Arquivo mensal: julho 2017

Wanderlust #37 – Los Angeles, Califórnia (3/51), Estados Unidos

Huntington Beach: 21 anos de diferença (1996 e 2017). Até as bandas que eu gosto mudaram!

“Tu não podes tomar banho duas vezes no mesmo rio, pois aquelas águas já terão passado e também tu já não serás mais o mesmo.” – Heráclito de Éfeso

Desde 2008, quando passei uma temporada na cidade (algumas info adicionais aqui), Los Angeles se tornou a minha cidade pra se morar. Tipo assim: se me dessem a oportunidade de escolher qualquer cidade do mundo para morar para o resto da vida, sem possibilidade de trocas, até a pouco tempo não teria hesitado em apontar LA. Mesmo amando São Paulo, tendo uma paixão recente pelo Rio e de ter conhecido, desde então, Berlin (que pra mim ainda é a melhor cidade do mundo no quesito geral).

Los Angeles é cosmopolita (como São Paulo e New York), tem muitas belezas naturais e ótimas praias (como o Rio de Janeiro) e é tolerante e cultural (como Berlin, com a vantagem de ter um clima melhor).

E é o lado cosmopolita da cidade que talvez esteja me afastando dela (neste sentido de talvez não achá-la mais o “melhor lugar para se morar”). Los Angeles é ampla, muito ampla. Entre o extremo sul do condado (la por Huntington) e o extremo norte (Calabasas) sao mais de 200 quilômetros. De leste a oeste a distância também é grande e, por exemplo, do alto do Griffith Observatory já não se consegue enxergar o mar.

Como toda a vida econômica, cultural e educacional se concentra numa pequena parte desta área imensa, alguns problemas são críticos na cidade: o custo de vida nesta pequena área é altíssimo, isto acaba empurrando as pessoas para áreas mais distantes e como o sistema de transporte público ainda é limitado (apesar da visível melhora dos últimos 10 anos), o trânsito é caótico durante quase todo o dia, todos os dias, incluindo os finais de semana.

Então quando cheguei desta vez em LA, depois de ter passado por Huntington Beach (uma das praias mais movimentadas, mesmo estando longe da região “central” do condado) e por Long Beach (uma das maiores cidades do condado, que mereceria mais a minha atenção), a primeira sensação foi de que hoje eu já não encararia gastar duas ou três horas do meu dia dentro de um carro para ir e voltar do trabalho. Como também não teria condicoes de bancar o custo de viver em Venice ou Santa Monica. E como fora desta área as opções para trabalho já são mais limitadas, dificilmente seria um lugar em que eu “investiria” uma mudança.

Mas voltando ao passeio, depois da viagem desde San Diego e a road trip pelas praias que ficam no caminho entre as duas cidades, era hora de visitar, novamente, o lugar em que eu batia cartão em 2008, o Britannia Pub. A viagem foi planejada para que passássemos um domingo em LA para podermos ir ao pub ver uma apresentação da “Number 9”, uma tribute band de Beatles que eu ia assistir quase todos os domingos. O bar já não é mais o mesmo (o público na época era mais descontraído e desta vez o pub crawl Santa Monica passou por lá, gerando algum incômodo) e a banda em sí já não tem a mesma pegada. Mas ainda assim tem as figurinhas de sempre: o bartender Richard dando sua canja, L.J., e mais alguns que sempre batem cartão. Valeu pela memória afetiva.

Na segunda foi dia de levar a Lu para turistar: Hollywood Bowl (dizem que é o melhor lugar para ver o supervalorizado letreiro de Hollywood) e o Griffith Park (e o observatório) de onde também se tem uma vista do letreiro, que repito, é supervalorizado (a Lú teve a mesma reação de “é só isto?” que eu tive em 1996).

Depois fomos fazer as praias ao sul de  Los Angeles que ficaram faltando no domingo:

  • Redondo Beach: tem um pier bem grande e até conta com mais atrações que o de Santa Mônica (mais restaurantes e sem o parque, que também não é lá estas coisas).
  • Hermosa Beach: praia bem simpática e com ótima infraestrutura. Daria até pra pensar em ficar alguns dias numa próxima vez. Detalhe: o tabaco é banido na cidade e é proibido fumar em qualquer área pública. Mesmo em áreas privadas (casas), a fumaça ou o cheiro não podem incomodar vizinhos e transeuntes.
  • Mission Beach: também tem uma boa infraestrutura e parece ser um lugar não só pra veraneio, mas onde as pessoas moram. Estava bem cheia para uma segunda feira.

A próxima parada/praia seria Venice e claro que no caminho passamos por Marina Del Rey para rever o lugar onde morei. Venice é um lugar para perder algumas horas andando e observando a “fauna” local (turistas, artistas de rua, locais, skatistas, etc), bem como seu habitat (bares, lojas, feiras, etc). Infelizmente estava ventando demais e tivemos que abortar a missão. Fomos deixar o carro no hotel e depois andamos até Santa Mônica. Já haviamos passado no 3rd Street Promenade (um shopping a céu aberto, com bastante movimentação, artistas de rua, etc) no domingo, antes do Britannia, por isto fomos diretos para o Pier para podermos assistir o pôr-do-sol. Depois paramos num Biergarten (Big Dean’s Oceanfront Cafe) que tem por ali para tomarmos umas cervejas e comermos algo.

Na terça feira, resolvemos não sair de carro e pegamos um ônibus até Venice para “refazer” o passeio que havia sido interrompido pela ventania. Um ponto importante aqui: hoje já dá pra se virar bem com transporte público em Los Angeles e o que ficar mais inacessível (Hollywood Bowl e o observatório, por exemplo) pode ser feito de Uber ou Lyft. Como disse, o calçadão de Vênice é pra se perder algumas horas (e é um dos melhores lugares para souvenirs também) e fomos andando até Santa Mônica, passando por Ocean Park, a praia / parque que separa as duas mais famosas praias de LA. Uma caminhada de quase 5 kilometros.

De Santa Monica pegamos o metro para ir até Hollywood Boulevard, onde ficam a famosa “Calçada da Fama” e o Chinese Theater (aquele onde os artistas deixam suas pegadas). Não é aquele passeio fenomenal, mas eu acho que é algo obrigatório pra se fazer em LA. De lá, metrô novamente e fomos para downtown. Como havia falado no artigo de 2014, downtown vem passando por um processo de revitalização e, apesar de não ser uma das melhores atrações que a cidade tem a oferecer, tem lá seu charme. O Grand Central Market é um dos lugares que, agora revitalizado, se tornou “cult”.

Estávamos decidindo o que fazer a seguir e procurando opções quando, sem querer, descobri que havia um bar da Mikkeller em Downtown LA, pertinho de onde estávamos e perto da estação onde deveriamos pegar o metrô de volta para o hotel. Nem hesitamos muito para encerrarmos nossa passagem por uma cidade pela qual eu sempre terei um carinho fazendo algo que eu aprendi a fazer justamente nesta cidade: apreciar cervejas diferentes.

Tudo muda, as cidades mudam, as situações mudam, mas principalmente as pessoas mudam. Desde 2008 a cidade mudou bastante, mas eu mudei ainda mais: conheci outros lugares, tenho outros valores, estou vivendo uma outra situação. Hoje Los Angeles talvez perderia pra San Diego (ou mesmo San Francisco) o posto de “lugar para se morar para o resto da vida”. Mas a Califórnia ainda continua imbativel. E ganhou mais pontos ainda com a extensão desta viagem, que fica para os proximos Wanderlusts.

Observações, dicas e considerações:

  • Nos EUA é comum o garçom ou barman vir de tempos em tempos perguntar se esta tudo bem, se quer mais alguma coisa, etc. Quando voce senta em mesa, é praticamente certo que após algum tempo o garçom ja trará sua conta. O que nunca havia reparado é que os sistemas dos bares é feito para isto: quando voce pede algo, ele deixa seu status como verde, depois de um certo tempo o status passa para amarelo e é nesta hora que o garçom vem verificar se voce precisa de algo mais. Se voce pedir algo, ao entrar o pedido, o status volta novamente para o verde e o ciclo se reinicia. Porém, se não entrar pedido na mesa ou conta, depois do amarelo, o sistema muda pra vermelho, ou seja, o cliente está ali dando prejuízo, pois esta ocupando espaço sem consumir nada. É nesta hora que o garçom vem te expulsar…..hahaha
  • É chato para o cliente, mas do ponto de vista do “negócio” o sistema é interessante. Mas ele é meio burro num sentido e situação: quando o bar está vazio, é melhor voce ter uma “possibilidade” de consumo (alguém que esta lá e pode, a qualquer momento, fazer um pedido), do que simplesmente eliminar esta possibilidade mandando o cliente embora. Mas como os americanos já são acostumados, são poucos os lugares que não seguem este sistema à risca (preferindo ficar vazios) e são pouquíssimas pessoas que reclamam (geralmente os gringos).
  • Ande sempre com moedas para o parking. Apesar da maioria dos parquímetros aceitarem cartão, fica mais fácil estender o tempo programado com moedas.
  • Como citei, o transporte público de Los Angeles (e da Califórnia em geral) melhorou muito nos últimos 10 anos. Com o advento dos aplicativos de serviços de transporte individual privado, um carro já não é mais obrigatório para visitar a cidade, como era há uns 10 anos.

Be happy 🙂

Huntington Beach

Richard e sua tradicional canja com a Number 9 no Britannia Pub – Santa Monica

Griffith Park

Redondo Beach

Mission Beach

Genios no grafite de Venice Beach

Santa Monica vista do pier

Venice Beach

Ocean Park

O pier de Santa Monica

Grand Central Market, Downtown LA

Mikkeller Downtown LA: 40 torneiras (+ 2 casks + 5 torneiras de vinho) de Mikkeller e do melhor das cervejarias californianas.

Wanderlust #36 – San Diego, Califórnia (3/51), Estados Unidos

San Diego Bay

Como havia dito no post da minha visita a San Diego de 2014, este foi o primeiro lugar que eu conheci fora do Brasil, lá nos meus 19 anos. A cidade tem mudado muito, mas eu também tenho mudado, então algumas coisas acabaram por me surpreender novamente.

O sistema de transporte público da cidade esta muito mais abrangente. Hoje um carro já não é essencial para visitar a cidade e dá pra se virar bem com a rede de transportes atual e Uber / Lyft. A mudança de mentalidade em relação à mobilidade urbana é gritante na California em geral: em pouquissimo tempo (de 2008 pra cá) as cidades se organizaram e as pessoas mudaram seus habitos.

Como uma coisa puxa a outra, a cidade está mais bem preparada para quem se locomove a pé, com revitalização de bairros antes “perigosos” (ocupar o espaço público é uma das melhores formas pra combater a criminalidade), bares e restaurantes abertos e/ou com mesas na calçada, praças e até uma feira livre. Little Italy (um dos melhores lugares pra se hospedar), Downtown e o Gas Lamp district são os melhores exemplos desta mudança.

Outra coisa que me chamou a atenção foi o movimento cervejeiro local. Em basicamente todo bairro tem um brew pub, inclusive alguns já ícones da recente escola cervejeira americana, como a Ballast Point e a Coronado.

Como era a primeira vez da Lu na California, basicamente fiz o mesmo roteiro de praias que fiz em 2014, e só troquei o USS Midway pelo Gas Lamp District.

Tambem fomos passear por uma manhã no Balboa Park, o principal parque da cidade, que também conta com uma série de museus.

Na subida pra Los Angeles, fomos passando e parando em algumas outras praias, algumas que eu já queria parar (pra conhecer ou rever) e algumas escolhidas aleatoriamente. Pra facilitar, vou colocar em tópicos:

  • Torrey Pines: o tempo estava meio fechado e como aparentemente não tinha muitas atrações, resolvemos nem parar. Mas se tivéssemos mais dias na cidade, talvez valeria à pena conhecer.
  • Del Mar e Solana Beach: o tempo ainda estava fechado e uma das faixas estava fechada por conta de uma corrida, então não conseguimos parar também.
  • Encinitas: esta escolhemos aleatoriamente. Interessante: as casas ficam em cima de uma encosta e tem um baita escadão pra acessar a praia. O tempo ainda estava meio fechado, mas deu pra ver que é uma das mais requisitadas da região, principalmente por surfistas.
  • Carlsbad: esta eu já tinha passado em 2014 (e muito provavelmente em 1996), mas nunca parei. Cidadezinha de veraneio, com alguns hotéis, pousadas, restaurantes. Muito simpática. Se tiver oportunidade no futuro, gostaria de passar mais tempo e pernoitar na cidade.
  • Ocean Side: havia parado em 2014 e achei interessante voltar. A praia e o pier são bem movimentados. É uma cidade de veraneio, maior e mais urbanizada que Carlsbad. Outra que valeria a pena para passar alguns dias e pegar uma praia.
  • San Clemente: acabamos só passando por dentro da cidade, fugindo do transito, já que ela não tem acesso ao mar, pois encontra-se atrás de uma base naval.
  • Dana Point: já no condado de Orange County (do famoso seriado OC), umas das praias menos badaladas e propícia para esportes em mar tranquilo (como stand up paddle). Pelo jeito é uma das preferidas de banhistas também. Queria ter parado da outra vez, não sei porque não o fiz, mas desta vez não deixei passar.
  • Laguna Beach: esta é uma das praias mais procuradas de Orange County, principalmente por gente jovem que só quer curtir a praia, e nao “ostentar” como em New Port. Infelizmente não paramos (senão teriamos que pular outras praias por conta do tempo).

Se à partir de 2008 eu vinha considerando Los Angeles a melhor cidade do mundo pra morar pro resto da vida (a melhor na categoria geral ainda é Berlin), depois desta viagem já estou considerando San Diego para o posto. Até porque as mudancas de Los Angeles estão levando a cidade para um caminho diferente do meu, que tambem vivo mudando. Mas falo disto no próximo Wanderlust.

Observações, dicas e considerações:

  • Achamos uma praça John Basilone, o heroi de Raritan (a cidade de menos de dez mil habitantes onde moramos, em New Jersey).
  • O brew pub da Ballast Point lota. Tentamos ir na sexta-feira e estava simplesmente impossível de ficar lá dentro. E como (ainda) não se pode beber em público em San Diego, preferimos deixar a visita pro sábado à tarde. Eles têm até um Biergarten (pra mim nunca será Beer Garden) que é uma boa pedida em dias de tempo ameno.
  • Interessante como a cultura de Biergartens está se disseminando nos EUA. As pessoas querem fazer do ato de ir ao bar mais do que aquele encostar no balcão de madeira e encher a cara de Bud Light. Isto está fazendo até as leis quanto ao consumo de bebida em público e de licenciamento de estabelecimentos que vendem álcool (onde era proibida a entrada de menores de 21 anos) ficarem menos restritas.
  • Se a Ballast Point estiver cheia, vale uma tentativa na Bolt Brewery, uns dois quarteirões pra frente (sentido Downtown). Não tem o Biergarten, mas tem ótimas cervejas.
  • Nos dois brew pubs o sistema é de ir pedir no balcão, inclusive a comida, que depois é trazida pelos garçons (a cerveja você mesmo leva). Eventualmente, dependendo da boa vontade do garçom (de ganhar umas gorjetas) e da lotação, depois da primeira cerveja, ao notar o copo vazio, eles vêm perguntar se quer mais uma. Mas não conte com isto.
  • Passeando pelo Balboa Park vi uma coisa bem interessante: uma barraca de “evangelistas ateus”! Sabe aquelas barraquinhas que se vê em vários pontos de São Paulo com duas ou três pessoas, em trajes “sociais”, um cavalete com uma placa, algumas revistas, etc? Imagino que sejam as Testemunhas de Jeová. Bem, primeiramente também tem nos EUA, Bélgica e Portugal. Mas voltando ao assunto principal: tinha uma barraquinha no mesmo estilo, com vários folhetos pendurados, revistas e algumas pessoas dispostas à conversar sobre pensamento cético, ateísmo, etc. Achei muito interessante!

Be happy 🙂

Imperial Beach – San Diego

Sunset Cliffs – San Diego

Sunset Cliffs – San Diego

La Jolla – San Diego

Balboa Park – San Diego

Ballast Point – San Diego

Praça John Basilone – Little Italy – San Diego

Encinitas

Carlsbad

Ocean Side

Dana Point

Wings of Madness: Alberto Santos-Dumont and the Invention of Flight – Paul Hoffman (06/2017)

Nunca imaginei que um dia iria ler uma biografia do Santos-Dumont. Não que não o ache um personagem interessante e importante para a história, não só do Brasil, como do mundo, pois ele teve participação importante num dos inventos que mudaram os rumos da humanidade. O que sempre me afasta dos “heróis nacionais” é justamente a maneira como o povo em geral trata os brasileiros com algum destaque (esportivo, científico, artístico, político, etc). Ou é uma exaltação exacerbada, ou trata como piada, ou infringe a eles uma cobrança excessiva. Na maioria das vezes as três coisas acontecem alternadamente e, incrivelmente, até simultaneamente.

Imaginei menos ainda que leria uma biografia sobre Santos-Dumont escrita por um americano. Mas a minha amiga Rebeca me presenteou com este livro, que foi uma grata surpresa justamente por fugir da “canonização” que provavelmente ocorreria se o autor fosse brasileiro. Mas que ao mesmo tempo dá o devido valor à importância do bibliografado, enquanto faz algumas correções históricas, todas elas muito bem documentadas.

Também é muito interessante, como toda biografia, como uma fotografia do Zeitgeist, o espirito do tempo, em que o personagem viveu.

O livro começa traçando a árvore genealógica de Santos-Dumont, contando brevemente a história de seus antepassados, desde os avós paternos e maternos, e dá uma atenção especial em como o pai de Santos-Dumont se estabeleceu e fez fortuna. Depois, passa brevemente pela infância do futuro inventor e por sua adolescência até a sua primeira mudança para a Franca.

A partir dai o livro relata de forma detalhada, incluindo muitas citações de publicações e do próprio Santos-Dumont, todo o processo de educação e de contato de um jovem com as novidades de uma metrópole mundial durante a virada de século. Depois começa a detalhar todos os seus experimento e experiências. Interessante notar a forma educada e sem extremismos ou julgamentos que o autor usa para documentar a suposta homossexualidade de Santos-Dumont.

Durante todo o livro, o autor vai contando, paralelamente à historia de Santos-Dumont, o que ocorria na mesma época em relação à aeronavegação, desde os primórdios do balonismo. Então invariavelmente, quando se aproxima de 1906 (o “vôo” oficial do 14-bis ocorreu em 23 de Outubro de 1906), outros inventores que trabalhavam em “máquinas voadoras” também são apresentados, como Samuel Langley e os irmãos Wright. Estes já haviam inclusive iniciado os estudos e experimentos com aeronaves mais pesadas que o ar bem antes de Santos-Dumont, que até o início de 1906 ainda focava em balões dirigíveis.

Assim como boa parte das invenções e descobertas da humanidade, os equipamentos que nos permitem voar também são o resultado de geração e disseminação coletiva de conhecimento: eles se baseiam em várias descobertas anteriores que foram sendo aperfeiçoadas e complementadas por diversas pessoas em diferentes partes do mundo, simultaneamente. Em algum momento, alguma destas pessoas teria a “sorte” de conseguir uma versão funcional do invento ou de realizar a descoberta, ficando desta forma com a glória e marcando seu nome na história (e, em alguns casos, obtendo lucro).

O livro não foge à polêmica (somente para os brasileiros, importante citar), e eu também não vou fugir: Santos-Dumont foi o primeiro homem a controlar um dispositivo de vôo, foi o primeiro homem a desenvolver equipamentos pessoais de voo (os tão sonhados “carros voadores”, e não desenvolveu apenas um, mas dois: um mais leve que o ar e um mais pesado), ganhou diversos prêmios, etc. Mas não foi a primeira pessoa a voar num equipamento mais pesado que o ar.

Além das testemunhas dos experimentos dos irmãos Wright, que ocorriam desde 1903, os avanços apresentados por eles em 1908, quando finalmente (e com todas as patentes garantidas) apresentaram o seu equipamento de forma oficial ao mundo, não seriam possíveis sem vôos anteriores. E não adianta nem alegar que “ah, mas ele não saiu do chão por conta própria”, primeiro porque isto não importa, podia ser um planador, uma asa delta, ainda assim teria atingido o feito de ser o primeiro equipamento mais pesado que o ar a voar, e em segundo, tirando a forca dos próprios motores, as aeronaves dos Wright só contavam com a força da gravidade (quem usava uma catapulta era o Aerodrome do Langley, que nunca chegou a voar). O avião, como existe hoje, tem muito mais dos Wrights do que de Santos-Dumont.

Mas isto, de forma alguma, tira a importância de Santos-Dumont para o desenvolvimento da aeronavegação. Muito pelo contrário, além de todos os feitos citados anteriormente, alguns dos estudos conduzidos por ele e algumas das soluções encontradas quando dos seus experimentos com os equipamentos mais leves que o ar devem ter sido utilizados por outros inventores e construtores, inclusive os irmãos Wright, no desenvolvimento dos seus equipamentos. Até porque Santos-Dumont tornava público todos os seus esquemas e desenhos. Um pioneiro do “open source”.

Be happy 🙂

P.S. o livro traz uma curiosidade interessante: a corda guia. Sabe aquelas cordas que ficam penduradas nos cestos dos balões? Além de servir para “ancorar” o  balão e para guiar o pouso (com a ajuda de pessoal em terra), ela tem a importante função de servir de lastro (ballast, outra curiosidade, esta cervejeira!). Explico: como o hidrogenio é um gás que se expande e se contrai muito rapidamente de acordo com a pressão, quando o balão está subindo, a expansão do gás poderia fazer com que ele “disparasse” para cima numa velocidade muito alta. O mesmo aconteceria durante o pouso: o gás contrairia a ponto de transformar o pouso numa “colisão com o solo”. Porém a corda serve como um lastro: enquanto ela esta no chão, ela nao gera peso para o balão, mas enquanto o balão está subindo, ela vai saindo do chão e gerando peso (lastro), impedindo assim a “disparada”, mesmo enquanto o hidrogênio se expande. O inverso também ocorre: durante o pouso, a medida em que o gás se contrai e acelera a queda, a corda vai sendo “deitada” no chão, reduzindo assim o peso do balão e desacelerando a descida. Solução simples mas genial!!!!