Arquivo mensal: janeiro 2019

Identity: The Demand for Dignity and the Politics of Resentment – Francis Fukuyama (1/2019)

Francis Fukuyama é professor, escritor e cientista político e econômico. Muito famoso por sua defesa do liberalismo como forma de organização social, foi ele quem logo após a queda do muro de Berlin e da URSS decretou “a vitória do liberalismo”. Porém neste livro ele faz uma análise da ascenção recente de governos não-liberais, à direita (Turquia, Hungria e EUA, entre outros) e à esquerda (Venezuela, Russia), que colocam em risco as sociedades liberais. Ele tenta entender, da perspectiva do indivíduo, o que tem causado uma adesão em massa à estes movimentos iliberais que tanto ameaçam as democracias, inclusive as bem estabelecidas, como EUA e Reino Unido.

Mas antes de continuar, primeiro é preciso definir o que é o liberalismo clássico como filosofia de vida, e não somente a sua aplicação em economia. A filosofia liberal é apenas a filosofia do “viva e deixe viver”. Para que ela exista, todo indivíduo deve ser responsável pelas decisões que influenciam sua vida. Para isto ocorrer, todos devem ser tratados com igualdade, dignidade e respeito. A liberdade é o bem maior e deve ser defendida a todo custo. Um outro ponto importante a se frisar é que, de acordo com os “pais” do liberalismo, um indivíduo sozinho nao é capaz de garantir estes direitos, precisando se associar a outros indivíduos (no que pode se dado o nome de sociedade, cuja forma organizada normalmente resulta num Estado) afim de de fazê-lo.

Quando Fukuyama fala das democracias liberais isto engloba desde as sociais-democracias da Europa até a liberal-democracia norteamericana. O que define uma liberal-democracia, no conceito mais amplo do autor, é a premissa de que todos os seres humanos são iguais, todos devem ter as mesmas oportunidades e todos devem ter o máximo de liberdade possível. E para que isto ocorra no convívio em sociedade, a democracia é, até hoje, a melhor forma encontrada de organização social. Qualquer restrição às liberdades e qualquer ameaça à democracia acabará caindo ou no fascismo (autoritarismo à direita, que segundo Fukuyama, havia sido derrotado na segunda guerra) ou no socialismo (autoritarismo à esquerda, que havia sido derrotado quando da queda da URSS).

Porém, segundo o autor, tanto as sociais-democracias quanto as liberais-democracias têm falhado em suprir a necessidade que as pessoas têm de se sentirem parte de algo maior e de serem respeitados como invíduos. Os primeiros têm cada vez se concentrado em defender minorias “cada vez menores”, inclusive criando uma certa competição entre estas minorias é esquecendo que a sociedade e formada nao só por minorias, mas também por uma “maioria” que pode sentir colocada em segundo plano. Enquanto isto, os segundos se focaram na eficiência dos mercados achando que o bem estar financeiro seria suficiente e esquecendo que dinheiro só satizfaz os dois degraus mais baixos da famosa Pirâmide de Maslow.

O resultado está ai para todo mundo ver: bastante gente que, apesar da situação financeira confortável, se sente preterido em função de determinados grupos e que se acha no direito de ter uma posição privilegiada. Estas pessoas, que são maioria nas sociedades, são um alvo fácil para discursos nacionalistas ou religiosos que promovem justamente a segregação, afinal de contas, “nosso grupo” é melhor do que todos os demais, seja porque somos homens e/ou héteros e/ou brancos e/ou cristãos e/ou não-estrangeiros… E ai acabam partido para a tal democracia “iliberal” (numa tradução livre minha, uma “ditadura da maioria”), querendo impor seus valores para toda a sociedade (“as minorias que se curvem…ou simplesmente desapareçam”), colocando assim em risco os principais conceitos da filosofia liberal (de igualdade e liberdade) que deveriam reger as sociedades democráticas.

É um bom livro para tentar entender toda esta onda nacionalista que vem ocorrendo há pelo menos uns cinco anos e que, infelizmente, parece estar mais próxima de se espalhar do que de se retrair.

Be happy 🙂

Wanderlust #52 – Rehoboth e Wilmington, Delaware (11/51), Estados Unidos

(22/06/2018-24/06/2018)
Christina River, Wilmington

Nesta “missão” que nos demos (de conhecer o máximo de estados americanos possíveis) às vezes fica complicado de encontrar atrações em estados menos voltados para o turismo. Já havia acontecido com Connecticut e aconteceu novamente com Delaware, um pequeno estado na costa leste dos EUA, cuja maior cidade tem “incríveis” 70 mil habitantes (o estado todo tem cerca de 900 mil). Após dar uma pesquisada, decidimos passar uma noite na cidade costeira de Rehoboth, que recebe muitos turistas durante o verão, e outra em Wilmington, a capital de menos de 100 mil habitantes.

Saimos cedo para Rehoboth e depois de umas 4 horas dirigindo chegamos na cidade, onde estacionamos (ainda era cedo para o check-in) e fomos dar uma volta pelo boardwalk. O clima é como de qualquer cidade praiana que vive de temporada: restaurantes, sorveterias, lojas de tralhas de praia (brinquedos de areia, boias, guarda-sois, etc.), um monte de crianças e jovens em férias escolares e bastante idosos. Estava garoando um pouco, mas deu pra perceber que a praia e o clima lembram um pouco o litoral norte de São Paulo.

Depois do check-in, fomos conhecer Dewey beach, uma praia próxima que fica num istmo bem estreito (cerca de 200 metros) que separa o oceano Atlântico da Rehoboth bay. Demos uma parada no Rusty Rudder, de frente pra baia, para tomarmos umas cervejas. Uma pena que o tempo não estava ajudando, pois normalmente rola música ao vivo na grande área externa do bar.

Voltamos para o hotel para deixarmos o carro e fomos conhecer a cervejaria menos famosa da cidade, a Revelation Beer, que é bem aconchegante e tem ótimas cervejas. Estava rolando um som com dois caras tocando violão, bem num esquema “praiano” (um deles até de chinelo). Voltamos para a área mais movimentada e fomos conhecer o brewpub da Dogfish Head, uma das cervejarias mais famosas dos EUA, cuja sede fica em Milton (a uns 25 kilômetros de Rehoboth). O bar, que é bem grande e conta com 3 ambientes, estava bem cheio. Por sorte teve um show de uma banda bem boa e relativamente famosa no circuito alternativo dos EUA, chamada White Denim para animar a noite.

No segundo dia, tomamos café da manhã na cidade e fomos em direção a Wilmington. Paramos o carro na região central, mas estava chovendo bastante (mesmo!) e tivemos que ficar alguns minutos dentro do carro esperando a chuva parar. Quando conseguimos sair, ao passarmos pela Rodney Square, notamos que a praça estava cercada, havia um palco e algumas barracas, pois estava ocorrendo o Clifford Brown Jazz Festival naquele final de semana. Como iria começar mais tarde formos dar uma volta. Passamos no Riverfront Market, um pequeno “mercado central” com algumas lojas e restaurantes. Depois nos dirigimos ate a Stitch House Brewery pois iria chover novamente e lá conseguimos aproveitar para assistir ao jogo da Alemanha contra a Suécia pela Copa.

Voltamos então para a Rodney Square e acompanhamos um pouco do show. Depois fomos fazer o check-in no hotel, que ficava numa área um pouco periférica, mas ainda às margens do Christina River, que corta toda a cidade. Existe uma pista de caminhada que margeia o rio, passando por vários restaurantes, bares e pelo Constitution Yards, um beer garden onde existem algumas atrações, inclusive para crianças. Na volta, paramos no Timothy’s Riverfront Grill para jantarmos e tomarmos a saideira.

Como já disse, não é um estado que tenha muitas atrações turísticas, mas pretendemos voltar para pegar praia em Rehoboth no próximo verão.

Observações, dicas e considerações:

  • Pelo menos em Delaware, ao contrário de New Jersey, a praia é de livre acesso e de graça (sim, em New Jersey paga-se pra entrar na praia).
  • O estado de Delaware é tax free, ou seja, não existe o IVA (Imposto sobre Valor Agregado / VAT = Value-added tax) cobrado na maioria dos outros estados. É uma boa opção pra fazer compras para quem vai à Philadelphia (6% de IVA/VAT) ou está passando por lá no caminho entre New York (4%) e Washington (6% também).
  • Wilmington é praticamente colado na Philadelphia. Se alguém quiser se arriscar quando estiver visitando Philly dá pra fazer um bate e volta de boas. Se marcar dá até pra pegar um Uber.
  • Um negócio bem legal em Wilmington é que substituiram os parquímetros por um sistema eletrônico: voce baixa o aplicativo, cadastra sua placa, seu cartão de crédito e paga por ali. Dá pra deixar o carro sem preocupação com tempo, pois você pode colocar, por exemplo, duas horas de crédito, e ai quando faltarem 15 minutos para expirar o aplicativo te pergunta se você quer renovar e por quanto tempo.

Be happy 🙂

Born a Crime – Trevor Noah (13/2018)

Trevor Noah é um comediante e apresentador sul africano que “viralizou” há alguns anos atrás no Brasil por conta de um vídeo de standup sobre a colonização inglesa. Mas antes disto ele já fazia bastante sucesso no seu país natal e no Reino Unido e, já há alguns anos também nos EUA, onde apresenta um dos vários late night shows existentes na TV norte-americana.

Durante o Apartheid, regime segregacionista que existiu na África do sul durante boa parte do século 20, relações sexuais entre pessoas brancas e não brancas era um crime passível de punição de até 5 anos de cadeia. Por ser filho de mãe negra e pai branco nascido durante o Apartheid, Trevor é resultado de um ato ilegal, e isto explica o título do livro.

No livro, que é um misto de autobiografia e biografia da própria mãe de Trevor, ele dá um panorama do que foi o Apartheid visto de dentro. Melhor ainda, visto de dentro por alguém que era um pária dentro desta sociedade, ja que, apesar dos “colored people” (como eram chamados os “pardos”) terem alguns poucos privilégios em relação aos negros, eles normalmente eram isolados socialmente dos dois grupos (“too black to be white and too white to be black”). Além do retrato de uma sociedade onde o racismo era legal e foi implementado com planejamento, também mostra uma sociedade extremamente machista e cheia de crendices e mitos associados às religiões (tribais e ao cristianismo).

Apesar de não ter um intuito de “autoajuda” ou algo do tipo, ele acaba trazendo algumas “mensagens motivacionais” e alguns exemplos de como Trevor e sua mãe se adaptaram às situações a que eles foram submetidos afim de quebrar o ciclo de pobreza na qual todo não-branco era vítima na África do Sul. Um dos fatos que os ajudaram a quebrar este ciclo foi ambos serem fluentes em várias das línguas faladas no pais (Inglês, Afrikaner, Xhosa, Zulu, entre outras). A pegada de humor do livro também é muito boa (não poderia ser diferente).

Infelizmente o livro ainda não foi traduzido para o Português, mas existe a possibilidade do e-book. Tambem existe o audiobook, narrado pelo próprio Trevor, que segundo alguns reviews que eu li é melhor ainda que do livro, pois trata-se de um apresentador/comediante contando a própria história, ou seja, deve ter um ritmo bom e as partes cômicas devem ficar ainda mais interessantes.

Be happy 🙂