A Riqueza Na Base da Pirâmide – C. K. Prahalad (2/2014)

Durante a minha pós na FGV estudei bastante os conceitos contidos neste livro, especialmente em uma matéria chamada “Novos Modelos de Negócios”. Basicamente todos os novos modelos de negócio estudados nesta matéria foram apoiados por textos e/ou cases deste livro: base da pirâmide, responsabilidade ambiental, parcerias público/privadas, co-criação, arranjos produtivos locais, etc.

Apesar de, através desta matéria eu já ter conhecimento de quase metade do conteudo do livro e basicamente todas as idéias contidas nele, resolvi ler por inteiro. Primeiramente, o livro não teria a mesma densidade e profundidade se tivesse sido escrito por um americano, alemão ou francês, já que o Dr. Phrahalad, por ter nascido na Índia, teve contato direto com as necessidades e dificuldades enfrentadas pelas camadas mais pobres da população em um país em desenvolvimento.

O livro parte da idéia de que, para as empresas continuarem crescendo, elas devem criar “novos mercados” e estes novos mercados se encontram na base da pirâmide que, quando do lançamento do livro em 2005, reunia cerca de 4 bilhões de pessoas no mundo todo. Além disto, como já está mais que provado, que o crescimento sustentável de longo prazo passa por uma relação ganha-ganha com todos os “atores” do mercado: a iniciativa privada, os governos, a ONGs e principalmente a própria população, ou seja, os próprios consumidores.

Segundo Prahalad (e comprovado nos cases apresentados no livro), é possível às empresas, através desta rede de relacionamentos com estes atores, criar um novo mercado, desenvolver a população, ajudar ONGs e governos a promoverem melhoras na qualidade de vida das pessoas e ainda assim obter lucro.

Para tanto, as empresas devem mudar radicalmente sua maneira de atuar nestes mercados, obedecendo a algumas regras de ouro para o sucesso neste novos mercados a serem desenvolvidos:

  • Autonomia: às pessoas que compõem a base da pirâmide deve ser dado o poder de escolha. Este é o primeiro passo para elevar sua autoestima e responsabilidade. Ninguém, nem a empresa, nem governos ou ONGs devem decidir por eles ou para eles.
  • Exclusividade: estas pessoas não querem simplesmente que empurrem para eles versões mais baratas dos produtos vendidos para os mais abastados. Até como fator de sobrevivência da empresa, que deve focar em custos sem perda de qualidade, deve-se desenhar soluções exclusivas para este mercado. Os cases têm mostrado inclusive que, é muito mais fácil adaptar as soluções desenvolvidas para a BP para outro público, do que o contrário, com a vantagem de, como o foco foi no custo, quando o público é do meio/topo da pirâmide, as margens de lucro aumentarem bastante.
  • Parcerias: os consumidores da BP devem ser parte do ciclo de vida dos produtos e serviços. Desde a fase de concepção (co-criação) até a comercialização (redes de coleta de matérias primas, distribuição dos produtos acabados, equipes de vendas), passando pela produção (arranjos produtivos locais). Desta forma, além de poder desenvolver com mais precisão o produto e o mercado, por contar com o conhecimento das pessoas que irão consumir os produtos e serviços, a empresa acaba por desenvolver um “ecossistema”, gerando renda para fornecedores, vendedores, distribuidores, que são, da mesma forma, consumidores, além de criar uma melhor relação de confiança.
  • Respeito ao meio ambiente: um dos pontos recorrentes do livro é de que as soluções encontradas devem ser ecologicamente viáveis, pois a inserção de 4 bilhões de pessoas com, por exemplo, o mesmo padrão de consumo, de desperdício e de descarte de resíduos dos americanos, faria com que o meio ambiente não suportasse e entrasse em colapso.
  • “Empowerment” das mulheres: a maioria dos cases de sucesso tem a mulher como o centro de atenção das empresas. São elas que se tornarão distribuidoras de produtos, ajudarão no desenvolvimento destes, farão avaliação de crédito e serão os consumidores dos produtos e serviços. Primeiro porque as mulheres sabem quais são as prioridades de uma família (por menos recursos de que disponha, o homem tentde a gastar com jogos, bebida, etc) e em segundo, ela já está habituada com princípios econômicos básicos, pois geralmente é ela que coordena o pequeno orçamento doméstico.

O livro traz vários cases muito interessantes e que corroboram as teorias de Prahalad, tais como:

  • Bancos Grammeen (Bangladesh) e ICICI (Índia): microfinanças
  • CelTel (África subsaariana) e Globe (Filipinas): telecomunicações
  • Bimbo (México) e Habibs (Brasil): alimentação / fast food
  • Pick and Pay (Africa do Sul) e Casas Bahia (Brasil): varejo

Apesar de reconhecer a importância da filantropia, que nos dias de hoje é bastante arraigada nas empresas, Prahalad afima que esta é uma solução válida, desde que seja algo emergencial e que a única solução para tirar as pessoas definitivamente da situação de pobreza e miséria é trazendo estas pessoas para a economia de mercado.

Apesar de não deixar explícito no livro, fica claro que Prahallad acreditava que a atenção à base da pirâmide é a próxima (atual talvez) onda evolutiva do capitalismo, no que concordo plenamente com ele.

Infelizmente o Professor Doutor C.K. Prahalad faleceu em 2010, aos 68 anos.

 

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