Arquivo mensal: maio 2018

Totalitarismo X Democracia – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 20 de Março de 2014. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


 

Em Setembro de 2012 fui à Berlin para fazer um curso de imersão no idioma Alemão (estudo Alemão desde 2010). Numa das aulas, para tratar de comparativos e superlativos, o professor usou o tema “coisas importantes”. Quando questionados qual era a coisa mais importante na vida, praticamente todos os alunos (numa sala de 12) e mais o professor foram rápidos em afirmar que era saúde (por curiosidade: Gesundheit, em Alemão).

A exceção foram um Checo, uma Polonesa e uma Russa, todos eles acima dos 40 anos. Para eles, que vivenciaram regimes totalitaristas, a liberdade é mais importante do que saúde, comida, água, ou qualquer outro item, tangível ou não tangível.

Eu sou fã do capitalismo como modelo econômico (e é isto que ele é, e não uma ideologia, como gostam de pregar) por entender que ele é o sistema que mais têm se adaptado à natureza humana e não o contrário, tentando moldar o indivíduo para que ele se encaixe no sistema.

Apesar disto, não tenho nada contra países que utilizam outros modelos, desde que isto seja de vontade da sua população. Um exemplo: nunca critiquei a Venezuela por seu modelo econômico quase de Estado, porque, apesar dos pesares (mudanças de regras no decorrer do jogo, uso massivo da máquina administrativa para fins eleitorais, etc.), a maioria do povo Venezuelano tem aprovado e referendado este modelo. E quem discorda do modelo, tem toda a liberdade (ou tinha até pouco tempo), para tentar convencer a maioria que o modelo é errado ou, em última instância, simplesmente procurar um outro país que lhe agrade e lá ir viver.

Por outro lado, minhas críticas à Cuba não são relacionadas ao seu modelo econômico (ainda) de Estado, mas ao fato de que o modelo vem sendo sustentado à força e sem a expressa concordância do povo cubano. E o pior, quem discorda não pode nem se manifestar contrariamente ou mesmo deixar o país.

Porém uma coisa tem chamado minha atenção (e me deixado perplexo) nestes últimos dias nas redes sociais e portais de notícia: o apoio, quando não a demanda, de muita gente, à estes sistemas.

Como disse, ao contrário do que boa parte dos “anti-esquerdistas” pregam, na Venezuela, até o momento, existe sim democracia. Está claro que o Chavismo está em declínio, pois ele era baseado principalmente no carisma de seu mentor e falecido líder. Isto já ficou claro quando da eleição do Maduro, que foi bem mais apertada do que as do Chávez. Como o modelo econômico implementado no país não se sustentaria no longo prazo, quando este começasse a ruir, seria clara a insatisfação da população, que viria a clamar por mudanças.

Mas o que mais me impressiona é que figuras que sempre foram críticas da repressão ocorrida no nosso país durante a ditadura militar, estarem apoiando as ações de repressão promovidas por Maduro. O Maduro foi eleito democraticamente através do voto e tem todo o direito (quando não o dever) de ocupar a posição que ocupa, porém, os que se sentirem descontentes têm todo o direito de se manifestarem contrários e eventualmente pedir a renúncia do mesmo. Apesar de eu achar que a melhor solução é sempre nas urnas, as vezes o processo deve ser antecipado para evitar danos maiores.

Da mesma forma, chega a ser deprimente a campanha que alguns vêm fazendo nas redes sociais, inclusive agendando uma “Marcha da Família”, para que haja uma intervenção militar no Brasil. Eu discordo da forma com que os governos dos últimos anos têm conduzido o país, mas entendo que, dentro de uma democracia de fato e de direito como a nossa, esta forma está sendo apoiada pela maioria da população e isto deve ser respeitado. Para quem discordar, sobra a opção de tentar convencer os demais e, como disse, em último caso, escolher um outro lugar que lhe apraza para viver.

Nenhum governo totalitário (seja uma ditadura militar, uma teocracia, um governo comunista), por melhor que sejam seus benefícios, será melhor que a pior democracia, simplesmente porque priva o indivíduo de uma das necessidades mais básicas do ser humano, que é a liberdade (de expressão, de ir e vir, de fazer o que quiser da sua vida).

Be happy! 🙂

Sobre os “rolezinhos”: muito barulho por nada! – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 30 de Janeiro de 2014. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Eu estava um tanto quanto relutante para escrever sobre a polêmica da vez, o tal “rolezinho”, pois acho que estão gastando muito esforço com uma coisa desimportante. Mas vou fazê-lo mesmo assim, desta vez tentando observar os diversos pontos de vista.

Dos funkeiros “rolezeiros”

Primeiramente, para explicar o “fenômeno”, uma explanação sobre a geografia de São Paulo: a região central e a maioria dos bairros de classe alta e média alta de São Paulo são separados do resto da cidade (basicamente a periferia) pelos dois principais rios que cortam São Paulo (o Rio Tietê e o Pinheiros). Isto cria uma barreira geográfica entre as classes menos privilegiadas e a “elite”, tal barreira foi até cantada em uma música dos Racionais MC’s.

Como morador “do lado de cá da ponte”, do alto dos meus 13, 14 anos, eventualmente, quando havia condições financeiras, juntávamos um pessoal (da escola, do bairro, etc.) e “atravessávamos a ponte” para procurar diversão. Inicialmente esta diversão era concentrada em Shoppings (no caso o West Plaza e o Matarazzo, que ficavam mais próximos) ou o SESC Pompéia, todos eles no bairro Pompéia, Zona Oeste de São Paulo. Mais tarde, migramos para “rolês” na Galeria do Rock (durante o dia) e o bairro boêmio do Bixiga (reduto de vários bares de rock), ambos na região central de São Paulo. Outras “tribos” também buscavam diversão nesta “ilha” que existe na região central de São Paulo: Broadway (pessoal que curtia música eletrônica), Clube da Cidade (black music, samba), Clube do Palmeiras (black music, rap), Caipirão (sertanejo), etc.

O que buscávamos era apenas diversão: comer no McDonald’s, mexer com algumas garotas, mesmo aprontar alguma estripulia nestes lugares (subir uma escada rolante que estava descendo) e, vez ou outra, até uma briga acontecia. Coisas de adolescente. O que este pessoal do rolezinho procura é basicamente a mesma coisa que minha turma procurava: se divertir, beijar, comer e aprontar. O único problema é que, com o advento das redes sociais, estes eventos (que na minha época juntavam 8, 10, 12 pessoas e nunca chegou a passar de 15), tomou proporções bem maiores, chegando a juntar milhares de pessoas.

É claro que, em todo evento que reúne bastante gente, seja ele um jogo de futebol, um show, uma manifestação, uma praia, existirão pessoas de má índole ou má intencionadas, mais ou menos na mesma proporção em que elas existem na sociedade como um todo (aliás, o único lugar em que a existência de pessoas de má índole ou má intencionadas é superior é na política). Porém, como geralmente acontece com o Estado brasileiro, ao invés de identificar e punir os desvios de conduta, o Estado tenta fazer o “mais fácil” e cria proibições. Um bom exemplo: ao invés de identificar e punir eventuais brigões em jogos de futebol, resolveram proibir a entrada de bandeiras, instrumentos musicais ou qualquer coisa que pudesse ser usada como arma (frutas, por exemplo), o que não diminuiu em nada a violência relacionada ao futebol. Outro exemplo bem paulistano: para coibir os excessos no uso da propaganda visual em vias públicas, ao invés de fiscalizar e punir quem não obedecesse as regras, simplesmente resolveram proibir todo e qualquer outdoor em São Paulo. Agora no lugar dos outdoors ou temos muros e paredes cinzas e mal conservadas ou pixações. Chegou-se ao ponto de um vereador querer proibir o uso de motos para levar caronas, pois a maioria dos crimes praticados com motocicletas era praticado por duas pessoas. (Não seria mais fácil prender os bandidos?)

À despeito do tipo de som que estes adolescentes ouvem, ninguém pode julgar ninguém. Eu não gosto de funk, mas tem muita gente que também não gosta dos sons que costumo ouvir. É uma questão de gosto e ponto.

Dos Shoppings

Com o incremento na renda média do brasileiro e a consequente ascensão em massa de pessoas das classes D e E para as classes C e B que ocorreu nos últimos 20 anos no Brasil, os empreendimentos comerciais e de lazer resolveram “atravessar a ponte” para o lado de cá do rio. O problema é que, ao invés de tentarem entender o comportamento do público de periferia, estes empreendimentos vêm tentando implementar a mesma solução que existe nos bairros de classes A e B.

Não adianta fazer um shopping com música clássica como som ambiente, pois as pessoas de periferia, na sua grande maioria, ouvem samba, rap, sertanejo e funk. Este público tem comportamento diferente do público dos shoppings tradicionais e estes ambientes deveriam ser pensados exclusivamente para eles. Os mesmos “pais de família” que as administradoras de shopping alegam estar protegendo, há 10 anos atrás eram os mesmos adolescentes que hoje se reúnem nos tais “rolezinhos”.

Aliás, acho muito interessante que nenhum destes experts em mercado tenha atentado para o poder de consumo destes adolescentes. Muitos deles trabalham ou ganham mesada dos seus pais, o que os permite comprar os tais tênis de mil reais, bonés e camisetas de duzentos reais e andarem cheios de jóias. Além do potencial atual de consumo, estes lojistas estão se esquecendo que daqui cinco, dez anos, estes mesmos adolescentes serão os pais de família que irão frequentar as praças de alimentação e consumir nestes mesmos estabelecimentos.

Dos movimentos sociais e políticos e dos “experts” em comportamento humano

Aqui é um caso de tentar “capitalizar” um movimento sócio-cultural (sim, é cultural, mas está muito longe de ser político) para fomentar uma luta (de classes, de ideologias) da qual nem mesmo os participantes do movimento querem fazer parte, se é que estão cientes (como disse, eles só querem, como todo adolescente, se divertir).

Aí vêm os partidos e movimentos que tentam angariar simpatizantes entre as classes menos favorecidas pregar a eterna “luta de classes”, dizer que estes jovens veem no shopping o único lugar de lazer possível, pois não existem opções na periferia (engraçado que estes jovens elegeram os tais “templos do consumo” como opção de lazer).

Do outro lado, vêm os partidos e movimentos que tentam angariar simpatizantes entre as “elites” tentando insinuar que estas pessoas estão “invadindo” o seu território (todos os movimentos espontâneos ocorreram em shoppings de periferia) e generalizando todos estes adolescentes como bandidos (Por morarem na periferia? Por ouvirem funk? Por se vestirem espalhafatosamente?)

Da Mídia

A mídia vive de audiência. É com base na audiência que ela angaria mais anunciantes e patrocinadores e, consequentemente, mais dinheiro. É este o negócio deles. Como ficou bem claro durante as manifestações de Junho do ano passado, quando ao identificarem o apoio da maioria da população aos protestos, os órgãos de imprensa mudaram o discurso, que inicialmente classificava os atos como baderna para classificá-los como “uma linda manifestação do povo brasileiro”; a opinião deles muda conforme o “Ibope” que têm.

Então não se deve dar muita atenção ao que é veiculado, pois eles vão mostrar o que a maioria quiser ver e ouvir.

Do Estado

Como os próprios administradores de shopping alegam na tentativa de evitar os tais “rolezinhos”, o shopping é um local privado, portanto, não deveria ser o Estado (através de seu aparelho policial) o responsável por prevenir tais eventos e muito menos por zelar da segurança dos mesmos. Os próprios empreendimentos que contratem seguranças particulares, coloquem grades, proíbam menores desacompanhados… À polícia só cabe intervir em caso de algum ato ilícito estar sendo cometido.

Da mesma forma, chega a ser deprimente juízes perdendo o seu (nosso) precioso tempo para analisar pedidos e conceder liminares. Que os shoppings barrem quem quiserem barrar e, se alguém se sentir discriminado, aí sim, que procure a Justiça para exigir reparação, lembrando sempre que o ônus da prova cabe a quem acusa.

Das “Elites”

Uma das características do ser humano é tentar se diferenciar dos demais. Maslow explica isto de uma forma bem clara em sua pirâmide das necessidades humanas: satisfeitas as necessidades básicas (segurança, alimentação, sexo, etc.), outras necessidades surgem, como as necessidades sociais, de estima e de realização pessoal.

Numa sociedade capitalista, onde o dinheiro faz diferença e é medida de sucesso (antes de mais nada, não é uma crítica, é uma constatação), quem sempre se diferenciou neste quesito se sente “atacado” ao ser colocado no mesmo nível da maioria (não que foram rebaixados, os outros é que ascenderam). Daí nascem as críticas à capacidade atual de mais pessoas provenientes de baixa renda poderem viajar de avião (Vejam só, até para Miami!), terem carros importados (já vi Ferrari e Lamborghini aqui na Zona Norte de São Paulo) e estarem aptos a frequentarem e consumirem em shoppings.

É normal e totalmente compreensível, do ponto de vista do comportamento humano, o incômodo que quem sempre esteve por cima está tendo neste momento.

Conclusão

O movimento do “Rolezinho” é apenas um movimento social, que como tantos outros tende a ser efêmero. Daqui a pouco aparece outro modismo adolescente que vai despertar o interesse dos vários atores da sociedade. Estes adolescentes estão apenas procurando fazer o que todos os outros adolescentes, do mundo todo, independentemente de classe social, nível cultural e educacional fazem, que é apenas se divertir sem compromisso.

Os movimentos políticos e sociais resolveram tomar isto como bandeira para suas ideologias e seus projetos políticos, enquanto a mídia está dando uma atenção excessiva, a fim de angariar audiência. O Estado, que deveria interferir somente em casos extremos, até por ser formado por políticos, também está dando muita atenção ao fato.

Quem sempre foi “diferenciado” pelo poder aquisitivo, está se sentido perdido, pois seu ego não admite que pessoas de origem mais humilde hoje tenham acesso aos mesmos lugares, produtos e serviços que os diferenciavam, que os faziam “elite”.

Até aí tudo normal.

A única coisa que não achei normal nesta história toda foi a reação da iniciativa privada. Eles poderiam estar capitalizando em cima deste movimento, formando uma forte base de clientes (atuais e potenciais). Acho que eles precisam dar uma lida no livro “A Riqueza na Base da Pirâmide”, do professor C.K. Prahalad. Eu, se fosse um deles, já teria “oficializado” o evento, como por exemplo, agendando para um domingo por mês um “rolezinho oficial”. Aí quem não desejasse participar ou se sentisse incomodado, nem iria frequentar o shopping neste dia.

Be happy! 🙂

The Phoenix Project: A Novel about IT, DevOps, and Helping Your Business Win – Gene Kim, Kevin Behr e George Spafford (06/2018)

Trabalho com tecnologia da informação desde 1992 (caramba! 26 anos já!). Lá no início e durante boa parte da minha carreira, na transição de sistemas centralizados baseados em Mainframe para computação distribuida, impulsionada pela popularização dos PCs, as equipes de desenvolvimento de aplicativos trabalhavam no mesmo lugar e todos eram responsáveis por todas as partes do aplicativo (banco de dados, interface de usuário, segurança, fazia os testes, etc.), bem como todos eram também responsáveis por fazer a análise do sistema, a arquitetura, a implementação e o suporte. Se o aplicativo era muito grande ou complexo existiam pequenas equipes cuidando de partes do sistema (o cadastro de usuários, interface com outras aplicações, relatórios, etc.), mas cada uma destas pequenas equipes (que tinham uma coordenação central) cuidava de todos os componentes e fases.

Entre o final dos anos 90 e início dos anos 2000, com a onda de reengenharia e terceirização, algum “guru dos negócios” (que nunca deve ter escrito um “hello world” na vida) resolveu achar que separar as funções iria trazer algum ganho. E como ocorre muitas vezes na área de tecnologia (em geral, não só da informação), alguém em algum posto alto tem uma idéia e força a implementação sem a menor idéia de quais as consequências na execução do plano. E como geralmente ocorre no meio empresarial, basta um fazer para todo mundo copiar.

Depois de uma década de projetos infinitos e bilhões de dólares desperdiçados em aplicativos que nunca se estabilizam (isto quando não são abandonados), finalmente chegaram à conclusão de que era melhor da forma antiga (ah vá!). Foi quando surgiu o movimento DevOps, que no fundo é uma volta àqueles tempos (com o auxilio de tecnologias e metodologias recentes para aumentar a produtividade da equipe). Alguns destes métodos já são utilizados há décadas em manufaturas e cairam como uma luva em TI. A Teoria das Restrições (Theory of Constraints) traz alguns destes métodos e ferramentas.

The Phoenix Project traz as agruras causadas por esta segmentação (time de desenvolvimento, de suporte/operações, de segurança, de testes, etc.) e a transformação deste modelo novamente para um modelo de times integrados, responsáveis por todos os componentes e fases do ciclo de vida de um software, inclusive além das fronteiras de um projeto (ou melhor ainda, não limitados por um projeto). Mas o legal do livro é que ele faz isto através de uma estória, com personagens, enredo, ambientação, início, meio e fim. E é impossível para quem viveu os dois mundos (ou três, se considerar o estado anterior, como no meu caso) não identificar as situações e os personagems e fazer paralelos com situações vivenciadas e pessoas com as quais trabalhamos ao longo da carreira. O livro é tão interessante que cheguei a ler 60 páginas de uma vez só, pois ao final de cada capítulo tinha um gancho que me fazia ler o seguinte.

O livro é interessante mas deixa uma sensação de “não precisava ter passado por isto”, já que a maioria das pessoas que “botam a mão na massa” já imaginava que a segmentação era uma aposta muito arriscada. Dá vontade de soltar um “eu não disse?”. Como disse o CIO da minha empresa outro dia, “DevOps é tão anos 90!”

Be happy 🙂

Wanderlust #45 – São Paulo – Brasil

(18/Ago/2017-02/Set/2017)

Praça Roosevelt

Uma vez assistindo um programa sobre brasileiros que moram no exterior (o programa era sobre Berlin, se não me engano), uma das brasileiras entrevistadas soltou uma frase maravilhosa: “o migrante se torna um apátrida, pois o país para o qual ele imigrou nunca será o seu lar, e o país do qual ele emigrou nunca mais será o seu lar”. Após quase um ano morando fora fui entender o sentido da frase. Mesmo com toda a tecnologia de comunicação disponível, principalmente através da internet, quem está fora do país acaba por perder referências durante o tempo que passou fora (de cultura, de política, etc.), ao mesmo tempo em que não tem as referências do novo país (um desenho que as pessoas assitiam na infância, uma moda, um brinquedo ou um programa de TV de dez anos atrás, etc.). O Gilberto Gil cantou isto lindamente na maravilhosa Lamento Sertanejo, em parceria com o Dominguinhos (aqui tem uma versão imperdível com o Hamilton de Holanda, a caboverdiana Mayra Andrade e o Yamandu Costa). E foi com este vácuo de quase um ano perdendo referências (ainda pouco tempo, mas uma diferença perceptível) que visitamos São Paulo pela primeira vez na condição de turistas (a primeira volta, em Dezembro, não conta, pois foi um “bate-e-volta”).

A primeira coisa notável é a forma como rapidamente já incorporamos alguns costumes, a ponto inclusive de nos irritarmos um pouco com alguns comportamentos, como por exemplo a falta de respeito às leis de transito. A cidade em sí não mudou muito, o que particularmente achei um mau sinal. São Paulo vinha numa mudança nos últimos 6 ou 7 anos para um estilo de cidade mais parecido com o que eu idealizo em uma metrópole, especialmente no que diz respeito ao uso do espaço público por sua população (não adianta, sempre terei Berlin como referência neste quesito). Parece que aquele impeto de ocupar os espaços públicos deu uma aplacada. A Praça Roosevelt, a Consolação e a Avenida Paulista (em um dia normal) me pareceram menos “festivas” do que eram quando nos mudamos. Felizmente a própria Paulista aos Domingos e a Vila Madalena, ainda estão com bastante atividade (apesar do clima um pouco diferente).

Este é um Wanderlust um pouco diferente. Sei lá, não sou mais um “paulistano”, mas ao mesmo tempo ainda não me sinto como um turista na cidade. Ainda posso dar dicas de alguns lugares interessantes, mas as dicas seriam de um “nativo” de um tempo passado (ou seja, podem ser uma furada), e não de um turista. Então desta vez vou me abster.

Se esta sensação me dá algum arrependimento da mudança? De forma alguma! Toda escolha que se faz na vida é sempre múltipla: voce escolhe uma opção, mas ao mesmo tempo deixa de escolher infinitas possibilidades. E eu acho uma besteira ficar com saudades do que poderia ter sido (obrigado Paul Austin). E como diria o mesmo Gilberto Gil, “o melhor lugar do mundo é aqui e agora“. E até que a sensação de “falta de pertencimento a algum lugar” (que na verdade não é nova, pois já fazem uns dez anos que eu não me sentia “em casa” no Brasil) se aplacou um pouco quando o oficial da alfândega nos desejou um “Welcome home!”.

Observações, dicas e considerações:

  • Eu ainda estou pra ver alguma outra cidade que tenha algo como a Vila Madalena em termos de vida noturna. Uma mistura de tribos, de estilos, uma gama tão grande de opções (em uma área geográfica relativamente pequena) que ainda não encontrei nada nem parecido em Nova Iorque, Los Angeles ou Berlin (pra citar as grandes metrópoles que conheço a fundo e que são comparáveis a São Paulo, não conheço muito bem Londres).
  • Como querem promover o turismo na cidade se um turista não consegue nem comprar um bilhete único para se locomover pela cidade?

Be happy 🙂

Metrô Consolação: em SP pode beber em público. Não pode beber no metrô, mas pode também!

Escadaria do Bixiga (ou do Jazz)

Escadaria do Bixiga (ou do Jazz) – ficou muito legal com os grafites!

Escadaria do Bixiga (ou do Jazz)

Avenida Paulista aos Domingos – a ocupação do espaço público ainda resiste!

Beco do Batman – Vila Madalena

Pôr-do-sol na Ponte da Casa Verde/Marginal Tietê

What Is This Thing Called Theory of Constraints – Eliyahu M. Goldratt (05/2018)

Eu já falei e vou continuar falando que eu não gosto de livros de auto-ajuda, sejam pessoais ou “corporativos”. Qualquer coisa que envolva a “variável indomável” chamada “gente” (o ser humano) não é passível de possuir uma fórmula, uma receita, que possa ser replicada. No máximo pode-se compartilhar experiências e usar o passado como uma baliza para tentar prever e moldar o futuro. Como diria o mestre Raul Seixas, “cada um de nós é um universo“.

Mas eu “tive” que ler este livro (ossos do ofício) e, conforme outro axioma que eu tenho, qualquer livro tem algo aproveitável. Aliás, até ler bula de remédio é melhor do que não ler nada. Mas vou dizer que, apesar do teor auto-ajuda-corporativa, o livro traz uns pontos bem interessantes.

O primeiro é uma ferramenta chamada evaporating cloud, que tem o intuito de dirimir conflitos, desde que exista um objetivo em comum. Na maioria dos casos o conflito é resolvido analisando-se as premissas que cada parte tem e chegando num meio termo viável, isto quando ele não se resolve apenas com cada uma das partes conflitantes entendendo as razões da outra parte.

Outro ponto interessante é a forma como o “facilitador” do processo cria o entendimento acerca do problema. Utilizando o método socrático, através de questões e nunca dando as respostas, ele induz os próprios envolvidos a chegarem a conclusão de qual é o problema, sua causa e as possíveis soluções. Esta forma de solucionar o problema é chamada pelo autor de efeito-causa-efeito: primeiro detecta-se o problema (efeito), depois a causa do problema (causa) e depois, ao alterar a variavel da causa, tenta-se resolver o problema (efeito novamente).

O livro tem outros conceitos interessantes que são utilizados há décadas em manufaturas e, recentemente, vêm sendo implementados na área de Tecnologia da Informação (minha praia). A Teoria das Restrições (Theory of Constraints) é a base para um outro livro que estou lendo (Phoenix Project), que aplica os conceitos em um caso fictício, em forma de uma história (com enredo, personagens, etc). Mas fica para a próxima resenha.

Be happy 🙂