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Big Data Marketing – Lisa Arthur (8/2014)

TERADATA CORPORATION

Nos dias de hoje, praticamente tudo o que fazemos deixa um “rastro digital”: corremos de manha usando o Endomondo para fazer o tracking dos nosso treinamentos, depois pagamos nosso café da manha com cartão de crédito (e ainda colocamos “CPF na nota”) e depois usamos o Waze para encontrar o melhor caminho até o trabalho. Basicamente todas as profissões atualmente usam algum tipo de dispositivo que coleta e/ou exibe dados. Usar Twitter, Facebook, Google e algum serviço de e-mail já é parte constante das nossas vidas.

Tudo isto gera um montante absurdo de dados que podem (e devem) ser utilizados pelas empresas para que estas possam criar e oferecer produtos e serviços mais específicos para seu mercado alvo, assim como pautar as estratégias de marketing das empresas.

Este livro trata justamente de todo este montante de dados disponíveis e as estratégias para transformar esta massa de dados em informação relevante, principalmente em como “desenrolar este novelo de dados” (o termo usado é “untangle the data hairball”).

O interessante é que este livro é direcionado aos profissionais de Marketing e foi escrito por uma profissional de marketing de uma empresa de tecnologia que é voltada justamente para o mercado de business analytics: Lisa Arthur, Chief Marketing Office da Teradata.

Ela foca as discussões em 5 itens principais e que devem ser a base para o desenvolvimento de um projeto / cultura de utilização de dados pelas áreas de marketing das empresas:

  1. Get Smart. Get Strategic – os responsáveis pelas áreas de marketing devem usar os dados de forma a desenhar a estratégia de marketing de suas empresas (ou linhas de produtos/serviços, conforme o caso).
  2. Tear Down the Silos – as informações geradas através destes dados devem estar concentradas num ponto único, pois se os dados estiverem em silos, será muito difícil a utilização deles, bem como definir a relevância destes para o negócio.
  3. Untangle the Data Hairball – este é o ponto principal do livro. Não adianta querer usar todos os dados disponíveis, pois isto irá pode fazer com que a empresa acabe perdendo muito tempo apenas em análise de informações. As áreas de Marketing devem identificar quais dados são realmente relevantes para o negócio para então poder utilizá-los.
  4. Make Metrics Your Mantra – os níveis estratégicos da empresa não podem perder tempo analisando relatórios detalhados ou navegando no raw data. Metricas devem ser definidas para que então os dados sejam utilizados para prover estas métricas.
  5. Process Is The New Black – segundo ela, apesar dos profissionais de marketing não serem muito fãs de processos, afim de que a empresa não se perca no emaranhado de dados e informações que são geradas e colhidas, processos devem ser definidos e seguidos à risca.

Outro ponto importante tratado no livro, já focando na implementação das estratégias, diz respeito ao relacionamento entre as áreas de Marketing e IT e de como elas devem trabalhar juntas, quando não eventualmente se tornarem uma só. Nesta parte ela entra um pouco no detalhe da estratégia, dando exemplos de vários tipos possíveis, mas faz uma ressalva muito importante: você pode fazer outsource de IT, porém nunca deve fazer outsourcing da estratégia de IT para Big Data.

É um livro bem interessante, tanto para o pessoal de marketing que está sendo bombardeado com o termo “big data”, quanto para os profissionais de IT, que já tem mais conhecimento dos termos técnicos ligados à big data entenderem o “outro lado”, o do pessoal de Marketing.

Nuts! – Southwest Airlines’ Crazy Recipe For Business and Personal Success – Kevin & Jackie Freiberg (6/2014)

Nuts Top

A tradução literal de nuts é castanhas, nozes. É também a forma contraida, em inglês, de amendoin (peanuts). Pode também ser usada como uma gíria que significa “louco”, “doido”. Seria mais ou menos o equivalente ao nosso “doido de pedra”. O título (Doidos! – A receita da Southwest Airlines para o sucesso pessoal e nos negócios) faz juz ao objeto de estudo do livro: a companhia aérea norteamericana Southwest Airlines. É claro um trocadilho entre o “doido” e o “amendoim” servido à bordo, que é uma das marcas registradas da empresa.

Surgida no final da década de 60, a Southwest Airlines foi a empresa que desafiou o status quo da indústria de aviação civil da época, que considerava como mercado alvo as pessoas de alta renda. Uma frase muito repetida, quando se tratava do mercado da aviação, à época (e no Brasil até meados da década de 90) era: “existem dois tipos de pessoas: aqueles que podem pagar pra voar e aqueles que não”. Ela foi a precursora do modelo “low cost-low fare”. Além de, afim de reduzir custos, terem eliminado alimentos mais elaborados, substituindo-os pelos amendoins e outros “snacks” (que liberam espaço para mais poltronas e faz com que a preparação do avião para a próxima “perna” seja mais rápida), eles desafiaram a curva de valor do setor ao oferecer vôos muito baratos, em todos os horários e assentos, e em cidades e/ou aeroportos secundários.

Apesar da estratégia de baixo custo, uma das premissas iniciais e que é mantida até hoje é oferecer o melhor serviço possível para o cliente (POS – Positive Outrageous Services, algo como “serviço positivamente impactante”), incluindo, além da qualidade e individualidade no atendimento, o amor e a diversão como ingredientes dos vôos. Ela foi, por exemplo, a primeira companhia a abolir os trajes formais da tripulação e incluir brincadeiras e piadas nas instruções iniciais de vôo.

Shamu I: pinturas diferentes afim de gerar mídia espontânea

Shamu I: pinturas diferentes afim de gerar mídia espontânea

Também foi uma das primeiras empresas do setor a adotar um modelo de gestão mais “humano”, especialmente no que diz respeito ao relacionamento com todos os atores envolvidos (fornecedores, governo, sociedade e, principalmente, funcionários).

O livro passa pela história da empresa e sua luta inicial para conseguir decolar (antes da desregulamentação do mercado americano, na década de 70, uma empresa só obtinha a permissão de voar após autorização de órgãos reguladores, o que tornava o processo sucestível aos lobistas dos players do mercado), alguns percalços iniciais, mas concentra principalmente na cultura que foi criada dentro da Southwest. Cultura esta que provavelmente seja a razão do sucesso. O livro lista algumas “regras de ouro” e condutas que não estão escritas em nenhum livro, mas que são enraizadas na empresa, tais como:

  • Profissionais não precisam candidatar-se: eles esperam das pessoas determinados comportamentos e partem da premissa que os conhecimentos técnicos são passíveis de serem adquiridos. Um dos lemas do “Departamento de Pessoas” (foi uma das primeiras empresas a abolir o nome “Recursos Humanos) é “Hire for attitude, train for skill”’ (contrate pela atitude, treine para o conhecimento [técnico])
  • Mate a burocracia: eles eliminaram vários flows de aprovação de projetos, políticas complexas e escritas e contam com o bom senso dos funcionários na maioria dos casos para que estes possam tomar as melhores decisões para a empresa.
  • Aja como o dono: existe a cultura e incentivos (incluindo aí stock options) para que cada pessoa se sinta dona do negócio e aja como tal. Desta forma, além de gerar um comprometimento maior com a empresa, faz com que as pessoas tomem as melhores decisões afim de que o resultado final seja atingido.
  • Aprenda como um louco: existem vários tipos de programas onde as pessoas realizam temporariamente as funções de outra pessoa. Desta forma, além de criar um melhor ambiente, cria empatia e uma “visão do todo” que ajuda no dia a dia e na tomada de decisões.
  • Não tenha medo de falhar: existe a pratica na empresa de incentivar as idéias e, caso elas não tenham sido as melhores, reconhecer os esforços e aprender com os erros, ao invés de procurar e punir culpados.
  • Celebre as conquistas: uma das características da empresa é celebrar as conquistas, pois é uma maneira de criar memórias, renovar as energias para as coisas que virão, e muito importante, criar e estreitar as relações.
  • Celebre as pessoas com o coração: crie uma cultura de reconhecimento e agradecimento, tanto diariamente, através de um simples “obrigado”, quanto celebrações maiores, que incluem festas, nominações, premiações, etc. Mas faça isto do fundo do coração.
  • Ame: engraçado uma empresa ter o amor como pilares de sua cultura (inclusive tendo um logo que é impresso em tiquetes de passagens), mas é isto que é difundido e pregado na empresa e, pelos exemplos usados no livro, é algo bom genuino.
  • Compaixão pela comunidade: retribua à sociedade o que ela te ajudou a obter. É o certo a se fazer. Mas faça com o coração, e não por obrigação.
  • Faça propagandas não convencionais: invente novas formas de divulgar sua empresa e sua marca. Uma das formas encontradas pela Southwest foi pintar suas aeronaves de forma não convencional. Um evento famoso que chamou bastante a atenção foi o Malice in Dallas: para resolver uma disputa sobre um slogan (“Just Plane Smart”) com a Southwest, o CEO da Stevens Aviation, “Killer” Kurt Herwald, propôs a “Smokin” Herb Kelleher, CEO da Southwest, uma competição de braço de ferro, o que foi prontamente aceito. Além da mídia espontânea antes e durante o evento (até o então presidente dos EUA, George Bush, mandou cartão de boa sorte para os competidores), evitaram gastos com uma disputa no tribunal.
  • Clientes vem em segundo, empregados vem em primeiro: a empresa eliminou a premissa “o cliente tem sempre a razão”. Se ao reclamar o cliente tiver razão, o funcionário será devidamente orientado. Mas se o cliente não tiver razão, a empresa deixa claro que apoia as decisões tomadas pelos seus empregados.

Com este estilo de gestão, que hoje pode ser até comum (especialmente em empresas de inovação, mas ainda não muito em setores mais conservadores, como a própria aviação civil e o setor financeiro), a empresa, além de ter se tornado lucrativa (em 2012 ela registrou seu 41º ano consecutivo de lucros, talvez um caso único no mercado de aviação civil no mundo!), conseguiu abocanhar em algumas oportunidades a “triplice coroa”, que seria o primeiro lugar nas três categorias de estatisticas mantidas pelo departamento de transportes dos EUA: vôos on time, manuseio de bagagens e reclamações dos passageiros.

Colleen Barrett e Herb Kelleher, respectivamente, o coração e a alma da Southwest

Colleen Barrett e Herb Kelleher, respectivamente, o coração e a alma da Southwest

Aconselho bastante a leitura e também é uma dica de presentes para aquele chefe que tem o estilo de gestão que mais parece um capataz.

P.S. Eu li o livro em Inglês e tentei traduzir e/ou explicar algumas expressões utilizadas, mas como não sou tradutor, talvez não tenha ficado muito claro.

Sua Excrecência Senadô Sivirino – Yumbad Baguun Parral (5/2014)

Sua Excrecencia

Yumbad Baguun Parral é o pseudônimo do Alagoano Miguel Cavalcante Félix. Quem frequenta os bares da Vila Madalena já deve ter sido abordado por esta figura singular que, vestido com seu chapéu de couro, circula por entre as mesas vendendo suas obras (Veja também esta ótima reportagem sobre o Parral na revista Piauí).

Como frequentador assíduo da Vila, ele deve ter me oferecido seus livros dezenas de vezes e não sei por que (talvez por sempre andar com pouco dinheiro no bolso, geralmente o suficiente para o estacionamento e um dog) nunca havia adquirido um (e olha que eu sou um ávido consumidor de obras de artistas de rua, especialmente CDs). Na última vez em que ele me interpelou resolvi comprar um de seus livros e escolhi este meio que aleatóriamente.

Sempre imaginei que suas obras fossem mais relacionadas à literatura de cordel ou à sátiras (como ele mesmo as descreve), mas me surpreendi pela profundidade do conteudo deste livro, bem como a lucidez, coerência e isenção com que ele trata de assuntos sérios.

O livro pode ser dividido em três partes principais.

O prefácio foi a parte que mais me chamou a atenção. Trata-se de um ensaio sobre moral, ética, política, cidadania, enfim, do papel do homem na sociedade, tanto quanto relacionado à sua natureza e seu instinto de autopreservação, que quase sempre se choca com o que se imagina o papel de um ser dotado de capacidade de raciocínio, quanto à sua função como parte de um coletivo, de uma sociedade.

A segunda parte trata-se da estória em sí: uma sátira que conta a trajetória de um ser castigado pelas mazelas da vida que sai da mais absoluta miséria até chegar ao posto mais alto do legislativo do “Braséu”, claro, não sem o “apoio” de estruturas e personagens interessados nesta ascensão. É claro que, para se dar bem, tanto na vida e na política, este ser abjeto utiliza de todas as artimanhas amorais, ilegais e anti éticas possíveis.

A terceira e importante parte (que na verdade é inserida antes do epílogo) é um outro tratado, num estilo que mistura Maquiável com Sun Tsu, sobre o poder, a conquista, o uso e a manutenção deste, em forma de uma “bíblia” da política.

Da próxima vez que for à Vila já deixarei separado alguns reais na carteira na esperança de encontrá-lo e adquirir outro de seus livros.

Mate-me Por Favor – Legs McNeil & Gillian McCain – Volumes I e II (3/2014 e 4/2014)

matemeCom o subtítulo de “Uma História Sem Censura do Punk”, este livro, lançado em dois volumes, é uma coletânea de depoimentos (alguns formais e muitos informais) e entrevistas, colhidas pelo editor Legs McNeil (sendo este o criador da revista Punk, que emprestaria seu nome para o movimento) e pela “agitadora cultural” Gillian McCain, dos principais personagens deste fenômeno pop e que cobre basicamente todo o período do Punk, desde sua “gestação” até o seu declínio.

O livro não tem uma linha narrativa e a história é contada através destes depoimentos, que são separados por assuntos e colocados em ordem cronológica. Este approach é muito interessante pois faz com que os diversos pontos de vista, as várias percepções sobre um mesmo assunto ou fato sejam descritas. Um belo exemplo trata-se do confronto entre Handsome Dick Manitoba (codinome sensacional!!!), dos Dictators, e Layne County (à época, Wayne County), que começou com uma brincadeira de Manitoba e terminou com este hospitalizado com a cravicola quebrada.

Dentre os depoimentos utilizados no livro, estão os de nomes como Iggy Pop, Dee Dee Ramone, Malcon McLaren, Richard Lloyd, Angela Bowie, Lou Reed, entre tantos, que participaram diretamente ou influenciaram o movimento.

Confesso que nunca fui fã de Punk como música e portanto nunca procurei entender a história por trás do fenômeno. Para mim, por exemplo, o ápice do movimento e sua consequente explosão havia sido com os Sex Pistols, na Inglaterra, e que depois o movimento havia migrado para os EUA quando na verdade o movimento nasceu nos EUA, chegou à Inglaterra e foi “implodido” pelos Pistols.

Iniciando à partir dos movimentos pré punk ligados à The Factory de Andy Wahrol e a Lou Reed, Nico e os Velvet Undergounds, passando pela cena de Detroit com os MC5 e Iggy e os Stooges, e depois se estabelecendo em Nova Yorque com o CBGB e outros clubes e as bandas que ali se formaram (New York Dolls, Television, Dictators, Ramones, Johnny Thunders and The Heartbreakers), trata-se de um bom guia para tentar entender como um fenômeno cultural deste tipo cresceu e ganhou corpo.

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Por outro lado, é triste ver que toda esta criatividade tinha origem numa cenário de autodestruição (através de drogas, álcool, brigas, amores doentios, sexo sem limites, etc) dos integrantes da cena. O final do segundo volume chega a ser meio triste, pois apesar de toda a cena ser permeada por mortes, no final dela (meio dos anos 80), estas aumentam em número considerável.

É um bom livro e com uma leitura diferente, sem um narrador apenas e contado à partir de depoimentos de várias pessoas, o que faz dele um mosaico bem interessante.

Agradecimentos ao amigo Gera pelo presente!

P.S. Passeando pela web encontrei, sem querer, uma resenha do mesmo livro, escrita na Feedback Magazine, da qual também sou colaborador.

Para ouvir enquanto lê o artigo, o que para mim seria o hino do movimento:

A Riqueza Na Base da Pirâmide – C. K. Prahalad (2/2014)

Durante a minha pós na FGV estudei bastante os conceitos contidos neste livro, especialmente em uma matéria chamada “Novos Modelos de Negócios”. Basicamente todos os novos modelos de negócio estudados nesta matéria foram apoiados por textos e/ou cases deste livro: base da pirâmide, responsabilidade ambiental, parcerias público/privadas, co-criação, arranjos produtivos locais, etc.

Apesar de, através desta matéria eu já ter conhecimento de quase metade do conteudo do livro e basicamente todas as idéias contidas nele, resolvi ler por inteiro. Primeiramente, o livro não teria a mesma densidade e profundidade se tivesse sido escrito por um americano, alemão ou francês, já que o Dr. Phrahalad, por ter nascido na Índia, teve contato direto com as necessidades e dificuldades enfrentadas pelas camadas mais pobres da população em um país em desenvolvimento.

O livro parte da idéia de que, para as empresas continuarem crescendo, elas devem criar “novos mercados” e estes novos mercados se encontram na base da pirâmide que, quando do lançamento do livro em 2005, reunia cerca de 4 bilhões de pessoas no mundo todo. Além disto, como já está mais que provado, que o crescimento sustentável de longo prazo passa por uma relação ganha-ganha com todos os “atores” do mercado: a iniciativa privada, os governos, a ONGs e principalmente a própria população, ou seja, os próprios consumidores.

Segundo Prahalad (e comprovado nos cases apresentados no livro), é possível às empresas, através desta rede de relacionamentos com estes atores, criar um novo mercado, desenvolver a população, ajudar ONGs e governos a promoverem melhoras na qualidade de vida das pessoas e ainda assim obter lucro.

Para tanto, as empresas devem mudar radicalmente sua maneira de atuar nestes mercados, obedecendo a algumas regras de ouro para o sucesso neste novos mercados a serem desenvolvidos:

  • Autonomia: às pessoas que compõem a base da pirâmide deve ser dado o poder de escolha. Este é o primeiro passo para elevar sua autoestima e responsabilidade. Ninguém, nem a empresa, nem governos ou ONGs devem decidir por eles ou para eles.
  • Exclusividade: estas pessoas não querem simplesmente que empurrem para eles versões mais baratas dos produtos vendidos para os mais abastados. Até como fator de sobrevivência da empresa, que deve focar em custos sem perda de qualidade, deve-se desenhar soluções exclusivas para este mercado. Os cases têm mostrado inclusive que, é muito mais fácil adaptar as soluções desenvolvidas para a BP para outro público, do que o contrário, com a vantagem de, como o foco foi no custo, quando o público é do meio/topo da pirâmide, as margens de lucro aumentarem bastante.
  • Parcerias: os consumidores da BP devem ser parte do ciclo de vida dos produtos e serviços. Desde a fase de concepção (co-criação) até a comercialização (redes de coleta de matérias primas, distribuição dos produtos acabados, equipes de vendas), passando pela produção (arranjos produtivos locais). Desta forma, além de poder desenvolver com mais precisão o produto e o mercado, por contar com o conhecimento das pessoas que irão consumir os produtos e serviços, a empresa acaba por desenvolver um “ecossistema”, gerando renda para fornecedores, vendedores, distribuidores, que são, da mesma forma, consumidores, além de criar uma melhor relação de confiança.
  • Respeito ao meio ambiente: um dos pontos recorrentes do livro é de que as soluções encontradas devem ser ecologicamente viáveis, pois a inserção de 4 bilhões de pessoas com, por exemplo, o mesmo padrão de consumo, de desperdício e de descarte de resíduos dos americanos, faria com que o meio ambiente não suportasse e entrasse em colapso.
  • “Empowerment” das mulheres: a maioria dos cases de sucesso tem a mulher como o centro de atenção das empresas. São elas que se tornarão distribuidoras de produtos, ajudarão no desenvolvimento destes, farão avaliação de crédito e serão os consumidores dos produtos e serviços. Primeiro porque as mulheres sabem quais são as prioridades de uma família (por menos recursos de que disponha, o homem tentde a gastar com jogos, bebida, etc) e em segundo, ela já está habituada com princípios econômicos básicos, pois geralmente é ela que coordena o pequeno orçamento doméstico.

O livro traz vários cases muito interessantes e que corroboram as teorias de Prahalad, tais como:

  • Bancos Grammeen (Bangladesh) e ICICI (Índia): microfinanças
  • CelTel (África subsaariana) e Globe (Filipinas): telecomunicações
  • Bimbo (México) e Habibs (Brasil): alimentação / fast food
  • Pick and Pay (Africa do Sul) e Casas Bahia (Brasil): varejo

Apesar de reconhecer a importância da filantropia, que nos dias de hoje é bastante arraigada nas empresas, Prahalad afima que esta é uma solução válida, desde que seja algo emergencial e que a única solução para tirar as pessoas definitivamente da situação de pobreza e miséria é trazendo estas pessoas para a economia de mercado.

Apesar de não deixar explícito no livro, fica claro que Prahallad acreditava que a atenção à base da pirâmide é a próxima (atual talvez) onda evolutiva do capitalismo, no que concordo plenamente com ele.

Infelizmente o Professor Doutor C.K. Prahalad faleceu em 2010, aos 68 anos.

 

Freakonomics – Steven D. Levitt & Stephen J. Dubner (1/2014)

Freakonomics

Já tinha ouvido falar neste livro há alguns anos atrás porém acabei não tendo a oportunidade de ler. Ao navegar no site da livraria cultura para adquirir outro livro (em breve coloco a resenha aqui tambem), o site me sugeriu este e tive a oportunidade de comprar e ler.

O livro usa basicamente duas “ferramentas” para explicar diversos fatos de nossa vida cotidiana. Coincidentemente, são duas ferramentas que eu conheço bem e nas quais eu fiz minhas duas pós graduações, ou seja, são ferramentas que já me interessavam.

Minha primeira pós foi em Gestão de Projetos de Business Intelligence. Business Inteligence, para quem não sabe é o conceito de utilizar dados (neste caso no mundo de negócio) para explicar fatos, procurar tendências, analisar comportamentos (de pessoas, mercados, máquinas, etc) e até encontrar respostas para as quais ainda não se tenha uma pergunta.

A minha segunda pós foi em Administração de Empresas, sendo que fiz uma concentração em Gestão de Pessoas. Gestão de Pessoas nada mais é do que estudar e entender os incentivos que movem as pessoas e usá-los para extrair delas o que se deseja para atingir determinado objetivo (neste caso, de uma empresa).

Freakonomics (que poderia ser traduzido como “louconomia”) trata-se de um livro que mostra os estudos de um economista (Steven Levitt) utilizando a análise de dados para entender os incentivos que fazem a sociedade ou grupos da sociedade (culturais, etnicos, etc) se comportarem daquela forma. Ele basicamente parte de uma pergunta (às vezes esdrúxula, segundo ele mesmo) e vai atrás de dados que consigam “responder” àquela questão. O livro foi escrito em conjunto com o jornalista Stephen Dubner, que é o responsável por deixar a leitura fluida e agradável, pois o próprio Steven Levitt diz que ele não teria capacidade de colocar no papel, numa forma que não fosse “acadêmica” (o que não era o intuito do livro), os resultados de seus estudos.

Além de muita informação que aparentemente é inutil (como quando ele explica como funcionam as trapaças nos campeonatos de sumô ou como quando ele compara a atividade da Klu Klux Klan com a dos corretores de imóveis), mas que no fundo servem para explicar o comportamento humano e abrir um pouco as cabeças para além do que ele chama de “sabedoria convencional”, também existem trabalhos de relevância, não só para o livro, mas fora dele.

Um exemplo é a metodologia criada por ele para analisar dados e identificar professores que trapaceavam de forma que seus alunos tirassem boas notas nos testes de avaliação de qualidade do ensino. Ou como quando ele faz uma análise (aqui em conjunto com outro professor, chamado Sudhir Venkatesh) do funcionamento de uma gangue de tráfico de crack (a pergunta inicial era “se o tráfico gera tanta grana, por que os traficantes continuam morando com as mães?”).

Porém o capítulo mais polêmico do livro fica por conta do estudo onde ele relaciona a queda vertiginosa e inesperada de criminalidade que ocorreu nos EUA à partir de metade dos anos 90 com a liberação do aborto no início da década de 70.

Apesar de não tomar partido, esta análise fez com que ele fosse criticado tanto pelos conservadores (que são contra aborto e acharam moralmente errada a conclusão de Levitt), quanto pelos liberais (por associar a criminalidade à pobreza e, no caso dos EUA, aos negros), porém, como se retirasse as várias camadas de uma cebola, ele vai “desqualificando” a maioria das teorias alegadas para explicar esta queda (algumas delas tiveram algum efeito, mas não explicam totalmente a redução), até parar num ponto em que 50% da queda não era explicada e ele consegue relacionar esta queda (baseado análises de dados históricos e de tendências) com a liberação do aborto. Ele mesmo alega que talvez a explicação possa não ser a moralmente correta, porém ela é lógica.

Em resumo, é um livro muito interessante para quem se interessa por análise de dados, comportamento humano, antropologia e sociologia.

P.S. Acabei de ver que existe um documentário baseado no livro. Tentarei encontrar, assistir e resenhar também.

DAVID GILMOUR – LIVE AT THE ROYAL ALBERT HALL

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Navegando no Youtube atrás de umas músicas do disco Obscured by the Clouds do Pink Floyd, me deparei com uma versão de Wot’s…Uh The Deal em um show do David Gilmour. Como nunca acompanhei a carreira solo dos membros do Floyd, desconhecia esta obra prima. Busquei na mesma hora o show completo e fui “obrigado” a assistí-lo por inteiro. Acabei encomendando o DVD logo após de assistir o vídeo para tê-lo na minha “DVDteca” (sim, eu sou uma das poucas pessoas que ainda compram DVDs e CDs).

A estrutura do show é bem mais simples do que as da época do Pink Floyd. Jogo de luzes, lasers, um telão sem muitas estripulias e uma ótima banda acompanhando, que conta com nomes como Jon Carin (um músico sensacional que já gravou ou acompanhou em turnê nomes como o próprio Pink Floyd, Roger Waters, The Who, Soul Asylum e até o Gipsy Kings) e Phil Manzanera (ex-Roxy Music).

Mas o destaque mesmo fica por conta da presença do Richard Wright (já debilitado, tadinho) para reviver, junto com o Gilmour, clássicos do Floyd comoTimeEchoes e Shine on You Crazy Diamond.

As participações ficam por conta de David Crosby e Graham Nash (Crosby, Still, Nash (and Young)), do David Bowie e de Robert Wyatt, fundador do fantástico grupo Soft Machine (Não conhece? Shame on you!!), que por sinal foi uma das influências do próprio Pink Floyd.

Além de vários clássicos do Floyd, Gilmour toca alguns sucessos de sua carreira solo, como On An Island, neste caso muito bem acompanhado por Crosby e Nash:

Bem, sou suspeito para falar do Gilmour, pois acho ele um dos melhores guitarristas de todos os tempos. Ele é aquele guitarrista que você tem que mostrar para a molecada que toca guitarra e acha que ser bom guitarrista é tocar 1 milhão de notas por segundo ou encher o som de efeitos. Bom mesmo é quem sabe tocar devagar, com o som quase clean e mesmo assim criar passagens geniais.

No DVD Bônus também se encontram algumas “sobras” maravilhosas, como a já citada Wot’s…Uh The DealWearing The Inside Out (cantada pelo Wright) e uma versão diferente de Arnold Layne (no DVD principal quem canta é o Bowie, no DVD Bônus é o Wright)

Só por TimeShine On ou Echoes, individualmente, já valeria muito à pena. Com as 3 no mesmo DVD ao vivo então! Se tivesse Dogs eu teria que arrumar uma máquina do tempo para voltar a Maio de 2006 e assistir à este show….hehehe