Arquivo mensal: junho 2017

Cerveja, Alemães e Juiz de Fora – Alexandre Hill Maestrini (05/2017)

Quando conheci Juiz de Fora, no ano passado, eu fiquei impressionado com o movimento de cervejeiros artesanais na cidade. Diferentemente de São Paulo, onde excetuando-se alguns “dinossauros” (como o Frangó), o circuito de cervejas especiais se concentra em bares novos que nasceram especificamente para o ramo, enquanto os bares mais antigos parecem não aderir à nova “onda”, preferindo se concentrar nas cervejas comerciais já famosas, em Juiz de Fora voce encontra cervejas artesanais / especiais convivendo em perfeita harmonia com as cervejas comerciais, tanto em bares novos quanto em bares antigos.

Ponto para a diversidade e a ausência de “frescura” em querer dividir os consumidores entre “os seres iluminados que bebem puro malte” e a “ralé que toma SAL (Standard American Lager) estupidamente gelada”. Acho que já falei isto aqui, mas vale a repetição: cada um bebe aquilo que lhe convier, no momento em que lhe convier. Eu gosto de tomar IPAs, APAs e Witbiers, mas se eu estou numa praia no nordeste, sob um sol de 40 graus, aquela “cerveja de milho” estupidamente gelada e que desce que nem água é mais adequada ao momento e ao próposito (de matar a sede, de refrescar e, por que não, embriagar) do que uma Imperial IPA. E parafraseando o amigo e cervejeiro Cadú Zamoner: tem cerveja puro malte ruim e tem cerveja com aditivos boa.

Então, quando visitei a cidade, fiquei muito contente de poder tomar algumas especiais na Timboo e na Antuérpia, como tambem apreciar algumas cervejas diferentes no Bar do Bigode e no Bar do Leo, intercaladas por Originais ou Serramaltes.

O autor resgata no livro, além da história do recente renascimento da cultura cervejeira juizforana, um pouco da história do passado cervejeiro da cidade, ligado à migração alemã (lembrando que à época as fronteiras na Europa eram bem diferentes) que ocorreu para a cidade em meados do século XIX. Importante notar a ligação da recente onda de cervejarias/cervejeiros, que ocorreu justamente quando da instalação de uma planta da Mercedez Benz na cidade, que trouxe uma outra onda migratória de alemães para a região.

O livro tem ares de trabalho acadêmico, e a maior parte do conteúdo se refere a um mapeamento das cervejarias e cervejeiros locais e suas histórias. Portanto não é um livro de leitura fluida e talvez não aguce o interesse de quem não tenha uma ligação com a cidade ou não tenha interesse na cultura cervejeira.

Mesmo tendo o foco neste mapeamento da historia e da atual onda cervejeira, acho que ficou faltando algumas informações. Uma breve introdução contando a história da cerveja (como eu fiz neste post) seria interessante para os principiantes (o livro Cerveja, Brejas e Birras também serviria como um introdutório). Tambem teria sido interessante descrever um pouco do processo de produção, já que ao longo do livro, vários termos (como rampas, recirculação, priming, airlock, entre outros) aparecem e podem deixar os novatos um pouco perdidos.

Um ponto que se nota bastante no livro é a famosa burocracia brasileira, que impede que os cervejeiros artesanais possam comercializar seu produto, mesmo quando produzido em pequena escala, como produto artesanal que é. Poderiam estabelecer algumas regras mais simples para pessoas que comercializam, sei lá, até 100 ou 150 litros por mês. Afinal de contas, exigir todo um processo industrial para permitir que os produtores comercializem acaba por retirar o caráter artesanal.

Mas acho que a maior falha do livro acontece justamente ao cair no erro de “classificar” cerveja artesanal e/ou puro malte como cerveja boa e querer colocar as cervejas industriais / comerciais como produtos ruins. Primeiro que “bom e ruim” são conceitos subjetivos e pessoais. Não dá para falar para alguém que gosta de tomar Brahma que ela e uma cerveja ruim. No máximo pode-se falar que você não gosta de Brahma, mas para aquela pessoa que aprecia, ela é uma boa cerveja. Não se pode querer medir todo mundo com sua própria régua.

E quando se incorre neste erro (de querer elevar as “puro malte” como única cerveja “de verdade”), geralmente acaba-se apelando para a Reinheitsgebot, a famosa lei da pureza alemã, para “avalizar” que cervejas puro malte são as “verdadeiras cervejas”. Primeiramente que a famosa lei tinha um caráter mais econômico do que de busca da qualidade. Segundo é que ela ja não existe há algum tempo como lei, apesar de ainda ocorrer na prática na Alemanha (as grandes cervejarias alemãs ainda produzem segundo a lei, mais por costume do que por obrigação). Até tem surgido algumas ondas de cervejeiros inovadores, especialmente em Berlin, que não seguem a lei. Terceiro que alegar que cerveja é so “agua, malte e lúpulo (e fermento)” acaba por desprezar a criatividade da escola belga (com suas fruit beers) e da recente escola americana (com suas misturas e invenções), sem falar das rice beers japonesas, além de limitar o próprio potencial cervejeiro brasileiro, já que, como um pais de dimensões continentais e com uma flora bastante diversa, o país oferece inúmeras possibilidades de matérias primas para inovar e, quem sabe, fazer o país se tornar uma escola cervejeira relevante.

Be happy 🙂

Eduardo e Marina: mais do mesmo – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 14 de Outubro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


 

Devido ao meu ceticismo, acompanhei de longe (porém, com otimismo!) as já tão comentadas manifestações de junho por todo o Brasil. Muitos meios de comunicação, sociólogos, cientistas políticos, entre tantos outros, tentavam entender o que estava acontecendo, ou seja, o que estava por traz dos 20 centavos.

Acabei apelidando o movimento de “Marcha dos Descontentes”. As pessoas que estavam ali compunham toda a diversidade do povo brasileiro, em credos, ideologias políticas, classes sociais, etc. Por tratar-se de uma massa tão heterogênea, não havia um ponto específico em comum que seria o desejo, porém, estava muito claro o que todas aquelas pessoas não queriam. Não queriam a continuidade do modelo político atual, que apesar de ser democrático, permite que, com o devido conhecimento do processo, determinados grupos se perpetuem no poder, mesmo sendo estes grupos adversários ideológicos. Queriam também que os políticos brasileiros trabalhassem, como seria natural, em prol da população, e não em prol de interesse deles mesmos e de uma pequena minoria.

Usando como “amostra” amigos meus que participaram dos movimentos, notei esquerdistas radicais que se desiludiram com o movimento de centralização do PT (e também, por incrível que pareça, do PCdoB), esquerdistas moderados também desiludidos com o PT por conta do sepultamento do discurso da ética na política, sociais democratas descontentes com a movimentação rumo à direita do PSDB, direitistas descontentes com as alianças entre alguns de seus representantes (PP por exemplo) com o PT, entre tantos outros.

Marcha dos descontentes e não representados.

Notei uma grande semelhança desta massa com os quadros do movimento Rede Sustentabilidade, encabeçado pela Marina Silva, mas que conta com nomes como Walter Feldman (PSDB), Heloísa Helena (ex PT e PSOL) e Alfredo Sirkis (PV). Apesar de entender a opção da Rede de não se envolver diretamente como movimento, já que as manifestações estavam querendo se desvincular de partidos políticos (e até hostilizando membros de partidos), eu achei, na época, que seria uma boa oportunidade para ambos (a massa e o movimento Rede) afinarem discursos e criarem uma identidade político-ideológica (mesmo que isto gerasse divisões na hora do movimento virar partido, justamente por conta de ideologias totalmente distintas).

Também tenho acompanhado o movimento Rede Sustentabilidade desde o começo deste ano. A parte do manifesto da Rede que mais atraiu minha simpatia, foi a que trata do jogo político atual, ao qual à Rede se opunha, especialmente no que tange ao fisiologismo puro, ou seja, o abandono de sua ideologia em função apenas do poder. (Quem pensaria, há alguns anos atrás, em ver o PT se unindo a Paulo Maluf, por exemplo?)

Por ser um movimento novo, que ainda nem é um partido, e por ter uma identidade ainda em formação, como citado acima, não compreendia a pressa em se tornar partido e lançar candidatos na eleição do próximo ano, já que, como o próprio discurso diz, o movimento ia contra o “poder pelo poder”.

Qual não foi minha surpresa (e decepção) quando, no dia 02 de outubro, Marina Silva anunciou sua filiação ao PSB e a disposição de ser vice de Eduardo Campos, na próxima corrida presidencial, levando consigo a votação impressionante obtida na última eleição e seu bom desempenho nas pesquisas de intenção de voto para 2014.

À exemplo do que aconteceu com o PT, a Rede mostrou, mais uma vez, que o que move os partidos e os políticos (e aqui podemos generalizar, já que se trata da ampla maioria), ao invés de ideologias e um projeto de nação, é apenas o poder e projetos de poder. Infelizmente, acabo tendo que concordar com alguns estrangeiros que têm mais conhecimento do Brasil quando dizem que “o Brasil é o país do futuro. E sempre será!

Em tempo: o rompimento do PSB com o governo, a união deste com a Rede e a comemoração do fato pelo PSDB me lembrou muito o livro 1984. No clássico de George Orwell (imperdível, assim como A Revolução dos Bichos, outro clássico do autor), o mundo era dividido em três mega potências: a Eurásia, a Lestásia e a Oceania. Estas três potências alternavam entre si os aliados e inimigos: ora a Eurásia e a Lestásia se uniam em guerra contra a Oceania, no momento seguinte o inimigo comum da Oceania e da Lestásia virava a Eurásia, e assim sucessivamente, mantendo o mundo em um estado constante de guerra.

O inimigo a ser batido no momento é o PT e os demais se uniram para isto, mas não duvido nada que, num futuro próximo, PT e PSDB se unam em âmbito nacional (em níveis regionais já ocorreu) para derrotar o PSB e/ou a Rede, ou qualquer outro bloco que venha a surgir.

P.S.: O título deste texto me ocorreu devido à duas músicas da Legião Urbana: Eduardo e Mônica, do disco Dois, e Mais do Mesmo, do disco seguinte, Que País É Este? (pergunta que também poderia servir de título para este texto).

Be happy! 🙂