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Wanderlust #16 – Edimburgo (e Glasgow), Escócia

Região central de Edimburgo com suas ruas altas e baixas

Região central de Edimburgo com suas ruas altas e baixas

Depois de anos fui aprender uma fórmulazinha bem simples e que faz toda a diferença em nossas vidas. É o seguinte: se a expectativa criada em relação à um acontecimento (ou pessoa) é maior que a realidade o resultado é frustração. Consequentemente, se a expectativa criada é menor ou igual a realidade o resultado é no mínimo satisfação. Do mesmo jeito que fiquei de certa forma decepcionado com Londres e Dublin pela alta expectativa que eu tinha criado sobre elas, Edimburgo foi a cidade que eu menos criei expectativa e foi a que mais me surpreendeu positivamente.

Edimburgo 1

Princess Garden com o Castelo ao fundo

Quando estava planejando esta minha primeira viagem à Europa eu tinha certeza de que iria conhecer Londres, Liverpool e Dublin. Programei 3 noites em cada cidade (poderia ter programado mais em Londres) e ainda me sobravam 3 dias das férias que eu tinha tirado. Depois de pensar um pouco (fiquei tentado em ir à Holanda) decidi que conheceria a Escócia e assim já “riscaria” o Reino Unido da minha lista de lugares a conhecer. Como conhecia pouco da Escócia, inicialmente pensei em ficar em Glasgow, mas ao ver que o aeroporto ficava em Edimburgo e verificar os hostels, acabei por decidir ficar hospedado em Edimburgo mesmo. Acho que Edimburgo era o último lugar da Europa que eu pensava visitar. Mas em apenas poucas horas a cidade conseguiu me “ganhar”, a ponto de se tornar, junto com Berlin, a cidade mais incrível que eu conheci (sim, até mais que Nova Iorque!).

Edimburgo 2Aterrisei no pequeno aeroporto de Edimburgo na tarde de um domingo chuvoso, peguei o bus que levava ao centro da cidade e me registrei no Hostel. Como de praxe, banho para tirar inhaca de vôo e volta de reconhecimento na cidade.

Por ser uma cidade em uma região montanhosa, Edimburgo é uma cidade com bastante variação de altitude, do tipo você estar em uma rua e a rua paralela a ela ficar há uns 10, 15 metros de altura (dava pra ter idéia pelos andares dos prédios). As ruas todas são bem inclinadas (tipo morros do Rio). Em alguns casos existem escadarias que te levam de uma rua à outra e te poupam de andar um bom pedaço até encontrar uma rua que te permita acesso à esta paralela. Dando esta volta inicial me deparei com uma escadaria, resolvi subir e sai ao lado de uma ponte que passava por cima da rua em que eu estava (esta ponte da foto inicial). Resolvi seguir o fluxo e entrei na Rua do Castelo, que como o nome diz, é uma rua que dá acesso ao Castelo de Edimburgo, e foi ai que eu soltei, em alto e bom som: “Caralho! Que louco!!!!!”.

Edimburgo 3

Topo da Carlton Hill

A Rua do Castelo é uma subida de pedra, estreita, ladeada por pequenos edifícios (não mais que dois andares) também de pedra, com pelo menos 500 anos cada um deles. E lá em cima, no alto da colina, você enxerga o imponente Castelo de Edimburgo. A primeira coisa que me veio à cabeça foi que parecia um cenário de filme de Robin Hood.

Para o cenário ficar melhor, estava acontecendo o Fringe, um festival de arte de rua que acontece todo mês de Agosto em Edimburgo. Então as várias rodinhas com palhaços, malabaristas, contadores de piadas, músicos e dançarinos que se formavam, faziam mais ainda com que a rua parecesse o centro de uma vila medieval durante alguma festividade. Na verdade era exatamente isto que estava acontecendo: uma vila medieval com uma festividade, só que em pleno século XXI!!!!

Edimburgo 4Subi até o castelo parando para ver os diversos artistas, ou para entrar em um dos pequenos edifícios (a maioria hoje abriga restaurantes, cafés, bares e lojas de souvenirs), porém como já estava no final da tarde e a chuva parecia que não ia ceder, eu resolvi voltar para o Hostel para bater um rango e tomar algumas cervejas no Belushi’s (o pub do hostel), já que a intenção era acordar cedo para andar pela cidade. E ai sim! Fomos surpreendidos novamente!

Creio que por causa da chuva, o pub do hostel, que é aberto ao público em geral, estava bem cheio. Como depois de umas 3 cervejas as pessoas começam a falar em “drunkish” e a interagir, ali não seria diferente: acabei por conhecer austriacos, espanhóis, portugueses, italianos e muitos escoceses.

A Rua do Castelo e os vários artistas e o público "respirando" arte

A Rua do Castelo e os vários artistas e o público “respirando” arte

Só sei que o bar virou um furdúncio (dos bons) e lá pelas 22:00 hrs já não exstiam mais mesas individuais ou “panelinhas” e todo mundo já tinha virado amigo. Para quem tinha planos de dormir cedo, fui expulso do pub (literalmente! Eu e todos que estavam lá!) quase à 1 hora da manhã. Fumei mais um cigarro, subi pro quarto e ai descubro que 3 espanhóis com os quais eu fiquei um bom tempo conversando (um deles era fanático por futebol e acabou ficando com uma das minhas camisas do Santos de presente) estavam no mesmo quarto que eu.

Eles tinham outros planos para a segunda, então combinamos de fazer algum passeio na terça. Na segunda eu fui fazer um “city tour” e acabei andando mais de 20 kilômetros. Dei uma volta pelo Princess Garden, pela região central (e antiga de Edimburgo), subi a Carlton Hill (vale pela vista!) e depois fui fazer a visita guiada no Castelo (é um pouco caro e dura quase quatro horas, mas vale muito à pena).

À noite fui tomar umas no pub do hostel e já aproveitei para combinar o passeio do outro dia com os espanhóis. Eles sugeriram ir para Glasgow, que fica a cerca de uma hora de ônibus de Edimburgo. Passeio combinado fui dar uma volta para aproveitar a efervescência que o Fringe trazia à cidade, mesmo em uma segunda feira.

No segundo andar desta torre se encontram as jóias da coroa da Inglaterra.

No segundo andar desta torre se encontram as jóias da coroa da Inglaterra.

Na terça cedinho então pegamos o bus para Glasgow. Sobre a cidade não tem muito o que dizer. A cidade é bem organizada e, tirando a Catedral, não parece ter muitos atrativos turísticos e é mais voltada para o turismo de negócios. Sei lá, deve ser como São Paulo, que para um visitante esporádico, que vem passar poucos dias, pode não ter muitos atrativos, porém quem vive a cidade acaba descobrindo lugares e programas fantásticos. Taí, acho que Glasgow seria uma boa cidade para se morar alguns meses. Mas com poucos dias de viagem deveria ter ficado somente em Edimburgo mesmo.

Como pegaria o vôo de volta para Londres e depois para o Brasil no outro dia somente as 11:00, aproveitei para pegar uma balada na última noite.

Na volta à Londres, cheguei bem cedo (umas 13:00hrs) e o vôo de volta para o Brasil era só as 22:00hrs da noite. A intenção era deixar a mochila em um locker e ir até Abbey Road, que eu havia “perdido” por ter achado que ficava em Lïverpool (que burro! Dá zero pra ele!), mas infelizmente estavam ocorrendo aqueles tumultos que existiram no verão de 2011 e achei melhor não arriscar me deparar com algum problema e perder o vôo. Então preferi ler um bom livro (terceiro nesta viagem!) para encerrar esta minha primeira vez na Europa!

Observações, dicas e considerações:

    • O local para ficar em Edimburgo é o St Christopher. Os quartos não são dos melhores (mas também não são dos piores), mas a localização (em frente à estação de trem, próximo à rodoviária, ao Castelo, shoppings, etc), o restaurante (tem uma BBQ Back Ribs fantástica!) e o pub compensam as pequenas falhas dos quartos.
    • Gaita de fole não é um instrumento legal de ouvir por muito tempo. Como disse o guia da visita do castelo: “para mim soa como se estivessem matando um gato!”.
    • Acho que, fora do Brasil, Edimburgo foi o único lugar em que as pessoas se oferecem para tirar foto.
    • Agosto! Não tem outro mês para ir à Edimburgo. O clima é ameno (meio do Verão) e a cidade ferve por causa do Fringe. Sugiro até passar mais tempo (1 semana), especialmente para quem é fã de artes.
    • O escocês é totalmente diferente do Inglês e do Irlandês. Ele é bonachão, piadista, simpático, receptivo. É mais ou menos como se você pegasse um brasileiro ou um colombiano e deixasse ele por anos curtindo no whisky!

Edimburgo 8

Wanderlust #15 – Dublin, Irlanda

Dublin 4 - Guinness StorehouseDepois de conhecer Liverpool, a próxima parada nesta minha primeira tour européia era Dublin. Acho que junto com a Austrália (que ainda não conheço), a Irlanda era àquela época o país que eu sempre quis conhecer na vida. E de certa forma ocorreu o mesmo que ocorreu com Londres: a expectativa foi bem maior que a realidade. Não que seja ruim, mas eu imaginava uma outra coisa, especialmente em relação ao povo (do qual falarei daqui a pouco).

Castelo de Dublin

Castelo de Dublin

Ao chegar em Dublin e me registrar no Hostel, que ficava ao lado da Temple Bar, a via boêmia da cidade, fui fazer o de sempre e dar um rolê na cidade para fazer um reconhecimento. Em cerca de 3 horas eu rodei praticamente metade da cidade e já comecei a me acostumar com o fato de que a maioria das cidades européias são pequenas. Depois do passeio, um lanche para dar uma forrada, alguns (vários) pints de Guinness e cama que o outro dia seria corrido.

No outro dia, numa ressaca brava eu fui dar uma volta do outro lado da cidade que eu não havia conhecido e na sequência fazer uma visita na Guinnes Storehouse. A visita guiada à fábrica da Guinness é muito bem montada e faz com que você tenha acesso à toda a história da tradicional marca, ao processo de produção, aprenda a tirar uma Guinness  (aliás, poucos barmans no Brasil sabem). Mas o mais legal é que a visita termina no bar que fica no topo do prédio e de onde se tem uma visão de 360º da cidade. Ou seja, mesmo para quem não bebe e/ou não é muito fã da cerveja, vale muito à pena. Agora, para quem é fã da marca, melhor tomar cuidado para não se empolgar no gift shop da fábrica.

Catedral de St Patrick

Catedral de St Patrick

Depois da visita à fábrica, dei mais algumas voltas pela cidade, o que fez com que eu praticamente conhecesse todos os recantos dela em pouco mais de um dia e meio. Voltei para o Hostel para tomar um banho e fui provar um dos pratos típidos da Irlanda, o Beef Stew, que consiste em um ensopado de carne de ovino com batata e cenoura (lembra muito nosso picadão) e vale muito a pena. Como “digestivo” mandei um Irish Cofee. Não sei como fazem aqui, mas lá, eles fazem este drink com café quente e whisky gelado, sendo que o whisky fica por baixo e o café por cima, e você consegue sentir a diferença de temperatura dos dois. Na sequência desta almojanta (“linner”, que é a junção de lunch + dinner) voltei ao The Quays, o pub que eu havia ido no dia anterior, depois de perambular por vários.

Bem, eu gostei do Quays pois é um lugar mais voltado para turistas e com poucos locais, e aqui volto à questão do início, de porque eu me “decepcionei” em relação ao povo. Eu achava que o Irlandês era do tipo bonachão, festeiro, afeito a conversar (especialmente depois de uns pints), a fazer novas amizades, a querer trocar idéia. Porém, eles são exatamente o contrário disto. Acho que é uma mistura do enfado com turistas que existe, por exemplo, nos parisienses, ou nos habitantes de Praga (existe tanto turista nestas cidades que eles acabam por encher o saco dos habitantes) com desconfiança.

Certificado pela Guinness

Certificado pela Guinness

A “teoria da desconfiança” foi confirmada logo no outro dia, quando visitei o museu de Dublin e entendi um pouco mais da história da cidade e do povo. Depois de visitar eu percebi que entender a história do povo do local que você está visitando é a primeira coisa que se deve fazer ao conhecer um local e cultura novos, até para não fazer julgamentos precipitados como eu acabei fazendo.

Ao visitar o museu, eu aprendi que os Irlandeses, assim como os Poloneses (e falarei deles alguns artigos para frente), sempre estiveram no meio de conflitos dos quais talvez não quisessem fazer parte. Ou então foram feitos de escravos, ora por Ingleses, ora por Nórdicos. Quando a escravatura já não era mais tolerada, por terem um padrão de vida abaixo do da Europa ocidental (até pela distância geográfica), eles se submetiam a combater guerras que não eram deles afim de melhorar suas condições de vida, e com isto eram frequentemente usados como “bucha de canhão”. Isto fez com que eles, como povo, se tornassem arredios.

Museu da Irlanda

Museu da Irlanda

Talvez devesse ter programado mais alguns dias para conhecer o interior da Irlanda, que dizem ser muito bonito. Mas como já falei antes, era marinheiro de primeira viagem em mochilão e o erro é perdoável. Depois de visitar Dublin, a próxima e última parada desta trip foi Edimburgo, uma grata surpresa que conseguiu em apenas poucas horas conquistar o posto de um dos lugares mais legais, com um dos povos mais legais, que eu conheci nestas minhas (ainda) poucas andanças.

Observações, dicas e considerações:

  • Dependendo de onde você ficar hospedado, dá para conhecer praticamente a cidade toda sem precisar de transporte público ou táxi. Minha sugestão é ficar próximo à Temple Bar, mas não tão próximo quanto eu fiquei (meu hostel ficava a 10 metros), pois existe barulho constante.
  • O aeroporto fica afastado da cidade, mas existe opção de pegar um ônibus que deixa em frente ao Trinity College, na região central.
  • Achei que iria encontrar um monte de ruivas lá, mas as Irlandesas têm um estilo estranho: elas descolorem os cabelos, quase num tom branco. E para piorar arrancam quase toda a sombrancelha e passam um lápis preto. Fica muito estranho.
  • A maioria dos bares têm música ao vivo. Geralmente rock, mas alguns com música celta ou folk.
  • É costume dar 15% de gorjeta, mesmo nos pubs, onde você se dirige até o balcão para fazer seu pedido.

Dublin 8 - James Joyce Statue Dublin 9 - The Quay's bar

Wanderlust #14 – Liverpool – Inglaterra

Liverpool 1É claro que estando na terra da Rainha não poderia deixar de ir conhecer Liverpool, a meca de todo beatlemaniaco (que eu havia me tornado alguns anos antes). Depois dos 3 dias em Londres, na segunda feira de manhã fiz minha primeira viagem de trem até Liverpool.

Liverpool 2Vale ressaltar que a primeira experiência viajando de trem na minha vida foi muito boa. É uma pena que não tenhamos no Brasil trens ligando as nossas principais cidades. A viagem as vezes se torna mais rápida, já que não se perde tempo chegando duas horas antes no aeroporto, passando por raio X, depois aguardando as bagagens, etc e além disto é muito mais confortável, já que o trem é mais espaçoso, existe geralmente o vagão restaurante e não se sofre com os solavancos (inevitáveis em viagens longas).

Eu fui imaginando que Liverpool seria uma cidade meio interiorana, mas me surpreendi com o tamanho e o desenvolvimento da cidade. Localizada na costa oeste da Inglaterra, Liverpool é uma cidade industrial e portuária. Por ser uma cidade costeira, há algum tempo atrás era “infestada” de um tipo de pássaro parecido com gaivotas conhecido como Leever e a região era conhecida como leever pool (pool pode ser um conjunto ou agrupamento, além de ser piscina, em inglês), ou seja, era um lugar cheio de leevers, que mais tarde acabou sendo chamado de liver. Portanto, o nome da cidade não significa “piscina de fígado” como seria na tradução literal mais fácil. A ave é o símbolo tanto da cidade quanto do mais famoso time da cidade e um dos maiores do mundo.

Liverpool 3Como aprendi a fazer nas viagens, na chegada, debaixo de uma fina garoa, fui dar uma volta na cidade para fazer o reconhecimento e descobrir o que fazer (fora o Magical Mistery Tour e o Museu dos Beatles, que já tinha programado) e comer algo e me surpreendi com uma cidade bem grande e moderna (mais moderna do que Londres). Fiz um reconhecimento no centro e vi que tinha bastante coisas para fazer, então voltei para o hostel para tomar um banho e na sequencia ir tomar umas cask ales no pub que tinha do lado.

No outro dia acordei bem cedo e fui fazer uma visita ao Museu de Liverpool, que fica bem próximo à Albert Dock e ao museu dos Beatles, de onde sairia a Magical Mistery Tour. Nesta visita ao museu eu aprendi que, se possível, a primeira coisa a ser feita em uma cidade que você está conhecendo é ir em um museu que conte a história da cidade e de seu povo.

Casa onde o George Harrison cresceu

Casa onde o George Harrison cresceu

Depois de visitar o museu, fui comprar o ingresso para o Museu dos Beatles e o Magical Mistery, mas como o passeio seria só à tarde, aproveitei para almoçar e dar um passeio na Albert Dock, que é uma construção antiga que abrigava fabricantes de barcos e insumos para pesca (peças de barco, redes, etc) e que hoje funciona como uma galeria de arte.

Depois do almoço, viria a “tarde Beatles”. O museu dos Beatles é bem montado, contando toda a história desde a época do Quarrymen (primeira banda do Lennon) até o final da banda e fazendo uma rápida passagem pelas vidas dos 4 rapazes mais famosos da cidade após o fim dos Beatles. Para quem quer conhecer mais sobre a história da banda vale a pena perder umas 3 horas lendo cada uma das descrições constantes nos objetos expostos. Ao final, como sempre acontece lá fora, existe um gift shop que, sem o devido cuidado, pode significar uma dor de cabeça na hora de pagar a fatura do cartão e de fechar as malas.

Após o museu, veio o Magical Mistery Tour, que é feita num ônibus similar ao existente na capa do disco de mesmo nome. A tour passa por diversos lugares citados em canções (Penny Lane, Strawberry Fields, Sgt Peppers pub, etc) e por alguns pontos importantes na carreira da banda (o igreja onde o Quarry Men se apresentava, as casas onde os membros nasceram e/ou viveram) e termina na Matthew Street, a rua bohêmia da Liverpool da década de 60.

Strawberry fields forever!

Strawberry fields forever!

Na Matthew Street se encontra o Carvern Pub e o Cavern Club. Muita gente sabe da existência do Carvern Club, por ser o bar onde os Beatles despontaram para o sucesso, mas pouca gente sabe que em frente existe um pub irmão, chamado Cavern Pub, que é mais antigo e que antes do início do sucesso era o principal palco dos Beatles. Nos dois bares, à partir das 10:00hrs da manhã até as 3:00hrs da manhã do outro dia é possível assistir diversas bandas tocando, com repertório focado obviamente em Beatles (no Cavern Pub tem um pouco mais de variação, mas no Club basicamente é só Beatles). Em ambos os bares também convém tomar cuidado com os souvenirs.

Como de praxe lá fora, não existe couvert para entrar em nenhum dos bares e você pode, se quiser, ficar alternando entre os bares a noite inteira. O clima também é muito legal e com gente do mundo todo. Só não se empolgue demais para não fazer como eu fiz, que tomei um dos maiores porres da minha vida no Cavern Club (cheguei até a perder o caminho do hostel…hehehe).

Cavern Pub

Cavern Pub

No outro dia, mesmo tendo chegado tarde e acordado de ressaca, acordei cedo e fui dar uma volta na parte central da cidade que eu não havia visitado ainda. Na parte da tarde rolou o passeio em Anfield, o lendário estádio que é casa do Liverpool FC. O estádio é simples, se comparado com as modernas arenas de clubes ao redor do mundo, porém é bem montado considerando-se o espaço do terreno e aparenta oferecer bastante conforto para o expectador. Interessante notar a simplicidade do vestiário: alguns bancos de madeira e ganchos na parede para os jogadores pendurarem seus uniformes. Nada de armários, espelhos, etc. Como disse o guia: “aqui nós temos jogadores de futebol, não estrelas do rock”. O museu também é legal e a loja do clube é outro lugar onde o mais aficcionado pode acabar gastando demais.

Após o passeio, voltei ao centro (Anfield fica num bairro periférico, acessível facilmente de ônibus), dei mais uma volta e fui descansar um pouco, já que a noite iria curtir novamente os Caverns Pub e Club, já que não é sempre que se pode estar em um lugar histórico como este.

Cavern Club

Cavern Club

No outro dia, acordei cedo para me dirigir à Manchester, onde pegaria o vôo para Dublin. Havia programado o trem de Liverpool para Manchester bem cedo (8:00 da manha) e o vôo para a parte da tarde (15:00 hrs), afim de colocar a mochila em um armário e dar uma volta pela cidade, porém além de estar chovendo muito, estavam ocorrendo aqueles protestos e manifestações violentas que ocorreram na Inglaterra em Julho de 2011. Ainda bem que havia comprado alguns livros em uma ótima livraria que havia encontrado em Liverpool e assim pude passar o tempo.

Próxima parada: Dublin, um dos lugares do mundo que eu tinha mais vontade de conhecer!

Observações, dicas e considerações:

  • Em Liverpool chove muito. Um dos seguranças do hostel me disse que dois dias seguidos sem chover é coisa rara de acontecer e que eu dei sorte por pegar dois dias lá sem uma gota de chuva (choveu quando eu estava chegando e quando estava saindo).
  • Anfield

    Anfield

    Um dos recepcionistas do hostel havia morado em Mato Grosso como missionário durante 6 meses, porém falava muito pouco português. Ele perdeu uns 30 minutos tentando lembrar e me explicar sobre uma comida que ele amava, no final descobri que era coxinha , que ele pronunciava algo como “coc-xina”.

  • O Liverpudlian (como são conhecidos os moradores) são considerados caipiras na Inglaterra e o sotaque realmente é bastante complicado, mas eles são muito simpáticos e receptivos. Assim como os Berlinenses faziam, era só você abrir o mapa na rua e alguém parava perguntar se você estava perdido.
  • Em Londres não havia conhecido ninguém no hostel, o que me decepcionou. Já em Liverpool conheci todo mundo que estava no mesmo quarto (um casal italiano e mais 3 espanhois: uma menina e dois caras) e mais um argentino que vivia na espanha. Engraçado que o casal italiano e os 3 espanhóis estavam morando no hostel, pois eles estavam trabalhando na cidade.
  • Liverpool 9Além do Magical Mistery Tour, existem taxistas que fazem basicamente o mesmo percurso (e se combinar, alguns pontos adicionais), com a vantagem que você pode ficar mais tempo nos locais.
  • Para os brasileiros que estão com saudades de casa, existe uma churrascaria chamada Bem Brasil, bem próximo à Albert Dock, que apesar de ser um pouco cara é bem honesta no quesito comida.

Wanderlust #13 – Londres – Inglaterra

Londres 4
Agora que eu já falei sobre todas as minhas viagens mais atuais, vou começar a falar um pouco das minhas viagens passadas. Terei que recorrer às fotos para tentar relembrar já que a memória não é mais a mesma. É um bom exercício para me lembrar de outros lugares que eu visitei e rememorar boas aventuras. Neste primeiro texto, falarei sobre Londres, o primeiro destino Europeu que eu visitei.

Londres 2

Parlamento Britânico e Big Ben

Muita gente acha Londres uma das cidades mais incríveis do mundo. Eu imaginei que seria mesmo, até visitá-la, tanto que foi meu primeiro destino na Europa. Acho que um misto de alta expectativa que não se realizou e o nervosismo de estar pela primeira vez na Europa e fazendo meu primeiro mochilão fizeram com que eu não curtisse muito a cidade. Além disto, acho que escolhi uma época não muito boa para ir a Londres: faltava menos de um ano para a Olimpíadas de 2012 e a cidade inteira parecia um canteiro de obras.

Como sempre faço nas cidades em que vou, gosto de curtir o dia e andar, afim de explorar melhor o local. No dia da chegada, como desembarquei quase as quatro da tarde e até passar pela imigração, pegar a mala e encarar o metrô londrino em horário de pico para chegar no Hostel não deu para fazer muita coisa. Foi tomar um banho e dar uma volta no local, que ficava próximo ao Hyde Park, para encontrar algo para comer e algumas cask ales para tomar. Até porque pretendia acordar cedo no outro dia para aproveitar meus 2 dias na cidade (sim, também planejei mal, devia ter ficado ao menos uns 4).

Londres 7

O pub mais antigo do mundo ainda em funcionamento: mais de mil anos!

A única coisa que eu havia planejado realmente era  passar em frente ao Palácio de Buckingham, conhecer o Hyde Park e ir na London Eye. O resto eu fui “improvisando” com base em informações obtidas no hostel. Então, no sábado de manhã tomei um ônibus em direção à Abadia de Westminster, que fica ao lado do Big Ben e basta atravessar uma ponte para acessar a London Eye. Uma curiosidade e uma dica: ao contrário do que muita gente pensa, o Metrô não é o meio de transporte primário de Londres, mas sim o ônibus. Primeiro porque existem inúmeras linhas, inclusives noturnas, e em segundo porque as intersecções entre as diversas linhas do metrô as vezes fazem com que você perca muito mais tempo para viajar entre pontos de linhas diferentes do que demoraria de ônibus ou mesmo à pé. E além do mais, eu tinha apenas dois dias e não queria desperdiçar alguns preciosos minutos embaixo da terra, então preferia o ônibus para apreciar a cidade.

Londres 1

Big Ben

Desci quase no Big Ben, que estava todo cercado por tapumes devido à uma reforma. O que mais me impressionou foi a quantidade de turistas naquela região. É uma coisa impressionante. Nem em Nova York eu acho que tinha tanta gente. Após algumas fotos me dirigi até a London Eye. É uma atração bem legal e acho que vale a pena perder uma horinha (30 minutos de fila e 30 minutos o passeio). Depois desta atração fui andar pela cidade: St James Park, Palácio de Buckingham, Marble’s Arch, Hyde Park.

Depois de uma pausa para o almoço (lá pelas 3 da tarde), resolvi ir para Portobelo, pois sabia que aos sábados rolava um mercado de pulgas ali. Pra chegar lá do Hyde Park, passei por Nothing Hill e achei o meu Pub (The Duke of Wellington), onde eu tive que parar na volta para tomar alguns pints.

Londres 5

The Duke of Wellington pub – Nothing Hill

Durante este percurso, eu notei que as calçadas em frente aos pubs estavam tomadas de gente sentada na guia e bebendo e pensei comigo “caramba, os pubs devem estar lotados”. Quando entrei no Duke of Wellington percebi que lá dentro estava vazio. Ai caiu a ficha que, por terem pouco tempo de clima bom e que propicie aproveitar atividades ao ar livre, os ingleses (e mais tarde descobri que também os outros europeus) aproveitam ao máximo o clima bom quando possível.

Depois de tomar algumas no “meu” pub, jantei e fui tomar em outro pub. No domingo, com uma ressaca braba, acordei e fui até a London Eye novamente, para andar na beira do Tâmisa, meio que sem destino.  Perto do Queen Elizabeth Hall havia uma feira de livros bem interessante. Continuando na beira do rio, fui passando pelas pontes, passei pelo Tate e, em um ponto de “bus” (eles chama as barcas que percorrem o Tâmisa de bus) resolvi pegar um barco para Greenwhich (eu tinha pensado neste passeio durante o planejamento da viagem mas não tinha decidido).

Londres 6

Meridiano de Greenwhich: um pé de cada lado do mundo!

Este foi talvez o melhor passeio que eu fiz na cidade (se bem que Greenwhich é outra cidade já). Não pelo destino em sí, já que Greenwhich não tem muita coisa para ver, o meridiano só vale pra tirar foto e o parque mesmo estava praticamente fechado, pois estava em reforma para as olimpíadas (seria o local das provas de equitação). Mas eu peguei um barco em que havia um guia que foi contando a história dos prédios e da cidade em sí e o passeio de uma hora foi praticamente um city (ou river) tour.

Na volta, pausa para um belo Steak e depois fui até a Trafalgar Square. É engraçado como alguns pontos das cidades se tornam pontos turísticos sem ter nenhuma atração propriamente dita. Em Berlin existe a Alexanderplatz, que não passa de uma Praça da Sé. Em Nova York tem a Times Square, que também não passa de uma Avenida Paulista. O equivalente à estes locais em Londres é a Trafalgar Square. É simplesmente uma (bela) praça. Mas não tem nada que possa ser considerado como atração turística.

Londres 8

Trafalgar square

Já era tarde e resolvi voltar para o hostel e dar uma descansada para poder tomar algumas à noite, já que no outro dia cedo iria tomar o trem com destino à Liverpool (escreverei sobre este destino em breve).

Acho que pelo pouco tempo, o “choque cultural” que sempre bate em um lugar novo e a inexperiência em mochilão, não aproveitei tudo o que a cidade oferece e acho que talvez este seja um destino que eu deva fazer novamente para tentar formar uma melhor opnião.

Observações, dicas e considerações:

  • Depois de passar em frente, fiquei com vontade de visitar o Corvette Belfast, um navio de guerra transformado em museu (acabei fazendo um passeio parecido este ano em San Diego) e a London Bridge
  • O pessoal que trabalha com o público (motoristas de ônibus, barmans, até o staff do hostel) em Londres é mal educado e mau humorado pra caramba!
  • As mulheres londrinas são meio estranhas no dia a dia (eu cheguei num dia normal, no horário de pico, e pude reparar). Elas têm os pés e mãos meio grandes (em relação ao corpo), são meio desajeitadas e se vestem mal pra caramba. A maioria me lembrava a Olívia Palito, namorada do Popeye.
  • No metrô sempre guarde o ticket que você usou para entrar, pois vc deve inseri-lo também para liberar a roleta na hora de sair.
  • Tente sempre andar com dinheiro trocado para pagar o ônibus. Você não tem a obrigação de pagar com trocado lá (como em boa parte dos EUA), mas os motoristas de ônibus vão te demonstrar todo o mau humor se tiverem que te devolver troco.
  • Acabei por não passar na Abbey Road, porque achei que ela ficava em Liverpool (cidade que visitei na sequência e que será tema do próximo Wanderlust). Que burro! Dá zero pra ele!!!!

 

Wanderlust #12 – Viel Danke Berlin!

Viel Danke 1Antes de tudo queria te agradecer por você reforçar meus princípios de aceitar e tratar a todos com dignidade e respeito, independente de credo, etnia, gênero, classe social, idade ou qualquer outra coisa. Talvez esta seja a melhor lição que você dê para o mundo.

Você poderia ser cinza, mas deixa seus prédios e trens serem coloridos por grafites e “lambe lambes” que te deixam mais charmosa. E deixa que suas colunas e pilastras nos apresente sua poesia. Eu não entendo muitas delas, mas ao entender algumas palavras, eu consigo “senti-las”.

Viel Danke 2Você poderia ser barulhenta, mas permite que a música flua por suas vias e trilhos, através de centenas de artistas, muitos deles que tocam só pelo prazer de tocar.

Obrigado por tudo isto!

Obrigado pelos vários sorrisos que seus cães preguiçosos, esparramados no chão dos vagões do seu metrô e trem, “arrancaram” de mim.

Obrigado por suas crianças não terem medo de “estranhos” e sorrirem para eles.

Viel Danke 3Obrigado por seus adultos que falam com estranhos, e quando descobrem que eles vêm do Brasil fazem questão de pagar cerveja para estes estranhos. Aliás, obrigado por gostar tanto da minha terra!

Obrigado por seus velhinhos estarem ansiosos para ajudar alguém que eles imaginam estar perdido, só por estarem segurando um mapa na mão. E obrigado por eles se esforçarem para te entender e se fazerem entender, mesmo que eles não falem uma única palavra de uma língua da qual você têm mais conhecimento.

Viel Danke 4Obrigado por estes mesmos velhinhos estarem dispostos a conversarem com você no metrô, nos parques, nas cervejarias e, vendo que você está tentado aprender o seu idioma, se esforçarem para te ajudar e te corrigir, com toda a gentileza do mundo.

Obrigado por suas centenas (milhares?!?) de padarias. Eu não fiquei chateado por elas não terem coxinha. Mas você até conseguiu me arranjar coxinhas!!!!!

Viel Danke 5Obrigado pelo seu sistema de transporte, que apesar de antigo e às vezes mal cuidado, é eficiente, como tudo que você faz, e te leva para qualquer lugar que se deseje ir. E obrigado por ele funcionar 24 horas aos finais de semana e vésperas de feriado.

Obrigado pelo pão com Nutella no café da manhã. Você me acostumou mal e acho que isto será um hábito para mim daqui por diante.

Obrigado por me ensinar a pegar comida para viagem no almoço, só para me sentar num banco de um parque, ou mesmo na grama, debaixo de uma árvore, e fazer deste momento mais do que simplesmente “se alimentar”.

Obrigado por suas mesas coletivas nos restaurantes, bares e Biergartens, que além de nos ensinarem a conviver mais fora da nossa “concha”, faz com que conheçamos pessoas fantásticas.

Viel Danke 6Obrigado por suas mulheres despojadas, que em outros lugares seriam taxadas de deselegantes, só por se vestirem confortávelmente e abdicarem de maquiagem, roupas apertadas e salto alto em nome da praticidade, mas que nos fazem perceber que a beleza natural é a melhor de todas. E obrigado por elas passarem por nós em suas bicicletas, geralmente com um buquê de flores no cesto.

Talvez você não goste muito dela, pois ela te traz lembranças de um passado ruim que talvez você queira esquecer, mas obrigado pela Fernsehnturm, que é como uma bússola quando se está perdido dentro de você. Basta achá-la que você se localiza.

Obrigado também pela Karl-Marx-Alle. Você talvez não goste dela também, pois ela lhe foi imposta por idiotas que queriam mostrar para o mundo o quanto são “poderosos”. Mas mesmo assim, ela é bela e fascinante.

Viel Danke 7Obrigado por me ensinar a andar sempre olhando pro alto, esperando alguma surpresa aparecer.

Obrigado pelas três semanas de muito calor, muitas vezes acima dos 31 graus, o que não é do seu costume, e pelas poucas chuvas.

Obrigado pelo que foi, até agora, o melhor domingo que eu tive, primeiramente fazendo o melhor city tour da minha vida, à bordo de um dos seus mais ilustres filhos, o pequeno e simpático Herr Grün Trabi, seguido por momentos fantásticos em um dos seus parques mais simbólicos.

Para que eu não me estenda muito, simplesmente obrigado por ser a cidade que todas as cidades deveriam ser.

Como diz um cara da minha terra: “eu tenho uma porção de coisas para fazer e não posso ficar aqui parado”.

A gente se vê novamente. Quem sabe da próxima vez não seja “para sempre”.

Wanderlust #11 – Berlin – Teil 5: Observações, Curiosidades e Dicas.

Berlin 1

O eficientíssimo sistema de trens de Berlin

Ufa, estamos chegando ao final. Este é o quinto artigo sobre Berlin (ainda terá um sexto), mas é que existe tanta coisa para falar da cidade, que se eu colocasse tudo em um texto só, iria ficar muito grande. Neste daqui, à exemplo do que eu fiz nos texto sobre os EUA e Amsterdam, vou colocar um pouco as minhas observações sobre a cidade e o povo e também algumas dicas.

Observações e curiosidades:

  • Conforme já havia falado no artigo sobre Phoenix, nos EUA, os Europeus, assim como os norte americanos, são muito diretos quando querem falar alguma coisa. Não ficam com rodeios, não tentam dourar a pílula, não usam muitas “figuras de linguagem”: falam o que precisa ser dito da forma mais clara e objetiva possível. Isto incomoda um pouco os latinos, pois nós somos muito “mimimi”.
  • O alemão então tem esta objetividade elevada ao extremo. Ele simplesmente não quer perder tempo e gastar energia fazendo rodeios.
  • Por falar em gastar tempo e energia, é impressionante como eles aplicam princípios de eficiência em tudo o que fazem. Alguns exemplos:
    • As portas do metrô e trem são dotadas de botões, portanto elas só abrem se alguém realmente for utilizar. Pensando em apenas uma porta, pode até ser um absurdo, mas imagine centenas de portas de trem e metrô se abrindo milhares de vezes ao dia, o que isto gera de desgaste nas peças, gasto de energia, etc.
    • Da mesma forma, as composições de trêm e metro só são formadas pela quantidade máxima de vagões durante os horários de pico. Fora deles, eles simplesmente “desengatam” dois ou três vagões. Isto deve gerar uma baita economia de energia e de peças. Durante as madrugadas de final de semana, quando o transporte público funciona 24 horas, além do intervalo aumentado (em média 15 minutos entre um trem e outro), eles circulam com apenas 2 vagões, o suficiente para atender aquela demanda.
    • Quando fui para Wolfsburg também fiquei impressionado com o trem que se “divide” no meio do percurso. Deixa eu tentar explicar: existem dois trens que fazem boa parte do mesmo caminho, porém em determinado ponto um segue uma linha e o outro outra. Ao invés de cada um circular sozinho, eles “engatam” os dois trens, economizando assim energia, reduzindo o atrito, etc. Quando chega no ponto certo, eles simplesmente se separam (em movimento) e cada um segue o seu caminho.
  • A mulheres alemãs, no dia a dia, também não perdem muito tempo com maquiagem e preferem usar roupas confortáveis, pelo mesmo motivo: praticidade e conforto. Difícil ver uma com roupa muito justa, ou salto alto, por exemplo. Talvez este também seja o motivo para várias adotarem um cabelo bem curto (estilo joãozinho mesmo).
  • Uma das coisas que eu mais acho legal na Alemanha são as mesas coletivas em bares e restaurantes. Isto faz com que você tenha mais oportunidades de conhecer novas pessoas. Aliás, eles gostam muito de atividades coletivas. Neste ponto eles estão muito, mas muito na frente de nós, brasileiros, como sociedade.
  • Indo para um bar para assistir um jogo, passei por uma comunidade hippie em plena Berlin. É simplesmente um terreno que ocuparam e começaram a construir barracos, dividem a comida, roupas, as pessoas vêm e vão, existem festas e é tudo aberto. Para quem estiver na cidade e tiver oportunidade, fica próximo à Cuvry Straße.
  • Uma coisa que eu notei desde a primeira vez que fui à Europa, em 2011, foi o quanto os europeus gostam de aproveitar atividades ao ar livre durante o verão (só fui à Europa três vezes e as três no verão, então não saberia dizer se no inverno acontece o mesmo). Eles evitam até mesmo almoçar, durante o expediente, em restaurantes fechados, preferindo mesas na calçada e muitas vezes pegando a comida para viagem e se sentando num banco, ou mesmo na grama de um parque ou praça para comer.
  • Desde que comecei a andar de Bicicleta, além do Brasil, visitei mais três países: EUA, Holanda e Alemanha. A Alemanha é o único lugar em que o ciclista respeita as leis de trânsito e os pedestres. Nos outros países eles são tão maleducados (até mais, no caso da Holanda), quanto os brasileiros.
  • Durante uma das aulas caímos no assunto do Zivildienst. Lá na Alemanha (e também na Suiça), o serviço militar (Militärdienst) é obrigatório, assim como no Brasil, para todos os homens, e dura oito meses. Porém, quando alguém é dispensado ou não quer fazer o serviço obrigatório, ele tem que prestar 1 ano de Serviço Civil Obrigatório (Zivildienst). O serviço é remunerado (com uma ajuda de custo) e as pessoas são alocadas para realizarem trabalho em órgãos públicos, escolas, creches, asilos, orfanatos, hospitais, etc. Acho que isto cria uma consciência coletiva maior nos jovens. Além de muitas vezes cobrir defasagens de mão de obra nestes locais.
  • A razão pela qual um diretor de empresa ganha 5, 6 vezes mais do que a recepcionista desta mesma empresa (contra dezenas de vezes no Brasil) é uma só: ambos são bem qualificados e a recepcionista tem um background acadêmico que permitiria a ela realizar praticamente as mesmas tarefas do Diretor. Na Alemanha todo mundo é altamente qualificado e as diferenças salariais se dão apenas por conta de experiência e responsabilidades. Vou ver se escrevo um artigo depois sobre o tema (Educação como redutor de diferenças sociais). Infelizmente, com o envelhecimento da população alemã e a necessidade de trazer imigrantes, a situação está mudando um pouco. Tomara que dêem um jeito de arrumar.
  • Aliás, existe muita necessidade de mão de obra, mesmo especializada. Pessoal da área de saúde e de Tecnologia da Informação que pensa em morar fora por um tempo, ou mesmo se mudar definitivamente de país, deve ficar atento à Alemanha pois eles estão facilitando o Blue Card (o visto de trabalho Europeu).
  • Berlin 2

    Os Berlinenses aproveitando o verão

    Os cidadãos de outros países da União Européia, mesmo com a oportunidade de trabalhar na Alemanha sem necessidade de algum visto especial, tendem a procurar outros lugares, por causa da barreira do idioma (mesmo nos caso das economias em crise, como em Portugal, Espanha, Itália, etc). O pessoal de países como a Polônia, Croácia e República Checa, por ter uma estrutura de idiomas um pouco mais próxima do Alemão é que tem procurado aprender o idioma e migrar para a Alemanha.

  • Apesar de uma grande parte da população alemã ser superqualificada, o sistema educacional alemão sofre bastante críticas. Na Alemanha você tem 3 caminhos a seguir: um técnico (mecanicos, eletricistas, técnicos em geral), um de nível superior (advogados, médicos, engenheiros, etc) e um acadêmico (voltado para pesquisa). O problema é que este caminho é decidido entre a 5ª e 6ª séries (10 e 11 anos) e à partir da 9ª e 10ª (14 e 15 anos) não é mais possível mudar. Se por um lado isto permite que o país faça planejamento de longo prazo, sabendo por exemplo, quantos acadêmicos ele terá em 10 ou 15 anos, por outro, acaba criando carreiras “hereditárias”: os pais mais pobres, que muito provavelmente cursaram o caminho técnico, acabam escolhendo a mesma carreira para seus filhos, pois assim estes filhos estarão no mercado de trabalho mais cedo. Como cada unidade da federação (estados e cidade-estados) são livres para decidir o modelo educacional (a única obrigação nacional é que a criança deve entrar na escola com, no máximo, 6 anos), eles têm uma bucha na mão para resolver.
  • A primeira vez que fui à Berlin, em 2012, para quatro semanas de imersão no idioma, eu fiquei surpreendido com a cidade em todos os sentidos (pessoas, arquitetura, história, lazer, vida noturna, etc). Voltei agora em 2014 para mais três semanas e achei que não iria me surpreender mais. Ledo engano: a cidade me surpreendeu mais ainda do que a primeira vez. E tenho a impressão de que se eu voltar daqui 2 anos, ficarei mais surpreendido ainda.

Dicas:

  • O sistema de transporte público de Berlin foi o melhor que eu vi dos países que visitei. Mesmo sendo antigo e às vezes mal conservado, você consegue chegar a praticamente qualquer ponto da cidade usando trem, ônibus e/ou bonde.
  • Mesmo de e para o aeroport Tegel, que não tem conexão com estações de metrô, é fácil pegar um bus (com espaço para malas) até a Alexanderplatz ou a Hauptbahnhof e de lá seguir de trêm ou metro para qualquer ponto da cidade.
  • Existem opções de tickets diários, para 3 dias, para uma semana e para um mês, com preços por passagens decrescentes.
  • O metrô de Berlin fica aberto 24 horas às sextas, sábados e vésperas de feriados. Engraçado que a maioria das linhas deles têm mais de 100 anos, os trens, em sua maioria são antigos, e eles não precisam de 5 horas diárias de interrupção como o Metro de São Paulo, que é bem mais novo e mais moderno.
  • A DB (Deutsche Bahn), administradora das ferrovias Alemãs tem um ticket especial, para ser usado nos finais de semana, chamado Schönes-Wochenende-Ticket (algo como “ticket de final de semana legal!”). Por um custo de 44 euros, até 5 pessoas podem tomar qualquer trem (exceto os expressos), das 0:00 horas do dia da data do ticket até as 3:00 da manha do dia seguinte. O ticket tem que ser comprado para o Sábado ou para o Domingo. Eu fiz um bate e volta até Dresden num sábado por este valor, que é metade do que custaria um ticket normal de ida e volta, mesmo eu estando sozinho. Crianças de até 15 anos, acompanhados por alguém portador de um ticket destes, também não pagam. Ou seja, dá para uma família inteira (das grandes) ir passar um final de semana em outro ponto do país com 88 euros (um ticket para o sábado e outro para o domingo).
  • Berlin é uma das capitais mais pobres da Europa, apesar de estar num dos países mais ricos. Tudo isto é devido ao período em que a Alemanha ficou dividida e Berlin ficava na parte oriental. Por isto, o custo de vida em Berlin é muito baixo, comparado as outras capitais, como Amsterdam, Londres, Dublin (falando das que eu conheço). Como termos de comparação, usando o “Beer index”: um pint de Heineken em Amsterdam, em um bar, custa 6 euros, enquanto um pint de Berliner Kindl em um bar ou biergarten em Berlin dificilmente passa de 3 euros. O mesmo vale para comida (12 contra 6 euros em um “PF”) e para hotéis (paguei 80 euros na diária em Amsterdam e em Berlin 24).
  • Por conta deste baixo custo, muitos jovens artistas ou emprendedores têm se mudado para Berlin para tocar seus projetos. A cidade é uma efervescência só de artistas e também de start ups.

Bem, acho que destrinchei bastante Berlin nos meus demais textos e os tópicos acima foi o que eu lembrei de não ter comentado antes. Mas se tiver alguma outra pergunta e eu puder responder (afinal, 7 semanas em Berlin não é pouca coisa), é só deixar um comentário que eu vejo se posso ajudar.

Wanderlust #10 – Berlin – Teil 4: atrações

Neste quarto “artigo” sobre Berlin, vou falar um pouco das atrções da cidade. Quais eu achei legal, quais não achei e quais talvez valeriam a pena, dependendo do tempo dispendido na cidade.

No caso de atrações próximas, tentarei colocar num item só para já deixar a dica para o caso de alguém se interessar em fazer um deles, saber que dá pra aproveitar e fazer outros passeios juntos.

Tem que fazer:

  • Museus, museus, museus:
    Berlin é a cidade dos museus! No Spree tem até um banco no meio do rio chamado Museumsinsel (ilha dos museus). É museu da Cerveja, da Salsicha, muitos museus de arte, museu da DDR, das motos da DDR, dos carros da DDR, dos Ramones (sim!). Então com certeza você vai achar algum museu que case com algum interesse bem particular seu. Como disse minha amiga Rebeca: em Berlin só falta o Museu dos Museus. Vou sugerir alguns abaixo que eu gostei.
  • Deutches Historisches Museum:
    a dica que eu sempre dou para toda cidade, a primeira coisa a se fazer é ir ao museu local para tentar entender a história daquela cidade e os eventos que a formaram, bem como o seu povo. Como geralmente a gente chega nas cidades entre 12:00 e 15:00 (eu sempre me programo desta forma, pois uso o tempo entre o checkout de um lugar e o checkin em outro para viajar), dá para conhecer logo de cara. E aproveito também para fazer um reconhecimento à pé do local – Tempo: entre 2 e 4 horas.
  • Karaokê no Mauerpark

    Karaokê no Mauerpark

    Gedenkstätte Berliner Mauer / Mauerpark:
    este museu a ceu aberto na Bernauer Straße, uma das ruas que foram separadas pelo muro, conta toda a história deste episódio da história de Berlin. Contém trechos preservados do muro, da death strip e uma das torres de controle. Com cerca de 2 kms de extensão, termina praticamente no Mauerpark, um outro ponto importante na história do muro. Em dias normais, umas 4 horas para fazer os dois passeios são suficientes, porém, se for no verão e puder ser feito num domingo, aconselho reservar o dia todo: umas 2 ou 3 horas para o Museu e o restante do dia para o mercado de pulgas e o karaokê que acontecem no Mauer Park (isto sem contar os biergartens e artistas de rua do parque).

  • Trabi Safari: uma viagem no tempo

    Trabi Safari: uma viagem no tempo

    Trabi Safari:
    sério, talvez as pessoas achem que eu estou exagerando, mas este foi O MELHOR city tour que eu já fiz na minha vida. Primeiro por dirigir um carrinho que, apesar de espartano, é bem simpático e segundo porque você realmente entra dentro da história. Parece que os pequenos trabis são máquinas do tempo que te levam para a Alemanha Oriental da década de 70. Aconselho fazer o maior percurso, que segue todo o desenho do muro e dura duas horas. Mas reserve umas 3 ou 4, para ouvir as explicações e para perder alguns minutos na loja de souvenirs após o passeio.

  • Potsdamer Platz / Denkmal für die ermordeten Juden Europas / Brandemburger Tor / Tiergarten / Siegessäule:
    o portão de Brandemburgo é provavelmente a atração turística mais famosa da cidade. O que pouca gente sabe é que pode-se emendar algumas outras atrações num passeio só de cerca de duas horas (se não quiser gastar muito tempo, mas se quiser aproveitar o Tiergarten e subir no Siegessäule, reserve umas 4 horas). Comece na Potsdamer Platz e siga placas para o Portão, no caminho você passa pelo memorial aos judeus mortos na Europa. O portão fica em frente ao Tiergarten e, de costas para o portão, você já enxerga a coluna da vitória, a cerca de uns 2 kms. Dá pra chegar até lá passeando por dentro do parque ao invés de seguir uma linha reta.
  • Sim, é um avião de verdade!

    Sim, é um avião de verdade!

    Deutches Teknisches Museum:
    talvez por eu ser fascinado por tecnologia este museu tenha sido um dos mais legais que eu já visitei na vida. Ele tem várias seções contando a história de vários adventos tecnológicos, tais como: trens (deve ter uns 20 trens dentro do museu, então imagina o tamanho), carros, aviões, barcos, fotografia, cinema, cerveja, etc. Precisa reservar ao menos umas 5 horas para poder passear por todas as áreas deste museu gigante sem ter que correr.

  • A imponente Karl-Marx-Alle

    A imponente Karl-Marx-Alle

    Karl-Marx-Alle:
    um monumento à imbecilidade humana erguido como uma prova do poder da URSS e do sistema ali implementado à época. Apesar disto a arquitetura é bela, os prédios simétricos são fascinantes e para quem como eu ainda não conheceu a Rússia, é uma pequena amostra de Moscou. Eu fiz 5 kilometros da avenida em 1 hora e meia, parando para tirar fotos.

  • São Jorge alemão em Nikolaiviertel

    São Jorge alemão em Nikolaiviertel

    Alexanderplatz / Fernsehturm / Nikolaiviertel:
    este é um que dá para emendar com a Karl-Marx-Alle, já que a avenida termina (ou começa) na Alexanderplatz, a praça central de Berlin. Não tem nada demais, mas você não foi a Berlin se não comeu um currywurst acompanhado de uma Schofferhöffer no biergarten desta praça. Aqui também fica a famosa Fernsehturm, cujo topo dá vista para toda a cidade de Berlin (nunca fui, não tive vontade) e dá para emendar andando (uns 15 minutos) Nikolaiviertel, o bairro mais antigo de Berlin. Umas 3 horas dá pra fazer tudo isto, se não tiver muita fila na Fernsehturm. Porém, talvez seja interesante reservar mais tempo, para poder também almoçar e tomar uma cerveja na Geogbräu, uma microcervejaria em Nikolaiviertel.

  • Topologie des Terrors:
    para quem gosta de história este é um local bem interessante. Ele foca, através de fotos, reportagens de jornal, filmes, etc, o período da história alemã entre o final da primeira guerra e a consequente ascensão de Hitler até a queda do muro. Leva umas 2 horas (lendo todo o material) e pode ser feito junto com o Trabi Safari, pois fica do lado.
  • Autostadt:
    esta é para os amantes de carro. A Autostadt (cidade do carro) é um “parque” dedicado à história do carro aberto pela Volkswagen em Wolfsburg, cidade a cerca de 200kms de Berlin. Se estiver por Berlin por mais de 6 dias vale a pena fazer um bate e volta que leva 1 hora de trem para ir, 4 horas passeando pelo parque e mais 1 hora para voltar. Total de 6 horas. E nem perca tempo visitando a cidade de Wolfsburg. É uma cidade industrial como Santo André, Camaçari, Betim, etc. Não tem nada legal para ver.

Dispensáveis:

  • Museus, museus, museus:
    como disse anteriormente entre as coisas boas, Berlin tem museu que não acaba mais. Então mesmo se você for um fã de museus, tente equilibrar seus passeios porque senão corre o risco de perder toda sua estadia na cidade dentro de lugares fechados. Abaixo alguns que eu visitei e desaconselho.
  • Museu de História Natural:
    a não ser que você seja muito fã de biologia, paleontologia, astronomia, geologia e afins, não vale a pena. Se você já visitou o Museu de História Natural de Nova York então, e bem capaz de se decepcionar pois a comparação vai ser inevitável.
  • Museumsinsel:
    5 museus em um lugar só e um daily pass que te permite visitar todos. Não caia nesta. São museus interessantes até, mas são muito específicos (arte barroca, arte egípcia, etc), então, a não ser que você seja fã de algum dos temas ou vá passar bastante tempo na cidade não vale a pena.
  • Museu das Motos da DDR:
    mesmo para quem é fã de moto, este museu não tem nada a mais do que se vê em encontros de carros e motos antigas e nada que chame a atenção. Além de ser pequeno (30 minutos seriam o suficiente)
  • Campos de Concentração:
    em Berlin você fica “sobrecarregado” com histórias da primeira e segunda guerras, do nazismo e da Alemanha dividida (e consequentemente da guerra fria). Não creio ser necessário se deslocar até Sachenhaus (na grande Berlin, o campo de concentração mais perto) só para visitar um campo de concentração. Além do mais, o clima é meio pesado.

 Se tiver tempo:

  • Passeio de barco pelo Spree:
    vale a pena para ver a cidade por outra perspectiva e também é um passeio curto (se for fazer, faça o de uma hora, é mais que suficiente). Se der, aproveite aquela hora pós almoço em que se está cansado de andar e precisa dar uma “jiboiada”.
  • Olimpiastadion:
    muito interessante este estádio, que foi palco das olimpíadas de 32 e da final da copa de 2006, e todo o parque olímpico ao redor. Só cuidado pois além de ficar distante do centro da cidade (uns 40 minutos de metrô) é bem grande, então pode-se perder umas 5 ou 6 horas neste passeio.
  • The Story of Berlin:
    o museu em sí é até meio repetitivo (pedaços do muro, um trabi, etc) mas o final é que é interessante, pois ao final da visita, existe uma visita guiada por um bunker construido na época da guerra fria, que fica uns 4 andares abaixo do solo, no mesmo prédio. Se estiver perdido na Kurfürstendamm e quiser aproveitar é interessante pelo bunker. Na região ficam também o Hard Rock Café de Berlin (para quem gosta de comprar souvenirs da marca, como eu) e a KaDeWe, uma loja de departamentos gigantes (também legal para comprar souvenirs).
  • Tempelhof:
    a história desde aeroporto desativado que virou parque vale mais do que o parque em sí. Mas se estiver tentando manter a rotina de exercícios durantes as férias, dá pra ir até lá correr (em uma das duas pistas de pouso) ou dar umas pedaladas.
  • East Side Gallery:
    bem legal para quem curte grafitti. E só!
  • DDR Museum:
    este é outro passeio curto que vale para a “jiboiada” pós almoço (fica bem na região central, perto da Museuminsel, Berliner Dom, etc). O museu é pequeno (cerca de 1 hora de visitação) e mostra como era a vida na DDR.

Noite:

Eu sou um cara mais do dia. Gosto de aproveitar mais enquanto tem luz do sol, de dormir pouco e levantar cedo, mas aqui vão algumas dicas para atrações noturnas na cidade (as poucas que eu visitei em 7 semanas!). Até porque não se pode perder oportunidades em uma cidade onde o transporte público funciona 24 horas aos finais de semana e véspera de feriados (só fique esperto com os horários pois os intervalos são bem maiores)

  • Prenzlauer Berg:
    este distrito próximo ao Mauerpark é repleto de bares, restaurantes e discotecas. Sugiro o Zu Mir Oder Zu Dir (um bar com DJ rolando louge e eletrônicos mais softs, é pra sentar e conversar tomando uma cerveja. Só avisando pra quem se incomoda: no local é permitido fumar, mesmo sendo fechado) e a Kultur Brauerei, uma antiga fábrica de cerveja transformada num centro com restaurantes, bares, galerias de arte, etc.
  • Cuvrystraße:
    um dos vários bairros boêmios de Berlin. A Lido é uma danceteria legal (especialmente se tiver rolando noite de Soul music) e vale a pena dar uma passada antes na comunidade Hippie que existe na esquina com a Schlesische Straße.
  • Mitte:
    tanto na Torstraße quanto a Oranienburger Straße existem vários restaurantes e bares, de tudo quanto é tipo (muitos italianos, mexicanos, indianos, pubs, etc)
  • Competição entre mesas no The Pub

    Competição entre mesas no The Pub

    Alexanderplatz:
    existem alguns barzinhos e restaurantes nas redondezas da praça. Seguindo a linha do trem, sentido Hackescher Markt, existem dois lugares interessantes para apreciadores de cerveja. O primeiro é o BHM Brauhaus Mitte, uma cervejaria local e o segundo é o The Pub, onde existem mesas que vendem cerveja a litro, baseado num “cervejômetro” instalado nas mesas e que permite a separação da conta em até 8 “comandas” diferentes. So tome cuidado pois eles colocam quanto cada mesa consumiu no telão e isto acaba gerando uma competição que pode acabar numa bela ressaca….hahaha

  • Hackescher Markt:
    existem alguns bares, pubs e restaurantes instalados na parte de baixo da estação. Alguns deles funcionam 24 horas.
  • James-Simon-Park: uma das "praias" dos Berlinenses

    James-Simon-Park: uma das “praias” dos Berlinenses

    James-Simon-Park e Monbijou Park:
    os dois parques ficam à beira do Spree e são separados apenas por um túnel. No James-Simon existem vários barzinhos com cadeiras de praia, mas no verão o pessoal pega cerveja e fica na grama mesmo. No Monbijou existe o Strandbar, bem colado ao rio, também com cadeiras de praia e mesas. No Strandbar, quando o clima permite, acontecem aulas de dança (tango, ritmos caribenhos e africanos) no final da tarde / começo da noite.

Bem, é isto. No próximo artigo falarei um pouco sobre impressões que eu tive da cidade e do povo e também darei algumas dicas para os viajantes.

Be happy!!!! 🙂

Wanderlust #9 – Berlin – Teil 3: die Stadt

Os prédios com espaços no meio, que geralmente são jardins de inverno

Os prédios com espaços no meio, que geralmente são jardins de inverno

Conforme já comentado no artigo anterior, sobre a história da cidade, Berlin nasceu à margem do Rio Spree e acabou crescendo as margens deste rio. Perto do Spree é onde se encontram os bairros mais antigos da cidade, seus mais famosos museus, praças e edifícios.

O Spree hoje é inclusive uma rota turística da cidade, por onde se pode fazer excursões que passam praticamente pela maioria dos principais pontos turísticos.

Porém, com todos os acontecimentos que marcaram a história de Berlin, especialmente as guerras e a divisão da cidade durante a guerra fria, não é difícil imaginar que a cidade apresente uma variedade impressionante no que se refere à arquitetura.

Hauptbahnhof: uma maravilha da engenharia moderna

Hauptbahnhof: uma maravilha da engenharia moderna

Apesar de muitos dos edifícios que foram destruidos durante a segunda guerra terem sido reconstruidos, especialmente na parte oriental (os soviéticos eram bons nisto, na Polônia e em Dresden também existem vários edifícios que foram restaurados exatamente como eram antes dos bombardeios), existe muita modernidade convivendo com certa harmonia com construções antigas. Um exemplo é a Potzdamer Platz. A estação central de trem (Hauptbahnhof = estação de trem principal) é uma verdadeira maravilha da Engenharia e Arquitetura, tendo sido inclusive tema de um programa na Discovery (ou NatGeo, não lembro qual).

Na parte ocidental é onde se encontram os prédios mais modernos, porém, atualmente a parte oriental parece um canteiro de obras, pois apesar de os soviéticos terem reconstruído vários dos edifícios, e até terem construído uma réplica de Moscou na Karl-Marx-Alle, uma imponente avenida com quase 20 metros de largura e prédios simétricos (eles precisavam de um lugar para os desfiles militares), eles focavam esforços no que iria ficar visível para as câmeras de TV e fotografia. Ou seja, nas avenidas principais os prédios foram reconstruidos, ou foram construidas novas e imponentes edificações, porem, atrás destes a cidade era praticamente abandonada, então hoje em dia existem diversos prédios e galpões em estado precário e que estão (infelizmente) sendo demolidos para darem lugar a prédios comerciais e residenciais modernos.

Berlin Karl-Max-Alle

Karl-Max-Alle: uma avenida imponente com edifícios simétricos

Os terrenos que compunham a death strip também estão sendo, aos poucos, alvo da especulação imobiliária. Isto quase gerou um problema: a região à margem do Spree onde se encontra a East Side Gallery, a maior seção do muro ainda de pé e que se transformou em uma galeria de arte a céu aberto, foi adquirida por uma empresa que está erguendo ali um condomínio comercial. Inicialmente o plano era acabar com a East Side Gallery, porém após protestos da população, eles resolveram conservar o muro. Mas a imagem de um prédio comercial entre a East Side e o Spree não é das melhores.

Um outro resquício da guerra fria é a Fernsehturm (simplesmente “Torre de TV”): os soviéticos a construiram como um ato de provocação, para que ela fosse vista de qualquer ponto da cidade, especialmente pelos ocidentais, e conseguiram seu objetivo. Apesar de hoje em dia alguns prédios mais altos já encobrirem a visão da torre, ela é tão grande que se tornou até um ponto de referência: basta você procurá-la para saber em que direção está o centro da cidade. É possivel inclusive enxergá-la por vários minutos enquanto o avião está pousando em um dos aeroportos da cidade. Mas não pense que só os soviéticos eram filhas da puta: os americanos construiam perto dos checkpoints, os pontos por onde era possível passar de um setor à outro e onde os orientais conseguiam enxergar a parte ocidental (a death strip servia também para que o pessoal do leste não tivesse contato nenhum com o do oeste), restaurantes para que o pessoal do oriente soubesse que não havia falta de comida no ocidente.

O moderno convivendo com o antigo na margem do Spree

O moderno convivendo com o antigo na margem do Spree

Os prédios, mesmo os mais novos, têm uma característica diferente do que temos no Brasil. Aqui geralmente a posição do prédio em relação ao terreno visa aproveitar o máximo da luz do dia para as áreas de lazer e para permitir que, ao menos em parte do dia, os apartamentos sejam iluminados pela luz do sol. Em Berlin, geralmente os prédios são construídos “em volta” dos terrenos, tendo um centro aberto (que geralmente são jardins de inverno) e desta forma as “áreas de lazer” e os cômodos principais (geralmente quartos) ficam isolados do vento pela parte externa do prédio. Da mesma forma, as ruas não são retas enormes, mas sim um ziguezague (se olhado do alto), pois isto impede que o vento corra por entre os prédios.

Outra coisa interessante da cidade é que ela é praticamente plana (por isto a Fernsehturm é vista praticamente de qualquer ponto), apresentando poucos morros (Berg em alemão). Esta característica faz com que a cidade seja perfeita para o uso de bicicleta como transporte no dia a dia. Estima-se que existam 2,5 milhões de bicicletas na região metropolitana de Berlin, para uma população de aproximadamente 5 milhões de pessoas.

No fundo, ao centro, a Fernsehturm, que pode ser vista de praticamente toda Berlin

No fundo, ao centro, a Fernsehturm, que pode ser vista de praticamente toda Berlin

Mas uma das coisas que mais me impressiona em Berlin é o seu sistema de transporte público. Exceto se você morar em algum subúrbio muito distante, você praticamente não precisa de carro para se locomover na cidade. Sua rede interligada de trêns urbanos (U-Bahn), suburbanos (S-Bahn), ônibus e bondes (tram) faz com que você consiga chegar em qualquer ponto da cidade sem maiores dificuldades. E para melhorar, as sextas, sábados e vésperas de feriados o metrô funciona 24 horas.

Não sou um profundo conhecedor ou admirador de arquitetura, apesar de me interessar um pouco por urbanismo, mas creio que Berlin deva ser uma das cidades que têm o maior acervo do mundo, quando se fala em estilos arquitetônicos. E mesmo quem, como eu, não tem muito interesse pelo assunto, começa a prestar atenção em detalhes que em outros lugares passariam despercebidos e a andar olhando para o alto, para encontrar alguma surpresa no alto dos prédios ou no topo das igrejas, bibliotecas e museus.

Wanderlust #8 – Berlin – Teil 2: die Geschichte

Brandemburger Tor

Brandemburger Tor (Portão de Brandemburgo) e sua famosa quádriga.

Uma das coisas que mais me atraem nos lugares que visito é a história daquele local. Através da história se explica a arquitetura, o comportamento do povo, os pontos turísticos e históricos e te dá um panorama geral do porque daquele local ser daquele jeito e atrair turistas. Para continuar contando um pouco de Berlin, acho que se faz necessário contar um pouco da história da cidade, especialmente porque alguns fatos são bem recentes (eu vi no Jornal Nacional as cenas das pessoas quebrando o muro e via notícias sobre tensões da guerra fria). Então, neste segundo post sobre Berlin, um pouco dos fatos que moldaram esta cidade fantástica:

Alguns séculos antes de Cristo, a região à beira do rio Spree já era habitada por algumas tribos, porém o primeiro documento em que o nome Berlin é mencionado, então como um povoado, é de 1237. Mais tarde, em 1307, ao se juntar com outro povoado (Cölln), também às margens do Spree (onde hoje se localiza o Nikolaiviertel), se torna definitivamente um município.

Em 1486 torna-se sede do território que atualmente constitui o estado alemão de Brandemburgo. Com a subida de Friedrich Whilhem ao trono de Brandemburgo, em 1640, a cidade desenvolveu-se rapidamente. No início do século XVIII, o sucessor de Friedrich Whilhelm, Friedrich III, transforma Brandemburgo num reino e é coroado como Friedrich I da Prússia e Berlin torna-se a capital do reino da Prússia.

No começo do século XIX, Napoleão derrota a Prússia e ocupa Berlin, levando para Paris a quádriga (biga é um carro utilizado em esportes e combates que é conduzido por 2 cavalos, quádriga é um com 4) que decorava o já existente Portão de Brandemburgo, até hoje uma das atrações mais conhecidas da cidade. Com a queda de Napoleão, a quádriga voltaria para Berlin e seria recolocada sobre o portão.

Ainda na primeira metade do século XIX, começa o processo de industrialização de Berlin, o que acelera o desenvolvimento da cidade.

Na segunda metade do século XIX, Otto von Bismarck, através de guerras contra a Dinarmarca, Áustria e França, consegue unificar os povos de língua alemã sob o Império Alemão, no que é conhecido como o segundo Reich. Berlin se torna então a capital do Império Alemão e recebe diversos projetos de infraestrutura urbana.

No começo do século XX a cidade já tinha quase 2 milhões de habitantes. A primeira guerra mundial, que culminou com a derrocada do Império Alemão, não chegou a impactar consideravelmente a cidade, que continuava a ser capital da Alemanha e seu centro cultural, intelectual e político. Com a nomeação de Hitler ao posto de chanceler, em 1933, a história da cidade começaria a mudar radicalmente.

Primeiramente Hitler pretendia demolir e reconstruir Berlin e, à partir do início da segunda guerra, Berlin sofreria diversas mudanças que a transformaram no que ela é hoje. Primeiramente foram os seguidos bombardeios sobre a cidade que ocorreram por praticamente 5 anos e destruiram a maioria dos edifícios, e depois foi o processo de ocupação pelos vencedores do conflito.

Berlin WallEine geteilte Stadt
Com o fim da segunda guerra e a derrota da Alemanha os quatro países vencedores do conflito (Inglaterra, França, Estados Unidos e União Soviética) resolvem dividir o país em quatro regiões, a serem controladas, temporariamente, por cada um dos vencedores. Berlin ficaria dentro da parte sob controle da URSS, porém, como a cidade era um centro cultural e intelectual, os quatro países negociam na cidade de Potsdam (uma cidade na região metropolitana de Berlin, capital do estado de Brandemburgo, falarei desta bela cidade mais pra frente) que Berlin também seria dividida em quatro setores, cada um sob administração de um dos países.

Aqui vem o primeiro engano de muita gente (inclusive meu): o muro de Berlin, que seria construido mais tarde, na verdade não “dividia” a Alemanha, ou mesmo Berlin, entre duas partes, mas sim cercava a área que estava sob controle dos aliados do oeste, já que a cidade inteira ficava dentro da região sob controle soviético. Ou seja, era uma prisão onde as pessoas queria entrar.

Afim de disseminar sua ideologia e evitar a disseminação da ideologia dos países do oeste, os soviéticos começam a bloquear as fronteiras terrestres, as linhas de trem e até a controlar o acesso fluvial, tanto para cidadãos que sairiam da parte sob seu controle, quanto para os que desejavam entrar. Em 24 junho de 1948, este bloqueio é extendido também para as cargas que chegariam à parte ocidental de Berlin, com a intenção de que os aliados do oeste abandonassem os seus setores, permitindo assim o controle soviético em toda a cidade. Porém, os aliados do oeste montam uma das maiores operações aéreas da história (os acessos terrestres, fluviais e ferroviários estavam bloqueados, porém, existia um corredor aéreo previamente negociado) para abastecer a parte ocidental de Berlin com os insumos necessários. O Berlin Airlift, como ficou conhecido, teve como base o aeroporto de Tempelhof (que até a unificação se transformou também em base aérea americana) e durou até 11 de maio de 1949.

Berlin Wall FallComo as fronteiras com o ocidente estavam fechadas, os residentes da alemanha oriental se dirigiam até Berlin, afim de tomar aviões para outras partes do país e assim fugir da área de controle soviético. E ai começa uma das histórias mais emblemáticas do século passado.

Berliner Mauer
Para impedir a fuga dos alemães orientais para o ocidente (a esta altura, a República Democrática Alemã já havia sido fundada pelos soviéticos), os soviéticos começam a bloquear, começando por pontes que davam acesso aos setores ocidentais (trechos dos rios que cortam Berlin já haviam se tornado “fronteiras” naturais) e estações de metrô e trem (várias estações ficaram desativadas, pois ficavam na ou muito próximo à divisa, elas ficaram conhecidas como “estações fantasmas” – Geisterbahnhöfe), os acessos à Berlin ocidental.

Porém, muitas ruas, parques e terrenos ficavam entre os dois setores e, somente as patrulhas não conseguiam conter as fugas. Em 1961 dá-se o início da construção do muro. Inicialmente alguns trechos foram construidos em ruas ou parques, ou mesmo nas margens dos rios, para evitar a passagem. Muitos prédios tiveram os acessos ao lado ocidental bloqueados, porém, os moradores continuavam a pular as janelas para acessar os setores americano, francês e inglês da cidade.

A Bernauer Straße foi uma das ruas mais utilizadas como rota de fuga, já que as janelas davam exatamente para o lado ocidental. Em determinado momento, os moradores dos apartamentos de frente para o lado ocidental são deslocados para outros apartamentos e as janelas são fechadas com tijolos.

Alguns anos mais tarde, afim de reforçar a segurança, alguns prédios (a maioria dos prédios da Bernauer Straße, por exemplo) seriam demolidos para dar lugar ao muro (a segunda versão, a primeira, construida em 1961 era mais rústica e a segunda, construída ao longo dos anos, é a mais conhecida e feita de blocos pré fabricados) e para compor o que ficou conhecido como a “faixa da morte” (death strip): uma área de segurança próxima ao muro, onde existiam barreiras (geralmente arame farpado), as torres de observação e onde os veículos de patrulha circulavam.

Até a queda do muro, em novembro de 1989, oficialmente morreram 138 pessoas (alemães orientais tentando escapar, alemães ocidentais que estavam próximos ao muro e foram mortos por “acidente” e oficiais que foram mortos por tentarem desertar ou por acidente), porém, como as informações do lado oriental não eram confiáveis e muitas vezes eram manipuladas, imagina-se que este número tenha sido maior.

Além disto, sabe-se que a criação do muro e a restrição de circulação, quando não a separação de famílias e amigos, foi causador de muitos casos de stress e depressão que, provavelmente, podem ter causado a morte de mais pessoas, dos dois lados do muro.

Berlin Wall Fall2Na noite de 9 de Novembro de 1989, já com a URSS à beira do colapso e a guerra fria quase no fim, os cidadãos berlinenses, após a declaração de um oficial do governo da DDR (Günter Schabowski), que se enrolou com as palavras e, ao invés de dizer que a fronteira seria aberta “em pouco tempo” (sobald), disse “imediatamente” (sofort), dezenas de milhares de cidadãos se dirigiram para os postos de controle afim de deixar o quanto antes a parte oriental de Berlin (aliás, cidadãos de outras cidades da DDR também se dirigiram para lá, mesmo sendo tarde da noite), os guardas da fronteira, diante de tanta gente, preferiram recuar, o que possibilitou que muita gente, por conta própria, começasse ali a demolição do muro, criando assim vários “pontos de cruzamento de fronteira” não oficiais.

Em 3 de Outubro de 1990, a Alemanha foi oficialmente reunificada e Berlin recebeu novamente o status de Capital da Alemanha.

Wanderlust #7 – Berlin, teil 1: Die Leute

0901 Berlin - Mauerpark

Karaokê no Mauer Park: o berlinense gosta de atividades coletivas

Ufa! Até que enfim! Esta era para ser a primeira cidade a ser tema da “coluna” Wanderlust do Botecoterapia, mas o negócio começou a ficar interminável e como eu já estava prestes à voltar para cá (escrevo este texto “in loco”), resolvi “soltar” os textos dos EUA (que também foram escritos “in loco”) e o de Parati enquanto estavam “frescos” na memória. O momento é até mais legal, pois pelo fato de terem poucos brasileiros na escola (não conheci nenhum, pois não tem nenhum na minha sala), acabei fazendo mais programas sozinhos e, para ajudar, é mês de copa, e pelo que tenho percebido, os alemães adoram assistir os jogos coletivamente, principalmente no que eles chamam de “WM Public View” (WM é a abreviação de Weltmeister, campeonato mundial).

À exemplo do texto dos EUA, em que quebrei em várias partes, para não ficar algo longo e chato, farei o mesmo com os textos de Berlin. Estou prevendo inicialmente 6 textos, abordando diversos aspectos da cidade, sua gente e suas atrações, porém como estou aqui e as experiências ainda estão sendo vivenciadas, este número pode mudar e, eventualmente, posso até voltar num assunto já tratado. Para iniciar, falarei um pouco sobre os berlinenses.

Os Alemães, por conta de todos os acontecimentos do século passado dos quais eles foram causadores e/ou protagonistas (duas guerras mundiais, guerra fria, muro de Berlin, Holocausto, etc) carregam em si uma culpa enorme.

Além dos vários monumentos em toda a parte para homenagear as vitimas e relembrar estes terríveis acontecimentos (“nós não podemos nos esquecer para que não aconteça novamente”, é a justificativa para tantos monumentos), a Alemanha tem sido um dos principais países à contribuir com causas sociais e humanitárias, com recuperação econômica de outros países e, mesmo com uma recente crise em países da zona do Euro, por culpa única e exclusiva destes, não abandonou o barco para não deixá-los à deriva (fato que poderia desencadear em uma crise bem pior, caso ocorresse). Talvez isto seja uma forma de autopunição na tentativa de expiar os pecados de um passado recente.

Verão é a época de atividades ao ar livre em Berlin

Verão é a época de atividades ao ar livre em Berlin

O Berlinense, por sua vez, já passou por esta fase. Eles tiveram a cidade dividida como um espólio da guerra e viveram uma divisão física e todas as tensões de ser a fronteira entre os contendores da guerra fria. Portanto, seus pecados aparentemente já foram pagos e com isto eles evoluiuram e o Berlinense é acima de tudo tolerante. Ele tem tolerância de gênero, de orientação sexual, de credo, de etnia e tudo quanto é tipo. Em Berlin, a frase “quer aparecer pendure uma melância no pescoço” é totalmente ineficaz, pois por mais que alguém não ache legal ou não goste de alguém com uma melância no pescoço, ele tende, genuinamente, a aceitar e respeitar.

Então ao andar de metrô por aqui você vê gente de todas as etnias, credos, culturas, etc. Os muçulmanos podem usar seus turbantes e barbas sem problemas, vejo todo dia mulheres de burka, você encontra uma senhora sexagenária com o cabelo moicano pintado de rosa, piercing e tatuagens por todo o corpo conversando com moleques de 15 anos vestidos com o melhor da moda nerd, casais homossexuais passeiam sossegadamente de mãos dadas, etc. Existe uma tolerância muito grande também aos imigrantes, sejam eles legais ou ilegais.

Dos países da zona do Euro, a Alemanha talvez seja o que mais consegue lidar com estas ondas migratórias e Berlin, em especial, é uma cidade que recebe e tenta, de algum modo, propiciar oportunidades para estas pessoas.

Além da tolerância, uma outra característica que é inerente aos berlinenses (muito provavelmente pelos mesmos motivos) é aproveitar a vida da melhor forma possível. E para eles, aproveitar a vida não é uma questão de grana, de posses. Eles querem apenas se divertir, tomar sua cerveja, assistir seu futebol, aproveitar os poucos meses de tempo bom ao ar livre, seja fazendo churrasco nos parques, seja apenas sentando na beira de um rio para aproveitar o clima ameno.

O povo é festeiro!

O povo é festeiro!

Estando desta vez sozinho “mesmo”, tenho tido a oportunidade de conversar bastante com alemães, especialmente nas exibições dos jogos da Copa. Uma coisa bem legal que existe por toda a Alemanha e que propiciam uma oportunidade maior de contato são as mesas coletivas em bares, Biergartens, restaurantes, etc. Toda vez que estou numa destas mesas, a pessoa que está do lado puxa conversa, se apresenta e, na medida em que meu alemão permite (quando esta pessoa não fala inglês) acontece uma conversa bastante amistosa, com os alemães muito interessados em saber onde eu moro no Brasil, o que eu faço, o que as pessoas fazem, como é o clima, as ruas, as pessoas.

Aqui um adendo interessante: já é a minha terceira vez na Europa e já fui uma dez vezes aos EUA. Os alemães, ao saberem que sou do Brasil, é o um dos poucos povos (o pessoal do leste europeu também age como eles) que não fala da “mulher brasileira” (no melhor estilo chauvinista, especialmente americanos e ingleses) ou de futebol (especialmente italianos e espanhóis). Ele parece se interessar genuinamente por uma cultura diferente da deles.

Mesmo no metrô ou na rua, se vc está com alguma camiseta engraçada, ou se acontece algo engraçado (como o exemplo do rapaz que foi tirar uma foto e virou o copo de cerveja que estava segurando nele mesmo), eles fazem piadas, dão risada e todo mundo leva na esportiva.

Dizem que os brasileiros são um povo que ri das próprias desgraças. Eu acho que o Berlinense é o povo que, apesar de ter sofrido e causado várias desgraças, aprendeu a rir da vida e sem a necessidade de se fazer de coitadinho, como os brasileiros.

Quer dizer, eles até se fazem um pouco de coitados, pois foram eles que, infelizmente, ficaram sob o controle da antiga URSS e, enquanto o restante do país, que estava sob o controle de EUA, França ou Inglaterra, se desenvolveu absurdamente em menos de meio século, Berlin ficou parada no tempo (inclusive o setor ocidental). Mas acho que este “coitadismo” deles, tem mais a ver com dar uma de pobre (em comparação com o restante da Alemanha, especialmente a região da Bavária, e outros países europeus, Berlin é sim pobre) e pagar menos na cerveja……hehehe.

Afinal de contas, como diz o lema: Bier ist billiger als Wasser, das ist Berlin!

Tá certo que o pragmatismo e o “metodismo” alemão várias vezes são irritantes (e olha que eu sou um cara metódico pra caramba!). A inflexibilidade deles também é algo que é complicado de lidar, ainda mais para nós, por conta do nossa “maleabilidade” (o famoso “jeitinho brasileiro”), mas mesmo assim, de todos os povos que eu conheci, por incrível que pareça, eles são um dos mais amistosos.