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Wanderlust #18 – Cuba: história, economia e política (e minha opnião sobre tudo isto)

Cuba 01Eu sempre achei que extremismos são sempre ruins e, via de regra, quando alguém tem alguma opnião extrema sobre algo ele está errado. O mundo não é 0 e 1, não é preto e branco. Isto sempre me levou a ter uma curiosidade em conhecer os países socialistas, já que nunca achei que estes países fossem o inferno pregado pelos capitalistas e muito menos o paraíso pregado pelos socialistas/comunistas. Então resolvi aproveitar antes que o regime em Cuba caia (ou se adapte) para conhecer o país.

Mas antes de entrar nos detalhes da viagem, acho necessário entender um pouco o país. Porém antes da vaca fria vou dar alguns aviso para os meus poucos leitores:

  1. O texto vai ficar longo e não quero quebra-lo em partes, então prepare-se.
  2. As informações históricas eu retirei do guia que comprei, de informações obtidas lá e de algum ou outro site. Não vou ficar checando fonte, origem ou procurar opniões diferentes já que devem existir inúmeros livros, com inúmeros pontos de vista sobre a história e a atual situação cubana.
  3. Invariavelmente irei fazer paralelos da história e atual situação com os livros “A revolução dos bichos” e 1984, ambos do George Orwell.
  4. E mais importante: se você for um capitalista/anti-comunista fanático, você com certeza vai discordar de metade das minhas opniões e informações. Se você for um comunista/anti-capitalista (neste caso fanático seria redundância) também vai discordar de metade das minhas opniões. Minha sugestão: viaje a Cuba e tire suas próprias.

História
A Ilha de Cuba foi descoberta em 1492 por Cristóvão Colombo e foi anexada à Espanha em 1510. Durante a colonização da Ilha, as 3 tribos que a habitavam então foram dizimadas. Porém os espanhóis não encontraram o que procuravam na ilha (ouro e especiarias) e a abandonaram, preferindo explorar a parte continental das Américas.

Durante a exploração do continente e a necessidade de transporte dos bens até a Europa, Cuba passou a ser um ponto estratégico importante do ponto de vista logístico (talvez isto também explique o interesse do Brasil, Canadá, Alemanha e Espanha em investir no Porto de Mariel) e como primeiro ponto de defesa das outras colônias. Durante esta época, a Ilha era alvo constante de ataques de piratas e também neste mesmo período  iniciou-se a inserção de escravos trazidos da África.

No verão de 1762 a ilha foi finalmente conquistada pelos Ingleses após alguns anos de ataques mas foi logo devolvida à Espanha com a assinatura do Tratado de Paris, de 1763, em troca da Flórida. Foi quando ocorreu o que poderia se chamar de “segunda colonização da ilha”: devido ao incremento do comércio do açúcar a ilha passou a ser usada para produzir este bem. Isto também gerou uma onda ainda maior do comércio de escravos.

A cultura de cana de açúcar trouxe uma parte da aristocracia espanhola para a ilha, o que ajudou a moldar a cultura e, principalmente, a arquitetura. A mistura das culturas (e dos genes) dos espanhóis e dos africanos deu origem à cultura criola. Em meados de 1830 Cuba era o maior produtor mundial de açúcar e metade da sua população era composta por negros (libertos e escravos). A ilha já era habitada pela segunda, às vezes terceira geração dos decendentes dos colonizadores, que se sentiam mais cubanos do que espanhóis e que já almejavam uma independência. Para tanto, eles precisavam contar com a ajuda dos escravos e por isto a luta pela independência de Cuba aconteceu em conjunto com a luta pelo fim da escravidão. Depois de algumas guerras, a Espanha conseguiu subjulgar os rebeldes, que foram exilados nos EUA (o que viria a servir para estreitar as relações destes com os EUA) e, em 1886 a escravidão foi abolida como parte de um “pacote” que a Espanha prometera para aplacar os ímpetos dos rebeldes.

As guerras contra a Espanha foram retomadas em 1895 e em 1898, quando os cubanos já haviam praticamente vencido a Espanha, o cruzador Maine (que fora enviado à baia de Havana para proteger cidadãos e propriedades americanas em Cuba) explodiu misteriosamente, matando 250 marinheiros americanos. Os americanos culparam os espanhóis e encontraram uma razão para entrar na guerra. Em julho a frota espanhola foi finalmente derrotada pela frota americana e em dezembro do mesmo ano um acordo entre a Espanha e os EUA selou o fim do domínio colonial da Espanha nas Américas. Acordo este que não incluiu os cubanos e que, na prática, apenas transferia o domínio da colônia aos americanos. Alguns conflitos se seguiram e em 1901 uma assembléia aprovou a primeira constituição cubana e finalmente o primeiro presidente cubano tomou posse, apesar de ainda existirem fortes vínculos com os EUA.

A independência cubana finalmente aconteceu em 20 de maio de 1902, porém o país ainda viveria algumas décadas sob forte influência norte americana, que em várias oportunidades enviariam fuzileiros com o pretexto de proteger cidadãos e propriedades americanas.

Nos primeiros 20 e poucos anos da República Cubana, alguns avanços foram alcançados, tais como: educação pública gratuíta, liberdade de associação e expressão, separação entre Igreja e Estado. A cultura de cana de açúcar se tornou praticamente a única atividade econômica de Cuba, o que beneficiava alguns, porém a grande maioria não se beneficiou e não via muita diferença entre ser colônia e ser um país independente. Em 1925 surgiram os primeiros sindicatos e o Partido Comunista Cubano. Neste mesmo ano, Gerardo Machado tornou-se presidente e viria a alterar a constituição para poder governar por mais um mandato, o que fez com tirania e violência.

A situação do povo piorou ainda mais com a grande depressão e após uma longa greve geral e a perda do apoio do exército, Machado fugiu. À partir dai, vários presidentes, considerados apenas marionetes do Sargento Fulgêncio Batista, se revezaram no poder. Durante este tempo algumas reformas foram implementadas, como a jornada de oito horas diárias e o voto feminino. Em 1952 Batista deu um golpe, se tornando presidente e durante esta década ele praticamente vendeu a Ilha aos americanos (especialmente aos mafiosos). Cuba se tornou um puteiro onde os americanos iam jogar, consumir drogas e contratar prostitutas.

Carretera Sibonay e o um dos memoriais aos rebeldes executados após o assalto ao Cuartel de Moncada

Carretera Sibonay e o um dos memoriais aos rebeldes executados após o assalto ao Cuartel de Moncada

Em 1953 o jovem advogado Fidel Alejandro Castro Ruz denunciou a ilegitimidade do governo de Batista à magistratura. Como isto não surtiu efeito, Fidel alugou um pequeno sítio em Sibonay, na grande Santiago de Cuba, e organizou ali uma revolta. Em 26 de Julho de 1953, no último dia do Carnaval cubano (Santiago é famosa por seu carnaval), tentando se aproveitarem do estado de embriaguez dos soldados, os rebeldes tentaram um assalto ao Cuartel de Moncada. Dos 159 rebeldes então instalados no sítio, 155 participaram da empreitada (4 desistiram) que acabou por fracassar, já que os soldados que estavam em Moncada, além de terem um arsenal melhor, estavam entrincheirados. Além disto, vários dos carros que levariam combatentes e armamento se perderam em Santiago pelo fato dos ocupantes não conhecerem a cidade. 6 rebeldes morreram durante o ataque e 55 deles foram mortos posteriormente. Para “disfarçar” as execuções sumárias, o exército de Batista espalhou os corpos destes 55 rebeldes pela Carretera de Sibonay, a estrada onde se encontrava o sítio e que terminava em Santiago. Hoje em dia existem memoriais para estes rebeldes, nos lugares onde os corpos foram abandonados, em que constam somente o primeiro nome e a profissão de cada um dos executados.

Fidel foi preso, junto com seu irmão Raul. Após dois anos de prisão uma anistia foi concedida e os dois foram exilados no México, onde viriam a conhecer o jovem médico argentino Ernesto “Che” Guevara. Juntos com Che e contando com a ajuda de outros exilados e de rebeldes ainda presentes na Ilha eles organizaram novamente a revolução. Raul, Fidel, Che, Camilo Cienfuegos e mais 78 membros da revolução embarcaram no iate Granma (projetado para 12 pessoas) em 25 de novembro de 1956 com destino as Playas Coloradas, no leste de Cuba (conhecido como oriente entre os cubanos). A chegada estava prevista para 30 de novembro porém,  devido a alguns contratempos o navio só chegou à costa cubana no dia 2 de dezembro e três dias depois foi atacado pelas tropas de Batista, onde grande parte dos rebeldes foi  morta (durante a batalha ou posteriormente). Alguns poucos, entre eles Fidel, Raul, Che e Camilo conseguiram escapar e se refugiar na Sierra Maestra onde camponeses, estudantes e desertores do exército regular se juntaram à eles para reorganizar a guerrilha. Eles ficaram conhecidos como “barbudos”, pois no meio da selva e com outras coisas para se preocupar, deixaram de se barbear.

A crescente insatisfação do povo com os demandos de Batista, em conjunto com a “conscientização” da população feita através da Rádio Rebelde, uma rádio pirata montada por Che e que transmitia os ideiais da revolução, fez com que, após dois anos de guerrilhas e conquistando cada espaço, a revolução conseguisse dominar as principais cidades cubanas (praticamente o leste de Cuba inteiro). Em outubro de 1958, a coluna liderada por Che e Cienfuegos parte rumo ao oeste e consegue tomar Santa Clara (que fica a 300 kilômetros de Havana) em 31 de dezembro. Batista foge para Santo Domingo, Fidel entra em Havana em 8 de janeiro de 1959 e é aclamado primeiro-ministro.

Uma grande campanha contra o analfabetismo é a grande primeira bandeira dos novos governantes, que consegue extinguir o analfabetismo em pouco tempo. Outro passo foi uma reforma agrária, só que para que isto acontecesse, muitas propriedades de latinfundiários norte americanos foram nacionalizadas, o que iniciou as hostilidades entre os dois países e fez com que, em outubro de 1960, os EUA declarassem um boicote econômico, bloqueando a exportação de petróleo para Cuba e a importação de açúcar cubano. Isto só fez estreitar as relações de Cuba com os países da cortina de ferro, alinhados ideológicamente. Preocupado com a influência soviética, os EUA patrocinam uma tentativa de invasão à Cuba, que ficou conhecida como o “incidente da baia dos Porcos” (Playa Girón), no qual os contra revolucionários foram derrotados, o que acirrou mais as animosidades. Oito dias depois, o presidente Kennedy declarou um embargo comercial à Cuba, no que foi seguido por quase todos os países das Américas, com exceção do Canadá e do México. Desta vez as relações diplomáticas também foram cortadas.

Raul assina com Kruschov, no mesmo ano, um tratado para instalação de mísseis nucleares na ilha e, um ano mais tarde, quandos os EUA descobrem a presença destes mísseis, ocorre a famosa “Crise dos Mísseis”, talvez o momento em que a humanidade talvez esteve mais perto da extinção por conta de uma guerra nuclear.

Em 1980 Cuba abre as portas do turismo para cidadãos de países não alinhados com o comunismo. Em 1990, logo após o colapso do comunismo, Cuba enfrenta um dos períodos mais difíceis da sua história, o que persistiu até 1994.

Desde então, muito por influência de Raul Castro, mesmo antes deste assumir a presidência do país, Cuba vem implementando algumas reformas, como a possibilidade de negócios privados, a permissão do uso do dólar no país (afim de incrementar o turismo) e, mais recentemente, temos visto uma aproximação de Cuba com os EUA que tende, num futuro bem próximo, a resultar no fim do embargo comercial.

Política
O primeiro ponto a citar aqui é que: sim, os cubanos votam! Existem conselhos de bairro onde os representantes são eleitos através do voto direto. Para o legislativo nos níveis municipal, de províncias (o equivalente aos estados brasileiros) e mesmo no federal, os representantes são eleitos através de voto direto. Para os cargos executivos, as eleições acontecem através destas câmaras (municipais, provinciais e nacionais), como acontece em algumas outras democracias.

Isto quer dizer que Cuba é uma democracia? Também não! Dois dos principais pilares dos sistemas democráticos de fato são a liberdade para criar associações (sindicatos, partidos, conselhos, etc) e a liberdade de expressão e isto, infelizmente, não existe em Cuba. Toda associação política deve ter prévia aprovação do PCC, o Partido Comunista Cubano, que é o único partido político, ou seja, você vota, mas somente em membros de um mesmo partido e que, por razões óbvias, compartilham da mesma ideologia.

Além disto, existem diversas restrições quanto à liberdade de expressão e liberdades individuais: o cubano precisa de autorização para deixar o país e tem muitas, mas muitas restrições no que se refere ao acesso à informação. Todos os canais de TV e as estações de rádio são estatais, assim como os jornais e revistas. A Internet é inacessível à maioria dos cubanos por conta do custo. Mesmo aqueles que conseguem ter acesso à Internet são impossibitados de usar e-mail (a não ser para fins estritamente comerciais) e de acessar diversos sites, que são previamente bloqueados.

Economia
Talvez este seja o ponto mais complicado de entender.

A moeda oficial em Cuba é o Peso Cubano (CUP), que é utilizado para pagar salários e consequentemente para que a população local adquira bens de consumo. Porém, como o CUP é muito desvalorizado em relação à outras moedas (vale cerca de 25 vezes menos que o Euro e 8 vezes menos que o Real) e como boa parte dos bens, especialmente os industrializados, é importado, o governo subsidia uma grande parte dos bens básicos necessários à população. Como a grana do Estado geralmente é curta na maioria dos países, e também para evitar que pessoas que não precisem deste subsídio (turistas e os trabalhadores do turismo, que ganham gorjetas em CUCs, já falo dele) se aproveitem dos subsídios, o governo utiliza um sistema de cupons de racionamento.

Com a abertura e a expansão do turismo na ilha, os preços para turistas eram cobrados em dólar, afim de trazer divisas para o país, e isto começou a fazer com que muitos dólares começassem a circular pela ilha. Para reduzir a circulação de dólares, o governo criou em 2004 o Peso Conversível (CUC, que mantem uma certa paridade com o Euro).

Através dos cupons (na verdade cadernetas) cada cidadão cubano tem direito a, por exemplo, 1 frango a cada quinzena, um quilo de arroz, duas latas de pescado enlatado e meio litro de óleo a cada dez dias, e por ai vai. Qualquer coisa acima da cota teria que ser comprada em mercados que operam sem subsídios e em CUCs, o que invariavelmente torna o bem muito caro. Além disto, alguns bens não são subsidiados e se tornam inviáveis para um cubano que obtenha uma renda apenas em CUPs.

Para exemplificar: um médico cubano ganha cerca de mil pesos cubanos mensais (1000 CUPs), o que equivale em CUCs (ou Euros) a apenas 40. Em 2009 o governo liberou a importação de carros usados para a ilha. Supondo que um carro seja vendido a 5000 CUCs/Euros, um médico teria que trabalhar 125 meses, ou quase 10 anos e meio, para conseguir comprar um carro.

Uma cerveja em um mercado que não vende bens subsidiados custa cerca de 1 CUC, o que para muita gente corresponde a 10% do salário. Eu tomei um sorvete na ótima sorveteria Copellia (se tem uma coisa que Cuba poderia exportar é sorvete, muito bons) e paguei 1 peso cubano/CUP (alguns bens que são produzidos na ilha não são subsidiados e portanto, não são racionados), ou o equivalente a 4 centavos de CUC/Euro, apenas R$ 0,12.

Esta diferença acabou por criar uma nova classe social em Cuba (“todos os animais são iguais, mas alguns animais são mais iguais que outros”, vide Revolução dos Bichos), a dos trabalhadores do turismo, que eventualmente cobram em CUCs e também recebem gorjetas nesta moeda. Um taxista pode em apenas 2 ou 3 corridas ganhar o que ganha um médico por mês. Esta “classe social” em conjunto com o núcleo central do PCC e mais alguns funcionários de alto escalão (vide 1984), especialmente os dirigentes políticos e os militares (os porcos e os cães, vide Revolução dos Bichos novamente), mostra que mesmo em um sistema que pretende eliminar as diferenças de classes, acaba por criar outras.

O que eu acho de tudo isto?
Em um artigo na Feedback Magazine em novembro de 2013 (leia aqui) eu disse que “a diferença entre revolução e golpe é apenas de perspectiva: se vai de encontro aos seus ideais, você enxerga como revolução, se vai contra, como golpe.” (esta frase um dia será usada como citação….hahaha). A “revolução” que houve em Cuba no final da década de 50 apenas substituiu uma ditadura por outra. Qual delas foi mais cruel ao combater seus inimigos, nunca se saberá. Ao menos uma coisa é certa: ao menos Fidel e os líderes da revolução sempre foram machos e sempre estiveram no front de batalha, ao contrário de muitos outros ditadores, que sempre sentaram a bunda em uma cadeira de um belo escritório, muito bem protegido, enquanto os “peões” literalmente se matavam para garantir o poder à estes e, no caso específico do Batista (mas cabe a muitos outros déspotas), quando vêm que a coisa vai apertar, tratam de fugir.

Não se pode negar os avanços sociais conseguidos pelo governo socialista cubano: erradicação do analfabetismo, erradicação de várias doenças que ainda assolam outros países, inclusive o Brasil (Malária, Dengue e Febre Amarela, por exemplo), a segunda menor taxa de mortalidade infantil e a maior expectativa de vida das Américas (perde apenas para o Canadá em ambos os critérios). Só que também não se pode negar que alguns destes números já eram muito baixos mesmo durante a época de Batista: a taxa de mortalidade infantil já era a segunda menor na década de 50 e a expectativa era a 5ª menor na mesma década (além de Canadá, só ficava abaixo de EUA, Uruguai e Argentina, mas muito à frente da média da América Latina e do Brasil).

A falta de democracia plena, do acesso pleno à informação e a liberdade de expressão provavelmente são hoje os maiores problemas de Cuba. Como disse Carl Sagan no ótimo “O Mundo Assombrado pelos Demônios” (tem uma resenha minha aqui), a falta de liberdades de expressão e acesso à informação tolhe o pensamento crítico, que é base para as descobertas científicas que geram desenvolvimento. E como conclui Thomas Piketty no também ótimo “O Capital no Século XXI” (ainda estou lendo), a produção e disseminação de conhecimento é o fator que reduz as diferenças sociais, tanto dentro de um país, quanto entre países (eu já tinha chegado à esta conclusão quando estive na Alemanha, está neste artigo). O problema porém é que com liberdades vêm os questionamentos, e ai seria impossível manter o regime como hoje.

As pessoas de Santiago de Cuba, a segunda maior cidade de Cuba, com apenas 500 mil habitantes e com um fluxo bem menor de turistas ainda têm uma enorme fé no socialismo e acreditam piamente que o PCC sempre faz o melhor para eles. Porém, os habitantes de Havana, que têm muito mais contato com turistas, ou seja, de uma forma rudimentar têm um acesso maior à informação, já começam a questionar se o sistema é realmente bom.

Se até pouco tempo atrás eles viam apenas Europeus e Norte Americanos desfilando pela cidade e consumindo somas inimagináveis de dinheiro para um cubano comum (como disse, 1000 Euros são 25 salários de um médico), nos últimos 15 anos eles têm vistos Panamenhos, Costa Riquenhos, Brasileiros, Mexicanos, e outros latinoamericanos com o mesmo poder aquisitivo e capacidade de consumo dos antigos “imperialistas” e agora questionam a razão pela qual eles (os cubanos comuns) só podem comer pescados enlatados, enquanto os turistas podem comprar pescados frescos, além de acesso à outros bens, muitas vezes básicos para nós (um isqueiro, uma caneta, um batom, um sabonete).

O cubano com quem conversei e que levantou a questão do pescado tem a esperança de que quando o embargo americano for retirado, os americanos irão em peso investir na ilha, especialmente na industria açucareira, que se deteriorou durante o regime socialista. Porém, me questiono se os americanos estariam dispostos a aceitar o risco de investir no país sem a certeza de que regras serão respeitadas, já que eles já passaram no passado por expropriações e nacionalizações promovidas pelo mesmo regime. E se decidirem investir, qual a taxa de retorno que esperam para compensar estes riscos.

É claro que, após o fim do embargo (que está muito próximo, acredito eu), o fluxo de turistas americanos irá aumentar muito (hoje em dia um americano que queira ir à Cuba tem que comprar passagem em outro país), o que invariávelmente traria um fluxo alto de dinheiro para a ilha durante algum tempo (até passar o fator novidade). Porém creio que o embargo é o menor dos problemas de Cuba, já que eles têm relações comerciais com quase todos os outros países e mesmo assim ainda é um país que carece de muitos bens hoje comuns à maioria dos outros latinoamericanos.

Agora, existem três coisas que os cubanos têm e que são de causar inveja a nós, brasileiros. A primeira delas é educação: todo cubano passa ao menos 11 anos na escola e todo cubano têm acesso à educação superior, totalmente gratuitos. Aliás, o Brasil precisa rever o seu modelo educacional: creio que em nenhum dos países desenvolvidos a educação fundamental e média é um negócio que visa lucro e em pouquíssimos casos o ensino superior também tem esta função “capitalista” (mesmo nos EUA as Universidades, em sua maioria, são fundações sem fins lucrativos e qualquer mensalidade, que normalmente é paga somente por estrangeiros, é revertida em prol da própria instituição).

A segunda é o acesso à saúde. Qualquer cubano tem tratamento médico de alta qualidade, já que a medicina e a indústria farmacêutica cubana, ambas estatais, estão reconhecidamente entre as melhores do mundo. Como já citei, a taxa de mortalidade e a expectativa de vida em Cuba ficam à frente dos EUA, não se morre em Cuba, por exemplo, de diarréia (como ocorre nos rincões do Brasil), 98% das casas são atendidas por esgoto e 91% têm água potável encanada. Só para citar alguns dados.

O terceiro fator em que Cuba é diferenciada é de causar muita inveja, não só a Brasileiros, mas a americanos e europeus também: a segurança em Cuba é uma coisa impressionante! Você pode andar de madrugada por qualquer lugar sem nenhum problema. Pode deixar seu celular em cima da mesa de um restaurante sem ter que ficar vigiando. Pode, estando na praia, deixar sua câmera fotográfica na cadeira e ir dar um mergulho, que quando voltar ela estará lá. Nos primeiros dias você até pergunta ao garçom se pode deixar um óculos em cima da mesa enquanto vai ao buffet se servir e ele dá risada, já que não passa pela cabeça dele qual seria o problema. E apesar disto não se têm uma sensação de que se está sendo vigiado. O que eles não têm e que temos de sobra aqui no Brasil é a sensação de impunidade.

Que os cubanos tem suas dificuldades isto é óbvio, mas é óbvio também que eles têm muitas benesses (educação, segurança, saúde) e que, a seu modo, vivem uma vida relativamente confortável. Lhes falta muita coisa, mas não creio que os cubanos, no geral, sejam mais pobres ou vivam em piores condições do que os moradores das periferias das grandes cidades brasileiras, como São Paulo ou Rio. Aliás, fui à Salvador no final de março e garanto que Cuba não é mais pobre que a Bahia.

Be happy! 🙂

Cuba 03

Wanderlust #17 – Salvador, Bahia, Brasil

Elevardor Lacerda e Mercado Modelo, com a Baia de Todos os Santos ao fundo!

Elevardor Lacerda e Mercado Modelo, com a Baia de Todos os Santos ao fundo

Há tempos vinha querendo conhecer a Bahia e resolvi aproveitar o feriado do padroeiro de São José dos Campos para iniciar meu contato com a Bahia por Salvador. Mas a cidade me despertou sentimentos dúbios, dos quais falarei mais tarde. Primeiro vamos à um “giro” durante estes quatro dias.

Basílica do Senhor do Bonfim

Basílica do Senhor do Bonfim

A revista da Avianca que havia no avião trazia justamente uma reportagem sobre Salvador e foi interessante já ter umas primeiras impressões sobre a cidade, algumas dicas de pontos turísticos, etc. Durante a aproximação do avião à Salvador o que mais me chamou a atenção, ao olhar a cidade de cima, é a quantidade de favelas. Não aquelas favelas antigas feitas de barracos de madeira com teto de zinco, mas uma quantidade enorme de casas sem acabamento, especialmente nos morros.

Após chegar no hostel, que ficava no Largo do Pelourinho, e fazer o check in, aproveitei a tarde da quinta feira para conhecer a região do Pelourinho, passando pela Praça Terreiro de Jesus, Praça da Sé e me dirigi ao elevador Lacerda para seguir para a cidade baixa. Somente neste caminho pude realmente comprovar a quantidade enorme de igrejas existentes em Salvador (dizem que mais de 300!). Quanto ao elevador Lacerda, apesar de ser considerada uma atração turística, não tem nada demais: é apenas um elevador para que as pessoas evitem subir e descer as ladeiras e becos entre a cidade alta e a baixa.

Lagoa do Abaeté

Lagoa do Abaeté

Depois do elevador fui conhecer o Mercado Modelo, que é basicamente uma feira de artesanato e é uma boa opção para comprar souvenirs, tendo inclusive preços melhores do que as lojas do Pelourinho. Após uma passada rápida pelo mercado havia planejado andar até a Igreja do Nosso Senhor do Bonfim pela orla. Só não sabia que a praia neste pedaço da cidade é inacessível, já que existem portos, construções, etc. A ida à pé não vale a pena como passeio turístico. Vale para ver a Salvador que não é feita para turista (e que é pobre) e mais algumas igrejas distribuidas pelo caminho. Além de notar que, depois de igrejas, o que mais existe em Salvador são escolas. Após uma hora de caminhada debaixo de um sol de mais de 30 graus, cheguei à Ladeira do Bonfim, que dá acesso ao Largo e à Igreja, que é simples, mas bonita, tanto externamente quanto internamente. Para quem acredita, vale amarrar uma fitinha nos portões e fazer os três pedidos (um para cada nó). O visual do Largo e da Igreja deve ser interessante à noite também.

Praia de Piatã

Praia de Piatã

Depois da visita tomei um táxi para voltar ao Mercado Modelo e almoçar por lá. Após o almoço, mais uma caminhada pela orla, agora no sentido norte, passando pela Baia Marina e o Museu de Arte Moderna da Bahia. Como já tinha realizado a programação do dia, peguei o Beco do Sodré (uma bela escadaria) para voltar à cidade alta, passando pela Ladeira da Preguiça (vizinha ao beco). Ambos desembocam na famosa Praça Castro Alves, que também tem mais uma Igreja (Nossa Senhora da Barroquinha) e fica próxima ao Mosteiro de São Bento (só ai já tinha passado ou visitado pelo menos umas 20 igrejas). Resolvi parar num bar (em frente à Igreja e Convento de São Francisco) para tomar algumas cervejas.

Para tomar umas cervejas à noite, seguindo recomendação de uma das atendentes do hostel, fui até a Cantina da Lua, que fica na Praça Terreiro de Jesus e oferece música ao vivo todos os dias. Como era uma quinta, estava rolando ritmos latinos com uma boa banda. Infelizmente a comida lá não é boa e só tinham cerveja Schin mas quebrou o galho num dia de semana.

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos

No outro dia levantei cedo para continuar a conhecer a cidade. Caminhei no sentido contrário do Circuito Campo Grande dos trios elétricos da Praça Castro Alves até a Barra, que é o ponto de partida do circuito Barra-Ondina. O Farol da Barra e as duas praias que o cercam são bem bonitas. O visual da entrada da Baia de Todos os Santos   também impressiona pela beleza e imponência. Preferi não pagar os R$ 12,00 reais de entrada para o farol, que hoje abriga o Museu Náutico da Bahia e rumei para a Lagoa do Abaeté.

A Lagoa é bonita, mas pelo que eu tinha visto por fotos imaginava uma lagoa bem maior, cercada por barraquinhas, como se fosse uma praia de água doce. Até existe uma infraestrutura e estavam testando um sistema de som, provavelmente para alguma apresentação ao vivo à noite, mas durante o dia estava vazia. De qualquer forma, o visual da água azul esverdeada da lagoa, com a areia branca que o cerca e mais a vegetação é belo. Pena que havia um bando de Urubus ali para estragar a paisagem.

Ilha dos Frades

Ilha dos Frades

Da Lagoa até a famosa praia de Itapuã a distância é de apenas 15 minutos de caminhada e me dirigi até a famosa praia afim de “passar uma tarde em Itapuã”, como diria Vinicius, mas infelizmente desta vez não deu pois a orla estava toda em reforma. Então acabei andando mais uns 2 kilômetros atá a praia de PIatã, que já havia achado interessante no caminho de ida, principalmente por ser cercada de coqueiros e ser mais distante da avenida beira mar. Ali parei para tomar umas cervejas e algumas caipirinhas. Esta é uma praia que eu aconselho a passar algumas horas, apesar do mar ser um pouco sujo. Também é ótima pedida para surfistas, especialmente no final da tarde.

De volta ao hostel para uma descansada para depois ir até o bairro Rio Vermelho, a região boêmia de Salvador, para ver o movimento. Infelizmente acabei descansando demais, chegando no Rio Vermelho quase meia noite, horário em que os bares começam a ficar menos movimentados. Como não estava afim de pegar balada (nem levei roupa para isto), só comi uma pizza (muito boa!) e voltei para o hostel, pois tinha agendado um passeio de barco para o outro dia de manhã.

Ilha de Itaparica

Ilha de Itaparica

No sábado levantei cedo para fazer o passeio pelas Ilhas do Frade e de Itaparica. Felizmente não consegui vaga no Catamarã, que faria uma viagem mais rápida até as ilhas, e fui de escuna. Mas justamente a viagem em sí foi uma das melhores partes, pois o staff do navio (garçons, marinheiros e guias) era ótimo e a viagem toda aconteceu ao som de um grupo de samba.

A Ilha dos Frades é uma grande ilha dentro da Baia de Todos os Santos onde se encontram três pequenos vilarejos. A praia principal, que fica na Vila de Nossa Senhora de Guadalupe, é muito bonita e é onde está localizada a Igreja erguida em homenagem à santa. Vale a pena subir os mais de 100 degraus até a igreja para ter uma visão completa da praia. Diferentemente das praias de Salvador, na Ilha a água é limpa e com uma temperatura bem agradável. Após uma hora e meia na Ilha, voltamos à escuna para rumar à Ilha de Itaparica.

Lagoa do Abaeté

Lagoa do Abaeté

A Ilha de Itaparica já é praticamente uma cidade, porém ficamos em uma praia afastada, em um restaurante “pé na areia”. Existia a possibilidade de fazer um city tour pela ilha, mas preferi ficar por lá mesmo. Ali também o mar era bem limpo e calmo e a temperatura da água era até quente demais.

Após uma descansada rápida, desta vez resolvi ir mais cedo para a região do Rio Vermelho, para pegar algum bar. Seguindo recomendação de um amigo, resolvi ir no Red River Café. É um barzinho no estilo Vila Madalena, bem no local onde o rio que dá nome ao bairro se encontra com o mar. Tem uma área externa, onde paga-se somente o que consumir e uma parte fechada, onde estava ocorrendo o show Brasilady, da cantora Amanda Santiago, que é apadrinhada de Carlinhos Brown e já foi vocalista da Timbalada.

Igreja Nossa Senhora de Guadalupe

Igreja Nossa Senhora de Guadalupe

Gostei bastante do show, que é baseado em versões “abaianadas” de clássicos da música popular brasileira e também em composições próprias da artista. E claro que terminou em axé! Se estiver na Bahia e estiver rolando o show Brasilady, ou se “topar” com o show em algum outro local, eu recomendo.

No domingo, depois de comprar alguns souvenirs, aproveitei para conhecer a Fonte Nova em um jogo do Bahia pelo campeonato Baiano. O estádio é bonito, confortável e limpo, realmente padrão internacional (nem poderia ser diferente, pois foi usado na Copa do Mundo). É muito bom você ter bandeiras e baterias nos estádios e poder tomar uma cerveja, coisa que em São Paulo não existe mais. O jogo em sí também foi bom, mas é triste ver como o Brasileiro deixou de curtir futebol e aquele belo estádio estava com pouco mais de 8 mil pessoas em um jogo das oitavas de final do Baianão.

Bem, havia falado no início do texto que a cidade havia me despertado sentimentos dúbios e agora explico: realmente a cidade tem muita história (que particularmente me interessa) e alguns pontos de belezas naturais bem interessantes, porém o lado que eu não gostei muito foi a enorme quantidade de pedintes e vendedores de bugigangas, muitos destes mal intencionados e querendo levar vantagem. Muita gente se incomoda pelo fato de ser abordado em sí, mas o meu incômodo foi causado por existir tanta gente na cidade em situação de rua e na dependência de subempregos para sobreviver, quando não de atos ilícitos. Acho que não tinha visto tanta gente nesta situação antes, em nenhum dos lugares para onde já viajei, dentro ou fora do Brasil.

Igreja e Convento de Sao Francisco

Igreja e Convento de Sao Francisco

Outra coisa que me incomodou também foi que, apesar de ser a “cidade mais negra do Brasil” (estima-se que pelo menos 60% da população de Salvador seja composta por negros), existe um abismo enorme na situação dos negros em comparação com as demais etnias. Você nota claramente que os donos dos negócios, em sua grande maioria, são brancos (ou gringos) e os funcionários negros. Dentre este pessoal em situação de rua, a totalidade é composta por negros. No bar em que eu fui e nos outros lugares (restaurantes, bares, passeios, etc) que eu reparei, raramente existia um negro como cliente e quando existia eram turistas. Existe uma situação de “apartheid” muito grande lá, mais do que no restante do pais.

Tem gente que tira férias e consegue “abstrair” e focar somente na diversão, mas como para mim uma das principais experiências de viagem é justamente conhecer o povo do local, não consigo não me incomodar com algumas situações como esta. Tomara que da próxima vez que for à Bahia a situação tenha melhorado ao menos um pouco.

Fonte Nova

Fonte Nova

Observações, dicas e considerações:

  • A não ser que a grana esteja bem curta, não aconselho ficar hospedado no Pelourinho. Ficar na Barra, que fica mais próximo a algumas praias ou no Rio Vermelho, que é onde fica a vida noturna, é mais vantajoso.
  • Mas se a grana estiver curta e a hospedagem tiver que ser barata, sugiro o Hostel e Pousada País Tropical. O Staff é muito bom, os quartos são limpos e o café da manhã é até acima da média para um hostel. A única coisa ruim era o chuveiro, que tem apenas duas temperaturas: gelado Alaska ou quente inferno.
  • O Pelourinho é um tanto quanto perigoso (mais do que o Centro de São Paulo ou do Rio), especialmente à noite. Apesar de muito policiamento, ocorrem alguns furtos, especialmente de correntes e gargantilhas, portanto, evite usá-las (ou relógio), além de ficar dando mole com celular e máquina fotográfica (depois das 22:00 nem pense em levar máquina fotográfica).
  • Quando alguém te oferecer uma “fitinha do Bonfim” de graça, pode se preparar para dar uns 5 reais à pessoa….hahaha
  • Não sei se todos os passeios de barco são parecidos, mas aconselho a fazer o passeio às ilhas através da Apolônio Turismo (o quiosque deles fica no terminal de embarque em frente ao Mercado Modelo) e preferencialmente de escuna.
  • Achei o táxi um tanto caro lá. 120 reais do aeroporto até o Pelourinho (ok! É longe, mas não mais que Guarulhos do Centro de SP), 40, 50 reais do Pelourinho até o Rio Vermelho. Se for possível, tente pegar uma “coletividade” com um taxista e negociar preços prévios.
  • Se estiver sozinho e a grana estiver curta, a melhor opção durante o dia é o ônibus mesmo.
  • Para quem gosta de futebol, conhecer a Fonte Nova e assistir um jogo do Baêa é bem interessante.
  • Aliás, acho que o Vitória foi algo inventado pelo Bahia para que eles possam um adversário. Não vi um torcedor do Vitória, não vi bandeiras em bares, carros, pessoas com camisa, nada. Para não falar que não vi nada sobre o Vitória, quando chega na cidade o avião passa sobre o Barradão e é possível vê-lo quando se está do lado esquerdo da aeronave.

Be happy 🙂

Baia de Todos os Santos

Baia de Todos os Santos

Wanderlust #16 – Edimburgo (e Glasgow), Escócia

Região central de Edimburgo com suas ruas altas e baixas

Região central de Edimburgo com suas ruas altas e baixas

Depois de anos fui aprender uma fórmulazinha bem simples e que faz toda a diferença em nossas vidas. É o seguinte: se a expectativa criada em relação à um acontecimento (ou pessoa) é maior que a realidade o resultado é frustração. Consequentemente, se a expectativa criada é menor ou igual a realidade o resultado é no mínimo satisfação. Do mesmo jeito que fiquei de certa forma decepcionado com Londres e Dublin pela alta expectativa que eu tinha criado sobre elas, Edimburgo foi a cidade que eu menos criei expectativa e foi a que mais me surpreendeu positivamente.

Edimburgo 1

Princess Garden com o Castelo ao fundo

Quando estava planejando esta minha primeira viagem à Europa eu tinha certeza de que iria conhecer Londres, Liverpool e Dublin. Programei 3 noites em cada cidade (poderia ter programado mais em Londres) e ainda me sobravam 3 dias das férias que eu tinha tirado. Depois de pensar um pouco (fiquei tentado em ir à Holanda) decidi que conheceria a Escócia e assim já “riscaria” o Reino Unido da minha lista de lugares a conhecer. Como conhecia pouco da Escócia, inicialmente pensei em ficar em Glasgow, mas ao ver que o aeroporto ficava em Edimburgo e verificar os hostels, acabei por decidir ficar hospedado em Edimburgo mesmo. Acho que Edimburgo era o último lugar da Europa que eu pensava visitar. Mas em apenas poucas horas a cidade conseguiu me “ganhar”, a ponto de se tornar, junto com Berlin, a cidade mais incrível que eu conheci (sim, até mais que Nova Iorque!).

Edimburgo 2Aterrisei no pequeno aeroporto de Edimburgo na tarde de um domingo chuvoso, peguei o bus que levava ao centro da cidade e me registrei no Hostel. Como de praxe, banho para tirar inhaca de vôo e volta de reconhecimento na cidade.

Por ser uma cidade em uma região montanhosa, Edimburgo é uma cidade com bastante variação de altitude, do tipo você estar em uma rua e a rua paralela a ela ficar há uns 10, 15 metros de altura (dava pra ter idéia pelos andares dos prédios). As ruas todas são bem inclinadas (tipo morros do Rio). Em alguns casos existem escadarias que te levam de uma rua à outra e te poupam de andar um bom pedaço até encontrar uma rua que te permita acesso à esta paralela. Dando esta volta inicial me deparei com uma escadaria, resolvi subir e sai ao lado de uma ponte que passava por cima da rua em que eu estava (esta ponte da foto inicial). Resolvi seguir o fluxo e entrei na Rua do Castelo, que como o nome diz, é uma rua que dá acesso ao Castelo de Edimburgo, e foi ai que eu soltei, em alto e bom som: “Caralho! Que louco!!!!!”.

Edimburgo 3

Topo da Carlton Hill

A Rua do Castelo é uma subida de pedra, estreita, ladeada por pequenos edifícios (não mais que dois andares) também de pedra, com pelo menos 500 anos cada um deles. E lá em cima, no alto da colina, você enxerga o imponente Castelo de Edimburgo. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que parecia um cenário de filme de Robin Hood.

Para o cenário ficar melhor, estava acontecendo o Fringe, um festival de arte de rua que acontece todo mês de Agosto em Edimburgo. Então as várias rodinhas com palhaços, malabaristas, contadores de piadas, músicos e dançarinos que se formavam, faziam mais ainda com que a rua parecesse o centro de uma vila medieval durante alguma festividade. Na verdade era exatamente isto que estava acontecendo: uma vila medieval com uma festividade, só que em pleno século XXI!!!!

Edimburgo 4Subi até o castelo parando para ver os diversos artistas, ou para entrar em um dos pequenos edifícios (a maioria hoje abriga restaurantes, cafés, bares e lojas de souvenirs), porém como já estava no final da tarde e a chuva parecia que não ia ceder, eu resolvi voltar para o Hostel para bater um rango e tomar algumas cervejas no Belushi’s (o pub do hostel), já que a intenção era acordar cedo para andar pela cidade. E ai sim! Fomos surpreendidos novamente!

Creio que por causa da chuva, o pub do hostel, que é aberto ao público em geral, estava bem cheio. Como depois de umas 3 cervejas as pessoas começam a falar em “drunkish” e a interagir, ali não seria diferente: acabei por conhecer austriacos, espanhóis, portugueses, italianos e muitos escoceses.

A Rua do Castelo e os vários artistas e o público "respirando" arte

A Rua do Castelo e os vários artistas e o público “respirando” arte

Só sei que o bar virou um furdúncio (dos bons) e lá pelas 22:00 hrs já não exstiam mais mesas individuais ou “panelinhas” e todo mundo já tinha virado amigo. Para quem tinha planos de dormir cedo, fui expulso do pub (literalmente! Eu e todos que estavam lá!) quase à 1 hora da manhã. Fumei mais um cigarro, subi pro quarto e ai descubro que 3 espanhóis com os quais eu fiquei um bom tempo conversando (um deles era fanático por futebol e acabou ficando com uma das minhas camisas do Santos de presente) estavam no mesmo quarto que eu.

Eles tinham outros planos para a segunda, então combinamos de fazer algum passeio na terça. Na segunda eu fui fazer um “city tour” e acabei andando mais de 20 kilômetros. Dei uma volta pelo Princess Garden, pela região central (e antiga de Edimburgo), subi a Carlton Hill (vale pela vista!) e depois fui fazer a visita guiada no Castelo (é um pouco caro e dura quase quatro horas, mas vale muito à pena).

À noite fui tomar umas no pub do hostel e já aproveitei para combinar o passeio do outro dia com os espanhóis. Eles sugeriram ir para Glasgow, que fica a cerca de uma hora de ônibus de Edimburgo. Passeio combinado fui dar uma volta para aproveitar a efervescência que o Fringe trazia à cidade, mesmo em uma segunda feira.

No segundo andar desta torre se encontram as jóias da coroa da Inglaterra.

No segundo andar desta torre se encontram as jóias da coroa da Inglaterra.

Na terça cedinho então pegamos o bus para Glasgow. Sobre a cidade não tem muito o que dizer. A cidade é bem organizada e, tirando a Catedral, não parece ter muitos atrativos turísticos e é mais voltada para o turismo de negócios. Sei lá, deve ser como São Paulo, que para um visitante esporádico, que vem passar poucos dias, pode não ter muitos atrativos, porém quem vive a cidade acaba descobrindo lugares e programas fantásticos. Taí, acho que Glasgow seria uma boa cidade para se morar alguns meses. Mas com poucos dias de viagem deveria ter ficado somente em Edimburgo mesmo.

Como pegaria o vôo de volta para Londres e depois para o Brasil no outro dia somente as 11:00, aproveitei para pegar uma balada na última noite.

Na volta à Londres, cheguei bem cedo (umas 13:00hrs) e o vôo de volta para o Brasil era só as 22:00hrs da noite. A intenção era deixar a mochila em um locker e ir até Abbey Road, que eu havia “perdido” por ter achado que ficava em Lïverpool (que burro! Dá zero pra ele!), mas infelizmente estavam ocorrendo aqueles tumultos que existiram no verão de 2011 e achei melhor não arriscar me deparar com algum problema e perder o vôo. Então preferi ler um bom livro (terceiro nesta viagem!) para encerrar esta minha primeira vez na Europa!

Observações, dicas e considerações:

    • O local para ficar em Edimburgo é o St Christopher. Os quartos não são dos melhores (mas também não são dos piores), mas a localização (em frente à estação de trem, próximo à rodoviária, ao Castelo, shoppings, etc), o restaurante (tem uma BBQ Back Ribs fantástica!) e o pub compensam as pequenas falhas dos quartos.
    • Gaita de fole não é um instrumento legal de ouvir por muito tempo. Como disse o guia da visita do castelo: “para mim soa como se estivessem matando um gato!”.
    • Acho que, fora do Brasil, Edimburgo foi o único lugar em que as pessoas se oferecem para tirar foto.
    • Agosto! Não tem outro mês para ir à Edimburgo. O clima é ameno (meio do Verão) e a cidade ferve por causa do Fringe. Sugiro até passar mais tempo (1 semana), especialmente para quem é fã de artes.
    • O escocês é totalmente diferente do Inglês e do Irlandês. Ele é bonachão, piadista, simpático, receptivo. É mais ou menos como se você pegasse um brasileiro ou um colombiano e deixasse ele por anos curtindo no whisky!

Edimburgo 8

Wanderlust #15 – Dublin, Irlanda

Dublin 4 - Guinness StorehouseDepois de conhecer Liverpool, a próxima parada nesta minha primeira tour européia era Dublin. Acho que junto com a Austrália (que ainda não conheço), a Irlanda era àquela época o país que eu sempre quis conhecer na vida. E de certa forma ocorreu o mesmo que ocorreu com Londres: a expectativa foi bem maior que a realidade. Não que seja ruim, mas eu imaginava uma outra coisa, especialmente em relação ao povo (do qual falarei daqui a pouco).

Castelo de Dublin

Castelo de Dublin

Ao chegar em Dublin e me registrar no Hostel, que ficava ao lado da Temple Bar, a via boêmia da cidade, fui fazer o de sempre e dar um rolê na cidade para fazer um reconhecimento. Em cerca de 3 horas eu rodei praticamente metade da cidade e já comecei a me acostumar com o fato de que a maioria das cidades européias são pequenas. Depois do passeio, um lanche para dar uma forrada, alguns (vários) pints de Guinness e cama que o outro dia seria corrido.

No outro dia, numa ressaca brava eu fui dar uma volta do outro lado da cidade que eu não havia conhecido e na sequência fazer uma visita na Guinnes Storehouse. A visita guiada à fábrica da Guinness é muito bem montada e faz com que você tenha acesso à toda a história da tradicional marca, ao processo de produção, aprenda a tirar uma Guinness  (aliás, poucos barmans no Brasil sabem). Mas o mais legal é que a visita termina no bar que fica no topo do prédio e de onde se tem uma visão de 360º da cidade. Ou seja, mesmo para quem não bebe e/ou não é muito fã da cerveja, vale muito à pena. Agora, para quem é fã da marca, melhor tomar cuidado para não se empolgar no gift shop da fábrica.

Catedral de St Patrick

Catedral de St Patrick

Depois da visita à fábrica, dei mais algumas voltas pela cidade, o que fez com que eu praticamente conhecesse todos os recantos dela em pouco mais de um dia e meio. Voltei para o Hostel para tomar um banho e fui provar um dos pratos típidos da Irlanda, o Beef Stew, que consiste em um ensopado de carne de ovino com batata e cenoura (lembra muito nosso picadão) e vale muito a pena. Como “digestivo” mandei um Irish Cofee. Não sei como fazem aqui, mas lá, eles fazem este drink com café quente e whisky gelado, sendo que o whisky fica por baixo e o café por cima, e você consegue sentir a diferença de temperatura dos dois. Na sequência desta almojanta (“linner”, que é a junção de lunch + dinner) voltei ao The Quays, o pub que eu havia ido no dia anterior, depois de perambular por vários.

Bem, eu gostei do Quays pois é um lugar mais voltado para turistas e com poucos locais, e aqui volto à questão do início, de porque eu me “decepcionei” em relação ao povo. Eu achava que o Irlandês era do tipo bonachão, festeiro, afeito a conversar (especialmente depois de uns pints), a fazer novas amizades, a querer trocar idéia. Porém, eles são exatamente o contrário disto. Acho que é uma mistura do enfado com turistas que existe, por exemplo, nos parisienses, ou nos habitantes de Praga (existe tanto turista nestas cidades que eles acabam por encher o saco dos habitantes) com desconfiança.

Certificado pela Guinness

Certificado pela Guinness

A “teoria da desconfiança” foi confirmada logo no outro dia, quando visitei o museu de Dublin e entendi um pouco mais da história da cidade e do povo. Depois de visitar eu percebi que entender a história do povo do local que você está visitando é a primeira coisa que se deve fazer ao conhecer um local e cultura novos, até para não fazer julgamentos precipitados como eu acabei fazendo.

Ao visitar o museu, eu aprendi que os Irlandeses, assim como os Poloneses (e falarei deles alguns artigos para frente), sempre estiveram no meio de conflitos dos quais talvez não quisessem fazer parte. Ou então foram feitos de escravos, ora por Ingleses, ora por Nórdicos. Quando a escravatura já não era mais tolerada, por terem um padrão de vida abaixo do da Europa ocidental (até pela distância geográfica), eles se submetiam a combater guerras que não eram deles afim de melhorar suas condições de vida, e com isto eram frequentemente usados como “bucha de canhão”. Isto fez com que eles, como povo, se tornassem arredios.

Museu da Irlanda

Museu da Irlanda

Talvez devesse ter programado mais alguns dias para conhecer o interior da Irlanda, que dizem ser muito bonito. Mas como já falei antes, era marinheiro de primeira viagem em mochilão e o erro é perdoável. Depois de visitar Dublin, a próxima e última parada desta trip foi Edimburgo, uma grata surpresa que conseguiu em apenas poucas horas conquistar o posto de um dos lugares mais legais, com um dos povos mais legais, que eu conheci nestas minhas (ainda) poucas andanças.

Observações, dicas e considerações:

  • Dependendo de onde você ficar hospedado, dá para conhecer praticamente a cidade toda sem precisar de transporte público ou táxi. Minha sugestão é ficar próximo à Temple Bar, mas não tão próximo quanto eu fiquei (meu hostel ficava a 10 metros), pois existe barulho constante.
  • O aeroporto fica afastado da cidade, mas existe opção de pegar um ônibus que deixa em frente ao Trinity College, na região central.
  • Achei que iria encontrar um monte de ruivas lá, mas as Irlandesas têm um estilo estranho: elas descolorem os cabelos, quase num tom branco. E para piorar arrancam quase toda a sombrancelha e passam um lápis preto. Fica muito estranho.
  • A maioria dos bares têm música ao vivo. Geralmente rock, mas alguns com música celta ou folk.
  • É costume dar 15% de gorjeta, mesmo nos pubs, onde você se dirige até o balcão para fazer seu pedido.

Dublin 8 - James Joyce Statue Dublin 9 - The Quay's bar

Wanderlust #14 – Liverpool – Inglaterra

Liverpool 1É claro que estando na terra da Rainha não poderia deixar de ir conhecer Liverpool, a meca de todo beatlemaniaco (que eu havia me tornado alguns anos antes). Depois dos 3 dias em Londres, na segunda feira de manhã fiz minha primeira viagem de trem até Liverpool.

Liverpool 2Vale ressaltar que a primeira experiência viajando de trem na minha vida foi muito boa. É uma pena que não tenhamos no Brasil trens ligando as nossas principais cidades. A viagem as vezes se torna mais rápida, já que não se perde tempo chegando duas horas antes no aeroporto, passando por raio X, depois aguardando as bagagens, etc e além disto é muito mais confortável, já que o trem é mais espaçoso, existe geralmente o vagão restaurante e não se sofre com os solavancos (inevitáveis em viagens longas).

Eu fui imaginando que Liverpool seria uma cidade meio interiorana, mas me surpreendi com o tamanho e o desenvolvimento da cidade. Localizada na costa oeste da Inglaterra, Liverpool é uma cidade industrial e portuária. Por ser uma cidade costeira, há algum tempo atrás era “infestada” de um tipo de pássaro parecido com gaivotas conhecido como Leever e a região era conhecida como leever pool (pool pode ser um conjunto ou agrupamento, além de ser piscina, em inglês), ou seja, era um lugar cheio de leevers, que mais tarde acabou sendo chamado de liver. Portanto, o nome da cidade não significa “piscina de fígado” como seria na tradução literal mais fácil. A ave é o símbolo tanto da cidade quanto do mais famoso time da cidade e um dos maiores do mundo.

Liverpool 3Como aprendi a fazer nas viagens, na chegada, debaixo de uma fina garoa, fui dar uma volta na cidade para fazer o reconhecimento e descobrir o que fazer (fora o Magical Mistery Tour e o Museu dos Beatles, que já tinha programado) e comer algo e me surpreendi com uma cidade bem grande e moderna (mais moderna do que Londres). Fiz um reconhecimento no centro e vi que tinha bastante coisas para fazer, então voltei para o hostel para tomar um banho e na sequencia ir tomar umas cask ales no pub que tinha do lado.

No outro dia acordei bem cedo e fui fazer uma visita ao Museu de Liverpool, que fica bem próximo à Albert Dock e ao museu dos Beatles, de onde sairia a Magical Mistery Tour. Nesta visita ao museu eu aprendi que, se possível, a primeira coisa a ser feita em uma cidade que você está conhecendo é ir em um museu que conte a história da cidade e de seu povo.

Casa onde o George Harrison cresceu

Casa onde o George Harrison cresceu

Depois de visitar o museu, fui comprar o ingresso para o Museu dos Beatles e o Magical Mistery, mas como o passeio seria só à tarde, aproveitei para almoçar e dar um passeio na Albert Dock, que é uma construção antiga que abrigava fabricantes de barcos e insumos para pesca (peças de barco, redes, etc) e que hoje funciona como uma galeria de arte.

Depois do almoço, viria a “tarde Beatles”. O museu dos Beatles é bem montado, contando toda a história desde a época do Quarrymen (primeira banda do Lennon) até o final da banda e fazendo uma rápida passagem pelas vidas dos 4 rapazes mais famosos da cidade após o fim dos Beatles. Para quem quer conhecer mais sobre a história da banda vale a pena perder umas 3 horas lendo cada uma das descrições constantes nos objetos expostos. Ao final, como sempre acontece lá fora, existe um gift shop que, sem o devido cuidado, pode significar uma dor de cabeça na hora de pagar a fatura do cartão e de fechar as malas.

Após o museu, veio o Magical Mistery Tour, que é feita num ônibus similar ao existente na capa do disco de mesmo nome. A tour passa por diversos lugares citados em canções (Penny Lane, Strawberry Fields, Sgt Peppers pub, etc) e por alguns pontos importantes na carreira da banda (o igreja onde o Quarry Men se apresentava, as casas onde os membros nasceram e/ou viveram) e termina na Matthew Street, a rua bohêmia da Liverpool da década de 60.

Strawberry fields forever!

Strawberry fields forever!

Na Matthew Street se encontra o Carvern Pub e o Cavern Club. Muita gente sabe da existência do Carvern Club, por ser o bar onde os Beatles despontaram para o sucesso, mas pouca gente sabe que em frente existe um pub irmão, chamado Cavern Pub, que é mais antigo e que antes do início do sucesso era o principal palco dos Beatles. Nos dois bares, à partir das 10:00hrs da manhã até as 3:00hrs da manhã do outro dia é possível assistir diversas bandas tocando, com repertório focado obviamente em Beatles (no Cavern Pub tem um pouco mais de variação, mas no Club basicamente é só Beatles). Em ambos os bares também convém tomar cuidado com os souvenirs.

Como de praxe lá fora, não existe couvert para entrar em nenhum dos bares e você pode, se quiser, ficar alternando entre os bares a noite inteira. O clima também é muito legal e com gente do mundo todo. Só não se empolgue demais para não fazer como eu fiz, que tomei um dos maiores porres da minha vida no Cavern Club (cheguei até a perder o caminho do hostel…hehehe).

Cavern Pub

Cavern Pub

No outro dia, mesmo tendo chegado tarde e acordado de ressaca, acordei cedo e fui dar uma volta na parte central da cidade que eu não havia visitado ainda. Na parte da tarde rolou o passeio em Anfield, o lendário estádio que é casa do Liverpool FC. O estádio é simples, se comparado com as modernas arenas de clubes ao redor do mundo, porém é bem montado considerando-se o espaço do terreno e aparenta oferecer bastante conforto para o expectador. Interessante notar a simplicidade do vestiário: alguns bancos de madeira e ganchos na parede para os jogadores pendurarem seus uniformes. Nada de armários, espelhos, etc. Como disse o guia: “aqui nós temos jogadores de futebol, não estrelas do rock”. O museu também é legal e a loja do clube é outro lugar onde o mais aficcionado pode acabar gastando demais.

Após o passeio, voltei ao centro (Anfield fica num bairro periférico, acessível facilmente de ônibus), dei mais uma volta e fui descansar um pouco, já que a noite iria curtir novamente os Caverns Pub e Club, já que não é sempre que se pode estar em um lugar histórico como este.

Cavern Club

Cavern Club

No outro dia, acordei cedo para me dirigir à Manchester, onde pegaria o vôo para Dublin. Havia programado o trem de Liverpool para Manchester bem cedo (8:00 da manha) e o vôo para a parte da tarde (15:00 hrs), afim de colocar a mochila em um armário e dar uma volta pela cidade, porém além de estar chovendo muito, estavam ocorrendo aqueles protestos e manifestações violentas que ocorreram na Inglaterra em Julho de 2011. Ainda bem que havia comprado alguns livros em uma ótima livraria que havia encontrado em Liverpool e assim pude passar o tempo.

Próxima parada: Dublin, um dos lugares do mundo que eu tinha mais vontade de conhecer!

Observações, dicas e considerações:

  • Em Liverpool chove muito. Um dos seguranças do hostel me disse que dois dias seguidos sem chover é coisa rara de acontecer e que eu dei sorte por pegar dois dias lá sem uma gota de chuva (choveu quando eu estava chegando e quando estava saindo).
  • Anfield

    Anfield

    Um dos recepcionistas do hostel havia morado em Mato Grosso como missionário durante 6 meses, porém falava muito pouco português. Ele perdeu uns 30 minutos tentando lembrar e me explicar sobre uma comida que ele amava, no final descobri que era coxinha , que ele pronunciava algo como “coc-xina”.

  • O Liverpudlian (como são conhecidos os moradores) são considerados caipiras na Inglaterra e o sotaque realmente é bastante complicado, mas eles são muito simpáticos e receptivos. Assim como os Berlinenses faziam, era só você abrir o mapa na rua e alguém parava perguntar se você estava perdido.
  • Em Londres não havia conhecido ninguém no hostel, o que me decepcionou. Já em Liverpool conheci todo mundo que estava no mesmo quarto (um casal italiano e mais 3 espanhois: uma menina e dois caras) e mais um argentino que vivia na espanha. Engraçado que o casal italiano e os 3 espanhóis estavam morando no hostel, pois eles estavam trabalhando na cidade.
  • Liverpool 9Além do Magical Mistery Tour, existem taxistas que fazem basicamente o mesmo percurso (e se combinar, alguns pontos adicionais), com a vantagem que você pode ficar mais tempo nos locais.
  • Para os brasileiros que estão com saudades de casa, existe uma churrascaria chamada Bem Brasil, bem próximo à Albert Dock, que apesar de ser um pouco cara é bem honesta no quesito comida.

Wanderlust #13 – Londres – Inglaterra

Londres 4
Agora que eu já falei sobre todas as minhas viagens mais atuais, vou começar a falar um pouco das minhas viagens passadas. Terei que recorrer às fotos para tentar relembrar já que a memória não é mais a mesma. É um bom exercício para me lembrar de outros lugares que eu visitei e rememorar boas aventuras. Neste primeiro texto, falarei sobre Londres, o primeiro destino Europeu que eu visitei.

Londres 2

Parlamento Britânico e Big Ben

Muita gente acha Londres uma das cidades mais incríveis do mundo. Eu imaginei que seria mesmo, até visitá-la, tanto que foi meu primeiro destino na Europa. Acho que um misto de alta expectativa que não se realizou e o nervosismo de estar pela primeira vez na Europa e fazendo meu primeiro mochilão fizeram com que eu não curtisse muito a cidade. Além disto, acho que escolhi uma época não muito boa para ir a Londres: faltava menos de um ano para a Olimpíadas de 2012 e a cidade inteira parecia um canteiro de obras.

Como sempre faço nas cidades em que vou, gosto de curtir o dia e andar, afim de explorar melhor o local. No dia da chegada, como desembarquei quase as quatro da tarde e até passar pela imigração, pegar a mala e encarar o metrô londrino em horário de pico para chegar no Hostel não deu para fazer muita coisa. Foi tomar um banho e dar uma volta no local, que ficava próximo ao Hyde Park, para encontrar algo para comer e algumas cask ales para tomar. Até porque pretendia acordar cedo no outro dia para aproveitar meus 2 dias na cidade (sim, também planejei mal, devia ter ficado ao menos uns 4).

Londres 7

O pub mais antigo do mundo ainda em funcionamento: mais de mil anos!

A única coisa que eu havia planejado realmente era  passar em frente ao Palácio de Buckingham, conhecer o Hyde Park e ir na London Eye. O resto eu fui “improvisando” com base em informações obtidas no hostel. Então, no sábado de manhã tomei um ônibus em direção à Abadia de Westminster, que fica ao lado do Big Ben e basta atravessar uma ponte para acessar a London Eye. Uma curiosidade e uma dica: ao contrário do que muita gente pensa, o Metrô não é o meio de transporte primário de Londres, mas sim o ônibus. Primeiro porque existem inúmeras linhas, inclusives noturnas, e em segundo porque as intersecções entre as diversas linhas do metrô as vezes fazem com que você perca muito mais tempo para viajar entre pontos de linhas diferentes do que demoraria de ônibus ou mesmo à pé. E além do mais, eu tinha apenas dois dias e não queria desperdiçar alguns preciosos minutos embaixo da terra, então preferia o ônibus para apreciar a cidade.

Londres 1

Big Ben

Desci quase no Big Ben, que estava todo cercado por tapumes devido à uma reforma. O que mais me impressionou foi a quantidade de turistas naquela região. É uma coisa impressionante. Nem em Nova York eu acho que tinha tanta gente. Após algumas fotos me dirigi até a London Eye. É uma atração bem legal e acho que vale a pena perder uma horinha (30 minutos de fila e 30 minutos o passeio). Depois desta atração fui andar pela cidade: St James Park, Palácio de Buckingham, Marble’s Arch, Hyde Park.

Depois de uma pausa para o almoço (lá pelas 3 da tarde), resolvi ir para Portobelo, pois sabia que aos sábados rolava um mercado de pulgas ali. Pra chegar lá do Hyde Park, passei por Nothing Hill e achei o meu Pub (The Duke of Wellington), onde eu tive que parar na volta para tomar alguns pints.

Londres 5

The Duke of Wellington pub – Nothing Hill

Durante este percurso, eu notei que as calçadas em frente aos pubs estavam tomadas de gente sentada na guia e bebendo e pensei comigo “caramba, os pubs devem estar lotados”. Quando entrei no Duke of Wellington percebi que lá dentro estava vazio. Ai caiu a ficha que, por terem pouco tempo de clima bom e que propicie aproveitar atividades ao ar livre, os ingleses (e mais tarde descobri que também os outros europeus) aproveitam ao máximo o clima bom quando possível.

Depois de tomar algumas no “meu” pub, jantei e fui tomar em outro pub. No domingo, com uma ressaca braba, acordei e fui até a London Eye novamente, para andar na beira do Tâmisa, meio que sem destino.  Perto do Queen Elizabeth Hall havia uma feira de livros bem interessante. Continuando na beira do rio, fui passando pelas pontes, passei pelo Tate e, em um ponto de “bus” (eles chama as barcas que percorrem o Tâmisa de bus) resolvi pegar um barco para Greenwhich (eu tinha pensado neste passeio durante o planejamento da viagem mas não tinha decidido).

Londres 6

Meridiano de Greenwhich: um pé de cada lado do mundo!

Este foi talvez o melhor passeio que eu fiz na cidade (se bem que Greenwhich é outra cidade já). Não pelo destino em sí, já que Greenwhich não tem muita coisa para ver, o meridiano só vale pra tirar foto e o parque mesmo estava praticamente fechado, pois estava em reforma para as olimpíadas (seria o local das provas de equitação). Mas eu peguei um barco em que havia um guia que foi contando a história dos prédios e da cidade em sí e o passeio de uma hora foi praticamente um city (ou river) tour.

Na volta, pausa para um belo Steak e depois fui até a Trafalgar Square. É engraçado como alguns pontos das cidades se tornam pontos turísticos sem ter nenhuma atração propriamente dita. Em Berlin existe a Alexanderplatz, que não passa de uma Praça da Sé. Em Nova York tem a Times Square, que também não passa de uma Avenida Paulista. O equivalente à estes locais em Londres é a Trafalgar Square. É simplesmente uma (bela) praça. Mas não tem nada que possa ser considerado como atração turística.

Londres 8

Trafalgar square

Já era tarde e resolvi voltar para o hostel e dar uma descansada para poder tomar algumas à noite, já que no outro dia cedo iria tomar o trem com destino à Liverpool (escreverei sobre este destino em breve).

Acho que pelo pouco tempo, o “choque cultural” que sempre bate em um lugar novo e a inexperiência em mochilão, não aproveitei tudo o que a cidade oferece e acho que talvez este seja um destino que eu deva fazer novamente para tentar formar uma melhor opnião.

Observações, dicas e considerações:

  • Depois de passar em frente, fiquei com vontade de visitar o Corvette Belfast, um navio de guerra transformado em museu (acabei fazendo um passeio parecido este ano em San Diego) e a London Bridge
  • O pessoal que trabalha com o público (motoristas de ônibus, barmans, até o staff do hostel) em Londres é mal educado e mau humorado pra caramba!
  • As mulheres londrinas são meio estranhas no dia a dia (eu cheguei num dia normal, no horário de pico, e pude reparar). Elas têm os pés e mãos meio grandes (em relação ao corpo), são meio desajeitadas e se vestem mal pra caramba. A maioria me lembrava a Olívia Palito, namorada do Popeye.
  • No metrô sempre guarde o ticket que você usou para entrar, pois vc deve inseri-lo também para liberar a roleta na hora de sair.
  • Tente sempre andar com dinheiro trocado para pagar o ônibus. Você não tem a obrigação de pagar com trocado lá (como em boa parte dos EUA), mas os motoristas de ônibus vão te demonstrar todo o mau humor se tiverem que te devolver troco.
  • Acabei por não passar na Abbey Road, porque achei que ela ficava em Liverpool (cidade que visitei na sequência e que será tema do próximo Wanderlust). Que burro! Dá zero pra ele!!!!

 

Wanderlust #12 – Viel Danke Berlin!

Viel Danke 1Antes de tudo queria te agradecer por você reforçar meus princípios de aceitar e tratar a todos com dignidade e respeito, independente de credo, etnia, gênero, classe social, idade ou qualquer outra coisa. Talvez esta seja a melhor lição que você dê para o mundo.

Você poderia ser cinza, mas deixa seus prédios e trens serem coloridos por grafites e “lambe lambes” que te deixam mais charmosa. E deixa que suas colunas e pilastras nos apresente sua poesia. Eu não entendo muitas delas, mas ao entender algumas palavras, eu consigo “senti-las”.

Viel Danke 2Você poderia ser barulhenta, mas permite que a música flua por suas vias e trilhos, através de centenas de artistas, muitos deles que tocam só pelo prazer de tocar.

Obrigado por tudo isto!

Obrigado pelos vários sorrisos que seus cães preguiçosos, esparramados no chão dos vagões do seu metrô e trem, “arrancaram” de mim.

Obrigado por suas crianças não terem medo de “estranhos” e sorrirem para eles.

Viel Danke 3Obrigado por seus adultos que falam com estranhos, e quando descobrem que eles vêm do Brasil fazem questão de pagar cerveja para estes estranhos. Aliás, obrigado por gostar tanto da minha terra!

Obrigado por seus velhinhos estarem ansiosos para ajudar alguém que eles imaginam estar perdido, só por estarem segurando um mapa na mão. E obrigado por eles se esforçarem para te entender e se fazerem entender, mesmo que eles não falem uma única palavra de uma língua da qual você têm mais conhecimento.

Viel Danke 4Obrigado por estes mesmos velhinhos estarem dispostos a conversarem com você no metrô, nos parques, nas cervejarias e, vendo que você está tentado aprender o seu idioma, se esforçarem para te ajudar e te corrigir, com toda a gentileza do mundo.

Obrigado por suas centenas (milhares?!?) de padarias. Eu não fiquei chateado por elas não terem coxinha. Mas você até conseguiu me arranjar coxinhas!!!!!

Viel Danke 5Obrigado pelo seu sistema de transporte, que apesar de antigo e às vezes mal cuidado, é eficiente, como tudo que você faz, e te leva para qualquer lugar que se deseje ir. E obrigado por ele funcionar 24 horas aos finais de semana e vésperas de feriado.

Obrigado pelo pão com Nutella no café da manhã. Você me acostumou mal e acho que isto será um hábito para mim daqui por diante.

Obrigado por me ensinar a pegar comida para viagem no almoço, só para me sentar num banco de um parque, ou mesmo na grama, debaixo de uma árvore, e fazer deste momento mais do que simplesmente “se alimentar”.

Obrigado por suas mesas coletivas nos restaurantes, bares e Biergartens, que além de nos ensinarem a conviver mais fora da nossa “concha”, faz com que conheçamos pessoas fantásticas.

Viel Danke 6Obrigado por suas mulheres despojadas, que em outros lugares seriam taxadas de deselegantes, só por se vestirem confortávelmente e abdicarem de maquiagem, roupas apertadas e salto alto em nome da praticidade, mas que nos fazem perceber que a beleza natural é a melhor de todas. E obrigado por elas passarem por nós em suas bicicletas, geralmente com um buquê de flores no cesto.

Talvez você não goste muito dela, pois ela te traz lembranças de um passado ruim que talvez você queira esquecer, mas obrigado pela Fernsehnturm, que é como uma bússola quando se está perdido dentro de você. Basta achá-la que você se localiza.

Obrigado também pela Karl-Marx-Alle. Você talvez não goste dela também, pois ela lhe foi imposta por idiotas que queriam mostrar para o mundo o quanto são “poderosos”. Mas mesmo assim, ela é bela e fascinante.

Viel Danke 7Obrigado por me ensinar a andar sempre olhando pro alto, esperando alguma surpresa aparecer.

Obrigado pelas três semanas de muito calor, muitas vezes acima dos 31 graus, o que não é do seu costume, e pelas poucas chuvas.

Obrigado pelo que foi, até agora, o melhor domingo que eu tive, primeiramente fazendo o melhor city tour da minha vida, à bordo de um dos seus mais ilustres filhos, o pequeno e simpático Herr Grün Trabi, seguido por momentos fantásticos em um dos seus parques mais simbólicos.

Para que eu não me estenda muito, simplesmente obrigado por ser a cidade que todas as cidades deveriam ser.

Como diz um cara da minha terra: “eu tenho uma porção de coisas para fazer e não posso ficar aqui parado”.

A gente se vê novamente. Quem sabe da próxima vez não seja “para sempre”.

A Copa de Longe!!!!

20140630 1Nesta minha segunda viagem à Alemanha (com uma passagem de quatro dias pela Holanda) eu tive a oportunidade de acompanhar boa parte da copa de lá. Na verdade não foi uma oportunidade que “surgiu”: desde que o Brasil foi anunciado como o país sede da Copa de 2014 eu já havia planejado sair do país. Eu sempre fui contra a realização de eventos deste tipo aqui, expliquei até o motivo num artigo publicado na Feedback Magazine pouco antes da Copa e havia há muito tempo decidido passar a copa longe.

20140626Durante a minha estada por lá, os meus amigos começaram a perguntar como era, onde eu estava vendo os jogos, como os holandeses e alemães acompanhavam a copa, e mais um monte de coisas por whatsapp, por e-mail, pelo Facebook, etc. Eu resolvi contar um pouco do que via e sentia por lá em alguns post no Facebook, que eu entitulei como “A Copa de Longe”. Como prometido, farei um resumão aqui desta experiência.

20140628 2A primeira coisa que me chamou a atenção, ainda em Amsterdam, foi a quantidade de referências ao Brasil na cidade. A gente aqui nunca teve o costume de decorar a cidade, os bares e até as vitrines (o que invariavelmente se refletia na moda) com cores dos países sede das copas. A gente decora com cores, bandeiras e motivos do nosso país e pronto. Logo no primeiro dia andando por Amsterdam eu me espantei com a quantidade de bandeiras brasileiras em bares, lojas e restaurantes e com os manequins nas lojas com as cores verde e amarela e com estampas como “Brasil – São Paulo – Copacabana” (?!?!) ou com a nossa bandeira estampada com o desenho de uma girafa (?!?!).

20140628 7Porém, quando cheguei em Berlin (e mais tarde constatei em Dresden também) eu fiquei até assustado: em TODOS os lugares onde transmitiam os jogos (falarei sobre estes lugares um pouco mais abaixo) existiam várias bandeiras da Alemanha, eventualmente bandeiras de outras seleções participantes, mas sempre tinha pelo menos uma do Brasil, geralmente junto com uma da Alemanha, em posição de destaque. Das casas, carros e bicicletas que eu vi, posso dizer que ao menos 10% dos que tinham alguma referência à Alemanha também tinham ao Brasil (e o número de imigrantes brasileiros em Berlin está longe de 10% da população).

20140704 5Alem disto, as vitrines e consequentemente a moda na Alemanha também estava dominada pelo verde-amarelo-azul-e-branco (na Holanda era só verde e amarelo, mas na Alemanha eles faziam questão de fazer referência às quatro cores da nossa bandeira). Conversando depois com alguns alemães eles contaram que isto também não é comum lá, mas como a Copa seria no Brasil, um país amistoso e do qual eles gostam muito, aconteceu meio que espontaneamente esta “Brasilmania”. Em conversas com com italianos e espanhóis, estes também falaram que nos seus respectivos países esta moda do Brasil estava acontecendo desde um pouco antes da Copa. Um italiano de Monza disse que a cidade estava toda em verde e amarelo, e disse que a razão é que “o Brasil é um país simpático e amistoso”.

20140707 3Mas a admiração dos alemães pelo Brasil não foi só por causa da Copa. Ao conversar com eles nas “Weltmeisterschaft Public Viewing” (Weltmeisterschaft é “Copa do Mundo” em alemão e public viewing acho que não preciso traduzir), deu para perceber que eles admiram muito o país e são fãs do futebol sulamericano, especialmente o Brasileiro. Alguns chegaram a me dizer que na América do Sul é que se pratica o futebol de verdade (?!?!). Inclusive, para eles “Messi is gut, aber Neymar ist Wunderbar!” (o Messi é bom, mas o Neymar é fantástico).

20140707 5Assim como os brasileiros, eles estavam decepcionados pela maneira como o Brasil estava jogando. Eles esperavam toque de bola, dribles, jogadas sensacionais, e não o futebol burocrático, no esquema BNN (bola no Neymar) que o Brasil praticou durante a Copa. Durante o jogo Brasil e Chile teve um lançamento direto da defesa para o ataque que foi vaiado. O alemão que estava ao meu lado e que eu havia acabado de conhecer ali disse: “este não o tipo de jogo que nós esperamos do Brasil”. “Nem nós, brasileiros também”, foi a minha resposta.

20140707 6Neste jogo, que foi realizado na 11 Freunde Arena (Elf Freunde = onze amigos), um clube de amantes de futebol que edita um fanzine e montou esta arena em forma de arquibancada para as pessoas assistirem os jogos, a torcida dos Alemães estava meio dividida. Eles estavam no fundo querendo que o Brasil ganhasse, estavam crentes que iria dar Brasil X Argentina na final, pelo fator casa, mas estavam torcendo pelo Chile, com medo de pegar o Brasil nas semis (mal sabiam eles…). Mas mesmo com o “coração dividido”, haviam vários alemães torcendo pelo Brasil com camisa, boné, bandeira e tudo o que se tem direito. Outra coisa interessante é que, apesar de eles acharem que a Alemanha cairia contra o Brasil nas semis, eles estavam “aproveitando o caminho”, ou seja, “vamos curtir, até porque já sabemos o que é perder uma semi e ninguém vai morrer por causa disto”.

O Alemão e o Futebol

20140707 7No artigo citado acima, eu falei que gostaria que a Alemanha ou a Inglaterra ganhassem a Copa, por entender que estes sim é que são os países do futebol, ou seja, os países onde o povo realmente ama o futebol como esporte. Mas estando lá durante uma Copa do Mundo eu fiquei ainda mais impressionado com o fanatismo dos alemães pelo futebol. A opnião de que os alemães são realmente fanáticos por futebol foi corroborada por italianos, espanhóis e franceses!

20140707 10Lá, como cá, eles saem mais cedo do trabalho para ver o jogo. No dia do jogo contra a França, que aconteceu numa sexta-feira as 18:00hrs de lá, muita gente nem trabalhou à tarde e, faltando duas horas para o jogo, o transito de Berlin estava um inferno, com tudo travado.

Eles também são muito corneteiros. As únicas unanimidades eram o Schweinsteiger (o “criador de porcos”), o Özil e o Müller, que aliás era o xodó deles. O Joachim Löw era tão ou mais criticado do que o Felipão.

20140707Eu vi muitos comentários nas redes sociais criticando aqueles que vaiaram o hino chileno durante o jogo contra o Brasil e exaltando o hino cantado a capela pelos brasileiros. Os alemães também cantavam o hino juntos, talvez não com o mesmo empenho dos brasileiros, fato muito comentado por eles (eles diziam que era de emocionar), e vaiaram solenemente o hino francês no jogo contra a França.

20140708 4Acho que a coisa que eu mais achei legal foi o fato de eles gostarem de assistir jogos “na geral”, ou seja, junto com outras pessoas. Já falei acima da 11 Freunde Arena, mas esta era apenas uma das várias arenas montadas em Berlin, em média com capacidade entre 1500 e 2000 pessoas cada. Sem contar os bares e biergartens que sempre estavam lotados. A Hyundai montou um “fun park” no Portão de Brandemburgo, que podemos comparar ao nosso Anhagabaú, e a cada jogo pelo menos 500 mil pessoas se reuniam ali. Considerando que a região metropolitana de Berlin (a cidade de Berlin e mais os municípios ao redor) tem 5 milhões de habitantes, 10% da população estava presente. Se for contar todos os outros lugares que existiam para ver jogos, creio que metade da população assistia o jogo fora de casa.

Os animadores destas “fun fests” até tiravam barato de quem ficava em casa no sofá. Por falar em sofá, o FC Union Berlin teve uma idéia genial: antes da copa pediu para os torcedores levarem o sofá para o estádio para assitirem os jogos lá, o resultado foi este: http://epocanegocios.globo.com/Essa-E-Nossa/noticia/2014/06/na-alemanha-torcedores-levam-sofa-para-assistir-copa-no-estadio.html.

A cobertura da imprensa alemã

Eu gostei muito de como a imprensa alemã cobriu a Copa como um todo. Primeiro que eles não quiseram transformar a seleção deles em “heróis” ou coitadinhos (como fazem aqui), até porque é apenas um jogo de futebol.

20140708 5O segundo fato que eu gostei bastante foi como os repórteres que cobriam o “cotidiano” faziam as reportagens: nunca colocavam os brasileiros como coitadinhos, como povo sofrido ou apelavam para o “dramático” em suas reportagens. Eles apenas retratavam uma cultura diferente, e pelo que deu para perceber, muito interessante para eles. Os repórteres alemães não tinham frescura para irem em favela, dormirem numa tapera, comerem dobradinha, pegarem carona no lombo de um jegue. A impressão que eu tive foi que eles aceitam, entendem e até admiram mais a nossa cultura do que nós mesmos, brasileiros.

Talvez isto explique até o comportamento da seleção alemã durante sua estada na Bahia, interagindo com os locais, aproveitando cada experiência. Eles sim deixaram um baita legado: só pela exposição que o local teve na Alemanha, deve ter fila de 2 anos de alemães querendo conhecer a Vila de Santo André da Bahia.

20140708Outra coisa que eu achei muito legal foi eles tentando falar o nome das cidades, dos jogadores, dos estádios, da forma que os brasileiros falam. Eles inclusive chamavam a seleção brasileira de “Seleção”, a argentina de “Albiceleste”, além de utilizarem outras frases em português, como “joga bonito”. (só pra constar: “Feuer in den augen” – fogo nos olhos – é uma expressão bem mais legal que “sangue nos olhos”)

Em um jogo em que o Daniel Alves tomou (mais) uma bola nas costas, eles soltaram “Avenida Daniel Alves” em pleno português e depois explicaram a piada. Da mesma forma, no jogo do Chile, quando o Jô entrou, eles soltaram um “vem ai Jô, the joke”. Das zoeira endet nie!

Agora, a melhor coisa da imprensa alemã foi a Fernanda Brandão, uma brasileira radicada em Munique, escalada para fazer reportagens de rua, geralmente nas praias do Rio de Janeiro, sempre bem à vontade, como se estivesse pegando uma praia, interagindo com o pessoal, torcendo descaradamente pela seleção e sendo “gente como a gente”.

O fatídico 7×1

20140712No dia do jogo Brasil X Alemanha, iria acontecer um show do Ed Motta na Haus der Kulturen der Welt (casa de cultura do mundo), onde estavam ocorrendo eventos relacionados ao Brasil durante toda a Copa. O show foi sensacional. O público estava meio a meio, por conta da temática brasileira, porém a maioria dos alemães estava lá por alguma ligação com o Brasil (muitos alemães / alemãs casados/as com brasileiros/as, alemães que haviam morado no Brasil, etc) então não pode ser utilizado como parâmetro, mas à partir do quarto gol da Alemanha, os próprios alemães começaram a torcer contra o time deles. Mas não creio que só isto foi a razão, visto que o próprio time da Alemanha “tirou o pé”, senão teria sido uns 12!

A pergunta que eu mais respondi (até chegar a um ponto que nem repondia mais) era: “a Copa do Mundo é no Brasil, o que você está fazendo aqui?”.

Foi uma baita experiência. Eu que nunca fui muito ligado em Copa do Mundo fiquei até com vontade de assistir a próxima “in loco”, já aproveitando para conhecer um país que eu tenho muita curiosidade para conhecer, afinal, a Rússia é logo ali!!!!

Só preciso começar a estudar russo desde já e a “treinar” o fígado, desta vez com vodka!

Para quem quiser mais fotos que eu tirei durante os jogos e no dia-a-dia: http://www.4shared.com/folder/wjncMm2Y/ACopaDeLonge.html

Wanderlust #11 – Berlin – Teil 5: Observações, Curiosidades e Dicas.

Berlin 1

O eficientíssimo sistema de trens de Berlin

Ufa, estamos chegando ao final. Este é o quinto artigo sobre Berlin (ainda terá um sexto), mas é que existe tanta coisa para falar da cidade, que se eu colocasse tudo em um texto só, iria ficar muito grande. Neste daqui, à exemplo do que eu fiz nos texto sobre os EUA e Amsterdam, vou colocar um pouco as minhas observações sobre a cidade e o povo e também algumas dicas.

Observações e curiosidades:

  • Conforme já havia falado no artigo sobre Phoenix, nos EUA, os Europeus, assim como os norte americanos, são muito diretos quando querem falar alguma coisa. Não ficam com rodeios, não tentam dourar a pílula, não usam muitas “figuras de linguagem”: falam o que precisa ser dito da forma mais clara e objetiva possível. Isto incomoda um pouco os latinos, pois nós somos muito “mimimi”.
  • O alemão então tem esta objetividade elevada ao extremo. Ele simplesmente não quer perder tempo e gastar energia fazendo rodeios.
  • Por falar em gastar tempo e energia, é impressionante como eles aplicam princípios de eficiência em tudo o que fazem. Alguns exemplos:
    • As portas do metrô e trem são dotadas de botões, portanto elas só abrem se alguém realmente for utilizar. Pensando em apenas uma porta, pode até ser um absurdo, mas imagine centenas de portas de trem e metrô se abrindo milhares de vezes ao dia, o que isto gera de desgaste nas peças, gasto de energia, etc.
    • Da mesma forma, as composições de trêm e metro só são formadas pela quantidade máxima de vagões durante os horários de pico. Fora deles, eles simplesmente “desengatam” dois ou três vagões. Isto deve gerar uma baita economia de energia e de peças. Durante as madrugadas de final de semana, quando o transporte público funciona 24 horas, além do intervalo aumentado (em média 15 minutos entre um trem e outro), eles circulam com apenas 2 vagões, o suficiente para atender aquela demanda.
    • Quando fui para Wolfsburg também fiquei impressionado com o trem que se “divide” no meio do percurso. Deixa eu tentar explicar: existem dois trens que fazem boa parte do mesmo caminho, porém em determinado ponto um segue uma linha e o outro outra. Ao invés de cada um circular sozinho, eles “engatam” os dois trens, economizando assim energia, reduzindo o atrito, etc. Quando chega no ponto certo, eles simplesmente se separam (em movimento) e cada um segue o seu caminho.
  • A mulheres alemãs, no dia a dia, também não perdem muito tempo com maquiagem e preferem usar roupas confortáveis, pelo mesmo motivo: praticidade e conforto. Difícil ver uma com roupa muito justa, ou salto alto, por exemplo. Talvez este também seja o motivo para várias adotarem um cabelo bem curto (estilo joãozinho mesmo).
  • Uma das coisas que eu mais acho legal na Alemanha são as mesas coletivas em bares e restaurantes. Isto faz com que você tenha mais oportunidades de conhecer novas pessoas. Aliás, eles gostam muito de atividades coletivas. Neste ponto eles estão muito, mas muito na frente de nós, brasileiros, como sociedade.
  • Indo para um bar para assistir um jogo, passei por uma comunidade hippie em plena Berlin. É simplesmente um terreno que ocuparam e começaram a construir barracos, dividem a comida, roupas, as pessoas vêm e vão, existem festas e é tudo aberto. Para quem estiver na cidade e tiver oportunidade, fica próximo à Cuvry Straße.
  • Uma coisa que eu notei desde a primeira vez que fui à Europa, em 2011, foi o quanto os europeus gostam de aproveitar atividades ao ar livre durante o verão (só fui à Europa três vezes e as três no verão, então não saberia dizer se no inverno acontece o mesmo). Eles evitam até mesmo almoçar, durante o expediente, em restaurantes fechados, preferindo mesas na calçada e muitas vezes pegando a comida para viagem e se sentando num banco, ou mesmo na grama de um parque ou praça para comer.
  • Desde que comecei a andar de Bicicleta, além do Brasil, visitei mais três países: EUA, Holanda e Alemanha. A Alemanha é o único lugar em que o ciclista respeita as leis de trânsito e os pedestres. Nos outros países eles são tão maleducados (até mais, no caso da Holanda), quanto os brasileiros.
  • Durante uma das aulas caímos no assunto do Zivildienst. Lá na Alemanha (e também na Suiça), o serviço militar (Militärdienst) é obrigatório, assim como no Brasil, para todos os homens, e dura oito meses. Porém, quando alguém é dispensado ou não quer fazer o serviço obrigatório, ele tem que prestar 1 ano de Serviço Civil Obrigatório (Zivildienst). O serviço é remunerado (com uma ajuda de custo) e as pessoas são alocadas para realizarem trabalho em órgãos públicos, escolas, creches, asilos, orfanatos, hospitais, etc. Acho que isto cria uma consciência coletiva maior nos jovens. Além de muitas vezes cobrir defasagens de mão de obra nestes locais.
  • A razão pela qual um diretor de empresa ganha 5, 6 vezes mais do que a recepcionista desta mesma empresa (contra dezenas de vezes no Brasil) é uma só: ambos são bem qualificados e a recepcionista tem um background acadêmico que permitiria a ela realizar praticamente as mesmas tarefas do Diretor. Na Alemanha todo mundo é altamente qualificado e as diferenças salariais se dão apenas por conta de experiência e responsabilidades. Vou ver se escrevo um artigo depois sobre o tema (Educação como redutor de diferenças sociais). Infelizmente, com o envelhecimento da população alemã e a necessidade de trazer imigrantes, a situação está mudando um pouco. Tomara que dêem um jeito de arrumar.
  • Aliás, existe muita necessidade de mão de obra, mesmo especializada. Pessoal da área de saúde e de Tecnologia da Informação que pensa em morar fora por um tempo, ou mesmo se mudar definitivamente de país, deve ficar atento à Alemanha pois eles estão facilitando o Blue Card (o visto de trabalho Europeu).
  • Berlin 2

    Os Berlinenses aproveitando o verão

    Os cidadãos de outros países da União Européia, mesmo com a oportunidade de trabalhar na Alemanha sem necessidade de algum visto especial, tendem a procurar outros lugares, por causa da barreira do idioma (mesmo nos caso das economias em crise, como em Portugal, Espanha, Itália, etc). O pessoal de países como a Polônia, Croácia e República Checa, por ter uma estrutura de idiomas um pouco mais próxima do Alemão é que tem procurado aprender o idioma e migrar para a Alemanha.

  • Apesar de uma grande parte da população alemã ser superqualificada, o sistema educacional alemão sofre bastante críticas. Na Alemanha você tem 3 caminhos a seguir: um técnico (mecanicos, eletricistas, técnicos em geral), um de nível superior (advogados, médicos, engenheiros, etc) e um acadêmico (voltado para pesquisa). O problema é que este caminho é decidido entre a 5ª e 6ª séries (10 e 11 anos) e à partir da 9ª e 10ª (14 e 15 anos) não é mais possível mudar. Se por um lado isto permite que o país faça planejamento de longo prazo, sabendo por exemplo, quantos acadêmicos ele terá em 10 ou 15 anos, por outro, acaba criando carreiras “hereditárias”: os pais mais pobres, que muito provavelmente cursaram o caminho técnico, acabam escolhendo a mesma carreira para seus filhos, pois assim estes filhos estarão no mercado de trabalho mais cedo. Como cada unidade da federação (estados e cidade-estados) são livres para decidir o modelo educacional (a única obrigação nacional é que a criança deve entrar na escola com, no máximo, 6 anos), eles têm uma bucha na mão para resolver.
  • A primeira vez que fui à Berlin, em 2012, para quatro semanas de imersão no idioma, eu fiquei surpreendido com a cidade em todos os sentidos (pessoas, arquitetura, história, lazer, vida noturna, etc). Voltei agora em 2014 para mais três semanas e achei que não iria me surpreender mais. Ledo engano: a cidade me surpreendeu mais ainda do que a primeira vez. E tenho a impressão de que se eu voltar daqui 2 anos, ficarei mais surpreendido ainda.

Dicas:

  • O sistema de transporte público de Berlin foi o melhor que eu vi dos países que visitei. Mesmo sendo antigo e às vezes mal conservado, você consegue chegar a praticamente qualquer ponto da cidade usando trem, ônibus e/ou bonde.
  • Mesmo de e para o aeroport Tegel, que não tem conexão com estações de metrô, é fácil pegar um bus (com espaço para malas) até a Alexanderplatz ou a Hauptbahnhof e de lá seguir de trêm ou metro para qualquer ponto da cidade.
  • Existem opções de tickets diários, para 3 dias, para uma semana e para um mês, com preços por passagens decrescentes.
  • O metrô de Berlin fica aberto 24 horas às sextas, sábados e vésperas de feriados. Engraçado que a maioria das linhas deles têm mais de 100 anos, os trens, em sua maioria são antigos, e eles não precisam de 5 horas diárias de interrupção como o Metro de São Paulo, que é bem mais novo e mais moderno.
  • A DB (Deutsche Bahn), administradora das ferrovias Alemãs tem um ticket especial, para ser usado nos finais de semana, chamado Schönes-Wochenende-Ticket (algo como “ticket de final de semana legal!”). Por um custo de 44 euros, até 5 pessoas podem tomar qualquer trem (exceto os expressos), das 0:00 horas do dia da data do ticket até as 3:00 da manha do dia seguinte. O ticket tem que ser comprado para o Sábado ou para o Domingo. Eu fiz um bate e volta até Dresden num sábado por este valor, que é metade do que custaria um ticket normal de ida e volta, mesmo eu estando sozinho. Crianças de até 15 anos, acompanhados por alguém portador de um ticket destes, também não pagam. Ou seja, dá para uma família inteira (das grandes) ir passar um final de semana em outro ponto do país com 88 euros (um ticket para o sábado e outro para o domingo).
  • Berlin é uma das capitais mais pobres da Europa, apesar de estar num dos países mais ricos. Tudo isto é devido ao período em que a Alemanha ficou dividida e Berlin ficava na parte oriental. Por isto, o custo de vida em Berlin é muito baixo, comparado as outras capitais, como Amsterdam, Londres, Dublin (falando das que eu conheço). Como termos de comparação, usando o “Beer index”: um pint de Heineken em Amsterdam, em um bar, custa 6 euros, enquanto um pint de Berliner Kindl em um bar ou biergarten em Berlin dificilmente passa de 3 euros. O mesmo vale para comida (12 contra 6 euros em um “PF”) e para hotéis (paguei 80 euros na diária em Amsterdam e em Berlin 24).
  • Por conta deste baixo custo, muitos jovens artistas ou emprendedores têm se mudado para Berlin para tocar seus projetos. A cidade é uma efervescência só de artistas e também de start ups.

Bem, acho que destrinchei bastante Berlin nos meus demais textos e os tópicos acima foi o que eu lembrei de não ter comentado antes. Mas se tiver alguma outra pergunta e eu puder responder (afinal, 7 semanas em Berlin não é pouca coisa), é só deixar um comentário que eu vejo se posso ajudar.

Wanderlust #10 – Berlin – Teil 4: atrações

Neste quarto “artigo” sobre Berlin, vou falar um pouco das atrções da cidade. Quais eu achei legal, quais não achei e quais talvez valeriam a pena, dependendo do tempo dispendido na cidade.

No caso de atrações próximas, tentarei colocar num item só para já deixar a dica para o caso de alguém se interessar em fazer um deles, saber que dá pra aproveitar e fazer outros passeios juntos.

Tem que fazer:

  • Museus, museus, museus:
    Berlin é a cidade dos museus! No Spree tem até um banco no meio do rio chamado Museumsinsel (ilha dos museus). É museu da Cerveja, da Salsicha, muitos museus de arte, museu da DDR, das motos da DDR, dos carros da DDR, dos Ramones (sim!). Então com certeza você vai achar algum museu que case com algum interesse bem particular seu. Como disse minha amiga Rebeca: em Berlin só falta o Museu dos Museus. Vou sugerir alguns abaixo que eu gostei.
  • Deutches Historisches Museum:
    a dica que eu sempre dou para toda cidade, a primeira coisa a se fazer é ir ao museu local para tentar entender a história daquela cidade e os eventos que a formaram, bem como o seu povo. Como geralmente a gente chega nas cidades entre 12:00 e 15:00 (eu sempre me programo desta forma, pois uso o tempo entre o checkout de um lugar e o checkin em outro para viajar), dá para conhecer logo de cara. E aproveito também para fazer um reconhecimento à pé do local – Tempo: entre 2 e 4 horas.
  • Karaokê no Mauerpark

    Karaokê no Mauerpark

    Gedenkstätte Berliner Mauer / Mauerpark:
    este museu a ceu aberto na Bernauer Straße, uma das ruas que foram separadas pelo muro, conta toda a história deste episódio da história de Berlin. Contém trechos preservados do muro, da death strip e uma das torres de controle. Com cerca de 2 kms de extensão, termina praticamente no Mauerpark, um outro ponto importante na história do muro. Em dias normais, umas 4 horas para fazer os dois passeios são suficientes, porém, se for no verão e puder ser feito num domingo, aconselho reservar o dia todo: umas 2 ou 3 horas para o Museu e o restante do dia para o mercado de pulgas e o karaokê que acontecem no Mauer Park (isto sem contar os biergartens e artistas de rua do parque).

  • Trabi Safari: uma viagem no tempo

    Trabi Safari: uma viagem no tempo

    Trabi Safari:
    sério, talvez as pessoas achem que eu estou exagerando, mas este foi O MELHOR city tour que eu já fiz na minha vida. Primeiro por dirigir um carrinho que, apesar de espartano, é bem simpático e segundo porque você realmente entra dentro da história. Parece que os pequenos trabis são máquinas do tempo que te levam para a Alemanha Oriental da década de 70. Aconselho fazer o maior percurso, que segue todo o desenho do muro e dura duas horas. Mas reserve umas 3 ou 4, para ouvir as explicações e para perder alguns minutos na loja de souvenirs após o passeio.

  • Potsdamer Platz / Denkmal für die ermordeten Juden Europas / Brandemburger Tor / Tiergarten / Siegessäule:
    o portão de Brandemburgo é provavelmente a atração turística mais famosa da cidade. O que pouca gente sabe é que pode-se emendar algumas outras atrações num passeio só de cerca de duas horas (se não quiser gastar muito tempo, mas se quiser aproveitar o Tiergarten e subir no Siegessäule, reserve umas 4 horas). Comece na Potsdamer Platz e siga placas para o Portão, no caminho você passa pelo memorial aos judeus mortos na Europa. O portão fica em frente ao Tiergarten e, de costas para o portão, você já enxerga a coluna da vitória, a cerca de uns 2 kms. Dá pra chegar até lá passeando por dentro do parque ao invés de seguir uma linha reta.
  • Sim, é um avião de verdade!

    Sim, é um avião de verdade!

    Deutches Teknisches Museum:
    talvez por eu ser fascinado por tecnologia este museu tenha sido um dos mais legais que eu já visitei na vida. Ele tem várias seções contando a história de vários adventos tecnológicos, tais como: trens (deve ter uns 20 trens dentro do museu, então imagina o tamanho), carros, aviões, barcos, fotografia, cinema, cerveja, etc. Precisa reservar ao menos umas 5 horas para poder passear por todas as áreas deste museu gigante sem ter que correr.

  • A imponente Karl-Marx-Alle

    A imponente Karl-Marx-Alle

    Karl-Marx-Alle:
    um monumento à imbecilidade humana erguido como uma prova do poder da URSS e do sistema ali implementado à época. Apesar disto a arquitetura é bela, os prédios simétricos são fascinantes e para quem como eu ainda não conheceu a Rússia, é uma pequena amostra de Moscou. Eu fiz 5 kilometros da avenida em 1 hora e meia, parando para tirar fotos.

  • São Jorge alemão em Nikolaiviertel

    São Jorge alemão em Nikolaiviertel

    Alexanderplatz / Fernsehturm / Nikolaiviertel:
    este é um que dá para emendar com a Karl-Marx-Alle, já que a avenida termina (ou começa) na Alexanderplatz, a praça central de Berlin. Não tem nada demais, mas você não foi a Berlin se não comeu um currywurst acompanhado de uma Schofferhöffer no biergarten desta praça. Aqui também fica a famosa Fernsehturm, cujo topo dá vista para toda a cidade de Berlin (nunca fui, não tive vontade) e dá para emendar andando (uns 15 minutos) Nikolaiviertel, o bairro mais antigo de Berlin. Umas 3 horas dá pra fazer tudo isto, se não tiver muita fila na Fernsehturm. Porém, talvez seja interesante reservar mais tempo, para poder também almoçar e tomar uma cerveja na Geogbräu, uma microcervejaria em Nikolaiviertel.

  • Topologie des Terrors:
    para quem gosta de história este é um local bem interessante. Ele foca, através de fotos, reportagens de jornal, filmes, etc, o período da história alemã entre o final da primeira guerra e a consequente ascensão de Hitler até a queda do muro. Leva umas 2 horas (lendo todo o material) e pode ser feito junto com o Trabi Safari, pois fica do lado.
  • Autostadt:
    esta é para os amantes de carro. A Autostadt (cidade do carro) é um “parque” dedicado à história do carro aberto pela Volkswagen em Wolfsburg, cidade a cerca de 200kms de Berlin. Se estiver por Berlin por mais de 6 dias vale a pena fazer um bate e volta que leva 1 hora de trem para ir, 4 horas passeando pelo parque e mais 1 hora para voltar. Total de 6 horas. E nem perca tempo visitando a cidade de Wolfsburg. É uma cidade industrial como Santo André, Camaçari, Betim, etc. Não tem nada legal para ver.

Dispensáveis:

  • Museus, museus, museus:
    como disse anteriormente entre as coisas boas, Berlin tem museu que não acaba mais. Então mesmo se você for um fã de museus, tente equilibrar seus passeios porque senão corre o risco de perder toda sua estadia na cidade dentro de lugares fechados. Abaixo alguns que eu visitei e desaconselho.
  • Museu de História Natural:
    a não ser que você seja muito fã de biologia, paleontologia, astronomia, geologia e afins, não vale a pena. Se você já visitou o Museu de História Natural de Nova York então, e bem capaz de se decepcionar pois a comparação vai ser inevitável.
  • Museumsinsel:
    5 museus em um lugar só e um daily pass que te permite visitar todos. Não caia nesta. São museus interessantes até, mas são muito específicos (arte barroca, arte egípcia, etc), então, a não ser que você seja fã de algum dos temas ou vá passar bastante tempo na cidade não vale a pena.
  • Museu das Motos da DDR:
    mesmo para quem é fã de moto, este museu não tem nada a mais do que se vê em encontros de carros e motos antigas e nada que chame a atenção. Além de ser pequeno (30 minutos seriam o suficiente)
  • Campos de Concentração:
    em Berlin você fica “sobrecarregado” com histórias da primeira e segunda guerras, do nazismo e da Alemanha dividida (e consequentemente da guerra fria). Não creio ser necessário se deslocar até Sachenhaus (na grande Berlin, o campo de concentração mais perto) só para visitar um campo de concentração. Além do mais, o clima é meio pesado.

 Se tiver tempo:

  • Passeio de barco pelo Spree:
    vale a pena para ver a cidade por outra perspectiva e também é um passeio curto (se for fazer, faça o de uma hora, é mais que suficiente). Se der, aproveite aquela hora pós almoço em que se está cansado de andar e precisa dar uma “jiboiada”.
  • Olimpiastadion:
    muito interessante este estádio, que foi palco das olimpíadas de 32 e da final da copa de 2006, e todo o parque olímpico ao redor. Só cuidado pois além de ficar distante do centro da cidade (uns 40 minutos de metrô) é bem grande, então pode-se perder umas 5 ou 6 horas neste passeio.
  • The Story of Berlin:
    o museu em sí é até meio repetitivo (pedaços do muro, um trabi, etc) mas o final é que é interessante, pois ao final da visita, existe uma visita guiada por um bunker construido na época da guerra fria, que fica uns 4 andares abaixo do solo, no mesmo prédio. Se estiver perdido na Kurfürstendamm e quiser aproveitar é interessante pelo bunker. Na região ficam também o Hard Rock Café de Berlin (para quem gosta de comprar souvenirs da marca, como eu) e a KaDeWe, uma loja de departamentos gigantes (também legal para comprar souvenirs).
  • Tempelhof:
    a história desde aeroporto desativado que virou parque vale mais do que o parque em sí. Mas se estiver tentando manter a rotina de exercícios durantes as férias, dá pra ir até lá correr (em uma das duas pistas de pouso) ou dar umas pedaladas.
  • East Side Gallery:
    bem legal para quem curte grafitti. E só!
  • DDR Museum:
    este é outro passeio curto que vale para a “jiboiada” pós almoço (fica bem na região central, perto da Museuminsel, Berliner Dom, etc). O museu é pequeno (cerca de 1 hora de visitação) e mostra como era a vida na DDR.

Noite:

Eu sou um cara mais do dia. Gosto de aproveitar mais enquanto tem luz do sol, de dormir pouco e levantar cedo, mas aqui vão algumas dicas para atrações noturnas na cidade (as poucas que eu visitei em 7 semanas!). Até porque não se pode perder oportunidades em uma cidade onde o transporte público funciona 24 horas aos finais de semana e véspera de feriados (só fique esperto com os horários pois os intervalos são bem maiores)

  • Prenzlauer Berg:
    este distrito próximo ao Mauerpark é repleto de bares, restaurantes e discotecas. Sugiro o Zu Mir Oder Zu Dir (um bar com DJ rolando louge e eletrônicos mais softs, é pra sentar e conversar tomando uma cerveja. Só avisando pra quem se incomoda: no local é permitido fumar, mesmo sendo fechado) e a Kultur Brauerei, uma antiga fábrica de cerveja transformada num centro com restaurantes, bares, galerias de arte, etc.
  • Cuvrystraße:
    um dos vários bairros boêmios de Berlin. A Lido é uma danceteria legal (especialmente se tiver rolando noite de Soul music) e vale a pena dar uma passada antes na comunidade Hippie que existe na esquina com a Schlesische Straße.
  • Mitte:
    tanto na Torstraße quanto a Oranienburger Straße existem vários restaurantes e bares, de tudo quanto é tipo (muitos italianos, mexicanos, indianos, pubs, etc)
  • Competição entre mesas no The Pub

    Competição entre mesas no The Pub

    Alexanderplatz:
    existem alguns barzinhos e restaurantes nas redondezas da praça. Seguindo a linha do trem, sentido Hackescher Markt, existem dois lugares interessantes para apreciadores de cerveja. O primeiro é o BHM Brauhaus Mitte, uma cervejaria local e o segundo é o The Pub, onde existem mesas que vendem cerveja a litro, baseado num “cervejômetro” instalado nas mesas e que permite a separação da conta em até 8 “comandas” diferentes. So tome cuidado pois eles colocam quanto cada mesa consumiu no telão e isto acaba gerando uma competição que pode acabar numa bela ressaca….hahaha

  • Hackescher Markt:
    existem alguns bares, pubs e restaurantes instalados na parte de baixo da estação. Alguns deles funcionam 24 horas.
  • James-Simon-Park: uma das "praias" dos Berlinenses

    James-Simon-Park: uma das “praias” dos Berlinenses

    James-Simon-Park e Monbijou Park:
    os dois parques ficam à beira do Spree e são separados apenas por um túnel. No James-Simon existem vários barzinhos com cadeiras de praia, mas no verão o pessoal pega cerveja e fica na grama mesmo. No Monbijou existe o Strandbar, bem colado ao rio, também com cadeiras de praia e mesas. No Strandbar, quando o clima permite, acontecem aulas de dança (tango, ritmos caribenhos e africanos) no final da tarde / começo da noite.

Bem, é isto. No próximo artigo falarei um pouco sobre impressões que eu tive da cidade e do povo e também darei algumas dicas para os viajantes.

Be happy!!!! 🙂