A única obra do Ignácio de Loyola Brandão que eu conhecia até pouco tempo era “O Verde Violentou o Muro”. Achei o texto dele muito bom, mas este livro é uma coleção de pequenos textos que ele escreveu sobre os períodos em que morou ou visitou Berlin (a cidade mais legal do mundo!). Não sei por que cargas d’água (ou ao menos não me lembro porque) “Não Verás País Nenhum” entrou na minha lista de livros em Português a ser adquirida quando fosse ao Brasil. E ainda bem que entrou.
Um breve resumo desta distopia tupiniquim (que não deve em nada para 1984): após um golpe de Estado, conhecido como “A Grande Locupletação”, um regime autoritário se instala no Brasil (o regime é conhecido como “Esquema”). Toda a produção (cientistas) e disseminação (professores, jornalistas) de conhecimento foi sendo abolida aos poucos pelo regime.
Aos poucos, o país foi sendo desmantelado e as partes vendidas a outros países ou corporações internacionais. O que sobrou se concentra na região sudeste (a história se passa na Grande São Paulo). Neste resto de Brasil, os recursos naturais estão praticamente esgotados e o pouco que resta ou é direcionada para uma elite formada pelos Militecnos (militares que compõem toda a espinha dorsal do Estado, porém “não tem cérebro, tampouco coração”) e pelos “Os que se Locupletam” (não ficou claro quem seriam, mas o livro dá a entender que seriam uma pequena elite não militar formada pelos poucos milionários e políticos que restaram).
A maior parte da população sobrevive através de alimentação sintética (alimentos “factícios”) e vive nas grandes cidades, em apartamentos minúsculos, convivendo com lixo acumulado e tendo todo o seu deslocamento estritamente controlado.
Nestas grandes cidades, a “segurança e ordem pública” é garantida pelos Civiltares, que basicamente são civis armados (a população passa metade do tempo rastejando, tentando evitar os tiros e as “bombas de efeito desmoralizante” dos milicianos Civiltares) que “combatem o crime” (ou o que eles determinam como crimes). E aí, por exemplo, quando eles devolvem uma carteira furtada, já fazem o acerto de sua “taxa” ali na hora (“para evitar burocracia”) e dão um sumiço no meliante.
Todo o fluxo de informação é controlado pelo Estado (através dos Militecnos) e evita-se “notícias ruins” (e aí de quem “torcer contra”). Todos devem “regozijar-se com o ouro dos garimpos, com a madeira que se pode exportar, com as safras imensas das terras férteis [que também são exportadas]”.
Notaram alguma semelhança com o Brasil de 2019 até 2022? Querem mais? O sobrinho do personagem principal, Souza, é um Militecno que tem um problema intestinal (provavelmente causado pelos alimentos sintéticos – como vários outros adultos da mesma geração) e anda com uma “bolsa de cocô” (bolsa de colostomia).
Sim, o livro publicado pela primeira vez em 1981 parece ser o guia, a bussola, a bíblia do Bolsonarismo. Também tem algumas passagens que lembram The Handmaid’s Tale (que foi lançado em 1985). Tem até citações similares ao “Arbeit macht frei” do nazismo sendo empregada pelo Esquema (o Roberto Alvim curtiu isto!).
E apenas citei algumas das “coincidências”. Se bem que a impressão que tenho é que na verdade todo o livro serviu mesmo como um manual de instruções para o horror que se instalou no Brasil nos últimos anos.
Demorou pra Netflix transformar o livro em uma série!
Be happy 🙂
