonfim, que dá acesso ao Largo e à Igreja, que é simples, mas bonita, tanto externamente quanto internamente. Para quem acredita, vale amarrar uma fitinha nos portões e fazer os três pedidos (um para cada nó). O visual do Largo e da Igreja deve ser interessante à noite também.

Praia de Piatã

Praia de Piatã

Depois da visita tomei um táxi para voltar ao Mercado Modelo e almoçar por lá. Após o almoço, mais uma caminhada pela orla, agora no sentido norte, passando pela Baia Marina e o Museu de Arte Moderna da Bahia. Como já tinha realizado a programação do dia, peguei o Beco do Sodré (uma bela escadaria) para voltar à cidade alta, passando pela Ladeira da Preguiça (vizinha ao beco). Ambos desembocam na famosa Praça Castro Alves, que também tem mais uma Igreja (Nossa Senhora da Barroquinha) e fica próxima ao Mosteiro de São Bento (só ai já tinha passado ou visitado pelo menos umas 20 igrejas). Resolvi parar num bar (em frente à Igreja e Convento de São Francisco) para tomar algumas cervejas.

Para tomar umas cervejas à noite, seguindo recomendação de uma das atendentes do hostel, fui até a Cantina da Lua, que fica na Praça Terreiro de Jesus e oferece música ao vivo todos os dias. Como era uma quinta, estava rolando ritmos latinos com uma boa banda. Infelizmente a comida lá não é boa e só tinham cerveja Schin mas quebrou o galho num dia de semana.

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

No outro dia levantei cedo para continuar a conhecer a cidade. Caminhei no sentido contrário do Circuito Campo Grande dos trios elétricos da Praça Castro Alves até a Barra, que é o ponto de partida do circuito Barra-Ondina. O Farol da Barra e as duas praias que o cercam são bem bonitas. O visual da entrada da Baia de Todos os Santos   também impressiona pela beleza e imponência. Preferi não pagar os R$ 12,00 reais de entrada para o farol, que hoje abriga o Museu Náutico da Bahia e rumei para a Lagoa do Abaeté.

A Lagoa é bonita, mas pelo que eu tinha visto por fotos imaginava uma lagoa bem maior, cercada por barraquinhas, como se fosse uma praia de água doce. Até existe uma infraestrutura e estavam testando um sistema de som, provavelmente para alguma apresentação ao vivo à noite, mas durante o dia estava vazia. De qualquer forma, o visual da água azul esverdeada da lagoa, com a areia branca que o cerca e mais a vegetação é belo. Pena que havia um bando de Urubus ali para estragar a paisagem.

Ilha dos Frades

Ilha dos Frades

Da Lagoa até a famosa praia de Itapuã a distância é de apenas 15 minutos de caminhada e me dirigi até a famosa praia afim de “passar uma tarde em Itapuã”, como diria Vinicius, mas infelizmente desta vez não deu pois a orla estava toda em reforma. Então acabei andando mais uns 2 kilômetros atá a praia de PIatã, que já havia achado interessante no caminho de ida, principalmente por ser cercada de coqueiros e ser mais distante da avenida beira mar. Ali parei para tomar umas cervejas e algumas caipirinhas. Esta é uma praia que eu aconselho a passar algumas horas, apesar do mar ser um pouco sujo. Também é ótima pedida para surfistas, especialmente no final da tarde.

De volta ao hostel para uma descansada para depois ir até o bairro Rio Vermelho, a região boêmia de Salvador, para ver o movimento. Infelizmente acabei descansando demais, chegando no Rio Vermelho quase meia noite, horário em que os bares começam a ficar menos movimentados. Como não estava afim de pegar balada (nem levei roupa para isto), só comi uma pizza (muito boa!) e voltei para o hostel, pois tinha agendado um passeio de barco para o outro dia de manhã.

Ilha de Itaparica

Ilha de Itaparica

No sábado levantei cedo para fazer o passeio pelas Ilhas do Frade e de Itaparica. Felizmente não consegui vaga no Catamarã, que faria uma viagem mais rápida até as ilhas, e fui de escuna. Mas justamente a viagem em sí foi uma das melhores partes, pois o staff do navio (garçons, marinheiros e guias) era ótimo e a viagem toda aconteceu ao som de um grupo de samba.

A Ilha dos Frades é uma grande ilha dentro da Baia de Todos os Santos onde se encontram três pequenos vilarejos. A praia principal, que fica na Vila de Nossa Senhora de Guadalupe, é muito bonita e é onde está localizada a Igreja erguida em homenagem à santa. Vale a pena subir os mais de 100 degraus até a igreja para ter uma visão completa da praia. Diferentemente das praias de Salvador, na Ilha a água é limpa e com uma temperatura bem agradável. Após uma hora e meia na Ilha, voltamos à escuna para rumar à Ilha de Itaparica.

Lagoa do Abaeté

Lagoa do Abaeté

A Ilha de Itaparica já é praticamente uma cidade, porém ficamos em uma praia afastada, em um restaurante “pé na areia”. Existia a possibilidade de fazer um city tour pela ilha, mas preferi ficar por lá mesmo. Ali também o mar era bem limpo e calmo e a temperatura da água era até quente demais.

Após uma descansada rápida, desta vez resolvi ir mais cedo para a região do Rio Vermelho, para pegar algum bar. Seguindo recomendação de um amigo, resolvi ir no Red River Café. É um barzinho no estilo Vila Madalena, bem no local onde o rio que dá nome ao bairro se encontra com o mar. Tem uma área externa, onde paga-se somente o que consumir e uma parte fechada, onde estava ocorrendo o show Brasilady, da cantora Amanda Santiago, que é apadrinhada de Carlinhos Brown e já foi vocalista da Timbalada.

Igreja Nossa Senhora de Guadalupe

Igreja Nossa Senhora de Guadalupe

Gostei bastante do show, que é baseado em versões “abaianadas” de clássicos da música popular brasileira e também em composições próprias da artista. E claro que terminou em axé! Se estiver na Bahia e estiver rolando o show Brasilady, ou se “topar” com o show em algum outro local, eu recomendo.

No domingo, depois de comprar alguns souvenirs, aproveitei para conhecer a Fonte Nova em um jogo do Bahia pelo campeonato Baiano. O estádio é bonito, confortável e limpo, realmente padrão internacional (nem poderia ser diferente, pois foi usado na Copa do Mundo). É muito bom você ter bandeiras e baterias nos estádios e poder tomar uma cerveja, coisa que em São Paulo não existe mais. O jogo em sí também foi bom, mas é triste ver como o Brasileiro deixou de curtir futebol e aquele belo estádio estava com pouco mais de 8 mil pessoas em um jogo das oitavas de final do Baianão.

Bem, havia falado no início do texto que a cidade havia me despertado sentimentos dúbios e agora explico: realmente a cidade tem muita história (que particularmente me interessa) e alguns pontos de belezas naturais bem interessantes, porém o lado que eu não gostei muito foi a enorme quantidade de pedintes e vendedores de bugigangas, muitos destes mal intencionados e querendo levar vantagem. Muita gente se incomoda pelo fato de ser abordado em sí, mas o meu incômodo foi causado por existir tanta gente na cidade em situação de rua e na dependência de subempregos para sobreviver, quando não de atos ilícitos. Acho que não tinha visto tanta gente nesta situação antes, em nenhum dos lugares para onde já viajei, dentro ou fora do Brasil.

Igreja e Convento de Sao Francisco

Igreja e Convento de Sao Francisco

Outra coisa que me incomodou também foi que, apesar de ser a “cidade mais negra do Brasil” (estima-se que pelo menos 60% da população de Salvador seja composta por negros), existe um abismo enorme na situação dos negros em comparação com as demais etnias. Você nota claramente que os donos dos negócios, em sua grande maioria, são brancos (ou gringos) e os funcionários negros. Dentre este pessoal em situação de rua, a totalidade é composta por negros. No bar em que eu fui e nos outros lugares (restaurantes, bares, passeios, etc) que eu reparei, raramente existia um negro como cliente e quando existia eram turistas. Existe uma situação de “apartheid” muito grande lá, mais do que no restante do pais.

Tem gente que tira férias e consegue “abstrair” e focar somente na diversão, mas como para mim uma das principais experiências de viagem é justamente conhecer o povo do local, não consigo não me incomodar com algumas situações como esta. Tomara que da próxima vez que for à Bahia a situação tenha melhorado ao menos um pouco.

Fonte Nova

Fonte Nova

Observações, dicas e considerações:

  • A não ser que a grana esteja bem curta, não aconselho ficar hospedado no Pelourinho. Ficar na Barra, que fica mais próximo a algumas praias ou no Rio Vermelho, que é onde fica a vida noturna, é mais vantajoso.
  • Mas se a grana estiver curta e a hospedagem tiver que ser barata, sugiro o Hostel e Pousada País Tropical. O Staff é muito bom, os quartos são limpos e o café da manhã é até acima da média para um hostel. A única coisa ruim era o chuveiro, que tem apenas duas temperaturas: gelado Alaska ou quente inferno.
  • O Pelourinho é um tanto quanto perigoso (mais do que o Centro de São Paulo ou do Rio), especialmente à noite. Apesar de muito policiamento, ocorrem alguns furtos, especialmente de correntes e gargantilhas, portanto, evite usá-las (ou relógio), além de ficar dando mole com celular e máquina fotográfica (depois das 22:00 nem pense em levar máquina fotográfica).
  • Quando alguém te oferecer uma “fitinha do Bonfim” de graça, pode se preparar para dar uns 5 reais à pessoa….hahaha
  • Não sei se todos os passeios de barco são parecidos, mas aconselho a fazer o passeio às ilhas através da Apolônio Turismo (o quiosque deles fica no terminal de embarque em frente ao Mercado Modelo) e preferencialmente de escuna.
  • Achei o táxi um tanto caro lá. 120 reais do aeroporto até o Pelourinho (ok! É longe, mas não mais que Guarulhos do Centro de SP), 40, 50 reais do Pelourinho até o Rio Vermelho. Se for possível, tente pegar uma “coletividade” com um taxista e negociar preços prévios.
  • Se estiver sozinho e a grana estiver curta, a melhor opção durante o dia é o ônibus mesmo.
  • Para quem gosta de futebol, conhecer a Fonte Nova e assistir um jogo do Baêa é bem interessante.
  • Aliás, acho que o Vitória foi algo inventado pelo Bahia para que eles possam um adversário. Não vi um torcedor do Vitória, não vi bandeiras em bares, carros, pessoas com camisa, nada. Para não falar que não vi nada sobre o Vitória, quando chega na cidade o avião passa sobre o Barradão e é possível vê-lo quando se está do lado esquerdo da aeronave.

Be happy 🙂

Baia de Todos os Santos

Baia de Todos os Santos