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Sobre ostentação, Maslow e a Vida Alheia – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 19 de Novembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


 

A sensação dos últimos dias na internet foi o vídeo, produzido pela revista Veja SP, sobre o tal “Rei do Camarote”. À despeito de tudo ser tão surreal e caricato que para mim parece um viral (e uma bela barrigada da Veja), algumas coisas me chamaram a atenção.

Antes de tudo, eu sou da opinião que as pessoas podem fazer o que acharem melhor para sua vida, desde que não prejudiquem outras pessoas. Neste caso, o dinheiro é do cara, desde que ele tenha ganho honestamente, ele faz com o dinheiro dele o que ele quiser. Ninguém tem nada a ver com isto. Se ele quer encher o camarote dele de Marias “Veuve Cliquot” e ser encoxado por um humorista (dos ruins!), o problema é só dele e das pessoas que o acompanham.

Mas a primeira coisa que me chamou a atenção foram os dois pesos e duas medidas de algumas pessoas ao fazerem julgamentos. Já começaram errado por fazerem julgamento, mas já que o fizeram, que ao menos usassem de imparcialidade e tivessem coerência. O que o Alexander gasta num ano, o Ronaldo Fenômeno, por exemplo, deve ter gasto em apenas uma das suas festas de casamento. E não é exclusividade dele. Jogadores de futebol e artistas da música e da TV adoram exibir suas conquistas. E quase não se vê críticas quando isto acontece.

Recentemente surgiram os tais “funkeiros ostentadores”, que ao emplacarem seus sucessos têm conseguido uma quantidade boa de shows, o que os proporciona manter um padrão de vida do mesmo nível do tal do Alexander, e com atitudes parecidas com as dele. Mas ao invés de receberem as mesmas críticas pela ostentação (vamos esquecer a questão musical), acontece o contrário, existiram até programas de TV e blogueiros analisando como um fenômeno sociológico a tal “ostentação”.

A incoerência acontece quando as pessoas que sempre exaltaram um jogador de futebol ou um artista, por ter saído de uma “condição humilde” e ter se superado na vida, julgam uma pessoa que, aparentemente (ninguém sabe a história do cara), teve algumas chances a mais, usando outro peso. Quando diz que é empresário então, já taxam de explorador, corrupto, etc. Isto é preconceito. Do mesmo tipo que dizer que favelado é tudo bandido, ou que gay é tudo promíscuo.

O ser humano gosta de se destacar no meio da multidão e exibir suas conquistas. Antigamente era o mais forte, o mais apto à caça, depois o que tinha mais posses, ou o que fazia parte da nobreza ou do clero. Natural que, no caso das pessoas que possuem mais dinheiro, este seja o meio de exibir. É só ler um pouco de Maslow que facilmente se percebe que isto não é apenas um comportamento de um “rico babaca”.

Pirâmide das necessidades do ser humano de Abraham Maslow. | Créditos: gestaonossadecadadia.com.br

O segundo ponto que me chama a atenção é a relação que o Brasileiro, assim como os demais povos de origem latina, têm com o dinheiro. Vamos primeiro tentar explicar o que é o dinheiro.

Dinheiro é apenas um meio de troca. Antigamente, quando as pessoas trabalhavam no campo e em atividades extrativistas, o excedente conseguido era trocado com vizinhos por outros produtos de seu interesse. Para facilitar a troca, já que muitos destes produtos eram perecíveis e/ou tinham um volume e/ou peso muito grande para ser carregado de um lado para o outro, as pessoas inventaram meios de facilitar esta troca. Um dos meios mais conhecidos foi o utilizado durante o Império Romano, onde os soldados recebiam do Império sal como pagamento por seus serviços, e utilizavam este sal para adquirir outros produtos de seu interesse. Daí vêm as palavras “salário” (de sal) e “soldo” (de soldado) para designar pagamento por trabalho.

Atualmente, onde as ideias, conexões e influência (E por que não sorte?) geram mais valores do que o trabalho braçal (que pode ser substituído por máquinas), faz mais sentido ainda ter um meio de troca.

Portanto, uma pessoa que tem muito dinheiro (partindo do princípio que ela ganhou honestamente), é apenas uma pessoa que conseguiu gerar muitos frutos do seu trabalho e, portanto, não deveria ter vergonha de tê-lo ou demonstrar tê-lo. Nos EUA, Canadá e em vários países europeus, as pessoas se orgulham de ganharem mais e não tentam esconder isto, pois é sinal que a pessoa gerou bastante riquezas à partir do seu trabalho.

Porém, e acredito muito que devido à influência da Igreja Católica (Dinheiro é pecado! Nos entregue que nós nos livramos dele para vocês!), nos países latinos, dinheiro é visto como algo sujo, vergonhoso, algo que as pessoas devem evitar. Se não for possível evitar de ganhá-lo, então “compartilhe” com as demais pessoas.

Como consequência, ouvimos frases do tipo: “com tanto dinheiro assim, ele tinha que distribuir”, “porque ao invés de gastar com baladas, não doa aos pobres”. Se você tem a caridade como princípio de vida e isto faz bem pra você, ótimo. Talvez ele não tenha, e não é demérito nenhum.

Erroneamente, sempre levam a questão para esse lado.

 

E aí caímos no terceiro ponto que me chamou a atenção. E este eu acho particularmente muito perigoso. Vi muitas pessoas dizendo “coitado, ele não é feliz”, “podia fazer tal coisa que iria ser melhor”, “não deve ter amigos”.

Quem disse que o que é bom para você tem que ser bom para todo mundo? Quem disse que “ter amigos verdadeiros” é bom para ele? Talvez ele prefira estes amigos de ocasião e seja feliz desta forma.

As pessoas têm que entender que cada pessoa é um indivíduo, que tem seus valores, princípios, ideologias. E repetindo: desde que não faça mal a mais ninguém, nenhum valor ou princípio é melhor do que o outro. São só diferentes e devem ser respeitados.

Só lembremos que muitas das desgraças que ocorreram na humanidade, tais como guerras, ditaduras, genocídios, entre outros, aconteceram quando um grupo decidiu que a sua ideologia política, a sua raça, o seu intelecto ou a sua religião eram melhores do que a das outras pessoas (mesmo que estas outras fossem maioria) e decidiram impô-los às estes demais. Ou então eliminar quem se opusesse.

Quanto à mim, a única coisa que achei foi graça. Tanto que li a matéria na internet e assisti o vídeo umas três vezes. Mas ao menos eu escolhi assistir ao vídeo, e não foi alguém, dentro de um transporte público coletivo, que resolveu me “presentear” com a exibição

Be happy! 🙂

É sempre mais fácil achar que a culpa é do outro – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 20 de Outubro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Tomei emprestada a frase do título da música “Por Quem os Sinos Dobram”, do mestre Raul Seixas, para falar de um assunto que dominou as redes sociais, os portais de notícias, os telejornais e outros meios nos últimos dias: o vídeo, filmado pela vítima, em que um assaltante é baleado após uma tentativa de roubo de uma motocicleta.

O assalto foi filmado por uma câmera no capacete da vítima.

Discordo da “socialização” da criminalidade, como muitos gostam de fazer, atribuindo todos os problemas de segurança pública à condição social. Particularmente, por ter crescido em um bairro da periferia de São Paulo, onde moro até hoje, entendo que não é a condição social, falta de oportunidades ou qualquer outro motivo do tipo que faz uma pessoa se tornar um criminoso. Estudei com várias pessoas que passavam privações de todos tipos e que não se tornaram bandidos, assim como conheço alguns que, à despeito de terem muitas oportunidades, resolveram se enveredar por este caminho.

Não sou psicólogo ou sociólogo para explicar quais os motivos que levam alguém a escolher uma vida destas, mas por conclusão creio que as pessoas são ou não más e, no máximo, a condição social ou algum estado de privação apenas contribui, não sendo o motivo principal, para alguém “escolher” este caminho. Tanto que se fosse apenas uma questão socioeconômica, não teríamos criminosos entre as classes mais abastadas e/ou em países onde estes problemas sociais são praticamente inexistentes.

Entendo que a ação do policial foi corretíssima, assim como acho que o ladrão assumiu o “risco do negócio” e todos que assumem riscos têm que arcar com as consequências. Simples assim.

Mas o que mais me chamou a atenção, especialmente nas redes sociais, é a hipocrisia das pessoas. Boa parte dos “cidadãos de bem” que engrossam o coro de “bandido bom é bandido morto” são pessoas que tem o hábito de adquirir produtos em locais onde, conhecidamente, a origem dos produtos é no mínimo suspeita. Alguns deles até se vangloriam de adquirir produtos “na boca” por preços bem abaixo dos praticados em lojas. Alguns deles também têm o hábito do uso de substâncias ilegais para “fins recreativos”.

Só existe “mercado” para este tipo de produto, que geram ações como a dos criminosos e reações como a do policial, porque existe demanda. Isto é puro princípio econômico.

Acho que falta à muitas pessoas assumirem que, ao comprar um produto fruto de roubo ou furto, de contrabando ou pirataria, e mesmo aquele que “apenas” fuma a sua maconha nos finais de semana, também puxa o gatilho, tanto do policial, quanto o do marginal.

Como diria o Capitão Nascimento: “É você, playboy, quem financia esta merda”.

Cena de Tropa de Elite, onde o icônico Capitão Nascimento dá lição de moral em um estudante viciado.

Be happy! 🙂

Eduardo e Marina: mais do mesmo – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 14 de Outubro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


 

Devido ao meu ceticismo, acompanhei de longe (porém, com otimismo!) as já tão comentadas manifestações de junho por todo o Brasil. Muitos meios de comunicação, sociólogos, cientistas políticos, entre tantos outros, tentavam entender o que estava acontecendo, ou seja, o que estava por traz dos 20 centavos.

Acabei apelidando o movimento de “Marcha dos Descontentes”. As pessoas que estavam ali compunham toda a diversidade do povo brasileiro, em credos, ideologias políticas, classes sociais, etc. Por tratar-se de uma massa tão heterogênea, não havia um ponto específico em comum que seria o desejo, porém, estava muito claro o que todas aquelas pessoas não queriam. Não queriam a continuidade do modelo político atual, que apesar de ser democrático, permite que, com o devido conhecimento do processo, determinados grupos se perpetuem no poder, mesmo sendo estes grupos adversários ideológicos. Queriam também que os políticos brasileiros trabalhassem, como seria natural, em prol da população, e não em prol de interesse deles mesmos e de uma pequena minoria.

Usando como “amostra” amigos meus que participaram dos movimentos, notei esquerdistas radicais que se desiludiram com o movimento de centralização do PT (e também, por incrível que pareça, do PCdoB), esquerdistas moderados também desiludidos com o PT por conta do sepultamento do discurso da ética na política, sociais democratas descontentes com a movimentação rumo à direita do PSDB, direitistas descontentes com as alianças entre alguns de seus representantes (PP por exemplo) com o PT, entre tantos outros.

Marcha dos descontentes e não representados.

Notei uma grande semelhança desta massa com os quadros do movimento Rede Sustentabilidade, encabeçado pela Marina Silva, mas que conta com nomes como Walter Feldman (PSDB), Heloísa Helena (ex PT e PSOL) e Alfredo Sirkis (PV). Apesar de entender a opção da Rede de não se envolver diretamente como movimento, já que as manifestações estavam querendo se desvincular de partidos políticos (e até hostilizando membros de partidos), eu achei, na época, que seria uma boa oportunidade para ambos (a massa e o movimento Rede) afinarem discursos e criarem uma identidade político-ideológica (mesmo que isto gerasse divisões na hora do movimento virar partido, justamente por conta de ideologias totalmente distintas).

Também tenho acompanhado o movimento Rede Sustentabilidade desde o começo deste ano. A parte do manifesto da Rede que mais atraiu minha simpatia, foi a que trata do jogo político atual, ao qual à Rede se opunha, especialmente no que tange ao fisiologismo puro, ou seja, o abandono de sua ideologia em função apenas do poder. (Quem pensaria, há alguns anos atrás, em ver o PT se unindo a Paulo Maluf, por exemplo?)

Por ser um movimento novo, que ainda nem é um partido, e por ter uma identidade ainda em formação, como citado acima, não compreendia a pressa em se tornar partido e lançar candidatos na eleição do próximo ano, já que, como o próprio discurso diz, o movimento ia contra o “poder pelo poder”.

Qual não foi minha surpresa (e decepção) quando, no dia 02 de outubro, Marina Silva anunciou sua filiação ao PSB e a disposição de ser vice de Eduardo Campos, na próxima corrida presidencial, levando consigo a votação impressionante obtida na última eleição e seu bom desempenho nas pesquisas de intenção de voto para 2014.

À exemplo do que aconteceu com o PT, a Rede mostrou, mais uma vez, que o que move os partidos e os políticos (e aqui podemos generalizar, já que se trata da ampla maioria), ao invés de ideologias e um projeto de nação, é apenas o poder e projetos de poder. Infelizmente, acabo tendo que concordar com alguns estrangeiros que têm mais conhecimento do Brasil quando dizem que “o Brasil é o país do futuro. E sempre será!

Em tempo: o rompimento do PSB com o governo, a união deste com a Rede e a comemoração do fato pelo PSDB me lembrou muito o livro 1984. No clássico de George Orwell (imperdível, assim como A Revolução dos Bichos, outro clássico do autor), o mundo era dividido em três mega potências: a Eurásia, a Lestásia e a Oceania. Estas três potências alternavam entre si os aliados e inimigos: ora a Eurásia e a Lestásia se uniam em guerra contra a Oceania, no momento seguinte o inimigo comum da Oceania e da Lestásia virava a Eurásia, e assim sucessivamente, mantendo o mundo em um estado constante de guerra.

O inimigo a ser batido no momento é o PT e os demais se uniram para isto, mas não duvido nada que, num futuro próximo, PT e PSDB se unam em âmbito nacional (em níveis regionais já ocorreu) para derrotar o PSB e/ou a Rede, ou qualquer outro bloco que venha a surgir.

P.S.: O título deste texto me ocorreu devido à duas músicas da Legião Urbana: Eduardo e Mônica, do disco Dois, e Mais do Mesmo, do disco seguinte, Que País É Este? (pergunta que também poderia servir de título para este texto).

Be happy! 🙂

A Riqueza Na Base da Piramide e o Bolsa Familia – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 28 de Setembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Em 2005, um professor (já falecido) de Harvard, chamado CK Prahalad, lançou um livro chamado “A Riqueza na Base da Pirâmide”. A teoria dele basicamente diz que quanto mais a população pobre de determinado país (que são sempre a maioria da população) têm acesso ao mercado de consumo, mais isto gera riquezas para todos os extratos da sociedade e para a nação como um todo. Baseado nesta tese, ele diz que as empresas podem ajudar as pessoas em benefício próprio futuro. Um grande exemplo brasileiro, estudado por Prahalad, é o senhor Samuel Klein e suas Casas Bahia, que tem como público alvo as classes mais baixas.

Apesar de não citar explicitamente, a teoria dele faz contraponto à Mais-Valia descrita por Marx, já que, se as classes que controlam os meios de produção aumentarem a sua margem ao ponto de remover seus empregados do mercado de consumo, simplesmente irá extinguir este mercado de consumo.

Em 2009 estávamos discutindo as teorias de Prahalad em uma aula da minha pós-graduação e resolvi fazer a relação entre estas teorias e o principal programa social do governo Lula/Dilma, o Bolsa Família.

Assim como o PT demonizou as privatizações (E agora recorrem à ela!), a direita (a linha hoje é tão tênue que fica complicado utilizar conceito de direita e esquerda no Brasil) também tenta demonizar o principal programa do Lula.

O Bolsa Família é uma junção de várias bolsas (escola, gás, entre outras) que nasceram primeiramente no Distrito Federal, através do seu então governador Cristovam Buarque, em meados da década de 90. Depois foi levado ao âmbito nacional durante o primeiro governo de Fernando Henrique, através de uma proposta do senador Eduardo Suplicy.

Quando Lula se elegeu, ele unificou as bolsas em uma só e aumentou bastante a abrangência do programa.

O Bolsa Família tem três funções primordiais:

  1. Melhorar a distribuição de renda, diminuindo as diferenças;
  2. Combater a fome;
  3. Evitar o trabalho infantil e a evasão escolar.

O valor da bolsa é pensado de uma forma que supra as necessidades básicas de uma família, mas ao mesmo tempo não permita acomodação ou luxos. Ao contrário do que dizem, o valor não é “por cabeça” e existe a contrapartida das crianças estarem na escola (aí caímos no outro problema da educação básica, mas é assunto para outro texto).

O valor é em dinheiro, centralizado, através de um cartão benefício, por alguns motivos:

  • Problemas de logística: imaginem centralizar cestas básicas e ter que distribuir isto por um país com extensão continental igual ao Brasil;
  • Uso das “cestas” em troca de voto;
  • Desvio durante o processo;
  • E o principal: incentivo à economia local e consequentemente nacional.

Este último ponto é muito importante, pois a inserção dos beneficiários no mercado consumidor gira toda uma roda da economia que tem beneficiado até os tais “classe média” chorões.

Uma explicaçãozinha básica de como a “roda da economia” gira: uma certa região começa a receber o benefício do Bolsa Família. As pessoas do local passam a consumir mais. O “Seo Zé”, dono da vendinha, começa a vender mais, logo, terá que contratar mais funcionários, que por consequência, assim como o “Seo Zé”, também vão consumir. Gera renda e trabalho para o caminhoneiro, que terá mais produtos até a tal região. Gera renda nos postos de gasolina ao longo do caminho, nos restaurantes, etc.

Bem, este pessoal está consumindo todo tipo de produto, como alimentos, produtos de higiene e até alguns “supérfluos”, como computador, televisão, refrigerador, etc., incentiva a agricultura, incentiva as fábricas. A empresa em que eu trabalho, que faz bens de consumo (higiene pessoal, medicamentos…), também tem sua produção aumentada, portanto, terá que contratar mais funcionários, ou seja, mais pessoas dentro da economia de consumo.

Estes funcionários, os tais “classe média” que reclamam do “Bolsa Esmola”, ao invés de estarem desempregados, estão recebendo um bom salário porque o “vagabundo do beneficiário” está consumindo mais produtos.

Estes mesmos “classe média”, com emprego gerado pelo aumento do consumo, estão comprando TVs de LCD, carros, viajando pra Miami, gerando empregos em indústria automotiva, turismo, etc., que por consequência, gera emprego em atividades extrativistas (petróleo, minerais).

No final de tudo isto, o acionista da empresa onde eu trabalho, lá nos EUA, tá rindo de orelha a orelha, pois nos últimos anos viu sua operação no Brasil (e em outros mercados emergentes) crescer à taxa de 25% ao ano, enquanto as operações nos países de primeiro mundo, devido à uma crise mundial, encolheram. No final suas ações se valorizaram e ele recebeu seu quinhão de lucro.

P.S.: Sou capitalista até o último fio do cabelo, e como “capitalista” entendo que só existe lucro se existe mercado consumidor.

P.S. 2: Classe média, hoje em dia, mais do que uma classe social, é um “estado de espírito”. Existem “classe média” ricos, pobres e “classe média”, na acepção real do termo. Mas basicamente é aquele sujeito que acha que o mundo gira em torno dele, que só olha para o próprio rabo, que reclama que carrega o mundo nas costas, que critica ferozmente os atos de corrupção de políticos enquanto dá uma “cervejinha” para o guarda fazer vistas grossas à uma multa de trânsito.

Be happy! 🙂

Ahhhh!!! A Cerveja!!!!

20151210_234731A cerveja é uma bebida alcoólica carbonatada, produzida através da fermentação de materiais com amido, principalmente cereais maltados, como a cevada e o trigo. Estima-se que seja a quinta bebida mais consumida no mundo, perdendo apenas para a água, o café, o chá e o leite (nesta ordem).

Não existe uma data precisa de quando ela tenha surgido na história, mas os primeiros registros de fabricação de cerveja têm aproximadamente 6 mil anos e remetem aos Sumérios. Em seguida os Egípicios aprenderam a fazer a cerveja e o Império Romano, após o contato com a bebida no Egito foi o responsável pela expansão do produto (apesar dos Romanos tratarem a bebida como de “segunda categoria” em relação ao vinho!).

Inicialmente, a cerveja era um produto caseiro, como o pão e outros alimentos e as mulheres eram as principais responsáveis pela produção. Porém, na idade média, os conventos tomaram para sí o monopólio da fabricação da cerveja. Os monges também foram responsáveis pelo aperfeiçoamento da bebida: como eles eram os poucos que detinham a capacidade da comunicação escrita, eles puderam relatar, conservar e aperfeiçoar, ao longo de gerações, as técnicas de fabricação.

Os ingredientes
A cerveja tem como base 4 ingredientes: água, malte, lúpulo e levedura. Porém, ela pode receber outros ingredientes de acordo com a criatividade do fabricante ou das características do local onde foi produzida.

  • Água: constitui entre 90% e 95% de uma cerveja, sendo assim um elemento essencial na produção e que têm forte influência na qualidade final do produto. Nas ditas cervejas artesanais, as diferenças da água utilizada em diferentes lotes de uma mesma receita podem gerar pequenas alterações no resultado final. No caso das grandes produtoras, estas conseguem, através de processos químicos, fazer com que a água utilizada em determinada receita tenha exatamente as mesmas propriedades (acidez, quantidade de sais minerais, etc) independente da origem da água ou local de produção. Portanto, aquela história de que a cerveja de Agudos é melhor do que a de Jacareí ou Guarulhos não passa de lenda (existem outras razões para as diferenças, mas com certeza não será a água, vide curiosidades abaixo).
  • Cevada

    Cevada

    Maltes e adjuntos: o malte é obtido através do processo de geminação de cereais maltados. Este processo é controlado: estimula-se a geminação (através da água) para que o cereal produza algumas enzimas e depois interrompe-se o processo (atraves de secagem e/ou torragem). O malte mais comumente utilizado na produção de cerveja é o proveniente de cevada, seguido pelo do trigo. Através da adição de cereais não maltados, chamados de adjuntos, é possível baratear o processo de fabricação, já que estes cereais em geral são mais baratos que os maltados. Os cereais não maltados mais comumente utilizados são o arroz e o milho. Durante o processo de brassagem (fervura da água com o malte) estes cereais, que devem conter amido, liberam o açúcar, que será transformado em álcool durante o processo de fermentação. Os maltes e adjuntos também são responsáveis por boa parte do sabor da cerveja.

  • Lúpulo

    Lúpulo

    Lúpulo: as cervejas, assim como outras bebidas fermentadas, tendem a ter no sabor uma mistura de ácido com adocicado. Em alguns casos o ácido era tão intenso que alguns produtores começaram a utilizar-se de ervas e especiarias afim de temperar e aromatizar a cerveja. O rosmaninho, o gengibre e o anis foram alguns dos vários aromatizantes utilizados ao longo do tempo. Porém o lúpulo foi ganhando popularidade, pois além de dar um amargor e aroma característicos, também é um ótimo antiséptico e conservante, que acaba por aumentar a qualidade e a vida útil da cerveja.

  • Leveduras

    Leveduras

    Levedura: são microorganismos unicelulares, biologicamente classificados como fungos. São eles os responsáveis por transformarem o açúcar em álcool durante o processo de fermentação. Como resultado deste processo, além do álcool, também é gerado o gás carbônico.

  • Outros ingredientes: as cervejas podem receber diversos outros ingredientes, como frutas, legumes, ervas, madeiras, condimentos ou mesmo outras bebidas (como vinho e whisky), afim de garantir características específicas de sabor, aroma e aparência à cerveja.

Famílias
Existem duas famílias principais de cervejas, as Lagers e as Ales.

As Lagers, também conhecidas como cervejas de baixa fermentação, são fermentadas à temperaturas mais baixas, e por isto levam este rótulo. Outro motivo para serem consideradas como “cervejas de baixa” é o fato das leveduras usadas neste tipo executarem o processo de fermentação mais lentamente e o fazerem no fundo do recipiente usado para o processo. As Lagers são relativamente novas (cerca de 600 anos), já que os processos para manter as temperaturas mais baixas durante a fermentação e maturação também são relativamente novos: antes do advento da refrigeração elas eram produzidas em locais específicos, apenas em determinadas épocas do ano, geralmente dentro de cavernas, afim de manter a temperatura baixa constante durante todo o processo.

Nas Ales, conhecidas como cervejas de alta fermentação, o processo acontece a temperaturas mais altas, o que faz com que a levedura aja com mais rapidez e fique concentrada no topo do líquido.

Além das Lagers e das Ales, ainda existem as Lambics, que são cervejas de fermentação espontânea, pois não são adicionadas leveduras específicas e o processo ocorre naturalmente, com “leveduras selvagens” presentes no ar.

Existem ainda vários estilos menores (em quantidade e opções, não em qualidade, que fique claro) que não se encaixam em nenhuma das grandes famílias, tais como Rauchbier (literalmente “cerveja defumada” em Alemão, pois os grãos são defumados, e não torrados como normalmente acontece), Gruitbier / Gruitale (cervejas sem adição de lúpulo), Trapistas / Abadias (estilos que podem ter cervejas tanto entre Ales quanto em Lagers), Fruitbiers (cervejas com adição de suco de frutas), entre outras.

Escolas cervejeiras
Podemos definir como “escola cervejeira” aquela região (lembrando que há séculos atrás as fronteiras eram bem diferentes de hoje) e/ou cultura que desenvolveu estilos próprios de cervejas, estilos estes que são seguidos por outras regiões / culturas. Existem três principais escolas já estabelecidas e uma ainda em processo de desenvolvimento:

  • Alemã: talvez a escola mais famosa do mundo, por produzir a família Lager, a mais consumida no mundo e um dos tipos (Pilsen) mais consumidos. São eles os inventores/descobridores do processo de baixa fermentação e um dos grandes divulgadores das cervejas de trigo. Também fazem parte desta escola a parte norte e oeste da Holanda, a República Tcheca (onde foi inventado o estilo Pilsen), a Polônia e partes dos países nórdicos (geralmente o sul).
  • Belga: a escola Belga, que também engloba geograficamente o norte da França e o Sul da Holanda talvez seja a escola mais cultuada entre os apreciadores de cervejas. Há séculos suas Abadias e Mosteiros desenvolvem diversos estilos muito diferentes entre si, como trapistas, abadias, witbiers, etc. Via de regra são cervejas mais “densas”, com uma gradação alcólica mais elevada e um sabor mais adocicado.
  • Inglesa: como fica separado da parte continental da Europa, aqui é mais fácil restringir geograficamente a escola para o Reino Unido (incluindo as ilhas ao redor e a Irlanda do Norte) e República da Irlanda. Ale lá é sinônimo de cerveja (você pede uma Ale num bar!) e notadamente existe uma preferência por cervejas com grãos mais torrados (red, brown, stout, etc), o que confere um sabor de amargor proveniente também da torra destes grãos, e não somente do lúpulo, além de uma cerveja um pouco mais “seca”.
  • Americana: esta é a escola que ainda está se desenvolvendo, até porque, por conta da Lei Seca americana que proibiu a produção e comercialização de bebidas alcóolicas, ela começou a se desenvolver há pouco mais de meio século. Porém, a lei seca acabou por ser benéfica, pois deu um “reset” na indústria americana, que apenas copiava as escolas Inglesa (no norte do país) e Alemã (no sul). Ela se caracteriza pelas experiências com os mais diversos ingredientes (frutas, ervas, temperos, etc) e pelo “exagero”: muito malte e muito lúpulo é sempre bem vindo. Poderiamos classificar o inscipiente mercado brasileiro, por conta de suas características, dentro da escola americana.

Além das principais escolas, temos países / culturas que não criaram uma escola própria, mas têm características bem peculiares, tais como o Japão, com as suas rice beers (sim, aqui o ingrediente principal é o arroz, tão mal afamado) ou a Rússia (e alguns outros países da antiga URSS) com suas Imperials. A Escócia, apesar de fazer parte da escola Inglesa, também se destaca por suas cervejas altamente alcólicas, licorosas e maturadas em barris de madeira (muitos deles utilizados anteriormente para maturar whisky).

Degustando e apreciando
Não existe uma regra para apreciar uma cerveja, até porque a cerveja seja talvez a bebida mais descontraida que exista. Mas para que a experiência da degustação seja melhor aproveitada, existem algumas sugestões:

  • Aparência: é com certeza a primeira característica a ser notada e que pode enriquecer ou empobrecer a experiência. Alguns pontos a serem notados:
    • Embalagem: qual o tipo (lata? long neck? garrafa mais gordinha? garrafa de 600?), o rótulo (existem verdadeiras obras de arte nos rótulos, especialmente das cervejarias artesanais), o tamanho, o tipo de lacração (tampa de metal, tampa de pressão), etc
    • Cor: a cor da cerveja é determinada principalmente pelo tipo do malte e seu nível de torrefação. Porém, alguns dos aditivos podem influir na coloração. Existe uma medida chamada SRM (Standard Reference Method, ou método de referência padrão, em português), que vai do amarelo palha, quase branco, até o negro, e é utilizado internacionalmente por cervejeiros e aficcionados.
    • Translucidez: a translucidez da cerveja é determinada pela filtragem. Uma cerveja filtrada geralmente é translucida (se ela não for muito escura, obviamente), enquanto as não filtradas, pelo fato das partículas de malte, lúpulo e outros ingredientes ainda estarem presentes no líquido podem ser turvas (em diversos níveis) ou totalmente opacas.
    • Formação dos gases: como o gás se forma e se dissipa. Fazem muitas bolhas? Fazem poucas? Elas demoram a se dissipar? São bolhas maiores? Menores?
    • Formação da espuma: a espuma que se forma é de grande volume? E a persistência? Ela fica bastante tempo ou some rapidamente? Deixa aquele “véu de noiva” no copo?
    • Cor da espuma: qual a cor da espuma? Branca, bege, marrom?
  • Aroma: boa parte do gosto que nossas papilas gustativas detectam são complementados ou modificados pelo olfato. Lembra daquela história de ficar gripado e a comida perder o gosto? Por isto é interessante tentar sentir quais os aromas que aquela cerveja traz antes de levá-la à boca. Entre os aromais mais típicos estão:
    • Álcool: o volume de álcool em uma cerveja é determinado pelo tipo e quantidade do malte utilizado (consequentemente, quanto amido virou açúcar) e pelo tempo de fermentação e tipo de levedura utilizada (quanto deste açúcar foi transformado em álcool). Assim como para o a cor, existe uma medida internacional, esta para todas as bebidas alcólicas, chamada ABV (Alcohol by Volume, álcool por volume) que representa a porcentagem de álcool contida a cada 100mls da bebida. Importante destacar que não necessariamente uma bebida com alto teor alcólico terá álcool no aroma, já que este aroma poderá ser suprimido pelos outros componentes.
    • Frutas: mesmo quando não se usa fruta na composição da bebida as reações químicas ocorridas durante todo o processo podem gerar aromas similares. As Witbiers são famosas pelo aroma cítrico (mesmo uma parte delas não levando nenhuma fruta) e as German Weizen, além dos cítricos, costumam ter banana e cravo no aroma, mesmo não usando destes ingredientes. Por sua vez, as Stouts apresentam notas de café e/ou chocolate, devido à torrefação dos seus grãos.
    • Especiarias: cravo, pimenta, ervas, etc. Assim como acontece com as frutas, mesmo a receita não contendo alguns destes ingredientes, aromas deles podem aparecer em uma cerveja.
    • Outros: pão/fermento, capim, chá, chocolate, baunilha. Muitos deles por conta de aditivos para dar as determinadas características e outros tantos por conta das reações e transformações químicas dos ingredientes básicos.
  • Sabor: com certeza o ponto mais importante da cerveja é o seu sabor e as reações que ele provoca (vide curiosidades). Podemos dizer que devido às variadas combinações das principais característiscas, a variedade de sabores e sensações proporcionadas pela cerveja são infinitas. Mas dentre as principais características e nuances do sabor, podemos destacar:
    • Álcool: independente da quantidade de álcool presente na cerveja, pode-se notá-lo ou não no sabor. Mesmo que às vezes ele não seja notado no aroma, ele pode aparecer no sabor, ou vice-versa.
    • Amargor: uma das principais características da maioria das cervejas é o seu nível de amargor e, além do efeito inebriante da bebida, o amargor é uma das principais fontes de prazer (vide curiosidades). Além do lúpulo, o nível de torrefação, bem como algum produto adicional (cravo-da-índia, por exemplo), contribuem para esta característica. À exemplo da cor e do volume de álcool, o IBU (International Bitterness Unit, Unidade Internacional de Amargor) estabelece uma gradação do nível de amargor de uma cerveja. Estima-se que à partir de 150 IBUs, o amargor é tão forte que a diferença é imperceptível para os seres humanos.
    • Dulçor: como já explicado, o amido dos grãos utilizados como malte é o gerador de açucar, que se transformará em álcool durante a fermentação, e invariávelmente a cerveja contará com algum nível de açucar (por isto também é que ela é calórica). Dependendo do nível de fermentação e dos outros ingredientes, este dulçor pode ser perceptível ou não, mas com certeza ele estará lá!
    • Notas: entende-se como notas outros sabores que possam estar presente na cerveja, mas que não provém diretamente dos ingredientes principais, e podem ser adicionados propositalmente ou então serem, assim como o aroma, resultado dos processos químicos. Uma cerveja pode ter uma infinidade de notas de sabor não relacionadas aos ingredientes principais, tais como: chocolate, café, frutas, madeiras, ervas, temperos, e vou para por aqui pois a lista é, literalmente infinita.
    • Retrogosto: a língua do ser humano tem pontos específicos onde cada tipo de sabor é detectado: o doce é melhor absorvido na ponta da língua, o ácido (ou azedo), nas laterais dianteiras da língua, o salgado bem no meio e o amargo no fundo da parte da língua que está na boca. Recentemente separaram o sabor adstringente (que também é um resultado do ácido) em uma categoria distinta, que é sentida na parte inferior da língua. O retrogosto é o sabor que uma bebida deixa na boca após ser ingerida. Como a língua se estende até a garganta, normalmente o retrogosto da cerveja leva o amargor (detectado no final da língua) como nota principal, que forma o conjunto com o restante dos sabores sentidos anteriormente.

Harmonização
Eu detesto esta palavra, mas vou usá-la: harmonização é o ato (ou arte, segundo alguns) de combinar a bebida com a comida. A regra básica de harmonização é que as características de um (aroma, sabor, e até características visuais) não devem se sobressair à do outro, mas sim se complementarem e, quando possível, realçarem as características um do outro. Então uma Witbier (com características mais leves) não combinaria bem com algum prato apimentado, ou com comida Indiana, por exemplo, que é “carregada” de especiarias, enquanto uma IPA, que tem notas de lúpulo muito marcantes, iria acabar por suprimir o sabor suave de uma mussarela de búfala.

Mas no final a regra geral é: desceu bem? Então manda bala!!!!

Curiosidades

  • Nas prisões européias era comum o preso ter, além da alimentação, uma ração diária de cerveja que variava entre um e dois pints (um pint equivale a 473 mililitros)
  • O lúpulo pertence a mesma família das canabidáceas, ou seja, é prima da maconha, porém não contem os efeitos entorpecentes desta. Quer dizer, o lúpulo sozinho, já que junto com o álcool, além de prazer (ver abaixo), proporciona uma sensação inebriante.
  • Diferentemente do vinho, a maioria das cervejas perde qualidade com o tempo (talvez esta seja a causa da alegada diferença de cervejas de um lugar para outro). Existe até um ditado que diz que “a melhor cerveja é aquela tomada na fábrica”. Portanto, para apreciar o melhor da cerveja, quanto mais perto da data de fabricação, melhor.
  • Um outro fator de deterioração da cerveja é a exposição à luminosidade. Por conta disto a imensa maioria das cervejas é embalada em garrafas de vidro escuro.
  • É por isto também que se adiciona limão nas cervejas conhecidas como “draft beers” (Corona, El Caguama e Müller, por exemplo, apesar do termo draft ser incorretamente utilizado): o limão disfarça o “ranço” provocado pela exposição da cerveja à luz, causado pelas garrafas transparentes.
  • Uma das explicações para o prazer em se beber cerveja (além da sensação de embriaguez) seja a endorfina, “componente com característica dos opiatos que são produzidos no cérebro como resposta natural do corpo à dor” (Le Couteur, Penny e Burreson, Jay em os Botões de Napoleão): ao sentir o amargor, que é uma sensação inicialmente desagradável para o ser humano, o nosso corpo produz esta substância, que gera uma sensação de prazer. É o mesmo princípio da pimenta e de outras especiarias “picantes”.
  • Apesar da grande maioria de cervejas populares vendidas no Brasil ostentarem o título “Pilsen”, elas na verdade são do tipo “American Lager”. Mesmo não sendo Pilsen ao pé da letra, ambas pertencem à mesma família, a das Lagers.
  • A Reinheitsgebot (Lei da Pureza da Cerveja, em português) é uma das regulamentações de produção de alimentos mais antigas do mundo, sendo promulgada pelo duque Guilherme IV da Baviera em 23 de Abril de 1516 e que determinava que a cerveja deveria conter apenas água, malte de cevada e lúpulo (não se sabia, à época, da influência das leveduras e o processo de fermentação era espontâneo). Mais tarde a lei foi modificada para permitir a levedura e o trigo. Mas o intuito principal da lei foi mais econômico e político do que afim de garantir a qualidade das cervejas: na época da promulgação da lei o monopólio das cervejas de trigo pertencia à casa nobre de Degenberg, rivais de Guilherme IV. A promulgação da Lei foi um golpe fatal na saúde financeira dos rivais.
  • A Reinheitsgebot foi considerada uma lei protecionista quando da formação da União Européia e por isto, hoje, ela é mais uma tradição do que uma lei realmente, já que os cervejeiros alemães hoje já podem utilizar qualquer ingrediente para produzir cervejas (e os cervejeiros Berlinenses têm sido os mais “criativos” ao desenvolverem novas receitas).
  • Santa Hildegard von Bingen, uma abadessa alemã que viveu entre 1098 e 1179, é considerada por muitos dos “cervejólogos” como a padroeira da cerveja. Pesquisadora do uso de ervas em tratamentos medicinais, inclusive do nosso amigo lúpulo, é dela a primeira citação por escrito do lúpulo na fabricação de cerveja de que se tem notícia.
  • A cerveja já foi conhecida como “Pão Líquido”, isto por três motivos principais: o processo de produção é parecido, pelo fato de utilizar, antigamente, o mesmo ingrediente que o pão (ao invés de cevada, usava-se o grão de centeio para produzir a cerveja, que também era usado no lugar do trigo para produzir o pão) e pelo fato dela alimentar.

Be happy 🙂 (and have a beer!!!!)

397 - Liverpool

Post #100!!!

dollarQuando comecei esta bagaça, há menos de um ano atrás, eu disse no meu primeiro post (aqui) que iria tentar escrever a cada 15 dias, pelo menos. E não é que eu peguei gosto pela coisa e cheguei no centésimo post!!!!!

Este espaço está servindo para que eu possa, em primeiro lugar, organizar minhas idéias (e olha que eu tenho muitas) de uma forma mais coerente (não que eu não fale muita besteira, mas estou aberto à criticas e correções). Mas também tem me ensinado a ser menos prolixo, mais direto e tem me ajudado até a melhorar minha capacidade de compreensão de textos que não os meus.

Alguns números deste período:

  • Até agora foram cerca de 4500 views, uma média de 450 por mês. Um número ótimo para quem não está em nenhum portal (ig, uol, etc) e conta basicamente com a audiência do Facebook e dos artigos eventuais da Feedback magazine.
  • Inicialmente eu tinha bastante views, mas depois que o Facebook, que é basicamente onde eu promovo o blog, mudou sua política de exibição de conteudo (isto ocorreu em março deste ano), a audiência aparentemente havia caido pela metade (comecei a receber a metade de “likes” que recebia, em média).
  • Mas olhando as estatísticas do blog para montar este post, eu acabei descobrindo que a audiência vem aumentando mês a mês:Audiencia
  • A categoria mais visualizada ao longo destes dez meses é a Botecando, onde eu faço resenhas sobre os bares que eu frequento.
  • A menos vizualizada, para minha tristeza e decepção, é a Literatura, onde eu faço resenha dos livros que eu li.
  • O post que sem dúvida “bombou” foi o Top Top de Músicas de Motel (é só colocar um “fuck” no título, que atrai), com cerca de 150 visualizações únicas nos dois primeiros dias!
  • Os posts que menos bombaram foram Dekanawidah: My Lessons Learned e Making A Good Place To Work, primeiro porque como eu estava viajando e deixei eles agendados, eles apareceram somente para algumas pessoas dos meus contatos e em segundo, acredito eu, por estarem em inglês.
  • O post das Fucking Songs foram os que mais bombaram no lançamento, mas existem dois posts que têm views quase todos os dias, com um leve aumento aos finais de semana, sendo eles os mais visitados no geral: o da Bella Augusta e do Bar da Dona Diva. A maioria destes “cliques” vêm do google. Como ambos os bares não têm site na internet, creio que a galera procura no google e acaba caindo no blog.
  • Descobri fazendo este blog que as pessoas, infelizmente, não gostam de textos mais longos. 500, 600 palavras é o limite para a galera ler (o equivalente a um page down). Acima disto simplesmente não lêem.
  • Atualmente as pessoas preferem mais assuntos mastigados e organizados em tópicos do que ler um texto “corrido”. Me chateia profundamente, pois eu detesto quando tentam expressar uma idéia apenas em tópicos.

Vamos ver até quando vai o meu pique de manter isto daqui. Pelo tanto de idéias que tem fervilhado pela minha cabeça ultimamente acho que tenho temas para um bom tempo ainda.

Be happy 🙂

 

Mal tá a mídia! O rock vai bem, obrigado!

Malta1Todo domingo, nos últimos 2 meses (pelo menos), tenho visto comentários no facebook e grupos de whatsapp sobre como o “rock nacional foi salvo” por uma tal de Banda Malta, Banda Suricato, Banda Jamz. Sei que se trata de participantes do programa Superstar (um The Voice para bandas), da rede Globo.

Como não costumo assistir televisão, e passei as últimas 4 semanas fora do Brasil, nunca tive a oportunidade (ou curiosidade) de ver. Mas diante de tanto burburinho a respeito, especialmente durante a final do programa, fui atrás para conhecer um pouco e realmente me inteirar destes “fenômenos” recem descobertos.

Antes de continuar, um adendo: não assisto TV simplesmente por ter outras formas de entretenimento (livros e séries americanas), não porque eu acho que a TV é “imbecilizante”. TV, livros, música servem primariamente para entreter, e neste ponto a TV brasileira atinge seu objetivo. Aliás, eu inclusive detesto os “caga regras” que dizem que a Globo não acrescenta nada, que Funk não ensina nada. Quem tem que educar e ensinar são os pais e a escola. Como disse, TV, música, etc são apenas formas de entretenimento, e se um Funk ou Sertanejo vende um milhão de cópias (ou tem 10 milhões de views no youtube), ele cumpriu sua função. Aliás, para não dizer que eu nunca vejo TV, além de Fórmula 1 e Futebol, não perco um Esquenta!, simplesmente porque acho divertido.

Mas voltando ao assunto principal, dei uma pesquisada e assisti alguns vídeos destas bandas citadas (e que foram as mais comentadas nas redes sociais). São bandas boas. Porém quando executam covers, não são melhores que a Rockover, Mr Kurk, Armagedon e várias outras bandas covers que tocam na noite paulistana em palcos como o Piu Piu, Wild Horse e Stones. Talvez eles tenham mais recursos (tempo e grana) para adquirirem equipamentos melhores, ensaiarem mais e produzirem melhor suas músicas. Mas não creio que tenham mais ou menos talento do que meus amigos do Le Passage, por exemplo (além das já citadas).

Quanto as músicas autorais, gostei da música que a Jamz tocou no final, mas não faz nada de diferente do que o Jota Quest fazia no começo da carreira, imitando o Jamiroquai. O som da Banda Malta (que foi a vencedora) eu achei bem simples, nada mais que sertanejo com um arranjozinho um pouco melhor, mas nada que “salvasse o rock nacional”.

Aliás, este é o problema: o rock nacional não precisa ser salvo! A disseminação da internet e o acesso à tecnologia de produção musical (hoje com um bom notebook e mais um software você consegue montar um bom estúdio caseiro), fizeram com que a produção musical, que antes era centralizada em grandes gravadoras, se espalhasse, por isto hoje é mais raro ver um grande sucesso estourar nacionalmente. Mas por outro lado, a variedade e quantidade de bandas boas que surgiram nos últimos tempos têm impressionado.

Basta dar uma procurada que você vai achar coisas ótimas como os piauienses do Guardia Nova (Quando Chegar é uma obra prima!), bem como o Violante (um projeto de um dos membros do Guardia Nova), o rock à lá Los Hermanos dos brasilienses do Lafusa (infelizmente a banda anunciou uma pausa), a mistureba dos paulistanos do Zabomba, o hard rock em ingles dos goianienses do Black Drawing Chalks.

Sem contar os caras que estão há tempos na luta, como O Rappa (a melhor coisa surgida nos desde 1990 no rock nacional!) e o Skank (que abandonou aquele pop-ska chato do início de carreira e hoje bebem descaradamente nas fontes dos Beatles e do Clube da Esquina, o que é ótimo!). Tem ainda os “dinossauros” como o Lobão (sempre um ótimo compositor, arranjador e músico), o Paralamas, a volta do Ira! Rola até umas coisas mais pops (pra mim chatas) como o já citado Jota Quest, Lulu Santos e o Capital Inicial.

Um pouco fora do Rock temos a grata surpresa do Bixiga 70, os sempre competentes músicos do Funk Como Le Gusta, a soulzera da Nova Black Rio, os violeiros/rockeiros do Moda de Rock, o jazz “espacial” do Liquidus Ambiento, o jazz/chorinho com cavaquinho(!) do Galinha Caipira Completa e muitos outros.

Ou seja, não falta música de qualidade, o que falta é nego parar de esperar que tudo caia no colo e correr atrás para descobrir coisas boas, até porque, se depender da grande mídia, que também está perdidinha com esta disseminação/democratização da indústria de entretenimento, ela vai “fabricar” sucessos para tentar manter as coisas sob controle.

Então sugiro uma coisa: na próxima edição do Superstar ou do The Voice (ou qualquer outro parecido), ao invés de você assistir o programa inteiro, assista somente a segunda metade, durante a primeira, navegue por sites como A Musicoteca, Trama, o próprio Youtube, entre outros e você verá que existem artistas tão bons (e muitos até melhores, bem melhores), do que os que estarão se apresentando no programa. Inclusive melhores do que os jurados destes programas.

P.S. Sim, o título é um trocadilho infame, por que eu adoro trocadalhos do carilho!!!…..hahaha
P.S.2. Nos links tem “amostras” dos sons destas bandas.
P.S.3. O SESC também tem muito show bom a preços acessíveis, do tipo que dá pra você arriscar ir num show de uma banda desconhecida (convenhamos que hoje com uma googlada se acha videos, mp3s, etc) sem medo de “desperdiçar” dinheiro.

 

Minha Virada Cultural – Edição 2014

Virada 01Não é segredo para ninguém o quanto eu amo São Paulo (apesar dos pesares). Inclusive tenho a oportunidade de, devido ao trabalho, morar em uma cidade do interior de SP, não tão distante da capital, porém eu prefiro conviver com o ônus de morar aqui para poder aproveitar o bônus (vida noturna, cultural, amigos, família, etc). Particularmente eu gosto bastante do Centro de SP, local em que trabalhei de 1991 à 2004 (e gostaria de voltar a trabalhar lá).

No centro de SP você encontra todo tipo de pessoas (brancos, negros, índios, nigerianos, bolivianos, ricos, pobres, etc) e de lugares (shoppings, centros comerciais, restaurantes populares, restaurantes luxuosos, hospitais, dentistas). Além de tudo, apesar de bastante descuidada, a arquitetura da região central é bela e, guardadas as devidas proporções (500 anos contra 2 mil!), não deve em nada para as principais cidades da Europa (ao menos as que eu conheço).

Eu fico muito feliz quando existem eventos ou ações que ocupem o centro da cidade (aliás, a cidade toda) afim de proporcionar cultura, esportes, lazer, etc (já falei sobre o Carnaval de rua Paulistano aqui). Ou seja, que procuram fazer com que os paulistas (de nascimento e de coração) aproveitem esta maravilhosa cidade. Talvez o evento mais esperado todo ano seja a Virada Cultural, em 2014 na sua 10ª edição.

Desde 2008, ou seja, da sua quarta edição, que eu aproveito este evento. Nas primeiras edições eu não compareci por conta de preconceitos que eu tinha (“é bagunçado”, “é perigoso”, etc) e que muita gente ainda tem. Mas à partir do momento que eu me permiti ter esta experiência, se tornou um dos meus eventos preferidos e mais esperados do ano.

Este ano não foi diferente e no sábado às 16:00hrs, peguei o ônibus para me dirigir ao centro para aproveitar alguns dos eventos desta festa.

Pobre Paulista
Talvez um dos shows mais esperados este ano foi o retorno da paulistaníssima banda Ira!, após 7 anos de separação e brigas. E acho que não haveria um evento melhor para este retorno do que a Virada Cultural. Eu nem vou falar que o show foi sensacional, porque eu sou muito suspeito, já que o Ira! é minha banda nacional favorita.

Virada 02

Bandeiras de SP tremulam ao som do Ira!

De qualquer forma eles montaram um set muito bom para esta volta, colocando bastante músicas curtas para tocarem o máximo de músicas possíveis no pouco tempo de show, incluindo no set muitos lados Bs. “Como os Ponteiros de um Relógio” e “Prisão das Ruas” eram duas músicas que eu nunca os tinha visto tocar ao vivo (e olha que eu já vi uns 100 shows do Ira!, chutando bem baixo!).

Não gostei muito dos novos membros da banda, especialmente do baterista, que me pareceu muito “mecânico” (talvez com o tempo ele se solte), mas era um show para curtir e não para ficar analisando qualidade técnica e até o fato do Nasi esquecer e errar algumas letras (como em Tolices) foi parte do espetáculo.

Underground
Depois do show do Ira! dei uma passada no palco São João para assistir um pouco do Tributo ao Hélcio Aguirra, guitarrista do Golpe de Estado (a segunda banda que eu mais vi, só perdendo pro Ira!), falecido ano passado.

Da formação original da banda só sobrou o baixista Nelson Britto, porém eles tocaram sob o nome de “Golpe de Estado”. No início da apresentação, que foi anunciada pelo Luis Calanca, da Baratos & Afins (o selo pelo qual o Golpe lançou os primeiros discos, justíssima escolha, aliás), levaram ao palco a famosa Gibson Flying V Preta e Branca que era a marca registrada do Hélcio.

O show foi até legal, mas nestas horas você percebe que esta história de que “ninguém é insubstituível” é uma balela: o guitarrista escalado para “substituir”o Hélcio era muito bom, mas mesmo assim não era o Hélcio e apesar do Nelson estar ali tocando, não parecia ser o Golpe.

Mas valeu a homenagem, já que o Hélcio, além de ser um baita músico, foi uma das pessoas que ajudaram a desenvolver (ou ajudaram a não deixar morrer) a indústria musical brasileira, sendo ele responsável por prover equipamentos de PA para vários shows ocorridos na década de 80 (antes da abertura comercial em que era praticamente impossível importar equipamentos), desenvolver efeitos e amplificadores, etc.

Retirantes
Bixiga 70 era um um dos shows que eu mais queria ver, já que apesar de ter adquirido os dois álbuns da banda, nunca os tinha visto ao vivo.

Aqui vale uma consideração: o brasileiro em geral não é muito ligado em música instrumental, mas vez ou outra uma banda ou músico se destaca e conquista relativa popularidade. Foi o caso da Banda Black Rio nos anos 70, d’A Cor do Som nos anos 80, do Funk Como Le Gusta na década de 2000 e parece que a bola da vez é o Bixiga 70.

Montaram um set bem legal, inclusive permitindo espaços para improvisações e suspresas (como uma versão bem inusitada de Kashmir, do Led Zeppelin). Uma pena que colocaram em um palco secundário e a procura foi grande, o que tornou o espaço um pouco lotado.

Outra coisa ruim foi a “marofa” que se formou no show. Parecia uma névoa de tanta maconha e saí de perto do palco antes do final pois já estava ficando louco de tabela. Eu fumo meu cigarro e bebo minha cerveja e talvez não tenha moral pra falar, mas acho que a galera podia ter um pouco mais de consideração com quem não tá afim de “chapar o côco”.

Depois do show do Bixiga 70, um já tradicional churrasco grego pra dar uma forrada e bora pra casa dormir um pouco pois o outro dia reservava algumas boas atrações também. Estou pensando até em pegar um hotel no centro no próximo ano para aproveitar mais a festa.

Todo Amor ao Jimi
No domingo de manhã, logo as 9:00hrs, teria um show que já havia visto em algumas viradas atrás, mas quis assistir de novo, pois é bem legal, que é o do Pepeu Gomes, um dos melhores guitarristas da história musical do Brasil.

Virada 03

Pepeu Gomes e a bela Estação Julio Prestes ao fundo!

Mas antes do show, como não poderia deixar de ser para alguém que parece um para ráios de louco como eu, um tiozinho ex-morador de rua resolve pedir cigarro e ai lá se vão 30 minutos ouvindo histórias meio disconexas e sem sentido (“eu tenho 6 profissões: balconista, amigo do cafú…”). Mesmo assim é divertido e o que estas pessoas querem é apenas alguém que lhes dê um pouquinho de atenção e dar um pouco de atenção a outra pessoa não custa nada.

O show do Pepeu começou com uns 20 minutos de atraso, o que me impediu de acompanhar até o final, já que tinha outros planos. Mesmo assim, é bem legal e ele mistura músicas de sua carreira solo, sucesso da época dos novos baianos e algumas homenagens, como um instrumental de “Maracatu Atomico” que ele dedicou ao Chico Science (poderia ter aproveitado e dedicado ao Jorge Mautner, autor da música).

A banda que o acompanha é competente e sabem dosar a quantidade de solos e improvisos para não virar aquela “punhetagem” musical que geralmente existe em shows de música instrumental.

Mas como disse, a agenda estava apertada e as 10 e pouco precisei ir embora rumo ao minhocão para dar uma olhada em como estaria o evento “Chefs na Rua”, que desta vez contou com participação de food trucks e de cervejarias artesanais e importadores de cervejas ditas “gourmet”.

Cerveja é cultura
Desde 2012 ocorre, como uma das atrações da Virada Cultural, o evento “Chefs na Rua”, onde chefes e restaurantes badalados servem algumas de suas criações a preços populares. Este ano o evento ganhou a ótima companhia de food trucks (que parece que vieram para ficar) e de algumas empresas do mercado de cervejarias artesanais (importadores, microcervejarias e uma escola que produziu uma cerveja durante o evento), também conhecidas como cervejas gourmet.

Muito bom este interesse pela cultura cervejeira

Muito bom este interesse pela cultura cervejeira

Devido à recente popularização deste mercado no Brasil, posso me considerar da “velha guarda” dos apreciadores de cervejas gourmet, afinal de contas, frequento o Frangó há uns 20 anos, e fico muito feliz com o aumento deste mercado por aqui. Então claro que não poderia deixar de dar uma passada no evento.

A variedade de cervejas era boa, contando com cervejarias nacionais e importadas e achei muito legal que estavam vendendo “degustações” em copos de 100mls. Pelo que eu percebi haviam muitos “curiosos” em descobrir este fantástico mundo das cervejas, que afinal de contas, assim como a música, a culinária, os trajes, fazem parte da cultura de um povo.

Rapaziada da Zona Oeste
Não posso nem dizer que “vi” o show do RZO, pois na verdade escutei duas músicas quando estava à caminho do palco Luz e passeoi pelo palco Júlio Prestes, mas como eles estavam tocando as minhas duas músicas prediletas do grupo, Paz Interior e O Trem, então vou contar como uma das atrações que eu vi…..hehehe

Qui Nem Jiló
Quando da morte do Jair Rodrigues eu publiquei um post no Facebook falando que, mais do que a perda do artista, a maior perda era da pessoa, já que ele era um ser que, se eu não fosse tão cético, acreditaria ser um espírito de luz ou ter uma aura do bem. A Teresa Cristina é uma destas pessoas também. Só a presença dela no palco já faz você abrir um sorriso.

Além disto, ela canta bem para caramba, sabe montar um repertório fantástico, colocando músicas menos conhecidas intercaladas com grandes sucessos de outros artistas que ela interpreta. Para “ajudar” ela ainda conta com uma competentíssima banda.

Por tudo isto este show acabou entrando no rol de um dos melhores que eu vi em minhas 7 edições de virada cultura, ao lado do próprio show do Jair Rodrigues e do Living Colour, que assisti na virada cultural de 2010.

E agora virou obrigação assistí-la quando ela vier a São Paulo ou da próxima vez em que eu for ao Rio e ela estiver se apresentando.

Underere
Entre a Teresa Cristina e o Pagode 90 (que iria assistir mais pela memória afetiva) tinha a Eliana de Lima e como já estava cansado de andar de um canto pra outro, resolvi assistir tb. Não foi tão legal pois ela está longe de ser uma baita cantora, então acabou valendo também pela memória afetiva.

Enquanto comia um pastel na espera pelo Pagode 90 o tempo fechou (literalmente), mal dando tempo de engolir o ultimo pedaço e correr para a marquise da Estação da Luz. E a chuva acabou trazendo uma agradável surpresa…

Até a acústica da Estação da Luz ajudou.

Até a acústica ajudou.

Proteja o meu Maracatu!
No momento da forte chuva que caiu sobre São Paulo, o Grupo Maracatu Bloco de Pedra, que se apresentaria no Parque da Luz, correu para dentro da estação de trem da Luz e, meio que espontaneamente, começaram a tocar ali mesmo. Um som legal, um público empolgado (e um tanto quanto “emocionado” pelo álcool), a bela arquitetura da estação (que inclusive ajudou na acústica) e a surpresa fizeram desta curta apresentação uma atração bem legal.

Pena que, por não ter sido programada, os seguranças e a administração da estação solicitaram a interrupção da apresentação. Mesmo assim, até eles estavam com boa vontade e permitiram que rolasse mais um pouco.

Mas seria legal se nas próximas edições utilizassem este “aparelho” para programar eventos.

Nem tudo são flores
Como já disse, esta foi minha 7ª Virada Cultural, todas elas sem nenhum incidente comigo ou com conhecidos (e algumas vezes eu varei a madrugada sozinho, como em 2010). É um evento muito legal e São Paulo precisa de mais eventos que ocupem o espaço público. Sua população merece isto. A cidade merece isto.

Eu não gosto muito destas “teorias conspiratórias”, mas é estranho porque enquanto era a gestão Serra/Kassab (que deixou este legado de bom pra cidade) que comandava a cidade, não davam tanta atenção para os incidentes que SEMPRE ocorreram e ocorrerão em eventos deste tamanho (ocorrerão aqui em SP, ocorrem no carnaval da Bahia e do Rio, ocorreriam em NY, em Berlin, em Londres, em qualquer lugar onde você junta uma multidão deste tamanho)

Mas três coisas que vi e ouvi me deixaram com um misto de perplexidade, tristeza e falta de esperança, não em relação ao evento, mas ao rumo que nossa sociedade toma:

  • O comandante da PM assinando seu atestado de incompetência pedindo que o evento seja diurno e com acesso restrito para que exista revista. Ele simplesmente admitiu a falência do sistema do qual ele faz parte, que é o de segurança pública. (e aqui não é uma crítica à instituição, pois a PM fez ótimo trabalho, na medida em que puderam, durante esta virada).
  • O apresentador da Globo perguntando se vale a pena investir 13 milhões num evento como este. O público estimado foi de 4 milhões de pessoas! Quer investimento melhor do que este? Poderiam investir mais ainda e fazer o evento 2, 3, 4 vezes por ano.
  • Das 4 confusões que eu presenciei, 3 delas foram causadas pela Guarda Civil Metropolitana tentando apreender produtos de vendedores ambulantes, o que invariavelmente gerava uma correria generalizada, pois as pessoas inicialmente não sabiam do que se tratava e em um segundo momento a revolta do próprio público, que em uma das confusões quase resultou em agressão aos próprios guardas. Ao invés deles focarem em apreensões, poderiam ao menos neste evento, ajudar na segurança. Seriam muito mais úteis.

Valeu a pena!
Após 10 anos de eventos, nota-se que ele vem progredindo em todos os sentidos. Inicialmente houveram problemas com falta de banheiros e de pontos de alimentação, que já foram solucionados lá pela 6ª edição. Depois o problema da segurança, que também vem melhorando a cada ano.

Nos primeiros eventos eu presenciei algumas confusões (brigas e discussões) entre o público ou entre tribos (roqueiros, punks, pessoal do RAP, Samba, Eletrônico, etc) no caminho entre um palco e outro. Porém, nas últimas 3 ou 4 edições não presenciei nenhuma confusão deste tipo, até porque, hoje a turma do “deixa disso” deve corresponder a pelo menos 90% do público e qualquer tensão é logo aplacada pelo próprio público. Ou seja, o evento está servindo também para aumentar a tolerância das pessoas ao que é diferente.

Em outros anos a quantidade de atrações boas (para o meu gosto, que fique claro) impressionava e ficava até complicado escolher o que eu iria ver. De uns três anos para cá eles aumentaram mais a variedade de estilos, o que fez com que as opções para o meu gosto diminuissem, mas em compensação está atraindo bem mais pessoas (inclusive de outras cidade e até estados, e desta vez vi bastante gringos também). Mas é uma festa popular e é mais do que justo tentar atender à todos os gostos.

Muita gente deixa de ir na Virada Cultural alegando que vai ter muito bandido, drogado, travesti. Sim, o centro é cheio de travestis, prostitutas, drogados, mendigos. Mas antes do nóia, da puta, do traveco ou do dorme sujo, o que existe ali é um ser humano, e se você não consegue ao menos sentir empatia e tolerância por outro ser humano a ponto de não conseguir conviver no mesmo espaço que ele por algumas horas que sejam, então o melhor mesmo é não ir (aliás, o melhor ainda é que você vá viver isolado, pois você ainda não aprendeu a viver em sociedade).

Todas as vezes eu sou sim interpelado por estas pessoas que vivem na região central. Algumas vezes me pedem cigarro, outras a cerveja que estou tomando, alguns poucos me pedem dinheiro (a maioria explica que é pra tomar uma cachaça, afinal cobertor de mendigo é pinga), muitos nem me pedem nada. O que todos eles no fundo querem é alguém que lhes dê atenção, por 5 ou 10 minutos que sejam, ao invés de enjeitá-los, isolá-los, tratá-los como párias da sociedade. E se 10 minutos de minha atenção foram suficientes para melhorar um pouco o dia destas pessoas, isto já me valeu muito a pena. Até mais do que os shows.

Algumas outras fotos:

Virada 06

A lateral do Teatro Municipal, vista da 24 de Maio

Virada 07

Venha correndo Mappin!!!

Virada 08

A frente do belo Teatro Municipal

Virada 09

Estação da Luz

Virada 10

Festa para todos os credos…

Virada 11

…e crenças (instalação no Parque da Luz)

Virada 12

Outro ângulo da Estação da Luz

Virada 13

Não era atômico, mas era um belo Maracatú!

Virada 14

A arquitetura da Estação da Luz me lembrou a da Estação de Hamburgo, na Alemanha (por isto ela não me era estranha quando tomei trem lá)