Arquivo da tag: Ignácio de Loyola Brandão

Não Verás País Nenhum – Ignácio de Loyola Brandão (01/2023)

nao_veras_pais_nenhumA única obra do Ignácio de Loyola Brandão que eu conhecia até pouco tempo era “O Verde Violentou o Muro”. Achei o texto dele muito bom, mas este livro é uma coleção de pequenos textos que ele escreveu sobre os períodos em que morou ou visitou Berlin (a cidade mais legal do mundo!). Não sei por que cargas d’água (ou ao menos não me lembro porque) “Não Verás País Nenhum” entrou na minha lista de livros em Português a ser adquirida quando fosse ao Brasil. E ainda bem que entrou.

Um breve resumo desta distopia tupiniquim (que não deve em nada para 1984): após um golpe de Estado, conhecido como “A Grande Locupletação”, um regime autoritário se instala no Brasil (o regime é conhecido como “Esquema”). Toda a produção (cientistas) e disseminação (professores, jornalistas) de conhecimento foi sendo abolida aos poucos pelo regime.

Aos poucos, o país foi sendo desmantelado e as partes vendidas a outros países ou corporações internacionais. O que sobrou se concentra na região sudeste (a história se passa na Grande São Paulo). Neste resto de Brasil, os recursos naturais estão praticamente esgotados e o pouco que resta ou é direcionada para uma elite formada pelos Militecnos (militares que compõem toda a espinha dorsal do Estado, porém “não tem cérebro, tampouco coração”) e pelos “Os que se Locupletam” (não ficou claro quem seriam, mas o livro dá a entender que seriam uma pequena elite não militar formada pelos poucos milionários e políticos que restaram).

A maior parte da população sobrevive através de alimentação sintética (alimentos “factícios”) e vive nas grandes cidades, em apartamentos minúsculos, convivendo com lixo acumulado e tendo todo o seu deslocamento estritamente controlado.

Nestas grandes cidades, a “segurança e ordem pública” é garantida pelos Civiltares, que basicamente são civis armados (a população passa metade do tempo rastejando, tentando evitar os tiros e as “bombas de efeito desmoralizante” dos milicianos Civiltares) que “combatem o crime” (ou o que eles determinam como crimes). E aí, por exemplo, quando eles devolvem uma carteira furtada, já fazem o acerto de sua “taxa” ali na hora (“para evitar burocracia”) e dão um sumiço no meliante.

Todo o fluxo de informação é controlado pelo Estado (através dos Militecnos) e evita-se “notícias ruins” (e aí de quem “torcer contra”). Todos devem “regozijar-se com o ouro dos garimpos, com a madeira que se pode exportar, com as safras imensas das terras férteis [que também são exportadas]”.

Notaram alguma semelhança com o Brasil de 2019 até 2022? Querem mais? O sobrinho do personagem principal, Souza, é um Militecno que tem um problema intestinal (provavelmente causado pelos alimentos sintéticos – como vários outros adultos da mesma geração) e anda com uma “bolsa de cocô” (bolsa de colostomia).

Sim, o livro publicado pela primeira vez em 1981 parece ser o guia, a bussola, a bíblia do Bolsonarismo. Também tem algumas passagens que lembram The Handmaid’s Tale (que foi lançado em 1985). Tem até citações similares ao “Arbeit macht frei” do nazismo sendo empregada pelo Esquema (o Roberto Alvim curtiu isto!).

E apenas citei algumas das “coincidências”. Se bem que a impressão que tenho é que na verdade todo o livro serviu mesmo como um manual de instruções para o horror que se instalou no Brasil nos últimos anos.

Demorou pra Netflix transformar o livro em uma série!

Be happy 🙂

O Verde Violentou o Muro – Ignácio de Loyola Brandão (16/2015)

O Verde Violentou o MuroEm 1982 o autor, após uma separação, aceitou uma proposta do DAAD, instituto alemão de intercâmbio acadêmico, para passar uma ano e meio em Berlin Ocidental. No livro, que tem como subtítulo “A vida em Berlin antes e agora”, ele relata as experiências de viver em uma cidade cercada por um muro (muita gente imagina, como eu imaginava antes de ir à Berlin pela primeira vez, que o país era “cortado” pelo muro, que passava pelo meio na cidade, mas na verdade o muro não dividia a Alemanha e sim cercava a parte ocidental de Berlin, expliquei um pouco aqui).

Depois deste período ele voltou mais três vezes à cidade depois da queda do muro e pode conhecer, com um pouco mais de detalhes, os pedaços do lado oriental da cidade. Como ele apenas visitava o “outro lado” em passeios de um dia, ele não tinha muitos detalhes de como era a vida ali e, ao visitar lugares que estavam atrás do cinza do muro, ele conta como ele imaginava que fosse.

Como ele deixa transparecer, ele parecia estar fugindo de alguma coisa, e como ele afirma em vários trechos, acabou se encontrando por várias vezes na cidade. Não é uma história com início, meio e fim, ou mesmo um relato. É apenas uma coleção de textos pequenos, onde ele relata experiências, curiosidades, observações e eventualmente dá algumas dicas, mais ou menos como eu faço nos artigos que escrevo sobre minhas viagens. É claro que ele tem muito mais bagagem do que eu (pelo fato de ter morado na cidade), além de ter um estilo infinitamente melhor que o meu de escrever. Por isto, a melhor forma de fazer um relato sobre o livro, é colocar alguns trechos que achei interessante (eventualmente com algum comentário meu):

  • “Não entendo conhecer uma cidade sem andar, andar. Cortando ruas, olhando para as casas, vitrines, supermercados, lojas. Tudo.”
  • “A cerveja alemã é mais suave, porém mais amarga que a brasileira. Mais cremosa, mais densa. Impossível encontrar aqui o que se chama no Brasil ‘estupidamente gelada’. Ou aquela que se tem de pedir ao garçom (se for íntimo da casa) ‘Me traz a que o dono guarda para ele!’. Descobri que beber cerveja estupidamente gelada é estúpido, mesmo ao calor de quarenta graus. Somente na Alemanha passei a sentir o sabor da cerveja, o gosto, o cheiro, a perceber as diferenças de paladar que o gelo anula.”
  • “Vá sábado de manhã, o espetáculo é curioso. Classes média e alta se acotovelam e entram em filas. Enfrentam aquilo por horas, sem protestos. Vendo as filas, achei curioso as críticas que costumam fazer a Berlim Leste. Uma delas diz: ‘Imagine, as pessoas têm que formar filas para fazer compras!’. Qual a diferença entre a fila do Leste e a do Oeste? Aqui estão comprando o supérfluo. Acho mais importante a fila do essencial” – sobre a KaDeWe, uma loja de departamentos gigante, ainda existente em Berlin, situada na Kurfürstendamm (ou KuDamm, uma mistura da Quinta Avenida com a Times Square, ambas de Nova Yorque), que oferece de tudo no que se refere à alimentos e bebidas.
  • “Meninas, adolescentes graciosas de vestidos vaporosos, longos, e pés no chão. Adoram andar descalças no verão”
  • “Ela existe, porém se conserva mais a distância. Posso andar sem medo pelas ruas, à noite. Não me incomodo muito se esqueço uma janela aberta. No cinema ou teatro deixo meu casaco guardando o lugar e vou tomar café, no intervalo. Sei que posso quebrar a cara, sofrer qualquer coisa, porém é hipótese, não uma comprovação e uma espera diária.” – sobre violência em Berlin.
  • “O normal nesta região moderna: espaço amplo entre os conjuntos, muita grama, playground com brinquedos imaginativos, bastante árvore e um rio canalizado e urbanizado, cheio de chorões nas margens. O que me fez pensar nos rios brasileiros. Riachos e córregos que atravessam nossas cidades e que os prefeitos enfiam por dentro de um cano, colocando uma avenida por cima, cheia de asfalto e nenhuma vegetação. O dinheiro gasto para aprisionar e fazer desaparecer uma água talvez seja maior do que enquadrar o rio numa paisagem urbana agradável e descontraída.”
  • “Não dá para ficar trabalhando o tempo inteiro, se matando como louco, como fizeram nossos pais, nossos avós. Não queremos competir com ninguém, nem ter os melhores postos, nem vencer brilhantemente na vida. Queremos lazer. Um pouco de trabalho e o resto de divertimento.” – de uma conversa entre jovens ouvida pelo autor.
  • “Política? Quem quer saber de política? Olha o que os políticos fizeram, fazem e estão fazendo a este país! Sou pelos verdes, mas sem política. Sou pela ecologia, sem política. Sou pacifista, sem política. Sou contra os mísseis nucleares, mas não preciso misturar política nisto.” – de uma outra conversa entre jovens ouvida pelo autor.
  • “O alemão confia no Estado para a solução de seus problemas. Se está desempregado, espera o socorro da assistência social, o seguro-desemprego. Se está doente, se tem um problema qualquer, se briga na rua, se alguém fecha o seu carro (ele não dá bronca, comunica à polícia e você recebe a visita dos agentes da lei que cagam regras), se tropeça num buraco, se as coisas não funcionam administrativamente, se o preço é extorsivo. O Estado é o pai, criado para resolver a vida. Sistema profundamente capitalista que vive como socialista. Contradição? Ou encontraram o regime (mais ou menos) ideal?” – pela posição econômica e política da Alemanha e pela qualidade de vida dos seus habitantes, creio que sim, encontraram o equilíbrio entre estes dois extremos, assim como os países Nórdicos, a Austrália e o Canadá.
  • “Hoje é um partido político que se organiza. Provoca polêmica, abre discussões, é amado ou odiado. Para uns, salvação. Para outros, o perigo que vai lançar a Alemanha nos braços da Rússia ou na terceira guerra mundial. Partido em ebulição, heterogêneo. Abriga amigos da natureza, defensores do meio ambiente, pacifistas, antinucleares, rebeldes de 68, leninistas, marxistas, dissidentes de outros partidos, social-democratas, contestadores do sistema, alternativos”. – sobre Die Grünen (os verdes), o partido verde alemão, um dos principais atores que levaram à queda do muro (título do livro explicado!).
  •  “‘Quem é diferente ou quer ser diferente, deve vir para Berlim. Aqui você é normal sendo diferente. As pessoas que não concordam com a visão de mundo que foi imposta a elas por educação e condicionamento se refugiam em Berlin’, escreveu Stefan Schaaf, de vinte e oito anos, jornalista do Die Tageszeitung.” – como em outras parte do livro, me identifiquei muito com as opniões do autor ou de seus interlocutores, neste caso em específico até escrevi sobre a diversidade e o respeito à ela que existe em Berlin neste artigo, bem antes de ler o livro.
  • “Berlim foi aquilo que sempre considerei o ideal para uma cidade. Nem megalópolis, nem província. Oferecendo vantagens e desvantagens das duas. Nesta cidade me reencontrei muitas vezes, divisei luzes e instantes que estiveram dentro de minha vida em determinados momentos. Cidade mágica, complexa, paradoxal, refúgio e verdade. Cidade que é aquilo que queremos que ela seja.” – outro trecho bem parecido com um que escrevi neste artigo.
  • “Recorro, mais uma vez, a Bernard Cailloux, escritor que nasceu na cidade de Erfurt, Turingia, parte oriental e mudou-se para o ocidente antes da divisão da Alemanha. Em 1978, ele radicou-se em Berlin e ‘precisou de dez anos para se adaptar, conhecer e começar a compreender a cidade’. Dez anos para um alemão. Portanto, não esperem de mim a definição de uma cidade indefinível.” – como já disse, Berlin não é para ser apenas visitada e conhecida (muito menos pela janela de um ônibus de excursão), é uma cidade para ser vivida, assim como São Paulo, Nova York e algumas poucas outras.
  • “Muita gente sentia pertencer a uma classe superior ao poder comprar produtos ocidentais. Havia justificativas as mais curiosas, às vezes: ‘O cheiro é diferente, é bom’. Depois da guerra, com a ocupação da Alemanha, a Guerra Fria e o isolamento a que a RDA se viu conduzida, parte da população acabou aderindo ao socialismo por crença, defendeu-o com idealismo. Muitos nasceram dentro do regime, não tiveram opção. Outros viveram inconformados. Sobre a antiga RDA perspassava sempre a utopia: viver do lado de lá ou, ao menos, conhecer, saber como era, poder comparar, ser livre para decidir. Um segmento sonhava em abandonar o país (no Brasil quantos não sonham com Miami, quantos não foram para o Japão?). Todavia, se as fronteiras fossem abertas, a Alemanha Oriental não se esvaziaria, como imaginavam os líderes. Boa parcela da população viveu tranqüila sob o socialismo e não é culpa dela a corrupção da cúpula, que desvirtuou uma idéia. O difícil, depois da queda do muro, disseram Zilly e Hoffman, foi, de um momento para o outro, passar a viver debaixo de normas e regulamentos que não eram os deles, eram opostos, cruéis, pode-se dizer… Após a queda do muro, os problemas se tornaram tão grandes que os antigos problemas se minimizaram. De repente, não existia mais o socialismo, mas também não existia a crença na social-democracia e não se acreditava nos conservadores. Ficou o vazio.” – tenho a mesma opnião sobre Cuba.
  • “Na antiga RDA (ou DDR) o nível de vida era baixo, mas todo mundo tinha emprego, salário, direito a creche, saúde e escola, e assim se sentia ‘parte da grande família’. Agora, o que governava era a concorrência global do mercado e a maior parte do parque industrial da antiga DDR teve que fechar. Tendo vivido décadas isolado, este parque estava desatualizado, desestruturado, arcaico e praticamente sucateado, segundo os conceitos do oeste, incapaz de produzir no ritmo exigido pelo mundo capitalista. Chegou, do dia para a noite, uma onda de desemprego que transformou grandes partes da DDR em desertos industriais, com a população sem emprego, sem o dinheiro necessário para desfrutar do paraíso de consumo e – mais importante – sem o sentido de vida e o prazer da auto-afirmação que o trabalho confere a um cidadão.”. – relato escrito de Sebastian Scherer, alemão casado com uma brasileira e residente de João Pessoa, enviado ao autor e reproduzido no livro.
  • “Quero voltar a essa cidade quantas vezes puder. Sinto que pertenço a ela. Sou paradoxal e incongruente, neurótico e tenso, calmo muitas vezes. Como ela. Continuo sem entender por que entrar aqui me dá paz.” – eu te entendo Ignácio, entendo pois sinto o mesmo.
  • “Para mim, que não encontro um lugar no mundo, inquieto onde esteja, sem descobrir um sentido para a vida, ela continua uma cidade de momentos, de fragmentos que me parecem congelados no tempo e me acompanham.” – sei bem como se sente Ignácio, sei mesmo.

Talvez o autor tenha um saudosismo do período em que ele morou lá, época em que a cidade era dividida, que talvez faça ele “rechaçar” um pouco das neue Berlin. Eu infelizmente não pude conhecer Berlin dividida (a divisão não era legal, mas teve algumas consequencias interessantes, especialmente na formação do povo), mas como dá para perceber lendo o relato dele de 30 anos atrás e comparando com os meus relatos e experiências na “nova” Berlin, a cidade ainda mantem sua aura e sua alma.

Be happy! 🙂