Arquivo mensal: março 2017

Justiça – Michael J. Sandel (02/2017)

Este é mais um daqueles livros que deveriam ser de leitura obrigatória nas escolas e universidades, inclusive devendo ser relido algumas vezes. Exagerando um pouco: deveria ser pré-requisito para quem quisesse comentar sobre política na Internet….hehehe.

Sandel é um filosófo americano e o livro, cujo subtítulo é “O que é fazer a coisa certa”, é um apanhado do que ele discute em uma materia chamada “Justiça” que ele mesmo leciona em Harvard e que é atendida especialmente por alunos de direito.

O livro discorre sobre três principais linhas filosoficas do que é certo: o utilitarismo (o bem comum como princípio básico das sociedades), o libertarianismo (a liberdade individual como o princípio básico) e uma “terceira via” que fica no meio termo e que, justamente por variar de sociedade para sociedade, é de dificil delimitação e generalização. Ele aborda cada uma das linhas através do uso de muitos exemplos reais, alguns casos de dilemas morais e, principalmente, confrontando estes casos e dilemas com as duas primeiras linhas e tentando chegar a um meio termo que, repito, varia muito de acordo com os valores e a formação histórica das sociedades.

Durante o livro ele traz idéias de vários filosofos, tais como Aristóteles, Immanuel Kant, John Stuart Mill, John Locke, John Rawls, entre outros, sempre situando as idéias destes autores dentro do espectro entre o interesse comum (da família, da sociedade, de uma nação, da humanidade) e a liberdade individual.

Entre os assuntos, casos e dilemas, o livro fala de intervenção no livre mercado (“é  errado que vendedores possam cobrar mais por seus produtos se aproveitando da escassez gerada por um desatre natural?”), a relação entre igreja e Estado, direitos humanos, as obrigações impostas através de acordos sociais tácitos (impostos, voto, serviço militar obrigatório), o “valor da vida” (qual a quantidade de mortes aceitáveis no transito para justificar um aumento de velocidade, por exemplo), aborto, casamento entre pessoas do mesmo sexo, entre outros. Mas dois me chamaram bastante a atenção, especialmente pelo fato de vermos, pelo menos no Brasil, discussões muito exacerbadas e onde cada um dos lados nunca procura entender as causas da própria posição, quem dirá da posição do outro.

O primeiro é a questão da meritocracia. No Brasil existem os defensores e os detratores do sistema meritocrático, com poucas pessoas realmente entendendo o que seria a meritocracia em sí. A meritocracia tem a intenção de premiar o esforço do indivíduo ao realizar determinada tarefa ou função. Mas ai entra na questão de realmente separar o que é mérito do que são circunstâncias do acaso, ou seja, a pura sorte. Até que ponto o fato de eu ter nascido com um bom raciocínio lógico em uma época e sociedade onde esta aptidão é valorizada é merito meu? Certamente eu investi bastante tempo desenvolvendo este “dom”, mas será que conseguimos mensurar o quanto realmente existe de esforço individual e onde, portanto, a meritocracia é aplicável, da pura sorte ou das condições do ambiente? Alguem que recebeu uma heranca, certamente não pode contá-la como mérito próprio, por exemplo. Como criar mecanismos para equilibrar as condições, ou seja, a linha de partida, entre pessoas que não tiveram a sorte de nascer em um lar com melhores condições com aqueles que tiveram esta sorte?

Outro assunto que me chamou a atenção foi a da questão das cotas raciais, que trouxe um ponto de vista totalmente diferente e que fez com que eu mudasse de idéia sobre o assunto pela terceira vez na minha vida. Inicialmente eu tinha restrições, por achar que acabam por criar um grupo de “excluidos entre os excluidos”, depois fui entender que não se trata de “corrigir erros do passado”, mas sim “corrigir o futuro” e agora eu ja mudei totalmente a minha visão, concordando com o Sandel.

Primeiro o Sandel traz o  caso de uma universidade pública no Texas onde uma candidata não conseguiu ser aceita para determinado curso, apesar de ter um histórico escolar melhor e melhores notas no SAT (o “ENEM” dos EUA) do que alguns outros alunos que entraram através de outros critérios (étnicos, esportivos, etc). Esta aluna entrou com uma ação e a justiça entendeu (como tem entendido para a maioria dos casos parecidos) que, se a regra quanto aos critérios de admissão eram claras antes do inicio do processo, não há do que reclamar. A instituição tem o poder de definir os critérios que bem entender para selecionar seus alunos.

E ai o Sandel diz que, para que os critérios sejam justos, a universidade deve adotar os criterios de seleção que se adequem à sua missão e valores, independente de ser uma instituição particular ou pública. O “justo” neste caso é medido do ponto de vista universidade, e não do candidato/aluno. E foi ai que eu acabei concordando totalmente com ele e mudando de opnião sobre o assunto.

Vou tentar aplicar este pensamento no caso da USP.

Se a missao da USP, por exemplo, é “proporcionar ensino de alta qualidade e gratuito para aqueles que melhor se classificarem no teste de aptidão”, realmente o vestibular, da maneira que é hoje, seria a maneira “justa” de acordo com a missão da instituição. Mas se esta for a missão da USP eu, como contribuinte, sou até a favor do fechamento dela e que os recursos destinado a ela fossem investidos em outras prioridades (como educação básica). Nao faz sentido a sociedade pagar para que alguns poucos afortunados tenham a chance de obter uma qualificação acima da média, sem retorno (ao menos mensurável) para a própria sociedade. Para mim, educação deve ser encarada como investimento por uma nação.

Agora, se entre uma das missoes da USP estiver a “disseminação do conhecimento, afim de proporcionar o bem estar geral da sociedade, promovendo um ambiente diverso e plural…”, acho inclusive que as “cotas” são muito pouco para atingir esta missão e deveriam criar uma forma de reproduzir entre seus quadros a mesma pluralidade existente na sociedade, criando “cotas” de gênero, classe social, etnias e até de orientação sexual, usando como base a distribuição geral de cada um destes grupos na sociedade brasileira.

E ao refletir sobre isto, tambem me ocorreu o seguinte pensamento: será que alguns detratores das cotas raciais existentes hoje, ao aplicarem para cursos em universidades estrangeiras, que valorizam muito a diversidade entre seus quadros, especialmente nos cursos de graduação (mestrado e doutorado), pois entendem que se tiverem apenas alunos com as mesmas caracteristicas (sociais, étnicas, etc) a geração e disseminação de conhecimento fica comprometida, apelam para a sua “latinidade” afim de aumentar as suas chances? No minimo seria incoerente, pra nao dizer hipócrita mesmo.

Be happy 🙂

Wanderlust #34 – Baltimore, Maryland (1/51), Estados Unidos

Inner Harbor

Por motivos óbvios, esta seção comecará a apresentar bastante locais nos EUA (enquanto eu tiver saco pra fazê-la). E pra iniciar esta temporada “americana”, vamos de Baltimore, no estado de Maryland.

Procurando algum lugar perto, pra aproveitar o Thanksgiving, que desse pra ir de New Jersey de carro ou trem, e que não fosse New York (vou falar destes dois estados num futuro proximo, de NY provavelmente em varios posts, como de Berlin) e onde não estivesse tão frio, acabamos por achar Baltimore no mapa enquanto analisávamos a possibilidade de ir pra Washington (próximo post da “coluna”). Ai como daria pra matar dois coelhos com uma cajadada só, resolvemos conhecer a cidade e fazer uma day trip pra Washington (a cerca de uma hora de Baltimore).

Harbor East

Não sei se porque a expectativa era baixa (basicamente nenhuma…hahaha), mas a cidade surpreendeu muito pelo seu charme e atrações.

Fundada em 1729, Baltimore foi durante muito tempo uma das principais cidades da costa leste americana, muito por conta do seu porto (o segundo maior da costa noroeste dos EUA), que atraia muitas manufaturas e industrias. Com o declínio da indústria americana que ocorreu entre as décadas de 70 e 90, a cidade, como algumas outras regiões industriais americanas, viveu um declinio. Porém, com o recente aquecimento no setor de serviços, a cidade vem passando nos últimos anos por um processo de revitalização, que é facilmente notado pela diferença entre a região do Porto, praticamente toda revitalizada, e as áreas suburbanas da cidade.

Baltimore também é conhecida por ter sido um dos principais locais de batalhas da guerra da independência americana, já que, afim de bloquear o comércio internacional, a Inglaterra atacou incessantemente o porto. Por conta disto, também é o berço da canção Star-Spangled Banner, que viria a se tornar o hino nacional americano. Além disto é a casa do Baltimore Orioles, um dos times de baseball mais antigos ainda em atividade, fundado em 1901, e do Baltimore Ravens, que disputa a NFL, principal liga do Futebol Americano.

Inner Harbor

Como de praxe, depois de fazermos o check in no hotel, pegamos um mapa e saimos para dar uma reconhecida no local. Por conta do feriado a cidade estava toda deserta e, enquanto iamos na direção do porto, ja fizemos uma nota mental para irmos tomar umas cervejas mais tarde no Mo’s Seafood, um do poucos (talvez o único) locais aberto, que inclusive tinha uma placa anunciando: “365 dias por ano aberto, inclusive no Natal e no Thanksgiving”.

Nota-se na região portuária que a cidade está passando por um grande processo de revitalização, já quase completo, onde a boa parte dos prédios são novos e alguns poucos foram revitalizados recentemente. Na parte conhecida como “Harbor East” se encontram alguns restaurantes e bares mais chiques, assim como lojas de luxo.

No restante da região portuária existem várias atrações, como museus (o aquário de Baltimore, ao menos por fora, é fantástico, e deve ser por dentro também, inclusive o submarino ancorado ao lado), restaurantes e dois “mini shopping centers”. Mesmo com o frio que fazia, algumas poucas pessoas (turistas) passeavam por ali. À partir das 20:00hrs, a vida foi voltando à cidade e alguns musicos de rua arriscaram a se apresentar.

Mr Trash Wheel – Inner Harbor

Depois do reconhecimento voltamos ao Mo’s para tomar as cervejas (algumas locais), mas enquanto estávamos lá pesquisando as atrações locais na web, descobrimos que o pequeno e aconchegante Brewer’s Cask abriria à partir das 21:00hrs. Pedimos a saideira e fomos até lá, já que serviria para, ao menos, conhecer uma parte mais antiga da cidade (Federal Hill) durante a noite. Grata surpresa: além das 20 torneiras com o melhor da produção cervejeira artesanal dos EUA, o atendimento e muito bom.

Na sexta a programação era ir pra Washington, mas na volta resolvemos dar mais uma volta no porto, onde pudemos passar na enorme Barnes & Nobles montada em uma antiga usina elétrica. Depois disto fomos conhecer a Gordon Biersch, uma cervejaria local que baseia suas receitas especialmente na escola alemã e que fica naquela area chique que já comentei. Quando estávamos voltando para o Hotel depois de sermos “expulsos” da Gordon Biersch (explico abaixo nas observações, dicas e considerações), acabamos topando com a Power Plant, a Disneylândia dos adultos….hahaha

O local, que também fazia parte da mesma usina onde fica a Barnes & Nobles já citada, é um complexo de entretenimento noturno, onde se encontram bares (uns 10), restaurantes e locais para shows. A entrada (gratuita) é única e lá dentro você pode ficar indo de um estabelecimento para outro, como por exemplo, de um simples bar com rock rolando ao fundo, para um restaurante mexicano e depois para um bar country com direito a touro mecânico e tudo. Sensacional!!!!

Inner Harbor

No sábado, resolvemos conhecer as áreas fora da região do porto. Primeiro fomos até o Mount Vernon, onde fica a bela igreja metodista e a biblioteca da universidade John Hopkins, um dos principais centros de pesquisa na área de saúde dos EUA. Ainda andando pela “parte alta” da cidade, passamos pela Basílica de Baltimore, que foi a primeira basílica católica construida nos EUA, país que tem como principal corrente cristã o protestantismo, e não o catolicismo. A cidade foi escolhida pelo Papa da época para abrigar a primeira basílica em solo americano justamente por ser a cidade que tinha a maior população católica nos EUA.

Depois disto resolvemos encarar a caminhada de umas quatro milhas (pra ir, e depois mais quatro pra voltar), até o Fort McHenry, exatamente o local das principais batalhas da guerra da independência e que inspirou a criação do hino nacional americano. Valeu mais pelo caminho do que pelo destino em sí, apesar do local ficar em um parque bem interessante, que além da natureza, também mostra alguns fatos históricos da formação dos Estados Unidos como país.

USCGC Taney – Inner Harbor

Na volta, paramos na região do porto novamente para aproveitar uma festa alemã que estaria acontecendo por ali, tipo uma Oktoberfest em novembro. Tinha umas HB, Gluhwein, algumas Wursts, mas nada demais.

No primeiro dia haviamos passado por um estabelecimento que não haviamos conseguido identificar o que era, mais tarde descobrimos que se tratava do Brew Pub da cervejaria Heavy Seas, cujas cervejas já haviamos experimentado (e gostado) no Mo’s. A Heavy Seas Alehouse fica num imóvel bem grande e rustico, com piso de concreto queimado e mobilia de madeira de construção. Além da próprias cervejas da Heavy Seas, sempre existem cervejas de outras cervejarias locais nas taps e, para minha felicidade, sempre tem uma cask ale disponível. Nota para o crab cake, uma “almondega” de carne de caranguejo, que é uma das comidas típicas de Baltimore.

Gostei bastante da cidade, principalmente porque aparenta ser uma cidade bem descontraida e, além de tudo, é bastante charmosa. Pretendo voltar no verão para aproveitar mais as atividades ao ar livre.

Observações, dicas e considerações:

  • O Thanksgiving é a data onde os EUA literalmente param (não peguei um 4 de Julho ainda): antes das 20:00 horas praticamente todo o comércio estava fechado (incluindo a maioria dos restaurantes) e as ruas estavam desertas. À partir deste horario a vida começou a voltar ao normal, mas mesmo assim, parcialmente.
  • Fiquei impressionado com a quantidade de pessoas em situação de rua na cidade. Uma das maiores que já vi, mesmo comparado a cidades maiores, como Los Angeles ou New York.
  • Ao mesmo tempo, a quantidade de gente ajudando (indo servir comida, levando roupa, conversando com eles, etc) também impressiona, principalmente para quem tem aquela imagem do “americano individualista” (não é o meu caso). O que parece ser uma contradição é justamente a causa: o individualismo do americano faz com que ele se sinta na obrigação de cuidar do seu bairro, da sua cidade, etc. Mas ainda irei escrever um texto somente sobre isto.
  • Ir num restaurante mais requisitado pode ser meio estranho para os brasileiros, que gostam de ficar “fazendo hora” nos locais. O pessoal vai pra comer, tomar um ou dois drinks e ir embora. Então não é nada incomum o garçon já trazer a conta quando você fala que não vai querer sobremesa. Se for um restaurante com alta rotatividade, provavalmente vão apressar até na escolha do prato. A dica para não ser incomodado é ir para o bar (balcão) ao invés de pegar uma mesa.
  • Normalmente os restaurantes tem recepcionistas. Pra pegar uma mesa, tem que falar com eles, mas para ir para o bar, basta ir direto.
  • Estando no bar, não existe esta “pressão” para ir embora logo. Mas também não é comum entre os americanos ficar 3, 4, 8 horas num bar, como os brasileiros fazem. Normalmente eles jantam em um lugar, vão tomar alguns drinks em outro e depois continuam em casa. Ou então fazem o “esquenta” em casa e depois vão até um pub para tomar umas duas ou tres cervejas. O garçon ou barman pode até achar estranho quando você fica muito tempo no bar.
  • Por falar em balcão, aqui na costa leste, diferentemente da costa oeste, geralmente eles abrem a conta automaticamente e vao te cobrar no final. Mas se por acaso o bar não tiver esta prática, basta fazer como costuma-se na costa oeste e pedir para abrir uma conta (deixando o cartão de crédito com o barman): “may I open a tab?”.

Be happy 🙂

The Baltimore Basilica

Mount Vernon Place – United Methodist Church

Power Plant

Power Plant