Arquivo mensal: junho 2019

Adão & Erva – Yumbad Baguun Parral (8/2019)

Este é o quarto livro do Parral que eu leio e, apesar deste ser melhor que o último que eu li (Biomarketing), ainda não é melhor que os dois primeiros (Sua Excrecência… e Santa Puta). Mas desta vez eu nem posso tecer muitas críticas, já que o livro é escrito como um cordel e eu simplesmente não consigo ler textos em versos. Falha minha!

De qualquer forma, a proposta é interessante: reescrever o mito bíblico da criação do mundo, do pecado original, e outras estórias do cristianismo, introduzindo vários elementos de outras mitologias. Neste livro, é Adão quem comete o pecado de, sob a influência de Prometheus, queimar e inalar a erva proibida. De uma certa forma, assim como no mito original, Eva é a personagem criada por um Deus(pota) para receber toda a culpa por esta “escorregada” de Adão e por tudo de ruim que acontece à humanidade à parti dai.

A premissa inicial é bem interessante, assim como o desenvolvimento, misturando diversas passagens da bíblia com alguns fatos históricos e tecendo uma crítica a uma sociedade misógina e ignorante (e na maioria das vezes arrogante também). Mas vou para por aqui devido à este meu problema com versos (eu fico “cantando” as rimas na cabeça e não consigo captar a mensagem).

Be happy 🙂

Wanderlust #57 – Munique – Alemanha

(31/08/2018-01/09/2018)

Quando estávamos planejando esta Eurotrip, já sabiamos que teriamos que fazer alguma conexão na volta da Croácia. Dentre as diversas opções, como Londres ou Lisboa, estava Munique. Como geralmente não existe um custo adicional além da taxa de embarque, resolvemos ficar dois dias na cidade, já que na primeira vez que visitei, além de ser bem durante o primeiro final de semana da Oktoberfest, choveu praticamente todo o tempo. E adivinhe o que aconteceu? Sim, choveu novamente! Acho que Munique não vai com a minha cara.

Dia 1 – Sexta

Estava chovendo cântaros! Então depois de deixarmos as malas no hotel, fomos dar um passeio pela região central. Primeiro paramos na Galeria Kaufhof em Marienplatz, uma loja de departamentos meio feita pra turista, geralmente nos centros das grandes cidades alemãs (tem uma bem na Alexanderplatz em Berlin), só pra dar uma olhada e esperar a chuva passar. Como não passou, desencanamos da chuva e fomos andar mesmo assim.    

Paramos então no Viktualienmarkt uma antiga farmer’s market que hoje em dia é um misto de mercadão e praça de alimentação ao ar livre. Infelizmente a chuva apertou novamente e só conseguimos tomar uma cerveja. Se tivesse um tempo melhor provavelmente pegariamos alguns beliscos nas barracas e teriamos ficado um bom tempo por ali.

Já tinha passado da hora do almoço e como estávamos passando pela Paulaner im Tal, por que não parar por ali para petiscarmos algo e tomarmos algumas? Depois da Paulaner, ficamos andando pela cidade, meio a esmo, até o início da noite, quando então fomos turistar na famosa Hofbräuhaus. Como era sexta-feira e faltavam algumas semanas para o início da Oktoberfest, o bar já estava cheio de locais fazendo happy hour com os trajes típicos da Baviera. Além das cervejas, obviamente pedimos um prato com porco para o jantar e para finalizar a sempre ótima Apfelstrudel.

Dia 2 – Sábado

Sábado de manhãzinha, após o café da manhã, fomos andando até o Theresienwiese, que é o enorme parque onde ocorre a Oktoberfest original (que tem a ver com a história do parque). Como faltavam apenas algumas semanas para o início da festa, uma boa parte do parque estava fechada e as obras estavam à todo vapor. Mas deu pra notar que a área da festa aumentou bastante de tamanho desde 2012, quando participei dela.

Como iria chover novamente (a previsão do tempo na Alemanha é muito precisa) fomos até a Primark, uma loja de vestuários bem famosa na Europa (agora tem algumas nos EUA também) que tem preços muito bons. É ótima pra comprar coisas básicas, tipo camisetas, meias, cintos, etc. Aconselho a sempre pesquisar se existe uma na cidade em que as pessoas forem visitar.

Voltamos para a região central para aproveitar que a chuva iria parar por umas duas horas para andar por ali. Andando um pouco para fora da região mais turística, acabamos passando pela Promenadepltz, que tem um estranho memorial ao Michael Jackson. O negócio é bem estranho e kitsch e não é nada que deva entrar numa programação (nem para os fãs mais ardorosos do Rei do Pop), mas foi interessante topar com esta atração.

De lá, como já haviamos planejado, fomos tomar umas na Augustiner-Keller, uma das “big six”, como são conhecidas as seis grandes cervejarias da cidade que participam da Oktober (as outras são a Löwenbräu, Spaten, Hofbräu, Hacker-Pschorr e a Paulaner). No caminho passamos pelo belo Alter Botanischer Garten e pela Hopfenstraße (Rua do Lúpulo), que não poderia estar em outra cidade ou país! A Augustiner tem um biergarten gigante, mas estava chovendo novamente (na verdade haviamos programado estas paradas justamente para fugirmos da chuva). Mas pelo menos uma pequena parte do jardim estava coberto e pudemos ficar do lado de fora. O atendimento no local também é muito bom, além da ótima cerveja, claro.

De lá fomos até a Löwenbräukeller e o atendimento foi totalmente o contrario da Augustiner. Mal chegamos e perguntaram se a gente ia comer, meio que de uma forma rispida. Porra! Nem sabiamos o que tinha lá pra comer, como vou saber se vou comer ou não? Falamos que não e então nos acomodaram em uma região do bar onde estavam os piores garçons: mal educados, não tinham paciência com turistas (e olha que eu engano no alemão). Tinha um casal de orientais na mesa do lado tentando se comunicar e uma das garçonetes simplesmente deixou eles falando sozinhos e foi embora. Tomamos apenas uma cerveja, só para “carimbar o passaporte” e fomos embora.

Saíndo de lá, passamos na Königsplatz, que é bem parecido com o portão de Brandemburgo, pela Karolinenplatz e Odeonsplatz. Em todas estas praças existem vários prédios históricos de várias épocas. Quando voltamos à região central (Marienplatz) já estava escuro, então fomos comer algo (e claro, tomar mais uma cerveja) e depois voltamos pro hotel para descansar.

Se tivessemos mais um dia teriamos conseguido visitar as outras duas cervejarias que faltavam. Quem sabe na próxima. Mas desta vez sem chuva, por favor!

Observações, dicas e considerações:

  • Quando fui pra Oktoberfest em 2012 eu cheguei na cidade bem na sexta-feira, na hora da saída do expediente e notei que o metrô estava cheio de pessoas com as vestimentas tradicionais (Lederhosen e Dirndl) que estavam simplesmente voltando do trabalho. Depois eu descobri que durante as festividades (e mesmo antes delas) o pessoal costuma ir trabalhar à carater às sextas-feiras. Imagina se fizessem isto no Carnaval no Brasil como seria legal!
  • Tenha sempre algumas moedas no bolso quando estiver em um bar para dar de Trinkgeld (gorjeta) para os tiozinhos/tiazinhas que tomam conta dos banheiros nos bares (a dica vale pros EUA também!).
  • Na Löwenbräu tive o pior atendimento da minha vida até agora.
  • Entre 18:30 e 20:30 é sempre o pior período para jantar na cidade. Todos os lugares lotam durante este horario.
  • Se ver algum grupo de homens ou mulheres usando alguns adereços engraçados (tiaras, camisetas, óculos ou mesmo fantasias completas) e portando uma cesta com garrafas de bebida em miniatura trata-se de uma despedida de solteiro. Normalmente eles pedem uma “caixinha” (coisa de 1 ou 2 euros) para as pessoas e em troca o doador escolhe algum dos “schnaps” da cesta. A grana arrecadada provávelmente será usada para uma cervejada.

Be happy 🙂

How Democracies Die – Steven Levitsky e Daniel Ziblatt (7/2019)

Steven Levitsky e Daniel Ziblatt são dois cientistas políticos, ambos professores de Harvard (de verdade!) e estudiosos do desenvolvimento de sistemas políticos na América Latina e Europa (respectivamente). Em How Democracies Die eles compilam seus estudos e observações para mostrar como sistemas autoritários podem se instalar à partir de democracias. Isto vem ocorrendo principalmente à partir do início do século XX e inclusive tem se tornado a forma mais comum, em contraposição ao que ocorria até então, onde estes sistemas se instalavam à partir de golpes ou de conflitos.

Usando exemplos dos mais diversos espectros políticos, como Hitler, Mussolini, Getúlio Vargas, Ferdinando Marcos, Pinochet, Perón, Fujimori, e mais recentemente Putin, Erdogan, Viktor Orban, Hugo Chaves, Rafael Correa e Evo Morales, eles mapeiam o modus operandi comum a todos estes déspotas (que eles chamam de demagogos). Normalmente estes chegam ao poder por vias democráticas, na maioria das vezes com a ajuda de pessoas, grupos e partidos comprometidos com a democracia, mas que vislumbram a tomada de poder a qualquer custo achando que, depois de chegar ao poder, estes déspotas serão facilmente controlados ou descartados. Porém, depois de instalados, estes déspotas começam a distorcer as leis e regras da democracia para perseguir adversários (incluindo muitos que eram até há pouco tempo aliados), a aparelharem a máquina estatal (legislativo, judiciário, estatais, etc.) e a colocar a imprensa e os adversários em descrédito ou sob ameaça, afim de se perpetuarem no poder.

Logo de início, eles trazem à pauta uma ferramenta desenvolvida por ambos a partir do trabalho do sociólogo e cientista político Juan Linz. A ferramenta consiste em uma tabela com quatro critérios principais (e 13 subquestões) para testar se um político é um potencial déspota. (1) Rejeição ou pouca aceitação de regras democráticas; (2) negação da legitimidade de oponentes políticos; (3) encorajamento ou tolerância à violência e; (4) uma prontidão para limitar as liberdades civis de oponentes, incluindo a mídia, são os quatro critérios. Os autores frisam que a associação de apenas um dos critérios a um político já deveria ser suficiente para descartá-lo como um potencial candidato/governante.

Depois de prover os exemplos e o modus operandi, bem como a tabela, eles entram especificamente no caso dos EUA, dando um apanhado geral em como o sistema democrático norteamericano se desenvolveu e evoluiu, muitas vezes sendo não tão democrático, até atingir uma estabilidade que, aparentemente, seria constante à partir de então. Neste capítulo eles trazem à tona o importante papel dos partidos e das lideranças políticas como gatekeepers (não achei uma tradução boa para o termo, mas seria algo como aqueles que impedem ou filtram a passagem), evitando assim que estes déspotas (que na sua absoluta maioria são também populistas) cheguem a disputar as eleições e contar com a infraestrutura partidária.

Porém, à partir do meio dos anos sessenta, por conta do movimento dos direitos civis, até o meio dos anos setenta, com a questão do aborto definida pela decisao do caso Roe vs Wade, esta estabilidade começou a ser ameaçada. Os republicanos (conservadores) começaram a concentrar eleitores brancos (especialmente nos estado do centro-sul e em cidades pequenas) e religiosos (contrários à legalização do aborto), “empurrando” os demais eleitores para os democratas (liberais). Importante frisar que, até então, ironicamente, os democratas destes estados eram os que se opunham à concessão de direitos iguais aos negros. À partir de então os republicanos têm ficado acuados, ainda mais devido às mudanças na demografia americana, que vem reduzindo ano a ano a proporção do perfil de eleitores republicanos (branco cristão). Sentindo a possibilidade da perda de poder, num movimento iniciado à partir do meio dos anos 80, o partido tem “apelado” à estes déspotas.

O ápice desta instabilidade democrática ocorreu em 2016, com a nomeação do então empresário e apresentador Donald Trump como o candidato republicano. Trump basicamente atende todos os critérios do teste e na verdade os usa como tática política. Para agravar o problema, nos EUA existem poucas leis e muitos acordos tácitos, ou light guard-rails, como eles chamam, que vêm sendo colocados à prova desde então.

Os autores também frisam que, apesar da tentação que a oposição tem de retribuir com a mesma moeda e usar as mesmas táticas (qualquer semelhança com o Brasil dos últimos 20 anos não é mera coincidência), os demais partidos, grupos e políticos precisam evitar o uso do mesmo ardil, pois senão a escalada rumo a um sistema iliberal (para citar o Identity do Fukuyama) é inevitável.

Be happy 🙂