Arquivo mensal: abril 2017

A Riqueza Na Base da Piramide e o Bolsa Familia – #tbt

Originalmente publicado na Feedback Magazine, em 28 de Setembro de 2013. As opniões do texto não refletem, necessariamente, a minha opnião atual, já que eu sou um ser em constante evolução e que prefere “ser esta metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opnião formada sobre tudo”.


Em 2005, um professor (já falecido) de Harvard, chamado CK Prahalad, lançou um livro chamado “A Riqueza na Base da Pirâmide”. A teoria dele basicamente diz que quanto mais a população pobre de determinado país (que são sempre a maioria da população) têm acesso ao mercado de consumo, mais isto gera riquezas para todos os extratos da sociedade e para a nação como um todo. Baseado nesta tese, ele diz que as empresas podem ajudar as pessoas em benefício próprio futuro. Um grande exemplo brasileiro, estudado por Prahalad, é o senhor Samuel Klein e suas Casas Bahia, que tem como público alvo as classes mais baixas.

Apesar de não citar explicitamente, a teoria dele faz contraponto à Mais-Valia descrita por Marx, já que, se as classes que controlam os meios de produção aumentarem a sua margem ao ponto de remover seus empregados do mercado de consumo, simplesmente irá extinguir este mercado de consumo.

Em 2009 estávamos discutindo as teorias de Prahalad em uma aula da minha pós-graduação e resolvi fazer a relação entre estas teorias e o principal programa social do governo Lula/Dilma, o Bolsa Família.

Assim como o PT demonizou as privatizações (E agora recorrem à ela!), a direita (a linha hoje é tão tênue que fica complicado utilizar conceito de direita e esquerda no Brasil) também tenta demonizar o principal programa do Lula.

O Bolsa Família é uma junção de várias bolsas (escola, gás, entre outras) que nasceram primeiramente no Distrito Federal, através do seu então governador Cristovam Buarque, em meados da década de 90. Depois foi levado ao âmbito nacional durante o primeiro governo de Fernando Henrique, através de uma proposta do senador Eduardo Suplicy.

Quando Lula se elegeu, ele unificou as bolsas em uma só e aumentou bastante a abrangência do programa.

O Bolsa Família tem três funções primordiais:

  1. Melhorar a distribuição de renda, diminuindo as diferenças;
  2. Combater a fome;
  3. Evitar o trabalho infantil e a evasão escolar.

O valor da bolsa é pensado de uma forma que supra as necessidades básicas de uma família, mas ao mesmo tempo não permita acomodação ou luxos. Ao contrário do que dizem, o valor não é “por cabeça” e existe a contrapartida das crianças estarem na escola (aí caímos no outro problema da educação básica, mas é assunto para outro texto).

O valor é em dinheiro, centralizado, através de um cartão benefício, por alguns motivos:

  • Problemas de logística: imaginem centralizar cestas básicas e ter que distribuir isto por um país com extensão continental igual ao Brasil;
  • Uso das “cestas” em troca de voto;
  • Desvio durante o processo;
  • E o principal: incentivo à economia local e consequentemente nacional.

Este último ponto é muito importante, pois a inserção dos beneficiários no mercado consumidor gira toda uma roda da economia que tem beneficiado até os tais “classe média” chorões.

Uma explicaçãozinha básica de como a “roda da economia” gira: uma certa região começa a receber o benefício do Bolsa Família. As pessoas do local passam a consumir mais. O “Seo Zé”, dono da vendinha, começa a vender mais, logo, terá que contratar mais funcionários, que por consequência, assim como o “Seo Zé”, também vão consumir. Gera renda e trabalho para o caminhoneiro, que terá mais produtos até a tal região. Gera renda nos postos de gasolina ao longo do caminho, nos restaurantes, etc.

Bem, este pessoal está consumindo todo tipo de produto, como alimentos, produtos de higiene e até alguns “supérfluos”, como computador, televisão, refrigerador, etc., incentiva a agricultura, incentiva as fábricas. A empresa em que eu trabalho, que faz bens de consumo (higiene pessoal, medicamentos…), também tem sua produção aumentada, portanto, terá que contratar mais funcionários, ou seja, mais pessoas dentro da economia de consumo.

Estes funcionários, os tais “classe média” que reclamam do “Bolsa Esmola”, ao invés de estarem desempregados, estão recebendo um bom salário porque o “vagabundo do beneficiário” está consumindo mais produtos.

Estes mesmos “classe média”, com emprego gerado pelo aumento do consumo, estão comprando TVs de LCD, carros, viajando pra Miami, gerando empregos em indústria automotiva, turismo, etc., que por consequência, gera emprego em atividades extrativistas (petróleo, minerais).

No final de tudo isto, o acionista da empresa onde eu trabalho, lá nos EUA, tá rindo de orelha a orelha, pois nos últimos anos viu sua operação no Brasil (e em outros mercados emergentes) crescer à taxa de 25% ao ano, enquanto as operações nos países de primeiro mundo, devido à uma crise mundial, encolheram. No final suas ações se valorizaram e ele recebeu seu quinhão de lucro.

P.S.: Sou capitalista até o último fio do cabelo, e como “capitalista” entendo que só existe lucro se existe mercado consumidor.

P.S. 2: Classe média, hoje em dia, mais do que uma classe social, é um “estado de espírito”. Existem “classe média” ricos, pobres e “classe média”, na acepção real do termo. Mas basicamente é aquele sujeito que acha que o mundo gira em torno dele, que só olha para o próprio rabo, que reclama que carrega o mundo nas costas, que critica ferozmente os atos de corrupção de políticos enquanto dá uma “cervejinha” para o guarda fazer vistas grossas à uma multa de trânsito.

Be happy! 🙂

Orwell’s Revenge: The 1984 Palimpsest – Peter Huber (03/2017)

Em 1994 Peter Huber teve uma brilhante idéia: desmembrar sua edição de 1984, escanear todas as páginas usando um software de reconhecimento de caracteres (OCR) e fazer uma análise do livro com a ajuda do seu computador pessoal, a máquina que Orwell quase chegou a prever e que seria o instrumento para a propagação e manutenção de tiranias, de acordo com o clássico publicado em 1949. Indo mais além, Huber também escaneou todas as obras publicadas de Orwell (ensaios, romances, contos), alguns outros textos, transcrições do programa que ele apresentou por algum tempo na rádio BBC e textos biográficos sobre Orwell de autoria de outros.

Ao analisar o livro e os demais textos ele notou que 1984 era um recorte de outros textos e pensamentos que Orwell havia escrito até então e resolveu, ele mesmo (Huber), “reescrever” 1984 usando a mesma técnica que Orwell utilizou (recortar e colar trechos de outros textos). Claro que depois de tomar esta liberdade, o próximo passo foi “corrigir” o que Orwell havia errado em suas previsões, adicionando coisas que talvez ele nem imaginasse que iriam acontecer. Na verdade, o livro é uma sequência, já que a estória relata fatos posteriores a 1984, em que o rumo da estória muda de acordo com e como as tecnologias se desenvolveram e foram adotadas desde que o livro havia sido escrito.

Além de ser uma estória nova, o livro é ao mesmo tempo um estudo sobre a obra e a vida de Orwell, inclusive chegando a fazer uma análise de como a infância e adolescência do autor (como um bolsista de origem simples dentro de uma escola de ricos) moldou seu carater e gerou um ódio ao rentismo, ao capitalismo, aos mercados (quando eles saem do nível de trocas voluntarias entre “pessoas físicas”) e ao dinheiro.

Um ponto importante a considerar é que a escolha do ano de 1984 como sendo o ponto futuro foi totalmente aleatória, apenas invertendo os dígitos finais do ano em que o livro foi concluído (1848 -> 1984). Orwell não estava de forma alguma querendo fazer uma previsão de que aquilo seriam os proximos passos, mas apenas retratar o que ele achava que aconteceria no futuro, sem estabelecer um prazo pra isto.

E o que ele (Orwell) imaginava que iria acontecer tem muito a ver com suas crenças e seu pessimismo. Quem lê apenas Animal Farm ou 1984 talvez imagine que Orwell fosse um ferrenho crítico das teorias de Karl Marx, mas na verdade ele era um socialista convicto e sua crítica ao sistema implementado na antiga União Soviética, por exemplo – e especialmente em Animal Farm – se dá justamente porque ele acredita que as sociedades só iriam evoluir para um estado de bem estar geral sob o comando central do Estado, de uma centralização nas decisões econômicas e com os meios de produção sendo controlados democraticamente através de um Estado.

E aí entra um dos maiores dilemas enfrentados por Orwell: enquanto ele abomina totalmente o capitalismo e os mercados, pois entende que, invariavelmente eles levam a uma concentração de poder (monopólio) nas mãos de meia dúzia de rentistas (oligarquias), ele também não consegue encontrar uma solução para que uma sociedade coletivizada mantenha-se democrática, pois ele entende que invariavelmente uma sociedade com planejamento central tende a se tornar um Estado totalitário, com o poder nas mãos do grupo político que conseguir controlar este Estado no momento certo. Huber traz justamente à tona este problema que Orwell não conseguiu resolver: se o capitalismo (livre mercado) e o socialismo (planejamento central através do Estado) resultam em concentração de poder na mão de poucos e opressão de muitos, o que fazer para evitar o Big Brother ou um Napoleão?

Segundo uma das “previsões” de Orwell, a Telescreen, um tipo de “telefone com imagem” (Skype?) seria utilizado como intrumento de controle social pelo partido no poder, que teria ascendido ou das oligarquias detentoras dos monopolios ou através de grupos politícos, no caso de uma sociedade centralizada. O que Orwell não consegue imaginar é que, da mesma forma que a Telescreen poderia transmitir informações para os ministérios, ela também poderia ser usada para transmitir informações entre qualquer pessoa, desta forma contrabalanceando a “centralização” de informações. Da mesma forma, a Telescreen como se desenvolveu (Internet) descentraliza a geração das informações, já que a história fica espalhada em milhares de lugares e fica difícil para qualquer governo controlar e alterar os fatos, como era comum na Alemanha Nazista e na União Soviética socialista, por exemplo. Mais um “tiro n’água” de Orwell.

Talvez os maiores “erros” (lembrando que o próprio Orwell evitava usar as palavras “profeta” e “profecia”, pois ele tinha consciência que a chance de erro é infinitamente maior do que a de acerto, sempre!) foi achar que o livre mercado sempre leva a monopólios e que, para produzir grandes inventos (como um avião, por exemplo) o planejamento central (estatal ou corporativo) seria mandatório. Quanto ao primeiro erro, talvez ele se surpreendesse se tivesse vivido um pouco mais para testemunhar que o livre mercado pode até conduzir a um monopólio temporário, mas que esta “bolha” sempre estoura e, por ironia, sempre são mantidas por intermédio do Estado, principalmente em democracias. É o Estado que, afim de “proteger os interesses nacionais” ou “evitar concorrência desleal”, cria regras para proteger monopólios e oligopólios. Quanto ao segundo erro, basta ver que quanto mais o conhecimento é distribuido e o planejamento “quebrado” em partes menores, mais avanços tecnológicos são obtidos. Talvez para tirar um grande projeto do papel realmente seja necessario um “sponsor”, porém a necessidade se dá mais pelo fator financeiro do que científico.

A solução para a questão do Estado Totalitário, que segundo Orwell invariavelmente ocorreria, acabou sendo a propria Telescreen/Internet. Porém, a Internet, as novas tecnologias e os modelos de economia compartilhada ameaçam o status quo: elas estão criando a possibilidade de uma sociedade com oportunidades e equidade que as teorias baseadas em Marx nunca conseguiram entregar, enquanto ao mesmo tempo quebram a lógica da concentração de poder e renda que as “elites” e os políticos tem no denominado “Capitalismo”. Só falta a massa perceber que o embate à partir de agora não deveria mais se dar entre Estado X Iniciativa Privada, Coletivo X Individual, Mercado X Planejamento Central, o embate à partir de agora é entre o progresso e o conservadorismo, tanto daqueles que querem manter as coisas no estado atual (concentração de renda e poder nas mãos de poucos), quanto daqueles que ainda insistem em uma utopia com quase dois séculos de idade: todo o poder na mão de um Estado, que em tese e utopicamente seria democratico, mas que apenas move a concentração de poder do campo econômico para o político.

Mesmo que Orwell não tenha estabelecido justamente 1984 para suas “previsões” e que boa parte delas não tenham ocorrido como ele imaginava, a epoca escolhida aleatoriamente por ele se dá exatamente quando uma das rupturas que geraram o mundo atual e, talvez tenham sido até uma das responsáveis por desviar a humanidade do caminho previsto por ele, foi massificada: o Computador Pessoal. No ultimo capitulo do livro, Huber trata justamente do nascimento de duas indústrias (B&B, Bell & Blue, Bell Telecom & IBM) que são as principais responsáveis pelos incríveis avancos tecnológicos ocorridos à partir da década de 80: as telecomunicações e os computadores. Mas Huber, assim como Orwell, tambem foi traido pelo tempo: ele escreveu seu livro em 1994, apenas alguns anos antes da popularização da Internet. A “rede” já existe desde os anos 60, mas seu uso ficava restrito às universidades, e a “barreira” foi ultrapassada justamente por conta do aumento da capacidade de tráfego nas redes de telecomunicações. Se tivesse esperado alguns anos, talvez Huber tivesse escrito um outro livro. Ou talvez já esteja na hora de escrever um Orwell’s re-revenge.

Uma coisa Orwell conseguiu acertar no alvo: o duplipensar. A unica diferenca é que ele imaginava que “dar sentidos diametralmente opostos a uma mesma palavra” seria algo imposto de cima para baixo, pelo “partido” (ou a corporação) detentora do poder. Talvez seu pessimismo se agravasse ao perceber que, com o “controle da verdade” nas mãos da massa, é a propria massa que cria expressões com sentido oposto no intuito de validar suas proprias incoerências (e justificar seus ódios e preconceitos). Exemplos? Os termos politicos “liberal conservador” ou “conservador liberal”, que nem semanticamente fazem sentido!

Be happy 🙂